Jeitinho até na fila da vacinação contra a COVID-19 expõe as entranhas da sociedade brasileira

vacina fila idosos

Vacina contra covid-19 não chega em UBS de Moema (sul da cidade de São Paulo) e idosos ficam horas em pé em fila.  COSME RÍMOLI/R7

A par das lamentáveis cenas de “turistas” enfrentando de forma agressiva as barreiras sanitárias colocadas em regiões de praia que decidiram que a chegada deles não é bem vinda neste momento, há um outro lado também pouco pitoresco na atual fase da pandemia da COVID-19 no Brasil que é o uso do famigerado “jeitinho brasileiro” nas filas (ou na furação delas) de vacinação. 

E não pense que estou falando apenas daquele grupo de políticos e empresários de Minas Gerais que decidiram montar o seu próprio serviço de vacinação comprando vacinas sabe-se lá onde e como. Esse caso é apenas a faceta mais ignóbil de uma parte das elites brasileiras que se acha acima do bem e do mal.  A furação da fila que eu estou falando envolve, o que eu chamaria, de “gente como a gente”, mas que na hora “H” e no dia “D” (só para lembrar do agora ex-ministro Eduardo Pazuello) está optando por usar aquela faceta do “jeitinho brasileiro” com o “você sabe com quem está falando

Aqui mesmo em Campos dos Goytacazes tenho recebido relatos diversos sobre práticas que envolvem desde a concessão de atestados para estudantes de graduação recém-saídos da adolescência (sob a desculpa insustentável que estão na linha de frente do combate à pandemia), passando pela formação de grupos de “pessoas especiais” que pertencem a determinadas categorias profissionais, e chegando até na simples manipulação das filas com a tática “um carro, famílias inteiras”.  Enquanto isso, aqueles que deveriam estar sendo vacinados são expostos a graves humilhações, ficando horas esperando pelo momento de serem vacinados, enquantos os “espertos” fulam a vez, e ainda têm o desplante de postar imagens do momento da “furada” em suas redes sociais.

Toda essas manobras para furar a fila da vacina são práticas que revelam as tripas de uma sociedade baseada na segregação e na concentração de oportunidades nas mãos de uma minoria. Somos assim todos os dias, mas o que está acontecendo nas filas de vacinação tem o dom de expor o odor fétido que pulsa nas veias de uma sociedade que preza mais a esperteza individual do que a solidariedade coletiva. É a mistura acabada entre o jeitinho e o “você sabe com quem está falando?”. 

Aí quando se revelam esse especialmente maldoso do “jeitinho brasileiro” há quem culpe este ou aquele governante, pedindo que se organize as filas e se imponha a ordem das coisas. Ainda que haja a necessidade da intervenção do aparato estatal para se colocar “um mínimo de ordem na casa”, para mim está mais claro do que nunca que o único remédio para essa doença individualista é que saiamos da calma olímpica que nos caracteriza para uma posição ativa de ostracização daqueles que se acham “mais iguais do que os demais”. Só assim teremos uma chance de formar uma sociedade que preze a solidariedade e o coletivo.

EUA tentam assumir protagonismo na luta contra as mudanças climáticas. E agora, Bolsonaro?

Joe Biden convida 40 chefes de governo para a cúpula do clima em abril. Vladimir Putin e Xi Jinping também são convidados, apesar de todas as tensões. E: Os EUA prometem melhoria em termos de emissões.

bidenO presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, quer retomar a tradição de George W. Bush e Barack Obama e realizar uma cúpula sobre o clima com outros chefes de governo. © Carlos Barria / Reuters

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, quer fazer avançar os esforços para proteger o clima e também convidou os presidentes da Rússia e da China para uma cúpula online. O governo dos Estados Unidos anunciou que Biden emitiu convites para um total de 40 políticos internacionais para o evento online nos dias 22 e 23 de abril. Além do chefe do Kremlin, Vladimir Putin, e do chefe de Estado e do partido da China, Xi Jinping, eles também incluem a chanceler alemã, Angela Merkel, e a presidente da Comissão da UE, Ursula von der Leyen. O evento será transmitido ao vivo pela Internet.

EUA querem anunciar meta de emissões mais ambiciosa

De acordo com a Casa Branca, a cúpula tem como objetivo sublinhar a urgência de medidas mais fortes para a proteção do clima e seus benefícios econômicos. Antes disso, os EUA anunciariam “uma meta ambiciosa de emissões” para 2030 como uma nova contribuição para o Acordo Climático de Paris. Biden pediu a outros chefes de estado e de governo que usem a reunião online para se comprometer com uma maior economia também. A próxima conferência climática da ONU será em novembro em Glasgow, na Escócia.

Pouco depois de assumir o cargo em janeiro, Biden anunciou que iria convocar uma cúpula do clima em 22 de abril – Dia da Terra . Os presidentes dos Estados Unidos, George W. Bush e Barack Obama, já haviam realizado reuniões nas quais as maiores economias do mundo trocavam opiniões sobre a mudança climática. Sob o comando do antecessor de Biden, Donald Trump, que repetidamente expressou dúvidas sobre a mudança climática, as conferências não existiam mais e os EUA se retiraram do Acordo de Paris. No dia em que prestou juramento, Biden ordenou seu retorno. Ele reiterou repetidamente que os EUA desempenhariam um papel de liderança na implementação do acordo.

Ao contrário do republicano Trump, o democrata Biden fez da proteção climática um de seus objetivos mais importantes – a Casa Branca fala de uma “emergência climática”. Pouco depois de assumir o cargo, Biden nomeou o ex-secretário de Estado John Kerry como enviado especial do clima, membro do Conselho de Segurança Nacional nessa função. Na semana passada, Kerry pediu mais ambição internacional na proteção do clima em um congresso online organizado pelo governo federal.

Ainda não está claro se Putin e Xi participarão da cúpula online. As tensões com a China e a Rússia se intensificaram sob Biden. Os EUA e seus aliados decidiram sancionar a China por reprimir a minoria muçulmana uigur. Em entrevista, Biden também afirmou que achava que Putin era um assassino e ameaçou a Rússia com novas sanções porque o país havia tentado influenciar a eleição presidencial. Os governos dos dois países rejeitam as acusações.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal Die Zeit  [Aqui!].

Por um “Mais médicos da COVID-19”, tragam os cubanos de volta

mais medicos

Uma das primeiras consequências da eleição de Jair Bolsonaro foi a retirada de quase 10 mil médicos cubanos que atuavam nas periferias pobres e nos rincões mais distantes do território brasileiro. Com a saída dos especialistas cubanos pôs-se fim ao exitoso e combatido programa lançado pela presidente deposta Dilma Rousseff, o “Mais Médicos”.

Depois de pouco mais de dois anos daquela saída estrepitosa e que foi saudada com alegria pela maioria da classe médica brasileira, um incontável número de vagas em unidades hospitalares voltadas para o tratamento dos infectados pelo Sars-Cov-2 estão ociosas porque os médicos brasileiros estão decidindo não ocupá-las, provavelmente porque o risco da infecção não é compensado pelos salários oferecidos. Com isso, temos hoje milhares de brasileiros infectados e passando graves dificuldades de saúde, aguardando leitos e até morrendo sem que sejam acolhidos para tratamento.

Em minha modesta opinião, os governadores e prefeitos que hoje estão adotando medidas de isolamento social deveria também iniciar um movimento nacional para pressionar o presidente Jair Bolsonaro para que educadamente solicite ao governo de Cuba o envio de suas brigadas de médicos especializados em tratamento de doenças altamente infecciosas como é o caso da COVID-19.  Essas brigadas já vem atuando em diversos países, inclusive na Europa, e conseguido contribuir para reverter cenários extremamente difíceis, como foi o da Itália na primeira onda da COVID-19. Se o presidente Bolsonaro se recusar a solicitar a ajuda cubana, que governadores e prefeitos mobilizem o Congresso Nacional para que isso se dê via a ação do parlamento. O fato é que o Brasil precisa dos médicos cubanos para ter uma espécie de “Mais Médicos contra a COVID-19”.

