Soja da Amazônia não é “livre de desmatamento”

Abiove e Ministério da Agricultura divulgam informação falsa após ameaça do presidente francês

pulverizadoraMáquina pulveriza agrotóxico sobre plantação de soja na Amazônia Foto: © Bruno Kelly / Greenpeace

20% da soja dos biomas Amazônia e Cerrado foi produzida em imóveis rurais que desmataram, aponta estudo

Em resposta ao presidente da França, Emmanuel Macron, que ameaçou boicotar a soja brasileira em razão do desmatamento da Amazônia, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) afirmou em nota nesta terça-feira (12/01) que “a soja produzida no bioma Amazônia no Brasil é livre de desmatamento desde 2008 graças à Moratória da Soja, iniciativa internacionalmente reconhecida que monitora, identifica e bloqueia a aquisição de soja produzida em área desmatada no bioma, garantindo risco zero do envio de soja de área desmatada (legal ou ilegal) deste bioma para mercados internacionais”.

No mesmo tom, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) afirmou, em nota divulgada no dia seguinte, que “a soja brasileira não exporta desmatamento”.

A Moratória da Soja, uma iniciativa de ONGs ambientais com participação da Abiove e da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), tem de fato contribuído para reduzir a pressão sobre a floresta amazônica, mas isso não significa soja “livre” de desmatamento, nem que há “risco zero” de exportação de soja de áreas desmatadas no bioma ou que “a soja brasileira não exporta desmatamento”.

Segundo pesquisa publicada recentemente na Science, uma das mais importantes revistas científicas, cerca 20% da soja dos biomas Amazônia e Cerrado exportada para a União Europeia foi produzida em imóveis rurais que desmataram entre 2008 e 2018, desrespeitando o código florestal. O levantamento foi feito com base em informações declaradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e dados de exportação de soja.

Além disso, o estudo indica que 0,5 milhão de tonelada de soja da Amazônia é exportada para países europeus, contra 1,4 milhão de tonelada do Cerrado, embora esse bioma seja cinco vezes menor que a Amazônia. Isso reforça um problema que vem se agravando: o desmatamento no Cerrado, que em 2020 aumentou 13%segundo o Inpe, totalizando quase 50% de eliminação da vegetação nativa do bioma.

A manifestação da Abiove ocorreu logo após Macron afirmar, no Twitter, que “continuar a depender da soja brasileira seria o mesmo que apoiar o desmatamento da Amazônia”. Em seguida, ele completou: “Somos coerentes com nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa”. O presidente francês tem mantido posição contrária ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, sob alegação de que o Brasil precisa cumprir o Acordo de Paris e reduzir o desmatamento, gerando pressão sobre o governo Bolsonaro e acenando para agricultores locais.

Em 2019, o Brasil produziu 114 Mton de soja, das quais 28 Mton no bioma Amazônia e 40 Mton na Amazônia Legal (o que inclui o Cerrado de MT, MA e TO), aponta o professor da UFMG Raoni Rajão, um dos autores do estudo da Science, com dados do IBGE. Ou seja, a região é responsável por 25% a 35% da produção nacional, dependendo da definição territorial utilizada.

A exemplo da moratória da soja na Amazônia, ONGs têm pressionado as indústrias por um acordo para o Cerrado, com o objetivo de barrar a expansão da soja sobre a vegetação nativa. No entanto, após um longo período de tratativas, nenhum resultado concreto foi atingido. O governo, que participava dos grupos de trabalho e endossava a iniciativa voluntária, retirou-se das negociações na gestão Bolsonaro, sinalizando o desinteresse pelo combate ao desmatamento.

A moratória da soja começou a funcionar a partir de 2006, após forte pressão de ONGs sobre compradores internacionais, com o argumento de que eles estimulavam o desmatamento na Amazônia ao produzir a oleaginosa.

Para resolver o embate foi criado um grupo de trabalho e pactuado, entre as ONGs e a Abiove, que as indústrias não comprariam mais soja de produtores cuja área para produção no bioma Amazônia tenha sido desmatada após 2008, mesmo com autorização.

Foi criado um sistema de monitoramento privado com imagens de satélite nos principais municípios produtores de soja, que identifica quem descumpre as regras e bloqueia a compra por parte das indústrias.

De acordo com o último relatório sobre a moratória, divulgado em abril de 2020 (safra 2018/2019) pelo Grupo de Trabalho da Soja, 1,8% dos produtores de soja no bioma Amazônia estariam em desacordo, ou seja, desmataram após 2008. O documento também considera que após a implementação do acordo houve uma redução de 4,6 vezes da taxa média de desmatamento na Amazônia, atribuindo parte desse resultado à iniciativa. No entanto, segundo dados do Inpe, o desmatamento na Amazônia aumentou 34,5% em 2019 e 8,5% em 2018.

