O oeste bloqueado: os significados da Cúpula do G20 no Brasil

202178Apelo à ação contra as mudanças climáticas: ações de protesto dos povos indígenas antes da cúpula do G20, no sábado, no Rio de Janeiro

Por Jörg Kronauer para o JungeWelt 

Há muito a fazer, especialmente para o G20, a associação dos 20 maiores países industrializados e emergentes do mundo. O Brasil, que atualmente preside o grupo de estados, colocou alguns pontos-chave na agenda: o combate à fome e à pobreza e o combate às mudanças climáticas. No entanto, provavelmente não haverá nenhum progresso tangível na cimeira do G20, que começa na segunda-feira no Rio de Janeiro, devido ao bloqueio dos estados ocidentais ricos.

Um imposto bilionário que retiraria pelo menos míseros dois por cento da riqueza obscena dos super-ricos, a fim de aliviar pelo menos os piores excessos de pobreza? Já havia sido prevenido antecipadamente pelos EUA e pela Alemanha. Ambos também querem impor os pagamentos necessários para combater o aquecimento global, que têm causado em grande parte desde o início da revolução industrial, aos países emergentes, mais do que antes, e os EUA podem retirar-se completamente do acordo climático de Paris depois de Donald Trump tomar posse. Progresso socioecológico, por mais escasso que seja? Não, obrigado, não há interesse – essa foi a mensagem do Ocidente mesmo antes da cimeira do G20.

No entanto, o Ocidente está interessado em outras coisas, nomeadamente coisas que não estão na agenda oficial do Rio de Janeiro, uma vez que o G20 é originalmente um formato econômico e não geoestratégico. O chanceler Olaf Scholz anunciou antecipadamente que discutiria repetidamente a guerra na Ucrânia. Por que? Agora, no terceiro ano de guerra, os países emergentes continuam a recusar-se a adotar a posição do Ocidente sobre o conflito armado. O fato é que os países emergentes estão fugindo ao domínio ocidental em um conflito central.

Do ponto de vista de Berlim, a declaração final da cimeira do G20 de 2023 na Índia foi mais fraca quando se tratou da Ucrânia do que a da cimeira do G20 de 2022 na Indonésia. O projeto do documento da cimeira deste ano, como podemos ouvir, leva ainda menos em conta as posições do Ocidente – para desgosto do governo alemão. Scholz fará o possível para implementar mudanças no texto.

Segundo relatos, a situação é semelhante às passagens do projeto de declaração final dedicada às guerras de Gaza e do Líbano. O governo da Alemanha também não quer deixar as coisas assim: está pressionando para que as posições israelenses sejam incorporadas ao documento. Isto significa que o Ocidente, que constitui metade do G20, está essencialmente contra o resto do mundo. O declínio das potências transatlânticas, que dominaram os assuntos mundiais durante demasiado tempo, também se reflecte em formatos como o G20 e nas suas declarações. Pará-lo, de preferência revertê-lo novamente: é isso que está impulsionando as ações do governo alemão na cúpula do Rio de Janeiro. As lutas contra a fome, a pobreza e as alterações climáticas são, se é que o são, secundárias.


Fonte: JungeWelt

Em vídeo, Wladimir joga mais água no seu próprio chopp ao defender sanção da “lei da ideologia de gênero”

Água no Chopp

Primeiro uma confissão: eu considero que o prefeito de Campos dos Goytacazes é uma figura boa praça e que mostra, na maioria do tempo, uma capacidade de ouvir, o que é raro no tipo de política partidária que vivemos na nossa cidade. Mas acabo de assistir um vídeo que ele próprio postou em seu perfil no Instagram para justificar a promulgação da Lei Municipal  No. 9.532 que  falculta aos pais e responsáveis “o direito de vedar a participação de seus filhos ou tutelados em atividades pedagógicas relacionadas à ideologia de gênero nas escolas públicas e privadas localizadas no Município de Campos dos Goytacazes”.

Em seu vídeo, Wladimir se declara várias coisas, incluindo “pessoa equilibrada, cristão e conservador”.  Ainda no vídeo ele aponta que a Lei Municipal  No. 9.532 seria uma espécie de instrumento para pais e responsáveis decidirem se querem ou não se seus filhos e filhas participem de atividades escolares relacionadas à “ideologia de gênero” e “diversidade sexual”. Para mim foi nesse esclarecimento que a porca torceu o rabo. 

Como conhecedor das agruras da rede municipal onde faltam até portas nas salas de aula e não se faz concurso para professores permanentes há mais de uma década, nunca ouvi falar de atividades pedagógicas animadas pela chamada ideologia de gênero. Como tenho ex-alunos que hoje atuam, muitos com contratos precários, nunca ouvi relatos de que ocorram debates sobre diversidade sexual, outro tópico que pareceu amparar o prefeito em sua decisão de sancionar a Lei Municipal  No. 9.532. Educação sexual? Tampouco. E me parece que isso é um problema, pois essa é a mesma cidade em que ocorreu o rumoroso caso das “Meninas de Guarus“, cujos efeitos devastadores sobre crianças e adolescentes ainda permanece naqueles que sobreviveram ao trauma de terem sido usados como escravos sexuais.

A verdade é que a promulgação de uma lei que supostamente visa impedir a disseminação da “ideologia de gênero” acaba gerando um movimento que sufoca o necessário processo de educação sexual, bem como da luta contra a violência sexual contra crianças.  As estatísticas apontam, por exemplo, que a maioria dos que cometem violência sexual contra crianças são membros da família ou conhecidos próximos. 

Curiosamente, não há na Lei Municipal No. 9.532 qualquer menção à luta contra a violência sexual contra crianças, como se a questão da “ideologia de gênero” fosse aquilo que realmente importa, quando sabemos que não chega nem perto de ser.

As consequências eleitorais para Wladimir poderão ser duras

Algumas pessoas já comentaram que Wladimir sancionou a  Lei Municipal No. 9.532 para agradar a base religiosa protestante que o elegeu em primeiro turno. Isso pode ser bem verdade, mas há algo que os resultados eleitorais deveriam ter sido melhor interpretados por Wladimir antes dele assinar essa lei.

Por outro lado, até as pedras no fundo do Rio Paraíba do Sul na curva da Lapa sabem que Wladimir tem pretensões eleitorais para 2026, seja como candidato a governador, seja como deputado federal ou até senador.  Assim, como a maioria dos analistas de resultados eleitorais já apontou, Wladimir conseguiu uma excelente votação até famosa área da “pedra” onde vivem os setores mais progressistas da população, superando uma rejeição histórica ao grupo político criado por seu pai, Anthony Garotinho.

Ao assinar uma lei claramente reacionária e anti-liberdade de cátedra, o que Wladimir pode ter feito foi queimar as pontes frágeis que logrou criar com o eleitorado da “pedra”.  Como esse é um eleitorado que possui mais memória, ao sancionar a Lei Municipal No. 9.532, Wladimir pode ter jogado água no seu chopp em 2026. A ver!

PFAS: os contaminantes emergentes no meio ambiente e na saúde pública

Live discutiu os desafios da regulação e remoção dessa substância considerada tóxica

Na terça-feira, 15, o CRQ-IV/SP transmitiu uma live organizada pela Comissão Técnica de Meio Ambiente para discutir os “Conceitos, Ocorrências e Implicações dos PFAS”, um grupo de substâncias com potencial contaminante. A palestra foi conduzida pelo Químico Aluisio Soares, mestre e doutor em Química Ambiental, com pós-doutorado na ocorrência de PFAS em águas subterrâneas pela Universidade de São Paulo (USP). Soares é membro da Comissão Técnica de Meio Ambiente do CRQ-IV/SP e sócio da consultoria EVA Way Projetos Ambientais.

Os PFAS (substâncias per e polifluoroalquil) são compostos sintéticos, fabricados desde a década de 1930. Eles fazem parte do grupo dos contaminantes emergentes, assim como fármacos, hormônios, drogas psicotrópicas, pesticidas. Alguns desses contaminantes emergentes, como os PFAS, são considerados interferentes endócrinos e podem causar efeitos adversos – como câncer – após a exposição prolongada. Segundo Aluisio, a produção dos PFAS foi reduzida nos anos 2000, quando se descobriu os seus malefícios.

Antes disso, os PFAS foram amplamente utilizados durante a Segunda Guerra Mundial, no revestimento de equipamentos usados para testes atômicos. Após o fim da guerra, o composto ganhou popularidade no uso doméstico, especialmente em utensílios antiaderentes, como panelas revestidas com teflon, cujo princípio ativo é o perfluorooctanoico (PFOA), um dos PFAS mais conhecidos. Ele também pode estar presente em produtos como espumas antichamas, roupas impermeáveis, revestimentos para sofás e até cosméticos.