O que não é possível é continuarmos vendo o avanço destroçador da pandemia e não pedir a ajuda de quem tem todas condições de nos ajudar a superar a situação catastrófico em que fomos metidos por um governo negacionista como é o de Jair Bolsonaro.

Em suma: tragam de volta os médicos cubanos! E que desta vez eles não cheguem nos nossos aeroportos sob vaias e protestos daqueles que podendo auxiliar a população brasileiro estão preferindo ficar na segurança dos seus lares, e muitos deles já vacinados.

Avaliação EXAME/Idea mostra derretimento da imagem do governo Bolsonaro

BRAZIL-POLITICS-BOLSONARO-TOURISM

A mais recente pesquisa de opinião liberada sobre o desempenho do governo Bolsonaro, que foi feita pela parceria Exame/Idea, traz várias más noticias para o presidente Jair Bolsonaro, muito em função do mau desempenho no controle da pandemia da COVID-19 e da péssima performance da economia brasileira em meio ao avanço do número de mortes.

Um primeiro dado importante que eu selecionei do relatório se refere ao desempenho pessoal do presidente Jair Bolsonaro que agora atingiu 49% de aprovação em um processo de escalada que se aproxima dos piores níveis de performance obtidos em meados do ano passado (ver figura abaixo).

exame 1

Outro dado é que, ao contrário do defendido por Jair Bolsonaro e pelos setores mais “raiz” do Bolsonarismo, a maioria da população brasileira concorda com as medidas de isolamento social que visam diminuir a curva contaminação do Sars-Cov-2, em uma proporção que chega praticamente a quatro vezes o número dos que se opõe às ações restritivas (ver figura abaixo).

exame 2

Para piorar ainda mais a situação do presidente Jair Bolsonaro, uma maioria significativa (71%) dos que participaram da pesquisa da Exame/Idea, são favoráveis à abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar os responsáveis pela má gestão da Saúde durante a pandemia da COVID-19 e, em específico, a crise que se abateu sobre a cidade de Manaus, um dos principais epicentros da doença em todo o planeta (ver figura abaixo).

exame 3

O problema para o presidente Jair Bolsonaro e seu governo fica ainda mais grave quando essas 3 questões são colocadas em conjunto, pois demonstra não apenas que o descrédito em relação ao presidente da república está em processo de aceleração, como há também uma tendência a apoiar as medidas restritivas e, pior, para eventual encontrar culpados pela gravíssima situação em que o Brasil se encontra neste momento.

Se as pesquisas de opinião continuarem captando esse nível de desgaste, a pressão política sobre o presidente Bolsonaro irá certamente aumentar, com resultados ainda imprevisíveis.

Quem desejar ler a pesquisa da Exame/Idea na sua integra, basta clicar [Aqui!]

Reservatórios de inclinação: o problema da água vai além da escassez

O crescimento populacional, as mudanças no comportamento do consumidor e as mudanças climáticas não estão apenas tornando a preciosa água mais escassa, mas também a tornando pior

sul ndOlhando para o sul do reservatório de Passaúna no Brasil. Foto: UFPR / Tobias Bleninger

Por Ingrid Wenzl para o Neues Deutschland

Os últimos anos na Europa Central deram-nos uma antevisão do que as secas ainda nos podem esperar. Se for utilizada a tecnologia de emissões negativas BECCS (bioenergia com captura e armazenamento de CO2), o problema de escassez de água em algumas regiões do mundo pode até se agravar. Este é o resultado de um estudo publicado no início deste mês na revista Nature Communications.

Fabian Stenzel do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK) e seus colegas estão assumindo um aumento na área de cultivo global para plantações de energia de até seis milhões de quilômetros quadrados. Se o BECCS fosse usado com irrigação convencional, a área e o número de pessoas afetadas pelo estresse hídrico hoje dobrariam até o final do século. No caso de aquecimento global não controlado sem BECCS, eles aumentariam em cerca de 80 por cento, com BECCS em combinação com gestão sustentável da água em 60. Este último compreende essencialmente dois componentes: “Um é usar os recursos hídricos disponíveis de forma mais eficiente, o outro é extrair para regular a água ”, explica Stenzel. Isso poderia ser feito por meio de cotas fixas ou mesmo proibições de retirada de água ou por meio de preços correspondentes no mercado.

A gestão dos reservatórios também envolve a gestão inteligente da água, porque o aumento das temperaturas também põe em risco a qualidade da água. O Harz Rappbodetalsperre é o maior reservatório de água potável da Alemanha. Fornece cerca de um milhão de pessoas. Se as emissões de gases do efeito estufa continuarem a aumentar como antes, a água da superfície poderá aquecer quatro graus nos próximos 70 anos. Isso o tornaria tão quente quanto o Lago de Garda hoje. Essa é a conclusão de Karsten Rinke, do Centro Helmholtz de Pesquisas Ambientais (UFZ), e sua equipe germano-chinesa em estudo publicado na revista “Science of the Total Environment” no final do ano passado.

O que mais preocupa os cientistas é a situação nas camadas mais profundas do lago, a uma profundidade de 50 metros e abaixo, de onde é retirada a água para o tratamento da água potável. No cenário business-as-usual, por exemplo, as temperaturas aumentaram quase três graus, enquanto com uma redução nas emissões de CO2 para zero líquido em 2100 e o cenário intermediário RCP 6.0 no final do século, elas permaneceram abaixo de cinco graus durante todo o ano.

“Se a temperatura subir para oito graus Celsius, o consumo de oxigênio quase dobra em função dos processos respiratórios e de decomposição dos organismos”, explica o primeiro autor Chenxi Mi, que está fazendo doutorado na UFZ sobre os efeitos do clima no Rappbodetalsperre. Isso é ainda mais sério porque os lagos são estratificados de forma estável no verão e as águas profundas são isoladas da atmosfera. Se essa condição persistir por um longo período de tempo, os nutrientes e metais ligados são liberados do sedimento e favorecem o florescimento de algas ou o crescimento de bactérias. Isso aumenta consideravelmente o esforço para o tratamento da água potável.

Isso também é observado por um consórcio germano-brasileiro liderado pelo Karlsruhe Institute of Technology (KIT) em seu projeto “Aquisição multidisciplinar de dados como a chave para a gestão de recursos hídricos de aplicação global” (MuDak-WRM), que apresentou seus resultados na semana passada. “Nos subtropicais, há muito ferro aglutinante de fósforo no solo e, portanto, também no sedimento do reservatório. No entanto, o ferro só liga o fósforo enquanto houver oxigênio suficiente na água ”, explica o coordenador do projeto Stephan Hilgert. Se o fósforo for liberado, isso pode fazer com que as algas verde-azuladas de repente se multipliquem de forma massiva e a água tombe. O monitoramento confiável é necessário para identificar ou prevenir tais cenários em um estágio inicial.

Mas faltam dados para isso em muitos lugares. Hilgert e sua equipe desenvolveram, portanto, modelos e técnicas de medição que são tão simples, baratos e geralmente utilizáveis ​​quanto possível. “O foco está em tecnologias baseadas em satélites ou drones, capazes de cobrir grandes áreas”, diz o geoecologista. Uma peça central do mosaico é a automação da avaliação dos dados. “O objetivo é que o operador possa montar um quadro da fase em que seu reservatório se encontra e derivar tendências para o futuro a partir dele.”

