Agrotóxicos são a nova face do complexo de vira-latas de um Brasil transformado na lixeira química do mundo

Por  Sonia Corina Hess*

Em 2025 foram aprovados 914 novos agrotóxicos para uso no Brasil. Desses, 152 (16%) continham ingredientes ativos biológicos, incluindo microorganismos, óleos e extratos vegetais, e 140 (92%) de tais pesticidas naturais eram fabricados por empresas instaladas no Brasil. Por outro lado, dentre os 762 agrotóxicos químicos registrados (83% do total), 666 (73%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China. Além disso, em 393 desses 762 agrotóxicos (51%) havia pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia (banidos, ou sem registro, ou com registro pendente).

Somando-se os números relativos ao atual governo, de 2023 a 2025, foram aprovados 2.135 novos agrotóxicos, sendo 346 (16%) produtos biológicos e 302 deles (87%) fabricados no Brasil. Dentre os 1.789 agrotóxicos químicos aprovados naquele período, 1.511 (84%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China e 867 (48%) continham pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia.

No período de 2019 a 2022, no governo anterior, foram aprovados 2.170 novos agrotóxicos, sendo 278 (13%) produtos biológicos, dos quais 254 (91%) eram fabricados no Brasil. Dentre os 1.892 agrotóxicos químicos, 1.465 (77%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China, e 1.056 (49%) continham pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia.

A maioria dos 1.419 agrotóxicos formulados aprovados entre 2023 e 2025 tinha uso autorizado em plantações de soja (895/63%), algodão (671/ 47%), milho (639/45%) e cana-de-açúcar, (404/28%). Também no período de 2019 a 2022, a maioria dos 1.014 agrotóxicos formulados aprovados tinha uso autorizado em plantações de soja (614/ 61%), algodão (443/44%), milho (428/42%) e cana-de-açúcar (336/33%). Tais proporções são compatíveis com as estimativas do uso de agrotóxicos naqueles cultivos industriais no Brasil, 52% do total sendo aplicados em plantações de soja, 10% no milho, 10% na cana-de-açúcar e 7% no algodão.

Os dados apresentados revelam uma realidade que tem perdurado mesmo com a mudança de governos no Brasil. O país depende da China para produzir os ingredientes ativos presentes em torno de 80% dos agrotóxicos químicos autorizados, e metade dos produtos químicos aprovados contém pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia. Além disso, a maioria dos agrotóxicos aprovados tem uso direcionado a plantações de soja, algodão, milho e cana-de-açúcar, que não são alimentos direcionados a seres humanos, mas sim, à alimentação de animais, bioenergia e outros usos.

Até quando aceitaremos que o Brasil figure como a maior lixeira química do mundo, onde as multinacionais vendem a preços elevados os agrotóxicos que foram banidos em outros países, sendo considerados lixo por lá? Até quando teremos que beber, respirar e comer esse lixo que contamina os nossos corpos, os animais, as águas, o ar e o solo? Até quando aceitaremos essa situação vexatória, nos comportando como vira-latas simpáticos, enquanto que as muiltinacionais químicas atuam com a truculência típica dos cães furiosos, insistindo em ferir a nossa dignidade e a nossa saúde?

Fontes dos dados podem ser conhecidas [Aqui!].


* Sonia Corina Hess é professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina

Hyatt e Marriott: estudo liga hotéis de luxo a extração ilegal de madeira na Amazônia

Relatório da organização Environmental Investigation Agency (EIA) mostra como a madeira extraída ilegalmente no Pará pode ‘contaminar’ a cadeia produtiva de importadores na Europa e Estados Unidos; Um dos exportadores brasileiros citados no estudo já comprou de madeireiras abastecidas por fazendas flagradas com trabalho escravo, revela a Repórter Brasil

 

Por Poliana Dallabrida/ Edição Juliano Barros para “Repórter Brasil” 

Importadores de madeira brasileira na Europa e Estados Unidos compram produto com “alto risco de ilegalidade”, aponta novo estudo da EIA (Environmental Investigation Agency), organização especializada na investigação de crimes ambientais. 

O relatório “Contrabandistas, Corretores e Compradores” (disponível apenas em inglês), publicado na última terça-feira (20), revela como toras extraídas ilegalmente de áreas protegidas no Pará, como territórios indígenas e reservas ambientais, podem ter virado decks em hotéis de luxo nos EUA e calçadões em praias da Riviera Francesa. 

A investigação reuniu documentos de transporte de mais de 25 mil metros cúbicos de madeira – o suficiente para encher 830 contêineres – extraídos de três áreas do Pará que até tinham autorização para retirada de madeira, mas apresentaram indícios de ilegalidade, segundo a organização. 

A EIA mapeou 11 serrarias que forneceram madeira para oito exportadores. Estes, por sua vez, forneceram decks de madeiras Ipê e Cumaru para outros 11 importadores nos Estados Unidos, Portugal, França e Alemanha. 

Uma das citadas pela EIA é a Global Forest Lumber Company, importadora dos Estados Unidos. Segundo registros de redes sociais listados no relatório, uma das empresas do grupo forneceu madeira de Ipê a empreiteiros americanos que realizaram reformas em unidades das redes de hotéis Marriott e Hyatt, ambos na Flórida, e na área VIP do Grand Prix da Fórmula 1 em Miami em 2023 e 2025. 

“No entanto, como já foi documentado em múltiplos relatórios da EIA, nenhuma das grandes marcas ou clientes pode garantir que toda a madeira tenha vindo de uma área legal”, aponta a EIA no estudo. 

A Repórter Brasil entrou em contato com os hotéis Marriott e Hyatt e com a assessoria de imprensa da Fórmula 1, mas não obteve respostas até o fechamento deste texto. A reportagem não localizou o contato da Global Forest Lumber Company. O espaço segue aberto para manifestações futuras. 

Madeira da Terra Indígena Munduruku

O relatório da EIA destaca a devastação ilegal para extração de madeira na Terra Indígena Munduruku, localizada na borda oeste do chamado Arco do Desmatamento na Amazônia. 

A EIA, em parceria com a organização Munduruku Associação de Mulheres Wakoborũn, identificou uma operação ilegal de extração de madeira dentro do território entre 2023 e 2024. 

Com base em imagens de satélite, a EIA mapeou cerca de 60 km de estradas abertas no período, conectadas a uma área de garimpo e a uma pista clandestina no Parque Nacional do Rio Novo, unidade de conversação vizinha à TI. As imagens (ver abaixo) indicam centenas de toras estocadas ao longo das vias e em pontos de carga – a EIA estima a carga em 1,2 mil metros cúbicos de madeira. 

Via imagens de satélite, a EIA identificou uma operação de extração ilegal de madeira em grande escala no Território Indígena Munduruku entre 2023 e 2024. (Reprodução/Imagens de satélite fornecidas por CNES; mapa e localizações identificados pela EIA)
Via imagens de satélite, a EIA identificou uma operação de extração ilegal de madeira em grande escala no Território Indígena Munduruku entre 2023 e 2024. (Reprodução/Imagens de satélite fornecidas por CNES; mapa e localizações identificados pela EIA)

“A atividade teria cessado em novembro de 2024, quando o governo intensificou a repressão ao garimpo, mas já havia afetado cerca de 5 mil hectares de floresta intacta”, aponta a organização. “Há suspeitas de que madeira de alto valor, como Ipê e Cumaru, tenha sido ‘lavada’ na cadeia produtiva e possivelmente exportada para mercados como EUA e União Europeia”, complementa o relatório.