Os PFAS são formados por cadeias de átomos de carbono ligadas a átomos de flúor. A substituição de hidrogênios por flúor confere a esses compostos uma enorme estabilidade química, o que os torna extremamente resistentes e difíceis de serem quebrados pela natureza. Sua estrutura pode ser “per” ou “poli”, dependendo do nível de substituição por flúor, resultando em diferentes propriedades químicas e físicas, o que amplia ainda mais o seu uso em diversos setores industriais.

Um dos maiores exemplos de contaminação ao meio ambiente por PFAS ocorreu em bases militares dos Estados Unidos, onde a utilização de espumas antichamas resultou em áreas de solo e água subterrânea contaminadas. Estudos também já detectaram PFAS no sangue de ursos polares e em peixes. O palestrante fez referência ao filme “Dark Waters” (2019), que retrata o impacto ambiental da produção de teflon, ilustrando as consequências da exposição prolongada a esses compostos.

Apesar da crescente conscientização sobre os riscos dos PFAS, os métodos de análise e monitoramento desses compostos ainda são limitados. Os métodos analíticos atuais são capazes de quantificar apenas cerca de 40 PFAS, quando existem mais de 5 mil, o que representa um grande desafio. Além disso, muitos desses compostos são encontrados em concentrações extremamente baixas, na ordem de picogramas por litro, o que exige equipamentos de alta sensibilidade para detecção.

Com o avanço dos estudos, o uso do PFAS foi reduzido, mas esses materiais ainda circulam no País. “Provavelmente todos vocês devem ter algum produto em casa contendo PFAS”, disse Soares. No Brasil, a substância já foi encontrada em carnes, vegetais, água mineral, como resultado das contaminações ambientais. O palestrante explicou que técnicas como a osmose reversa, processos oxidativos avançados, uso de carvão ativado granular e resinas de troca iônica já são utilizados por empresas de tratamento de água no Brasil e exterior para remover os PFAS.

Soares afirma que o tema ainda representa um desafio, que envolve desde a falta de uma legislação nacional robusta, a busca por substitutos que não sejam prejudiciais ao meio ambiente e à saúde, e os riscos da exposição prolongada. Entretanto, existe um Projeto de Lei – PL 2726/2023 –, ainda em discussão fora do Plenário, que buscará instituir a política nacional de controle dos PFAS. A expectativa é que, com a aprovação de novos regulamentos, seja possível reduzir e controlar os impactos desses compostos no meio ambiente e na saúde pública.

O evento foi encerrado com uma rodada de perguntas feitas pelos participantes. A mediação foi realizada pela Química Dilcelli Soares Moura, especialista em Química Instrumental, Gestão de Qualidade, ensaios analíticos e amostragem de matrizes ambientais, e membro da Comissão Técnica de Meio Ambiente do CRQ-IV/SP. A apresentação foi feita pelo Químico Aislan Balza, coordenador das Comissões Técnicas do Conselho.

A gravação da live segue disponível no canal do Conselho no YouTube.


Fonte: CRQ/SP 

Cemitérios de roupas: o custo socioambiental do fast fashion na América Latina

ropa-usada-1-996x567Toneladas de roupas usadas de baixa qualidade chegam ao deserto do Atacama, no Chile. Crédito da imagem: Cortesia de Franklin Zepeda para SciDev.Net

Por Aleida Rueda para o SciDev 

CIDADE DO MÉXICO. Vários países latino-americanos importam toneladas de roupas usadas da Europa, Ásia e Estados Unidos todos os anos para lhes dar “uma segunda vida”. Porém, o excesso de roupas de má qualidade, somado à falta de infraestrutura para reciclá-las, está fazendo com que as roupas que entram como mercadoria se tornem resíduos de difícil descarte.

É o caso do Chile, onde grande parte das roupas usadas que entram no país não são revendidas e acabam sendo transportadas e incineradas ilegalmente no deserto do Atacama. E por se tratarem de têxteis fabricados com fibras sintéticas não biodegradáveis, a sua incineração implica potenciais danos ao ambiente e à saúde.

“As roupas usadas de baixa qualidade são abandonadas e/ou incineradas em locais não autorizados, geralmente por compradores informais deste tipo de produtos, que descartam unidades de baixa qualidade em locais clandestinos”, reconheceu o Ministério do Meio Ambiente do Chile em sua Estratégia de Economia Circular. para o Setor Têxtil , publicado em agosto deste ano.

O documento, cuja consulta pública terminou há poucos dias (23 de outubro), tem como objetivo aumentar a vida útil do vestuário e prevenir a geração de resíduos têxteis para “proteger a saúde das pessoas e o ambiente” uma vez que grandes quantidades de vestuário que acabam a transformação de resíduos, somada ao consumo excessivo, “constituem um problema ambiental que tem crescido consideravelmente nos últimos anos”.

Bastian Barria enfrenta esse problema. É cofundador da Desierto Vestido, uma organização não governamental com sede em Iquique, Chile, dedicada à economia circular na indústria têxtil que documentou a existência de dezenas destes aterros no deserto através da sua conta no Instagram .

“Existem microaterros com muitos tipos de resíduos, inclusive têxteis. Temos alguns identificados, mas hoje estão se expandindo pelo imenso deserto do Atacama”, disse ele ao SciDev.Net .

“Cerca de 70 por cento do vestuário contém matérias-primas derivadas do plástico, que, juntamente com os vários produtos químicos e corantes utilizados nas peças de vestuário, convertem estes produtos em resíduos perigosos quando são incinerados”, acrescentou.

O problema já está na mira dos organismos internacionais.

Em Junho deste ano, as Comissões Económicas das Nações Unidas para a Europa (UNECE) e para a América Latina e as Caraíbas (CEPAL) publicaram um relatório que confirma como o excesso de importações de vestuário usado, e confeccionado com fibras sintéticas, está a conduzir a uma grave problema de gestão de resíduos têxteis no Chile.

Segundo o estudo, em 2022 – últimos números disponíveis – o Chile importou 124 mil toneladas de roupas usadas, das quais cerca de dois terços entraram no país através da Zona Franca de Iquique; Lá, mais de 50 empresas empregam centenas de trabalhadores, a maioria mulheres, para montar pacotes de roupas com base na sua qualidade.

Destas embalagens, 5 por cento foram reexportadas para outros países, 20 por cento foram vendidas no resto do país e 75 por cento foram transferidas para as zonas envolventes do porto.

“Muitas destas peças de vestuário acabaram em aterros no vizinho Deserto do Atacama, porque não têm valor de mercado local ou são demasiado numerosas para serem absorvidas pelos mercados locais”, afirma o relatório.

A comunidade de Alto Hospicio, na província de Iquique, Chile, tornou-se um paraíso de roupas usadas de má qualidade que são abandonadas e queimadas, com graves danos ao meio ambiente e à saúde. Foto: cortesia de Desierto Vestido para SciDev.Net

Além disso, revela que esta sobreprodução está a impulsionar as exportações com um padrão específico: o vestuário flui de países de rendimento elevado para países de baixo rendimento.

“À medida que o mundo, especialmente o Norte Global, produz e consome moda a um ritmo implacável, alguns países, principalmente no Sul Global, tornaram-se cemitérios de roupas”, afirma Lily Cole, activista climática e consultora da ECE. carta incluída no relatório.

Para Matías Roa, ambientalista e membro do Basura Cero Chile , grupo de organizações que promovem a gestão sustentável dos resíduos sólidos e que documentaram a crise dos resíduos têxteis no país nos últimos três anos, este fluxo de roupas “tem todos os sintomas e padrões de ser uma prática colonialista de desperdício .”

“O Norte Global não pode eliminar todas as roupas que produz, então o que está a fazer? “Ele está usando as mesmas práticas que usa com outros resíduos : transferindo-os para o hemisfério sul”, disse ele ao SciDev.Net .

Use e jogue fora

 Existem boas razões para usar roupas de segunda mão. Um relatório da Oxford Economics publicado há algumas semanas (9 de Outubro) mostra que o sector do vestuário usado contribui com milhares de dólares para o Produto Interno Bruto dos países, gera milhares de empregos e reduz a pegada ambiental da produção de vestuário.

“A indústria de vestuário em segunda mão reduz significativamente a pegada ambiental do vestuário, uma vez que os têxteis reutilizados requerem apenas 0,01% de água e poupam cerca de 3 kg de CO 2 por peça em comparação com a produção de roupas novas”, afirma o relatório.

Mas este mercado em ascensão enfrenta uma ameaça: a fast fashion, uma indústria de produção de vestuário em massa que envolve mais colecções por ano, geralmente a preços baixos e confeccionadas com materiais de má qualidade.

Estas novas peças minam o modelo tradicional e virtuoso de roupa em segunda mão: em vez de lhe dar uma segunda vida, por não ter qualidade para isso, aplica-se o clássico ‘use e deite fora’.