Em seu projeto, Hilgert e colegas examinaram insumos exemplares de substâncias por meio da erosão e insumos de águas residuais do ambiente urbano da Grande Dhünntalsperre na Renânia do Norte-Vestfália e do reservatório brasileiro de Passaúna. Na verdade, a erosão das terras agrícolas é a principal fonte de fósforo neste último.Averificou-se que a florestação de três por cento da área agrícola na bacia hidrográfica do lago era suficiente para reduzir a entrada de fósforo em cerca de um quarto. No entanto, como as condições dos reservatórios são diferentes ao redor do mundo, o resultado só pode ser transferido em uma extensão limitada.

Mas Rinke e sua equipe também encontraram uma solução para o problema do aumento do aquecimento das águas profundas no Rappbodetalsperre usando simulações de modelo: Ao contrário do passado, eles estão propagando águas superficiais em vez de águas profundas para as regiões mais baixas. “Isso libera o calor adicional causado pela mudança climática”, diz Rinke. No entanto, também há um limite aqui: se o ar aquece mais de seis graus, o aumento da temperatura nas águas profundas não pode mais ser evitado.

Os últimos anos na Europa Central deram-nos uma antevisão do que as secas ainda nos podem esperar. Se for utilizada a tecnologia de emissões negativas BECCS (bioenergia com captura e armazenamento de CO2), o problema de escassez de água em algumas regiões do mundo pode até se agravar. Este é o resultado de um estudo publicado no início deste mês na revista Nature Communications.

Fabian Stenzel do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK) e seus colegas estão assumindo um aumento na área de cultivo global para plantações de energia de até seis milhões de quilômetros quadrados. Se o BECCS fosse usado com irrigação convencional, a área e o número de pessoas afetadas pelo estresse hídrico hoje dobrariam até o final do século. No caso de aquecimento global não controlado sem BECCS, eles aumentariam em cerca de 80 por cento, com BECCS em combinação com gestão sustentável da água em 60. Este último compreende essencialmente dois componentes: “Um é usar os recursos hídricos disponíveis de forma mais eficiente, o outro é extrair para regular a água ”, explica Stenzel. Isso poderia ser feito por meio de cotas fixas ou mesmo proibições de retirada de água ou por meio de preços correspondentes no mercado.

A gestão dos reservatórios também envolve a gestão inteligente da água, porque o aumento das temperaturas também põe em risco a qualidade da água. O Harz Rappbodetalsperre é o maior reservatório de água potável da Alemanha. Fornece cerca de um milhão de pessoas. Se as emissões de gases do efeito estufa continuarem a aumentar como antes, a água da superfície poderá aquecer quatro graus nos próximos 70 anos. Isso o tornaria tão quente quanto o Lago de Garda hoje. Essa é a conclusão de Karsten Rinke, do Centro Helmholtz de Pesquisas Ambientais (UFZ), e sua equipe germano-chinesa em estudo publicado na revista “Science of the Total Environment” no final do ano passado.

O que mais preocupa os cientistas é a situação nas camadas mais profundas do lago, a uma profundidade de 50 metros e abaixo, de onde é retirada a água para o tratamento da água potável. No cenário business-as-usual, por exemplo, as temperaturas aumentaram quase três graus, enquanto com uma redução nas emissões de CO2 para zero líquido em 2100 e o cenário intermediário RCP 6.0 no final do século, elas permaneceram abaixo de cinco graus durante todo o ano.

“Se a temperatura subir para oito graus Celsius, o consumo de oxigênio quase dobra em função dos processos respiratórios e de decomposição dos organismos”, explica o primeiro autor Chenxi Mi, que está fazendo doutorado na UFZ sobre os efeitos do clima no Rappbodetalsperre. Isso é ainda mais sério porque os lagos são estratificados de forma estável no verão e as águas profundas são isoladas da atmosfera. Se essa condição persistir por um longo período de tempo, os nutrientes e metais ligados são liberados do sedimento e favorecem o florescimento de algas ou o crescimento de bactérias. Isso aumenta consideravelmente o esforço para o tratamento da água potável.

Isso também é observado por um consórcio germano-brasileiro liderado pelo Karlsruhe Institute of Technology (KIT) em seu projeto “Aquisição multidisciplinar de dados como a chave para a gestão de recursos hídricos de aplicação global” (MuDak-WRM), que apresentou seus resultados na semana passada. “Nos subtropicais, há muito ferro aglutinante de fósforo no solo e, portanto, também no sedimento do reservatório. No entanto, o ferro só liga o fósforo enquanto houver oxigênio suficiente na água ”, explica o coordenador do projeto Stephan Hilgert. Se o fósforo for liberado, isso pode fazer com que as algas verde-azuladas de repente se multipliquem de forma massiva e a água tombe. O monitoramento confiável é necessário para identificar ou prevenir tais cenários em um estágio inicial.

Mas faltam dados para isso em muitos lugares. Hilgert e sua equipe desenvolveram, portanto, modelos e técnicas de medição que são tão simples, baratos e geralmente utilizáveis ​​quanto possível. “O foco está em tecnologias baseadas em satélites ou drones, capazes de cobrir grandes áreas”, diz o geoecologista. Uma peça central do mosaico é a automação da avaliação dos dados. “O objetivo é que o operador possa montar um quadro da fase em que seu reservatório se encontra e derivar tendências para o futuro a partir dele.”

Em seu projeto, Hilgert e colegas examinaram insumos exemplares de substâncias por meio da erosão e insumos de águas residuais do ambiente urbano da Grande Dhünntalsperre na Renânia do Norte-Vestfália e do reservatório brasileiro de Passaúna. Na verdade, a erosão das terras agrícolas é a principal fonte de fósforo neste último.Averificou-se que a florestação de três por cento da área agrícola na bacia hidrográfica do lago era suficiente para reduzir a entrada de fósforo em cerca de um quarto. No entanto, como as condições dos reservatórios são diferentes ao redor do mundo, o resultado só pode ser transferido em uma extensão limitada.

Mas Rinke e sua equipe também encontraram uma solução para o problema do aumento do aquecimento das águas profundas no Rappbodetalsperre usando simulações de modelo: Ao contrário do passado, eles estão propagando águas superficiais em vez de águas profundas para as regiões mais baixas. “Isso libera o calor adicional causado pela mudança climática”, diz Rinke. No entanto, também há um limite aqui: se o ar aquece mais de seis graus, o aumento da temperatura nas águas profundas não pode mais ser evitado.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

300 mil mortes pode ser uma subestimativa grosseira dos óbitos causados pela COVID-19 no Brasil

cemiterio

Por Matheus Magenta, da BBC News Brasil em Londres

300 mil mortes por COVID-19? Total já pode ter passado de 410 mil no Brasil, apontam pesquisadores.  Oficialmente, o Brasil ultrapassou nesta quarta-feira (24/3) a marca trágica de 300 mil mortos por covid-19 durante a pandemia. Mas registros hospitalares brasileiros apontam que o número de pessoas que morreram em decorrência de casos confirmados ou suspeitos da doença no país pode já ter passado de 410 mil.

Essa estimativa aparece em duas análises distintas, uma liderada por Leonardo Bastos, estatístico e pesquisador em saúde pública do Programa de Computação Científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e outra pelo engenheiro Miguel Buelta, professor titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Ambas se baseiam em dados oficiais de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), um quadro de saúde caracterizado por sintomas como febre e falta de ar.

A legislação brasileira estabelece que todo paciente que é internado no hospital com SRAG precisa obrigatoriamente ter seus dados notificados ao Ministério da Saúde por meio do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (conhecido como Sivep-Gripe). Esse sistema é utilizado há anos e permite saber quantos casos de infecções respiratórias necessitaram de hospitalização e evoluíram para óbito no país.