Verniz de legalidade

Para a EIA, a madeira extraída em áreas não autorizadas pode ser facilmente “lavada” e inserida no comércio nacional e internacional usando documentos oficiais de áreas formalmente licenciadas. No Pará, aponta a organização, grandes volumes de madeira não são originários das áreas declaradas nas licenças de exploração madeireira. 

Um dos casos detalhados no relatório é o da Fazenda Odila, localizada no município paraense de Óbidos, próximo à TI Munduruku. 

Entre junho de 2021 e junho de 2022, a propriedade obteve a autorização da Semas-PA (Secretaria do Meio Ambiente do Pará) para a extração de 16,9 mil metros cúbicos de madeira – volume que poderia encher um trem de carga de 3 km. A autorização foi concedida mesmo após multa do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), registrada em 2018 em nome do dono declarado da propriedade por apresentar informações falsas em documentos de exploração madeireira. 

Guias de transporte de madeira acessadas pela EIA indicam que, entre novembro de 2021 e junho de 2022, 16,3 mil metros cúbicos de madeira teriam saído do local. No entanto, ao analisar imagens de satélite, a organização não identificou sinais de exploração madeireira em escala industrial. “Apenas uma pequena estrada de acesso surgiu em outubro de 2021, insuficiente para justificar esse volume”, diz trecho do relatório. 

A madeira da Fazenda Odila alcançou mercados globais. A produção da área foi adquirida por 11 serrarias – dez delas com multas registradas pelo Ibama ou pela Semas-PA. 

“Entre 2022 e 2025, dez dessas serrarias revenderam para seis exportadoras brasileiras – todas também multadas pelo Ibama em casos diferentes – que, por sua vez, embarcaram para quatro importadoras nos EUA e três na União Europeia”, detalha a EIA.

Repórter Brasil não localizou contatos de representantes da Fazenda Odila. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

Fornecedor flagrado com trabalho escravo

Uma das exportadoras brasileiras citadas no caso da Fazenda Odila é a Amazon Comércio Atacadista e Exportação de Madeira. Uma investigação adicional realizada pela Repórter Brasil identificou que a empresa já foi abastecida, em 2023, por duas madeireiras que compraram o produto de fazendas flagradas com trabalho escravo. 

A primeira é a Fazenda Sipasa, onde 16 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em junho de 2023 em Moju (PA). Os trabalhadores haviam sido contratados para realizar a derrubada de 477 hectares de vegetação nativa dentro de uma área da fazenda, como mostrou a Repórter Brasil em reportagem publicada em fevereiro de 2024. Pelo flagrante, a dona da propriedade, Sipasa Seringa Industrial do Pará S/A, entrou em abril de 2025 na chamada Lista Suja do trabalho escravo, cadastro oficial do governo federal com os dados dos empregadores responsabilizados pelo crime.

Dias após o flagrante de trabalho escravo, a Sipasa forneceu toras de Ipê para a DAB Madeiras e Empreendimentos Florestais, em Tailândia (PA), segundo guias de transporte de madeira acessadas pela reportagem. Dois meses depois, a DAB forneceu toras da mesma espécie de madeira para a Amazon.

A exportadora brasileira também foi abastecida por outra madeireira que comprou o produto de uma fazenda flagrada com trabalho escravo. No mesmo período da fiscalização na Fazenda Sipasa, auditores fiscais do Trabalho resgataram outros 17 trabalhadores na Fazenda Citag, em Moju (PA).

A propriedade está registrada em nome de Wilson Fabricio Campos de Sá, conforme descrito pela Repórter Brasil em matéria publicada em outubro do ano passado. A empresa terceirizada que contratou os trabalhadores é quem foi responsabilizada pela prática de trabalho escravo e entrou na Lista Suja em abril de 2025.

Guias de transporte de madeira acessadas pela reportagem mostram que Wilson de Sá forneceu, em setembro de 2023, toras de Ipê-amarelo para a Madeireira Barreto, de Tailândia (PA). Dias depois, a madeireira forneceu o mesmo produto para a exportadora Amazon.

Estudo identificou que áreas no Pará com autorização para retirada de madeira apresentaram indícios de ilegalidade (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace)
Estudo identificou que áreas no Pará com autorização para retirada de madeira apresentaram indícios de ilegalidade (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace)

“O trabalho escravo é outra faceta da convergência de crimes associados ao desmatamento ilegal e destaca a importância das leis da UE e dos EUA que exigem que as empresas que compram commodities de alto risco, como madeira da floresta amazônica, realizem a devida diligência na cadeia de abastecimento”, avalia Rick Jacobsen, Gerente sênior de Política de Commodities da EIA.

À época da publicação da reportagem sobre o caso de trabalho escravo, a defesa da Sipasa Seringa Industrial do Pará afirmou que os trabalhadores foram contratados por uma empresa terceirizada, responsável pela contratação de mão de obra, que não foram submetidos à jornada excessiva de trabalho e que os alojamentos eram “condizentes com as condições de abrigo e de vida dos habitantes da própria Região Norte”. 

Procurado pela Repórter Brasil, o advogado de defesa de Wilson de Sá, da Fazenda Citag, disse que as vendas de madeira da propriedade foram realizadas “ao rigor da lei, com todas as licenças emitidas à época”, e que não tem nada mais a declarar sobre o caso.

As madeireiras DAB e Barreto e a exportadora Amazon também foram procuradas, mas não responderam aos questionamentos enviados pela reportagem até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

Regras mais rígidas

Para a EIA, o setor madeireiro brasileiro apresenta um “padrão contínuo de crimes e impunidade”. A organização também ressalta limitações atuais do sistema de rastreabilidade da madeira e dos esforços de fiscalização no país, “que ainda permitem a circulação de grandes volumes de madeira ilegal nas cadeias de suprimentos nacionais e internacionais, causando danos irreparáveis aos povos indígenas e à Amazônia”. 

A Semas-PA foi procurada pela Repórter Brasil para comentar o relatório e as informações sobre o caso da Fazenda Odila, mas não respondeu até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

A EIA sugere rastreabilidade em tempo real, com validação em campo, combinada com maior transparência de dados públicos. “O Ministério Público do Pará já começou a enfrentar a situação ao recomendar uma série de medidas que melhorariam significativamente o sistema – e que deveriam ser apoiadas e implementadas em nível nacional”, diz o relatório.

A organização sustenta ainda que os casos apresentados no estudo indicam um “descumprimento generalizado” do EUTR (Regulamento da União Europeia sobre a Madeira) e da Lei Lacey, que proíbe a importação de madeira ilegal para os EUA. “Para compradores dos EUA e da UE, os casos apresentados nos dois relatórios da EIA levantam sérias questões sobre suas práticas de devida diligência”, aponta a organização.