Isto dá início à cadeia de resíduos que acabará em cemitérios de roupas em países pobres ou com pouca ou nenhuma regulamentação para sua importação, como o Chile. Por ser mais fácil de deitar fora, milhares de pessoas deitam fora ou doam roupas que já não querem, enquanto compram mais. É um círculo de consumo e desperdício.

Em alguns países da Europa e dos Estados Unidos, “há muito bons consumidores, entre outras coisas, de roupas, mas também estão muito habituados a livrar-se delas, seja vendendo-as ou doando-as”, disse Efrén Sandoval Hernández, um antropóloga e pesquisadora do Centro de Pesquisa e Estudos Superiores em Antropologia Social (CIESAS), no México.

“Há uma enorme quantidade de roupas que são doadas nos Estados Unidos e vendidas lá, mas também a associações de caridade que as vendem a intermediários, que são responsáveis ​​pela exportação de roupas usadas para todo o mundo”, disse Sandoval.

“O Norte Global não pode eliminar todas as roupas que produz, então o que está a fazer? “Está a utilizar as mesmas práticas que utiliza com outros resíduos: transportá-los para o hemisfério sul (…) [Este fluxo de roupas] tem todos os sintomas e padrões de ser uma prática de desperdício colonialista.”

Matías Roa, ambientalista e membro do Zero Waste Chile

Os intermediários, que estão tanto nos países exportadores como nos países importadores, dedicam-se a avaliar e dividir as roupas com base na sua qualidade, garantindo as melhores qualidades para os melhores mercados.

Mas nesse fluxo há muitas roupas que ficam para trás; Não é revendido, em parte, porque é de má qualidade, mas também porque está em mau estado, manchado, danificado ou quebrado. Ou também porque não é adequado ao mercado latino-americano.

«Acontece muitas vezes que, em locais muito quentes, chegam camisolas e casacos grandes, e ninguém os compra porque não precisa deles. Ou são roupas muito grandes que não cabem no povo da Guatemala, que é pequeno. Tudo isso acaba sendo desperdício”, disse Eduardo Iboy, designer industrial e coordenador da organização Fashion Revolution Guatemala, ao SciDev.Net .

Em 2022, a equipe desta organização documentou a forma como a paca (o fardo de roupas usadas) chega à Guatemala através de um documentário intitulado “ Paca aberta ” . Para o fazer, visitaram alguns mercados de roupa em segunda mão, a fim de explorar quanto daquela roupa era imprópria para consumo.

“Queríamos saber de cada 100 peças de roupa, quantas foram jogadas fora ou quantas tiveram que ser queimadas ou doadas?”, disse Iboy. Depois de analisar alguns pequenos fardos, a equipe do Fashion Revolution Guatemala descobriu que 60% das roupas são descartadas, mas, diferentemente do Chile, na Guatemala não se sabe exatamente o destino final desses resíduos.

“O fast fashion aumentou o fluxo de material no sistema. As marcas de moda produzem quase o dobro de roupas do que antes de 2000”, afirmou um grupo de investigadores liderado por Kirsi Niinimäki, especialista em investigação de moda da Universidade de Aalto, na Finlândia, em um estudo de 2020.

E isto tem consequências para o ambiente, não só pelos recursos naturais que são utilizados e pelos gases que são emitidos para os produzir, mas também para os eliminar.

De acordo com Niinimäki, “a curta vida útil das roupas, juntamente com o aumento do consumo, levou a um aumento de 40 por cento nos resíduos têxteis provenientes de aterros sanitários nos Estados Unidos entre 1999 e 2009, e globalmente. resíduos em todo o mundo.”

A nível individual, é bastante. Não existem dados para a América Latina, mas tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido, uma pessoa deita fora em média 30 quilos de têxteis por ano, dos quais apenas 15 por cento são reciclados.

Venda de roupas usadas na Guatemala, onde não existem tarifas ou restrições para este tipo de mercadoria. Crédito da imagem: J. Stephen Conn/Flickr .

Um problema global que afeta a América Latina

De acordo com a Base de Dados de Estatísticas do Comércio de Mercadorias das Nações Unidas ( UN Comtrade), o mercado global de vestuário em segunda mão cresceu sete vezes nas últimas três décadas. O Paquistão, a Malásia, o Quénia e a Índia são os países em desenvolvimento que importam volumes crescentes de têxteis usados ​​de baixo valor da Europa e dos Estados Unidos.

Na América Latina, Chile e Guatemala são os dois maiores importadores porque são praticamente os únicos da região que não cobram tarifas ou têm restrições de quantidade para a entrada de roupas.

Isto fez com que se tornassem “paraísos” para roupas usadas de má qualidade porque as recebem, mas não têm forma (adequada) de se livrar delas.

Para Roa, a situação é absurda: “Estamos saturando os nossos aterros com resíduos que nem geramos, ou seja, já temos uma crise de gestão de resíduos e ainda por cima estamos a colocar resíduos de outros locais”.

Chile e Guatemala são os países latino-americanos que mais importam roupas em segunda mão. Fonte: Base de Dados de Estatísticas do Comércio de Mercadorias das Nações Unidas (UN Comtrade).

Embora o Chile seja o país com o problema de resíduos têxteis mais visível, outros países da América Central começaram a registar um crescimento substancial no mercado de vestuário em segunda mão e, consequentemente, um aumento na quantidade de vestuário de baixo valor no mercado. ser descartado.

Um relatório elaborado pela empresa Garson & Shaw, fornecedora global de roupas usadas no atacado, informou que nos últimos dez anos, até 2021, “o valor das importações de roupas usadas para os quatro países [Nicarágua, Guatemala, Honduras e El Salvador] Salvador] cresceu US$ 274 milhões, com a Nicarágua experimentando um crescimento de quase 280 por cento durante o período.”

A empresa estima – e comemora – que, até 2040, o setor de roupas usadas apoiará mais de 3 milhões de empregos nestes quatro países.

Eduardo Iboy testemunha que as roupas de segunda mão fizeram crescer o mercado de trabalho e económico na última década na Guatemala, mas isso, diz ele, foi à custa da chegada excessiva de roupas que acabam por ser lixo.

“Temos dados aproximados: na Cidade da Guatemala existem 100 fardos, e cada um importa cerca de seis contêineres por semana, sem contar todos os 300 municípios do país que importam fardos todos os meses. A quantidade de roupas que chega ao país é exagerada; Na verdade, não chega, volta, porque a maior parte é feita aqui, mas é exportada e usada em outros lugares”, disse ele ao SciDev.Net.

Iboy identifica que as pessoas consomem cada vez mais roupas de segunda mão. “As pessoas na Guatemala estão pegando os fardos como se fosse fast fashion . Todo fim de semana eles vão comprar roupas que acabam usando uma ou duas vezes e, a partir daí, jogam fora. É o mesmo modelo do fast fashion , só que agora é mais econômico para o bolso dos guatemaltecos”, comentou.

Queimar como forma de eliminar roupas

No Chile é proibido descartar no meio ambiente tecidos ou roupas usadas, por isso a solução mais fácil para eliminá-los é deixá-los nos locais mais afastados das cidades, como o deserto, e depois queimá-los.

Não existem dados sobre os efeitos ambientais ou de saúde que este problema gera; Não há especialistas que recolham amostras ou relatem como estes incêndios estão a danificar o solo ou o ar, mas todos os que lá estiveram sabem que queimar têxteis não é inofensivo.

“Além de ser poluição por deixar roupas lá, essas roupas chegam com aditivos para controle de pragas que se misturam ao ar e à neblina que é comum lá [no Atacama]. Essas substâncias se infiltram e começam a escorrer para o solo”, diz o engenheiro Franklin Zepeda, hoje fundador de uma empresa de reciclagem têxtil.

Zepeda é um dos primeiros visitantes a ver as montanhas de roupas descartadas que cobriram parte do Deserto do Atacama em 2012.

“Eu estava de moto, em uma área conhecida como El Paso de la Mula. Lá encontrei um novo planeta: o planeta das roupas. Estima-se que naquela época havia 200 mil toneladas de roupas”, disse Zepeda ao SciDev.Net .

Em junho de 2022, depois que a notícia do imenso aterro chegou à mídia internacional, ocorreu um incêndio que deixou milhares de pedaços de tecido carbonizados enterrados no subsolo e uma nuvem de fumaça tóxica que ficou no ar durante uma semana.

Mas o deserto nunca deixou de ser um depósito de lixo, apenas se transformou em dezenas de aterros ilegais em novas áreas do deserto chileno perto da comunidade de Alto Hospicio, comuna da província de Iquique, caracterizada pela pobreza, falta de serviços e marginalização .

