Artigo na Science denuncia aumento de hostilidades a cientistas brasileiros pelo governo Bolsonaro

Um ambiente hostil.’ Cientistas brasileiros enfrentam crescentes ataques do regime de Bolsonaro

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O presidente brasileiro Jair Bolsonaro (ao centro), cumprimentando seus apoiadores sem usar máscara, tem uma relação gelada com a comunidade científica do país. ALAN SANTOS / PR

Por Herton Escobar para a Science

Na semana passada, cientistas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), principal agência brasileira para estudar e administrar as vastas áreas protegidas do país, tiveram que começar a obedecer a uma nova regra indesejável. Dá a um dos principais funcionários do ICMBio a autoridade para revisar todos os “manuscritos, textos e compilações científicas” antes de serem publicados.

Os pesquisadores temem que o governo do presidente Jair Bolsonaro, que tem uma relação marcadamente hostil com a comunidade científica brasileira, use as análises para censurar estudos que conflitam com seus esforços contínuos para enfraquecer as proteções ambientais. O governo diz que essa não é a intenção. Mas a mudança se soma aos desenvolvimentos recentes que abalaram muitos cientistas brasileiros e deixaram aqueles que criticam as políticas do Bolsonaro temendo por seus empregos e até mesmo por sua segurança física.

“A ciência está sendo atacada em várias frentes”, diz Philip Fearnside, ecologista veterano do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). “Há negação da pandemia, negação das mudanças climáticas, negação do desmatamento; para não mencionar os cortes no orçamento. ”

As queixas de Bolsonaro com cientistas remontam ao início de seu governo em 2019. Em seguida, acusou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais de “mentir” sobre dados de satélite que mostravam o aumento do desmatamento na Amazônia e demitiu seu diretor, o físico Ricardo Galvão, após defender os números. Desde então, Bolsonaro tem entrado em confronto com pesquisadores por questões que incluem sua rejeição persistente de estratégias baseadas na ciência para combater a pandemia COVID-19, que matou pelo menos 330.000 brasileiros. Mas o relacionamento parece ter entrado em uma fase ainda mais tensa nos últimos meses.

Um exemplo veio em fevereiro, quando a principal agência anticorrupção do Brasil, a Controladoria-Geral da União, informou ao epidemiologista Pedro Hallal, ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas, que ele poderia perder o emprego por causa das críticas que fez ao Bolsonaro em janeiro durante um evento online. Hallal, que coordena o maior projeto de pesquisa em epidemiologia COVID-19 do Brasil, chamou o Bolsonaro de “desprezível”, citando a retórica antivacinação do presidente e sua interferência política na seleção dos reitores das universidades.

Poucas semanas antes, o Ministério da Educação de Bolsonaro ordenou aos reitores de todas as 69 universidades federais, que empregam a maioria dos cientistas brasileiros, que “previnam e punam atos político-partidários” de funcionários. Depois de protestos, o ministério retirou a ordem no mês passado e Hallal finalmente chegou a um acordo com o escritório do controlador, prometendo não “promover a expressão de apreço ou desaprovação no local de trabalho” por 2 anos.

Hallal permanece desafiador. “Se a ideia era me silenciar, tenho que dizer que saiu pela culatra”, diz ele. “Isso está me motivando a ser ainda mais crítico e dizer o que precisa ser dito.” Mas ele teme que o clima político esteja silenciando alguns de seus colegas. “Muitas pessoas estão dizendo menos do que gostariam, por medo de retaliação”.

Os cientistas também estão reconsiderando o que estudam e publicam, diz Marcus Lacerda, especialista em doenças infecciosas da Fundação Oswaldo Cruz. No ano passado, ele enfrentou intensas investigações do Ministério Público Federal – e recebeu ameaças de morte – depois de publicar um trabalho destacando os riscos à saúde de se administrar a droga cloroquina a pacientes com COVID-19 . (Bolsonaro promoveu fortemente a cloroquina, apesar dos estudos concluírem que ela é ineficaz contra o COVID-19.) “Muitas pessoas têm medo de publicar depois do que aconteceu comigo”, diz Lacerda. Colegas abandonaram a pesquisa do coronavírus, acrescenta ele, para evitar o assédio online pelo que é conhecido como “milícia digital” de Bolsonaro.

Em um caso, o assédio online parece ter escalado para um ataque físico. Depois que o biólogo Lucas Ferrante, candidato a doutorado do INPA, publicou artigos em periódicos de destaque (incluindo  Science ) criticando as políticas ambientais e de saúde de Bolsonaro, suas contas de celular e redes sociais se iluminaram com mensagens ameaçadoras. Então, em novembro de 2020, ele diz que foi atacado por um homem que dirigia o que ele pensava ser um veículo Uber que ele havia saudado; o homem disse a Ferrante que ele “precisava calar a boca” e deu um soco nele. Desde então, Ferrante diz que tem medo de sair de casa e leva um celular que não tem ligação com seu nome.

Nesta semana, um grupo de pesquisadores brasileiros citou preocupações com a segurança ao explicar por que eles não assinaram seus nomes em  um white paper,  publicado pela Climate Social Science Network da Brown University, que descreve os esforços de Bolsonaro para desmantelar as proteções ambientais. Eles decidiram permanecer anônimos “por razões de segurança e considerando o atual cenário político no Brasil”, escreveram.

No ICMBio, a nova regra de supervisão dá autoridade de revisão ao diretor de pesquisa em biodiversidade do instituto, um dos quatro diretores do ICMBio que atuam sob o presidente do instituto. Em um comunicado, funcionários do instituto retrataram a ordem simplesmente como uma mudança burocrática, observando que o presidente do ICMBio anteriormente tinha autoridade de revisão. “Não há censura”, afirma. Mas os pesquisadores observam que nenhum dos principais funcionários do ICMBio é um cientista treinado para conduzir revisões técnicas; todos são ex-policiais militares ou bombeiros.

Uma regra semelhante foi emitida no mês passado no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada do Brasil, uma importante instituição federal de pesquisa.

Os cientistas brasileiros também enfrentam uma crise de financiamento cada vez mais profunda. Os gastos do governo em pesquisa diminuíram em mais de 70% desde o pico de 2014, e o governo Bolsonaro cortou recentemente 34% do orçamento de investimento do ministério da ciência para este ano. A principal agência de financiamento federal do país, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, deve ter menos de US $ 4 milhões disponíveis para bolsas de pesquisa este ano.