Para a EIA, requisitos mais rigorosos de devida diligência do Regulamento da UE sobre Desmatamento (EUDR), que substituirá o EUTR, são “urgentemente necessários” para interromper o fluxo de madeira ilegal da Amazônia para o mercado da União Europeia. No caso americano, a organização espera que os EUA “façam sua parte para aplicar de forma efetiva o Lacey Act”.

“Em conjunto, essas soluções podem ajudar a reduzir de maneira eficaz o crime florestal e proteger uma das últimas florestas tropicais remanescentes do mundo”, afirmam.


Fonte: Repórter Brasil

Aumento drástico da violência relacionada à água registrado desde 2022

Especialistas afirmam que a crise climática, a corrupção e a falta ou o uso indevido de infraestrutura estão entre os fatores que impulsionam os conflitos hídricos

Vista aérea de casas submersas em Kherson

Casas submersas em Kherson, Ucrânia, após a destruição da barragem de Kakhovka em 2023. Fotografia: AP

Por Rachel Salvidge para “The Guardian” 

A violência relacionada à água quase dobrou desde 2022 e pouco está sendo feito para entender e lidar com essa tendência e prevenir riscos novos e crescentes, disseram especialistas.

Segundo o Pacific Institute, um centro de estudos com sede nos EUA, foram registrados 419 incidentes de violência relacionados à água em 2024, um aumento em relação aos 235 registrados em 2022.

O instituto compilou evidências de centenas de anos de conflitos relacionados à água, incluindo casos em que a água foi um fator desencadeador de violência, uma arma de conflito ou uma vítima de conflito.

“Estamos vendo mais conflitos, e eles são multicausais”, disse o Dr. Peter Gleick, cofundador e pesquisador sênior do instituto. “A crise climática e os eventos climáticos extremos contribuem para isso, mas há muitos outros fatores, como falhas do Estado, governos incompetentes ou corruptos, e a falta ou o uso inadequado de infraestrutura.”

Exemplos recentes incluem tensões entre a Índia e o Paquistão sobre um tratado de compartilhamento de água do rio Indo após um ataque terrorista, ataques da Rússia a barragens hidrelétricas na Ucrânia, destruição dos sistemas de água de Gaza por Israel e protestos sobre o abastecimento de água na África do Sul.

“Em Gaza, Israel sistematicamente transformou a água em arma”, disse Trevor. “Eles atacaram deliberadamente sistemas de água e usinas de dessalinização e bloquearam os reparos. A água potável foi contaminada por esgoto devido à destruição da infraestrutura de esgoto e drenagem pluvial, e pessoas foram atacadas enquanto esperavam ou faziam fila para pegar água.”

“Na África Oriental e no Sahel, a água está se tornando cada vez mais insegura e as pessoas estão se deslocando para novas áreas em busca de água, o que por si só pode desencadear competição e conflito com a população local.”

A política intensificou situações já frágeis em alguns lugares. Gleick afirmou: “O Rio Colorado e o Rio Grande, nos EUA, tornaram-se cada vez mais controversos politicamente nos últimos anos. Existem tratados que datam de 1944 que regem ambos os rios, exigindo que os EUA forneçam água do Rio Colorado ao México e que o México forneça água do Rio Grande aos EUA. Mas, com a intensificação da política fronteiriça durante o governo Trump, essas questões se tornaram mais controversas. Várias pessoas foram mortas no México durante um protesto em uma barragem usada para fornecer água aos EUA, após agricultores se oporem à liberação de água.”

Gleick afirmou que existem algumas disputas menos conhecidas na Ásia Central que podem se agravar. “No Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão, há tensões relacionadas à água há algum tempo, e o Afeganistão está construindo um canal muito grande, o canal Qosh Tepa, para desviar água do rio Amu Darya, o qual, se entrar em operação, reduzirá significativamente o fluxo para as repúblicas da Ásia Central.”

Os institutos das Nações Unidas estão soando o alarme e a ONU prevê que a demanda global por água doce excederá a oferta em 40% até 2030. Na terça-feira, o Instituto Universitário das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde declarou que o mundo entrou em uma era de “falência hídrica”.

A Unesco afirma que, embora aproximadamente 40% da população mundial viva em bacias hidrográficas transfronteiriças de rios e lagos, apenas um quinto dos países possui acordos transfronteiriços para compartilhar recursos de forma equitativa.

Trevor afirmou: “Com o aumento da insegurança hídrica, é necessário implementar tratados transfronteiriços mais transparentes e responsáveis ​​que atendam a todas as pessoas, garantindo seu direito humano à água. É preciso reconhecer mais a necessidade de uma melhor partilha da água, que vá além dos atuais acordos de partilha, muitas vezes voluntários e, portanto, totalmente dependentes da boa vontade.”

Gleick afirmou: “Podemos resolver nossos problemas hídricos – não estou dizendo que vamos resolvê-los ou que faremos isso em breve, mas podemos. Isso inclui os impactos das mudanças climáticas na água, o atendimento às necessidades humanas básicas e aos direitos à água, a resolução dos problemas dos ecossistemas e a redução dos riscos de conflitos por recursos hídricos.”


Fonte: The Guardian

Biodiversidade em perigo: agrotóxicos causam diminuição na quantidade de aves

En route pour les alternatives aux pesticides - Natura Sciences

Por Ulrike Bickel para “Amerika21”

Paris. Um novo estudo da França mostra o declínio das populações de aves com o uso frequente de agrotóxicos. O resultado é particularmente relevante para a América Latina, já que a região consome mais agroquímicos do mundo. Somente entre 2000 e 2020, a participação da região no consumo global de pesticidas aumentou de 44 para 51%, segundo a Organização das Nações Unidas para as Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Isso foi apontado pelo estudo “Eles nos envenenam” do Center for Reproductive Rights.

Na América Latina, a conexão entre o uso de agrotóxicos e a extinção de espécies também é conhecida há anos, não apenas desde o relatório da Plataforma Intergovernamental de Ciência-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) sobre polinizadores, serviços ecossistêmicos e produção de alimentos em 2016. O uso de agrotóxicos sintéticos tem sido associado ao declínio das populações de insetos, aves e outros animais benéficos na América Latina há décadas.

O novo estudo francês, publicado em 14 de janeiro na revista Proceedings of the Royal Society B, compara dados sobre vendas de agrotóxicos com observações de espécies comuns de aves na França. Para 84% das espécies estudadas, quanto mais pesticidas eram vendidos, menor a população. O estudo demonstra o papel direto e indireto dos pesticidas no declínio da biodiversidade, como destacado pelo jornal Le Monde e por agências europeias.

Diversos estudos já mostraram que agrotóxicos podem ter efeitos prejudiciais em uma ampla variedade de espécies, incluindo abelhas, minhocas e aves, bem como na saúde humana. Já em 2021, um estudo documentou que a população de aves de campo e urbanas na França havia diminuído 30% nas últimas três décadas.