No primeiro semestre de 2019, foram registrados 3.040 óbitos por síndrome respiratória aguda grave. No mesmo período em 2020, foram registrados 86.651. Até o momento, de todas as pessoas com SRAG e resultado laboratorial para algum vírus na pandemia, mais de 99% acabaram diagnosticadas com covid.

Esses dados são considerados bons indicadores por não sofrerem tanto com a escassez de testes ou resultados falsos positivos. Mas há alguns problemas, entre eles o atraso: pode levar bastante tempo até uma internação ou uma morte ser contabilizada no sistema.

Então, como saber o número atual mais próximo da realidade? Como os pesquisadores chegaram à estimativa de 410 mil ou 415 mil mortes por doença respiratória grave?

Projeção do agora

Bem, os cientistas fazem o que se chama de nowcasting, que grosso modo é uma projeção não do futuro (forecasting), mas do agora. Isso se faz ainda mais necessário durante a pandemia por causa dessa demora da entrada dos registros de hospitalizações e mortes no sistema digitalizado.

É como se os dados disponíveis hoje no sistema oficial formassem um retrato desatualizado e cheio de buracos. Para preencher e atualizar essa imagem, é preciso calcular, por exemplo, qual é o tamanho desse atraso, de uma morte de fato à entrada do registro dela no sistema, a fim de “prever” o que está acontecendo atualmente.

Bastos lidera análises de nowcasting numa parceria que envolve o Mave, grupo da Fiocruz de Métodos Analíticos em Vigilância Epidemiológica, e o Observatório Covid-19 BR, grupo que reúne cientistas de diversas instituições (como Fiocruz, USP, UFMA, UFSC, MIT e Harvard).

“(O nowcasting) corrige os atrasos do sistema de notificação vigente, isto é, adianta-se as notificações oficiais futuras pelo tempo médio entre a ocorrência dos primeiros sintomas no paciente e a hospitalização, quando há o registro dos seus dados no sistema de vigilância. Esse tempo abrange várias etapas: desde procurar um hospital, coletar o exame, o exame ser realizado e o resultado do teste positivo para COVID-19 estar disponível para ser incluído no banco de dados. O tempo acumulado entre essas etapas do processo causa atrasos de vários dias entre o número de casos confirmados no Sivep-Gripe (plataforma oficial de vigilância epidemiológica) e os casos ainda não disponíveis no sistema, que são compensados somando aos casos já confirmados uma estimativa de casos que devem ser confirmados no futuro”, detalha o Observatório COVID-19 BR.

A dificuldade de monitorar em “tempo real” o que acontece durante epidemias é global, e diversos cientistas ao redor do mundo tentam achar soluções para esse problema.

Os cálculos atuais sobre a pandemia no Brasil liderados por Bastos foram feitos a partir da adaptação de um modelo estatístico proposto em 2019 por ele e mais oito pesquisadores.

Para apontar um retrato atual mais preciso da pandemia, essa modelagem estatística (hierárquica bayesiana) corrige os atrasos dos dados incorporando nos cálculos, por exemplo, a partir do conhecimento prévio da ciência sobre o que costuma acontecer durante o espalhamento de doenças como gripe. Mais detalhes no artigo disponível neste link aqui.

Para chegar até o número de 415 mil mortes por SRAG, Bastos explica à BBC News Brasil que são analisados primeiro os dados da semana atual e da anterior, a fim de identificar quantos casos e óbitos tiveram uma semana de atraso.

“Assim, aprendemos a respeito do atraso e usamos isso para ‘prever’/corrigir a semana atual e as últimas 15 semanas. O total de 415 mil mortes por SRAG é a soma dos casos observados acumulados até 15 semanas atrás com as estimativas mais recentes corrigidas.”

cemitério 2Cemitério no bairro Bom Jardim, em Fortaleza. Fonte: JARBAS OLIVEIRA/AFP

Em sua análise, Miguel Buelta, professor da USP, aponta um número parecido.

Ele explica em seu perfil no Twitter que analisou os dados de óbitos por COVID e SRAG até 14 de março e calculou a subnotificação dos últimos 60 dias a partir dos dados atrasados que foram entrando no sistema no período. “Fiz o cálculo para 14/01/2021. Subnotificação = 37% naquela data. Se este valor fosse mantido até hoje, no lugar dos 300 mil óbitos, poderíamos ter hoje 410 mil.”

Mas Buelta acredita que o valor pode ser ainda maior. “A situação atual é muito mais emergencial. É uma tragédia. Vamos todos lutar contra isso. Isolamento social e ajuda emergencial. Fora disso não há solução.” Mais detalhes sobre o modelo estatístico usado por ele aqui neste link.

1,7 milhão de internados

Na análise liderada por Bastos, da Fiocruz, estima-se que o Brasil tenha registrado mais de 1,7 milhão de internações durante a pandemia de coronavírus por causa de doenças respiratórias graves. Na pandemia de H1N1, em 2009, o total foi de 202 mil hospitalizações.

Ao se debruçar sobre os dados, ele aponta ainda uma tendência de piora na ocupação de hospitais no Distrito Federal e em nove Estados: Rondônia, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Maranhão, Ceará e Minas Gerais.

Todos eles têm mais de 20 hospitalizações por 100 mil habitantes. Em Rondônia, essa taxa chega a 49, por exemplo.

Por outro lado, Rio Grande do Sul e Santa Catarina parecem ter conseguido conter a tendência de alta das hospitalizações. Isso, no entanto, pode significar tanto que a situação melhorou quanto que não tem mais como o número piorar dada a superlotação dos hospitais. De todo modo, ambos os Estados ainda estão em um patamar bastante elevado, acima de 20 hospitalizados por 100 mil habitantes.

“Hospitalizações e óbitos só vão reduzir quando uma boa parcela das populações prioritárias, segundo o Programa Nacional de Imunização, forem imunizadas. Antes disso, sem uma redução efetiva da transmissão, veremos onda depois de onda”, afirma Bastos.

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Este texto foi publicado pela BBC News Brasil [Aqui!].

Fake news: inalação com solução de água sanitária pode expor pessoas a riscos sérios

Sistema CFQ/CRQs e Abipla se unem no combate à desinformação

FAKE NEWS

Circula nas redes sociais um vídeo sugerindo que a inalação de uma substância formada por água, bicarbonato de sódio e hipoclorito de sódio (água sanitária) ajuda a prevenir e curar a COVID-19. Preocupados com a desinformação, o Sistema CFQ/CRQs (Conselho Federal de Química e 21 Conselhos Regionais) e a Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes (Abipla) divulgaram, nesta quinta-feira (25), Nota Oficial sobre o perigo dessa inalação. O objetivo é orientar a população neste momento grave da pandemia.

A nota destaca que os produtos saneantes, tais como a água sanitária, foram desenvolvidos para utilização sobre superfícies inanimadas, jamais para aspersão sobre a pele e menos ainda para inserção nas vias respiratórias. A inalação proposta é possível através da aquisição de produtos simples e acessíveis a maior parte da população, o que aumenta a possibilidade de sua utilização em massa e potencializa seus riscos.

“Compreendemos que, neste momento de pandemia, grupos acabam tentados a experimentações sem qualquer tipo de controle ou registro técnico de resultados. Em consequência, é previsível que se promova a divulgação de tais experimentos. A nós, como profissionais da Química e representantes da indústria do setor de higiene e limpeza, cabe o alerta de que as consequências dessas iniciativas são invariavelmente danosas à saúde. Quaisquer substâncias são completamente seguras apenas quando obedecidas as instruções dos fabricantes que foram previamente analisadas e aprovadas pela Anvisa”, diz a nota.

