A recusa aos rankings e ao produtivismo acadêmico: o exemplo da Sorbonne

A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada

Imagem: Chepe Nicoli

Por Everton Fargoni para “Outras Palavras”

A decisão da Universidade Sorbonne, instituição cuja trajetória longeva se amalgama à própria gênese do pensamento ocidental, de interromper o fornecimento de dados ao sistema World University constitui um ato de ruptura contra a lógica da reificação acadêmica. Não se vislumbra ali um capricho administrativo, mas a insurgência diante de um modelo que reduz a densidade da atividade intelectual a categorias quantitativas desprovidas de substância humana e histórica.

O que emerge é o esgotamento de um método que intenta aprisionar a universidade em tabelas globais, obliterando que o conhecimento possui raízes profundas na totalidade da vida social. Como pretender mensurar séculos de compromisso científico e ensino público sob o peso de um padrão abstrato, voltado unicamente à valorização de indicadores estranhos à ontologia do ser social?

Tal fratura adquire o caráter de denúncia ao desvelar a estrutura de captura do trabalho vivo. Por trás da frieza dos índices, reside a exploração da atividade intelectual levada ao paroxismo. Pesquisadores docentes e discentes não apenas exercem o ensino ou a investigação, mas são capturados por uma teia burocrática que exige o gerenciamento da própria produtividade.

Observa-se uma intensificação das tarefas que expropria o tempo de vida e converte corpos exaustos em combustível para alimentar o fetiche da excelência. O adoecimento e o esgotamento configuram-se como o valor de troca oculto nesse processo de avaliação, no qual a saúde do cientista é imolada perante a abstração da métrica.

A contradição atinge seu ápice quando essa estrutura de opressão é celebrada por aqueles que ela própria desumaniza. É recorrente o espetáculo de instituições e indivíduos que difundem, com entusiasmo, posições e universidades em rankings, como se a conquista de um lugar na hierarquia justificasse a penúria da existência cotidiana. Opera-se aqui uma forma de alienação na qual a consciência do sujeito é obscurecida pelo fetiche do reconhecimento simbólico.

O trabalhador do conhecimento, ao festejar tais números, comemora a eficácia dos meios que garantem sua própria subordinação. A competição institucional é apresentada como prestígio, ocultando que este nada mais representa do que a legitimação do desgaste humano em prol da acumulação de capital simbólico.

O movimento de recusa observado na Sorbonne reverbera em outras latitudes, evidenciando o declínio da legitimidade desses modelos de controle. Nos Estados Unidos, faculdades de direito centenárias romperam com classificações que desvalorizavam a função social das ciências humanas.

Na Ásia, instituições sul-coreanas reagiram à volatilidade de empresas como a Quacquarelli Symonds, cujas oscilações metodológicas revelam a fragilidade de critérios impostos como verdades inquestionáveis. Na Europa central, o boicote ao envio de dados reflete a percepção de que tais sistemas em nada contribuem para a efetiva missão acadêmica. O desconforto não é um fenômeno episódico; é o sintoma de uma estatistização forçada que tenta converter a universidade em uma sucursal do “Big Brother” acadêmico. Essa competitividade-vigiada institui uma numeralização da consciência, subjugando a produção intelectual a uma burocracia-algorítmica que aniquila a finalidade política do conhecimento.

No Brasil, o cenário assume tons de uma dramaticidade corrosiva. Tornou-se trivial presenciar perfis oficiais celebrando o fato de uma universidade pública estatal superar outra de mesma natureza, como se o êxito residisse no aniquilamento simbólico do par. Questiona-se a racionalidade de uma lógica de rivalidade entre entes que deveriam constituir o alicerce de um projeto coletivo de nação.

Ao mimetizar códigos competitivos típicos do mercado financeiro, o ambiente acadêmico renuncia à cooperação para se lançar em uma corrida por visibilidade numérica. Essa prática ignora as desigualdades históricas, tratando instituições com realidades distintas como se estivessem em uma pista de competição corporativa.

Os rankings internacionais atuam como reguladores das consciências e das práticas pedagógicas, impondo uma temporalidade que nega a maturação do pensamento. A investigação científica é expropriada do tempo do kairós, voltado à elaboração teórica profunda e à escuta das necessidades sociais, para se submeter ao império do kronos, marcado pela aceleração linear e pela contabilidade fria.

Projetos são arquitetados sob a receita da fragmentação e da entrega imediata, enquanto investigações que exigem demora e rigor são relegadas ao abandono. Por que o sistema premia o cientista que converte sua atividade em índice? Como aceitar que a densidade intelectual morra em nome da mera exibição de rendimento? Seria essa a vitória final do “Big Brother acadêmico” sobre a nossa própria consciência?

Essa análise não descarta a necessidade de diagnósticos sobre o ensino superior, desde que estes funcionem como instrumentos de identificação de assimetrias estruturais a serviço de políticas públicas de fortalecimento. A patologia se instala quando a classificação passa a ditar o financiamento e a sobrevivência, constrangendo a universidade a se adequar a um modelo de excelência que atende apenas aos interesses da hegemonia global.

Instituições com trajetórias singulares são forçadas a abrir mão de suas identidades para que possam ser contempladas no figurino estreito da padronização mercadológica, perdendo sua capacidade de resposta às contradições da realidade nacional.

A decisão da Sorbonne de romper com este circuito deve ser apreendida como um ato de resistência contra a mercantilização do conhecimento. Ao questionar as regras estabelecidas, a instituição recoloca no centro do debate a função social da universidade. Marx nos lembraria que a produção intelectual assume a forma de mercadoria, na qual o valor de uso da ciência é eclipsado pelo seu valor de troca simbólico.

Marx veria esses critérios de classificação como o fetiche da mercadoria em sua expressão máxima: o conhecimento deixa de servir à emancipação humana para ser um objeto quantificável. Como o pensamento pode sobreviver quando a métrica dita o que é real? Por que aceitamos que algoritmos de instituições-rankings funcionem como o capital variável que extrai a mais-valia do nosso intelecto? Essa tomada de posição demonstra que a comparação seriada desidrata a relevância histórica da produção do conhecimento. É a revolta contra a alienação de um sistema que nos obriga a produzir apenas para alimentar o apetite de um mercado de prestígio vazio.

O risco reside na fabricação (formação) de um cientista funcional à cadência da produtividade incessante. Pesquisas distantes dos interesses de conglomerados editoriais perdem tempo e legitimidade, pois o trabalho intelectual mira abstrações numéricas em vez de problemas sociais.

Ao romper com esse ciclo, a universidade francesa nos faz questionar: a quem serve esse conhecimento? Nossos pares refutam a hostilidade científica que reduz o semelhante a adversário por resíduos de prestígio. Ou será que, obcecados por selos estrangeiros, aceitamos o fetiche do ranking como substância da vida acadêmica? Marx veria o triunfo da mercadoria: o conhecimento não respira como práxis, mas jaz como mercadoria inerte. Qual o resultado dessa corrida senão o eclipse da soberania intelectual e o silêncio da negatividade crítica? Como cultivar a dúvida se cada ideia é vendida antes de ser dita? Resta o peso de uma consciência reduzida a números.

*Everton Fargoni é doutor em educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Fonte: Outras Palavras


Do Brasil à Grã-Bretanha: o custo oculto da soja e da carne bovina na destruição do Cerrado

Frequentemente negligenciado nos debates globais sobre conservação, o Cerrado brasileiro está sendo rapidamente transformado pela agricultura industrial, com o comércio com o Reino Unido desempenhando um papel direto na perda de sistemas hídricos, biodiversidade e estabilidade climática

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Com o aumento da demanda global por commodities, o Cerrado brasileiro está desaparecendo em um ritmo alarmante, com consequências que vão muito além da América do Sul. Essa extensa área mista de campos, savanas e florestas desempenha um papel fundamental nos sistemas hídricos e no clima da América do Sul, mas é um dos ecossistemas mais ameaçados do continente

A destruição do Cerrado chega ao Reino Unido através dos alimentos que consumimos, transformando uma crise regional em uma responsabilidade compartilhada com consequências globais.

Uma revisão científica publicada na revista Nature Conservation constatou que mais da metade da vegetação nativa do Cerrado desapareceu, principalmente nas últimas cinco décadas. Isso corresponde a aproximadamente 1.000.000 quilômetros quadrados, uma área maior que a França e a Alemanha juntas, agora substituída por terras agrícolas, pastagens e cidades em expansão.

Frequentemente descrito como o motor hidrológico do Brasil, o Cerrado alimenta oito das doze principais bacias hidrográficas do país. Sua contínua degradação ameaça a segurança hídrica muito além de suas fronteiras, com consequências sentidas em grande parte da América do Sul.

Segundo Cássio Cardoso Pereira, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e principal autor da revisão, os danos ecológicos vão muito além da perda de habitat:

A consequência mais urgente é a ruptura do papel do Cerrado como regulador hídrico continental.

A perda da vegetação nativa reduz a recarga dos aquíferos, seca rios que abastecem importantes bacias hidrográficas na América do Sul e agrava secas e ondas de calor extremas.

Ao mesmo tempo, estamos perdendo biodiversidade única e enormes reservas subterrâneas de carbono, o que torna essa destruição uma ameaça direta tanto para as espécies quanto para a estabilidade climática.

O Cerrado é o segundo maior ecossistema da América do Sul, depois da Amazônia, ocupando 23% da superfície do Brasil.

Os autores da revisão usam o termo “Ecodomínio” para se referir a grandes áreas ecológicas que incluem múltiplos ecossistemas, biomas e ecorregiões. O termo descreve essas regiões como existiam em sua extensão original, independentemente de seu estado atual de conservação.