O estudo traz novas percepções sobre as causas: a análise conecta dois bancos de dados sobre a venda de agrotóxicos na França e a observação de aves comuns. Segundo a primeira autora Anne-Christine Monnet, pesquisadora do Centro de Ecologia e Ciências da Conservação do Museu Nacional de História Natural da França, a correlação é negativa para 84,4% das espécies estudadas: quanto mais agrotóxicos são vendidos, menor a abundância da espécie e de sua população. O efeito é muito forte, e muitas espécies são afetadas.

O estudo examina pela primeira vez os efeitos de 242 diferentes ingredientes ativos de agrotóxicos em toda a França. Foca em todos os tipos de aves comumente encontradas em áreas agrícolas, incluindo rouxinolos, pintassilgos e falcões. Além disso, os pesquisadores separaram o efeito direto dos agrotóxicos de outros fatores relacionados à intensificação da agricultura, como tamanho das parcelas, diversidade paisagística, sebes, tipo de cultura e uso de arado.

Os cientistas do Museu Nacional de História Natural da França e da Universidade de Poitiers utilizaram dados de 2017 do Registro Nacional de Vendas de Pesticidas por Distribuidores Autorizados por CEP.

Para confirmar que o volume de vendas refletia a poluição local, os pesquisadores compararam os dados com outro banco de dados de resíduos de agrotóxicos em águas superficiais. Eles encontraram muitas correlações positivas: quanto mais substâncias tóxicas eram aplicadas, mais resíduos eram encontrados na água.

Os dados foram cruzados com o monitoramento em tempo real de aves comuns, um programa científico que captura variações na biodiversidade na França. Das 64 espécies de aves que utilizam regularmente os habitats agrícolas estudados, 54 foram estatisticamente significativas ou quase significativamente menos comuns nas regiões onde os pesticidas eram mais vendidos. A contaminação dos campos afeta todas as espécies de aves.

De acordo com a Fundação para Pesquisa em Biodiversidade, que não participou do estudo, os resultados são muito significativos. A maioria das espécies estudadas reagiu negativamente ao aumento do uso de pesticidas. Os agrotóxicos afetam as aves tanto diretamente quando comem sementes tratadas ou insetos ou plantas contaminadas, quanto indiretamente ao reduzir as fontes de alimento disponíveis, como insetos.

O estudo, portanto, comprova descobertas da América Latina, onde os efeitos negativos do uso de agrotóxicos na saúde e no meio ambiente são há muito tempo documentados em regiões agrícolas intensivas (relatou o Amerika21).


Fonte: Amerika21

Segurança alimentar abrangente: a ofensiva dos lobbies agroquímicos para vender cada vez mais agrotóxicos

Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia apresentou sua proposta abrangente sobre segurança alimentar. Sob o pretexto de simplificação, esse texto desmantela as regras que regem a comercialização de agrotóxicos e define uma nova categoria de substâncias, supostamente mais ecológicas, denominadas “produtos de biocontrole”. Isso representa uma excelente oportunidade para o greenwashing por parte dos fabricantes de agrotóxicos e seus lobistas, que participaram ativamente da elaboração da definição mais ampla e permissiva possível de biocontrole

L'offensive de l'agrochimie pour vendre toujours plus de pesticides

Por Pollinis 

Desmantelar todas as regras que regem a comercialização de agrotóxicos para acelerar o desenvolvimento de produtos “mais ecológicos” . Por mais paradoxal que pareça, essa é a intenção declarada da Comissão Europeia ao apresentar sua proposta abrangente sobre segurança alimentar em 16 de dezembro.

Por trás dessa fachada de discurso, o texto propõe principalmente inúmeras medidas de desregulamentação com consequências catastróficas para a biodiversidade e a saúde humana : autorizações vitalícias para agrotóxicos, limitação da consideração de dados científicos recentes na avaliação dos riscos dos agrotóxicos, extensão do prazo de utilização de certos produtos após a sua proibição, priorização sistemática dos interesses econômicos em detrimento do princípio da precaução.

As corporações químicas atacam a Comissão Europeia

Este conjunto de propostas faz parte de uma agenda de simplificação regulamentar que se tornou uma obsessão para a Comissão Europeia, apresentada como uma forma de impulsionar a competitividade das empresas em todo o continente. Desde o início do seu segundo mandato, em fevereiro de 2025, Ursula von der Leyen apresentou cerca de dez propostas abrangentes. Todas elas propõem revisões à legislação europeia já adotada, particularmente no que diz respeito ao Pacto Ecológico Europeu, resultando em retrocessos sociais e ambientais significativos.

Isso representa uma grande vantagem para a indústria e seus lobistas , que veem essa nova agenda política como uma oportunidade para revogar regulamentações que poderiam prejudicar suas operações e lucros. O relatório abrangente sobre segurança alimentar não é exceção. Desde o início de 2025, a CropLife Europe – que representa os interesses dos fabricantes de agrotóxicos no continente – vem realizando inúmeras reuniões com a Comissão. Em um ano, o grupo de lobby se reuniu com os gabinetes de diversos Comissários 18 vezes, mais do que durante todo o mandato anterior da Comissão, de 2019 a 2024.1Um terço das reuniões agendadas para 2025 menciona explicitamente o projeto de simplificação de normas em sua pauta.

As empresas agroquímicas também enviaram seus próprios lobistas para pressionar a Comissão, em um ritmo muito mais acelerado do que nos anos anteriores. A Bayer, por exemplo, garantiu 34 reuniões em 2025 – em comparação com 20 durante todo o mandato anterior da Comissão (2019-2024). Destas, dez reuniões deste ano se concentraram explicitamente em questões agrícolas.2, oito mencionam a simplificação como um objetivo.

Biocontrole, um cavalo de Troia para agrotóxicos em Bruxelas

Essa intensa pressão parece ter surtido efeito, como demonstra o desmantelamento das regulamentações que regem a comercialização de agrotóxicos, proposto no projeto de lei abrangente, mas também a introdução no texto de uma nova categoria de substâncias: produtos de biocontrole . Esse conceito, cujos contornos ainda são um tanto vagos, é agora utilizado por diversos atores (cientistas, industriais, políticos, etc.) para se referir tanto a técnicas agroecológicas quanto a produtos de diferentes tipos, associados a uma imagem mais ambientalmente amigável. 

De que substâncias estamos falando exatamente? Elas realmente representam menos riscos do que os agrotóxicos? Todas essas questões essenciais permanecem sem resposta por enquanto, mas podem encontrar respostas no relatório abrangente sobre segurança alimentar, que propõe a primeira definição europeia de biocontrole. Nesse contexto de criação de uma nova categoria de produto e aproveitando-se da persistente ambiguidade legal em torno desse conceito, os grupos de pressão da indústria agroquímica estão trabalhando com a Comissão Europeia para impor sua definição ideal : a mais ampla possível, abrangendo o máximo de produtos possível.

