‘Mostra Museu: Arte na Quarentena’ traz eixo de música centrado em artistas brasileiros

O eixo de música curado pelo jornalista, diretor e roteirista Pedro Henrique França lança luz na produção musical brasileira e apresenta obras realizadas desde o início da pandemia. A coletânea sonora da Mostra Museu está disponível na plataforma (www.mostramuseu.com) e via QR Code, junto às obras expostas em espaço público.
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Música e artes visuais se fundem na Mostra Museu: Arte na Quarentena, projeto encabeçado pela Amarello Projetos Integrados que propõe reflexões sobre as produções artísticas realizadas ao longo da pandemia. O eixo de música, que tem curadoria do jornalista, diretor e roteirista Pedro Henrique França, reúne criações de cerca de 20 nomes da música brasileira, são canções e videoclipes que estão disponíveis na plataforma da Mostra Museu (www.mostramuseu.com).

As músicas e videoclipes dos artistas curados por Pedro estarão disponíveis na plataforma www.mostramuseu.com por meio de playlists temáticas e também serão disponibilizadas via QR Code nos mobiliários urbanos que receberem as obras de arte selecionadas pelo núcleo de Artes Visuais da Mostra. Além disso, a Mostra está promovendo o Arte, Papo e Palinha, um ciclo de conversas com artistas pelo Instagram (@ mostramuseu ), que ficarão disponíveis para o público no IGTV. A próxima participante, Jup do Bairro, conversa com o curador Pedro Henrique França no dia 8 de abril, quinta-feira, 18h .

As playlists disponíveis no site estão divididas pelas categorias Lado A: Agora Presente, e Lado B: Olhar no Futuro. A primeira está focada em artistas consagrados que se reinventaram durante a pandemia, como Majur, Letrux, Criolo, Emicida, Gal Costa e Gaby Amarantos, que lançou recentemente a canção Vênus em Escorpião, com Urias e Ney Matogrosso, entre outros. Já a segunda está centrada em novos talentos, como, Zé Manoel, Dulcineia, Marina Sena e Kaike, cantor mineiro de 14 anos, que foi revelado à internet pela cantora Duda Beat. “A cultura, mais uma vez, nos ajudou a sobreviver, enquanto os artistas provedores de nossas alegrias se reinventavam em seus silêncios, sem nunca parar”, se lembra Pedro.

Dentre os destaques da seleção musical figuram também Numa Ciro, artista que lançou o primeiro álbum aos 70 anos; Yan Cloud, que discute em suas letras as vivências do jovem negro periférico; e Kunumi MC, rapper indígena que canta a força da natureza e dos povos originários. “O recorte curatorial revela o exercício de criatividade feito pelos artistas neste período de tantas dificuldades”, afirma Pedro França.

O curador se lembra ainda de exemplos como o de Letrux (Letícia Novaes), que havia lançado o álbum Aos Prantos uma semana antes do início da pandemia. Após suspender toda a agenda presencial de lançamentos, a artista fez lives compartilhando as novas músicas com o público e também lançou o EP Prantos Pandêmicos, composto por algumas das faixas do disco rearranjadas pelos integrantes da banda. Além das músicas, foram ainda gravados videoclipes para todas as faixas dirigidos pela própria Letrux.

O rapper Baco Exu do Blues adiou o lançamento de um disco finalizado e lançou o EP Não tem Bacanal na Quarentena, gravado em apenas três dias e com composições completamente afinadas com o momento presente. Jup do Bairro, que participa do próximo Arte, Papo e Palinha, lançou o aguardado álbum-manifesto Corpo Sem Juízo, em que discute temas como sexualidade, gênero e a vida real da periferia. Já Emicida lançou o documentário AmarElo – É Tudo Pra Ontem, cujo subtítulo também nomeou um single lançado na sequência com participação de Gilberto Gil.

Segundo Chiara Paim Battistoni, idealizadora do projeto, a Mostra Museu incorpora a tecnologia como dispositivo a serviço da troca entre público, obra e artista, aspecto que reforça o pioneirismo do projeto e seu amplo alcance, potencializado pelo recorte internacional. “Se por um lado toda a situação que estamos vivendo escancarou também nossas fragilidades, por outro, evidenciou saídas coletivas e fortaleceu uma rede de solidariedade e empatia, essenciais para alcançá-las”, ela afirma.

A Mostra Museu:Arte na Quarentena (http://www.mostramuseu.com) é uma iniciativa da Amarello Projetos Integrados que une arte, música e tecnologia em diferentes formatos e apresenta obras de artistas de nacionalidades diversas. O núcleo de artes visuais será responsável por uma seleção de obras artísticas com curadoria de Ana Carolina Ralston e The Covid Art Museum (CAM) – museu digital criado no início da pandemia, na Espanha, por Emma Calvo, Irene Llorca e José Guerrer.

Serviço

Mostra Museu : Arte na Quarentena Mostra Museu : Arte na Quarentena
Plataforma: http://www.mostramuseu.com.br I @mostramuseu
Curadoria: Ana Carolina Ralston e co-curadoria The Covid Art Museum (eixo Arte), e Pedro França (eixo Música) Ana Carolina RalstonThe Covid Art MuseumPedro França
Idealização: Amarello Projetos Integrados

Em novo artigo no “The Proof”, Seth Abramson cita Eduardo Bolsonaro como um dos conspiradores da invasão ao Capitólio

Trump Supporters Hold "Stop The Steal" Rally In DC Amid Ratification Of Presidential Election

WASHINGTON, DC – 06 de janeiro: Milhares de apoiadores de Donald Trump se reúnem do lado de fora do prédio do Capitólio dos EUA após uma manifestação “Stop the Steal” em 6 de janeiro de 2021 em Washington, DC. Um grande grupo de manifestantes invadiu o edifício histórico, quebrando janelas e entrando em confronto com a polícia.  Spencer Platt / Getty Images / AFP

Em uma nova reportagem no site “The Proof”, o professor universitário e advogado, também conhecido por suas colunas nos principais jornais estadunidenses, Seth Abramson identifica o que identifica uma espécie de guia para identificar os principais grupos pela invasão realizada em janeiro de 2021 ao congresso dos EUA.  Abramson dividiu os grupos de pesquisadores em: paramilitares, organizações de base, a Campanha de Donald Trump, Agitadores Independentes e facilitadores, e Membros do Congresso.

Em cada um desses grupos Abramson, identificou não apenas os papéis cumpridos por cada um dos deles, mas também seus componentes e os papéis cumpridos na preparação e execução da invasão ao Capitólio. E aí que a coisa começa a ficar interessante, pois Abramson inclui o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) em uma condição de destaque no grupo de “Agitadores Independentes e Facilitadores” (ver imagem abaixo).

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É interessante notar que Abramson caracteriza este grupo como sendo formado por “um bizarro enxame de pessoas que inclui vigaristas dissolutos, ideólogos perturbados e agentes estrangeiros – essencialmente, pessoas inescrupulosas, mas com recursos suficientes, que veem em Trump um meio de promover seus designs marginais com relativa impunidade.” Além disso, ainda segundo Abramson, os “Agitadores Independentes e Facilitadores” teriam operado “em um nível de visibilidade significativamente mais baixo, lubrificando as rodas da insurreição em regiões distantes do mecanismo de insurreição – aquelas que de outra forma poderiam ter falhado em seu propósito” no dia da invasão ao Capitólio.

Em suma, este grupo teria ocupado um papel não menos importante, ainda que operando de forma discreta dentro do processo que resultou na invasão do congresso dos EUA.