Soja e carne bovina

A destruição do Cerrado não é impulsionada apenas pelo Brasil; está intimamente ligada à demanda global por soja e carne bovina, commodities que vinculam essa paisagem diretamente ao sistema alimentar e à pegada climática do Reino Unido.

A agricultura industrial é responsável por grande parte dessa perda. Desde o início do monitoramento por satélite em 2001, mais de 326.000 quilômetros quadrados do Cerrado foram desmatados, às vezes em ritmo mais acelerado do que até mesmo na Amazônia.

As plantações de soja e as fazendas de gado dominam hoje grandes áreas que antes abrigavam uma biodiversidade extraordinária. Essas paisagens, em sua maioria monoculturas, dependem de máquinas pesadas, fertilizantes e agrotóxicos, deixando pouco espaço para a recuperação dos ecossistemas.

O estudo destaca a região do MATOPIBA, que abrange os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, como um ponto focal das recentes mudanças no uso da terra, onde a expansão agrícola continua a avançar sobre a vegetação nativa remanescente.

O desmatamento está remodelando o clima do Cerrado: a estação chuvosa agora chega cerca de um mês mais tarde, a precipitação total diminuiu e as temperaturas diurnas subiram aproximadamente 1,5 ° C.

Com a chuva cada vez menos previsível, a agricultura torna-se cada vez mais dependente da irrigação. Isso cria um ciclo vicioso perigoso, acelerando o esgotamento dos recursos hídricos e aprofundando a degradação ecológica em toda a região.

Grande parte do carbono do Cerrado está armazenado no subsolo, aprisionado em raízes que podem atingir mais de 15 metros de profundidade. Essa “floresta invertida” ajuda as plantas a suportarem longos períodos de seca, enquanto silenciosamente reabastece os aquíferos.

Quando a vegetação nativa é desmatada, o carbono armazenado por longos períodos é liberado. Paisagens que antes absorviam emissões se transformam em fontes de gases de efeito estufa, intensificando as pressões climáticas que já afetam a região.

Colapso ecológico

O Cerrado desempenha um papel central no sistema hídrico brasileiro. Ele dá origem a oito bacias hidrográficas e se situa sobre três imensos aquíferos que armazenam vastas reservas de água doce. A crescente demanda da agricultura industrial, da geração de energia hidrelétrica e da expansão urbana está submetendo esses sistemas a uma pressão implacável.

A extração de água em larga escala, combinada com o uso generalizado de agrotóxicos, está contaminando solos e cursos d’água, além de esgotar as reservas subterrâneas. Os rios estão diminuindo, os ecossistemas estão se desestabilizando e a biodiversidade está declinando à medida que os sistemas hídricos perdem sua resiliência.

O desenvolvimento da energia hidrelétrica acelerou os danos. As barragens fragmentam os rios, interrompem os fluxos naturais e bloqueiam as rotas de migração dos peixes, das quais dependem tanto a vida selvagem quanto as comunidades locais. Com o tempo, essas mudanças estão remodelando fundamentalmente sistemas fluviais inteiros.

O estudo também documenta a extensa degradação causada pelo fogo, que muitas vezes não é contabilizada nos números oficiais de desmatamento. Incêndios naturais no Cerrado são raros, geralmente provocados por raios, mas estima-se que 99% dos incêndios no Brasil sejam causados ​​por atividades humanas ligadas ao desmatamento e à expansão agrícola.

Entre 1985 e 2022, cerca de 40% do Cerrado foi queimado pelo menos uma vez. Quase dois terços dessa área queimaram repetidamente, matando espécies sensíveis ao fogo e favorecendo o crescimento de gramíneas invasoras que aprisionam as paisagens em ciclos de degradação.

O Ecodomínio abriga cerca de 13.000 espécies de plantas, mais de 3.200 vertebrados e dezenas de milhares de invertebrados. Aproximadamente um terço de sua flora é endêmica, ou seja, não é encontrada em nenhum outro lugar da Terra.

No entanto, apenas uma pequena parte do Cerrado está estritamente protegida. Muitas espécies ameaçadas, particularmente plantas e insetos, permanecem mal avaliadas e politicamente negligenciadas. Ecossistemas com menor cobertura arbórea, como os campos, continuam sendo subvalorizados apesar de sua imensa importância ecológica.

Não se trata apenas de proteger espécies ameaçadas. Cerca de 80 povos indígenas vivem em mais de 200 territórios reconhecidos no Cerrado, muitos deles salvaguardando os últimos trechos de vegetação intacta da região.

Por gerações, essas comunidades cuidaram da terra, guiando rios, protegendo a vida selvagem e mantendo as paisagens resilientes. Muitos territórios permanecem apenas parcialmente reconhecidos pela lei, deixando tanto as pessoas quanto os ecossistemas expostos às crescentes pressões da agricultura e do desmatamento.

Rodolfo Salm, ecologista, ativista, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e um dos autores da revisão, afirma que as lacunas legais atuais têm raízes em uma longa história de desapropriação, agora reforçada por novas leis:

Durante grande parte da história do Cerrado, os povos indígenas foram progressivamente expulsos de seus territórios, primeiro pela pecuária, depois pela produção de grãos em larga escala. Esse processo se acelerou com a mudança da capital do Brasil para Brasília e se intensificou sob a ditadura militar das décadas de 1960 e 70.

Hoje, a recém-aprovada Lei do Marco Temporal , que restringe o direito ao reconhecimento legal de um território indígena às áreas que eram efetivamente ocupadas por povos indígenas na época da Constituição de 1988, combinada com complexas barreiras legais e burocráticas, tornou o reconhecimento de novas terras indígenas no Cerrado praticamente impossível.

Isso representa um duro golpe para a biodiversidade, pois os territórios indígenas estão entre as áreas mais eficazes e confiáveis ​​para a proteção dos ecossistemas.

A participação do Reino Unido no Cerrado

Muitas pessoas no Reino Unido ficariam surpresas ao saber o quão intimamente suas dietas estão ligadas a essa paisagem distante.

A Grã-Bretanha importa milhões de toneladas de soja por ano, a maior parte destinada à alimentação animal. Cerca de 90% é direcionada à pecuária, principalmente aves e suínos, o que liga diretamente a destruição do Cerrado à cadeia de abastecimento de carne.

Somos profundamente dependentes do resto do mundo, importando cerca de 40 a 50% dos nossos alimentos. E grande parte disso provém de regiões que também estão sendo duramente atingidas pelos impactos climáticos de que temos falado, disse o Professor Paul Behrens na Reunião Informativa Nacional de Emergência em Londres, em novembro passado.

Investigações da ONG Mighty Earth mostram que os principais comerciantes globais que abastecem os mercados do Reino Unido e da Europa continuam a obter soja de áreas ligadas à destruição do Cerrado, apesar dos repetidos compromissos públicos com a sustentabilidade.

A Mighty Earth também alertou que as regras de due diligence pouco rigorosas do Reino Unido podem transformar a Grã-Bretanha em um depósito de soja e carne bovina ligadas ao desmatamento, à medida que as empresas desviam o fornecimento de alto risco de mercados mais rigorosamente regulamentados.

Apesar das promessas do governo, as importações britânicas de soja e carne bovina continuam a impulsionar a destruição do Cerrado por meio das cadeias de suprimento de ração animal.

Philip Fearnside, professor pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e um dos autores da revisão, explica por que os compromissos voluntários e os códigos de sustentabilidade não atingiram seus objetivos, destacando os impactos indiretos negligenciados da produção de commodities:

A maior parte da expansão da soja na Amazônia e no Cerrado ocorre não por meio do desmatamento direto, mas pela conversão de pastagens de gado em plantações de soja. Essa transformação geralmente resulta da venda de terras por pecuaristas para plantadores de soja, em vez da conversão deles próprios para o cultivo da soja.

Como as terras adequadas para o cultivo de soja têm preços elevados, os pecuaristas frequentemente usam o dinheiro para comprar extensões muito maiores e mais baratas de floresta tropical no interior da Amazônia, o que indiretamente impulsiona ainda mais o desmatamento. Esses impactos indiretos escaparam, em grande parte, de todos os sistemas de monitoramento e certificação existentes.

O Reino Unido pode estabelecer regras juridicamente vinculativas para empresas fornecedoras de produtos como a soja, exigindo que elas prestem contas dos impactos ambientais diretos e indiretos. Ao monitorar esses efeitos combinados, o Reino Unido poderia evitar o fornecimento de soja associada ao desmatamento generalizado tanto no Cerrado quanto na Amazônia.

O Regulamento de Produtos Florestais de Risco do Reino Unido (UKFRC, na sigla em inglês), previsto na Lei Ambiental de 2021, ainda não entrou em vigor. E como a lei visa apenas o desmatamento ilegal, vastas áreas de terra que foram legalmente convertidas, mas que ainda assim estão destruindo habitats únicos, permanecem desprotegidas.

Grande parte desses danos permanece invisível. A soja necessária para a alimentação animal é uma “pegada fantasma”, invisível nos rótulos, mas muito real em termos climáticos e ecológicos.

Pereira afirma que os responsáveis ​​pela destruição do Cerrado são bem conhecidos e, em grande parte, tolerados:

A rápida destruição do Cerrado é impulsionada principalmente pela expansão do agronegócio, especialmente o cultivo de soja e a pecuária, facilitada por políticas permissivas de uso da terra e fiscalização deficiente.

Diferentemente da Amazônia, a maior parte do desmatamento no Cerrado ainda é legalmente permitida, o que protege corporações e cadeias de suprimentos da fiscalização. A responsabilização internacional falhou porque as estruturas globais de clima e biodiversidade negligenciam amplamente os campos e savanas, tratando-os como paisagens descartáveis ​​em vez de ecossistemas críticos.