“Observamos que caminhões com roupas chegam todos os dias em diversos pontos do Alto Hospicio. É muito complicado acompanhar e determinar quantas peças de roupa e de que tipo chegam, porque há toneladas de têxteis”, diz Barria.

Roupas usadas se acumulam até nas ruas. Foto: Cortesia de Franklin Zepeda para SciDev.Net

O que se sabe é que incêndios em roupas acontecem o tempo todo, principalmente à noite. “As cremações e a fumaça podem ser vistas desde a comuna de Alto Hospicio, e às vezes desde a cidade de Iquique”, continua.

Barria diz que há moradores de rua que moram perto dos aterros e são eles que resgatam algumas roupas e depois incendeiam o que não lhes serve, mas o mesmo acontece com quem leva as roupas em caminhões desde o porto de Iquique.

“As roupas estão sendo incineradas no deserto da forma mais rústica, que é ao ar livre. Montanhas de roupas hoje são esporádicas porque tecnicamente são formadas, mas são incineradas imediatamente”, diz Roa.

O que mais dificulta o descarte das roupas, principalmente as produzidas no modelo fast fashion, tem a ver com os materiais com que são confeccionadas: fibras sintéticas como poliéster, naylon, acrílico e elastano que são feitas a partir de combustíveis fósseis e levar décadas para se degradar .

Muitas das roupas descartadas são feitas de materiais de difícil descarte, como o poliéster. Crédito: Cortesia de Franklin Zepeda para SciDev.Net

Os danos ambientais inexplorados

O relatório da ECE e da CEPAL deste ano salienta que, quando incineradas, estas fibras podem emitir gases nocivos. “As emissões provenientes da incineração de têxteis incluem metais pesados, gases ácidos, partículas e dioxinas, que são prejudiciais à saúde humana e contribuem para vários tipos de cancro, defeitos congénitos, doenças pulmonares e respiratórias, acidentes vasculares cerebrais e doenças cardiovasculares, entre outras”.

“Eles também prejudicam o meio ambiente ao liberar microfibras ( microplásticos ), lixiviar produtos químicos tóxicos no solo e nas águas subterrâneas, além de liberar metano na atmosfera”, continua.

Foi assim que Bastian Barria viu as coisas. “O vento e a erosão desgastam esses resíduos, liberando micropartículas de plástico que se dispersam no ar e no deserto, afetando até a fauna nativa”, afirma.

“Em Alto Hospicio, por exemplo, foram observadas espécies de corujas vivendo em microjardins têxteis, o que mostra o grave impacto dessa contaminação nos ecossistemas locais.”

Parte do problema é que muitas das peças de vestuário fabricadas atualmente são feitas quase inteiramente de plástico. O mais comum é o poliéster, um polímero de tereftalato de polietileno, comumente conhecido como PET.

Segundo um estudo de investigadores australianos, na sua forma mais simples este PET “é espesso, rígido e ligeiramente transparente”, pelo que para o tornar flexível, macio e leve para que possa ser utilizado na confecção de roupas “são adicionados outros aditivos. “plásticos ou monômeros em vários estágios do processo de produção”, tornando ainda mais difícil sua remoção.

Fotografia de microscópio eletrônico de poliéster. Crédito da imagem: Pschemp/Wikimedia Commons , licenciado sob Creative Commons CC BY-SA 3.0 Deed .

Um dos problemas adicionais do poliéster no vestuário é que nem os consumidores nem as autoridades aduaneiras o veem como plástico, portanto, as roupas feitas com este material que são descartadas escapam às regras que regulam o movimento transfronteiriço de resíduos , como a Convenção de Basileia.

“Estamos pagando quantias ridículas para comprar uma peça de roupa que é basicamente poliéster, é plástico”, diz Matías Roa. “Se fizéssemos uma leitura rigorosa do que diz a Convenção de Basileia , o poliéster não deveria ser comercializado porque o poliéster é plástico e o plástico é lixo.”

Na verdade, em 2019, os 170 países que fazem parte da Convenção de Basileia concordaram por consenso em chamar uma nova lista de resíduos (conhecida como Y48) de Resíduos Plásticos, muitos deles plásticos misturados com outros materiais difíceis de reciclar, com o objetivo de evitar descargas totais ou parciais nos países como resultado de movimentos transfronteiriços.

“A maioria dos resíduos têxteis misturados contendo têxteis sintéticos devem ser considerados Y48” e “não fazê-lo seria contrário às razões científicas e técnicas (…) relativas a outros plásticos”, escreveu Jim Puckett, diretor executivo da Basel Action Network (BAN). uma organização focada na justiça ambiental, numa recomendação ao governo chileno que publicou em junho deste ano.

“O Chile deveria exigir, no mínimo, que todas as importações de resíduos têxteis contendo têxteis plásticos estivessem sujeitas ao procedimento PIC para importações.”

Jim Puckett, CEO da Basel Action Network (BAN)

A regra é clara, o desafio é que os países a cumpram. Portanto, escreveu Puckett, “o Chile deveria exigir, no mínimo, que todas as importações de resíduos têxteis contendo têxteis plásticos estivessem sujeitas ao procedimento de importação PIC”. Isto significa que o vestuário é considerado uma substância química perigosa e só pode ser exportado com o consentimento expresso do país receptor.

Toda solução envolve consumo

Embora a vida do fast fashion não pareça estar a acabar, os efeitos que os resíduos têxteis estão a produzir em alguns países são sinais de que deve haver um limite. Alguns acreditam que deveria ser um limite às importações, outros, à produção.

Mas todos concordam que, enquanto não houver diminuição do consumo de fast fashion , os fluxos de roupa em segunda mão continuarão a aumentar, com consequências nefastas para o ambiente e para a saúde de quem vive nos países em desenvolvimento que o permitem.

“A solução não é proibir a entrada dessas roupas, porque há um impacto econômico e há muitas famílias que vivem da venda de roupas usadas, mas regular, para que não entre tanto lixo”, diz Franklin. Zepeda.

Sandoval, por sua formação como antropólogo, concorda que as roupas de segunda mão não são o problema. Este setor “é muito importante em termos sociais e económicos, sobretudo para a economia informal dos países (…) O problema é o fast fashion e a lógica do consumo e do desperdício, pessoas que dizem: se compro roupa barata, mas visto uma vez e eu jogo fora, não acontece nada porque me custou muito barato.”

Para Roa, “o grande passo é regulamentar a questão do plástico e das fibras para evitar que tenhamos tantas roupas de poliéster; “Precisamos que as roupas sejam feitas de algodão, cânhamo, fibras que possam ser recicladas e que não agridam o meio ambiente”.

“A solução é aprender a comprar e cuidar das roupas que temos”, diz Iboy. Mas também por políticas de Estado que permitam “ter infraestruturas para o correto tratamento e eliminação dos resíduos têxteis nos nossos países”.

“Um aspecto fundamental que não podemos ignorar é a reparação às comunidades afetadas há décadas pelos impactos socioambientais derivados da queima de têxteis em Alto Hospicio”, alerta Barria.

“Devemos mitigar os danos acumulados e melhorar a qualidade de vida daqueles que sofreram as consequências destas práticas poluentes. A educação ambiental , com foco na justiça ambiental, é fundamental para caminharmos em direção a uma sociedade mais sustentável e equitativa”, finaliza.

Todos concordam que não há solução se não começarmos pelo óbvio: temos que parar de comprar roupas (novas ou usadas) que não precisamos.


Fonte: SciDev.Net

A luta pelo fim da jornada 6X1 e a solução para que não seja capturada pela direita

escala 6X1

Coube à deputada Erika Hilton do PSOL/SP propor uma emenda à Constituição (PEC) que visa acabar com escalas em que se permite trabalhar por seis dias seguidos para folgar um.  A justeza dessa pauta para todos os trabalhadores brasileiros deveria ter vindo muito antes e de algum tipo de movimento organizado de sindicatos e partidos de esquerda, mas não veio.

As razões para essa demora estão localizadas na crescente adaptação de boa parte dos sindicatos e dos partidos de esquerda institucionais à agenda social liberal que vem sendo executada desde 2003 pelos governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores (PT).  Essa adaptação à agenda social liberal explica grandes retrocessos ocorridos nos últimos 20 anos, a começar pela horrorosa reforma da previdência dos servidores públicos que foi realizada no governo Lula I.

Agora que a PEC proposta por Erika Hilton “decolou” e colocou tanto a esquerda como a direita na posição desconfortável de ter que se posicionar sobre uma questão que deveria ser fácil de resolver que é a escala de trabalho dos trabalhadores brasileiros, tem gente querendo disseminar o medo dentre quem vem apoiando a aprovação da PEC de Erika Hilton. 