Os problemas de financiamento e os conflitos constantes estão desgastando os pesquisadores brasileiros, diz Mercedes Bustamante, ecologista da Universidade de Brasília e cofundadora da Coalizão Ciência e Sociedade, grupo criado em 2019 para promover políticas baseadas na ciência. “Estou tão cansada de ter que me defender o tempo todo”, diz ela. “Enquanto isso, todas as questões importantes que realmente deveríamos enfrentar estão sendo deixadas para trás.”

A maioria dos cientistas brasileiros “não está acostumada a funcionar em ambientes hostis”, acrescenta Atila Iamarino, microbiologista e proeminente comunicador científico. “Eles são treinados para argumentar contra os fatos, mas isso não é o que mais importa nessas situações.”

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Science [Aqui!].

Com 900 mortos pela COVID-19, necrocomerciantes pressionam pela reabertura do comércio em Campos dos Goytacazes

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Em meio ao recrudescimento dos casos de COVID-19,  a Prefeitura de Campos dos Goytacazes e o Ministério Público Estadual agiram para adotar formas mínimas de restrição da circulação de pessoas na cidade, especialmente na região do centro histórico. Essas medidas, ainda que tímidas em função do aprofundamento do colapso hospitalar, resultou na ida às ruas de representantes de sindicatos e associações patronais da área do comércio que pressionam pelo fim imediato desse esforço tímido de contenção da pandemia.

Essa ação dos que eu caracterizo de “necrocomerciantes” (em homanagem ao filosófo camaronês Achilles Mbembe que cunho o termo “necropolítica”) reflete as mesmas ações emanadas de dentro do governo Bolsonaro que procuram intimidar governadores e prefeitos que tentam ensejar medidas que visam conter a expansão da pandemia e, portanto, do número de mortos.

Para justificar sua aliança com o Sars-Cov-2, os representantes desse setor exibem números de empregos que deverão ser destruídos caso as ações restritivas não sejam suspensas. Como sempre os números relativos a empregos são fabulosos e grandiloquentes, mas dificilmente expressam a verdade. É que todos sabemos que a crise do comércio campista, especialmente no seu centro histórico, é algo que antecede a pandemia da COVID-19, e que, frise-se, não se encerrará quando o Sars-Cov-2 finalmente for domado.

Quem conhece minimamente a situação do comércio local sabe que a concorrência de grandes empresas de atacado que chegaram ao município nos últimos anos, e o comércio via sites da internet estão na raiz da crise agônica que o comércio local enfrenta. Desta forma, a insistência em permanecer abertos em meio ao colapso hospitalar em curso na cidade de Campos dos Goytacazes é mais ideológica do que lógica, visto que as lojas reabertas continuarão literalmente às moscas, pois quem ainda pode comprar alguma coisa vai sempre usar formas que minimizem a exposição ao um vírus que está se mostrando cada vez mais letal.

O prefeito Wladimir Garotinho precisa lembrar que a imensa maioria dos votos que o elegeram não vieram dos necrocomerciantes, mas sim daqueles que compõe a maioria dos infectados e dos mortos. São os segmentos mais pobres não apenas que garantiram a eleição de Wladimir, mas também aqueles que estão passando por enormes dificuldades financeiras e sofrendo o maior peso da pandemia. Assim, até para ser justo com seus eleitores, o prefeito deveria se ocupar mais da execução de medidas que ampliem a cobertura social aos mais pobres e se concentrar nos esforços para acelerar o processo de vacinação contra a COVID-19. Simples assim!

A resposta catastrófica do Brasil à COVID-19 pode representar um crime contra a Humanidade

Os casos de COVID-19 estão aumentando no Brasil, à medida que a variante P1 mais transmissível se espalha pelo país.

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Por Deisy Ventura, Fernando Aith e Rossana Reis para o British Medicine Journal

No Brasil, a abordagem do governo federal para a pandemia da COVID-19 tem sido tentar obter imunidade coletiva por meio do contágio. Até agora, isso resultou na morte evitável de centenas de milhares de cidadãos. Em 5 de março, publicamos um artigo explicando a estratégia para permitir a disseminação da COVID-19, liderado por Jair Bolsonaro, o próprio presidente brasileiro. [1] Desde então, como esperado, o Brasil mergulhou em uma catástrofe de saúde sem precedentes.

Na semana passada, quase um terço de todas as mortes diárias de COVID-19 no mundo ocorreram no Brasil, embora o Brasil represente apenas 2,7% da população mundial. Em 2 de abril, ocorreram 12,8 milhões de casos e mais de 325 mil mortes. Na semana de 21 a 27 de março, houve um aumento diário de 0,8% nos casos e 1,9% nas mortes; a letalidade aumentou de 2% para 3,3% desde o final de 2020 . [2] As novas variantes que circulam no Brasil têm se tornado um sério motivo de preocupação para os países vizinhos . [3]

A catástrofe poderia ser muito pior se não houvesse um Sistema Único de Saúde (SUS), com cobertura universal. No entanto, o sistema atingiu o ponto de colapso.

Em 29 de março de 2021, 17 dos 27 estados federais alcançaram taxas de ocupação de leitos de UTI para adultos de 90% ou mais; das 27 capitais, 21 apresentavam as mesmas taxas, sendo que sete delas haviam atingido sua capacidade total ou estavam trabalhando acima dela . [4] Na maioria dos pontos de atendimento, o número de leitos disponíveis, embora insuficiente, resulta de expansões sucessivas devido à alta demanda. Apesar desses esforços, até 25 de março, 6.371 pessoas aguardavam um leito de UTI . [5] Em março, 496 pessoas perderam a vida enquanto aguardavam na lista de espera para UTI somente no estado de São Paulo. [6]

Os estoques de medicamentos usados ​​para a intubação do paciente estão quase esgotados . [7] A escassez de oxigênio, a partir de janeiro no estado do Amazonas, afetou várias outras cidades e ameaça o resto do país.  

O colapso do sistema de saúde está resultando em taxas de mortalidade mais altas, tanto por COVID-19 quanto por outras doenças, inclusive devido à falta de atendimento disponível. Em 2020, as taxas de mortalidade hospitalar já eram altas: 59% entre os pacientes da UTI e 80% entre os que necessitaram de suporte ventilatório mecânico . Em 2020, 9.311 brasileiros morreram sem ajuda em casa desde o covid-19 . [8,9]

Nesse contexto, quase todos os estados que compõe a federação brasileira adotaram medidas restritivas para conter a circulação da COVID-19. Eles enfrentaram forte oposição do governo federal.

Bolsonaro já entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal contra três governadores, que haviam suspendido temporariamente as atividades comerciais . [10] O caso foi arquivado por inconsistências jurídicas básicas. Ele ainda mantém uma falsa oposição entre economia e saúde e afirma que medidas de bloqueio causariam fome, desemprego e caos social.