A redação atualmente proposta pela Comissão no documento abrangente, que é muito vaga, deixa ampla margem para que a indústria a interprete em seu benefício . “Substâncias de biocontrole são definidas como: microrganismos; substâncias inorgânicas encontradas na natureza, com exceção de metais pesados ​​e seus sais; ou substâncias de origem biológica ou sintética que sejam funcionalmente idênticas e estruturalmente semelhantes a estas.”3 

Longe de permitir apenas produtos de origem natural, essa terminologia também abre as portas para substâncias “produzidas sinteticamente” em laboratório, desde que sejam “funcionalmente idênticas e estruturalmente semelhantes” a moléculas existentes na natureza. A definição, portanto, coloca em pé de igualdade práticas agroecológicas comprovadas ao longo de décadas, como o sabão preto para o controle de pulgões, e novas biotecnologias sobre as quais ainda temos pouca experiência, como os pesticidas genéticos.

Para os fabricantes, influenciar a própria definição de biocontrole tornou-se uma questão crucial. Ao explorarem a imagem supostamente mais ecológica dessas substâncias, eles exigem que os produtos dessa nova categoria se beneficiem de um quadro regulatório significativamente mais flexível para acelerar sua entrada no mercado europeu. O rótulo de biocontrole se tornaria, portanto, uma oportunidade altamente lucrativa de greenwashing para as empresas , permitindo-lhes continuar comercializando produtos potencialmente tóxicos, apresentando-os como alternativas ecológicas aos agrotóxicos. Diversas medidas no projeto de lei omnibus refletem essa abordagem. Por exemplo, o texto propõe a concessão de autorizações de comercialização temporárias para esses produtos por um período de cinco anos, mesmo antes de a União Europeia concluir sua avaliação da toxicidade de seus princípios ativos.

1Fonte: Transparência Internacional UE Dados para 2025 e 2019-2024.2A Bayer também é um grupo farmacêutico. Das 34 reuniões solicitadas à Comissão, algumas dizem respeito, portanto, a questões não agrícolas.3A tradução foi realizada pela POLLINIS; a Comissão ainda não publicou nenhuma tradução francesa do seu texto.

Uma definição de biocontrole ditada por lobistas

Diante da potencial oportunidade econômica apresentada por essa nova categoria de pesticidas, os lobistas vêm preparando o terreno para essa questão há vários anos. De acordo com documentos obtidos pela POLLINIS, a CropLife contatou a Comissão logo no início para defender sua própria definição de biocontrole , a mais ampla possível. Em 23 de setembro de 2024, a pedido do grupo de lobby, membros da Direção-Geral da Saúde da Comissão Europeia (DG Saúde)4 Eles conversaram com 13 especialistas da CropLife – metade empregados diretamente pelo grupo de lobby, os demais provenientes de empresas associadas, incluindo gigantes como Syngenta, Bayer, BASF e Corteva. Isso proporcionou ao grupo de lobby a oportunidade de compartilhar sua definição de biocontrole, bem como seus pontos de vista sobre os protocolos que deveriam ser usados ​​para avaliar os riscos desses produtos.

Um memorando, encaminhado à Direção-Geral da Saúde após esta reunião, revela a terminologia que o grupo de pressão deseja favorecer. A CropLife expressa a esperança de que a definição adotada seja “suficientemente ampla para permitir e incentivar a inovação”. Os produtos de biocontrole são descritos como substâncias ativas “derivadas da natureza, sejam elas naturais ou sintetizadas”. Para as moléculas sintetizadas em laboratório, especifica-se que elas devem ser “estruturalmente semelhantes e funcionalmente idênticas às encontradas na natureza”.5Termos muito próximos da definição de biocontrole divulgada pela Comissão em dezembro de 2025 , como parte do acordo abrangente sobre segurança alimentar.

4O atual Comissário Europeu para a Saúde, Olivér Várhelyi, é o relator do relatório abrangente sobre segurança alimentar para a Comissão Europeia.5Citação completa em inglês: “Os biopesticidas são substâncias ativas, conforme definidas pelo Regulamento (CE) n.º 1107/2009, derivadas da natureza, seja por ocorrência natural ou por síntese, desde que sejam estruturalmente semelhantes e funcionalmente idênticas às suas contrapartes naturais.”

Este memorando demonstra claramente a intenção de influenciar os debates futuros sobre o biocontrole . O corpo do e-mail contendo o documento, enviado pelo grupo de pressão em 25 de setembro de 2024, indica que se destina a membros do SCoPAFF (Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações), antes da reunião agendada para o início de outubro de 2024. Este comitê técnico opaco, que a POLLINIS já investigou , reúne representantes dos Estados-Membros da UE e desempenha um papel fundamental na tomada de decisões agrícolas da Comissão Europeia, particularmente em questões relacionadas à regulamentação de pesticidas.

A ata da reunião da SCoPAFF de outubro de 2024 também menciona a infame nota enviada pela CropLife à Comissão . ” A Comissão compartilhou uma nota da indústria na qual saudava o fato de que certas propostas de emendas se alinhavam claramente com a definição desejada de biocontrole, o que não era o objetivo da Comissão “, enfatiza a ata, antes de acrescentar: ” embora essa ideia provavelmente seja incorporada em propostas futuras “. Nesse ponto, a SCoPAFF estava certa: com a definição de biocontrole atualmente proposta pela Comissão no documento abrangente, os lobbies da indústria de pesticidas têm motivos para estar satisfeitos.

Tudo ainda pode mudar.O projeto de lei abrangente sobre segurança alimentar está apenas no início de sua jornada legislativa; ele ainda precisa ser examinado no primeiro semestre de 2026 pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia.


Fonte:  Pollinis

Povos originários ocupam porto da Cargill em Santarém para defender o Rio Tapajós

Hoje, 22 de janeiro de 2026, nós povos indígenas do Baixo Tapajós iniciamos  a ocupação na Cargill., Essa ocupação é em defesa do nosso Rio Tapajós,  contra a privatização, a dragagem, a especulação ...
Na 5a. feira (22/1),   membros dos povos originários do Baixo Tapajós ocuparam o porto da Cargill, em Santarém, no Pará, em defesa do Rio Tapajós e da vida que nele existe. Eles afirmam que a luta não é apenas contra um empreendimento específico, mas contra um projeto que tenta transformar o Tapajós em rota de exportação, em corredor de escoamento de soja, ignorando quem vive, cuida e existe nesse território há gerações. O Tapajós não é só um rio, é morada de peixes, animais, plantas, pessoas e dos encantados, é território vivo, ancestral e sagrado.

Os povos originários afirmam que interferir no Tapajós fere profundamente a vida que habita em suas águas visíveis e invisíveis, abalando corpos, espírito e a forma deles de existir no mundo e que, por isso, estão resistindo.

É importante dizer que defender o Tapajós é defender o espírito  e o território dos povos originários.  Mais informações estão disponíveis no perfil do Instagram do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Aqui!)

Pilhas de rejeito de lítio da Sigma têm risco “extremo” de desmoronamento e ruptura parcial ameaçou escola infantil, afirma MTE

Por Lúcio Lambranho, Fotos de Ísis Medeiros, para “Observatório da Mineração” 

Auditores federais do trabalho interditaram parte das operações da maior mina de lítio do Brasil, operada pela Sigma Lithium, após encontrarem uma série de irregularidades graves.