Um aviso e uma escolha

Segundo o relatório da Nature Conservation, o Cerrado está sendo levado ao colapso.

Fearnside alerta que a destruição contínua do Cerrado não é apenas uma crise regional, mas um risco global, que acelera as alterações climáticas e prejudica os sistemas hídricos, a biodiversidade e as comunidades que deles dependem:

A perda do Cerrado contribui diretamente para o aquecimento global e para a interrupção do ciclo da água, assim como o desmatamento da Amazônia. Juntos, esses processos destroem a biodiversidade e as sociedades humanas que dependem da vegetação nativa.

As práticas atuais estão levando o clima global a pontos de inflexão que, se ultrapassados, seriam devastadores não apenas para o Brasil, mas para o mundo. Evitar esse desfecho exige mais do que apenas proteger as florestas: significa acabar com o desmatamento do Cerrado e da Amazônia e interromper rapidamente o uso de combustíveis fósseis.

Para o Reino Unido, o Cerrado não é um problema distante. Seu destino está diretamente ligado às nossas importações, dietas e escolhas diárias. A responsabilidade climática começa muito antes da linha costeira, em nossas cozinhas, em nossos pratos e por meio das escolhas que fazemos todos os dias.

Imagem em destaque: O primeiro-ministro Sir Keir Starmer (à esquerda) reunindo-se com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, para um encontro bilateral em Nova York, antes de seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas. Alamy/Leon Neal


Fonte: Your Voiz

Crise hídrica espalha efeitos pelo Brasil: combinação de desmatamento e mudanças climáticas agrava problema

Bacias hidrográficas do Sudeste e do Centro-Oeste seguem no vermelho, e a recomendação do Cemaden é que a gestão dos reservatórios ao longo do ano seja feita considerando o pior cenário de seca possível

Agravada pelo desmatamento e pelas mudanças climáticas, crise hídrica  espalha efeitos pelo país

Reservatório Paulo de Paiva Castro, que faz parte do Sistema Cantareira: ele regula o fluxo de água que, no fim da linha, abastece a Grande São Paulo — Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo/07/10/2025

Por Ana Lucia Azevedo para “O GLOBO”

Choveu, mas não resolveu. A água que caiu nos últimos dias, no maior volume da estação chuvosa iniciada em outubro, trouxe alívio temporário para o calor e provocou transtornos, mas não tirou do nível crítico os rios dos quais depende a maior parte da população do Brasil. As bacias hidrográficas do Sudeste e do Centro-Oeste seguem no vermelho, e a recomendação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) é que a gestão dos reservatórios ao longo do ano seja feita considerando o pior cenário de seca possível.

— Não choverá o bastante para recuperar reservatórios, sobretudo no Sudeste. A estação seca começa em março e irá até outubro, quando as chuvas deveriam voltar. A situação está crítica e pode piorar. Será preciso planejar muito bem — destaca o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador de operações do Cemaden.

A crise não brotou de hora para outra. É fruto de anos seguidos de pouca precipitação e menor umidade. Esses problemas, por sua vez, decorrem de mudanças climáticas e, em especial, do desmatamento, frisam cientistas. Menos cobertura vegetal, menos evaporação e, consequentemente, menos vapor d’água e umidade no ar para fazer chover.

As florestas e a vegetação nativa de Cerrado também captam e fixam a água no subsolo, formando nascentes e evitando a erosão que assoreia rios. A evaporação de uma área de pastagem é, em média, de quatro a cinco vezes menor do que à de uma com cobertura vegetal nativa (o valor varia com o bioma), já indicaram estudos.

Sem chuva nas cabeceiras

Temporais como o da noite de domingo no Rio de Janeiro podem alagar a cidade e até interromper um Fla-Flu, mas não têm impacto na recuperação de reservatórios. Primeiro, porque são pontuais. Além disso, localizados — segue sem chover nas cabeceiras. E o nível dos lençóis freáticos está tão baixo que os rios absorvem a chuva como se fossem ralos.

A crise afeta quase todo o Brasil, enfatiza Adriana Cuartas, especialista em recursos hídricos e também do Cemaden. Sudeste e Centro-Oeste estão em pior situação. Exceções são o Sul, parte da Amazônia e o Rio São Francisco até a Hidroelétrica de Três Marias (MG), beneficiado por chuvas mais intensas nas cabeceiras.

Chama a atenção a situação ruim da Bacia do Rio Grande (MG/SP), na qual o reservatório de Furnas está um pouco acima de 30%. Panorama também bastante crítico para as bacias do Sistema Cantareira (Piracicaba, Capivari e Jundiaí) e do Rio Paraíba do Sul. Todas estão em condição de seca excepcional, e volumes em torno de 21% para o Cantareira e 34% para o reservatório do Jaguary, que faz a interligação com o Cantareira.

O esperado seriam aproximadamente 70%, no mínimo 60%, para essa época do ano. No Centro-Oeste, as bacias do Tocantins e do Araguaia passaram janeiro em situação de seca extrema. Já as bacias do Sudeste começaram a ficar críticas lá em 2014, diz Cuartas:

— A situação é ruim e com tendência de piora. A conta de luz vai continuar cara, e o risco de problemas no abastecimento, presente. A energia até pode ser trazida do Norte, mas a água, não. As pessoas olham a chuva, cidades alagadas, e pensam que está resolvido. Mas estamos longe disso, com chuva abaixo da média, muito irregulares e localizadas.

O Sistema Cantareira exemplifica a consequência de chover pouco e no lugar “errado”. Ele abastece São Paulo, mas as cabeceiras de suas três bacias ficam em Minas Gerais. A capital paulista penou com uma semana de enchentes, mas nas nascentes dos rios formadores do sistema a seca imperou.

No Brasil tem chovido não só pouco e no lugar errado, mas literalmente no molhado. Uma pesquisa de Cuartas com outros cientistas brasileiros e estrangeiros, publicada em 2025 na revista “Frontiers of environmental sciences”, revela que neste século as chuvas estão reduzindo nos continentes e crescendo nos oceanos.

Secas mais longas

Ninguém se atreve a dizer como será a próxima estação chuvosa, que começa em outubro. A atual já é considerada perdida. Fenômenos como El Niño e La Niña não influenciam o regime de chuvas do Sudeste e do Centro-Oeste. A estação das chuvas termina em março e não há previsão de que haverá precipitação razoável. E, ainda que caísse muita água, o que é altamente improvável, não seria possível recuperar o cenário.

Marcus Suassuna, hidrólogo do Serviço Geológico do Brasil (SGB), explica que grandes reservatórios levam de dois a três anos, em média, para se recuperar após períodos de escassez. Ele ressalta ainda a situação ruim de bacias naturais, como no Rio Paraguai, que dá vida ao Pantanal.

Nas últimas seis décadas, ano a ano chove menos no Brasil, à exceção do Sul, pontua Seluchi. E, nos últimos 40 anos, a estação chuvosa encurtou 25 dias no Sudeste e no Centro-Oeste, mostrou outro estudo do Cemaden. Isso quer dizer que a estação seca também está quase um mês maior.

Mesmo a chuva da semana passada, associada a uma Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), despejou bem menos água do que o esperado. Segundo Seluchi, possivelmente, os modelos de previsão do tempo superestimaram o volume de precipitação previsto porque não consideraram a umidade tão baixa:

— Isso tem relação com mudanças climáticas, mas também com desmatamento. O Brasil tem desmatado cumulativamente Mata Atlântica e Cerrado, onde estão as cabeceiras dos principais rios do Centro-Sul. Com isso, as nascentes secam, os lençóis freáticos não são repostos.

Uma pesquisa apoiada pelo Movimento Viva a Água, lançado pela Fundação Grupo Boticário, evidenciou o impacto do desmatamento nas reservas de água. Cientistas compararam o comportamento de microbacias do Alto Iguaçu, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), sob situação de seca severa. Naquelas com mais de 50% de floresta preservada, a redução de volume d’água de rios não passava de 10%. Já nas desmatadas a diminuição chegava a 50%.

— Manter a cobertura vegetação e restaurar áreas desmatadas é uma medida de adaptação à mudança climática crucial no Brasil e precisa do envolvimento de toda a sociedade — salienta Guilherme Karam, gerente de Economia da Biodiversidade da fundação.

A crise deste ano também insere-se em um cenário global. A ONU declarou oficialmente esta semana que o planeta está em falência hídrica, com 75% da Humanidade vivendo em países classificados como criticamente inseguros e metade tendo que enfrentar pelo menos um mês por ano de escassez severa.


FONTE: O GLOBO

Em novo incidente em Congonhas, vistoria aponta que resíduos de mineração da CSN também atingiram afluente do Rio Paraopeba

Incidente também ocorreu no fim de semana, mas só foi confirmado na terça (27), após fiscalização do município; afluente do Paraopeba foi atingido novamente

Imagem mostra área alagada entre o dique da mineradora e trilhos de trem

Imagem mostra área alagada entre o dique da mineradora e trilhos de tremFoto: ARQUIVO PESSOAL / DIVULGAÇÃO 

Por José Vítor Camilo para o “O TEMPO”

Prefeitura de Congonhas, na região Central de Minas Gerais, confirmou, nesta quarta-feira (28/1), um terceiro incidente que culminou em carreamento de resíduos da mineração para o rio Maranhão, afluente do rio Paraopeba. Desta vez, os danos ambientais ocorreram em área da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), no dique de Fraile, na Mina Casa de Pedra, que passa por obras desde então. O volume de material que atingiu o rio não foi confirmado e, segundo a mineradora, apesar da informação divulgada pela mineradora, não trata-se de resíduos da mineração, mas de acessos abertos pela empresa na região. 