A fome, no entanto, é resultado da negligência do próprio governo federal. O apoio financeiro oferecido a famílias de baixa renda, permitindo-lhes ficar em casa durante a pandemia, cessou em dezembro de 2020, obrigando milhões a retomar o trabalho. Um novo programa de ajuda foi anunciado, mas reduzido de 600 para 150 reais (19,25 libras) e, no auge da pandemia, ainda não foi implementado. O auxílio financeiro às pequenas e médias empresas é escasso, o que tem levado alguns de seus proprietários a se oporem ao fechamento temporário de negócios. Funcionários foram incitados a participar de manifestações de rua contra governadores e prefeitos que adotam quarentenas, muitas vezes sem máscaras.

Bolsonaro continua realizando reuniões públicas, promovendo a negação científica e defendendo o uso precoce de drogas ineficazes contra a COVID-19. O chamado “kit Covid”, promovido pelo governo federal, inclui hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e anticoagulantes e pode causar hemorragia, insuficiência renal e arritmias. Em São Paulo, pelo menos cinco pacientes que receberam o “tratamento precoce” entraram na fila de transplante de fígado e três morreram de hepatite . [11

Em 23 de março de 2021, um novo ministro da saúde assumiu o cargo. O general Eduardo Pazzuelo, que deixou o cargo, foi acusado de diversos crimes de acordo com o código penal brasileiro, entre os quais a violação de medidas preventivas de saúde e desvio de dinheiro público. [12] O novo ministro da saúde, Marcelo Queiroga, médico, prometeu providenciar a vacinação contra a COVID-19. A implantação da vacinação segue lenta, enquanto os presidentes da Câmara Baixa e do Senado defendem a obtenção de vacinas pela iniciativa privada para inocular proprietários de empresas, seus familiares e funcionários . [13] Isso poderia prejudicar a eficiência do plano nacional de imunização ao subverter a ordem de prioridade e aumentar as desigualdades e divisões na saúde. Bolsonaro, que se opôs a vacinação, há meses, começou a apoiá-la, devido à adesão geral do público à campanha montada pelos governos locais e à escalada da crise covid-19.  

A resposta à pandemia entre os militares seguiu com mais rigor as recomendações da OMS, como o uso de máscaras e o distanciamento físico, conforme descrito pelo atual Comandante do Exército, General Paulo Sérgio, em entrevista recente . [14]

No final de março, uma suposta tentativa de “autogolpe” de Bolsonaro fracassou contra a resistência das Forças Armadas , que se opunham à intenção do presidente de intervir militarmente nos estados que adotassem medidas de quarentena. [15] No entanto, o presidente ainda se envolve em uma guerra total contra governadores e prefeitos, a quem rotula como “ditadores” que violam os direitos dos cidadãos e prejudicam a economia . [16]

Em nossa opinião, a postura do governo federal pode constituir um crime contra a humanidade. Segundo a jurisprudência penal internacional, o uso massivo e sistemático de pressões para induzir o público a se comportar de determinada maneira, segundo um plano pré-concebido, que emprega consideráveis ​​meios públicos e privados, pode constituir um atentado à população civil. 

O fato é que, se a decisão de tentar obter imunidade coletiva contra a COVID-19, permitindo que o contágio se espalhe sem controle, permanecer impune, é provável que se torne um meio extraordinário para futuros governantes prejudicarem populações vulneráveis ​​por meio do negligenciamento de medidas de saúde pública. 

Deisy Ventura , Professora, Diretora do Programa de Doutorado em Saúde Global e Sustentabilidade da Escola de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, Brasil

Fernando Aith , Professor, Diretor do Centro de Pesquisas em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo

Rossana Reis , Professora Associada do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

Conflito de interesses : nenhum declarado.

Referências :

1] https : // blogs . bmj . com / BMJ / 2021 / 03 / 05 / covid – 19 – em – Brasil – a – governo – tem – falhou – a – evitar – a – propagação – de – covid – 19 /
2]https : // portal . fiocruz .br / sites / portal . fiocruz . br / files / documentos / boletim _ extraordinario _ 2021 – marco – 30 – red . pdf
3] https : // internacional . estadao . com . br / noticias / geral , descontrole – da – pandemia – não – brasil -assusta – america – do – sul , 70003654733
4] https : // portal . fiocruz . br / sites / portal . fiocruz . br / files / documentos / boletim _ extraordinario _ 2021 – marco – 30 – red . pdf
5] https : // www . cnnbrasil . com .br / saude / 2021 / 03 / 26 de / Brasil – MET – Mais – de – 6300 – PESSOAS – nd – fila – POR – leitos – de – uti
6] https : // g1 . globo . com / sp / sao – paulo / noticia / 2021 / 04 / 01/ quase – 500 – pessoas – com – covid – 19 – morreram – a – espera – de – um – leito – de – uti – em – marco – no – estado – de – sp . ghtml
7] https : // saude . ig . com . br / 2021 -03 – 25 / estoque – de – medicamentos – para – intubação – da – rede – privada – deve – acabar – em – 4 – dias . html
8] https : // www . thelancet . com / journals / lanres / article / PIIS2213 – 2600 ( 20 ) 30560- 9 / texto completo
9] http : // www . arpenbrasil . org . br / sala _ imprensa _ materia . php ? id = 9
10] https : // www . cnnbrasil . com . br / politica / 2021 / 03 / 19 de / Bolsonaro – Entra – com – acao – não- stf – contra – restricoes – de – governadores – do – df – ba – e – rs
11] https : // saude . estadao . com . br / noticias / geral , apos – uso – de – kit – covid – pacientes – vao – para – fila – de- transplante – ao – menos – 3 – morrem , 70003656961
12] https : // www . cartacapital . com . br / justica / oab – pede – a – pgr – que – pazuello – responda – por – crimes – contra – a – saude – e – prevaricacao /
13] https : // www . nexojornal . com . br / expresso / 2021 / 04 / 01 / Como – investidas – para – permitir – um – Vacina % C3 % A7 % C3 % A3o – Privada – nenhum – Brasil
14] https : // www . correiobraziliense . com .br / politica / 2021 / 03 / 4914583 – geral – paulo – sergio – Diz – Que – exercito – ja – espera – 3 – onda – da – covid . html
15] https : // www . theguardian . com / mundo / 2021 / mar / 30 / brasil -militares – chefes – renúncia – bolsonaro – incêndios – defesa – ministro
16] https : // noticias . uol . com . br / saude / ultimas – noticias / Redação / 2021 / 03 / 18 / Bolsonaro – Diz – Que – Entrou – com – acao – nenhum – stf- contra – decretos – de – governadores . htm

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo British Medicine Journal [Aqui!].