Um dos argumentos é que a pauta da redução do número máximo de dias de trabalho serviria para que surja algo parecido com o que ocorreu em junho de 2013 quando a pauta da redução das tarifas foi capturada pela direita para colocar em xeque o governo de Dilma Rouseff. 

Pois bem, como acompanhei aquele processo e participei de debates com jovens que foram mobilizados pela pauta, quero lembrar que foi o alinhamento do PT, especialmente na capital paulista e com os partidos de direita, para sufocar aquele movimento, que deu gás para quem queria sequestrar uma pauta que era justa e que permanece sem ser resolvida até hoje.

Assim, se os sindicatos e partidos da esquerda institucional não querem uma repetição do que aconteceu após as jornadas de junho de 2013, a solução é simples. Basta sair da posição de expectadores da luta de classes para a condição de líderes da luta pela redução da jornada de trabalho no Brasil.

Amazônia Central perdeu 8% de cobertura de água nos últimos dois meses de 2023 em relação à média mensal

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Redução na cobertura da água traz dificuldade de acesso a alimentos e água potável na Amazônia. Na foto, Lago Tefé na seca de 2023. Foto: Ayan Fleischmann/Acervo Pesquisadores

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A região central da Amazônia enfrentou uma redução histórica na área de águas abertas entre 2023 e 2024. Segundo um estudo publicado na última quarta-feira (13/11) na revista “Environmental Research Letters”, a cobertura hídrica da região diminuiu 8% nos últimos dois meses de 2023 em relação à média mensal. O estudo, conduzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em parceria com a instituições como a Universidade de Brasília (UnB), o Institut de Recherche pour le Développement (IRD), da França e a Universidade Tecnológica do Uruguai, alerta para um cenário crítico para 2024 e reforça a necessidade de medidas urgentes de mitigação.

O artigo alerta para uma estiagem ainda mais extrema em 2024. Os dados de outubro de 2024 já mostram uma diminuição de cerca de 18% na área de lagos maiores que 10 hectares em relação ao mesmo período do ano anterior. Setembro de 2023 registrou 57.624 km² de águas abertas na Amazônia Central, enquanto o mesmo mês de 2024 contabilizou apenas 51.775 km², uma diferença de quase 6 mil km².

Para investigar os efeitos da seca do último ano sobre a extensão das águas abertas na Amazônia, incluindo reservatórios, rios e áreas alagadas, a equipe utilizou dados de sensoriamento remoto captados por Radares de Abertura Sintética, ou SAR. Esses sensores coletam informações sob diferentes condições climáticas e mesmo na presença de nuvens, fornecendo retratos detalhados da região a cada 12 dias. Os pesquisadores analisaram mais de 1.500 imagens que abrangem o período entre 2017 a 2024 e observaram como as mudanças na cobertura de água se distribuíram e afetaram a área.

Algumas áreas experimentaram quedas ainda mais extremas, como o Rio Negro, que alcançou seu nível mais baixo em 120 anos. “A estiagem provém de uma combinação de fatores”, explica Daniel Maciel, autor do estudo. “Houve um aumento extremo de temperatura. Em alguns lagos, o calor superou os 40 graus Celsius. Isso, somado ao aumento do desmatamento e dos incêndios florestais, contribui para intensificar e prolongar a época de seca”, argumenta o pesquisador. Novembro e dezembro de 2023 registraram os menores valores da cobertura de água desde o início da coleta de informações, em 2017, e lagos isolados tiveram reduções de até 80% em comparação com a média geral da estação seca.

A redução da água disponível afeta gravemente a biodiversidade e a subsistência de mais de 30 milhões de pessoas na região amazônica. “A estiagem severa resulta em uma diminuição no acesso a alimentos, educação, remédios, transporte e água potável”, destaca Maciel. “Podemos ter uma mortalidade maior de peixes, a principal fonte de proteína animal nas comunidades mais remotas, e a seca também afeta a agricultura familiar, com a dificuldade de cultivar até a mandioca, cuja farinha é a base da alimentação de muitas pessoas”, continua o autor. Ele também explica que a diminuição do nível de água aumenta a ressuspensão de sedimentos pela ação do vento, o que pode ocasionar a floração de algas tóxicas.

O pesquisador Ayan Fleischmann, do Instituto Mamirauá, destaca que a seca extrema afeta grande parte da Bacia Amazônica em novembro de 2024, isolando milhares de ribeirinhos e exigindo ajuda humanitária emergencial. “Distribuição de kits de tratamento emergencial de água superficial, por exemplo, tem sido realizada para melhorar o acesso à água potável, mas ações como esta precisam ser alavancadas”, diz o cientista. “Além disso, é fundamental que se invista em medidas preventivas, como acesso permanente à água potável e a melhoria e descentralização de serviços de saúde”, completa Fleischmann.

Segundo Maciel, os resultados demonstram a urgência de medidas assertivas para redução de danos. “A redução do desmatamento, com controle, monitoramento e punição do desmatamento ilegal, o combate a incêndios florestais e o monitoramento em tempo real dessas ocorrências, o uso racional da água e a implementação de estratégias de longo prazo para combater as mudanças climáticas são algumas das ações importantes”, relata o autor. Os planos futuros da equipe incluem entender como a mudança na área alagada afeta a qualidade da água e como isso pode impactar a biodiversidade ao longo dos anos.


Fonte: Agência Bori

Campos na vanguarda do atraso: Wladimir Garotinho sanciona lei que proíbe discussão sobre questões de gênero na rede municipal de educação

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Após viver por 27 anos em Campos dos Goytacazes e ter até título de cidadania, confesso que ainda consigo me surpreender com o nível de conservadorismo que pulula na terra de Benta Pereira.  Vejamos por exemplo o caso da Lei No. 9.532 de 22 de outubro de 2024 que acaba de ser sancionada pelo prefeito Wladimir Garotinho, e que foi publicada na última 5a. feira (13/11) pelo Diário Oficial do Município (ver imagem abaixo).

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Logo no seu caput, a Lei No. 9.532 estabelece que  se “assegura aos pais e responsáveis o direito de vedar a participação de seus filhos ou tutelados em atividades pedagógicas relacionadas à ideologia de gênero nas escolas públicas e privadas localizadas no Município de Campos dos Goytacazes”.

Além de interferir na liberdade de cátedra, o que me parece inconstitucional, a que de fato se refere a possibilidade dada para que país ou responsáveis vedem a participação de seus filhos em “atividades de pedagógicas relacionadas à questão de gênero”?

Isso fica claro no parágrafo único do Artigo 1o. da lei que define ideologia de gênero como abrangendo “aquelas que abordam temas relacionados à identidade de gênero, orientação sexual, diversidade sexual, igualdade de gênero e outros assuntos similares”.

Ainda que alguns pais ou responsáveis possam não aprovar o debate sobre identidade, orientação e diversidade sexual, como é possível que se possa ter uma lei que impeça o debate sobre igualdade de gênero? Se o prefeito ainda não se deu ao trabalho de ler os veículos da mídia campista, é preciso dizer a ele que vivemos em um dos municípios com as mais altas taxas de feminicídio no Brasil, e  talvez da América Latina.

Há que se lembrar, por exemplo, o recente assassinato de Eliana de Lima Tavares, que morreu após ser barbaramente atropelada pelo filho, o estudante de Medicina, Carlos Eduardo Tavares de Aquino Cardoso. Apurações posteriores identificaram que Eliana fora agredida fisicamente pelo filho antes de ser atropelada e morta.

O pior é que sendo professor de jovens adultos há quase 3 décadas, sou testemunha de que vivemos uma época em que em vez de proibir os debates em torno das questões envolvendo a sexualidade humana, o que deveríamos é garantir que nossas escolas sejam espaços onde nossas crianças e jovens possam ter acesso a materiais que orientem e eduquem, em vez de tentar sufocar o processo pedagógico e criminalizar quem queira educar.  

Como corresponsável pela educação de um adolescente, eu sou testemunha de como tem sido importante para ele ter um ambiente escolar onde as questões sobre relações de gênero (já que ideologia de gênero só existe mesmo nos manuais da extrema-direita) podem ser debatidas livremente. É graças à possibilidade de uma educação que aborda essas questões de forma didaticamente responsável, que posso testemunhar o desenvolvimento de um ser humano que já entende suas responsabilidades e limites na relação com as mulheres. Tolher esse tipo de formação, sob quaisquer argumentos que sejam, é um grande desserviço que está sendo cometido contra nossa juventude.

Ao prefeito Wladimir, só posso dizer que ao assinar essa lei, ele deu uma tremenda bola fora. Lamentável!