Assim como os dois vazamentos registrados em minas da Vale, o episódio também foi registrado durante as chuvas do último final de semana. Porém, o fato só foi descoberto após vistoria promovida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas na terça-feira (27). Segundo a nota do município, não foram constatados danos causados pelo incidente no dique da mineradora, entretanto, foi identificado “carreamento de resíduos da atividade minerária” em rios da região.

“Ainda que nenhuma estrutura tenha se rompido, ao longo das vistorias, a fiscalização ambiental identificou problemas de drenagem e danos ambientais decorrentes do carreamento de resíduos da atividade minerária que atingiram corpos d’água, classificados como de natureza moderada. Em razão disso, o município adotará as medidas administrativas cabíveis, incluindo a lavratura de autos de infração contra o empreendimento”, divulgou a prefeitura. 

Ainda conforme o município, foi constatado no local o carreamento de resíduos por enxurradas fruto de deficiências nos sistemas de drenagem das vias da mineradora. Com isso, o dique de Fraile acabou recebendo grande parte da lama que escorreu. As enxurradas também atingiram a cachoeira de Santo Antônio, no Parque da Cachoeira. 

“No Dique do Fraile, na região do bairro Plataforma, verificou-se carreamento significativo de resíduos, situação que motivou a exigência de adequações estruturais, de forma que a estrutura passe a suportar adequadamente o elevado volume de material proveniente de diferentes direções, evitando riscos de extravasamento”, informou a Prefeitura. 

Foto mostra máquinas pesadas trabalhando na área do dique de Fraile, da CSN l Arquivo Pessoal / Divulgação

Procurada, a CSN informou, por nota, que mantém relacionamento “transparente e permanente” com as autoridades competentes, que foram recebidas “por diversas vezes” para a inspeção no local. “Durante as vistorias, segundo manifestação da própria prefeitura de Congonhas, foi constatado que não houve qualquer extravasamento, transbordamento, rompimento ou anormalidade em quaisquer das estruturas de barragem ou contenção de sedimentos da Companhia”, escreveu.

A empresa argumenta ainda que, durante as inspeções, a prefeitura constatou o “carreamento de resíduos por enxurrada, decorrentes de deficiências nos sistemas de drenagem”. “A CSN esclarece que esse carreamento está relacionado exclusivamente à drenagem de estradas de terra e acessos da região, assim como o eventual carreamento de galhos em decorrência das fortes chuvas, sem qualquer relação com barragens ou com as atividades operacionais da Companhia. Esse esclarecimento é primordial para evitar interpretações equivocadas e pânico desnecessário”, completou.

Por fim, a mineradora informou que as estruturas têm a função de conter sedimentos e passam por manutenções e limpezas periódicas. Além disso, as intervenções que acontecem no local são rotineiras e fazem parte do “plano de chuvas da CSN Mineração”, visando ampliar a capacidade de drenagem e reforçar a segurança da área. 

Os sedimentos que atingiram o rio Maranhão também inundaram uma área localizada entre o dique da CSN e a linha férrea da MRS. A empresa de transporte ferroviário foi questionada por O TEMPO, mas não se posicionou até a publicação da reportagem. 

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) também foram questionadas sobre o episódio, mas ainda não se manifestaram.

Enxurradas foram denunciadas dias antes do ocorrido

Ainda na última sexta-feira (23), dois dias antes dos vazamentos serem registrados, o diretor da Unaccon, Sandoval Pinto, enviou uma denúncia à Prefeitura de Congonhas sobre as enxurradas registradas na área da CSN. “Carreamento de sólidos em grande volume para curso d’água que cruza a ferrovia, com nascente em áreas da CSN Mineração, que estão sendo decapeadas”, dizia o documento. 

“Na sexta-feira eu recebi diversos vídeos dos moradores do bairro Plataforma, preocupados com a situação. As imagens mostravam uma lama muito densa correndo para o rio Maranhão e, no local, constatamos que esse material era proveniente do desmatamento que a CSN está promovendo para instalação da pilha de Fraile”, denuncia. 

Veja a foto que mostra a área desmatada pela mineradora: 

Lama que afetou dique teria escorrido de áreas desmatadas l ARQUIVO PESSOAL / DIVULGAÇÃO

 

Ainda segundo a Prefeitura de Congonhas, na fiscalização realizada pela Defesa Civil do município foi constatado que, apesar do incidente, “não houve risco à integridade física de pessoas, restringindo-se os impactos aos danos ambientais já descritos”.

“A Prefeitura de Congonhas segue acompanhando a situação de forma rigorosa e permanente, mantendo o monitoramento técnico das áreas afetadas e adotando todas as providências legais necessárias para a proteção do meio ambiente, a prevenção de novos impactos e a segurança da população”, finalizou o município. 

Confira a nota da CSN na íntegra

“A CSN Mineração mantém relacionamento transparente e permanente com as autoridades competentes, que estiveram na Companhia por diversas vezes para inspeção de suas estruturas e operações.

Durante as vistorias, segundo manifestação da própria prefeitura de Congonhas, foi constatado que não houve qualquer extravasamento, transbordamento, rompimento ou anormalidade em quaisquer das estruturas de barragem ou contenção de sedimentos da Companhia. 

Em relação ao que foi mencionado na nota da Prefeitura, que afirma que, durante as inspeções, foram constatados episódios de carreamento de resíduos por enxurrada, decorrentes de deficiências nos sistemas de drenagem, a CSN esclarece que esse carreamento está relacionado exclusivamente à drenagem de estradas de terra e acessos da região, assim como o eventual carreamento de galhos em decorrência das fortes chuvas, sem qualquer relação com barragens ou com as atividades operacionais da Companhia. Esse esclarecimento é primordial para evitar interpretações equivocadas e pânico desnecessário.

As estruturas inspecionadas têm a função de contenção de sedimentos e passam por manutenções e limpezas periódicas. Assim, as intervenções realizadas são rotineiras, fazem parte do plano de chuvas da CSN Mineração e visam ampliar a capacidade de drenagem e reforçar a segurança da área.”


Fonte:  O TEMPO

Identitarismos e luta de classes: o problema de se ignorar a hegemonia capitalista nas relações sociais

The Problems Posed by the Concrete Class Struggle and Popular Organization

Publiquei aqui o singular caso da expulsão da mestranda Beatriz Bueno do programa de Mestrado em Cultura e Territorialidades da UFF.  Comentei apenas a minha estranheza sobre a tomada de uma medida tão radical, especialmente em um tempo em que os pós-graduandos gozam quase de imunidade completa para suas eventuais impropriedades ao longo dos seus estudos, seja de Mestrado ou Doutorado.

No post inicial eu me furtei a tecer maiores comentários porque a área das relações sociais não é nem de perto o foco das minhas pesquisas, e preferi não meter a minha colher, digamos assim, em um debate no qual não tenho conhecimento suficiente.

Mas desde a eclosão do caso da expulsão de Beatriz Bueno, o que eu tenho lido e ouvido sobre as razões e objetivos do debate por ela levantado sobre a desconsideração dos pardos no acesso às políticas sociais voltadas para melhorar a posição dos não brancos na sociedade brasileira vai do alinhamento até os ataques mais virulentos possíveis.  No caso dos ataques, Beatriz Bueno é apresentada como uma espécie de Cavalo de Tróia que está sendo usado para negar os direitos historicamente negados aos brasileiros afrodescendentes.

Ao ler e ouvir o que Beatriz Bueno coloca, o que me parece surgir é uma cobrança para que se reconheça que a estrutura racial brasileira não é binomial (brancos e negros), mas que congrega um grande contingente de mestiços, os pardos, que não se reconhecem ou não são reconhecidos por um grupo ou outro.  Nesse sentido, não considero que o principal problema de Beatriz Bueno seja o de apresentador um caso sem bases teóricas que possam ser discutidas de forma racional e lógica. Afinal, o grau de mestiçagem é alto no Brasil, e já se sabe há algum tempo que existem brasileiro que não identificam com os dois grupos aos quais o debate foi concentrado nas últimas duas décadas (i.e., brancos e negros).

Então qual seria para mim o principal problema do caso apresentado por Beatriz Bueno? O mesmo problema daqueles que reduzem os problemas sociais e econômicos existentes no Brasil à questão da raça, desconsiderando um elemento que me parece essencial que é o da classe.  É que sendo o Brasil um país capitalista de caráter atrasado e dependente, não há porque se desconsiderar cabalmente a questão da classe social, já que existem milhões de brancos brasileiros que são pobres e excluídos dos direitos que são hoje garantidos, precariamente há que se enfatizar, dos não brancos.

O fato é que qualquer forma de opressão existente no capitalismo é ditada pela posição de classe do indíviduo. Assim, apenas aumentar o universo dos pleiteantes às melhorias condicionadas que o Estado entrega para reparar as distorções da forma de capitalismo vigente no Brasil não vai mudar essencialmente nada. Aliás, isto já foi claramente demonstrada pela experiência estadunidense no qual o modelo bionamial de relações raciais foi desenvolvido. 

Finalmente, há que se dizer que diante da catástrofe climática e de seus impactos mais visíveis sobre os trabalhadores, as tarefas que estão postas precisam de estratégias que mostrem a insuficiência de se manter o debate apenas no plano de que se precisa aumentar o número de pessoas sentadas na mesa do banquete capitalista. O buraco neste momento é bem mais fundo e perigoso. 