JBS estende imunidade aos desmatadores para alimentar sua cadeia de suprimentos até pelo menos 2035 em um ‘compromisso global’ surreal

“Seu novo anúncio não poderia deixar mais claro: a JBS continuará a fomentar o desmatamento na Amazônia por pelo menos mais 14 anos, e alimentará a crise climática bem depois disso.”

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Por Katie Nelson para o Greenpeace

Londres, Inglaterra –  Em resposta ao anúncio da JBS de planejar enfrentar o desmatamento ilegal até 2030, eliminar o desmatamento até 2035 e atingir emissões líquidas zero até 2040, Daniela Montalto, ativista florestal e alimentar do Greenpeace no Reino Unido, disse:

“Por suas margens de lucro, a JBS continua sacrificando o clima, a biodiversidade e o cumprimento da legislação. Seu novo anúncio não poderia deixar mais claro: a JBS continuará a fomentar o desmatamento na Amazônia e além por pelo menos mais 14 anos, e alimentará a crise climática bem depois disso. Neste ponto, as instituições financeiras e compradores que continuam a negociar ou investir na JBS estarão zombando de quaisquer compromissos de sustentabilidade. Além do mais, eles serão conscientemente cúmplices em alimentar a catástrofe ambiental que ameaça nosso planeta. ”

A declaração da empresa não se compromete a atacar a fonte fundamental de sua pegada de carbono – a produção de carne. O anúncio é um grande retrocesso em relação à promessa feita originalmente em 2009 de entregar desmatamento zero em toda a base de abastecimento da Amazônia até 2011, demonstrada por total transparência. O anúncio atual aborda apenas o desmatamento ilegal no Brasil até 2030, e qualquer desmatamento não antes de 2035. A proibição do uso deliberado do fogo, legal ou não, não é mencionada.

Mesmo em meio ao caos e turbulência econômica causados ​​pela pandemia global COVID-19, e como a agenda anti-ambiental do presidente Bolsonaro continua a causar estragos na Amazônia, [2] as exportações de carne bovina do Brasil estabeleceram um novo recorde histórico em 2020 .

No início deste mês, o Greenpeace International publicou uma investigação expondo o maior processador de carne do mundo JBS e seus principais concorrentes Marfrig e Minerva abatidos bovinos comprados de fazendeiros ligados aos incêndios de 2020que destruíram um terço do maior pântano interior do mundo na região do Pantanal. 

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“Com a estação seca de 2021 e provavelmente uma nova crise de incêndios se aproximando rapidamente, a JBS está quase distribuindo os fósforos. Ao continuar lucrando com a destruição, está efetivamente prejudicando os esforços globais para impedir o colapso da Amazônia e de outros biomas. O setor industrial de carne bovina é um passivo. Países importadores, financistas e compradores de carne como McDonald’s, Burger King ou os grupos franceses Carrefour e Casino devem acabar com sua cumplicidade nesta catástrofe que se desenrola. Fechar o mercado para destruidores de florestas não é suficiente – é hora de eliminar a carne industrial ”, disse Montalto.

Governos, finanças e empresas de consumo devem mudar de carnes industriais e fechar mercados para empresas que contribuem para a destruição de florestas e ecossistemas e a transição para um sistema alimentar que não seja uma força motriz de desmatamento, mudança climática e risco futuro de pandemia.

Notas:

[1] Declaração JBS completa: https://www.3blmedia.com/News/JBS-Makes-Global-Commitment-Achieve-Net-Zero-Greenhouse-Gas-Emissions-2040

[2] O chamado ‘pacote de destruição’ atualmente em pauta no Congresso Nacional Brasileiro e ordenado pelo gabinete do presidente Bolsonaro, é composto por propostas legislativas sobre os seguintes temas: mineração em terras indígenas (Projeto de Lei nº 191/2020, proposto pela Câmara dos Representantes); licenciamento ambiental (Projeto de Lei nº 3.729 / 2004 e aditivos, em tramitação na Câmara dos Deputados, e Projeto de Lei do Senado nº 168/2018); e regularização fundiária (Projeto de Lei nº 2.633 / 2020 da Câmara dos Deputados e Projeto de Lei nº 510/2021 do Senado Federal). A sociedade civil brasileira assinou carta contrária às iniciativas. A carta publicada em março de 2021 está disponível aqui: https://www.greenpeace.org.br/hubfs/carta_Nao_Ao_Atropelo_do_Processo_Legislativo_ingles.pdf

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo Greenpeace [Aqui!].

Pesquisa paulista explica como a produtividade de cana varia no mesmo tipo de solo

Estudo do IAC mostram as interferências das condições climáticas no resultado toneladas por hectare

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São muitas as tecnologias que fazem do Brasil o maior produtor de cana-de-açúcar e de etanol do mundo, competência recentemente ressaltada no cenário em que a Índia anunciou o uso do etanol puro nos postos de combustíveis daquele país. Para alcançar os três dígitos de produtividade, o pacote tecnológico gerado pela pesquisa brasileira é complexo e cada fator determina índices para cima ou para baixo. Conhecer os diversos componentes que definem os números da produção é essencial para desperdiçar energia e recursos. No universo dos ambientes da canavicultura, destaca-se o fato de exatamente o mesmo tipo de solo se enquadrar em ambiente de produção diferente, desde que as condições climáticas sejam também diversas. Assim, lavouras instaladas em um mesmo tipo de solo, porém com condições de temperaturas e disponibilidade hídrica diversas, terão produtividades variadas. Pesquisas do Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, mostram que é importante conhecer a produtividade do ambiente de produção para saber qual é o ponto de partida, isto é, o mínimo que é possível produzir em determinada localidade.

“Por exemplo: o Nitossolo eutrófico, textura argilosa, enquadra-se no ambiente A1, onde a produtividade média é de cinco cortes é de 100 toneladas por hectare, no manejo convencional e na colheita do meio de safra”, explica o pesquisador do Instituto Agronômico (IAC), Hélio do Prado.

Esse mesmo solo, em Goianésia, Goiás, onde ocorre seca durante cinco meses seguidos, o ambiente de produção muda para o chamado C1, com produtividade média de cinco cortes de 84 a 87 toneladas por hectare, também no manejo convencional e na colheita do meio de safra. “A maior deficiência hídrica em Goiás é responsável pela menor produtividade”, resume.

