Agenda tóxica do governo Bolsonaro continua favorecendo a aprovação de agrotóxicos proibidos e altamente perigosos para a saúde humana e o ambiente. Empresas chinesas estão entre as principais fornecedoras
Com a publicação atrasada do Ato No. 70 de 23 de Dezembro de 2020, o governo Bolsonaro alcançou um novo patamar na verdadeira avalanche de agrotóxicos iniciada desde os primeiros dias da atual administração. É que, ao contrário do que este blog havia divulgado anteriormente, o total de agrotóxicos liberados no biênio 2019-2020 alcançou os quase inacreditáveis 1001 produtos.
A novidade no Ato No. 70 veio por uma participação relativamente alta do Brasil que teve empresas sediadas no próprio país respondendo por 36% dos produtos, muito em parte por causa da liberação de 19 agrotóxicos da modalidade de controle biológico. Entretanto, a China se destacou novamente, com participação superior ao Brasil por causa do controle de empresas sediadas em outros países, como é o caso da Syngenta, que apesar de sediada na Suíça é de propriedade da estatal chinesa ChemChina (ver figura abaixo).
O Ato No. 70 trouxe dois casos interessantes: o do “inédito” Tolfenpirade, inseticida do grupo químico Pirazol que, além de proibido em todos os países da União Europeia (EU), jamais foi obteve liberação para uso pela Comissão Europeia. Outro caso de um agrotóxico proibido em todos os países da EU e que agora começará a ser comercializado no Brasil é o Trifloxissulfuron sódico, herbicida do grupo químico Sulfoniluréias.
Aliás, o Ato No. 70 traz um total de 18 agrotóxicos químicos proibidos (total ou parcialmente) pela EU, o que apenas confirma a tendência de que o Brasil foi transformado em uma espécie de zona de sacrifício para onde são enviados produtos que não podem mais ser utilizados nos países que originalmente os desenvolveram.
Quem desejar acessar o arquivo contendo a base de dados contendo apenas os 56 agrotóxicos liberados por meio do Ato No. 70, basta clicar [Aqui!]. Já quem desejar acessar a base de dados completa para o biênio 2019-2020, basta clicar [Aqui!] .
Depois de fechar fábrica em São Bernardo do Campo em 2015, Ford anunciou encerramento de produção em três unidades restantes no Brasil
Quando em 1999 o então governador petista do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, recusou as condições impostas pela multinacional Ford para se manter no município de Guaiba, o mundo quase caiu sobre a cabeça dele. Olívio, do alta de sua sabedoria, lançou o oráculo de que quando a Ford se sentisse na necessidade de abandonar o Brasil, o faria sem dó nem piedade. Eis que cerca de 22 anos depois, e R$ 22 bilhões de isenções fiscais indo pelo ralo, a profecia de Olívio Dutra se confirmou, e a multinacional estadunidense anunciou que vai fechar suas unidades de produção no Brasil dentro de um processo de reestruturação global.
O anúncio da partida da Ford caiu como uma bomba e tornou agitada a tarde/noite dos noticiários televisivos, promovendo ainda o rápido aparecimento de explicações sobre o porquê da decisão (que de abrupta não tem nada). As mais comuns giraram em torno de um suposto atraso das reformas ultraneoliberais do governo Bolsonaro como sendo a mola propulsora da decisão. Em outras palavras, a Ford estaria abandonando o Brasil porque as reformas que retiraram direitos trabalhistas e sociais e diminuíram agudamente o investimento público ainda precisam ser aprofundadas, e mais arrocho seja imposto ao povo brasileiro.
Em minha opinião, a convocação para que haja ainda mais arrocho e mais desestatização é da mesma natureza do problema enfrentado por alguém que tomou veneno para morrer, mas continuando vivo, procura tomar mais para completar o serviço. É que, dentre outras muitas razões, a Ford está abandonando o Brasil porque faltam compradores para seus carros, visto o encolhimento da massa de consumidores aptos que as reformas supostamente milagrosas vêm gerando no nosso país. Já escrevi algum tempo atrás que as reformas neoliberais iniciadas com Fernando Collor, continuadas por FHC, abrandadas com Lula e Dilma, e retomadas com força extrema por Michel Temer, estavam criando um “capitalismo sem consumidores” no Brasil, com um encolhimento ainda maior do número de brasileiros aptos a consumir bens caros, como automóveis, por exemplo.