A empresa já havia sido multada em 2025 pela Agência Nacional de Mineração (ANM) por descumprir regras de segurançacomo revelou reportagem do Observatório da Mineração. Agora, além de ter suas atividades paralisadas, a Sigma terá que responder a 13 autos de infração por não seguir normas de segurança.

A decisão veio depois que fiscais identificaram vários problemas e risco de desmoronamento nas pilhas de rejeitos e de estéril da mineradora, localizada em Itinga, no Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais.

Os dados do relatório da fiscalização sobre os quais a reportagem teve acesso e que interditou parte dos trabalhos da maior mineradora de lítio do Brasil detalham o fator que determinou a interdição: uma ruptura parcial de talude atrás da escola municipal infantil, na comunidade de Poço Dantas, “demonstrando que a estrutura tem fragilidades”.

Foto registrada no relatório de fiscalização

Depois da interdição, a Sigma tentou justificar suas operações, mas os fiscais não aceitaram os argumentos e mantiveram a decisão oficialmente no dia 13 deste mês.

Segundo o auditor Marcos Ribeiro Botelho, responsável pela interdição, a empresa não tem nenhum sistema de monitoramento nas pilhas, não apresentou o plano de operação, nem a topografia atualizada das estruturas.

Também faltam sinalização de segurança, documentos que comprovem a capacitação dos trabalhadores e da comunidade para lidar com possíveis acidentes, e vários taludes estão sem cobertura vegetal, o que aumenta o risco de erosão.

A Sigma sequer apresentou licença ambiental estadual das pilhas. Além disso, o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) não identificou perigos para os funcionários próprios e terceirizados que trabalham nas pilhas.

O fiscal também alega que um desmoronamento poderia atingir o rio Piauí e as casas da comunidade. O auditor também compara a situação com a da Mina Turmalina, de Conceição do Pará, que desmoronou no final de 2024

Revisão da interdição destaca risco extremo de desmoronamento das pilhas

O caso foi revisado por um segundo auditor do trabalho antes da decisão final da Secretaria de Inspeção do Trabalho, ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que manteve a interdição da mina do Barreiro, em Itinga (MG).

Segundo o parecer, o auditor analisou cuidadosamente as circunstâncias e os documentos recebidos, usando a metodologia da Norma Regulamentadora nº 3 do MTE. No despacho, Luiz Alfredo Scienza afirmou que a fiscalização identificou risco “extremo” nas três pilhas de rejeitos da Sigma.

O auditor também constatou que os taludes das pilhas apresentavam fator de segurança abaixo do mínimo exigido para evitar rupturas entre as bermas, entre outros problemas, de acordo com parecer de 06 de janeiro.

A caracterização do risco foi considerada grave e iminente para a integridade dos trabalhadores e das comunidades próximas, seguindo o modelo estabelecido pela Norma Regulamentadora nº 3. O relatório técnico que embasou a interdição destaca o grande potencial de dano e sofrimento associado a acidentes no setor.

A Sigma entrou na Justiça do Trabalho para tentar reverter a decisão dos fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O processo corre em segredo de justiça na Vara do Trabalho de Araçuaí (MG). Segundo apuração, os fiscais serão ouvidos em audiência já marcada para esta quarta-feira (21).

A interdição ainda não está sendo investigada formalmente, de acordo com a assessoria do Ministério Público do Trabalho (MPT) em Minas Gerais. Por enquanto, existe apenas um inquérito aberto em julho de 2025 para apurar outras questões relacionadas ao meio ambiente de trabalho. No momento, a procuradora responsável não vai se pronunciar para não atrapalhar as investigações.

Outra investigação oficial está sendo conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF), que abriu uma notícia de fato após a comunicação da interdição e dos autos de infração emitidos pelos auditores do trabalho.

Foto: Ísis Medeiros

Histórico mostra que três das cinco pilhas foram interditas por desacordo com norma de segurança

Em 12 de novembro de 2025, o setor responsável pela fiscalização, ligado ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), deu 15 dias para a Sigma apresentar documentos que comprovassem a segurança das operações. Como a empresa não apresentou respostas suficientes, três das cinco pilhas foram interditadas em 5 de dezembro do ano passado.

Os autos de infração contra a Sigma Lithium foram por falta de plano de trânsito, proteção de máquinas e sinalização adequada. A empresa tem dez dias para se defender dessas acusações. Se os argumentos não forem aceitos, o governo pode aplicar multas por descumprimento das normas apontadas pelos auditores.

Essas infrações envolvem regras obrigatórias para garantir a segurança dos trabalhadores da mina. Segundo apuração da reportagem, a Sigma está em desacordo com a Norma Regulamentadora 22, que trata especificamente da atividade de mineração. Essas regras ficaram mais rígidas após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, em 2019, e esta foi a primeira fiscalização na Sigma desde então.

Na última segunda-feira (19) terminou o prazo para a Sigma Lithium apresentar documentos sobre as infrações apontadas, por meio do sistema Domicílio Eletrônico Trabalhista (DET). Após uma reunião, a empresa prometeu enviar os dados aos auditores, mas não cumpriu o combinado. Por causa disso, os fiscais registraram mais um auto de infração, desta vez por dificultar a fiscalização ao não entregar os documentos exigidos.

Não é a primeira vez que a Sigma é multada pelas operações na mina. Como revelou o Observatório da Mineração, desde 2010, a Agência Nacional de Mineração (ANM) realizou sete vistorias técnicas presenciais na área, sendo a última em agosto de 2024. A ANM também informou que já aplicou autos de infração contra a empresa em diferentes ocasiões, incluindo em 2025, por descumprimento de regras previstas no Plano de Aproveitamento Econômico (PAE).

Entre as multas aplicadas está uma referente ao descumprimento das normas técnicas de segurança para as pilhas de rejeitos. Segundo a ANM, a Sigma deixou de seguir as normas regulamentares, pois as pilhas de rejeitos e de estéril não estavam dispostas conforme o plano apresentado no PAE original nem na última atualização do documento

Foto: Ísis Medeiros

Sigma não responde. ANM diz que análise geotécnica é de competência exclusiva da agência.

Até o fechamento desta reportagem a Sigma não respondeu aos questionamentos da reportagem enviados na última sexta-feira (16). O espaço segue aberto para manifestação.

A ANM emitiu uma nota sobre o caso e alega que não viu necessidade de interdição quando aplicou multa na empresa sobre a questão citada sobre a pilha de rejeitos.

Veja abaixo a íntegra da nota:

A Agência Nacional de Mineração realizou fiscalização na mina operada pela Sigma Lithium em 2024, no âmbito de suas atribuições legais. Dessa atuação resultaram 20 pedidos formais de adequação técnica, encaminhados à empresa.

A Superintendência de Segurança de Barragens e Pilhas de Mineração da ANM realiza, esta semana, fiscalização nas Pilhas de Disposição de Estéril e Rejeitos da empresa, seguindo o cronograma previsto para 2026, com o objetivo de verificar as condições de segurança das estruturas, a estabilidade geotécnica e a conformidade com a legislação minerária e de segurança de estruturas de mineração.