Outro exemplo que comprova esse fenômeno: o Latossolo com teor de argila relativamente baixo atinge cinco cortes de cana no estado de São Paulo. Porém, o mesmo solo na Paraíba atinge apenas dois cortes. “No terceiro corte nem compensa insistir porque nada produz”, garante o pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA).
Segundo Prado, se o ambiente for restritivo, a produtividade é tão baixa que, para alcançar produtividade a partir de 100 toneladas, por hectare, será preciso muito investimento. “No entanto, se o ambiente de partida for favorável, com pouco recurso já é possível atingir os três dígitos”, diz.

No estado de São Paulo existem locais com clima muito diferentes. Considerando as regiões paulistas canavieiras de Assis e Ribeirão Preto, na primeira a distribuição da chuva é bem melhor do que na segunda. Nessas condições, são diferentes as interações entre solo e clima.

“A região de Piracicaba possui área representativa com solo originado da rocha folhelho, muito pobre em cálcio, elemento que estimula o crescimento radicular. Além disso, esse solo é naturalmente muito duro, o que dificulta a exploração radicular em profundidade”, explica.

Por esse motivo, os ambientes de produção paulistas mais restritivos estão em Piracicaba, exceto nos locais geograficamente direcionados para Campinas e para Rio Claro, que correspondem a 25% da região, no máximo.

O pesquisador relata que em suas pesquisas já encontrou o solo mais rico do mundo, chamado Vertissolo, em Juazeiro, na Bahia. Lá, a cana-de-açúcar com manejo de irrigação por gotejamento atinge quase 200 toneladas, por hectare. “Na nova edição do meu livro Pedologiafacil – Aplicações em Solos Tropicais mostrarei as produtividades de 17 cortes, normalmente o que existem são cinco a dez cortes, no máximo”, diz. A nova edição estará disponível em julho de 2021, nas versões online e impressa.

Em Goiás, na usina Jalles Machado, onde o solo é tipo Latossolo acrico, tem-se produtividade média de cinco cortes de 68 a 71 toneladas, por hectare, na colheita de meio de safra. Este mesmo solo, na usina Santa Juliana, em Minas Gerais, tem produtividade média de cinco cortes de 84 a 87 toneladas, por hectare, também com colheita no meio de safra.
Prado explica que isso ocorre porque na Jalles Machado a altitude é de 780m, já na Santa Juliana é de 1.100m. De novo é o clima mudando um ambiente de produção. “Em Goianésia, na usina Jalles Machado esse solo enquadra-se no ambiente E2, mas na Santa Juliana enquadra-se no ambiente C1, ambas no manejo convencional, com colheita no meio de safra”, complementa.

O pesquisador classificou os ambientes por letras: G2, G1, F2, F1, E2, E1, D2, D1, C2, C1, B2, B1, A2, A1, A+1, A+2, A+4 , A+5. São muito favoráveis os ambientes A+1, A+2, A+3, A+4, A+5; favoráveis A1, A2, B1, B2; médios C1, C2, D1; desfavoráveis D2, E1, E2, muito desfavoráveis os ambientes F1, F2, G1 e G2.

No G2 a produtividade média é inferior a 52 toneladas, por hectare, no A+4 é próxima de 200 toneladas, por hectare. “Um solo muito rico pode ser ambiente G2, isto é, muito desfavorável, se a deficiência hídrica for extrema, tal como em Juazeiro, na Bahia, onde não chove durante oito meses do ano”, explica.

No México, Peru e Guatemala existem locais com deficiência hídrica muito grande. Essa condição torna seus ambientes muito mais restritivos, de acordo com Prado, que palestrou sobre Produção de cana-de-açúcar no Brasil e países da América Latina e Central, 2° Fórum Latino-Americano do Agronegócio, evento online e gratuito, em 25 de março de 2021.

Variedades exigentes devem ser alocadas nos melhores ambientes. As menos exigentes, nos ambientes mais restritivos

O Programa Cana IAC estabeleceu ao longo dos últimos 20 anos uma grande rede experimental, apoiado principalmente por empresas do setor sucroenergético da região Centro-Sul: São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Essa ação permitiu identificar variedades IAC com excelente adaptação e performance em outros estados. É o caso da IAC91-1099, muito adaptada a Goiás e a outros estados do Centro-Oeste brasileiro. Destaca-se também a IACSP95-5094 com grandes performances no Paraná, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. “Nesta network estamos tendo oportunidade de identificar variedades de excepcional desempenho para nichos específicos”, resume o líder do Programa Cana IAC, Marcos Guimarães de Andrade Landell.

Assim acontece com as variedades que estão em processo de lançamento: a IACCTC05-9561, muito adaptada a Goiás, e a IACSP04-6007, desenvolvida inicialmente na região de Assis e que se encontra em franca expansão nos estados do Paraná e Mato Grosso do Sul.

“O desenvolvimento de micro redes regionais, em nichos extremos, como é o caso do “site” de seleção que temos há 20 anos no norte de Goiás, em Goianésia, nos permitiu, identificar genótipos de acentuada tolerância à seca, como a IACCTC07-8008″, explica Landell. As informações geradas nessa localidade possibilitam prever quais as variedades apresentam maior tolerância ao estresse hídrico. Dessa forma é possível indicá-las para outras regiões do Brasil. “O uso dessas variedades poderia contribuir para a sustentabilidade econômica e ambiental da atividade”, afirma.

Como funciona a metodologia IAC em relação aos ambientes de produção
Segundo o pesquisador do IAC, Hélio do Prado, o ponto de partida de produção da cana-de-açúcar é o ambiente de produção nas condições naturais da interação solo e clima, considerando o manejo convencional. O ponto de chegada é ter manejo avançado, com adoção das tecnologias geradas pelo Instituto Agronômico, como Terceiro Eixo, irrigação, efeitos da vinhaça e da torta, adubação foliar, além de resíduos nutricionais deixados pela cultura anterior, que pode ser soja ou frutíferas.

O cientista desenvolveu a metodologia para classificar os ambientes de produção de cana-de-açúcar atribuindo-lhes letras, que os classificam conforme a condição favorável ou desfavorável de produção. Até 2006, o método contava com cinco letras: A, B, C, D e E, em que era feito o enquadramento de cinco tipos de solos em cinco ambientes. “Notei que precisava aumentar a quantidade de letras porque uma grande usina possui 20 a 30 tipos de solos, ficando impossível enquadrá-los em só cinco letras”, comenta.

Assim surgiu a classificação A1, A2, B1, B2, C1, C2, D1, D2, E1, E2, F1, F2, G1 e G2, que reúnem os possíveis ambientes no manejo convencional. Para atingir ambientes A+1, A+2, A+3, A+4, A+5 é preciso fazer algumas combinações de manejos avançados e saber qual é o ambiente no ponto de partida, ou seja, nas condições de manejo convencional no clima local.