Mas se realmente ficar determinado pelos serviços de inteligência e pelas órgãos policiais dos EUA que Eduardo Bolsonaro cumpriu tal papel relevante, uma consequência óbvia que ele será indiciado em processos que eventualmente sejam formados para punir os responsáveis pela invasão que representou um dos mais duros atentados ao congresso dos EUA. 

Finalmente, como Seth Abramson não é uma figura inexpressiva dentro do grupo que faz análises políticas nos EUA, essa reportagem não deverá ser desprezado pelos que citados nela. E quem fizer isso, poderá acabar pagando um preço caro.

Qual o legado da operação militar para a proteção da Amazônia?

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  • Em 30 de abril, o governo federal encerra oficialmente a operação Verde Brasil, ação militar de fiscalização iniciada em agosto de 2019 para combater o pico de queimadas ilegais na Amazônia.
  • Desde então, os militares vêm ganhando força cada vez maior nas políticas ambientais aplicadas à Amazônia — inclusive sobrepondo-se a órgãos como Ibama e ICMBio no trabalho de fiscalização e ocupando cargos-chave nessas agências.
  • Especialistas criticam o gasto elevado da operação (cinco vezes maior que o orçamento do Ibama), empregado sobretudo na fiscalização de áreas já demarcadas ou registradas — ignorando as terras em disputa, mais suscetíveis à exploração ilegal.
  • Enquanto isso, o governo federal põe em prática seu plano nacional de desenvolvimento para a Amazônia para esta década, focando na expansão das cadeias produtivas e da atividade industrial. “A modernidade e o progresso estão na ordem do dia desde o governo imperial”, prega o plano.
Por  Caio de Freitas Paes para o Mongabay

O protagonismo dos militares na gestão da Amazônia se destaca desde 2019. Eles foram acionados pelo presidente Jair Bolsonaro em agosto daquele ano, após o “Dia do Fogo”, rompante de queimadas ilegais que balançou as relações do mundo com o Brasil. O presidente lhes concedeu força máxima, incluindo até a subordinação de agências ambientais federais, como Ibama e ICMBio. Não faltaram recursos nem pessoal para a chamada operação Verde Brasil. Sem tanto alarde, porém, os militares estão saindo de cena.

No último dia 11 de fevereiro, o vice-presidente Hamilton Mourão anunciou o encerramento da fiscalização por eles conduzida na maior floresta tropical do mundo. O fim da operação ocorre em 30 de abril de 2021, prorrogada por três meses após o término previsto.

Daqui em diante, o foco das ações será mais restrito, segundo os responsáveis. “Levantamos que 70% do desmatamento, ou dos crimes ambientais, ocorrem em 11 municípios que elencamos como área prioritária”, disse o vice-presidente Mourão.

Isso não é novidade. Uma lista com estas áreas de proteção prioritárias consta num processo do Ministério Público Federal (MPF), protocolado em abril de 2020 e consultado pela Mongabay. Ou seja, o MPF divulgou a informação mencionada por Hamilton Mourão um mês antes de uma das renovações da operação militar, em maio do ano passado.

Na lista constam áreas como São Félix do Xingu, no Pará, campeã em emissão de gases de efeito estufa no país graças ao desmatamento, municípios no sul do Amazonas e em outros pontos próximos, no Mato Grosso e em Rondônia.

Apresentar dados conhecidos – e aparentemente ignorados – é só um dos argumentos por trás das críticas sobre a operação Verde Brasil. O desmatamento segue elevado, como aponta a ONG Greenpeace, e prospera um milionário mercado clandestino de terras públicas, com compra e venda dentro de áreas indígenas. Enquanto isso, a fiscalização retorna às agências ambientais, fragilizadas sob a gestão Bolsonaro, e militares anunciam planos econômicos para a Amazônia. Como fica, afinal, a proteção à floresta e seus povos após quase dois anos sob a tutela verde-oliva?

patrulha 1Patrulha da operação Verde Brasil no porto de Belém (PA). Foto: Comando Militar do Norte.

Conflitos seguem intensos, até com investigação sobre militares

Não é segredo que a Amazônia está à mercê daqueles que a devastam. Um povo indígena já foi extinto graças à covid-19 – os Juma, em Rondônia – e o Ministério Público investiga o uso de um avião militar para levar garimpeiros a reuniões no Planalto em novembro de 2020.

Para Marcela Vecchione, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos na Universidade Federal do Pará (UFPA), a operação Verde Brasil foi um fracasso do ponto de vista socioambiental. “Os conflitos explodem quando se mantém um estado de exceção permanente, como vimos nas recentes operações na Amazônia”, diz.

A professora da UFPA ressalta que, desde o início, a fiscalização conduzida pelo Exército privilegiou áreas já demarcadas ou registradas, tanto indígenas quanto de quilombolas e ribeirinhos. Para ela, este é um erro grave em si.

“Quando operações se concentram apenas nas terras ‘oficiais’, as áreas em disputa ficam vulneráveis, ou seja, sob esse ponto de vista a operação foi muito ineficaz”, afirma Vecchione.

Agências ambientais sem dinheiro e militarizadas

A operação Verde Brasil moveu recursos milionários – algo em torno de R$400 milhões, segundo Hamilton Mourão. “Houve comentários de algumas agências dizendo que, se tivessem esse dinheiro, fariam muito melhor. Isso faz parte do debate”, disse o vice-presidente, como relatado pelo portal Poder360.

Mourão referia-se ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) e ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ambos em penúria fiscal.

“Como comparação, os gastos do Ibama para fiscalizações em todo o país não atingiram sequer R$80 milhões em 2020”, diz Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e especialista em políticas públicas na coalizão Observatório do Clima.“O recurso usado na operação foi mal empregado, a meu ver”, afirma.

A coalizão que Araújo integra defende mais repasses aos órgãos ambientais. Segundo o Observatório do Clima, o orçamento hoje disponível para Ibama, ICMBio e ministério do Meio Ambiente é o menor dos últimos 20 anos.

Enquanto faltam recursos, sobram oficiais em postos de comando.

Em novembro de 2020 havia pelo menos 22 militares em funções-chave no Ibama, no ICMBio e também no ministério do Meio Ambiente, provenientes da Aeronáutica, do Exército e da Marinha. Os dados foram compilados pela agência Fiquem Sabendo, especializada na Lei de Acesso à Informação brasileira.

“Fiscais tanto do Ibama quanto do ICMBio têm uma expertise única, sabem quando é mais indicada uma operação do tipo ‘presença’ (mais contundente, com apoio armado) ou se é preferível monitorar via satélite e multar à distância”, diz Suely Araújo.

Para ela, o destacamento de militares acentua a desconfiança interna e aumenta o medo de represálias contra servidores nestas agências.

“Existe uma narrativa de descrédito [sobre as agências], um mito sobre a ‘indústria da multa’: este discurso é o grande responsável pelo desmatamento. O governo precisa parar com essa narrativa, algo que infelizmente não deve ocorrer”, afirma a ex-presidente do Ibama.

patrulha 2Patrulha da operação Verde Brasil na Amazônia. Foto: Exército Brasileiro.

Governo quer “ambientalismo de resultado”

“O grande inimigo do meio ambiente é a pobreza”, disse o ministro da Economia, Paulo Guedes, em seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, ainda no início de 2020.

O plano do vice-presidente e dos militares para a floresta daqui em diante segue a mesma toada.“Precisamos chegar a um novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia”, disse Mourão em fevereiro deste ano, enquanto anunciava o fim das fiscalizações militares na região.

Como presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL), Hamilton Mourão tem defendido um “ambientalismo de resultado”, que possa “mapear e expandir as cadeias produtivas, as cadeias de valor, facilitando que haja um adensamento da atividade industrial”.