Aquífero estratégico no norte fluminense abastece Porto do Açu enquanto comunidades do entorno sofrem com falta d’água

Extração de água subterrânea foi autorizada pelo Inea a partir de 2022

Maior complexo portuário e industrial da América Latina opera há mais de 10 anos no Norte Fluminense | Crédito: Divulgação/Prumo Logística

Por Clivia Mesquita para “Brasil de Fato” 

Imagine um grande reservatório de água doce subterrânea e de excelente qualidade. Esse é o aquífero Emboré, localizado na região Norte Fluminense, considerado estratégico para a segurança hídrica regional. Desde 2022, Porto do Açu tem autorização do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para explorar essas águas profundas.

A jurisdição sobre a água subterrânea é do governo estadual, segundo a Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei 9.433/1997). O Inea, por sua vez, não informou o valor da outorga de direito de uso de recursos hídricos emitida para o aquífero Emboré. Os recursos gerados pela cobrança devem financiar programas, projetos e obras de melhoria na qualidade da água para o bem comum.

O porto e as empresas instaladas no megaempreendimento se abastecem do aquífero por meio de poços profundos. Em 2024, a empresa Porto do Açu extraiu 708 mil m³ do aquífero. O balanço consta no relatório de sustentabilidade da empresa (disponível neste link). A retirada passa de 2 milhões de m³ no acumulado dos últimos três anos. 

Para o ecologista Arthur Soffiati, o porto buscou a solução mais barata a curto prazo. Ao Brasil de Fato, historiador ambiental especialista na região Norte e Noroeste fluminense, explicou que a dinâmica natural de recarga dos aquíferos profundos depende das áreas úmidas da superfície. Isso significa que os aquíferos também se esgotam. A alternativa, que preservaria o aquífero, seria dessalinizar a água do mar, a exemplo de portos em outros países.

Para além da reserva estratégica de água doce, do outro lado da moeda prevalece a escassez para os moradores da região. A principal fonte de abastecimento público de São João da Barra é o rio Paraíba do Sul, que chega no município quase sem vazão. A situação fica ainda mais crítica com a estiagem. Durante longos períodos sem chuva, moradores ouvidos pela reportagem relataram que ficaram até dois meses sem água nas torneiras. 

“O Porto evitou a captação no rio [Paraíba do Sul] não por respeito à sua capacidade, mas sabendo que ele não atenderia a demanda. Então, capta no aquífero Emboré com autorização pública. Muitas bocas sugaram a água da região, que era super-úmida”, pontua o eco-historiador Soffiati sobre os impactos ambientais na região que pode virar semiárida.

Ao Brasil de Fato, o Inea informou que 20 poços operam no Porto do Açu. Segundo o órgão estadual, a região onde se encontra o complexo portuário não é abastecida por rede pública, sendo “permitido o uso da água oriunda de poços para a finalidade de consumo e higiene humana”.

“O Inea reitera ainda que o Aquífero Emboré se trata de um aquífero confinado, sem contribuição para o fluxo de base dos rios da região, que possuem contribuição de aquíferos mais rasos. Dessa forma, a operação em questão não poderia estar afetando os níveis dos corpos hídricos superficiais locais”, diz a nota.

Escassez hídrica global

O centro de estudos da ONU sobre água, da Universidade das Nações Unidas (UNU), declarou recentemente que o mundo entrou na era da “falência hídrica”, devido aos impactos das mudanças climáticas e o uso excessivo de recursos hídricos. 

Cerca de 70% dos aquíferos subterrâneos registram declínio de longo prazo. Devido aos danos irreversíveis da atividade humana, 4,4 bilhões de pessoas enfrentam escassez de água pelo menos um mês por ano. Essa é a situação dos moradores de diversas localidades de São João da Barra.

Professor aposentado da UFF-Campos, Soffiati explica que a elevação progressiva do nível do mar pelo aquecimento global fechou um braço do rio Paraíba do Sul. “Pelo braço de Gargaú, a língua salina penetra no rio comprometendo a captação para abastecimento público de São João da Barra, Atafona, Gruçaí e 5º Distrito”, detalha o ecologista.

“A captação do porto no aquífero de Emboré é um mistério não revelado pela empresa e pelo Inea. A captação para consumo público de SJB poderia ser feito nele, mas, ao lado disso, é preciso proteger as áreas úmidas que ainda restam, garantir a recarga do aquífero, promover o reflorestamento de áreas críticas. Sei que não se pode voltar ao passado, mas medidas que garantam a sustentabilidade ambiental podem e devem ser tomadas com a coordenação do poder público”, completa.

Danos coletivos

A construção do Porto do Açu, em 2009, envolveu uma série de danos ambientais, violação de direitos e corrupção que implicaram o ex-governador do Rio Sérgio Cabral e o empresário Eike Batista. Como noticiou o Brasil de Fato, ainda há cerca de 500 processos indenizatórios na Justiça sobre as desapropriações de terras de agricultores para a instalação do complexo.

Professora associada da Universidade Federal Fluminense em Campos dos Goytacazes (UFF-Campos), Ana Costa explica que os impactos ambientais do empreendimento são conhecidos desde 2012. Entre eles, sobressai o de salinização das águas, que ficou comprovado em estudos realizados pelo Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).

“O estudo constatou que a salinidade das águas superficiais e subterrâneas destinadas ao consumo humano e à irrigação atingiu níveis de 5 a 7 vezes superiores aos do rio Paraíba do Sul. Na comunidade de Água Preta, foram registrados níveis de salinidade em águas de pastagem equivalentes aos da água do mar, cerca de 820 vezes superiores aos valores característicos de água doce”, afirma Costa.

Há anos que suas pesquisas sobre as expropriações das terras do Açu apontam escassez e má qualidade da água. “A salinização tem sido apontada como a principal reclamação das comunidades do 5º distrito [de São João da Barra], incluindo relatos iniciais de impactos à saúde da população local”, completa.

Uma manifestação da Defensoria Pública estadual pede a inclusão dos danos ambientais no processo de reparação dos atingidos. De acordo com a Ação Civil Pública, o estudo de impacto não detalhou os efeitos da dragagem do mar, entre eles a salinização. O documento sustenta que houve prejuízo ao meio ambiente como todo, aos agricultores que perderam plantações e às comunidades afetadas.

Falta água para tudo

São João da Barra vive um impasse sobre a responsabilidade do abastecimento. O contrato de concessão com a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) está vencido, porém, a concessionária permanece operando o serviço até a conclusão de um novo processo. 

Segundo a Cedae, estão sob sua responsabilidade apenas as localidades Praia do Açu e Grussaí. As demais são atendidas pela prefeitura, que conta com sistemas próprios de abastecimento. À frente da cidade está a prefeita Carla Caputi (União Brasil), reeleita para o segundo mandato em 2024.

Moradores ouvidos pela reportagem relatam que os problemas são generalizados, e estão relacionados à qualidade, pressão e regularidade do fornecimento de água em diversas localidades. A família da dona de casa Keli Gonçalves, do bairro Água Preta, precisa comprar cinco galões de água mineral por semana. 

“Anos que o povo luta pedindo melhorias e nada acontece. Minha casa é a última da rua, aqui é raro vir água. Em dias de calor piora, não cai uma gota. A não ser que o dia esteja nublado ou chovendo, não sobe água pra caixa”, contou ao Brasil de Fato. Ela mostra que a água não tem pressão nem para encher caixas d’água enterradas na areia. 

Água chega sem força nas comunidades do entorno o Porto do Açu; moradores precisam usar bomba elétrica acoplada em caixas no chão para ter água encanada
Água chega sem força nas comunidades do entorno o Porto do Açu; moradores precisam usar bomba elétrica acoplada em caixas no chão para ter água encanada | Crédito: Arquivo pessoal

Mesma situação vive a aposentada Maria da Penha, que mora com a mãe de 94 anos. “Antes da chuva desses dias, não subia água pra caixa há mais de 2 meses. A água pinga, leva quase 1h pra encher um balde a noite pra tomar banho”, disse. 

Sem resposta do poder público, aumenta a desconfiança de desvios na rede. “Não tem água pra fazer nada. A gente acha tem desvio pra alguma roça, porque quando chove tem água com força pra subir na caixa. Toda comunidade sofre”, lamenta Penha. 

Uma família de agricultores do bairro Sabonete que preferiu não se identificar junta água da chuva para a limpeza da casa e algumas atividades domésticas. A pressão da água encanada é tão fraca que sobe na caixa só com ajuda de uma bomba elétrica e mangueira.

“O dia que tem a água é muito suja, enferrujada, aquela água amarela, é um problema muito sério, a gente não faz nada com essa água, não tem como. Mal tomar banho. A água pra consumo tem que ser comprada de galão. Quando chove a gente junta água pra lavar as roupas, porque se lavar com a água daqui, a roupa não serve mais”, relata.

Ao Brasil de Fato, a prefeitura não deu um prazo, mas informou que o Plano Municipal de Água e Esgoto (PMAE) está em fase de revisão. O plano vai estruturar um novo processo de concessão para implementação definitiva de redes de água e esgoto alinhadas ao Marco Legal do Saneamento.

Outro lado

O Brasil de Fato enviou uma série de questionamento para a Porto do Açu sobre o uso do aquífero nas operações. A empresa afirmou que a água subterrânea é usada de forma sustentável, e que “estudos comprovam que não há impactos ambientais associados à retirada de água”. Não foi informado o volume retirado em 2025.

“O uso é acompanhado de forma contínua pelo Inea, por meio de monitoramento hidrogeológico, que indica que a recarga natural do aquífero é compatível com os volumes utilizados. O Porto adota ainda a diversificação de fontes, com uso de água de reuso, do mar e de chuva, preservando o Aquífero Emboré como reserva estratégica regional”, diz a resposta.

Sobre a falta d’água crônica em São João da Barra, a prefeitura informou que atua de forma complementar nas áreas não atendidas pela Cedae, por meio de caminhões-pipa, quando necessário. O município é responsável pela operação e manutenção de sistemas próprios de abastecimento, alimentados por poços profundos em Sabonete, Mato Escuro e Bajuru. 