Em resumo: no manejo convencional é possível atingir baixas produtividades, podendo ser desde G2, se for solo pedregoso, e também alcançar altas produtividades, chegando ao topo ao atingir A1, no melhor solo, na região mais chuvosa, como no Paraná.

O pesquisador relata exemplos de ambientes que se deslocaram do ponto de partida, no manejo convencional, para ambientes mais favoráveis no manejo avançado, como ocorreu em Taquaritinga, interior paulista, com Argissolo eutrófico, que representa o ambiente A1. “Porém, esta mesma região deslocou-se para o ambiente A+2 pelos benefícios proporcionados pela tecnologia do Terceiro Eixo e pela adubação foliar”, comenta.

Na usina Agrovale, em Juazeiro, na Bahia, com Vertissolo no ambiente G2, no manejo convencional, houve mudança para o ambiente A+1 pelo efeito da irrigação por gotejamento, mais vinhaça e compostagem. A Agrovale é a única no mundo que irriga 17 mil hectares ao mesmo tempo, segundo Prado. Os dados sobre as produtividades obtidas nessa área estarão na nova edição do livro de autoria do pesquisador do IAC.

Na região Centro-Sul a produtividade aumenta, pois chove mais e os solos são melhores. “O melhor solo no manejo convencional, na região do Paraná atinge o ambiente A1, o recordista sem o citado manejo avançado”, diz o pesquisador. As produtividades mencionadas referem-se às obtidas na colheita no meio de safra, no manejo convencional.

A nova classificação de ambientes de produção tornou possível usar a mesma referência para todo Brasil. “Desde a região Nordeste, onde a produtividade histórica, na média de cinco cortes, é de 60 toneladas, por hectare, no citado manejo convencional, ambiente F1, até o ambiente A1, com produtividade média de 5 cortes, no melhor solo do Paraná”, complementa. Esses dados foram reunidos em uma única régua, em que é possível consultar todas essas informações.

Editorial do “The Guardian” afirma que Jair Bolsonaro é uma ameaça para o Brasil e para o mundo

O presidente de extrema direita do Brasil deu rédeas soltas à COVID-19 e à destruição da Amazônia. Agora parece que ele planeja se apegar a tudo o que os eleitores disserem

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“É possível que, inspirado por Donald Trump, o Sr. Bolsonaro pense em se agarrar ao poder pelo uso da força? Não. É provável. ‘ Fotografia: Joédson Alves / EPA

Editorial do “The Guardian”

A perspectiva de o extremista de direita Jair Bolsonaro se tornar presidente do Brasil sempre foi assustadora . Era um homem com histórico de denegrir mulheres, gays e minorias, que elogiava o autoritarismo e a tortura. O pesadelo se revelou ainda pior na realidade. Ele não apenas usou uma lei de segurança nacional da época da ditadura para perseguir os críticos e supervisionou o maior aumento do desmatamento na Amazônia em 12 anos , mas também permitiu que o coronavírus se alastrasse sem controle, atacando as restrições de movimento, máscaras e vacinas. Mais de 60.000 brasileiros morreram apenas em março. “Bolsonaro conseguiu transformar o Brasil em um gigantesco buraco do inferno”, tuitou o ex-presidente da Colômbia, Ernesto Samper. recentemente. A disseminação da variante P1 mais contagiosa está colocando em perigo outros países .

Com uma pesquisa na semana passada mostrando 59% dos eleitores o rejeitando , Bolsonaro parece estar se preparando para um resultado desfavorável nas eleições do próximo ano. Na semana passada, ele demitiu o ministro da Defesa , um general aposentado e amigo de longa data que, no entanto, parece ter criticado as tentativas de Bolsonaro de usar as forças armadas como ferramenta política pessoal. Os comandantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea também foram demitidos – supostamente quando estavam prestes a renunciar.

O gatilho imediato para as demissões foi o retorno bombástico do ex-presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva, no mês passado, depois que um juiz anulou suas condenações criminais – abrindo a porta para ele concorrer novamente no ano que vem. Os ataques injuriosos de Lula ao presidente são amplamente vistos como o prenúncio de uma nova candidatura ao poder de um político carismático que continua muito popular em alguns setores.

É possível que, inspirado por Donald Trump, o Sr. Bolsonaro pense em se agarrar ao poder pelo uso da força? Não. É provável. As Forças Armadas já anularam a vontade do povo: o Brasil foi uma ditadura militar de 1964 a 1985. Quando a multidão invadiu o Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro, seu filho se opôs não ao ataque, mas à ineficiência: “Foi um movimento desorganizado . É uma pena ”, disse Eduardo Bolsonaro . “Se eles tivessem sido organizados, os invasores teriam se apoderado do Capitólio e feito demandas pré-estabelecidas. Eles teriam poder de fogo suficiente para garantir que nenhum deles morresse e para poder matar todos os policiais ou os congressistas que eles tanto desprezam ”.

Embora a saída dos chefes das forças armadas possa sugerir resistência a um plano de golpe, também permite ao presidente instalar aqueles que ele julga mais obedientes; os oficiais mais jovens sempre foram mais entusiasmados com Bolsonaro. Os políticos da oposição pressionam pelo impeachment , com um aviso: “Há uma tentativa aqui do presidente de organizar um golpe – e isto já está em andamento”.

Existe algum motivo para esperança. Ataques violentos do presidente e seus comparsas não conseguiram conter um ambiente vibrante de mídia, intimidar os tribunais ou silenciar os críticos da sociedade civil. Seu tratamento desastroso da COVID-19 parece estar causando dúvidas entre a elite econômica que anteriormente o abraçava. Algumas partes dos militares aparentemente compartilham desse mal-estar. A possibilidade do retorno de Lula é suficiente para concentrar mentes da direita em encontrar um candidato alternativo, menos extremista do que Bolsonaro. Pode ser irritante ver aqueles que ajudaram sua ascensão se posicionarem como os guardiões da democracia, ao invés de seus próprios interesses. Mas sua saída seria bem-vinda, pelo bem do Brasil e do planeta.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Sob a égide de Ricardo Salles, ICMBio destrói sinalização do “Caminho da Mata Atlântica”

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A sinalização da trilha “Caminho da Mata Atlântica” que liga o Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, a qual possui mais de 4.000 km, está sendo desfeita pelo ICMBio, órgão responsável pela gestão das 334 unidades de conservação em todo o Brasil. A denúncia foi feita pelo jornal carioca O Globo e verificada pela Revista Blog de Escalada.