Na quinta-feira (14/1), Bolsonaro atacou o presidente francês, classificando suas declarações de “politicalha” e “campanha contra o Brasil”: “(…) Quanto de floresta tem a França? Porque eles falam tanto em reflorestamento, em dar dinheiro pra nós. Não tem que dar dinheiro pra nós, não, nós vamos dar mudas de árvores para você replantar, reflorestar aí (…)”. Ao contrário do Brasil, a França tem recuperado suas florestas desde o início da revolução industrial: em 1800 elas cobriam menos de 15% do território, hoje se aproximam dos 30%, mostrou o professor da UFMG.

fecho

Este texto foi inicialmente publicado pelo site Fakebook.eco [Aqui!].

Quando o oxigênio acabar

O número de infecções está explodindo na metrópole da floresta tropical de Manaus. Nos hospitais, muitos dependem de garrafas particulares de oxigênio

Virus Outbreak Vaccine

Um dos muitos enterros em um cemitério de Manaus no início de janeiro de 2021Foto: Edmar Barros / ap

BERLIN taz | As fotos aéreas das valas comuns no Brasil deram a volta ao mundo no início da pandemia corona. Agora, a metrópole de floresta tropical de Manaus, no norte do país, está novamente nas manchetes tristes. Na quinta-feira, os hospitais informaram que ficaram sem oxigênio.

Os funcionários já devem tentar ventilar os pacientes manualmente. Vídeos de pessoas carregando garrafas de oxigênio compradas de forma privada para hospitais para seus parentes doentes estão se tornando virais nas redes sociais . O diretor do maior hospital público enviou um apelo dramático por meio de grupos do Whatsapp: “Se alguém puder ajudar a manter a ventilação, por favor, precisamos de você!”

Mais de 206.000 pessoas já morreram de Covid-19 no Brasil – esse é o segundo maior número depois dos EUA. Manaus foi duramente atingida pela crise de saúde no início da pandemia. Agora, os números explodiram novamente: só nos primeiros doze dias do ano novo, mais de 2.000 novos infectados foram internados nos hospitais. Centenas estão em listas de espera por leitos de terapia intensiva e muitas pessoas sufocaram sem tratamento.

De acordo com especialistas, o rápido aumento de novas infecções pode ser devido a uma mutação do vírus descoberta no estado do Amazonas . Mas as medidas frouxas de isolamento e a negligência da população também são citadas como motivos.

O tradutor alemão Klaus Reuss, que mora em Manaus, disse ao taz que muita gente não cumpriu a regulamentação nas últimas semanas. Já aconteceram festas com milhares de convidados, as pessoas saíram às ruas sem máscaras, as lojas e os bares lotaram. Muitas comemorações de Natal e Ano Novo aconteceram sem restrições.

O Oxigênio da Venezuela

O governador do estado do Amazonas, Wilson Lima, admitiu a dramática situação em entrevista coletiva na quinta-feira e anunciou o toque de recolher entre 7 e 6 horas. Os pacientes da COVID-19 devem agora voar para outros estados e um suprimento emergencial de oxigênio foi acordado com um vizinho em crise, a Venezuela . Enquanto isso, internautas e celebridades estão coletando doações para poder enviar garrafas de oxigênio de maneira privada para o estado do Amazonas.

Por muito tempo, os especialistas advertiram sobre um novo colapso do sistema de saúde e declararam que a imunidade coletiva não era esperada na metrópole duramente atingida. No final de dezembro, o governador de direita Lima retirou um decreto para um novo bloqueio após pressão pública. A decisão foi celebrada por políticos de direita, como o filho do presidente Jair Bolsonaro.

O vice-presidente Hamilton Mourão disse na quinta-feira que garrafas de oxigênio serão transportadas para o estado em aeronaves militares. O presidente Bolsonaro falou na noite de quinta-feira ao lado de seu ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. Em um vídeo ao vivo, Bolsonaro, que repetidamente se referiu à Corona como uma “gripe menor”, zombou dos doentes e ignorou as advertências da Organização Mundial de Saúde (OMS), disse que a responsabilidade pelo caos em Manaus é do governo do estado e da prefeitura.

O ex-militar novamente elogiou a polêmica droga contra a malária , a cloroquina como uma droga milagrosa contra a COVID-19. O governo também é criticado por sua estratégia de vacinação. Por razões políticas, Bolsonaro levantou o ânimo contra uma vacina chinesa e declarou várias vezes que não seria vacinado em hipótese alguma.

O deputado federal de esquerda Marcelo Freixo encontrou no Twitter palavras claras: “Isso não é incompetência. O que estamos observando atualmente em Manaus são as consequências de crimes dolosos cometidos por Bolsonaro e seus cúmplices ”.

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal berlinense TAZ [Aqui!].