De toda forma, a conjuntura aberta pela partida da Ford permitirá a realização de um debate sobre o modelo econômico que está sendo executado pela dupla Bolsonaro/Guedes, na medida em que os anúncios feitos nesse início de ano, a começar pelo fechamento de centenas de agências do Banco do Brasil, mostram que a disposição é aprofundar o modelo do “capitalismo sem consumidores”, abrindo caminho para uma ampliação ainda maior de massa de desempregados e dos brasileiros colocados na miséria extrema. E uma pista para um futuro modelo: não sairemos da condição de país capitalista sem consumidores se a aposta for no aumento da dependência da exportação de commodities agrícolas e minerais.
Andava estranhando a pausa na liberação de novos agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, visto que o último ato detectado havia sido o No.65 de 23 de Novembro de 2020. Entretanto, hoje o Diário Oficial da União trouxe a publicação atrasado doAto No. 70 de 23 de Dezembro, com a liberação de mais 56 agrotóxicos, o que eleva o total aprovado no ano de 2020 para 498 produtos. Com isso, o “grande total” dos produtos liberados pelo governo Bolsonaro em seus dois primeiros anos de mandato chega a incríveis 1001 agrotóxicos.
É interessante notar que este último ato de 2020 repete uma forte influência de fabricantes chineses de agrotóxicos que são os produtores primários de um número significativo dos agrotóxicos aprovados. Este fato reforça que toda a oposição mostrada pelo presidente Jair Bolsonaro ao uso da vacina Coronavac da empresa chinesa Sinovac não alcança os agrotóxicos fabricados na China, muitos deles proibidos em outras partes do mundo.
Além disso, há que se frisar que todo o atraso que está se vendo para o início da vacinação contra a COVID-19 não ocorre com a liberação de agrotóxicos, o que reforça ainda mais a primazia da agenda tóxica sobre a saúde dos brasileiros.
Amanhã o Observatório dos Agrotóxicos do Blogo do Pedlowski irá divulgar a lista completa dos agrotóxicos liberados pelo Ato No. 70, bem como a planilha completa para o ano de 2020.
Crescimento do contrabando de agrotóxicos ilegais desmascara discurso de segurança e modernização usado pelo governo Bolsonaro para aprovação expedita de novos produtos
Em reportagem assinada pelo jornalista Marcelo Toledo, o jornal Folha de São Paulo mostra que as fronteiras entre Brasil e Paraguai estão servindo como via de entrada ilegal de agrotóxicos, produzidos no país vizinho ou na China. Essa rota de tráfico seria a mesma utilizada pelos contrabandistas de armas e drogas, bem como de cigarros ilegais.
A reportagem mostra que para o mercado (ou seja os vendedores legais de agrotóxicos), o aumento do contrabando vindo do Paraguai tem ocorrido em função da “forte produção da agricultura nacional (ou seja do latifúndio agroexportador, bem como pela alta do dólar“. Este segundo aspecto coloca em xeque todo o discurso de que é o agronegócio quem estaria sustentando a balança comercial brasileira, na medida em que os custos dos agrotóxicos tendem a levar para fora uma parcela significativa dos ganhos do setor. E notemos que isso se dá, inclusive, pelo aumento de importações ilegais destes venenos agrícolas.