“Ou seja, eles resgatam uma antiga visão militar de levar o ‘progresso’ à Amazônia, mantendo apenas algumas ilhotas de preservação enquanto avançam sobre os povos da floresta”,diz Marcela Vecchione, da UFPA.

O “ambientalismo de resultado” é um dos objetivos do plano nacional para o controle do desmatamento e recuperação da vegetação nativa entre 2020 e 2023. O documento foi elaborado pelo ministério do Meio Ambiente, alinhado ao discurso do vice-presidente sobre o tema.

Segundo o ministério, “(…) é necessário desenvolver mecanismos econômicos e jurídicos robustos, de modo que forneça incentivos para quem pretende empreender de forma sustentável”.

Mas, para a professora da UFPA, o modelo proposto pelo governo e pelos militares ignora um patrimônio imaterial da floresta: seus povos.

“Tome o exemplo das culturas de açaí em torno de Belém (PA), manejadas do mesmo jeito há séculos: sua riqueza e variedade são frutos dos saberes tradicionais, opostos a qualquer modelo de desenvolvimento proposto hoje”, afirma a professora da UFPA.

A opinião de Suely Araújo, do Observatório do Clima, é similar. “Tanto militares quanto o governo federal destacam a questão da pobreza, mas não dizem que o desenvolvimento que eles propõem é, no fim das contas, em prol de grandes empresas, não dos mais pobres”, diz.

Desenvolvimento militar fortalece elites locais, diz pesquisador

“A modernidade e o progresso estão na ordem do dia desde o governo imperial”: assim começa o plano estratégico 2020-2030 do Conselho Nacional da Amazônia Legal, divulgado em novembro passado. Nele, o conselho exibe suas diretrizes para o desenvolvimento da Amazônia.

O documento, consultado pela Mongabay, mostra o receio diante da influência chinesa e um desejo de “fomentar o ambiente de negócios” e de “integrar a infraestrutura regional”. Para tal, o conselho avalia como necessária a “segurança jurídica” na Amazônia, com um novo “ordenamento territorial” e a “regularização fundiária”.

“Para os militares, a Amazônia deve ser uma espécie de projeção dos grandes centros, espelhada no que é a sociedade urbana, ‘civilizada’. É uma ideologia sem espaço para os povos da floresta, suas culturas e modos de vida”, diz Lício Monteiro, professor de Geografia na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Monteiro pesquisa o papel militar na defesa e manutenção das fronteiras nacionais na Amazônia, o que inclui ao menos um projeto de desenvolvimento socioeconômico: o Calha Norte, vigente desde 1985.

Quase desconhecida, a iniciativa foi recentemente agraciada pelo governo federal. No início de janeiro, a gestão Bolsonaro aumentou em mais de 150% o valor máximo para compra de equipamentos e elevou em outros 50% o teto para obras de engenharia via Calha Norte.

Segundo o professor da UFF, esta iniciativa aproximou militares das elites políticas e regionais com o passar dos anos. “Há uma presença relevante de militares na Amazônia, então eles participam da política, recebem homenagens de prefeitos, vereadores, deputados”, afirma.

“Os militares seguem com a mesma visão de 40, 50 anos atrás, de ‘integrar para não entregar’. Então, a eficácia de suas ações ou com quem as desenvolvem não importa muito: o que eles querem é retomar protagonismo e, para isso, precisam esvaziar o trabalho feito pelos civis desde a Constituição de 1988”, diz o professor da UFF.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo site Mongabay [Aqui!].

Pássaros versus abelhas: aqui estão os vencedores e os perdedores na grande troca de agrotóxicos

Honey Bee (Apis mellifera) covered in pollen in pumpkin, Germany

O uso crescente de inseticidas neonicotinóides está prejudicando os polinizadores, como esta abelha em uma flor de abóbora. IMAGENS DE KONRAD WOTHE / MINDEN
Por Erik Stokstad para a Science

As fazendas são campos de batalha, colocando os cultivadores contra pragas vorazes e ervas daninhas agressivas em campanhas caras e sem fim que geralmente envolvem armas químicas. Essas armas, infelizmente, também prejudicam espectadores inocentes, como abelhas, peixes e crustáceos. Agora, um grande estudo mostra mudanças épicas que ocorreram nas últimas décadas, conforme os agricultores dos EUA mudaram seu arsenal de pesticidas. Aves e mamíferos se saíram muito melhor, enquanto polinizadores e invertebrados aquáticos estão sofrendo. O impacto tóxico nas plantas terrestres também disparou, provavelmente porque os agricultores estão usando cada vez mais tipos de produtos químicos para combater ervas daninhas que se tornaram resistentes aos herbicidas comuns.

“Essas tendências mostram mudanças notáveis ​​na toxicidade ao longo do tempo”, diz John Tooker, entomologista da Universidade Estadual da Pensilvânia, University Park, que não participou da nova pesquisa. “A escala do que eles fizeram é realmente impressionante”, acrescenta a ecotoxicologista Helen Poynton, da Universidade de Massachusetts, em Boston.

Nas últimas décadas, a quantidade de inseticidas usados ​​nos Estados Unidos caiu cerca de 40%. Mas, ao mesmo tempo, os ingredientes ativos se tornaram mais poderosos. Por exemplo, os piretróides, inseticidas de ação rápida que afetam o sistema nervoso, são muito tóxicos em concentrações extremamente baixas. Alguns requerem apenas 6 gramas por hectare, em comparação com vários quilos dos pesticidas organofosforados e carbamatos mais antigos. Isso fez Ralf Schulz, um ecotoxicologista da Universidade de Koblenz e Landau, se perguntar se a toxicidade geral do ecossistema havia mudado. Alguns estudos examinaram certos compostos e organismos , mas nada foi feito em escala nacional.

Schulz e colegas começaram com os dados do US Geological Survey sobre o uso autorrelatado de pesticidas por agricultores dos EUA de 1992 a 2016. Eles também coletaram dados de toxicidade aguda da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) sobre esses mesmos compostos – 381 ao todo. Em seguida, eles compararam os níveis de limite regulatório da EPA – o ponto em que uma substância pode prejudicar a vegetação ou a vida selvagem – com a quantidade de cada pesticida aplicado aos campos agrícolas e determinaram uma “toxicidade total aplicada”.

A boa notícia é que a toxicidade total despencou mais de 95% para pássaros e mamíferos de 1992 a 2016, relata a equipe hoje na Science , em grande parte por causa da eliminação de pesticidas mais antigos. A toxicidade para os peixes diminuiu menos – cerca de um terço – porque eles são mais sensíveis aos piretróides. A má notícia: os piretróides causaram o dobro da toxidade para os invertebrados aquáticos, como o plâncton e as larvas de insetos, que são uma parte importante das cadeias alimentares. E outra classe popular de pesticidas, os neonicotinóides, dobrou o risco para polinizadores como as abelhas e os zangões. Essa compensação geral – vertebrados impactaram menos e invertebrados atingiram mais fortemente – também foi observada em um estudo menor.

Para alguns pesticidas e espécies, no entanto, estimar o impacto no mundo real é complicado. Isso ocorre porque muitos fatores afetam se um produto químico prejudicará plantas ou animais, como o clima ou a época do ano. Para ver como os pesticidas afetaram diretamente os crustáceos aquáticos e insetos, os pesquisadores analisaram dados de exposição tóxica revisados ​​por pares em 231 lagos e riachos nos Estados Unidos. Quando compararam os dados com a quantidade de pesticidas aplicados nas proximidades, eles encontraram uma correlação “relativamente forte”.