Ironia da pandemia: sufocada pela COVID-19, Manaus usará oxigênio trazido da Venezuela

Uma das formas mais corriqueiras que a extrema-direita utilizou nos últimos anos para criar pânico na população brasileira foi acenar com a possibilidade do nosso país ser transformado em uma nova Venezuela. Eis que agora, em meio ao agravamento da pandemia da COVID-19, que vem acossando de forma particularmente inclemente a cidade de Manaus, a empresa White Martins, principal fornecedora de oxigênio para o governo do Amazonas, informou que está atuando no sentido de importar o produto da Venezuela para suprir a alta demanda.

manaus venezuela

É preciso dizer que a proximidade geográfica entre o estado do Amazonas e a Venezuela é um dos elementos que justificam essa importação, mas não deixa de ser irônico que agora é o antigo exemplo de balbúrdia social e econômica que irá impedir que mais brasileiros morram sufocados em UTIs superlotadas na cidade de Manaus.

Aliás, há que se enfatizar que a situação em Manaus só chegou a esse ponto porque os apoiadores do governo Bolsonaro sabotaram de forma continuada os esforços para conter o crescimento da pandemia. Um exemplo disso foi a mobilização realizada em Dezembro para forçar a revogação do Decreto nº 43.234/2020 que impunha medidas para o enfretamento à COVID-19 no estado do Amazonas. 

Por último, o mais irônico de tudo isso é que o governo venezuelano, em um gesto geopolítico de grande significância, acaba de informar que irá disponibilizar o oxigênio necessário para socorrer Manaus (ver imagem abaixo com tweet do chanceler venezuelano Jorge Arreaza informando a realização de uma conversa com o governo do Amazonas, Wilson Lima (PSC)).wp-1610674296781.jpg

‘Chega de Promessas Vazias’: ativistas ambientais anunciam data para a próxima greve climática global

unnamed

Em meio às várias crises de saúde pública, sociopolíticas e econômicas que o mundo continua enfrentando ao entrar no novo ano, ativistas climáticas estão se preparando para a próxima Greve Climática Global em 19 de março para exigir ações imediatas, concretas e ambiciosas por parte de líderes mundiais em resposta à crise climática que está em curso. Parte do que elas querem destacar na próxima greve é ​​a urgência de ações imediatas perante os desastres relacionados ao tempo e ao clima que devastaram vários países no ano passado, desde os incêndios florestais que atingiram partes da Austrália, América do Norte e América Latina, até às secas na África, e as tempestades que assolaram a América Central e o Sudeste Asiático.

“A ciência é clara: as mudanças climáticas estão exacerbando os desastres naturais ao tornar esses eventos mais fortes, mais intensos, mais frequentes e, portanto, mais destrutivos”, disse João Duccini, ativista climático do Brasil. “A crise climática não é uma catástrofe distante. Ondas de calor, secas, inundações, furacões, deslizamentos de terra, desmatamentos, incêndios, perda de moradias e disseminação de doenças – é com isso que as pessoas e áreas mais afetadas estão lidando com cada vez com mais frequência nos dias de hoje. Nossas vidas dependem de ações imediatas”.

“Já se passaram cinco anos desde que o Acordo de Paris foi assinado. Já se passaram 3 anos desde que o relatório alarmante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) foi lançado”, disse Maya Ozbayoglu da Polônia. “Vários países em todo o mundo se comprometeram com promessas aparentemente ambiciosas de alcançar emissões ‘zero líquido’. Promessas vazias como essas podem ser um fenômeno muito perigoso, porque dão a impressão de que ações suficientes estão sendo tomadas, mas na verdade não é o caso, pois essas metas estão cheias de falhas, contas criativas e suposições não científicas”.

unnamed (1)

Por mais de dois anos, jovens ativistas climáticas de todo o mundo têm feito greves e saído às ruas para exigir justiça climática. Agora, com a pandemia COVID-19, as ações tomarão diferentes formas em diferentes lugares, mas nosso apelo por #ChegaDePromessasVazias está unindo as pessoas além das fronteiras, sob o mesmo objetivo de obter ação climática imediata.

“Quando sua casa está pegando fogo, você não espera 10, 20 ou 30 anos antes de chamar o corpo de bombeiros. Em caso de emergência, você age o mais rápido que puder.” disse Greta Thunberg da Suécia.

Hub de Ação

Pela primeira vez, haverá um “Centro de Ação” para ativistas e grupos locais em todo o mundo. Será um local para obter recursos e informações, bem como uma oportunidade para trocar ideias (para ações durante a COVID-19) e de ajuda mútua. Ele será sustentado pela contribuição e participação de grupos locais de todo o mundo. O Hub irá ao ar em sua primeira versão no dia 13 de janeiro. Depois disso, ainda haverá recursos adicionais que serão adicionados.

https://fridaysforfuture.org/march19/

“A ciência é clara – a mudança climática está exacerbando os desastres naturais tornando esses eventos mais fortes, mais intensos, mais frequentes, e portanto mais destrutivos. “A crise climática não é uma catástrofe distante. Ondas de calor, secas, inundações, furacões, deslizamentos de terra, desmatamentos, incêndios, perda de moradias e disseminação de doenças – é com isso que as pessoas e áreas mais afetadas estão lidando com cada vez com mais frequência nos dias de hoje. Nossas vidas dependem de ações imediatas”.