‘Ilhas de floresta’ permitem recuperar a biodiversidade em monoculturas, aponta estudo na Science

ilhas-de-arvores-800x450Quanto maior a diversidade de espécies plantadas no início do experimento, mais diverso se tornou o ecossistema restaurado. Foto: Gustavo Paterno/Acervo Pesquisadores

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lhas de floresta são uma estratégia eficaz para recuperar parte da biodiversidade em regiões de monocultura. Quanto maiores e mais diversas as ilhas, maior o número de espécies nativas verificadas em meio a plantações de dendê. Publicada na revista “Science” nesta quinta (14), a conclusão parte de experimento em larga escala conduzido por pesquisadores de instituições como a Universidade de Göttingen (Alemanha) e da Universidade de Jambi (Indonésia). Para se ter uma ideia, as áreas com mais de 400 metros quadrados hospedaram 94% das espécies nativas identificadas no estudo.

Quanto maior a diversidade de espécies plantadas no início do experimento, mais diverso se tornou o ecossistema restaurado. Em apenas seis anos, muitas dessas árvores já começaram a frutificar, e algumas superaram 15 metros de altura. As ilhas de árvores com maior diversidade inicial promovem a regeneração de espécies com diferentes estratégias ecológicas para adaptação e sobrevivência às condições ambientais, fortalecendo o ecossistema e criando resiliência às mudanças climáticas.

Os cientistas plantaram 52 ilhas de árvores em uma plantação industrial de dendê na ilha de Sumatra, na Indonésia, utilizando um design experimental para testar os efeitos do tamanho das ilhas e da diversidade inicial nos resultados da restauração. As ilhas foram plantadas com diferentes quantidades de espécies nativas de árvores, variando de nenhuma até seis espécies, em áreas de 25 a 1600 metros quadrados. Após seis anos, o estudo identificou 2.788 novas plantas de 58 espécies e 28 famílias diferentes.

Apesar de os níveis de biodiversidade nas áreas restauradas ainda serem inferiores aos das florestas primárias, cujo valor de conservação é insubstituível, as ilhas de árvores podem catalisar a restauração florestal sem a necessidade de plantio extensivo. As conclusões, argumentam os cientistas, são relevantes ao contexto brasileiro — tanto em áreas onde o cultivo de dendezeiros tem avançado, como no Pará, quanto em diferentes tipos de plantações e culturas agrícolas.

Segundo o brasileiro Gustavo Paterno, pesquisador na Universidade de Göttingen e autor principal do estudo, o Brasil poderia adaptar esse método, utilizando espécies nativas e diferentes composições de ilhas de acordo com as especificidades dos biomas brasileiros. “Por exemplo, a abordagem poderia ser aplicada em plantações de eucalipto, que ocupam grandes áreas na Mata Atlântica, assim como em outras monoculturas importantes, como laranja, café, cana-de-açúcar, e soja”, explica. Para o pesquisador, o principal benefício dessa estratégia é manter parte da biodiversidade nativa que não consegue sobreviver na matriz agrícola, ampliando a capacidade de conservar a biodiversidade nesses ecossistemas.

O método também poderia ser utilizado para acelerar a restauração ecológica de florestas nativas em áreas agrícolas abandonadas, aumentando a diversidade funcional do ecossistema, avalia Paterno. “Essas ilhas funcionam como atratores de biodiversidade; após seu crescimento, as árvores atraem aves e animais frugívoros, que trazem mais sementes e enriquecem a regeneração da vegetação. Com o tempo, essas ilhas podem se expandir e formar uma área florestal contígua, sem a necessidade de plantar árvores em toda a área”, conclui o autor.


Fonte: Agência Bori

Pearl Harbor, Tonelero, 11/9 e o atentado a bomba ao STF: A História como palco de oportunidades para oportunistas

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Por Douglas Barreto da Mata

Não cabem aqui teorias de conspirações.  Alguém já disse que para sustentar grandes teses conspiratórias necessitamos de provas igualmente robustas.  Por óbvio, não as temos. O folclore alega que o governo dos EUA sabia, ou ao menos ignorou sinais de que japoneses atacariam a base no Havaí, em 1941, assim como a administração Bush Jr fez ouvidos moucos para os alertas de ameaça crescente em relação a alvos em solo estadunidense. Tudo isso para que esses governos pudessem justificar as guerras que seguiram, nos séculos XX e XXI.

Como disse antes, ninguém provou tais hipóteses, mas é fato que esses governos aproveitaram tais eventos para consolidar poderosas coesões nacionais, em torno de inimigos comuns.  Estes processos costumam dar poderes inimagináveis aos governantes e suas correntes políticas, e no caso dos EUA, esse empoderamento resulta em mudanças dramáticas em todo mundo. Foi assim no pós 45, e também no pós 11/09/2001.

No Brasil, um evento que teve, talvez, o mesmo peso foi o atentado a Carlos Lacerda, ferrenho opositor de Getúlio Vargas, que balançava no cargo, acossado pela mesma direita golpista de sempre.  A tentativa de um auxiliar de Gregório Fortunato, o anjo negro de Getúlio, matou um major da aeronáutica. O final sabemos, Vargas se matou, adiou o golpe, porém não o evitou, consumado em 64. Na época, Vargas teria dito: “esse tiro me acertou pelas costas”.

Como sempre acontece nesse tipo de situação, a busca por uma narrativa que favoreça a essa ou aquela facção política obscurece uma apuração correta.  Nunca se chega a uma versão mais próxima da verdade.  Dizem que foi o próprio Lacerda que, ao tentar reagir, atingiu o major Vaz. Ao mesmo tempo, a imobilização com gesso em ferimento por disparo de arma de fogo não seria compatível.  Nunca se soube quem estava por trás do atentado. Nenhuma das especulações foi afastada ou confirmada, mas a principal construção prevaleceu: Vargas era o culpado, apesar do inquérito policial militar (uma instância totalmente inadequada) nunca ter concluído nada nessa direção.

Bem, ontem, um atentado a bomba sacudiu Brasília, quando um ex-candidato a vereador pelo PL de uma cidadezinha em Santa Catarina (ninho de nazistas?).  As conexões, as motivações, enfim, a dinâmica, preparação e execução do delito, se foi um ato individual ou de grupo, tudo isso merece investigações equilibradas.  No entanto, o fato é que esse ataque pode levar ao fortalecimento de um estranho consenso em torno do  Supremo Tribunal Federal (STF) e do poder judiciário.

Consenso, aliás, que o presidente Lula tem ajudado a formar desde 8 de janeiro, quando se acovardou de seu papel político de líder de uma nação.  Preferiu terceirizar a tarefa, em nome de uma governabilidade que nunca se sustenta, e cujos cafetões exigem sempre mais para garanti-la.

Repito que esse crime tem que ser rigorosamente escrutinado, e nenhum poder constituído deverá funcionar sob assédio violento.  Muito cuidado é exigido, porque há a tentação permanente de que se aproveite fatos dramáticos para a consecução de objetivos políticos específicos.

O poder judiciário brasileiro já deu, recentemente, provas cabais de promiscuidade com correntes políticas, ao mesmo tempo que esse mesmo poder, aqui citamos o STF, foi incapaz de frear esses movimentos, seja no chamado mensalão, seja na lava jato.  A sedução dos holofotes fez Rosa Weber condenar um réu “porque a literatura permitia, não pelas provas”.  Essa mesma sede de protagonismo levou a Power Point, com suposições e convicções sem suporte probatório. Juízes sem competência julgaram.

Prisões serviram para coagir futuros delatores, cujos relatos eram pré-estabelecidos com advogados obedientes, que fizeram fortunas com esse negócio. A Presidenta Dilma Rousseff foi deposta, o então ex-presidente Lula preso. A luz das câmeras de TV foram tão fortes que transpassaram a venda da deusa Themis.  O curso da história foi alterado. No lugar das reparações devidas, com as devidas responsabilizações, o Brasil passou pano, e varreu tudo para baixo do tapete. Do mesmo jeito que fez com o regime militar, e a anistia, o país ignorou o triste papel desempenhado pelo poder judiciário.

Além de não cobrarmos dos juízes do supremo que, não só permitiram, mas se acumpliciaram aos movimentos golpistas desde 2006, que chegaram ao ápice em 2018, com a eleição de Bolsonaro, vamos dar a esse mesmo poder judiciário a condição de “vítima principal”.

Paradoxalmente, os que investiram contra o STF foram alimentados por eles mesmos.  Pior ainda é considerar que o poder judiciário é o guardião e símbolo do estado de direito e da nossa ideia de democracia.  O risco que corremos com esse atentado de ontem é esse.

Por fim, parece certo que tais explosões atingiram em cheio as pretensões de anistia do ex-presidente e de seu grupo.  A questão central não é se a anistia é juridicamente ou politicamente possível. O grave é que o STF já tenha declarado sua posição sem ter sido provocado para tanto, revelando uma contaminação óbvia de um sentimento perigoso, o direito penal do inimigo.

O inimigo pode ser qualquer um.