O Sistema CFQ/CRQs e a Abipla reforçam ainda no documento que as “medidas de distanciamento social, higiene pessoal e vacinação em massa são as principais iniciativas respaldadas na Ciência e, por enquanto, as que devem ser consideradas para o controle da pandemia”.

Veja a íntegra da nota:

NOTA CFQ/ABIPLA SOBRE VÍDEO QUE DESINFORMA AO PROPOR INALAÇÃO COM SOLUÇÃO DE ÁGUA SANITÁRIA PARA COVID-19

É com profunda preocupação que o Sistema CFQ/CRQs, composto pelo Conselho Federal de Química (CFQ) e pelos 21 Conselhos Regionais de Química (CRQs), observa uma crescente no volume de desinformação que circula nas redes sociais e especialmente via aplicativos de mensagens instantâneas. Por tal razão, nos somamos à Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes de Uso Doméstico e de Uso Profissional (ABIPLA) na difusão do presente alerta à sociedade.

Nos últimos dias, um vídeo em especial traz apreensão pelos potenciais riscos a que expõe a população. Trata-se de um relato em primeira pessoa em que um homem sugere a inalação de uma solução envolvendo, entre outros produtos, água sanitária e bicarbonato de sódio para nebulização de infectados com o vírus Sars-Cov-2, responsável pela Covid-19.

Como é de conhecimento geral, o tratamento precoce para essa doença é um assunto polêmico, que carece de comprovações científicas e que divide opiniões até entre os próprios médicos. Medidas de distanciamento social, higiene pessoal e vacinação em massa são as principais iniciativas respaldadas na Ciência e, por enquanto, as que devem ser consideradas para o controle da pandemia.

A solução proposta no vídeo em questão expõe a riscos sérios aqueles que a aplicam: esses produtos foram desenvolvidos para utilização sobre superfícies inanimadas, jamais para aspersão sobre a pele e menos ainda para inserção nas vias respiratórias. A inalação proposta é possível através da aquisição de produtos simples e acessíveis a maior parte da população, o que aumenta a possibilidade de sua utilização em massa e potencializa seus riscos.

Substâncias químicas possuem aplicabilidades diversas no cotidiano das pessoas, e muitas delas são indispensáveis direta ou indiretamente para a nossa própria saúde: basta lembrar dos medicamentos ou dos produtos de limpeza que, entre outras funcionalidades, eliminam bactérias e vírus de ambientes comuns.

É preciso ter em mente, entretanto, que para que essas substâncias promovam os benefícios que delas se espera são necessários diversos testes e ensaios. Esse período de testagem se dá em condições controladas de uso, tudo para que sejam garantidas à população a eficácia e a segurança na utilização – desde que, claro, sejam mantidas as condições para as quais foram testadas e indicadas pelos fabricantes.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), agência reguladora responsável pela regularização e monitoramento de uma série de produtos químicos destinados ao suporte a saúde, emite frequentes alertas relativos aos riscos assumidos pela população sempre que condições e destinações de uso são alteradas deliberadamente por cidadãos comuns – ou até mesmo por profissionais que atuam sem qualquer suporte técnico ou sanitário oficial, condição que somente a Anvisa poderia assumir.

Destacamos que a essa alteração de destinação de uso de produtos químicos a Anvisa chama “Desvio de Finalidade”, sendo previstas pela lei advertências e penalidades aos autores desta infração.

Compreendemos que, neste momento de pandemia, grupos acabam tentados a experimentações sem qualquer tipo de controle ou registro técnico de resultados. Em consequência, é previsível que se promova a divulgação de tais experimentos. A nós, como profissionais da Química e representantes da indústria do setor de higiene e limpeza, cabe o alerta de que as consequências dessas iniciativas são invariavelmente danosas à saúde. Quaisquer substâncias são completamente seguras apenas quando obedecidas as instruções dos fabricantes que foram previamente analisadas e aprovadas pela Anvisa.

Como supracitado, no caso específico da água sanitária, trata-se de saneante regulado pela Anvisa de aplicação exclusiva para higienização de superfícies inanimadas e hortifrutícolas, em solução diluída. A ABIPLA reforça ainda os termos da NOTA TÉCNICA Nº 47/2020/SEI/COSAN/GHCOS/DIRE3/ANVISA que diz que é aconselhável o uso de luvas, máscara e óculos para manuseio seguro destes produtos, pois possui grau de corrosividade à pele, olhos e mucosas, portanto, em nenhuma hipótese recomenda-se a inalação, ingestão ou exposição à pele deste tipo de substância em animais ou humanos.

Brasília, 24 de março de 2021

 

José de Ribamar Oliveira Filho

Presidente do Conselho Federal de Química

 

Paulo Engler Carvalho Pinto Jr.

Diretor-executivo da ABIPLA

“Haverá mais mutações (do coronavírus) no Brasil”

Primeiro Manaus, agora todo o Brasil: por trás do aumento maciço de pessoas mortas e infectadas por corona no Brasil estão provavelmente outras variantes do Sars-CoV-2

nzz 1Um coveiro cava sepulturas para vítimas de COVID-19 em Manaus. Bruno Kelly / Reuters

Por Alexander Busch, em Salvador, para o Neue Zürcher Zeitung

Primeiro, foi a metrópole amazônica de Manaus que registrou um aumento maciço de pessoas infectadas e mortas em janeiro. Exatamente como há um ano. Mas agora todo o Brasil se tornou uma área de desastre da COVID-19. Com mais de 12 milhões de infectados, o Brasil é o país com o maior número de portadores de COVID-19 no mundo, depois dos EUA. Com 354 infectados por milhão de habitantes, menos pessoas estão infectadas atualmente no Brasil do que na Itália. Mas o sistema de saúde do país amazônico está chegando ao limite. As unidades de terapia intensiva estão sobrecarregadas em quase todo o Brasil. Mais de 3.200 pessoas morrem atualmente de Covid-19 todos os dias. A estimativa do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Estado do Rio de Janeiro, não pode ser descartada entre 4 mil e 5 mil mortes por dia.

“A capacidade de mutação e a velocidade do coronavírus são extremamente altas”, disse em entrevista Marilda Mendonça Siqueira, chefe do laboratório de vírus respiratórios e sarampo da Fiocruz. Em uma sociedade como a brasileira, que desenvolveu poucos anticorpos fora dos hot spots como Manaus e quase não é vacinada, o vírus se espalha mais rápido e inevitavelmente desenvolve novas mutações. “Isso significa que o clima no Brasil para o desenvolvimento de novas variantes do Sars CoV-2 continua favorável”, diz ela.

Novas variantes com defesa imunológica mais fraca?

A nova variante Sars-CoV-2 chamada P.1, que só foi descoberta em novembro, agora dominaria em muitos estados brasileiros. Mas também uma nova variante P.2 agora pode ser comprovada com cada vez mais frequência. Uma nova variante foi descoberta na semana passada, até agora denominada provisoriamente de N9 no instituto. É uma mutação da mutação E484K, que também ocorre na variante do vírus britânico (B.1.1.7) e no P.1, que foi descoberto pela primeira vez em Manaus. Esta mutação E484K provavelmente enfraquece o sistema imunológico humano porque torna os anticorpos menos responsivos.

nzz2Técnico de laboratório se prepara para fabricar a vacina AstraZeneca no Brasil.  Wagner Meier / Getty

O instituto de pesquisas com sede no Rio tem grande reputação internacional e uma longa tradição no combate a vírus e no desenvolvimento de vacinas nos trópicos: foi fundado em 1900 para combater a epidemia de peste. Em sua história, o instituto desenvolveu vacinas próprias contra febre amarela e varíola. A Fiocruz agora também está produzindo uma vacina para brasileiros em colaboração com a Oxford /AstraZeneca. Junto com o Instituto Butantan de São Paulo, que também produz suas próprias vacinas em conjunto com a chinesa Sinopharm, o Brasil é um dos pouco menos de uma dezena de países do mundo que podem produzir eles próprios vacinas contra o coronavírus.