– João Duccini, Brasil

“Se não agirmos agora, não teremos nem mesmo a chance de cumprir as metas de 2030, 2050 que os líderes mundiais continuam falando. O que nós precisamos agora não são promessas vazias, mas metas anuais obrigatórias de carbono e cortes imediatos nas emissões em todos os setores de nossa economia. Quando sua casa está pegando fogo, você não espera 10, 20 anos antes de ligar para o corpo de bombeiros; você age o mais rápido que puder.”

– Mitzi Jonelle Tan, Filipinas

“Quantas vezes devemos dizer para vocês que a temperatura está aumentando e que vocês devem parar de adicionar GEEs na atmosfera, quantas vezes nós devemos dizer para vocês seguirem a ciência, quantas vezes devemos dizer para vocês tratarem a crise como uma crise, quantas vezes devemos dizer para vocês que nós estamos cansados de palavras e que precisamos de ações. ‘Alguns de vocês, quando nos veem falando sobre isso vocês acham que é uma piada e que não sabemos do que estamos falando, agora o próximo passo é mudar o sistema’ Não se surpreendam quando substituirmos todos vocês.”

– Nyombi Morris ,Uganda

“Se os líderes mundiais quisessem para a crise climática, eles já teriam feito. A única coisa que tem sido feita por 25 anos de COP é que os líderes mundiais não querem agir ou entender a gravidade da situação. Milhões morreram por causa de suas promessas vazias; não vamos mais esperar por ação, vamos educar, agitar e organizar para um presente e futuro justos e equitativos “

– Disha A Ravi, Índia

“Isso não é sobre crenças – isso é sobre o que está acontecendo, o que nós estamos perdendo, e o que nós nunca vamos restaurar ou recuperar. Não estamos perguntando se você acredita ou não nas mudanças climáticas, na ciência ou se você acha que esta é apenas uma fase do ciclo terrestre. Estamos pedindo que você aja, nos ouça e nos proteja. Não é isso que as pessoas no poder deveriam fazer?

Você não pode nos impedir, não aceitaremos um não como resposta, mudanças estão vindo quer vocês gostem ou não.”

– Lourdes Zair, Argentina

“Viver em um país pequeno com o maior manguezal e a maior praia marítima é uma benção da natureza. Mas a mudança climática está afogando as bênçãos com negligência para nós e outros países do MAPA. E enquanto estamos sofrendo, vocês nem se quer acreditam. Escutem a ciência e tomem ações imediatas. Você não pode deixar todos morrerem pelo seu tal desenvolvimento e capitalismo. Não temos tempo suficiente para esperar que sua visão destrutiva chegue a um fim. Precisamos de ação imediata. ‘Não morra porque não tem nada para fazer; morra porque essa é a última coisa que você pode fazer. Tome ação, AGORA!!!!’”

Farzana Faruk Jhumu, Bangladesh

“Nós moramos em uma pequena ilha no sudoeste do Oceano Índico (o oceano mais quente) e o capitalismo está destruindo nossa casa. O capitalismo [e o consumismo] está matando lentamente todos nós. Mauritius é uma das últimas ilhas a ser povoada pelo homem, mas é um dos locais mais degradados do planeta. Como um pequeno Estado insular em desenvolvimento (SIDS), estamos meramente contribuindo para a crise climática, mas a vivemos (da elevação do nível do mar, às secas), assim como a Ilha da Reunião, Rodrigues e Madagascar. Precisamos começar a perceber que estamos enfrentando a maior crise do mundo, que estamos no meio de uma extinção em massa. Não importa as ações climáticas ou medidas de adaptação que tomemos, elas nunca serão suficientes a menos que os países nórdicos parem suas emissões. Vamos priorizar “meio ambiente em vez de economia” e “pessoas em vez de lucro”. Caras corporações e governos, parem de brincar com nosso futuro e ajam AGORA !! “

– Fridays For Future Mauritius

#ChegaDePromessasVazias

@fridaysforfuture

fridaysforfuturebrail

Até a última esquina

Qual o papel da agricultura e dos mercados globalizados nas doenças transmitidas por animais?

fireSe florestas e espécies desaparecem,  um complexo ecossistema é danificado. Foto: AFP

Por Haidy Damm para o Neues Deutschland

Após um longo cabo de guerra, espera-se que especialistas cheguem à China hoje, quinta-feira, que, em nome da Organização Mundial de Saúde (OMS), junto com cientistas chineses, vão pesquisar se o coronavírus pode ser rastreado até sua origem. Mesmo que o local de origem não tenha sido pesquisado de forma conclusiva, é amplamente indiscutível que COVID-19 é uma zoonose, ou seja, uma doença que resultou da transmissão entre animais e humanos. Existem alguns, incluindo raiva, gripe suína e ebola. No entanto, essas doenças raramente desencadeiam uma pandemia, como no caso da gripe espanhola em 1918 ou COVID-19, como explica o Instituto Friedrich Löffler de Saúde Animal.