O jornalista Marcelo Toledo incluiu dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) indicando que as apreensões de agrotóxicos chegaram a 90 toneladas até outubro, ante as 60 toneladas de todo o ano de 2019. Além disso, Toledo citou um levantamento do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP) que mostra que o prejuízo anual do setor de produção de venenos agrícolas brasileiro tem crescido devido ao avanço do mercado ilegal, que já ocuparia o sexto posto no ranking de contrabandos. Nesse sentido, a reportagem mostra que “enquanto em 2017 a soma das perdas dos fabricantes de agrotóxicos e da evasão fiscal chegou a R$ 3,1 bilhões, o montante alcançou R$ 8,9 bilhões no ano seguinte e R$ 11,23 bilhões, em 2019. Com isso, fica atrás apenas de vestuário, higiene pessoal (perfumaria e cosméticos), combustíveis, bebidas alcoólicas e cigarros. “A justificativa sempre é preço. O produto legal paga imposto e tem de ter certificação de órgãos reguladores, enquanto o ilegal ignora tudo isso. Dependendo da composição, ele fica mais barato ainda, porque burla inclusive a composição correta”, disse o presidente do FNCP, Edson Vismona.
De acordo com fontes utilizadas na reportagem de Toledo, “o contrabando de agrotóxicos se profissionalizou a partir de 2009, com a entrada de grandes contrabandistas. E esse crescimento tem sido refletido em operações policiais e de órgãos governamentais nos últimos anos no país“.
Após intensa perseguição, equipe da PRF prende contrabandista de agrotóxicos em Guaíra (PR)
Essa situação coloca completamente a nu o discurso do governo Bolsonaro, e principalmente da ministra Tereza Cristina (DEM/MS) de que a tsunami de aprovação de agrotóxicos a partir de janeiro de 2019 (um total de 945 produtos foram liberados) e a modificação das regras de classificação de toxicidade garantiriam a ampliação do grau de segurança para os produtores rurais e para a população brasileira com um todo. O fenômeno do contrabando de agrotóxicos mostra que o uso abusivo e intensivo desses produtos é regulado pelos preços praticados, e que tem se tornado escorchantes por causa da politica cambial do próprio governo Bolsonaro.
Um dos problemas especialmente agudos nessa situação é que além de ilegais, muitos desses produtos são falsos, o que torna ainda mais graves os potenciais impactos que os mesmos podem trazer para a saúde humana e para o meio ambiente, o que torna a questão dos agrotóxicos um assunto de primeira ordem. Há que se lembrar ainda que a relação entre esse modelo de agricultura viciada em agrotóxicos nos torna ainda mais expostos ao acontecimento de pandemias como é o caso da causada pelo coronavírus.
Investigações que mapearam os casos de trabalho análogo ao de escravos ligam fazendas flagradas aos maiores frigoríficos do Brasil
Reportagens de veículos estrangeiros destacaram o abismo entre o lucro bilionário dos frigoríficos brasileiros e as recorrentes condições de trabalho degradantes em fazendas fornecedoras (Foto: Marcio Isensee e Sá/Repórter Brasil)
Por João Cesar Diaz para a Repórter Brasil
A oitava edição do relatório o“Monitor”, da Repórter Brasil, traz uma análise aprofundada da relação entre o trabalho escravo contemporâneo e a pecuária no Brasil – com casos de fazendeiros que usaram escravidão contemporânea e forneciam inclusive para gigantes do setor, como a JBS. O relatório teve repercussão internacional, com matérias publicadas no jornal britânico The Guardian, na agência de notícias estadunidenseBloomberge na Reuters Foundation.
As histórias levantadas no relatório destacam como, após mais de 10 anos de políticas corporativas sendo anunciadas para enfrentar o trabalho escravo em fazendas de gado, a situação de muitos trabalhadores não mudou.
Historicamente, a maior parte dos casos de trabalho escravo acontece na região rural, e a pecuária é o setor onde o problema é bem evidente e documentado. De acordo com dados do Governo Federal sistematizados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), mais da metade dos casos de trabalho escravo flagrados no Brasil entre 1995 e 2020 aconteceu nas atividades relacionadas à pecuária.
Dez anos de escravidão
O relatório se aprofunda em diversos estudos de caso, incluindo um envolvendo seis trabalhadores – quatro deles migrantes paraguaios, resgatados de condições análogas às de escravo em 2019 da Fazenda Rodoserv IV, no município de Caracol, no Mato Grosso do Sul.