Relatório mostra a pegada de carbono gigantesca dos comerciantes suíços de commodities

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Por Manuel Abebe, em colaboração com Robert Bachmann e Adrià Budry Carbó para a Public Eye

Já é bem sabido que as empresas suíças de commodities negociam milhões de toneladas de carvão, petróleo e gás todos os dias. Mas menos se sabe sobre o que elas tentam distrair em seus relatórios de sustentabilidade. Em 2023, as emissões de gases de efeito estufa liberadas por seus produtos vendidos foram 100 vezes maiores do que as emitidas pela Suíça como um todo. Isso é revelado em estimativas feitas pela Public Eye. Mas em vez de alterar seu modelo de negócios de combustíveis fósseis, a Vitol & Co simplesmente começou a vender o suposto antídoto para a crise climática para a qual contribuíram: compensações de carbono.

Todos os anos, geralmente na primavera, os maiores comerciantes de commodities da Suíça passam pelo crivo do escrutínio. Eles produzem seus relatórios de sustentabilidade, cada vez mais grossos, em papel brilhante, enquanto garantem não revelar muito. Afinal, seu negócio principal de fósseis envolve a compra, transporte e venda de carvão, petróleo e gás. Além das histórias de sucesso sobre seus programas educacionais, segurança no emprego ou medidas ambientais, eles têm falado cada vez mais sobre projetos relacionados ao clima por vários anos. Desde o Acordo Climático de Paris, que previa a redução das emissões líquidas de gases de efeito estufa prejudiciais ao clima para zero até 2050, essa questão sociopolítica tem sido um potencial pesadelo de RP para os gurus da comunicação das empresas. 

A Public Eye analisou mais de perto as alegações climáticas desses relatórios em uma tentativa de entender como as cinco maiores empresas suíças de commodities pretendem tornar seu modelo de negócios favorável ao clima. O exercício foi muito esclarecedor. Ao usar eufemismos e frases vazias que soam bem, as corporações Glencore, Gunvor, Mercuria, Trafigura e Vitol ocultam o fato de que seus combustíveis fósseis contribuem significativamente para um dos problemas ambientais mais urgentes. É por isso que fizemos as contas nós mesmos, chegando a um resultado alarmante. Em 2023, os danos climáticos causados ​​por suas commodities excederam os causados ​​pela Suíça como um todo em cerca de cem vezes. Suas metas climáticas autoimpostas e a alternativa proposta, a compensação de carbono, dificilmente resistem aos desafios futuros, tanto em termos de seu conteúdo quanto dos cálculos feitos. 

O último lançamento de combustíveis fósseis?

Nos últimos anos, como resultado da pandemia do coronavírus, guerra e crises, os comerciantes de commodities registraram lucros recordes históricos que tiveram que ser distribuídos. Primeiro, as empresas pagaram bilhões em dividendos e bônus, liquidaram dívidas antigas e pagaram centenas de milhões de dólares em multas por corrupção. Mas suas contas ainda estão abarrotadas de dinheiro, o que teoricamente também forneceria fundos suficientes para a transformação necessária de um modelo de negócio fóssil para um modelo de negócio favorável ao clima. 

Aquisição recente pela Trafigura: refinaria de petróleo em Fos-sur-Mer, França. ©Shutterstock

Na prática, no entanto, quatro das empresas revelaram prioridades diferentes em agosto passado. Por exemplo, o Trafigura Group, sediado em Genebra, adquiriu uma nova refinaria de petróleo no início do mês. Então, a negociadora de petróleo Vitol aumentou consideravelmente as apostas ao assumir uma grande empresa de negociação de carvão. Poucos dias depois, a Glencore anunciou que o carvão continua sendo sua principal área de negócios; mas, mais do que isso, sua aquisição de grandes minas no Canadá sinaliza que o grupo sediado em Zug está se expandindo ainda mais no segmento. Por fim, a Gunvor relatou um novo recorde de negociação de petróleo e a expansão de sua equipe de negociação de petróleo. E tudo isso aconteceu em um mês de verão em que um recorde global de calor foi estabelecido pela décima quinta vez consecutiva .  

Muito pouco dos lucros excedentes acumulados durante anos de crise está sendo canalizado voluntariamente para alternativas genuínas. A política de investimento adotada pela líder da indústria Vitol é indicativa disso. No ano passado, a empresa sediada em Genebra investiu mais de quatro quintos de seu dinheiro na expansão de seus negócios de combustíveis fósseis, com mais de US$ 8 bilhões fluindo apenas para a indústria do petróleo. No curto prazo, a Vitol não pretende se retirar de seus negócios de combustíveis fósseis, como o chefe suíço admitiu recentemente ao diário de negócios suíço francófono “ L’Agefi ”. Não sem transferir diretamente a responsabilidade por isso para agências governamentais, ele proclamou : “Nós, comerciantes, não somos aqueles que fazem a política energética; os governos é que fazem.”

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Emissões indiretas ocultas

Certamente a influência dos comerciantes de commodities suíços no clima não é realmente tão pequena? Seus relatórios de sustentabilidade devem lançar alguma luz sobre quanto dióxido de carbono (CO 2 ) as empresas estão poluindo a atmosfera. Mas a Public Eye achou extremamente difícil, às vezes até impossível, encontrar informações confiáveis ​​e completas sobre as emissões de gases de efeito estufa dos maiores poluidores climáticos da Suíça. O diabo está nos supostos detalhes, as emissões indiretas. 

As emissões diretas ocorrem durante as etapas de produção controladas pela empresa, o que pode significar para comerciantes de commodities quando eles estão operando uma mina de carvão ou refinaria de petróleo. Embora as empresas suíças em questão já tenham uma influência crescente neste estágio da cadeia de valor, esta categoria de emissão é comparativamente pequena para elas. Um fator muito mais importante são suas emissões indiretas na cadeia de valor, chamadas de “Escopo 3” no jargão. Essas emissões ocorrem em vários pontos, por exemplo, durante o voo para o próximo negócio ou ao transportar as commodities negociadas em navios fretados. No entanto, de longe, os gases de efeito estufa mais significativos são produzidos a jusante durante o uso. A razão para isso é que, uma vez que os comerciantes vendem seu petróleo ou gás, ele é sempre queimado por alguém em algum lugar para gerar energia. Essas emissões, portanto, não são um subproduto, mas são uma parte integral e material do modelo de negócios de negociação de commodities. 

Mas em vez de calcular essas emissões indiretas de forma compreensível e ser transparente ao relatá-las, a maioria das empresas recorre à ginástica linguística quando se trata de abordar esse tópico sensível. A Mercuria, por exemplo, simplesmente não vê necessidade de se preocupar com esses números altamente relevantes. O “papel distinto na cadeia de valor, principalmente como intermediário” levou a empresa comercial sediada em Genebra a não relatar suas emissões indiretas de commodities comercializadas. A Vitol, por outro lado, relata apenas uma fração de suas emissões indiretas que ocorrem ao queimar combustíveis de suas próprias instalações de produção. A Glencore tem uma visão semelhante, mas apresenta valores significativamente mais altos devido às suas inúmeras minas de carvão. A Trafigura ousa ser um pouco mais transparente e inclui as emissões indiretas das vendas feitas por suas próprias redes de postos de gasolina. Mas nenhuma dessas empresas declara as emissões indiretas associadas ao uso de todas as commodities comercializadas, de longe o maior segmento de negócios. Apenas os números relatados pela Gunvor parecem mais completos e, portanto, mais confiáveis. 

“Essa prática não apenas oculta o verdadeiro impacto climático dos produtos que comercializam, mas também tira proveito de regras de divulgação voluntária desatualizadas”, diz Frederic Hans, do German NewClimate Institute, esclarecendo o método de cálculo duvidoso e deficiente usado pelas empresas. Seus cálculos são baseados em um padrão com mais de 10 anos e que está desatualizado há muito tempo, o que dá muita margem de manobra em como as emissões indiretas ao longo da cadeia de valor são registradas e calculadas. Sua organização sem fins lucrativos vem investigando os relatórios climáticos de corporações multinacionais há mais de oito anos e o especialista em clima conclui: “Ao excluir essas emissões da fase de uso, os comerciantes de commodities obscurecem a maior parte de sua pegada climática, pois a combustão de combustíveis fósseis é o principal impulsionador das mudanças climáticas globais. Uma mudança em direção a relatórios mais transparentes e cientificamente precisos é urgentemente necessária para que a sociedade, os governos e os investidores possam entender melhor o impacto ambiental dos modelos de negócios dos comerciantes de commodities.”