No entanto, o coronavírus não será a última pandemia, disse o Secretário-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, no final de 2020 e advertiu: Todas as tentativas de melhorar a situação da saúde no mundo estão fadadas ao fracasso, desde que os humanos não tomem medidas eficazes contra as mudanças climáticas e para o bem-estar animal . “A pandemia destacou os vínculos estreitos entre a saúde humana, animal e do planeta”, disse Tedros.

O Conselho de Biodiversidade das Nações Unidas (IPBES) também assume em um relatório que há uma ameaça de novas pandemias no futuro, porque as mudanças “na maneira como usamos a terra afetam a expansão e intensificação da agricultura, bem como o comércio, produção e consumo insustentáveis natureza e levar a mais contato entre animais selvagens, animais de fazenda, patógenos e humanos”, diz Peter Daszak, zoólogo da delegação da OMS. “É assim que surgem as pandemias.” Só a mudança no uso da terra causou a ocorrência de mais de 30% das novas doenças relatadas desde 1960. A ecologista indiana Vandana Shiva afirma: “Doenças como o coronavírus podem nos ameaçar em todo o mundo ao invadir os habitats de outras espécies e espalhar monoculturas ao redor do mundo.”

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson, por outro lado, culpou a medicina tradicional chinesa pelo surto de coronavírus. “Vem de morcegos ou pangolins, da crença insana de que você ganha potência ou o que as pessoas acreditam se você moer as escamas de um pangolim“, disse Johnson no One Planet Summit na segunda-feira. “Surge dessa colisão entre a Humanidade e a natureza, e temos que impedir isso.”

Johnson poderia se basear na opinião de profissionais especializados em sanidade animal. O presidente da Associação Veterinária para o Bem-Estar Animal, Thomas Blaha, explicou em uma discussão técnica do grupo parlamentar Verde sobre pecuária e epidemias que as zoonoses surgem em culturas arcaicas onde há muito contato humano-animal. Ele defende sistemas de baias fechadas que garantam higiene e, portanto, biossegurança. Ambos ignoram o fato de que a agricultura da China se industrializou nos últimos anos – muitas vezes com a ajuda de fundos de investimento internacionais. Lá também foram construídas megabaias blindadas, inicialmente na avicultura e posteriormente na engorda de suínos. Com todas as desvantagens, como explica o biólogo americano Rob Wallace em seu estudo sobre a gripe aviária: “Eles exacerbam a virulência de patógenos e o risco de infecção.” Estábulos protegidos – como os preferidos por Blaha – são teoricamente bioseguros, mas na prática, a falta de controles é um problema não apenas na China. Outra opção é vacinar os animais.

O comércio chinês de carne de caça agora também é caracterizado por empresas profissionais e bem financiadas. Segundo as Nações Unidas, a criação de animais silvestres cresceu consideravelmente, só na China cerca de 14 milhões de funcionários geraram vendas de 77 bilhões de dólares em 2016 com a criação de “espécies animais não tradicionais“. A expansão espacial da agricultura industrial e da pecuária industrial está forçando as empresas de vida selvagem a vasculhar cada vez mais áreas florestais ou a construir seus criadouros mais profundamente na floresta, segundo Wallace. A probabilidade de encontrar novos patógenos está aumentando, enquanto a complexidade ecológica com a qual as florestas interrompem as cadeias de transmissão está diminuindo.

O Conselho de Biodiversidade da ONU declara em seu relatório: »As pandemias são causadas por microorganismos em reservatórios de animais. Mas eles se espalham por meio das atividades humanas. Como resultado, as cadeias de abastecimento globais e o turismo permitem uma rápida expansão. Por exemplo, o Conselho apela a grandes projetos de desenvolvimento e uso da terra para incluir avaliações de impacto na saúde sobre o risco de pandemia antes do início do projeto. Os governos nacionais também devem cortar subsídios para atividades que envolvam desmatamento, degradação florestal e mudanças no uso da terra. Além disso, os tomadores de decisão devem mudar fundamentalmente o consumo insustentável e as estruturas econômicas que promovem as pandemias.

Até agora tem sido assim, escreve Wallace: “Os custos da pecuária industrial e da agricultura industrializada são rotineiramente externalizados.” O Estado há muito é forçado a pagar a conta pelos custos subsequentes – poluição ambiental, problemas de água e doenças dos trabalhadores. Mesmo em face da pandemia, o Estado está pronto para assumir novamente os custos para que a agricultura industrializada possa prosseguir sem ser perturbada. O que Wallace não cita: a redistribuição desses custos pode contribuir para o empobrecimento em todo o mundo se houver menos dinheiro para a educação, sistemas sociais ou saúde como resultado.