Carne para alimentação dos trabalhadores na fazenda Rodoserv IV era armazenada em baldes (Foto: Equipe de fiscalização/Divulgação)
Na propriedade de Amarildo Martini, sócio do grupo “Rodoserv” – rede de postos de combustíveis e restaurantes de estrada –, os trabalhadores tinham de se abrigar em barracas improvisadas com retalhos de lona e galhos reunidos por eles mesmos. Sem acesso à água potável ou a banheiros, quatro dos funcionários da fazenda passaram dez anos submetidos a essas condições degradantes.
Segundo dados revelados pela apuração da Repórter Brasil, a fazenda forneceu gado diretamente ao frigorífico da JBS na região durante os meses de janeiro e outubro de 2019 (ano do resgate dos trabalhadores) e em fevereiro e abril do ano seguinte.
Repercussão internacional
Com essa base, a Bloomberg, publicou a reportagem Slave Labor at Brazilian Cattle Farms Focus of New Report (“Trabalho escravo em fazendas de gado no Brasil é o foco de novo relatório”, em tradução livre), destacando as dezenas de violações trabalhistas graves encontradas. A matéria ressalta a ligação entre fazendas flagradas utilizando trabalho escravo e as grandes companhias de frigoríficos brasileiras – especialmente a JBS, a maior do mundo. A agência também levantou o paralelo entre a taxa crescente de desmatamento na região amazônica e a expansão das áreas de pastagem (legais e ilegais).
“Fazendas de gado brasileiras ‘usaram trabalhadores em condições análogas à escravidão’” ou, no original em inglês,Brazilian beef farms ‘used workers kept in conditions similar to slavery’, foi o título da matéria do The Guardian – veículo parceiro da Repórter Brasil em matérias investigativas no campo.
A reportagem questiona a falta de rastreabilidade da carne processada nos frigoríficos da JBS e Minerva, citando casos de trabalho escravo em fazendas que forneceram carne para as companhias, e cobra respostas sobre a responsabilidade e a transparência das empresas na escolha de seus fornecedores.
Já a reportagem da Reuters, “JBS entre frigoríficos vinculados a fazendas contaminadas pela escravidão no Brasil” (JBS among meat firms linked to slavery-tainted ranches in Brazil, no original em inglês) enfatizou o abismo entre os bilhões de dólares de lucro dos frigoríficos brasileiros e as recorrentes condições degradantes que trabalhadores das fazendas que alimentam essa cadeia produtiva são submetidos.
Este artigo foi publicado inicialmente pela Repórter Brasil [Aqui!].
Por André Albuquerque Sant’Anna e Carlos Eduardo Frickmann Young
Todo país tem seus mitos fundadores. No nosso caso, o mito da abundância de recursos naturais se confunde com a própria identidade nacional. Afinal, somos os “brasileiros” – aqueles que extraíram o pau-brasil até o limite de sua quase extinção na Mata Atlântica¹.
Somos também a terra do “se plantando, tudo dá”. Diante da crença em tanta benevolência divina, não é de se estranhar que na literatura nacional desponte como herói o preguiçoso Macunaíma. Como se a complementar a extensão de terras, não houvesse o sangue e suor dos escravos, indígenas nativos e africanos sequestrados.
Voltando a “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, o livro traz o lema “pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são”. Chama a atenção que Mario de Andrade, participante do movimento modernista, concordasse com a ideia de Brasil como celeiro. Afinal, bastaria nos livrar das saúvas para que nossa agricultura mostrasse toda sua pujança. Ora, esse diagnóstico não deve surpreender, uma vez que o escritor cresceu em São Paulo, no auge do café.
Àquela época, o Brasil – e, sobretudo, São Paulo – vivia um boom econômico com o café. No entanto, assim como já vivera com a borracha, o algodão e a cana, esse ciclo se esgotou. Como se não houvesse aprendizado, a cada ciclo, o país expandiu a produção agrícola utilizando mais terra, sem compromisso com inovações que aumentassem a produtividade. Deitados em berço esplêndido, agricultores aproveitavam o virtual monopólio na produção mundial para auferir renda.