Componente fundamental em qualquer trilha de longo curso, a sinalização serve não apenas para transmitir aos praticantes de trekking informações sobre navegação, mas também por conferir uma identidade ao percurso.

O Caminho da Mata Atlântica é uma trilha brasileira que tem início no Parque Nacional de Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul, e se estenderá até o Parque Estadual do Desengano, no Rio de Janeiro. A trilha irá cruzar mais de 70 áreas protegidas, incluindo 10 parques nacionais e 32 parques estaduais.

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O WWF lançou neste ano o manual “Parques do Brasil, Sinalização de Trilhas”, com exemplos ilustrativos sobre sinalização rústica (confundidos por leigos como sendo pichação), utilizada em outros países e que começava a ser adotada no Brasil no “Caminho da Mata Atlântica”.

De acordo com a reportagem, o “Caminho da Mata Atlântica” tinha apoio oficial do ICMBio até o ministro Ricardo Salles assumir o Ministério do Meio Ambiente. A governança do CMA publicou uma nota de repúdio em resposta à ação do Ministério do Meio Ambiente e enviou um ofício à diretoria do parque. De acordo com a reportagem ainda não houve nenhuma manifestação do ministério.

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O Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles é o que mais corre risco de ser o próximo substituído na reforma ministerial que teve início de fevereiro deste ano. Salles é constantemente acusado de sistematicamente desmontar a agenda ambiental, não adotar nenhuma medida prática para evitar desmatamento ilegal e por meio de declarações ofensivas afastar o Brasil de organismos internacionais de preservação.

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Este texto foi originalmente publicado pelo blog “deescalada” [Aqui!].

Vida marinha está migrando dos trópicos devido às mudanças climáticas

Último levantamento de estoque pesqueiro no Brasil é de 2011Mark snorkelling Raja Ampat

Foto por Mark Costello

Um novo estudo mostra que a vida marinha vem mudando sua distribuição para longe das regiões tropicais em resposta direta às mudanças climáticas. Esta é a primeira vez que isso é observado em escala global e em relação a todas as espécies.

Como previsto em projeções sobre o aquecimento do clima, o número de espécies diminuiu no Equador e aumentou nas regiões subtropicais desde os anos 1950. Os resultados da pesquisa liderada pela Universidade de Auckland, na Austrália, mostram que todas as 48.661 espécies estão obedecendo esta tendência, mas que os animais que vivem em águas abertas (pelágicos), como peixes, moluscos e crustáceos, estão se movendo mais em direção ao Polo Norte do que os animais que habitam o fundo do mar (bentônicos). Segundo o estudo, a falta de uma mudança semelhante no hemisfério sul se deve ao fato de o aquecimento dos oceanos ser maior no hemisfério norte do que no sul.

Os trópicos sempre foram considerados estáveis e com uma temperatura ideal para a vida. O que a nova pesquisa sugere é que os trópicos estão se tornando instáveis e progressivamente quentes demais para muitas espécies.

Esta informação é crítica para o Brasil, que hoje desconhece a situação da vida marinha em sua costa, quase totalmente localizada em águas tropicais. O último Boletim Estatístico sobre o tema foi publicado há dez anos pelo então Ministério da Pesca e Aquicultura, hoje transformado em uma Secretaria do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Um levantamento publicado pela ONG Oceana em dezembro de 2020 mostra que não existem informações sobre a situação de 94% dos 118 estoques de espécies-alvo da frota brasileira. A organização também verificou que apenas 3% dos estoques pesqueiros do país possuem limites de captura estabelecidos, e somente 8,5% deles estão incluídos em Planos de Gestão.

Confirmando projeções

O estudo que mostra o afastamento da vida marinha das águas tropicais tem origem na pesquisa de doutorado da escritora Chhaya Chaudhary na Universidade de Auckland. As informações usadas foram obtidas a partir do Ocean Biodiversity Information System (OBIS), um banco de dados mundial de acesso livre liderado pelo professor Mark Costello, da mesma universidade e coautor da pesquisa. Essa mesma base de dados foi usada no esforço global para a criação do primeiro Censo da Vida Marinha, concretizado em 2010.

Costello é um dos principais autores do atual 6º Relatório de Avaliação do Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC). No ano passado, o professor foi coautor de outro artigo mostrando que embora a biodiversidade marinha tenha atingido o auge no equador durante a última era glacial, há 20 mil anos, ela já havia se achatado antes do aquecimento global industrial. Naquele estudo, os cientistas utilizaram registros fósseis de plâncton marinho enterrado em sedimentos de mar profundo para acompanhar a mudança na biodiversidade ao longo de milhares de anos.

A nova pesquisa mostra que este achatamento não apenas continuou no século 20, como o número de espécies nas zonas equatoriais agora despenca.

“Nosso trabalho mostra que a mudança climática causada pelo homem já afetou a biodiversidade marinha em escala global em todos os tipos de espécies. A mudança climática está conosco agora, e seu ritmo está acelerando”, afirma Costello. “Podemos prever a mudança geral na diversidade de espécies, mas devido à complexidade das interações ecológicas, não está claro como a abundância das espécies e a pesca mudarão com a mudança climática.”

“A diminuição do número de espécies no equador não significa que a vida marinha está se extinguindo do planeta. Em vez disso, significa a extirpação, ou perda local dessas espécies”, explica David Schoeman, coautor da pesquisa e professor da University of the Sunshine Coast, em Queensland, Austrália.

“As espécies tropicais ‘desaparecidas’ provavelmente estão perseguindo seu habitat térmico em águas subtropicais quentes, exatamente como previmos em um documento publicado em 2016 e como demonstrado em registros fósseis de 140 mil anos atrás, quando as temperaturas globais eram tão quentes quanto são agora”, avalia o pesquisador.

Schoeman alerta que o planeta suportou nos últimos 50 anos apenas uma fração do aquecimento esperado até 2050. “O número decrescente de espécies nos trópicos pode se expandir para um número decrescente de espécies nos subtrópicos”.

Washington Post rotula Brasil como um “super spreader event” de COVID-19 que ameaça toda a América do Sul

Em um artigo publicado nesta segunda-feira (05/04), o jornal “The Washington Post” classificou o Brasil como um “super spreader event (ou em um bom português, um super evento de disseminação) da COVID-19 para toda a América do Sul. Assim, o papel de pária global que o Brasil passou o ocupar por outras ações desastradas do governo Bolsonaro ganha agora o reforço do papel cumprido pelo nosso país no agravamento da pandemia da COVID-19 em toda a América do Sul.