As plantas também foram impactadas. Desde 2004, a toxicidade total aplicada de herbicidas dobrou em plantas terrestres. Um dos principais herbicidas que contribuem para o aumento é o glifosato, que simplificou a agricultura, melhorou a conservação do solo e permitiu que os agricultores abandonassem os herbicidas mais tóxicos após o advento de plantações geneticamente modificadas para tolerar o glifosato na década de 1990. Mas, desde então, algumas ervas daninhas desenvolveram resistência ao glifosato e os agricultores estão pulverizando outros tipos de herbicidas. Isso ameaça as plantas com flores que crescem nas margens do campo, fornecendo alimento e habitat para outras espécies.

Até mesmo uma espécie de cultivo geneticamente modificada para reduzir o uso de pesticidas – milho contendo uma substância química que mata insetos, chamada Bacillus thuringiensis ( Bt ) – viu sua exposição tóxica aumentar rapidamente. A toxicidade total aplicada no milho Bt tem aumentado tão rapidamente – 8% ao ano na última década – quanto no milho não geneticamente modificado. “Foi um pouco surpreendente”, diz Schulz. “Eu não esperava isso, devo admitir.” O motivo, Schulz suspeita, é que as pragas estão desenvolvendo resistência a produtos químicos que são usados ​​em demasia em ambos os tipos de milho, exigindo aplicações mais frequentes. “Esse é realmente um dos maiores problemas de que a agricultura está sofrendo”.

Schulz espera que os resultados ajudem os formuladores de políticas e outros a pensar de forma mais ampla sobre a complexidade do controle de pragas e ervas daninhas e as compensações para as espécies selvagens, a fim de reduzir os danos não intencionais. Tooker observa que o aumento da toxicidade em plantas e invertebrados aquáticos pode levar a um habitat menos diversificado e recursos alimentares que eventualmente se propagam pelas populações de animais, potencialmente causando perdas. “Os padrões de uso de pesticidas nos Estados Unidos e os dados de toxicidade devem servir de advertência para o resto do mundo, muitos dos quais parecem estar mais inclinados ao uso de pesticidas do que às interações ecológicas para o controle de pragas.”

Em última análise, essas decisões se resumem em como a sociedade valoriza vários grupos de espécies, diz Edward Perry, economista agrícola da Universidade Estadual do Kansas, em Manhattan. Por exemplo, os reguladores poderiam restringir o uso de neonicotinóides, como aconteceu na União Europeia, para beneficiar os polinizadores. Mas os agricultores provavelmente mudariam para outros inseticidas que poderiam representar riscos diferentes para as espécies – ou enfrentariam rendimentos mais baixos e preços mais altos dos alimentos.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela revista Science [Aqui!].

Estudo na Science mostra que o aumento da toxicidade de agrotóxicos aplicados na agricultura moderna ameaça plantas, insetos aquáticos e polinizadores

agrotóxicosOs agricultores americanos estão usando quantidades menores de agrotóxicos mais bem direcionados, mas eles estão prejudicando polinizadores, insetos aquáticos e algumas plantas muito mais tempo do que décadas atrás, descobriu um novo estudo publicado na Science

Um grupo de cientistas da Universidade de Koblenz-Landau, Alemanha, mostrou que para plantas e insetos a toxicidade de agrotóxicos aplicados na agricultura aumentou substancialmente entre 2004 e 2016. Em um artigo publicado na atual edição atual Science , os autores mostram que esse padrão também é relevante em plantações que usam organismos geneticamente modificados (OGMs) que foram originalmente projetadas para reduzir os impactos de agrotóxicos no meio ambiente.

“Pegamos um grande corpo de dados de uso de  agrotóxicos nos Estados Unidos e expressamos mudanças nas quantidades aplicadas na agricultura ao longo do tempo como mudanças na toxicidade total dos agrotóxicos aplicados”, diz o autor principal Ralf Schulz, professor de Ciências Ambientais em Landau. “Isso fornece uma nova visão sobre as consequências potenciais que o uso de agrotóxicos na agricultura tem sobre a biodiversidade e os ecossistemas”.

A quantidade de inseticidas usados ​​na agricultura dos EUA diminuiu substancialmente em mais de 40% entre 1992 e 2016. Peixes, mamíferos e pássaros enfrentam toxicidades aplicadas mais baixas do que na década de 1990, porque as classes de inseticidas como os organofosforados, que apresentam alta toxicidade para vertebrados, são usado menos hoje.  Entretanto, invertebrados aquáticos e polinizadores, como as abelhas, ainda experimentam o oposto: apesar das quantidades aplicadas reduzidas, a toxicidade aplicada a esses grupos de espécies mais do que dobrou entre 2005 e 2015. Uma mudança nos inseticidas usados ​​para o uso de inseticidas piretróides e neonicotinóides é responsável por esta tendência.

 

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Tendências temporais na quantidade total de agrotóxicos aplicados (ou seja, massa) versus TAT ​​e principais classes de agrotóxicos que contribuem para a toxicidade aplicada durante um período de 25 anos. Ralf Schulz et al. Science 2021;372:81-84

A toxicidade aplicada também aumenta para os herbicidas, juntamente com a quantidade aplicada. Nesse caso, as plantas terrestres estão enfrentando o maior aumento na toxicidade aplicada. Plantas e polinizadores são ecologicamente fortemente conectados. O aumento simultâneo das toxicidades aplicadas em ambos os grupos alerta para potenciais efeitos negativos gerais fortes sobre a biodiversidade de plantas e insetos.

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Tendências temporais na quantidade total de agrotóxicos aplicados (ou seja, massa) versus TAT ​​e principais classes de pesticidas que contribuem para a toxicidade aplicada durante um período de 25 anos

As safras de OGMs foram desenvolvidas para reduzir a dependência da agricultura do uso de agrotóxicos químicos. Os resultados do novo estudo, no entanto, revelam claramente que mesmo nas duas culturas de OGMs mais importantes nos Estados Unidos, milho e soja, a toxicidade aplicada aumenta, junto com o aumento da adoção de OGMs, nas mesmas taxas das culturas convencionais.

De acordo com os autores, os resultados do estudo provavelmente se aplicam a muitas outras regiões dominadas pela agricultura moderna, embora muitas vezes os dados para uma avaliação completa das tendências da toxicidade aplicada não estejam disponíveis publicamente. Ralf Schulz acrescenta: “Esses resultados desafiam as alegações de redução do impacto ambiental de pesticidas químicos tanto em safras convencionais quanto transgênicas e exigem ações para reduzir a toxicidade dos pesticidas aplicados na agricultura em todo o mundo”.

No Brasil, 8 milhões de contas foram afetadas por novo vazamento de dados do Facebook

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Em um obscuro fórum de hackers, um usuário postou os números de telefone e informações pessoais de centenas de milhões de usuários do Facebook, incluindo nomes, aniversários e, em alguns casos, endereços de e-mail. A lista de dados vazados inclui quase 8,06 milhões de usuários do Brasil.  

  • Os dados pessoais de mais de 533 milhões de usuários do Facebook foram postados online em um fórum de hackers impopular
  • Isso inclui números de telefone, nomes, locais, endereços de e-mail e informações biográficas
  • Especialistas em segurança alertam que eles podem ser usados ​​por hackers para se passar por outras pessoas e golpes

Os dados divulgados por um desconhecido dizem respeito a mais de 533 milhões de usuários do Facebook de 106 países, 32 milhões deles são usuários dos EUA, 11 milhões da Grã-Bretanha e 6 milhões da Índia. Vazou: nomes, números de telefone, ID do Facebook (uma ID que o Facebook atribui a cada usuário ), locais, aniversários, biografias e endereços de e-mail.

Como Alon Gal, da empresa de crimes cibernéticos Hudson Rock, que foi a primeira a descobrir um vazamento de dados, aponta, que eles podem fornecer informações valiosas para os cibercriminosos que se passarem por outras pessoas ou fraudar credenciais de login.