De volta à missão na China: A busca pela origem do vírus é considerada politicamente explosiva. É questionável quais achados além do virológico podem ser esperados. Se, como observa Wallace, o agronegócio transnacional pode transformar a expansão global de terras industriais e casas de engorda em “lucros enormes”, a questão permanece: quem paga o preço?

fecho

Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

Cientistas alertam sobre ‘futuro horrível de extinção em massa’ e distúrbios climáticos

Novo relatório diz que o mundo não está conseguindo compreender a extensão das ameaças representadas pela perda de biodiversidade e pela crise climática

fogoFumaça e chamas aumentam de um incêndio ilegal na reserva da floresta amazônica, ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil. Fotografia: Carl de Souza / AFP / Getty

Por Phoebe Weston para o “The Guardian”

O planeta está enfrentando um “futuro horrível de extinção em massa, saúde decadente e transtornos climáticos” que ameaçam a sobrevivência humana por causa da ignorância e da inação, de acordo com um grupo internacional de cientistas, que alertam que as pessoas ainda não perceberam a urgência do biodiversidade e crises climáticas.

Os 17 especialistas, incluindo o professor Paul Ehrlich da Universidade de Stanford, autor de The Population Bomb, e cientistas do México, Austrália e Estados Unidos, dizem que o planeta está em um estado muito pior do que a maioria das pessoas – até mesmo os cientistas – entendem.

“A escala das ameaças à biosfera e todas as suas formas de vida – incluindo a humanidade – é de fato tão grande que é difícil de entender até mesmo por especialistas bem informados”, escrevem eles em um relatório na Frontiers in Conservation Science que faz referência a mais de 150 estudos detalhando os principais desafios ambientais do mundo.

O atraso entre a destruição do mundo natural e os impactos dessas ações significa que as pessoas não reconhecem o quão vasto é o problema, argumenta o jornal. “[O] mainstream está tendo dificuldade em compreender a magnitude dessa perda, apesar da erosão constante da estrutura da civilização humana.”

O relatório alerta que migrações em massa induzidas pelo clima, mais pandemias e conflitos por recursos serão inevitáveis, a menos que ações urgentes sejam tomadas.

“O nosso não é um chamado à rendição – nosso objetivo é fornecer aos líderes um ‘banho frio’ realista sobre o estado do planeta, que é essencial para o planejamento de evitar um futuro medonho”, acrescenta.

Lidar com a enormidade do problema requer mudanças de longo alcance no capitalismo global, educação e igualdade, diz o jornal. Isso inclui a abolição da ideia de crescimento econômico perpétuo, precificando apropriadamente as externalidades ambientais, interrompendo o uso de combustíveis fósseis, controlando o lobby corporativo e dando poder às mulheres, argumentam os pesquisadores.

O relatório vem meses depois que o mundo falhou em cumprir uma única meta de biodiversidade da ONU Aichi, criada para conter a destruição do mundo natural, a segunda vez consecutiva que os governos falharam em cumprir suas metas de 10 anos de biodiversidade. Esta semana, uma coalizão de mais de 50 países se comprometeu a proteger quase um terço do planeta até 2030.

Um recife de coral dominado por algas nas SeychellesUm recife de coral dominado por algas nas Seychelles … a crise climática está mudando a composição dos ecossistemas. Fotografia: Nick Graham / Lancaster University / PA

Estima-se que um milhão de espécies estão em risco de extinção, muitas em décadas, de acordo com um relatório recente da ONU .

“A deterioração ambiental é infinitamente mais ameaçadora para a civilização do que o Trumpismo ou a Covid-19”, disse Ehrlich ao Guardian.

Em The Population Bomb, publicado em 1968, Ehrlich alertou sobre a explosão populacional iminente e centenas de milhões de pessoas morrendo de fome. Embora ele tenha reconhecido que alguns horários estavam errados, ele disse que mantém sua mensagem fundamental de que o crescimento populacional e os altos níveis de consumo das nações ricas estão causando destruição.

Ele disse ao Guardian: “Growthmania é a doença fatal da civilização – deve ser substituída por campanhas que tornem a equidade e o bem-estar os objetivos da sociedade – não consumir mais lixo”.

Grandes populações e seu crescimento contínuo levam à degradação do solo e à perda de biodiversidade, alerta o novo artigo. “Mais pessoas significa que mais compostos sintéticos e plásticos perigosos descartáveis ​​são fabricados, muitos dos quais contribuem para a crescente toxificação da Terra. Também aumenta as chances de pandemias que alimentam caças cada vez mais desesperadas por recursos escassos. ”

Extinção em massa de pássaros no sudoeste dos Estados Unidos ‘causada pela fome’

Os efeitos da emergência climática são mais evidentes do que a perda de biodiversidade, mas ainda assim, a sociedade não está conseguindo reduzir as emissões, argumenta o jornal. Se as pessoas entendessem a magnitude das crises, as mudanças na política e nas políticas poderiam corresponder à gravidade da ameaça.