A Agência tomou conhecimento da interdição das pilhas de disposição de estéril da empresa, realizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego em Minas Gerais, com base em apontamentos de risco à segurança dos trabalhadores. Contudo, entendemos que a análise geotécnica é de competência da ANM.

Eventuais medidas administrativas a serem adotadas dependerão do resultado da fiscalização e da análise técnica das condições verificadas em campo, observadas as competências legais da Agência”. 

A decisão da ANM de fiscalizar a mina nesta semana, somente após a interdição do MTE, contradiz as alegações de que não havia recursos por falta de orçamento para apurar e realizar nova fiscalização sobre as denúncias formuladas por Calvyn Gardner, engenheiro inglês e fundador da Sigma Lithium, como revelou o Observatório da Mineração em dezembro de 2025.

Gardner apresentou laudos técnicos que denunciam uma série de irregularidades, incluindo a falta de segurança nas operações de lítio da Sigma. Segundo o executivo, funcionários da mineradora o procuraram e relataram “preocupações urgentes” sobre a segurança das operações por uma suposta instabilidade das paredes das cavas, repetidas quedas de rochas e pelo menos um incidente em que foi preciso evacuar uma das áreas de operação.

A ANM informou, no entanto, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), que tinha começado um planejamento de fiscalização para apuração destas denúncias, mas, por falta de recursos financeiros para as atividades de campo, a solicitação ainda não pode ser atendida em 2025. “A princípio, diante do contingenciamento imposto pelo Governo Federal, não há previsão de vistoria para este ano”, disse a ANM.

Reportagem do jornal Folha de S.Paulo  informa que a ANM discorda da fiscalização que interditou as pilhas da Sigma. O Observatório da Mineração apurou que a atuação dos dois órgãos federais é independente e que só os fiscais do MTE podem suspender a interdição.

O Observatório da Mineração também questionou a Secretaria Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais (Semad) sobre a não apresentação do licenciamento ambiental das pilhas de rejeitos, segundo os dados dos fiscais da segurança do trabalho. Até o momento, também não recebemos retorno do pedido feito.


Fonte: Observatório da Mineração

O caso de Beatriz Bueno me lembra o ditado do “no creo en brujas pero que las hay las hay”

No creo en brujas pero que las hay las hay 

Venho acompanhando o caso envolvendo agora ex-mestranda Beatriz Bueno, que acaba de ser desligada do programa de mestrado em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense por supostas violações das regras acadêmicas.  Betriz Bueno alega que, na verdade, sua exclusão dos quadros discentes da UFF se deve à rejeição do seu tema de pesquisa, que propõe uma reorientação (radical eu me arrisco a dizer) sobre como a questão das relações raciais tem sido abordadas nas últimas décadas pelas universidsades brasileiras.

Falo aqui da questão da “parditude” pelo qual Betriz Bueno parece propor uma explicitação das nuances que estão presentes na formação da população brasileira, em vez de se assumir que ela se divide basica e estritatamente entre brancos e negros.  Não vou me alongar no mérito do debate conceitual que cerca a proposição de Beatriz Bueno para conduzir sua dissertação de Mestrado, pois essa é uma área em que minha ignorância supera a minha capacidade acadêmica de afirmar algo com o necessário suporte teórico-metodológico. 

O que eu posso relatar é que este caso de exclusão tão imediata de uma discente de Mestrado em seu primeiro ano de estudos me parece algo bem singular na atual conjuntura da pós-graduação brasileira em que há uma forte leniência para com, digamos, eventuais descumprimentos e faltas por parte dos discentes. E a pena está me parecendo muito grave em relação às faltas declaradas publicamente pela própria UFF.

Agora, o que eu posso relatar é que este não é o primeiro caso que eu conheço em que um jovem pesquisador é punido por apresentar teses que destoam da linha dominante dentro de um programa de pós-graduação.  Falo isso porque alguns anos atrás encontrei um ex-aluno que me contou de forma desolada que fora surpreendido com uma reprovação da sua tese de doutorado sobre relações interpessoais dentro do comunidade LGBTQIA+ porque concluira que as mesmas formas opressivas e autoritárias que marcam os relacionamentos heterossexuais estavam presentes. O pior para este ex-aluno foi que até o dia da realização da banca examinadora não tinha recebido qualquer sinalização de problemas por parte do seu orientador  sobre a qualidade acadêmica da tese.  Em outras palavras, esse ex-aluno foi surpreendido por uma reprovação que se mostrou inapelável, o que, objetivamente, o impediu de demonstrar e tornar públicos os resultados da sua pesquisa.  O resultado final foi que este ex-aluno abandonou os estudos e se moveu para uma nova área disciplinar.

A minha expectativa é que, ao contrário, do meu ex-aluno, Beatriz Bueno não abandone o tema que escolheu para pesquisar e que ela possa acessar outro programa de pós-graduação para conduzir sua investigação dentro de um processo guiado pelo uso livre das regras do método científico. Falo isso como professor de Metodologia da Pesquisa desde 1999 no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf).  Durante todo esse tempo, o que sempre procurei apontar para os meus alunos foi que, apesar do método científico não ter nada de neutro como pretenderam os pensadores positivistas clássicos, o que deve guiar a condução de qualquer estudo científico é um compromisso com o rigor teórico máximo.  É que só assim podemos alemejar fazer a devida separação do trigo do joio, e avançar no processo de construção de um conhecimento que mereça ser chamado de científico, por mais que isso desafie as ideias eventualmente dominantes dentro de uma determinada área de estudo.

Por ora, fico com o ditado sobre as bruxas….no creo en brujas pero que las hay las hay

Atlas inclui a cidade do Rio de Janeiro entre grandes cidades do mundo com altos níveis de estresse hídrico

O horizonte de Los Angeles

Los Angeles é uma das cidades globais que enfrenta extrema crise hídrica, agravada pelas mudanças climáticas. Fotografia: Kirby Lee/Getty Images

Por Rachel Salvidge para “The Guardian”

Metade das 100 maiores cidades do mundo estão sofrendo com altos níveis de estresse hídrico, sendo que 39 delas estão localizadas em regiões de “estresse hídrico extremamente alto”, segundo novas análises e mapeamentos.

O estresse hídrico significa que a captação de água para abastecimento público e industrial está próxima de exceder a disponibilidade, frequentemente causada pela má gestão dos recursos hídricos, agravada pelas mudanças climáticas.

A Watershed Investigations e o jornal The Guardian mapearam cidades em bacias hidrográficas sob estresse, revelando que Pequim, Nova York, Los Angeles, Rio de Janeiro e Délhi estão entre as que enfrentam estresse extremo, enquanto Londres, Bangkok e Jacarta são classificadas como altamente estressadas.

Uma análise separada de dados de satélite da NASA, compilada por cientistas do University College London, mostra quais das 100 maiores cidades sofreram com o aumento ou a diminuição da umidade ao longo de duas décadas. Cidades como Chennai, Teerã e Zhengzhou apresentam fortes tendências de seca, enquanto Tóquio, Lagos e Kampala mostram fortes tendências de aumento da umidade. Todas as 100 cidades e suas respectivas tendências podem ser visualizadas em um novo atlas interativo de segurança hídrica .