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Foto: Alon Gal / Twitter / materiais de imprensa.O vazamento também afeta usuários do Brasil – como indica a lista publicada no Twitter por Alon Gal

Alon Gal percebeu que o Facebook vazou dados pessoais em janeiro, quando um usuário do mesmo fórum onde os dados apareceram no sábado promoveu um bot que forneceria os números de telefone de centenas de milhões de usuários do Facebook pela quantidade certa. O caso foi então descrito pelo site Motherboard.

“Um banco de dados desse tamanho contendo informações privadas, como os números de telefone de muitos usuários do Facebook, certamente levaria pessoas mal-intencionadas a usar esses dados para realizar ataques de engenharia social ou tentativas de invasão”, advertiu Gal em entrevista ao American Insider.

Agora, todo o conjunto de dados foi carregado para o fórum de hackers gratuitamente, tornando-o acessível a qualquer pessoa com conhecimentos básicos no assunto.

Pós-verdade e carteiradas de identidade

Condenações e condescendências na universidade pública

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Pedra Sorridente, de Hirotoshi Ito, e a resposta de Benamê Kamu Almudras aos seus críticos: “O que denuncio é a escandalosa quebra de ética representada pela abdicação do dever de ensinar CRÉDITO: SMILEY STONE _HIROTOSHI ITO_@ITOHIROTOSHI_2015

Por Benamê Kamu Almudras*

Poucos textos têm a sorte de Parece revolução, mas é só neoliberalismo: ser corroborado tanto pelas reações positivas quanto pelas negativas que suscita. As críticas a esse meu artigo (publicado na piauí_172, de janeiro) partiram sobretudo dos setores da direita e da esquerda cujas profundas semelhanças eu assinalei sob o nome de neoliberalismo cultural. Em seus ferozes ataques, esses inimigos íntimos fizeram uma performance conjunta e aberta daquilo que denunciei como uma santa aliança contra a educação pública e seus professores.

Chamei de esquerda neoliberal os sujeitos que ostensivamente defendem causas progressistas, mas as deturpam através de uma perspectiva cultural neoliberal, em que o individualismo, o utilitarismo, o mercado e o consumo são os parâmetros da vida social. Discuti essa atitude sobretudo ao tratar do crescente número de estudantes universitários que, por entenderem a educação pública como objeto de consumo, manipulam pautas coletivas legítimas e importantes de forma oportunista, para obter benefícios privados. Isso dá aos professores universitários duas opções: ou se comportam como serviçais dos alunos, ou são acusados de serem opressores.

As reações dos mencionados setores da direita e da esquerda a meu texto escancararam a cultura neoliberal, autoritária e anti-intelectualista que compartilham. Uma pós-graduanda expressou exemplarmente a proximidade dos dois lados nos posts em redes sociais em que me chamou de racista e confessou: “Prefiro um racista de direita do que de esquerda e progressista. O de direita eu já sento o pé no peito.”

Vários estudantes deram ótimas ilustrações de outras atitudes que eu critiquei. Um deles escreveu no Twitter que meu texto lhe causava “preguiça” e que ele chegava a imaginar seus professores, “aqueles porcos, se masturbando lendo isso”. Outra aluna, em meio a vários posts em que reclamava de ter de ler textos de quarenta páginas e escrever outros de dez páginas, tuitou que meu artigo era uma “aberração”. Antes que alguém me chame de racista de novo, observo que ambos são brancos.

Certos intelectuais, também demonstrando atitudes neoliberais, aproveitaram o impacto público de meu ensaio para escrever textos e posts críticos que lhes rendessem corações no queridômetro da lacrosfera e, de quebra, lhes permitissem fazer propaganda de seus trabalhos. Uma professora, ao refutar que tivesse escrito meu artigo (devido à caça à bruxa escondida sob meu pseudônimo, muita gente, em várias universidades do país, foi levada a negar ser Benamê Kamu Almudras), aproveitou para elogiar as “675 páginas pacientes” de sua tese e criticar a debilidade empírica das minhas “675 linhas apressadas”. O que ela ostenta como vantagem é o mínimo que se pode esperar de uma tese: que seja mais longa, elaborada e científica que um artigo jornalístico.

Mesmo os detratores de meu texto reconheceram a ótima acolhida que ele teve, quando manifestaram seu terror e enojo perante as inúmeras manifestações de apoio e endosso recebidas por ele. Significativamente, todas essas reações positivas vieram de pessoas progressistas e de esquerda. Até onde sei, direitistas, conservadores e similares não o elogiaram e, se o compartilharam, foi para atacá-lo.

Também eu me surpreendi – sem terror e sem enojo, é claro – com a extensão e a diversidade das reações positivas ao texto. Docentes e discentes de diversos níveis, áreas do conhecimento, identidades étnicas e raciais, gerações e regiões do país – e inclusive de outros países – aplaudiram a descrição acertada de uma realidade que conhecem bem. Um passeio pela internet pode facilmente corroborar o que digo. Mas, como muitos não terão tempo, interesse ou abertura de espírito para tal passeio, facilito seu trabalho dando uns poucos exemplos, retirados sobretudo do Twitter.

O/a jornalista gremista dono/a do perfil @veronalandia afirmou: “[O texto] resume meus 6 anos de atuação em comissão de ética. Denúncias falsas, tentativa de coerção de professores, e estudantes se achando no reclame aqui.” O perfil @Vadilson_Vix, doutorando em química na Universidade Federal do Espírito Santo, comentou: “Tive alunos que achavam que eu tinha a obrigação de aprová-los, e não queriam estudar conteúdos complexos. O artigo é uma síntese do que ocorre em sala de aula Brasil afora.”

Já no Facebook, uma poeta residente em Roraima escreveu: “Como professora dedicada à causa identitária e muitas vezes acusada de autoritária, me senti completamente representada.” Vários depoimentos indicam que a situação que descrevi causa estragos até no número de pessoas que resistem na profissão. O perfil @MoreiraTalvez tuitou: “Excelente texto. Algumas afirmações vêm ao encontro de meu questionamento sobre o valor de continuar na docência em universidade pública.”

A dramática situação não é exclusiva às universidades, pois diversos professores do ensino médio também relataram que sofrem há anos com situações similares às que descrevi. Para minha surpresa, o artigo foi positivamente citado até como contraponto a Felipe Neto, que, convertido em grande pensador contemporâneo, criticou a obrigatoriedade da leitura de Machado de Assis nas escolas, a pretexto de proteger adolescentes do autoritarismo sádico de seus professores. Não posso senão concordar com o comentário feito pelo perfil atleticano-goianiense @Pedrow_pe: a posição do youtuber “é exemplo perfeito de Parece revolução, mas é só neoliberalismo”.

Não cito tantas manifestações de apoio para me vangloriar. Afinal, ao contrário dos que assinaram textões, textos e textinhos me atacando, não aumentarei minha popularidade nem engordarei meu currículo com a controvérsia que provoquei. Faço esse resumo da repercussão de meu artigo para responder a uma das acusações mais recorrentes a ele. Tal como Donald Trump quando ouvia verdades inconvenientes, muitos acadêmicos, ao lerem meu texto, gritaram: “Fake news!” Para usar uma imagem menos repulsiva, se algum de meus críticos fosse capaz de parodiar Gregório de Matos, ele diria que meu texto de três Fs se compõe: falsidades, fofocas e fantasias.