O Brasil já podia vacinar muito mais há muito tempo. Mas no ano passado o presidente Jair Bolsonaro boicotou tanto a compra de soros quanto as ofertas de empresas farmacêuticas internacionais para trabalhar com os dois laboratórios. Só depois que o número de casos explodiu novamente é que o governo Bolsonaro cedeu no final de janeiro e não mais obstruiu ativamente a produção de vacinas no Brasil.

O farmacologista e bioquímico Siqueira hesita em explicar o aumento explosivo do número de infecções no Brasil com as novas mutações. “Ainda não temos séries de números homogêneas e confiáveis ​​para que possamos estabelecer uma relação causal entre P.1 ou P.2 e o curso da infecção.”

Um grupo de pesquisa brasileiro-britânico (Cadde) afirmou recentemente que o P.1 de Manaus é transmitido mais facilmente por um fator de 1,4 a 2,2 do que as variantes convencionais do vírus. Por isso, apesar da suspeita de imunidade de rebanho ali, após o alto número de infecções há um ano, houve novamente um aumento maciço de infecções em Manaus. De acordo com um estudo de anticorpos, dois terços das pessoas na metrópole isolada de Manaus foram infectadas em abril e maio do ano passado e, portanto, devem estar imunes.

Siqueira, por outro lado, explica o alto número de infecções e mortes em Manaus dizendo que o governo cortou as capacidades adicionais de tratamento e análise lá em um estágio inicial. Além disso, grande parte da população negligenciou quase completamente o distanciamento social mêses atrás. Essa combinação é fatídica e se aplica a todo o Brasil.

nzz3Apesar da pandemia, as pessoas estão se divertindo na praia do Rio de Janeiro.  Pilar Olivares / Reuters

Siqueira também não quer confirmar a suposição de que as novas variantes do vírus estão infectando mais jovens. É difícil comparar a primeira fase da infecção com a atual: “Há um ano tivemos um bloqueio extremamente difícil por mais de três meses”, explica Siqueira. Agora as pessoas voltariam a viajar, as escolas estavam parcialmente abertas. “Aqui no Rio de Janeiro os bares ficam lotados até as seis da tarde.” Portanto, todas as informações sobre maiores taxas de infecção e transferibilidade com imunidade anterior são bastante especulativas, diz Siqueira. “As condições são completamente diferentes hoje.” Mesmo que se possa presumir uma taxa de infecção mais alta, isso é difícil de provar. “Simplesmente não temos uma série homogênea e confiável de números sobre o curso das várias mutações do vírus.”

Na verdade, comparativamente poucas amostras de pessoas infectadas são sequenciadas no Brasil. Isso deixa uma imagem incompleta de quantas novas variantes do vírus estão se espalhando. As amostras foram enviadas para sequenciamento em apenas 0,03% dos casos da COVID-19, de acordo com a Gisaid, uma plataforma com dados sobre genomas de coronavírus. Em outros países, como o Reino Unido, essa taxa chega a 5%. A variante P.1 circulando na Amazônia também foi detectada pela primeira vez no Japão.

No entanto, Siqueira rejeita as críticas à insuficiência de pesquisas no Brasil – mesmo que ela mesma aponte para a falta de séries de dados. No Brasil, por exemplo, a variante do vírus P.2 foi descoberta pela primeira vez e agora o N9. Além disso, poucos países são tão transparentes em suas pesquisas quanto o Instituto Fiocruz estadual, que atualiza constantemente seus dados e os torna públicos.

Vacina chinesa eficaz contra o vírus de Manaus

Por exemplo, a Fiocruz publicou dados de pesquisa no site no final da semana passada indicando que a vacina AstraZeneca/Oxford protege contra a variante brasileira P.1 do novo coronavírus, semelhante à cepa britânica (B.1.1.7). Em outro estudo, a Fiocruz já havia verificado que a vacina Coronavac da China, amplamente utilizada no Brasil, é eficaz contra a variante P.1.

A eficácia das vacinas para as variantes brasileiras também dá esperança: embora o presidente Jair Bolsonaro tenha negado a pandemia como uma “gripe inofensiva” por meses e boicotado o trabalho das autoridades de saúde, o Brasil agora foi capaz de aumentar as vacinações com uma rapidez surpreendente. As campanhas de vacinação só começaram em meados de janeiro. Apesar disso, já foram distribuídas cerca de 16 milhões de doses de vacinas. Isso corresponde a cerca de 7% da população adulta. Siqueira destaca que as vacinações que já foram concluídas para os brasileiros mais velhos (acima de 70 anos) podem ter levado a um aumento comparativamente maior nos infectados mais jovens.

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neue Zürcher Zeitung [Aqui!].

Os 60 maiores bancos do mundo despejaram US$ 3,8 trilhões em combustíveis fósseis desde o Acordo de Paris

Financiamento a petróleo, gás e carvão segue em níveis elevados mesmo em meio à crise econômica global, mostra relatório de organizações pelo clima

bancos caos

 

Passados mais de cinco anos desde a assinatura do Acordo de Paris, os maiores bancos do mundo continuam a financiar massivamente a expansão dos combustíveis fósseis, em um sinal de desconexão alarmante entre o consenso científico global sobre a crise climática e as práticas do mercado financeiro.

É o que revela a 12ª edição do mais abrangente relatório global sobre financiamento de bancos a combustíveis fósseis. Intitulado Banking on Climate Chaos 2021, o documento expande seu foco, este ano, dos 35 para os 60 dos maiores bancos do mundo e revela que, desde 2016, esses bancos injetaram mais de US$ 3,8 trilhões em operações ligadas aos setores de petróleo, gás e carvão.

De autoria das organizações Rainforest Action Network, BankTrack, Rede Ambiental Indígena, Oil Change International, Reclaim Finance e Sierra Club, o estudo e é endossado por mais de 300 organizações de 50 países ao redor do mundo, inclusive a 350.org.

Os piores do mundo

O relatório nomeia os maiores financiadores de combustíveis fósseis em todo o mundo e aponta o JPMorgan Chase como o pior banco de forma geral. Também indica o RBC como o pior do Canadá, o Barclays como o pior do Reino Unido, o BNP Paribas como o pior da União Europeia, o MUFG como o pior no Japão e o Banco da China como o pior em seu país.

Ainda conclui que o financiamento de combustíveis fósseis foi maior em 2020 do que em 2016, uma tendência que se opõe diretamente à meta declarada do Acordo de Paris de reduzir rapidamente as emissões de carbono com o objetivo de limitar o aumento da temperatura global a 1,5 °C.

Mesmo em meio a uma recessão econômica induzida por uma pandemia, que resultou em uma redução generalizada do financiamento de combustíveis fósseis de cerca de 9%, os 60 maiores bancos do mundo ainda aumentaram em mais de 10% seu financiamento em 2020 para as 100 empresas mais responsáveis ​​pela expansão dos combustíveis fósseis.

Esse comportamento beneficia empresas responsáveis por projetos altamente polêmicos, como o oleoduto de areias betuminosas da Linha 3, nos Estados Unidos, e a expansão do fracking próximo a terras de comunidades indígenas Mapuche, na região da Patagônia argentina.