A população de SJB pode comunicar falta d’água pelos seguintes canais: (22) 2741-8449 – Ramais 310 e 311, (22) 99975-1862 e servicospublicos@sjb.rj.gov.br.

Editado por: Vivian Virissimo

Indignação em centro científico europeu após demissão de diretor devido a estudo sobre glifosato

Dr. Daniele Mandrioli served as director of the Ramazinni Institute’s Cesare Maltoni Cancer Research Center from 2020 until his recent termination 

Por Carey Gillam para “The New Lede”

O Dr. Daniele Mandrioli ingressou  no Instituto Ramazzini  em Bolonha, Itália, em 2012 e dirige o Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto desde 2020. O centro de pesquisa realiza estudos toxicológicos em uma variedade de substâncias ambientais para determinar sua carcinogenicidade e outras possíveis implicações para a saúde.

O trabalho do instituto tem sido usado para fundamentar a tomada de decisões regulatórias e a elaboração de políticas sobre diversos produtos químicos, incluindo cloreto de vinila, benzeno e formaldeído, e o grupo  afirma colaborar com o Programa Nacional de Toxicologia dos EUA, bem como com o Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental dos EUA. Em seu site, o instituto destaca   50 ANOS DE PESQUISA INDEPENDENTE” e lista a Organização Mundial da Saúde como parceira.

Saiba mais sobre o Estudo Global do Glifosato aqui .

Mas a demissão de Mandrioli e a suspeita de que esteja ligada ao seu trabalho com o glifosato agitaram os círculos científicos.

Em uma  carta de 21 de janeiro endereçada  à presidente do Instituto Ramazzini, Loretta Masotti, o Dr. Philip Landrigan, epidemiologista ambiental e pediatra americano que lidera o programa de saúde pública global do Boston College e também preside o Comitê Consultivo Científico Internacional do Instituto Ramazzini, descreveu Mandrioli como um “cientista excepcional” e reclamou que o comitê não havia sido consultado sobre a demissão. A decisão parece ter sido motivada por pressão da indústria, alega a carta.

“O Dr. Mandrioli… tem sido alvo de ataques virulentos por parte da indústria química porque as descobertas da pesquisa independente do Instituto custaram dinheiro a essas empresas e prejudicaram seus resultados financeiros”, escreveu Landrigan. “Os ataques ao Dr. Mandrioli aumentaram de intensidade nos últimos meses, desde a publicação dos resultados do Estudo Global sobre o Glifosato, que constatou que o glifosato causa aumentos dose-dependentes no câncer em múltiplos locais anatômicos em animais de laboratório, principalmente aumentos na leucemia.”

“Estamos profundamente preocupados com o fato de sua decisão poder sinalizar o fim da independência da pesquisa do Instituto Ramazzini”, afirma a carta.

Questionada sobre as preocupações, Masotti afirmou que “a relação com o Dr. Mandrioli foi encerrada de comum acordo” e não por pressão da indústria química. Ela disse que os estudos sobre o glifosato continuarão.

“Nossos valores de pesquisa independente nunca foram questionados. O Centro de Pesquisa do Câncer do Instituto Ramazzini é um centro de excelência reconhecido internacionalmente, renomado por suas inúmeras e excepcionais contribuições para a pesquisa ambiental, e reconhecido por sua integridade e independência científica”, disse Masotti.

Sob a liderança de Mandrioli, o centro de pesquisa tem se concentrado recentemente no estudo dos múltiplos impactos potenciais do glifosato na saúde. O glifosato é o herbicida mais utilizado no mundo. Ele é conhecido como o principal ingrediente dos produtos Roundup, popularizados pela Monsanto, empresa agora pertencente ao conglomerado alemão Bayer.

Ao longo dos anos, muitos estudos científicos associaram o glifosato e o Roundup ao câncer, e a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer da Organização Mundial da Saúde  classificou o agrotóxico  como provavelmente cancerígeno para humanos em 2015.

Quase 200 mil pessoas processaram a Monsanto e a Bayer nos EUA, alegando que seus cânceres foram causados ​​pela exposição a herbicidas à base de glifosato.

Mas a Monsanto e, posteriormente, a Bayer,  sustentam que não há nenhuma base científica válida  que ligue o glifosato ao câncer e têm combatido veementemente cientistas e outros que contestam essa posição, incluindo aqueles da Organização Mundial da Saúde.

No verão passado, Mandrioli e o centro de pesquisa  publicaram os resultados  de um estudo de dois anos que,  segundo Mandrioli, apresentou  “evidências científicas sólidas e independentes da carcinogenicidade do glifosato e de herbicidas à base de glifosato”. O estudo constatou, entre outras coisas, que os coadjuvantes em produtos herbicidas à base de glifosato podem aumentar a carcinogenicidade do glifosato, particularmente no caso da leucemia.

A pesquisa fez parte de um “Estudo Global sobre Glifosato” que envolveu cientistas do Boston College, da George Mason University, do King’s College London, da Icahn School of Medicine no Mount Sinai, do Centro Científico de Mônaco, da Universidade de Bolonha, do Instituto de Biologia Agrícola e Biotecnologia do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, do Instituto Nacional de Saúde da Itália e do Comitê Nacional de Segurança Alimentar do Ministério da Saúde da Itália.

Em 2022, o grupo  publicou  resultados anteriores que mostravam efeitos adversos do glifosato em doses atualmente consideradas seguras.

A Bayer respondeu acusando o Instituto Ramazzini de ter “um longo histórico de fazer alegações enganosas sobre a segurança de vários produtos”. A empresa não respondeu a um pedido de comentário sobre a demissão de Mandrioli.

Mandrioli afirmou em entrevista que foi alvo de “uma quantidade incrível de ataques” por causa do estudo sobre o glifosato.

“Infelizmente, minha experiência é semelhante à que muitos cientistas independentes estão passando”, disse ele.

O centro de pesquisa está atualmente finalizando quatro novos manuscritos sobre testes de pesticidas. Não está claro quando eles serão publicados.

Membros do  Collegium Ramazzini,  uma academia científica composta por médicos e cientistas de 45 países,  afirmaram em comunicado  que o processo de demissão de Mandrioli foi “pouco transparente” e “secreto”, sem oferecer qualquer explicação racional além de dizer que fazia parte de uma “reorganização”.

O grupo afirmou que o estudo de 2025 sobre o glifosato foi “o maior estudo toxicológico internacional já realizado sobre o glifosato e herbicidas à base de glifosato” e que “os ataques e campanhas difamatórias” contra Mandrioli “aumentaram drasticamente” após a divulgação do estudo de 2025.

Os ataques visavam “minar sua credibilidade e a credibilidade das conclusões da pesquisa independente de sua equipe sobre a toxicidade de produtos químicos perigosos”, escreveu o grupo.

Francesco Forastiere , cientista do Conselho Nacional de Pesquisa em Palermo, Itália, e professor visitante do Imperial College de Londres, afirmou que a demissão “carecia de justificativa e foi abrupta”.

“Não houve transparência alguma na operação”, disse Forastiere, que faz parte de um conselho consultivo do Instituto. “Estou estarrecido.”


Fonte: The New Lede

Situação de alto risco em Congonhas do Campo reafirma descaso socioambiental da Vale em Minas Gerais

Prefeituras e Vale se reúnem após rompimento de estrutura entre Congonhas e  Ouro Preto

Depois de exatos 7 anos do incidente de Brumadinhol, uma situação de alto risco envolvendo estruturas da mineradora Vale está causando apreensão e grandes danos ambientais no município de Congonhas do Campo (MG). Mais uma vez a mineradora Vale está envolvida em um incidente que poderá se tornar ainda mais grave, caso o caso passe do extravazamento de estruturas para a situação de rompimento.

Mas como informam fontes locais, o extravamento inicial de uma represa localizada entre Congonhas e Ouro Pretoque, despejou cerca de 220 mil m³, o equivalente a 88 piscinas olímpicas,no rio Maranhão . Segundo o prefeito de Congonhas do Campo, Anderson Cabido , o primeiro vazamento “trouxe um impacto significativo por conta da água que saiu e foi carregando todo o material que se encontrava pelo caminho.”  O prefeito ainda acrescentou que “foi observado um aumento do volume da água no rio e aumento significativo da turbidez do rio. Então, isso mostra que esse material de fato chegou ao córrego”.

O problema foi agravado pelo extravazamento de material de outra mina da Vale, a Mina da Viga, que agora atingiu o Rio Paraopebas, o mesmo que foi fortemente contaminado pelo incidente que ocorreu em Brumadinho. Em outras palavras, mais uma vez a Vale é responsável por contaminar um dos principais rios de Minas Gerais.

Pelo que pude acompanhar na cobertura que está sendo feita pelo jornal “O Tempo”, a reação inicial dos governantes, desde o nível municipal até o federal, é de um certo pasmo paralisante, pois apesar dos riscos de um acidente de grande monta e que pode afetar também o gigantesco reservatório que a CSN possui logo acima da área urbana de Congonhas do Campo, não me parece estar havendo o nível de mobilização que já deveria estar ocorrendo para garantir que o pior aconteça em termos de vidas e estruturas urbanas; além é claro do espectro de um novo tsulama em vários rios mineiros.

A Vale, como sempre, está minimizando os riscos e suas próprias responsabilidades, pois conta com a costumeira complacência do Estado brasileiro em todas as suas esferas de governo.  Mas é importante que se trate a situação com a importância que ela requer. 