Subjacente a essa acusação está um empiricismo ingênuo há muito ultrapassado. Pelo menos desde a publicação de A Lógica da Descoberta Científica, de Karl Popper, em 1934, sabemos que a base da validade de um argumento não reside no método pelo qual se chegou a ele, mas na avaliação posterior de seus efeitos. Acusações como “trata-se de um amontoado de anedotas que ninguém pode saber se são verdadeiras” foram usadas contra muitas teorias e ideias logo corroboradas. Ótimo exemplo é a ideia que o médico Ignaz Semmelweis defendeu em meados do século XIX, de que a higienização das mãos reduzia a mortalidade de pacientes. Ridicularizada em sua época por ser baseada em observações casuais, essa descoberta tem hoje o seu valor e a sua importância reconhecidos como incontestáveis.

A citação sobre “um amontoado de anedotas” vem de uma carta que saiu na piauí_174 (março), na qual um antropólogo censura a revista por ter publicado meu artigo e lança mão de uma carteirada meritocrática e gerontocrática: ele é professor “há quarenta anos (seis deles como titular)”. É decepcionante que um antropólogo, sério ou não, ataque meu texto por usar “anedotas que ninguém pode saber se são verdadeiras”, uma vez que palavras semelhantes a essas costumam ser usadas (injustamente, creio) por intelectuais de áreas vizinhas para atacar toda a disciplina em que ele trabalha.

Basta lembrar de um clássico da antropologia brasileira, A Utopia Urbana, de Gilberto Velho, livro fundamentado em conversas, em sua maioria privadas, algumas literalmente de corredor, que pouca gente ouviu. Ninguém pode ir ao prédio em que Gilberto Velho fez sua pesquisa, na mesma época em que ali viveu, nem ter as mesmas conversas que ele teve. Mas isso é irrelevante. O que fez A Utopia Urbana ter seu valor reconhecido foram suas ideias originais e sua utilidade para entender fenômenos que vão muito além daquele edifício – que como eu, aliás, só é conhecido pelo seu pseudônimo, Estrela.

De forma semelhante, as reações positivas e negativas que relatei evidenciam que o quadro descrito em meu artigo pode ser inverossímil, mas nada tem de irreal. Aliás, invejo os bem-aventurados que, como o tal professor titular, pensam viver em um mundo verossímil. Há pouco de verossímil, por exemplo, na história, infelizmente real, de um presidente que exibe seu escárnio de machão enquanto se nega a combater uma mortandade sem precedentes em seu país. O mundo de hoje confirma cada vez mais a frase de Dostoiévski: “A verdade verdadeira é sempre inverossímil.”

Igualmente inverossímil é a história, também real, do professor francês que foi decapitado ano passado por causa da mentira de uma menina de treze anos que, para justificar sua suspensão por faltas, acusou-o de fazer declarações islamofóbicas. Tal brutalidade seria inverossímil mesmo no Brasil, país que, segundo pesquisa divulgada em 2019 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), lidera o ranking mundial de violência de estudantes contra professores.

Esses argumentos valem também como resposta a acusações mais longas e polidas de que meu texto está cheio de fake news. É o caso de Uma visão nebulosa e conservadora (piauí_174, março), réplica assinada por quatro professores da Universidade Federal do ABC (UFABC). Esse texto afirma que minha análise, por não citar nomes de pessoas e locais nos casos que relata, é “nebulosa” – e não se refere a um berço de estrelas.

O que a réplica vê como nebuloso advém do meu respeito a dois princípios éticos fundamentais: a proteção e a segurança das fontes, no jornalismo, e dos sujeitos pesquisados, na prática científica. Os ataques que recebi eram esperados e justificam plenamente os cuidados que tomei para proteger a mim e às pessoas envolvidas nos casos relatados. Como escreveu no Facebook o professor Edimilson Rodrigues, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, “pelo teor das reações negativas, acho que o autor do texto foi até comedido nas suas apreensões provocativas. No alvo.”

E, mais uma vez à semelhança dos clamores trumpistas de fake news, a réplica dos quatro professores atribui a mim uma falha que é dela. Para me descrever como uma pessoa preconceituosa contrária à democratização da educação, a réplica acumula, parágrafo após parágrafo, falsidades e distorções sobre o que escrevi. Por exemplo, ao contrário do que a réplica afirma, meu artigo não “cala” sobre políticas governamentais neoliberais e seus efeitos sobre a educação; não desvincula o neoliberalismo cultural de uma crítica do capitalismo; não critica o diálogo construtivo entre alunos e professores; não sugere que estudantes cotistas têm desempenho inferior ao de não cotistas; e definitivamente não critica, sequer implicitamente, as políticas de ação afirmativa.

No afã de me acusar, a réplica recorre não apenas a mentiras descaradas, como também a truques verbais desonestos. Em certa frase de meu texto, eu me refiro à esquerda neoliberal como o “outro lado” da direita neoliberal autoritária. A réplica cita tal frase como se por “outro lado” eu me referisse à esquerda em geral, e não apenas àquela que chamo de neoliberal, e como se eu me colocasse no lado oposto a ela. A charlatanice dessa acrobacia é superada pela mirabolância do ilusionismo maniqueísta com que a réplica tenta pintar a ideia de “neoliberalismo cultural” como uma versão contemporânea do mito da “democracia racial”.

Outro ato circense malsucedido da réplica é o salto mortal que tenta dar quando cita uma frase minha sobre o mérito de estudantes para afirmar que defendo a “meritocracia, ideologia que transforma privilégios de classe, raça e gênero em mérito individual dos… privilegiados.” Ora, se esse delirante salto de lógica, do mérito à meritocracia, estivesse certo, então seria correto dizer que todos os que acreditam em Deus se apegam à teocracia, que todos que reivindicam o apoio popular são democratas, e que todos que respeitam os idosos apoiam a gerontocracia.

Tamanhas inverdades e distorções podem indicar três tipos de falha: um grave problema de interpretação de texto, uma grave desonestidade intelectual, ou as duas coisas combinadas. O erro dessa réplica é monumental. Só não é possível decidir se ele é da ordem do entendimento, da ordem da ética, ou de ambas.

Não estou julgando nem acusando os autores da réplica, mas avaliando seu texto e seu argumento. A réplica, por sua vez, acusa “o autor” de meu artigo de várias falhas pessoais: “o autor” sofre de “incapacidade de lidar com as transformações da universidade”; “o autor” conduz uma “cruzada restauradora” (gostei, esteticamente, da reciclagem da imagem que usei originalmente, “cruzada autoritária”); “o autor” é conservador e, pelo jeito, racista. Essa confusão entre autor e texto e essa necessidade de personalizar ideias também são sinais do empobrecedor neoliberalismo cultural que assola parte da intelectualidade brasileira. Argumentos e discussões valem cada vez menos; o que importa são indivíduos cujas falas podem e devem ser avaliadas pelo escrutínio de suas características pessoais. Não interessa debater ideias, mas julgar – ou, melhor, condenar – pessoas. Todo debate pode hoje, de repente, tornar-se um julgamento sumário.

Uma versão escancarada dessa posição apareceu em um post de Facebook segundo o qual “essa pessoa [eu] simplesmente interdita o debate uma vez que não podemos saber quem ela é, qual sua produção bibliográfica, campo de debate, experiência docente. Nada. Ficamos só com os argumentos.” Quem escreve é um doutorando em ciências humanas, que dá um belo exemplo de pensamento neoliberal: deve-se avaliar um texto não por seus argumentos, mas pela produtividade de seu autor!

Diversas reações a meu artigo discutiram a questão racial – inclusive elogiosamente, como a de Cristovam Buarque, publicada no site da piauí. Essa questão não aparecia em meu texto como tema central, mas como uma das pautas sociais justas que são privatizadas. Se ela tem certa proeminência em meu artigo, é por sua imensa importância e por ser frequentemente instrumentalizada pelo consumismo neoliberal.