“Nosso ponto principal é que, ao perceber a escala e a iminência do problema, fica claro que precisamos muito mais do que ações individuais, como usar menos plástico, comer menos carne ou voar menos. Nosso ponto é que precisamos de grandes mudanças sistemáticas e rápidas ”, disse o professor Daniel Blumstein da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que ajudou a escrever o artigo, ao Guardian.

O documento cita uma série de relatórios importantes publicados nos últimos anos, incluindo:

Bushfires em Eden, Austrália

A Austrália viu uma temporada de incêndios florestais devastadores em 2020. Foto: Tracey Nearmy / Reuters

O relatório segue anos de severos avisos sobre o estado do planeta dos principais cientistas do mundo, incluindo uma declaração de 11.000 cientistas em 2019 de que as pessoas enfrentarão “sofrimento indizível devido à crise climática”, a menos que grandes mudanças sejam feitas. Em 2016, mais de 150 cientistas do clima da Austrália escreveram uma carta aberta ao então primeiro-ministro, Malcolm Turnbull, exigindo ação imediata para reduzir as emissões. No mesmo ano, 375 cientistas – incluindo 30 vencedores do Prêmio Nobel – escreveram uma carta aberta ao mundo sobre suas frustrações com a inação política em relação às mudanças climáticas.

O professor Tom Oliver, ecologista da Universidade de Reading, que não esteve envolvido no relatório, disse que era um resumo assustador, mas confiável, das graves ameaças que a sociedade enfrenta em um cenário de “negócios como de costume”. “Os cientistas agora precisam ir além de simplesmente documentar o declínio ambiental e, em vez disso, encontrar as maneiras mais eficazes de catalisar a ação”, disse ele.

O professor Rob Brooker, chefe de ciências ecológicas do James Hutton Institute, que não esteve envolvido no estudo, disse que o estudo enfatizou claramente a natureza urgente dos desafios.

“Certamente não devemos ter dúvidas sobre a enorme escala dos desafios que enfrentamos e as mudanças que precisaremos fazer para lidar com eles”, disse ele.

Encontre mais cobertura da era da extinção aqui e siga os repórteres da biodiversidade Phoebe Weston e Patrick Greenfield no Twitter para obter as últimas notícias e recursos

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The Guardian” [   ].

Um conselho grátis: Pague os salários dos servidores, Wladimir

81801_1

Mesmo distante de Campos dos Goytacazes neste momento, venho acompanhando o drama dos servidores públicos municipais que estão sem o pagamento de seus devidos salários. Como passei por este problema ao longo de 2017, nem preciso imaginar a situação dramática em que milhares de servidores cumpridores de seus deveres se encontram neste momento.

Assim, em que pese o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) não ter sido eleito para fazer mágica, eu ofereço um conselho grátis para ele e sua equipe: paguem os salários dos servidores!

É que como já disse antes, conquistar as mentes e corações dos servidores será um elemento chave na realização de uma administração que faça o município de Campos dos Goytacazes começar a sair da crise aguda em que se encontra. Mas ninguém conquista mentes e corações de quem está com a barriga roncando.

Desde já hipoteco a minha completa solidariedade aos servidores públicos municipais de Campos dos Goytacazes.

Desmatamento na Amazônia, Emmanuel Macron, e o boicote às commodities agrícolas brasileiras

“Depender da soja brasileira é endossar desmatamento na Amazônia”, diz Macron

Presidente francês volta a criticar o desflorestamento no Brasil e diz que Europa deve investir mais no cultivo local de soja para ser “coerente” com suas ambições ecológicas.

macron

Macron é uma das vozes mais críticas à política ambiental do governo Bolsonaro

O presidente da França, Emmanuel Macron, voltou a criticar o desmatamento na Amazônia nesta terça-feira (12/01), afirmando que a Europa precisa investir mais no cultivo de soja em seu território, senão estará “endossando” o desflorestamento em terras brasileiras.

“Continuar dependendo da soja brasileira é endossar o desmatamento da Amazônia”, escreveu Macron em postagem no Twitter. “Somos coerentes com as nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa!”, completou.

O texto acompanha um vídeo de 30 segundos, em que o presidente francês destaca que, “quando importamos a soja produzida a um ritmo rápido a partir da floresta destruída no Brasil, nós não somos coerentes” com as ambições ecológicas europeias.

“Nós precisamos da soja brasileira para viver? Então nós vamos produzir soja europeia ou equivalente”, acrescenta ele no vídeo, após uma visita a agricultores orgânicos na cidade de Tilly nesta terça-feira.

A publicação vem um dia depois da One Planet Summit, uma cúpula liderada por Macron com a participação de chefes de Estado, empresários e representantes de organizações não governamentais, dedicada à preservação da biodiversidade.

Críticas à política ambiental

O aumento do desmatamento na Amazônia e em outros biomas brasileiros nos últimos dois anos gerou uma onda de indignação internacional, com Macron sendo uma das vozes mais críticas à política ambiental do presidente Jair Bolsonaro.