Navios-bomba: propostas para acordo visam mitigar – e não evitar – possíveis acidentes e explosões no porto de Santos    

Planos em análise pelo Ministério Público não incluem a transferência do polêmico terminal de regaseificação para um local seguro, fora do canal. Empresa sugere navios-bombeiros contra incêndios 

Por Cida de Oliveira*

Maran Gas deixa canal após entregar 80 mil toneladas de gás natural liquefeito. Foto: Youtube/Drone Cubatão

A preocupante localização do Terminal de Regaseificação São Paulo (TRSP), no estreito e movimentado canal de navegação do porto de Santos e próxima a área densamente povoada, está no centro de uma Ação Civil Pública do Ministério Público. Com base em estudos e pesquisas técnicas, promotores apontam riscos de acidentes e explosões, com impacto social, que também ficaram de fora do licenciamento aprovado apesar das falhas e omissões.  

Tratativas em andamento para um acordo no âmbito da ação, em segunda instância, incluem alternativas compensatórias, em desacordo com princípios da prevenção e precaução. Segundo a reportagem apurou, no início de dezembro último o TRSP propôs a permanência na região de navios equipados para o combate a incêndios. Representantes chegaram a se oferecer para procurar grandes estaleiros nacionais para esse fim. Na prática, navios-bombeiros para apagar incêndios que podem ser causados pelos navios-bomba. Essa e outras propostas ainda estão sendo estudadas, assim como documentos com parâmetros técnicos para criação de núcleos comunitários de defesa civil em assentamentos precários, voltados à prevenção e combate de princípios de incêndios. São esperadas contribuições do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil de Santos, Guarujá e Cubatão, e das áreas de saúde quanto a serviços de resposta a emergências decorrentes de acidentes ou sinistros na área portuária.

Em busca de mais informações sobre as propostas que apresentou, o Blog contatou a empresa Edge, do grupo Cosan, controladora do TRSP. Como não foram recebidas até o fechamento da reportagem, o espaço fica aberto para as manifestações.

“Um acordo que precisamos é aquele voltado para um novo local para instalação do terminal, em áreas marítimas externas ao estuário de Santos. E não mantê-lo no canal do porto, como convém à empresa”, disse ao Blog Paulo Ferraz, advogado da Associação de Combate aos Poluentes (ACPO) que atua como amicus curiae na ação. Conforme lembrou, as alternativas locacionais apresentadas durante o licenciamento ambiental se referem a pontos distintos, mas todos dentro do próprio estuário. “Normas aplicadas internacionalmente, como nos Estados Unidos, determinam instalações do tipo a mais de 3 milhas da costa. Isso equivale a 4,8 quilômetros”.

Mas o aspecto econômico prevaleceu sobre a segurança no maior porto da América Latina, conforme lembrou. “A única razão apresentada para a escolha do local é essencialmente econômica, de que o custo de implantação seria maior em outro local. A perícia judicial sequer se atentou a esse fato, não tratou especificamente sobre a segurança de todos”, disse Ferraz.

Na avaliação da Frente Ambientalista da Baixada Santista (FABS), a proposta apresentada pelo TRSP ao MP não contempla nem minimiza os riscos de uma possível explosão no terminal de regaseificação. “Nas diversas oportunidades em que abordamos esse tema junto ao MP, ao poder executivo e na Câmara dos Vereadores, apresentamos material suficiente para provar a gravidade dos danos que incidiriam sobre a população da região, com a possibilidade de elevado número de vítimas fatais, além dos incontáveis danos materiais”, disse ao Blog a engenheira agrônoma Mari Polachini, coordenadora da Frente.

Em sua avaliação, um empreendimento com alto potencial explosivo, situado no entorno de silos de armazenamento de fertilizantes e diversos outros materiais de alta combustão poderia provocar, em um eventual desastre, um colapso em todo o sistema portuário.

“Diante disso, é uma irresponsabilidade reduzir a questão da segurança à criação de embarcações de combate a incêndio e organização de ‘núcleos comunitários de defesa civil em assentamentos precários voltados à prevenção e combate de princípios de incêndios’. Assim como considerar que isso seja suficiente para garantir a mínima segurança da população e seu território”, disse a coordenadora.

Mapa mostra grande parte do estuário de Santos e da ocupação urbana no entorno. E no destaque, no centro do círculo branco, o navio FRSU, que regaseifica o GNL. Foto: Google Earth

Mari criticou também posicionamento do Ministério Público, de que o acordo deveria “eliminar os riscos do empreendimento ou ao menos mitigar”. “Uma proposta que se mostra dissociada de uma efetiva preocupação em zelar pela salvaguarda das comunidades do entorno, da população da Baixada Santista e da zona portuária. Afinal, uma explosão na magnitude do potencial apresentado por esse terminal de regaseificação não pode ser combatido com uma brigada de incêndios.”

A única solução aceitável, conforme a coordenadora, é levar o terminal para uma distância segura da costa, como é comum em empreendimentos do tipo. “Como já foi amplamente discutido entre os representantes da sociedade civil e o poder público, o que realmente afastará esse perigo inimaginável de nossas vidas é a mudança do terminal para uma distância para longe da costa”. Ela lembrou que o projeto de termelétrica Verde Atlântico, proposto em 2017 para a cidade de Peruíbe, na Baixada Santista. Nele, o terminal de regaseificação seria construído a 10 quilômetros da praia (confira imagem). O empreendimento, que traria danos catastróficos para a população, meio ambiente e a terra indígena Piaçaguera, foi barrado pela grande mobilização popular.

No círculo azul, a localização prevista para os navios-bomba da termelétrica de Peruíbe. Projeto foi derrotado pela população. Foto: Reprodução EIA RIMA

 

“Dessa forma, entendemos que aceitar uma proposta que não contempla a prevenção e não atende minimamente os critérios para ser classificada como mitigação é tripudiar com a vida dos moradores da Baixada Santista, obrigados a conviver com os riscos de uma explosão que destruirá nossas cidades e nossa economia em proporções inimagináveis”, destacou.

Jato de fogo, nuvem incandescente

A literatura internacional sobre o potencial inflamável do gás natural aponta que vazamentos em equipamentos desses navios e em seus sistemas de transferência de gás podem resultar em diversos desfechos. E que, caso a dispersão na atmosfera encontre fontes de combustão pelo caminho, o resultado será jato de fogo, nuvem incandescente, bola de fogo e até explosões, com intensa propagação de radiação térmica e sobre pressão. Um cenário catástrofico com elevado potencial de riscos à saúde humana e ao meio ambiente, com possibilidades de causar grande número de vítimas fatais dependendo dentre outros aspectos magnitude do incidente e do contingente populacional situado na região.

Para se ter uma ideia, uma explosão do navio regaseificador (FSRU), ou o transportador, tem potência equivalente a 50 bombas de Hiroshima, segundo alerta em seu livro Power Brittle  o físico estadunidense Amory Bloch Lovins. A energia de um único navio metaneiro GNL padrão, com capacidade de 125 mil metros cúbicos, equivale a sete décimos de um megaton de TNT, ou cerca de 55 bombas de Hiroshima.

Como o TRSP não fez estudos e projeções sobre o impacto social à populosa área urbana do entorno, e nem a Cetesb exigiu, a assessoria técnica do MP projetou “quantidades significativas de fatalidades, além de prejuízos às atividades portuárias e em bairros próximos ao canal de Santos, conforme mapa a seguir. Essa região toda corresponde aos distritos da Ponta da Praia, Estuário, Macuco, Vila Mathias, Vila Nova, Paquetá, Centro e Valongo, situados em Santos. E Jardim São Manoel/Vila Santa Rosa, Jardim Conceiçãozinha, Itapema e Vicente de Carvalho, no Guarujá.

Mapa mostra impactos previstos para o caso de acidentes e explosões. Foto: Reprodução/Ministério Público

Controlado pela Edge, empresa do grupo Cosan, o terminal entrou em atividade em abril de 2024, antes da licença de operação da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), concedida três meses depois e com a condição de a Edge não injetar o gás no gasoduto Subida da Serra, de propriedade da Comgás, do mesmo grupo. Isso foi no início da disputa entre a agência estadual paulista Arsesp e a ANP, quanto à regulação quanto à esfera administrativa. A agência federal multou o TRSP devido à operação apressada, com auto de interdição. E tudo foi parar na Justiça. A Edge obteve liminar que suspendeu a interdição, mas manteve a multa de R$ 85 mil. A disputa pela regulamentação do gasoduto entre as esferas federal e estadual, com implicações em tarifas mais altas para o consumidor, está agora no Supremo Tribunal Federal. O terminal segue a todo vapor. Dados da Edge apontam regaseificação e distribuição diária de 14 milhões de metros cúbicos pela Comgás na Baixada Santista, na capital e em outras regiões do estado.


Cida de Oliveira é jornalista

Avaliação e produtivismo na universidade

A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica

Neoliberalism, Mental Health, & Academia – Dr Nadine Leese

Por  *Danichi Hausen Mizoguchi  para “A Terra é Redonda” 

No dia 12 de janeiro de 2026, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) divulgou os resultados preliminares de sua avaliação quadrienal. Trata-se de um marco relevante para o sistema de pós-graduação brasileiro, já que influencia diretamente no reconhecimento dos cursos de mestrado e doutorado e, consequentemente, das universidades.

O processo mensura o desempenho dos programas a partir de critérios como produção científica, formação de novos pesquisadores, impacto social e internacionalização, dentre outros, e, a partir disso, atribui notas que vão de 1 a 7.

Porém, a avaliação não é apenas um diagnóstico técnico: é um ritual de consagração e exclusão em que programas sobem ao altar enquanto outros são empurrados para a penumbra administrativa. Apenas programas com nota igual ou superior a 4, por exemplo, estão aptos à formação de doutores.