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A matéria assinada pelos jornalistas Lucien Chauvin, Anthony Faiola e Terrence McCoy mostra, por exemplo, a situação dramática instalada no Paraguai pela rápida penetração da variante P1 surgida em Manaus em território paraguaio já que é quase impossível impedir a circulação de pessoas contaminadas na fronteira de mais de 1.000 km que separa os dois países. O mesmo problema se repete em todos os países que possuem fronteiras com o Brasil.

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As pessoas passaram pela Praça Internacional no mês passado na divisa entre Santana do Livramento, no Brasil, e Rivera, no Uruguai. (Diego Vara / Reuters)

A situação no Peru, que também possui uma fronteira considerável com o Brasil, também é dramática com o sistema hospitalar peruano chegando ao ponto de colapso por causa da virulência da variante P1.  César Salomé, um médico peruano que atua na linha de frente do combate à COVID-19 em um hospital localizado em Lima, o caos que está sendo disseminado a partir do Brasil deixou de ser um problema só dos brasileiros, para se tornar um problema global. 

A reportagem aponta ainda que a variante P1 está se espalhando rapidamente por todos os países da América do Sul, apesar dos crescentes esforços para fechar as fronteiras com o Brasil.  O aumento dramático dos casos de contaminação pela P1 certamente é apenas um dos muitos elementos decorrentes da política negacionista adotada pelo governo Bolsonaro desde o início da pandemia.  O problema agora é saber como nossos vizinhos reagirão ao fato de que seus sistemas de saúde irão colapsar por causa do descaso do governo brasileiro com o controle da pandemia.

Enquanto isso, aqui no Brasil ainda temos que assistir à disputas incríveis por parte daqueles que querem templos e escolas de frequentadores. Do jeito que a coisa vai, os brasileiros vão ficar isolados dentro do território nacional por muito tempo.

“Black is Beltza”: reunião de classe dos revolucionários de esquerda

A história em quadrinhos política de Fermin Muguruza “Black is Beltza” agora também está disponível como um filme de animação no estilo Pop Art

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Um filme de pop art revolucionário de esquerda de meninos para meninos. Foto: Youtube.com/Screenshot nd

Por Florian Schmid para o Neues Deutschland

Fermin Muguruza deveria ser conhecido pela maioria como músico. Nascido em 1963 na cidade basca de Irun, na década de 1980 foi co-fundador da banda punk política Kortatu, também conhecida no país e popular na esquerda. Outras bandas foram fundadas (incluindo Negu Gorriak), onde sua música é influenciada não só pelo punk, mas também pelo ska, rock e hip-hop e lidando com questões políticas – especialmente o legado da ditadura de Franco, a situação no País Basco e as lutas sociais – desempenham um papel central no seu trabalho artístico.

O movimentado músico também fez uma história em quadrinhos política anos atrás. O filme de animação que o acompanha »Black is Beltza« foi lançado em 2018 e não foi exibido nos cinemas da Alemanha, mas trechos dele foram exibidos em um concerto em Berlim, três anos atrás, na presença do músico e cineasta no »Clash«, uma barra punk. O filme de animação de 90 minutos “Black is Beltza”, um filme de quadrinhos pop art sobre as lutas anti-racistas e internacionalistas, está agora rodando na Netflix.

No centro da ação, que começa em meados da década de 1960, está um jovem basco chamado Manex. Ele deve participar de um desfile em Nova York com outros bascos com as figuras Gigantes carregadas pelas ruas de Pamplona no feriado de San Fermin. Mas as autoridades de Nova York – e realmente deveria ter acontecido assim naquela época – proíbem a participação de duas figuras negras, que os jovens bascos percebem como censura racista. Manex e seu amigo dirigem para o Harlem, onde se encontram no meio da rua lutando entre o Povo de Cor e a polícia. Lá eles encontram amigos e Manex decide ficar em Nova York em vez de voltar para a Espanha franquista. De Nova York, ele finalmente viaja para Cuba, para o México, Califórnia, Canadá, Argélia e um dia para a Europa. Com o tempo, Manex conheceu várias pessoas da história da revolução social, incluindo Che Guevara e Angela Davis, conheceu o escritor mexicano Juan Rulfo e a lenda do soul Otis Redding, revolucionários na Argélia e membros do Partido dos Panteras Negras.

“Black is Beltza” é um verdadeiro compêndio cultural e político da história de esquerda e comunista na segunda metade da militante e ativa década de 1960. A luta de classes e a contracultura são discutidas repetidamente, há fumaça, viagens de LSD são lançadas, há concertos, manifestações – e todos estão lutando duramente contra as autoridades racistas e capitalistas que Manex e seu camarada Wilson do Partido dos Panteras Negras, com a ele viaja o mundo, para logo recriar.

Manex lembra fortemente Corto Maltese, a figura cômica inventada em 1967 pelo desenhista italiano Hugo Pratt, em sua aparência – mas também em termos de motivos. Ela também viaja pelo mundo e conhece gente da história contemporânea, só que a Manex, como o social revolucionário Corto Maltese, visita muitos lugares importantes da contracultura da época. Isso vai desde Harlem Riots e Andy Warhols Factory até o lendário Monterey Music Festival e ir ao cinema na Argélia, onde a »Batalha de Argel« está apenas começando, agora um clássico.

“Black is Beltza” não é um filme de animação caro, mas uma obra de pop art política com inúmeras referências intertextuais e não poucas referências ao cânone cultural e político do mundo de língua espanhola. Um ponto fraco do filme é a narrativa extremamente heteronormativa. Porque »Black is Beltza« é, para colocá-lo casualmente, um filme de meninos com um herói masculino que interage principalmente com outros heróis masculinos, encontra sexualmente figuras femininas estereotipadas e, como um radical de esquerda, mistura de James Bond contracultural, então também tem um caso após o outro. No entanto, não se deve subestimar este filme, porque pelo menos é uma tentativa de contar a história de esquerda com os meios da cultura pop para um público mais amplo.

No Netflix, o filme só pode ser visto no idioma original com legendas, embora a sincronização desse filme multilíngue não faça sentido. Porque vários sons originais são incorporados ao filme, desde o lendário discurso anti-racista de Muhammad Ali sobre por que ele não quer lutar no Vietnã até várias gravações de rádio e televisão da época. Além disso, Manex fala não só espanhol, francês e inglês, mas também muito basco, é claro. “Black is Beltza” desenvolve um som bastante idiossincrático através deste multilinguismo, que é enriquecido com muita música pop, rock e punk. O título refere-se à tradução basca da palavra ‘negro’: ‘Preto é Beltza’, Manex chama o camarada Pantera Negra Wilson,

“Black is Beltza” no Netflix

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].