Aos que sofrem de pânico negacionista diante de casos reais que ofendem seus preconceitos – a exemplo dos que temem e combatem vacinas de eficácia comprovada – recomendo que saltem os cinco próximos parágrafos, em que, para explicar melhor as ideias de meu artigo, forneço mais detalhes sobre episódios que comentei ali.

Começo pelo relato sobre o “motim” de estudantes contra um professor por causa da carga de leitura. Dos catorze pós-graduandos matriculados na disciplina, apenas cinco se rebelaram, todos eles brancos cis e graduados em prestigiosas universidades paulistas. Destes cinco, três eram homens e nenhum era cotista. Na turma havia também dois estudantes negros e cinco graduados em outros estados da federação – e nenhum deles participou da revolta. Se alguém entendeu que esses consumidores rebeldes eram oprimidos ou excluídos social ou racialmente, sinto muito, mas meu texto não justificava essa leitura. Longe de ter relação com a expansão do acesso ao assim chamado ensino superior, o motim teve a cara do tradicional privilégio branco.

Meu artigo também discutiu a calúnia de uma mestranda contra seu orientador. Ela não frequentou a disciplina em que estava matriculada, não apresentou o seminário obrigatório, não escreveu o trabalho final e não respondeu a repetidas tentativas de contato. Reprovada, acusou o professor de racismo, adicionando outra mentira: que ele a havia expulsado do programa (de pós-graduação, não de televisão).

Alguns detratores de meu artigo disseram que esse episódio exemplifica a resistência docente a ações afirmativas. Por isso agrego que o professor caluniado, entusiasta da diversificação racial na universidade, havia incentivado e ajudado a citada aluna a entrar no mestrado. A disciplina que ele lecionou e que ela não frequentou era sobre racismo, colonialismo e capitalismo; a maior parte da bibliografia era escrita por autores não brancos. Notem a ironia que tanto revela sobre a cultura condenatória brasileira: Felipe Neto, um youtuber branco, exige que um autor negro deixe de ser leitura obrigatória, mas não é tachado de racista; já um professor branco é atacado como racista porque exige que seus alunos leiam autores negros. Parece que, para muita gente, o racismo de alguém se mede por seu rigor acadêmico.

O episódio da calúnia é um exemplo evidente do estrago causado pela manipulação oportunista de pautas coletivas progressistas. Essa mestranda perdeu a rara oportunidade de conhecer e discutir textos sofisticados sobre questões raciais, escritos por autores negros, para reivindicar, dedo em riste e com o vigor e brilho típicos de um reality show, seu suposto direito de ser aprovada em uma disciplina sem cursá-la. É certo que a esmagadora maioria dos alunos cotistas não tem esse tipo de atitude. Mas também é certo que, praticados por pessoas de todos os fenótipos, atos de privatização desse tipo, como a mentira da menina francesa sobre a islamofobia de seu professor, em vez de corrigir velhas injustiças coletivas, apenas criam novas injustiças individuais.

Meu texto não tem “por alvo preferencial”, como alega a réplica dos quatro professores, “os estudantes que trazem para a sala de aula o debate de questões raciais”. O que esse evento mostra é uma aluna fugindo tanto da sala de aula quanto do debate de questões raciais promovido por seu professor. O alvo de meu texto são atitudes como as dessa moça, verdadeiras carteiradas de identidade oportunistas que vetam debates e castigam a educação.

Volto a esses episódios para reiterar que meu texto não pode nem deve ser lido como um ataque às ações afirmativas e à inclusão de grupos tradicionalmente excluídos. Ao contrário, ele defende a democratização da universidade contra uma das maiores ameaças que ela sofre hoje: sua transformação em mera questão numérica, em desculpa para o ataque ao ensino e ao aprendizado, em instrumento de obtenção de benesses individuais, em arma contra os professores que mais as defendem.

Uma visão nebulosa e conservadora afirma que meu texto “busca lançar em uma zona de desconfiança não apenas os estudantes, em especial os oriundos da terceira onda de democratização, como também os professores que defendem que essa democratização não se resume à presença física daqueles alunos”. Não é verdade. Meu texto tem exatamente a mesma preocupação que a desses docentes – grupo, aliás, em que me incluo. Minha discordância com alguns de meus colegas não é sobre princípios, mas sobre métodos. Para usar termos utilitaristas mais claros para alguns, a discordância não é sobre fins, mas sobre meios.

Se queremos uma verdadeira inclusão educacional e social de grupos desprivilegiados, não podemos abdicar da tarefa profissional e cívica de educar os universitários vindos desses grupos como a todos e quaisquer estudantes. Isso significa ensinar a todos os alunos quais textos são imprescindíveis e por quê, discutir esses textos com eles de maneira bem-informada e dialógica, compartilhar com eles nossas experiências e conhecimentos, e, sim, avaliar o mérito de cada um deles.

Como já adiantei, defender a importância do mérito na educação não significa endossar a falaciosa ideologia da meritocracia. Mesmo as ações afirmativas envolvem alto grau de avaliação de mérito. É por mérito que selecionamos alguns alunos dentro da gigantesca população discriminada, marginalizada e oprimida. Se incluir mais pessoas desprivilegiadas significa abolir a avaliação de mérito, teremos de admitir e aprovar todas as pessoas que se interessem por um diploma, inclusive todos os privilegiados. Teremos também de abolir aquele importante instrumento de democratização da docência baseado no mérito, os concursos públicos.

A anulação do mérito implicaria a maximização do quadro que meu artigo denunciou: a transformação do direito à educação em direito ao diploma; do diálogo entre docentes e discentes em obstrução ao ensino; e da democratização da educação em redução do rigor acadêmico. Tal condescendência, além de humilhar aqueles a quem diz beneficiar, significa o fim do dever profissional do docente, que é ensinar.

Aos colegas que pensam que professores são necessariamente opressores e que a autoridade docente é por definição autoritária, pergunto: por que seguem em tão odiosa profissão?

Aos que persistimos na docência, coloco outras perguntas. Quem democratiza mais a educação? São os professores que ensinam o mesmo a todos os alunos, mantêm o mesmo nível de exigência e os avaliam de forma igualitária? Ou são os professores que, por receio de carteiradas retaliativas ou por desastradas boas intenções, distribuem notas, aprovações e diplomas como se fossem esmolas para expiar culpas?

Eu poderia dizer que os professores do segundo grupo são covardes que fogem de problemas e, às vezes, cedem a verdadeiras chantagens de alunos-consumidores. Mas, ao contrário dos que me acusam de covardia por usar um pseudônimo, sei que não me compete julgar o caráter alheio. O que diriam meus críticos sobre um autor de textos tão corajosos como George Orwell, que usou esse pseudônimo por medo do fracasso?

Meu pseudônimo é como a máscara que usamos nesta pandemia: protege quem a usa e protege outras pessoas. Não é por acaso que governantes autoritários também chamam de covardes quem pratica o distanciamento social e usa máscara. Que, na controvérsia sobre meu uso de pseudônimo, a palavra “covarde” e suas variantes tenham sido tão usadas para me atacar, e que quase ninguém tenha mencionado a ética subjacente à minha decisão, são outros espantosos sintomas da cultura neoliberal-autoritária compartilhada por partes da direita e da esquerda.