Bancos dos EUA e da China lideram o retrocesso

As instituições financeiras com sede nos Estados Unidos continuam a ser as maiores impulsionadoras globais de emissões em 2020, com o JPMorgan Chase permanecendo como o pior “banco de fósseis” do mundo. O Chase comprometeu-se recentemente a alinhar suas políticas de crédito ao Acordo de Paris, mas segue com o financiamento irrestrito aos combustíveis fósseis. De 2016 a 2020, as atividades de crédito e subscrição do Chase forneceram quase US$ 317 bilhões para combustíveis fósseis, 33% a mais do que o Citi, o segundo pior “banco fóssil” no período avaliado.

Já os 10 maiores financiadores de carvão desde a adoção do Acordo de Paris são todos chineses. O Banco da China, maior banco do mundo, lidera o ranking, seguido pelo ICBC (Banco Industrial e Comercial da China) e pelo China CITIC Bank. O financiamento geral dos bancos para as 30 maiores empresas de energia a carvão em 2020 caiu 9% em relação a 2019, mas permanece em um nível muito alto de US$ 39 bilhões.

“Diante da perspectiva de uma recessão global, o investimento em infraestrutura de energia a carvão se tornará ainda mais arriscado para os países tomadores de empréstimos e credores. Uma transição global para um futuro de baixo carbono já está em andamento e uma transição completa do carvão é uma oportunidade para um novo paradigma econômico de prosperidade e equidade”, afirma Yossi Cadan, gerente de campanha de finanças globais da 350.org

O relatório também examina os compromissos de política climática dos bancos, apontados como “grosseiramente insuficientes e desalinhados com os objetivos do Acordo de Paris em geral”. Muitas das políticas dos bancos concentram-se na meta distante e mal definida de alcançar “emissões líquidas zero até 2050” ou apenas na restrição de financiamento aos combustíveis fósseis não-convencionais.

Além disso, as políticas bancárias são mais fortes no que diz respeito às restrições para financiamento direto relacionado a projetos, uma frente que representa apenas 5% do financiamento total de combustível fóssil analisado neste relatório.

As organizações responsáveis pelo relatório estão unidas em sua exigência de que o respeito aos direitos indígenas, incluindo o direito à consulta livre, prévia e informada e aos direitos humanos de forma ampla, seja um requisito não-negociável para todas as decisões de financiamento bancário.

Aspas sobre o relatório

Ginger Cassady, diretor executivo da Rainforest Action Network

“A queda sem precedentes no financiamento global para combustíveis fósseis, provocada pela pandemia, oferece aos maiores bancos do mundo um ponto de escolha radical no futuro. Eles podem manter a trajetória descendente de apoio ao setor responsável pela crise climática ou irresponsavelmente retomar os negócios como antes, à medida em que a economia se recupera. Os bancos com sede nos EUA continuam a ser os piores financiadores de combustíveis fósseis, por uma ampla margem. Conforme nos aproximamos da Cúpula do Clima em Glasgow, no fim deste ano, o que está em jogo não poderia ser mais importante. Wall Street deve agir agora para interromper o financiamento da expansão fóssil e se comprometer com um cenário de zero fósseis, de modo a alinhar verdadeiramente suas práticas de financiamento com iniciativas que evitem que o planeta se aqueça mais de 1,5°C” .

Tom Goldtooth, diretor executivo da Rede Ambiental Indígena

“Devemos entender que, ao financiar a expansão do petróleo e do gás, os maiores bancos do mundo têm sangue em suas mãos. Nenhuma quantidade de greenwashing, mercados de carbono, soluções tecnológicas não-comprovadas ou compromissos líquidos zero pode absolver seus crimes contra a humanidade e a Mãe Terra. Terras Indígenas em todo o mundo estão sendo saqueadas, nossos direitos inerentes estão sendo violados e o valor de nossas vidas foi reduzido a nada em face da expansão dos combustíveis fósseis. Pela sacralidade e integridade territorial da Mãe Terra, esses bancos devem ser responsabilizados a cobrir o custo de sua destruição”.

Lucie Pinson, fundadora e diretora executiva da Reclaim Finance

“Esses números mostram o vazio dos compromissos dos bancos, que se multiplicam incessantemente, ao se declararem líquidos ou em consonância com os objetivos climáticos do Acordo de Paris. Um exemplo perfeito encontra-se na França. O ministro das Finanças, Bruno Le Maire, gosta de chamar Paris de capital das finanças verdes, mas esses dados mostram a cidade como a capital da hipocrisia climática em 2020, com quatro bancos inescrupulosos tornando a França o maior patrocinador europeu de petróleo, gás e carvão. O BNP Paribas merece ser apontado como o quarto maior financiador de fósseis do mundo em 2020, tendo canalizado empréstimos multimilionários para gigantes do petróleo como BP e Total. No entanto, está claro que todos os bancos devem substituir suas promessas vazias por políticas realmente significativas que promovam tolerância zero para desenvolvedores de combustíveis fósseis”

Ben Cushing, gerente de campanha de promoção financeira do Sierra Club

“Muitos dos maiores bancos do mundo, incluindo todos os seis principais bancos dos EUA, assumiram compromissos espetaculares nos últimos meses para zerar o impacto climático de seus financiamentos nos próximos 30 anos. Porém, o que mais importa é o que eles estão fazendo agora, e os números não mentem. Esse relatório separa palavras de ações e mostra um quadro alarmante: grandes bancos ao redor do mundo, liderados pelos EUA, estão alimentando o caos climático, ao despejar trilhões de dólares nos combustíveis fósseis que causam essa crise. Os grandes bancos não merecem um tapinha nas costas, se suas promessas para 2050 não forem combinadas com ações significativas em 2021 para cortar o financiamento fóssil”.

Johan Frijns, diretor da BankTrack

À medida que a Cúpula do Clima de Glasgow se aproxima – e Deus nos livre de que a pandemia impeça essa reunião essencial para enfrentarmos uma crise existencial ainda maior, que é a do clima – testemunhamos um banco após outro fazendo promessas solenes de alcançar o “zero líquido até 2050″. Não existe caminho para esse objetivo, que devemos alcançar em uma geração, que não seja lidar com o financiamento bancário para a indústria de combustíveis fósseis aqui e agora. No entanto, muitas promessas atuais carecem exatamente disso: um firme compromisso de começar a romper laços com todas as empresas de carvão, petróleo e gás que planejam continuar suas atividades de destruição climática nos próximos anos”.

Lorne Stockman, analista de pesquisa sênior da Oil Change International

“O relatório serve para dar conta da realidade dos bancos que acreditam que essas metas muito vagas de “zero líquido” são suficientes para conter a crise climática. Nosso futuro vai para onde o dinheiro flui e, até 2020, esses bancos têm investido bilhões para nos aprisionar em um caos climático ainda maior. Os bancos precisam se concentrar na redução da produção de combustíveis fósseis agora, em vez de estabelecer metas distantes e insuficientes no futuro distante. Não podemos seguir adiante com compromissos pela metade”.

Sobre a metodologia

O relatório Banking on Climate Chaos 2021 agrega empréstimos bancários e subscrição de emissões de dívida e ações, de acordo com a metodologia de crédito da liga da Bloomberg (que divide o crédito entre os bancos que conduzem uma transação) para empresas com qualquer atividade de combustível fóssil relatada de acordo com a Bloomberg Finance L.P. e a Lista Global de Saída de Carvão. O crédito da liga atribuído a um banco para uma determinada transação é ajustado por uma aproximação da intensidade do combustível fóssil do tomador ou emissor específico.

As conclusões do rascunho do relatório são compartilhadas com os bancos com antecedência, e eles têm a oportunidade de comentar sobre as avaliações de financiamento e políticas.
 