No entanto, as leis da economia vigoram: se há lucro econômico excessivo, haverá entrada de concorrentes no mercado. Como ocorrido antes, com o declínio dos engenhos litorâneos pela concorrência das plantações de cana de açúcar no Caribe, e como sucedeu de forma concomitante à expansão do café, com os seringais do Sudeste Asiático interrompendo a “era de ouro” da borracha amazônica.
Isso tudo serve de algum aprendizado? Pelo visto, é como a lição difícil que o aluno prefere ignorar, torcendo para que não caia na prova. Mas a história sempre se repete, como tragédia, farsa ou mero enfado, e o problema sempre volta à tona.
Na última semana de outubro, uma notícia passou quase despercebida do noticiário econômico: a China fechou acordo para importar soja da Tanzânia. O Ministério da Economia se apressou para afirmar que a diversificação de compradores por parte da China não afetaria o Brasil. De fato, no curto prazo, as exportações de soja da Tanzânia não representam grande perigo para os produtores brasileiros. Mas, e no longo prazo? Uma análise adequada deve fugir da miopia de só olhar para apenas alguns poucos meses à frente.
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) produz informações sobre aptidão do solo para produção de soja. O Mapa 1 é baseado nas informações da FAO e considera a produtividade potencial na produção de soja pela aptidão do solo com alto nível de insumos (mecanização, aplicação de fertilizantes e agrotóxicos). As áreas mais claras representam as regiões com produtividade potencial mais alta para o cultivo da soja, incluindo as regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil. Os principais países competidores do Brasil nesse mercado global também estão nessa condição: Estados Unidos e Argentina. Como no Brasil, esses países conjugam alta produtividade potencial, investimentos e grande extensão de terras.
Mapa 1 – Produtividade potencial de soja com mecanização e utilização de fertilizantes e agrotóxicos. Fonte: FAO-GAEZ.
Porém, outras partes do planeta também possuem elevado potencial, mas ainda não desenvolveram o cultivo. O Mapa 2 mostra as áreas com maior produção efetiva de soja, e fica evidente que a África é a principal parte do mundo com largas extensões de terra com alto potencial de produção, mas com baixo aproveitamento produtivo. E isso não passou despercebido pela China.
Mapa 2 – Produção efetiva de soja, em 2018. Fonte: Our World in Data.
Deve-se recordar que a China criou, em 2013, a iniciativa conhecida como Belt and Road, pela qual realiza investimentos em infraestrutura em diversos países do mundo, sobretudo na Ásia e África. Nesse sentido, deve-se compreender a recente demanda chinesa pela soja tanzaniana como um passo geopolítico com vistas a garantir o suprimento futuro de soja a partir da África, sem depender da produção sul-americana.
A crescente reticência do atual governo brasileiro em relação ao seu principal parceiro comercial possivelmente ratificou a motivação para a China diversificar seus fornecedores de matérias primas. Esse movimento não deve se restringir à soja, e tende a afetar outras commodities que hoje dinamizam a balança comercial brasileira.
Como em um filme de roteiro previsível, corremos o risco de rever o mesmo final dessa história: a concorrência de outros países derruba o preço das commodities, a atividade entra em estagnação, mas a vegetação nativa destruída nesse processo jamais se recupera. Alteram-se os protagonistas (borracha, café, soja), mas o final é sempre o mesmo: boom de crescimento associado à depleção de recursos naturais, com o mesmo triste fim de alta desigualdade.
Não custa lembrar, o agro é pop e o pop não poupa ninguém.
Nota
[1] Uma divertida discussão sobre as possíveis da origem do nome “Brasil”, incluindo a mítica ilha de Hy Brazil e a história da extração de pau-brasil, é apresentada por Eduardo Bueno em https://www.youtube.com/watch?v=XPnOYnxU7lw
Foto de destaque: Colheitadeira em plantação de soja. Crédito: Charles Echer/Pixabay.
Autores
*André Albuquerque Sant’Anna é Pesquisador do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento (CEDE/UFF ) e do Grupo de Economia do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (GEMA/UFRJ).