O que me preocupa e denuncio não é a covardia de ninguém. É a escandalosa quebra de ética representada pela abdicação do dever de ensinar – e de avaliar. Aprovar alunos que não se esforçam, conceder diplomas não merecidos, eliminar e facilitar exames, não lecionar conteúdos essenciais e não cobrar seu aprendizado, tudo a pretexto de não excluir ninguém, são, infelizmente, práticas corriqueiras que podem contribuir para a boa avaliação de um programa de pós-graduação por órgãos federais. Mas, definitivamente, não contribuem para maior inclusão educacional e social. Pior que isso, essas práticas dão aos alunos-consumidores um presente traiçoeiro: a ilusão de que receberam uma formação. A condescendência na educação é uma imensa mentira discriminatória, que quer aprovar e dar diplomas a todos, mas educar a poucos.

Devo deixar claro que de forma nenhuma penso que os alunos que menos se dedicam aos estudos ou mais exigem privilégios individuais são os que entraram na universidade graças à democratização do ensino. Minha experiência pessoal como docente coincide totalmente com o que diz a réplica de meus colegas: a performance de alunos cotistas não é inferior à de não cotistas. E digo mais: a maioria de meus alunos vindos de grupos desprivilegiados é mais séria e capaz que a maioria dos brancos egressos de escolas privadas e de elite.

É a certeza de que alunos oriundos de grupos tradicionalmente excluídos não deixam nada a dever aos de grupos privilegiados que me faz insistir na importância de ensinar o mesmo conteúdo e exigir o mesmo alto nível de todos. Fazer o contrário, como quer o condescendente neoliberalismo de esquerda, perpetua e incrementa desigualdades ao oferecer um ensino de pior qualidade a pessoas cujo mérito não tem nada de inferior. Baixar o nível do ensino justamente quando se democratiza a universidade é uma cruel perversidade. É como dizer aos novos convidados para uma festa que eles são muito bem-vindos, mas que a comida, a bebida, a música e a conversa já acabaram.

*BENAMÊ KAMU ALMUDRAS, Sob pseudônimo, é docente de graduação e de pós-graduação em uma universidade pública de São Paulo.

fecho

Este foi originalmente publicado pela revista Piaui [Aqui!].

Encontro Global por uma Recuperação Justa. Por que a justiça climática importa

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#justiçaclimática importa e deve ser para todos e todas!! Muito além de ser discutida nas cúpulas internacionais, a justiça climática precisa chegar às comunidades tradicionais e às periferias.

Vamos debater sobre isso junto com lideranças incríveis? Junte-se a nós nesse papo que vai rolar no Encontro Global por uma Recuperação Justa.

Inscreva-se em: recuperacaojusta.org.

#recuperacaojusta #recuperaçãojusta

Editorial do “Washington Post” ataca Jair Bolsonaro por condução “charlatanesca” da pandemia da COVID-19 e por suas tentações autoritárias

O presidente Jair Bolsonaro não conseguiu impedir a COVID-19. Agora ele pode estar visando a democracia (brasileira)

bolsonaro wpO presidente brasileiro Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, em Brasília, nesta quarta-feira. (Ueslei Marcelino / Reuters)

Opinião do Conselho Editorial do “The Washington Post”

O BRASIL ESTÁ vivendo um dos piores picos de infecções por covid-19 que o mundo já viu. Na quarta-feira, ele registrou 3.869 mortes, um recorde que representou quase um terço de todas as mortes por coronavírus no mundo naquele dia. Não há fim para a onda à vista: graças à espantosa incompetência do presidente Jair Bolsonaro e seu governo, apenas 2% dos brasileiros foram totalmente vacinados, e as medidas de bloqueio necessárias para retardar novas infecções, incluindo de uma variante altamente contagiosa que surgiu em Brasil, são praticamente inexistentes.

Em vez de lutar contra o coronavírus, Bolsonaro parece estar preparando as bases para outro desastre: um golpe político contra os legisladores e eleitores que poderiam removê-lo do cargo. Com alguns no Congresso ameaçando impeachment, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva emergindo como um potente adversário nas eleições do ano que vem, Bolsonaro despediu o ministro da Defesa nesta semana e os principais comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica saíram junto de seus postos.

Não foram dadas explicações, mas o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, era conhecido por tratar um presidente que se referiu às Forças Armadas no mês passado como “os meus militares.O Sr. Bolsonaro escolheu seu ex-chefe de gabinete para substituir o Sr. Azevedo e Silva e nomeou um policial próximo à sua família como o novo ministro da Justiça. As medidas foram suficientes para levar seis prováveis ​​candidatos à presidência a emitir uma declaração conjuntaalertando que “a democracia brasileira está ameaçada”. “O claro plano de apoio do Bolsonaro”,escreveu o editor-chefe Brian Winter no Americas Quarterly, “é ter tantos homens armados do seu lado quanto possível no caso de um impeachment ou um resultado adverso na eleição de 2022”.

Embora as instituições democráticas do Brasil sejam relativamente fortes após mais de três décadas de consolidação, há motivos para preocupação. Bolsonaro expressou abertamente sua admiração pela ditadura militar que governou o país nas décadas de 1960 e 1970. Admirador de Donald Trump, ele adotou a tática do ex-presidente dos Estados Unidos de alertar sobre fraude nas próximas eleições e exigir que os sistemas de votação eletrônica sejam substituídos por cédulas de papel. Ele apoiou as alegações de Trump sobre fraude eleitoral, e seu filho, um legislador que visitou Washington, DC, na véspera de 6 de janeiro, expressou consternação porque o ataque ao Capitólio não teve sucesso.

O Congresso brasileiro pode propor o impeachment de Bolsonaro por sua péssima gestão da pandemia, incluindo minimizar sua gravidade, resistir às medidas de saúde pública e promover curas charlatanescas. Mas as democracias dos Estados Unidos e da América Latina devem prestar atenção à medida que as eleições do próximo ano se aproximam – e deixar claro para Bolsonaro que uma interrupção da democracia seria intolerável. O presidente brasileiro já contribuiu muito para o agravamento da pandemia da COVID-19 em seu próprio país e, por meio da disseminação da variante brasileira, pelo mundo. Ele não deve ter permissão para também destruir uma das maiores democracias do mundo.

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e foi publicado pelo “The Washington Post” [Aqui!].

Brasil liderou perda global de florestas tropicais em 2020

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Mesmo com a pandemia desacelerando o mundo em 2020, o mundo registrou um aumento substancial na perda de floresta tropical. Dados revelados nesta 4ª feira (31/3) pela plataforma Global Forest Watch, do WRI, apontam que o ritmo de destruição cresceu 12% no ano passado, com uma perda de 4,2 milhões de hectares de floresta primária tropical – uma área equivalente ao território dos Países Baixos. Esse desmatamento também foi responsável pela liberação de 2,6 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, um volume de poluição igual àquela emitida em um ano por uma frota de 570 milhões de automóveis, dez vezes maior do que a frota brasileira.

Falando em nosso país, o Brasil encabeçou a lista de nações com as maiores perdas florestais em 2020, com alta de 25% na comparação com o ano anterior, o que resultou na perda de 1,7 milhão de hectares de floresta tropical – três vezes mais que o 2º colocado nesse ranking, a República Democrática do Congo. A maior parte da área de floresta perdida no Brasil se deu na Amazônia, com a derrubada de 1,5 milhão de hectares de vegetação nativa no ano passado. De acordo com o WRI, a abertura de novas áreas para a produção de commodities foi a principal causa da perda de cobertura arbórea (em florestas primárias e secundárias) na América Latina e no Sudeste Asiático, enquanto a agricultura de rotação é o fator mais relevante na África tropical. O levantamento destacou também o impacto de grandes incêndios registrados no ano passado, como os que consumiram boa parte do Pantanal brasileiro.

Os dados do Global Forest Watch foram repercutidos por AFPBloombergGuardianReutersValor e Washington Post, entre outros.

ClimaInfo, 1º de abril de 2021.

fecho

Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui].