Jeitinho até na fila da vacinação contra a COVID-19 expõe as entranhas da sociedade brasileira

vacina fila idosos

Vacina contra covid-19 não chega em UBS de Moema (sul da cidade de São Paulo) e idosos ficam horas em pé em fila.  COSME RÍMOLI/R7

A par das lamentáveis cenas de “turistas” enfrentando de forma agressiva as barreiras sanitárias colocadas em regiões de praia que decidiram que a chegada deles não é bem vinda neste momento, há um outro lado também pouco pitoresco na atual fase da pandemia da COVID-19 no Brasil que é o uso do famigerado “jeitinho brasileiro” nas filas (ou na furação delas) de vacinação. 

E não pense que estou falando apenas daquele grupo de políticos e empresários de Minas Gerais que decidiram montar o seu próprio serviço de vacinação comprando vacinas sabe-se lá onde e como. Esse caso é apenas a faceta mais ignóbil de uma parte das elites brasileiras que se acha acima do bem e do mal.  A furação da fila que eu estou falando envolve, o que eu chamaria, de “gente como a gente”, mas que na hora “H” e no dia “D” (só para lembrar do agora ex-ministro Eduardo Pazuello) está optando por usar aquela faceta do “jeitinho brasileiro” com o “você sabe com quem está falando

Aqui mesmo em Campos dos Goytacazes tenho recebido relatos diversos sobre práticas que envolvem desde a concessão de atestados para estudantes de graduação recém-saídos da adolescência (sob a desculpa insustentável que estão na linha de frente do combate à pandemia), passando pela formação de grupos de “pessoas especiais” que pertencem a determinadas categorias profissionais, e chegando até na simples manipulação das filas com a tática “um carro, famílias inteiras”.  Enquanto isso, aqueles que deveriam estar sendo vacinados são expostos a graves humilhações, ficando horas esperando pelo momento de serem vacinados, enquantos os “espertos” fulam a vez, e ainda têm o desplante de postar imagens do momento da “furada” em suas redes sociais.

Toda essas manobras para furar a fila da vacina são práticas que revelam as tripas de uma sociedade baseada na segregação e na concentração de oportunidades nas mãos de uma minoria. Somos assim todos os dias, mas o que está acontecendo nas filas de vacinação tem o dom de expor o odor fétido que pulsa nas veias de uma sociedade que preza mais a esperteza individual do que a solidariedade coletiva. É a mistura acabada entre o jeitinho e o “você sabe com quem está falando?”. 

Aí quando se revelam esse especialmente maldoso do “jeitinho brasileiro” há quem culpe este ou aquele governante, pedindo que se organize as filas e se imponha a ordem das coisas. Ainda que haja a necessidade da intervenção do aparato estatal para se colocar “um mínimo de ordem na casa”, para mim está mais claro do que nunca que o único remédio para essa doença individualista é que saiamos da calma olímpica que nos caracteriza para uma posição ativa de ostracização daqueles que se acham “mais iguais do que os demais”. Só assim teremos uma chance de formar uma sociedade que preze a solidariedade e o coletivo.

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