 
Leia o relatório AQUI

Novo estudo aponta que leis estaduais estimulam invasão de terras públicas e desmatamento na Amazônia

Relatório do Imazon lançado nesta quarta-feira (24) aponta estímulos à grilagem de terras e desmatamento com leis e práticas de órgãos fundiários na Amazônia Legal

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O aumento expressivo de desmatamento observado em 2019 e 2020 trouxe evidência ao tema de regularização fundiária na Amazônia. Isso porque cerca de 40% da perda de florestas ocorre em uma área sem definição de direito à terra. Tramitam no Congresso diversos projetos que, em tese, se propõem a resolver o problema, mas acabam apenas por enfraquecer as salvaguardas ambientais. Na prática, a mudança de regras federais de regularização fundiária é uma medida insuficiente diante dos desafios enfrentados nesse tema, além de estimular novas ocupações de terras públicas e, assim, acabar por promover ainda mais o desmatamento na região. É o que mostra o relatório “Dez fatos essenciais sobre regularização fundiária na Amazônia Legal”, publicado nesta quarta-feira (24.03) pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, Imazon.

O estudo é o resultado de um levantamento feito entre 2016 e 2020, que envolveu entrevistas a representantes dos institutos de terra estaduais e a instituições que atuam no tema; revisão da legislação fundiária dos nove estados da Amazônia Legal, além de levantamento de dados junto a órgãos federais e estaduais.

“O tema da indefinição fundiária na Amazônia está sendo discutido hoje por diferentes públicos e fóruns nacionalmente, devido à relação entre desmatamento e grilagem de terras. Porém, é necessário compreender como as leis e práticas fundiárias contribuem com o desmatamento, para que a tomada de decisão nesse tema apoie de fato a conservação da floresta e garantia de direitos às populações que a protege, ao invés de gerar ainda mais estímulos à destruição da floresta. Com esse relatório, pretendemos auxiliar nesse processo de compreensão dos desafios e recomendar o que pode ser feito para que a União e os estados adotem leis e práticas fundiárias que contribuam com a conservação e redução de conflitos no campo”, explica Brenda Brito, pesquisadora do Imazon e coordenadora do estudo.

O relatório destaca dez fatos principais para entender como as leis e políticas fundiárias atuais acabam estimulando o desmatamento e a grilagem. Entre eles estão: i) a falta de destinação ou informações fundiárias em 28,5% da Amazônia Legal; ii) os governos estaduais como responsáveis pela maior parte do território sem destinação na região; iii) a falta de controle e planejamento para a destinação das terras públicas; iv) a ausência de procedimentos que garantam a destinação de terras públicas de acordo com a hierarquia definida no ordenamento jurídico, como a prioridade de reconhecimento de terras indígenas e áreas necessárias à conservação ambiental. Nesse último exemplo, os autores indicam que 43% das áreas sem destinação fundiária possuem prioridade para conservação, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente. Mas esse dado não é levado em consideração nos processos de regularização fundiária, o que pode levar à privatização associada a desmatamento nessas regiões.

Além disso, na análise dos pesquisadores do Instituto, a maioria das leis incentiva o roubo de terras públicas. “As leis fundiárias vigentes na Amazônia refletem uma visão de que a terra pública está disponível para ocupação e apropriação, o que é um estímulo para a continuidade de invasões no território. Isso ocorre porque poucas leis estaduais determinam qual a data limite em que um particular pode iniciar uma ocupação para receber um título de terra. Ou seja, ocupações ocorridas em qualquer ano, inclusive futuramente, seriam, a princípio, elegíveis para receber um título de terra. Mesmo aquelas leis que possuem um prazo acabam sendo alteradas para adiá-los. Casos recentes de mudanças nesse marco temporal incluem uma alteração na legislação federal em 2017 e em Roraima em 2019”, afirma Jeferson Almeida, pesquisador do Imazon e um dos autores do estudo.

O relatório também aponta que a desorganização das bases de dados dos órgãos fundiários é uma das limitações para criar um ambiente de compartilhamento de dados entre instituições, o que poderia agilizar a análise de pedidos de titulação e dar maior transparência às informações fundiárias. “Há vários estudos apontando que precisamos de um cadastro de terras unificado no Brasil para melhorar a gestão fundiária, e concordamos com essa sugestão. Porém, a situação que encontramos nos órgãos fundiários estaduais mostra que isso só ocorrerá se houver um investimento de médio prazo na organização e digitalização de suas bases de dados, para que as informações consigam ser compartilhadas”, destaca Brenda Brito.

Finalmente, os pesquisadores ressaltam a alta expectativa de lucro com a invasão de terra pública devido ao baixo valor cobrado pelos governos na titulação de médios e grandes imóveis. Em média, o valor base cobrado pelos governos estaduais na venda de terra pública corresponde a apenas 15% do valor de mercado, com dispensa de licitação. Já o governo federal cobra em média 26%. Além disso, sobre esse valor ainda podem incidir vários índices que reduzem ainda mais o preço final.

Essa diferença entre o valor cobrado pelo governo e o valor de mercado representa um subsídio àqueles que ocupam terras públicas. Os autores também ressaltam que não há garantia de que essa facilidade para pagamento será convertida em geração de empregos ou adoção de práticas mais sustentáveis de produção nos imóveis. Isso porque nenhum órgão de terra na região monitora as obrigações socioambientais que devem ser cumpridas nas áreas tituladas. “Se a finalidade do governo é incentivar a produção sustentável, os subsídios aplicados no valor da terra deveriam ser substituídos por outros ligados ao uso do imóvel após titulação. Ou seja, cobrar valor de mercado na venda dos imóveis, mas conceder abatimentos nas parcelas anuais ou remunerar com esquemas de pagamentos por serviços ambientais se os titulados cumprirem o Código Florestal ou adotarem prática de agricultura de baixo carbono”, ressalta Brenda Brito.

O relatório indica recomendações para que as legislações estaduais e a federal sejam revisadas e alteradas para se adequarem aos esforços de redução de desmatamento. Porém, Brenda Brito destaca que um dos atuais projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional para alterar a legislação fundiária vai na direção contrária. “As alterações propostas no Projeto de Lei nº 2.633/2020 e no Projeto de Lei n.º 510/2021 podem reafirmar vários dos incentivos à grilagem que identificamos em nosso estudo, pois possuem brechas que podem permitir a titulação de terras públicas invadidas futuramente, não impedem a titulação de áreas recém-desmatadas e também afrouxam a cobrança de dívidas de quem já recebeu título e não pagou”. Por isso, os autores sugerem propostas de alterações na legislação devem considerar os seguintes aspectos:

1. Instituir procedimento transparente e com ampla consulta para destinação de terras públicas. Isso aumentaria, por exemplo, a chance de identificar áreas em conflito e com demandas prioritárias de reconhecimentos territorial ou de conservação ambiental.
2. Proibir privatização de áreas predominantemente florestais. A privatização de áreas que possuem, por exemplo, mais de 80% de sua cobertura florestal, permite que parte dessa floresta seja desmatada legalmente, contribuindo com o desmatamento.
3. Definir um marco temporal que limite a data de ocupação de terras públicas passíveis de titulação, para aquelas leis que não possuem essa previsão. E também inserir nas Constituições Estaduais um artigo prevendo o impedimento da mudança desse marco temporal futuramente, reconhecendo de forma explícita para essa finalidade o princípio da vedação do retrocesso ambiental.
4. Determinar valores de imóveis compatíveis com o mercado de terras na regularização por venda. Além disso, repassar a tarefa de cobrar os valores a instituições financeiras, para que haja efetivamente o pagamento ou a execução das dívidas.

Para ler orelatório completo e a situação em cada estado, clique  [aqui].