Os líderes francês e brasileiro chegaram a trocar farpas públicas. Em 2019, Macron disse que as queimadas no Brasil – cujas imagens correram o mundo e aumentaram a pressão sobre o governo brasileiro – eram uma “crise global” e precisavam ser discutidas “com urgência” pelo G7.

À época, a posição de Macron irritou Bolsonaro, que reagiu afirmando que a postura do francês evocava “mentalidade colonialista descabida no século 21”. Membros do governo Bolsonaro e filhos do presidente chegaram a xingar Macron nas redes sociais, e o próprio presidente fez um insulto machista à primeira-dama francesa, Brigitte Macron.

A situação do meio ambiente no Brasil levou inclusive alguns países europeus a ameaçarem não ratificar o acordo de livre-comércio assinado entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, que ainda precisa ser confirmado pelos parlamentos de ambas as partes.

Em agosto de 2020, a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, se uniu a Macron como voz crítica ao acordo. Por meio de seu porta-voz, ela disse ter “sérias dúvidas” sobre a implementação do pacto comercial devido ao aumento do desmatamento na Amazônia.

Segundo o porta-voz, Berlim observa “com grande preocupação” o desmatamento e as queimadas na região. “Nesse sentido, surgem sérias dúvidas sobre se, no momento, uma implementação do acordo pode ser garantida dentro do espírito pretendido. Vemos isso com ceticismo”, alertou.

Em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, o desmatamento na Amazônia cresceu 85%, atingindo 9.165 quilômetros quadrados, o maior nível registrado no bioma desde 2016, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Europa importadora de soja

A Europa é uma grande importadora de soja da América Latina, principalmente do Brasil. O cultivo e a importação de soja para ser usada, por exemplo, como ração para pecuária e biocombustível têm sido fortemente criticados por impulsionar o desflorestamento.

Um relatório apresentado na semana passada em Berlim, intitulado Fleischatlas 2021 (“Atlas da carne 2021”), apontou que 50% dos produtos agrícolas enviados do Brasil à União Europeia, especialmente soja, carne bovina e café, são produto do desmatamento.

Já entre os países europeus, a França é o maior produtor de soja. Em 2020, o governo francês anunciou um plano para aumentar a produção local do grão, visando reduzir a dependência das importações, uma vez que o país continua comprando soja de outros países, sobretudo do Brasil – o que já gerou protestos de organizações ambientalistas como o Greenpeace.

Varejistas franceses também anunciaram que, a partir de 2021, não mais comprariam soja brasileira que tivesse sido cultivada em áreas desmatadas.

EK/dpa/lusa/ots

fecho

Este artigo foi publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

A Ford alça voo do Brasil (por Olívio Dutra)

olivioOlívio Dutra. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Por Olívio Dutra (*)

O desenvolvimento econômico e material com menor custo para si e maior aporte de subsídios e recursos públicos para expansão de seus negócios, norteiam o planejamento estratégico das empresas transnacionais, em especial as do setor automobilístico. A sua instalação, em um território ou país no globo, é uma decisão de mercado, avaliada por satélites e importa-se pouco com impactos sociais, econômicos, ambientais e culturais, tanto quando de sua aterrissagem como quando de sua decolagem.

Assim pretendia agir a Ford há 20 anos no RS. Encontrou resistência do Governo da Frente Popular, que se instalava, à essa lógica perversa. Orquestrou, com suas influências políticas e sua generosa conta publicitária, uma oposição insidiosa ao novo governo. Pretendia sequer prestar contas do dinheiro público já recebido. Não logrou o intento. Perdeu, inclusive, no Judiciário. O resto da história é sabido.

A Ford agora está alçando voo para outras paragens, fora do Brasil, depois de ter torcido por um novo governo federal que flexibilizasse as leis trabalhistas, previdenciárias, enfraquecesse os sindicatos, desregulamentasse normas de controle público, etc.

A estratégia é a mesma, os discursos de seus, às vezes, discretos outras nem sempre, declarados apoiadores, é que são diferentes segundo as conveniências das políticas dos governantes com os quais se alinham.

Mais um momento semelhante aquele da condenação da Ford a ressarcir o Estado do Rio Grande do Sul por quebra unilateral de contrato, para lembrar de pessoas importantes que mantiveram paciência, coesão e firmeza na sustentação da política da Frente Popular de respeito à coisa pública, ao dinheiro público e na afirmação e prática de um governo democrático, participativo e republicano sob o qual o RS se desenvolveu social e economicamente acima da média nacional do período: Miguel Rossetto, ZECA MORAES (in memoriam) e sua equipe, Paulo Torelli, Guaracy Cunha, Flávio Koutzii, Sérgio Kapron e outros(as).

(*) Olívio Dutra foi governador do Rio Grande do Sul de 1999 a 2002

fecho

Este artigo foi publicado originalmente pelo site Sul21 [Aqui!].