Cerca de 1,1 bilhão de pessoas vivem em grandes áreas metropolitanas localizadas em regiões que sofrem com forte seca a longo prazo, em comparação com cerca de 96 milhões em cidades e arredores em regiões que apresentam fortes tendências de aumento da umidade. No entanto, os dados de satélite são muito grosseiros para mostrar detalhes e contexto em escala local.

A maioria das regiões urbanas em zonas de precipitação acentuada situa-se na África subsaariana, com exceção de Tóquio e Santo Domingo, na República Dominicana. A maioria dos centros urbanos em áreas com os sinais mais fortes de seca concentra-se na Ásia, particularmente no norte da Índia e no Paquistão.

Já no sexto ano de seca, Teerã está perigosamente perto do “dia zero”, quando não haverá água disponível para seus cidadãos. No ano passado, o presidente do país, Masoud Pezeshkian, afirmou que a cidade poderá ter que ser evacuada caso a seca persista. Cidade do Cabo e Chennai também já se aproximaram do dia zero, e muitas das cidades que mais crescem no mundo estão situadas em zonas de seca, onde poderão sofrer com a escassez de água no futuro.

Mohammad Shamsudduha, professor de crise hídrica e redução de riscos na UCL, disse: “Ao monitorar as mudanças no armazenamento total de água a partir do espaço, o projeto Grace, da NASA, mostra quais cidades estão ficando mais secas e quais estão ficando mais úmidas, oferecendo um alerta precoce de insegurança hídrica emergente.”

Na terça-feira, a ONU anunciou que o mundo entrou em um estado de falência hídrica, onde a deterioração de alguns recursos hídricos se tornou permanente e irreversível. O professor Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, afirmou que a má gestão da água é frequentemente a principal causa da falência hídrica e que as mudanças climáticas raramente são a única razão: “A mudança climática é como uma recessão somada à má gestão dos negócios”.

O Grupo Banco Mundial também tem soado o alarme. As reservas globais de água doce diminuíram drasticamente nos últimos 20 anos, segundo o grupo, que afirma que o planeta está perdendo cerca de 324 bilhões de metros cúbicos de água doce por ano, o suficiente para atender às necessidades anuais de 280 milhões de pessoas, ou aproximadamente a população da Indonésia. As perdas afetam as principais bacias hidrográficas em todos os continentes.

Até 2055, a Inglaterra poderá precisar encontrar 5 bilhões de litros de água adicionais por dia para atender à demanda de abastecimento público – mais de um terço dos 14 bilhões de litros de água atualmente utilizados no sistema público de abastecimento, segundo a Agência Ambiental. Outros setores hídricos, como agricultura e energia, podem precisar de 1 bilhão de litros de água adicionais por dia.

Shamsudduha afirmou que o “recurso oculto das águas subterrâneas oferece ao Reino Unido um abastecimento de água mais resiliente às mudanças climáticas”, mas acrescentou que “sem monitoramento contínuo e melhor gestão, corremos o risco de gerenciá-lo às cegas em meio à intensificação do desenvolvimento e às pressões climáticas”.

Partes do sul da Inglaterra sofreram recentemente interrupções no fornecimento de água , que a South East Water atribuiu a tempestades de inverno. No entanto, os órgãos reguladores já haviam notificado a empresa expressando “sérias preocupações” sobre a segurança do seu abastecimento.

Na terça-feira, o governo publicou um livro branco sobre água com o objetivo de reformular o sistema hídrico, incluindo a criação de um novo cargo de engenheiro-chefe, “verificações de inspeção técnica” na infraestrutura hídrica e novos poderes para um novo órgão regulador do setor de água.


Fonte: The Guardian

Parlamento Europeu dá duro golpe no acordo comercial com o Mercosul ao encaminhá-lo ao Supremo Tribunal

 

“Agricultores de toda a Europa reagem após a votação do Parlamento Europeu sobre a possibilidade de encaminhar o acordo comercial UE-Mercosul ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), em Estrasburgo, França, 21 de janeiro de 2026. REUTERS/Yves Herman. BRUXELAS, 21 de janeiro (Reute

Por Philip Blenkinsop para “Reuters”

BRUXELAS, 21 de janeiro (Reuters) – Parlamentares da União Europeia (UE) votaram nesta quarta-feira para contestar o polêmicoacordo de livre comércioda União Europeia com a América do Sul no principal tribunal do bloco, uma medida que pode atrasar o acordo em dois anos e potencialmente inviabilizá-lo.

A União Europeia assinouno sábado o seu maior acordo comercial de sempre com os membros do Mercosul, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, após 25 anos de negociações. O acordo ainda precisa de aprovação para entrar em vigor.

O chanceler alemão Friedrich Merz, um dos principais apoiadores do acordo, considerou lamentável o encaminhamento do caso ao tribunal, acrescentando em uma publicação nas redes sociais que a Assembleia da UE havia “avaliado mal a situação geopolítica”. Ele insistiu que o acordo deveria ser aplicado em breve, em caráter provisório.

A Alemanha e outros países apoiadores, como a Espanha, apontam para a perturbação do comércio global promovida pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Argumentam que o acordo é essencial para compensar as perdas comerciais decorrentes das tarifas americanas e para reduzir a dependência da China, garantindo o acesso a minerais críticos. Alertam também que os governos do Mercosul estão perdendo a paciência com a UE após anos de negociações.

A UE ainda poderia aplicar o pacto provisoriamente, aguardando a decisão judicial e a aprovação parlamentar. No entanto, fazê-lo poderia revelar-se politicamente difícil, dada a provável reação negativa, e o Parlamento Europeu manteria o poder de o anular posteriormente.

Os opositores, liderados pela França – o maior produtor agrícola da UE – afirmam que o acordo aumentará drasticamente as importações de carne bovina, açúcar e aves a preços baixos, prejudicando os agricultores nacionais que têm realizado protestosrepetidos .

Um grupo de 144 parlamentares apresentou uma moção parlamentar solicitando ao Tribunal de Justiça da UE que se pronuncie sobre se o acordo pode ser aplicado antes da ratificação completa por todos os Estados-Membros e se as suas disposições restringem a capacidade da UE de definir políticas ambientais e de saúde do consumidor. O tribunal normalmente leva cerca de dois anos para emitir tais pareceres.

O Parlamento Europeu aprovou a moção com 334 votos a favor, 324 contra e 11 abstenções.

A FNSEA, maior sindicato agrícola da França, considerou a votação uma vitória. O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, afirmou em uma publicação nas redes sociais que se tratava de “uma votação importante que precisa ser respeitada”.

A Comissão Europeia, que negociou o acordo, afirmou que as questões levantadas na moção já haviam sido amplamente debatidas com os legisladores da UE e que todas já haviam sido abordadas em acordos comerciais anteriores. Acrescentou que dialogaria com os governos e legisladores da UE antes de decidir os próximos passos.

Reportagem de Philip Blenkinsop; reportagem adicional de Louise Rasmussen, Alessandro Parodi, Sybille de La Hamaide; edição de Mark Potter e Chizu Nomiyama.


Fonte: Reuters