A nova gestão da prefeitura de Macaé pretende desalojar a UFF e a UFRJ do prédio da Fundação Educacional de Macaé (FUNEMAC) localizado na Cidade Universitária. Os professores estão sendo desalojados sem que haja outro local que eles possam ocupar para continuar suas atividades
No prédio da FUNEMAC funcionam a sala dos professores dos cursos de Engenharia, Enfermagem, Farmácia, Medicina, Nutrição e Química e laboratórios de ensino e de pesquisa (importantíssimos para as atividades de ensino, pesquisa e extensão da universidade), bem como locais de guarda de materiais administrativos e didáticos. Destacamos que não há gabinete para professores no Polo Universitário e nem mesmo espaço para alojar os laboratórios que estão no referido prédio.
A UFF também está sendo despejada em dois serviços que atendem gratuitamente a população de Macaé. A UFF perderá o espaço o Centro de Assistência Jurídica (CAJUFF), que presta atendimento jurídico a quem precisa, e o Núcleo de Apoio Contábil e Fiscal (NAF), que auxilia na declaração do imposto de renda, em parceria com a Receita Federal.
Essa decisão do novo prefeito de Macaé foi recebida muito espanto e consternação pela comunidade universitária da UFF e da UFRJ em Macaé. Mesmo em meio à pandemia, a produção acadêmica da UFRJ Macaé não parou, intensificou até por meio do GT COVID-19 UFRJ/MACAÉ, e esperamos que, em breve, todas as atividades presenciais sejam retomadas com qualidade e segurança.
De qualquer maneira, o corpo docente da UFRJ se mantém aberto ao diálogo com o município de Macaé. Enquanto isso, os professores da UFRJ pedem a ajuda de todos e todas na divulgação desse fato em suas redes sociais, e convocam a toda a comunidade acadêmica e população de Macaé e região para o twitaço #ficaufrjmacaee#ficauffmacae às 18 horas deste sábado.
Trigo é visto durante o pôr do sol em um campo da empresa agrícola Solgonskoye na vila de Solgon, Rússia, em 6 de setembro de 2014 REUTERS / Ilya Naymushin
Por Crispian Balmer para a Reuters
ROMA (Reuters) – Os preços mundiais dos alimentos subiram pelo sétimo mês consecutivo em dezembro, com todas as principais categorias, exceto o açúcar, registrando ganhos no mês passado, disse a agência de alimentos das Nações Unidas na quinta-feira.
O índice de preços de alimentos da Organização para Alimentação e Agricultura, que mede as variações mensais de uma cesta de cereais, oleaginosas, laticínios, carnes e açúcar, teve média de 107,5 pontos no mês passado contra 105,2 em novembro.
O número de novembro era anteriormente de 105,0.
Para todo o ano de 2020, o índice de referência foi em média 97,9 pontos, uma alta de três anos e um aumento de 3,1% em relação a 2019. Ainda estava mais de 25% abaixo de seu pico histórico em 2011.
Os preços do óleo vegetal continuaram fortes ganhos recentes, saltando 4,7% no comparativo mensal em dezembro, após alta de mais de 14,0% em novembro. Para todo o ano de 2020, o índice teve alta de 19,1% em relação a 2019.
A FAO disse que o aperto na oferta nos principais países produtores de óleo de palma elevou os preços, enquanto o comércio também foi impactado por um forte aumento nas tarifas de exportação na Indonésia. Os preços do óleo de soja aumentaram em parte devido às greves prolongadas na Argentina. [POI /]
O índice de preços dos cereais registrou um aumento mais modesto de 1,1% em dezembro em relação ao mês anterior. Durante todo o ano de 2020, o índice ficou em média 6,6% acima dos níveis de 2019.
Os preços de exportação de trigo, milho, sorgo e arroz subiram em dezembro, subindo em parte devido a preocupações com as condições de cultivo e perspectivas de safra na América do Norte e do Sul, bem como na Rússia, disse a FAO com sede em Roma.
O índice de lácteos subiu 3,2% no mês, porém, ao longo de todo o ano de 2020, ficou em média 1,0% a menos do que em 2019.Em dezembro, todos os componentes do índice aumentaram devido à forte demanda global de importação, desencadeada por preocupações com as condições mais secas e quentes na produção de leite da Oceania, bem como a alta demanda interna na Europa Ocidental.
O índice de carnes subiu 1,7% no mês passado, enquanto sua média anual ficou 4,5% abaixo de 2019. A FAO disse que as cotações de aves se recuperaram em dezembro, em parte devido ao impacto dos surtos de gripe aviária na Europa. No entanto, os preços da carne suína caíram levemente, afetados pela suspensão das exportações alemãs para os mercados asiáticos após os surtos de peste suína africana.
Contrariando as altas dos demais índices, os preços médios do açúcar recuaram 0,6% em dezembro. Para 2020 como um todo, o subíndice registrou um ganho de 1,1% em relação aos níveis de 2019. A FAO disse que a relativa firmeza dos dados mais recentes refletiu um aumento nas importações da China e uma maior demanda por açúcar refinado da Indonésia. [SOF / L]
A FAO não divulgou uma previsão atualizada para as safras mundiais de cereais em janeiro. Sua próxima estimativa é para fevereiro.
No mês passado, a FAO revisou para baixo sua previsão para a safra de cereais de 2020 pelo terceiro mês consecutivo, cortando-a para 2,742 bilhões de toneladas, ante os 2,75 bilhões anteriores.
Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Agência Reuters [Aqui!].
O coronavírus atingiu fortemente o Brasil. Por causa de lutas internas de poder e falta de planejamento, o governo não tem uma estratégia de vacinação viável.
Manifestantes exigem a aprovação de uma vacina contra a Covid-19. Foto tirada no dia 23 de dezembro, em Brasília. Ueslei Marcelino / Reuters
Jair Bolsonaro declarou publicamente várias vezes que não deseja ser vacinado contra o vírus corona. Para ele, o próprio vírus, que já matou mais de 195 mil pessoas no Brasil , é o melhor antídoto para a doença. Aparentemente, o presidente não confia nas vacinas. Seus fabricantes, ele advertiu brincando em um evento público em meados de dezembro, não se responsabilizariam por nenhum efeito colateral: “Se você se vacinar e virar jacaré, é problema seu”. Bolsonaro, que havia sido infectado com o vírus em julho, riu ruidosamente. Ele também afirmou que havia solicitado ao Ministério da Saúde que divulgasse os riscos associados às vacinações contra a Covid-19.
A falta de estratégia
Enquanto isso, a segunda onda corona também atingiu o Brasil. Nas últimas semanas, o número de mortes relacionadas com a pandemia atingiu repetidamente a marca de mil por dia, e os hospitais em várias cidades do país estão novamente atingindo seus limites. No entanto, não existe uma estratégia de vacinação, pelo menos não totalmente desenvolvida. O Ministério da Saúde apresentou um em meados de dezembro por despacho do Supremo Tribunal Federal, mas não inclui esquema de vacinação e também não ficou claro quando e quantas doses estariam disponíveis. Anteriormente, o ministro da saúde havia anunciado que a vacinação começaria em março.
O presidente da Câmara dos Representantes chamou o ministro da Saúde, um general sem formação médica, de desastre. A população entraria em pânico se o governo continuasse a agir de forma tão aleatória, disse ele. Também houve críticas de especialistas e da imprensa, que acusam o governo de negligência e irresponsabilidade. O país está ficando para trás. Enquanto outros países da região já estão vacinando, o Brasil nem mesmo aprovou uma vacina contra a Covid-19. Também faltam seringas e agulhas para atender os 210 milhões de brasileiros.
Governador de São Paulo corre na frente
O governo conta com a vacina do fabricante AstraZeneca e da Universidade de Oxford. Segundo o Ministério da Saúde, a farmacêutica entregará 260 milhões de doses da vacina ao Brasil ainda este ano. Espera-se que 2 milhões deles cheguem ao Brasil vindos da Índia em janeiro. Além disso, existem 46 milhões de doses da vacina CoronaVac do empresário chinês Sinovac Biotech.