Programas com nota mais alta – entre 6 e 7 – tendem a ter mais recursos, bolsas, visibilidade e parcerias, enquanto programas com nota mais baixa enfrentam menos financiamento, menor atratividade e maior pressão por reestruturação. A avaliação decide quem respira, quem agoniza, quem merece existir – define hierarquias, condiciona verbas e orienta carreiras. Sob a retórica da excelência e o suposto ascetismo dos indicadores, distribui-se prestígio como quem distribui oxigênio.

Como não poderia deixar de ser, a comunidade acadêmica reagiu à divulgação com ansiedade – em alguns casos com frustação, em outros com euforia e, em quase todos, com uma pontinha de servilismo institucional. O rito se repetiu sem surpresas: assim que os resultados foram publicizados, universidades e programas bem-sucedidos correram às redes para exibir suas notas como se fossem medalhas.

Nas postagens, os avatares institucionais celebraram orgulhosamente a própria qualidade acadêmica. O aplauso defronte ao espelho ecoou alto, talvez para abafar o barulho do desmonte.

Pouco menos de um mês antes, em 19 de dezembro de 2025, o Congresso Nacional aprovava a Lei Orçamentária Anual para 2026, amputando quase meio bilhão de reais das universidades federais: o orçamento da educação encolheu, a assistência estudantil foi mutilada e as agências de fomento perderam recursos destinados a bolsas e pesquisa. Em outras palavras: menos estudantes pobres poderão permanecer na universidade, menos pesquisas poderão ser feitas, menos ciência será produzida.

O contraste é obsceno: enquanto se comemoram notas e rankings quase individualmente, a base material da universidade pública é sistematicamente corroída – e a recomposição orçamentária assinada por Lula no dia 20 de janeiro não é capaz de alterar o roldão histórico. Celebra-se a avaliação enquanto se aceita com naturalidade o estrangulamento: a festa acontece no convés de uma embarcação cujo casco faz água. A festa acontece sob luz artificial – e, do lado de fora, o madeirame range.

Em janeiro de 2021, sob o pseudônimo de Benamê Kamu Almudras, um professor identificado apenas como docente de uma universidade pública de São Paulo publicou na revista Piauí um ensaio intitulado “Parece revolução, mas é só neoliberalismo”A peça causou certa polêmica – e uma série de réplicas foi publicada na sequência.

Partindo de um punhado de situações concretas ocorridas em salas de aula de graduação e pós-graduação em diversas regiões do Brasil, o texto argumenta que muitos discursos e práticas apresentados como revolucionários deslocam a ideia de transformação estrutural para o plano individual – empreendedor, autônomo, inovador – e, assim, mesmo que sob um verniz transformador, apenas e tão somente reforçam a lógica neoliberal: menos evidente, mais sedutora, mais palatável – mas, ainda assim, e quiçá ainda mais, neoliberal.

Benamê Kamu Almudras apontava duas virulentas ofensivas neoliberais simultâneas contra a universidade pública. À direita, o ataque frontal: cortes de verbas, demonização do serviço público, hostilidade à inclusão social realizada em especial com a implementação da política de cotas. À esquerda, a transformação do estudante em consumidor, da sala de aula em espaço de satisfação mercadológica, do professor em prestador de serviços, da educação em distribuição de diplomas.

Dentre outras coisas, o artigo talvez tenha incomodado por dizer algo quase indizível: que parte significativa da universidade que compreende a si mesma como crítica já não resiste ao neoliberalismo – ela o atualiza com gosto e gozo narcísico e midiático. Para usar um termo freudiano, o texto operava uma ferida narcísica: a denúncia de que parte significativa do discurso crítico universitário não apenas convive com o neoliberalismo, mas funciona como sua versão mais sofisticada, em nova maquiagem, novo vocabulário e nova estética que contribuem para uma universidade crítica perfeitamente adaptada à lógica privativista do mercado.

Pierre Dardot e Christian Laval definiram o neoliberalismo como uma racionalidade política global que reorganiza o Estado, a economia, as instituições e, sobretudo, as formas de subjetivação. Como disse Margaret Thatcher em uma de suas frases mais célebres, economics are the method: the object is to change the soul. Nesta chave de leitura, o neoliberalismo não se limita a privatizar empresas ou cortar direitos, mas também conduz os sujeitos a pensarem-se como empreendimentos que devem constantemente valorizar a si mesmo no mercado – seja ele qual for.

Ou seja, na leitura dos Pierre Dardot e Christian Laval, mas também de Margaret Thatcher, o neoliberalismo não governa apenas economias — governa almas sob uma norma concorrencial universal.

Assim, cada indivíduo torna-se uma empresa portátil que carrega seu CNPJ subjetivo, calcula seus investimentos e administra seus fracassos. O trabalhador metamorfoseia-se em capital humano, a vida vira portfólio e os direitos tornam-se performance. Byung-Chul Han descreveu com precisão essa mutação: o sujeito neoliberal não precisa mais ser oprimido, pois explora a si mesmo voluntariamente.

Em A Muralha da China, Franz Kafka descreve uma obra monumental construída em fragmentos intervalados e separados por longas distâncias. Gilles Deleuze e Felix Guattari viram nela o retrato de um poder que já não se apresenta como unidade, mas como rede de microcomandos. Para a dupla de franceses, a muralha deve ser entendida como um dispositivo político que revela a fragmentação do poder imperial – e é nessa astúcia que está sua força.

O imperador não é uma autoridade plenamente presente, mas uma figura distante, quase inexistente, que opera mais como um significante vazio do que como um soberano efetivo. O poder não se concentra no topo, mas se espalha em uma rede burocrática que atravessa os corpos e as práticas cotidianas.

Assim, a obediência não decorre de ordens claras, mas de uma adesão difusa a um sistema incompreensível – fato que reforça a dimensão imanente e impessoal do poder. O império não domina por uma presença forte, e sim por uma organização difusa que captura os indivíduos em um trabalho interminável e sem sentido totalizável.

Sob o neoliberalismo, a universidade se parece cada vez mais com essa muralha. A coletividade política se transforma em um conjunto de indivíduos-consumidores e se perde a ideia de que a universidade é um serviço público dedicado ao ensino, à pesquisa e à extensão. A educação pública passa a funcionar como uma empresa mal disfarçada, e produz produtividade compulsiva, avaliações permanentes, comparação generalizada e culpa constante.

Karl Marx já havia diagnosticado essa condição em sua gigantesca cartografia do capitalismo:  trabalho alienado é aquele em que o trabalhador já não se reconhece no que produz. Academicamente, a alienação assume um verniz elegante e intelectual: publica-se em série artigos que ninguém lê, pesquisas que ninguém debate, participa-se de congressos que ninguém lembra – mas que contam para deixar o lattes mais parrudo e o perfil nas redes com mais engajamento.

Tudo vira post, nada permanece: o paper vira mercadoria, o currículo vira fetiche, o pesquisador vira gerente– e a solidez se desmancha no ar da lógica competitiva de mercado em sua mais radical pureza.

No final de novembro de 1998, quando a greve dos docentes das universidades federais completava quase cem dias, Fernando Henrique Cardoso afirmou: “Se a pessoa não consegue produzir, coitada, vai ser professor. Então fica a angústia: se vai ter um nome na praça ou se vai dar aula a vida inteira e repetir o que os outros fazem”. A frase não foi um deslize: foi um sintoma.

A separação retórica entre o professor e o pesquisador era o início de uma era em que nunca se exigiu tanto que o professor produzisse em vastas quantidade e nunca se ofereceu tão pouco tempo para pensar. No enunciado do presidente da república, nenhuma crítica às condições estruturais da universidade brasileira e a dificuldade que impunham à pesquisa – e, assim, também à formação de um pensamento acadêmico nacional consistente apto a disputar com os centros mais ricos do mundo.

À guisa de contraexemplo, veja-se as regras do Collège de France, onde lecionaram nomes como Michel Foucault, Claude Lévi-Strauss, Georges Canguilhem e Roland Barthes. De acordo com o regulamento da instituição os docentes devem expor a cada ano uma pesquisa nova e original, o que os obriga a sempre renovar o conteúdo do seu ensino, que não pode se repetir de um ano para o outro.

Todavia, os professores têm a obrigação de dar apenas 26 horas de aula por ano. De praxe, nas universidades federais brasileiras, a obrigação é de 8 horas semanais – o que totaliza quase dez vezes mais do que a parisiense.

Aqui, ao contrário, demanda-se produção sem dispor institucionalmente de tempo. Assim, a imaginação é reduzida a performance mensurável das quantidades. O professor pesquisador passa a ter como matéria-prima de sua labuta a autopromoção asseverada em formulários online, repositórios, assinaturas digitais, editais.

Citações-moeda, relatórios-capital simbólico, o tempo quadrienal em que livros valem menos que artigos e ideias só importam se indexada na lógica estatística– indexação e estatística, pasmem, saudados pela própria maquinaria universitária.

Houve um tempo em que, ao menos por parte das fileiras progressistas, o produtivismo acadêmico era criticado abertamente. “Capestalismo” era o neologismo utilizado para relacionar a agência do Estado à lógica extrativista do capital. Hoje, o que se vê, em boa parte destas mesmas fileiras, é adesão entusiasmada. Com seus avatares exibicionistas, a universidade converte a própria submissão em capital simbólico. Talvez esse seja o sinal mais claro da derrota.

Quando a crítica vira performance, quando a avaliação vira festa, quando a muralha é saudada como conquista, já não se trata apenas e tão somente de falta de recursos ou de políticas equivocadas. Trata-se de algo mais grave: a incorporação alegre da própria servidão – mensurada, sorridente e postada em alta resolução.

*Danichi Hausen Mizoguchi é professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).


Fonte: A Terra é Redonda