O governador de São Paulo, João Doria, correu e negociou uma cooperação direta com a Sinovac Biotech para garantir a entrega da vacina. Doria declarou no início de dezembro que não queria esperar a organização do governo federal. Ele prometeu começar a vacinar em São Paulo em janeiro. No entanto, a autoridade responsável teria que aprovar o CoronaVac com antecedência.
Também há um cálculo político por trás das ações de Doria. O governador de São Paulo é um dos maiores adversários políticos de Bolsonaro e deve concorrer às eleições presidenciais de 2022. O governo brasiliense descreveu seu avanço em relação às vacinas como populismo barato e irresponsável. A rivalidade resultante entre Doria e Bolsonaro levou agora a uma politização dos planos de vacinação.
Além disso, o presidente difamou repetidamente o CoronaVac por causa de sua origem. Em outubro, ele anunciou que o Brasil não compraria vacinas chinesas. Bolsonaro nunca fez segredo de sua oposição à China. Embora o país seja um dos mais importantes parceiros comerciais do Brasil, ele nunca perde a oportunidade de atirar em Pequim. Depois de várias semanas de idas e vindas, o governo finalmente comprou CoronaVac de qualquer maneira.
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, afirmou publicamente várias vezes que não quer ser vacinado contra o coronavírus. Adriano Machado / Reuters
Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “The New Zurich Times” [Aqui!].
As cenas caóticas que apareceram nas telas de TV vindas diretamente das portas do congresso dos EUA serviram para uma impressionante sessão de uma nova forma de viralatismo brasileiro. É que desde jornalistas surpresos até membros do Supremo Tribunal Federal, o que se viu foi uma ode em defesa da democracia estadunidense por parte de muitos daqueles que em 2016 demandavam (ou mesmo tramavam) o impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Se todos os que se pronunciaram em favor da democracia dos EUA (noto aqui que ao contrário dos membros do STF, nenhum membro da Suprema Corte estadunidense veio a público se manifestar sobre a confusão armada pelos apoiadores do brevemente ex-presidente Donald Trump) tivessem feito o mesmo quando era a nossa que estava sob ataque, é bem provável que o Brasil já tivesse, entre outras coisas, vacinado boa parte de nossa população contra a COVID-19.
Então essas lágrimas por uma democracia cujas instituições são mais bem mais sólidas do que as nossas são as verdadeiras lágrimas de crocodilo. Além disso, até por conhecer um pouco os EUA por dentro, é que se houve qualquer tentativa de golpe de estado, essa não passou nem perto de ter qualquer chance de ter êxito. É que se fosse para valer, os militares dos EUA não teriam assistido a coisa às margens. Aliás, nem as tropas do FBI ou das tantas outras forças militares que existem por lá.
Há que já esteja lançando alertas contra uma postura semelhante dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro caso ele perca as eleições em 2022. Esse tipo de preocupação para mim não passa de distracionismo barato da realidade brasileira, onde mais do que evidente de que são os militares, e não as instituições de Estado, que dão o aval necessário para o presidente brasileiro se manter no poder, em que pesem o seu governo desastroso em todos os níveis que se analisa. Eu diria que se há uma preocupação para 2022 é que os comandantes militares decidam que não será precisa eleição para que Bolsonaro seja mantido na presidência.
Por último, um elemento a ser melhor analisado se refere às consequências que o pequeno show de força dos aliados de Donald Trump terá na capacidade de Joe Biden articular suas alianças multilaterais, especialmente aquelas direcionadas para conter a crescente hegemonia da China no mundo. Ainda que se saiba que a real diplomacia dos EUA se dá pela ponta dos sabres, a desmoralização que ocorreu ontem sobre a ainda principal potência econômica e militar do mundo não foi pequena. Pior para Jair Bolsonaro e, por extensão para o Brasil, pois muito provavelmente haverá pouca tolerância para imitadores de Donald Trump nas ações multilaterais da nova administração dos EUA.
Finalmente, prestemos muita atenção no que dirão os defensores da democracia “in America” quando a democracia ameaça for a nossa.