Hail Creek – uma das 15 minas de carvão operadas pela Glencore na Austrália. ©Panos, Mateus Abade

A verdadeira extensão dos danos climáticos

Dada a falta de precisão das empresas de comercialização de commodities quando se trata de calcular suas emissões indiretas, nós mesmos recorremos à calculadora. Nossas estimativas, baseadas nos volumes de commodities comercializadas, são conservadoras, mas ainda pintam um quadro sombrio. As emissões indiretas produzidas pelos cinco maiores comerciantes de commodities da Suíça somaram mais de 4 bilhões de toneladas de dióxido de carbono no ano passado – somente do carvão, petróleo e gás vendidos. Isso equivale a quase cem vezes todos os gases de efeito estufa emitidos na Suíça. 

Nossos cálculos para a Vitol são mais de 40 vezes maiores do que a pegada climática relatada pela própria gigante do comércio de petróleo. Em 2023, a líder do setor negociou quase um milhão de toneladas de petróleo bruto por dia e cerca de metade desse volume novamente em gás. No total, as emissões indiretas produzidas pelos combustíveis fósseis que negociou no ano passado totalizaram mais de 1,3 bilhão de toneladas de CO 2 . Os gases de efeito estufa liberados pela combustão do petróleo e gás vendidos pela Vitol superaram até mesmo os do Brasil, o país com o sexto maiornível de emissões do mundo .

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Os números relatados pela Trafigura também são cerca de três vezes menores do que nossas estimativas, enquanto os da Glencore são metade menores. A Mercuria, por outro lado, que opta por não relatar nenhuma emissão indireta do comércio de commodities devido ao seu “papel distinto”, relata apenas 4 milhões de toneladas de emissões de CO 2 para o ano inteiro. Em outras palavras, incríveis 120 vezes menores do que nossa estimativa. Confrontada, a Mercuria afirma que segue um padrão de relatório sob o qual o relatório de emissões do Escopo 3 é considerado voluntário. Apenas o relatório climático da Gunvor, que foi fundamentalmente revisado para 2023, chega razoavelmente perto das estimativas conservadoras da Public Eye. Essas estimativas revelam pela primeira vez a verdadeira contribuição feita pelo setor de commodities suíço para a crise climática global, com os danos extraordinários causados ​​por isso afetando principalmente os países de menor renda.

Projetos paliativos e pseudo-soluções

No entanto, os dados de emissões não são o único aspecto dos relatórios climáticos dos comerciantes de commodities que são embelezados e utópicos. Após uma inspeção mais detalhada, você também verá lacunas enormes em quaisquer propostas específicas feitas para melhorar sua pegada de carbono. As abordagens e soluções malfeitas apresentadas não progrediram além dos estágios iniciais e estão, no geral, a quilômetros de distância daquelas medidas de redução de longo alcance que seriam há muito esperadas e necessárias neste (inclusive de uma perspectiva de política climática) setor de alto risco. 

A Glencore, por exemplo, passou cinco anos planejando um projeto na Austrália que pretendia capturar o CO 2 produzido por uma usina elétrica a carvão na chaminé em vez de deixá-lo escapar para a atmosfera. O gás seria então bombeado para as águas subterrâneas locais “ semelhante a um refrigerante ” sem “nenhum impacto”. Mas as autoridades concluíram que o projeto teria causado “mudanças irreversíveis ou de longo prazo na qualidade das águas subterrâneas” e o proibiram. No entanto, mesmo que o projeto piloto tivesse sido aprovado, a empresa sediada em Zug teria que construir mais de 1.400 usinas adicionais como esta para capturar as emissões prejudiciais ao clima atribuíveis às suas atuais instalações de carvão na Austrália. 

Gunvor, Trafigura e Vitol, por outro lado, estão se concentrando em atualizações técnicas de suas enormes frotas oceânicas . Todas essas empresas afirmam que têm uma influência particularmente significativa no setor de transporte. Por exemplo, a Trafigura quer usar motores de menor emissão até 2030, mas apenas em seis de seus 400 navios. Enquanto isso, a Gunvor está apostando na melhoria da limpeza de seus cascos e hélices de navios para obter uma operação mais eficiente em termos de energia, bem como no planejamento de rotas aprimorado. De acordo com suas próprias divulgações, no entanto, as medidas adotadas por ambas as empresas são atualmente insuficientes em termos de atingir até mesmo as reduções mínimas esperadas pela Organização Marítima Internacional para o setor. 

A Mercuria, por outro lado, depende de uma medida que é muito menos complexa do que essas correções tecnológicas: compensações de carbono. Em vez de cortar suas próprias emissões, essa trader está sistematicamente comprando as promessas de medidas climáticas adotadas em outros lugares. Ela afirma que suas operações já são neutras em CO 2 , pelo menos em termos de emissões diretas. Simplesmente “comprar” o crescente problema causado por seus danos climáticos está se tornando uma opção atraente para um número cada vez maior de traders de commodities. A Trafigura, a Gunvor e a Glencore agora também estão planejando comprar compensações, pelo menos a longo prazo, caso seus projetos paliativos não produzam resultados suficientes.

Petroleiro Trafigura, um dos 400 navios do grupo suíço, saindo do porto de Corpus Christi, no Texas. ©Trafigura

Sem alvo – ou longe do alvo

Relatórios climáticos úteis registram marcos claramente definidos indicando quando uma empresa pretende reduzir seus gases de efeito estufa, exatamente quanto e onde. O objetivo é torná-lo suficientemente transparente para analistas e pessoas de fora verificarem se e como o modelo de negócios relevante está em conformidade com a atual estrutura de política climática. Nossa análise revela que ideias e padrões completamente diferentes ainda prevalecem entre os comerciantes de commodities suíços. Isso significa que eles definem suas metas climáticas surpreendentemente baixas. Ou não definem nenhuma, caso em que certamente não podem ser perdidas. Apenas uma das cinco empresas pesquisadas definiu uma meta específica de tempo para reduzir todas as emissões diretas e indiretas. 

A Mercuria pode ter estabelecido para si a meta de “net zero” até 2050. Mas o caminho que seguirá para chegar lá permanece totalmente obscuro – assim como a questão de se o trader quer continuar a perseguir essa reivindicação comprando compensações. No entanto, as emissões indiretas da negociação de commodities não são contabilizadas, aplica-se também aqui para a Mercuria. A Vitol está fazendo o contrário: a maior empresa suíça em faturamento, está estabelecendo para si nada mais do que uma meta parcial até o final de 2024. E como afeta apenas uma parte quase insignificante do negócio, pode até ser alcançada se as emissões totais aumentarem. No entanto, a empresa não faz previsões ou concessões para os anos subsequentes. 

Mas mesmo a única empresa que estabeleceu metas de redução específicas para todas as emissões levanta sérias dúvidas quando você lê seu relatório de sustentabilidade. Palpavelmente, a Glencore foi condenada por seus acionistas a definir metas climáticas mais concretas. A multinacional admite que essas metas “não estão alinhadas” com as reduções no setor de energia que seriam necessárias para atingir a meta de 1,5 grau definida pelo Acordo de Paris. No entanto, a gigante sediada em Zug está tentando colocar essa contradição básica em perspectiva, desacreditando o cenário correspondente apresentado pela Agência Internacional de Energia como “cada vez mais irrealista”. Mas essa não é a única fraqueza do relatório. 

“Estávamos preocupados que a Glencore se baseie em um ano base inflado e deturpado”, contextualiza Naomi Hogan ao telefone. Ela é líder de estratégia da empresa no Australian Centre for Corporate Responsibility e já havia protestado contra a falta de ambição nas metas climáticas do grupo ao apresentar uma resolução em sua Assembleia Geral Anual. De acordo com Hogan, a Glencore está medindo o progresso em relação a uma linha de base que inclui emissões de uma mina colombiana, que mais tarde abandonou. “Medir a partir de uma linha de base inflada significa que um ano de emissões típicas agora parece uma redução, com metas, portanto, mais fáceis para a empresa cumprir.” Hogan diz, acrescentando que “reformular a linha de base é necessário para uma visão mais precisa”. A Glencore mantém, mediante solicitação, que considera o ano base escolhido representativo de seu perfil de produção e emissões. A relutância do grupo em alterar seu cálculo, para Hogan, está deixando os investidores com uma imagem equivocada do progresso. 

A Gunvor também usa essa estratégia. Durante a pandemia do coronavírus, o grupo fechou uma refinaria completamente por motivos econômicos, reduzindo os gases de efeito estufa diretos do comerciante em mais de um terço de uma só vez. A Gunvor ainda está se beneficiando disso porque calcula sua meta climática para 2025 usando a linha de base pré-pandemia de 2019, o que significa que vem atingindo sua meta de redução há anos. Questionada sobre isso, a Gunvor respondeu que, embora novos fechamentos de refinarias reduzissem significativamente suas emissões diretas, ela não consideraria isso um progresso por vários motivos, como potenciais perdas de empregos. Ela também respondeu com uma contrapergunta, ilustrando sua posição sobre a ambição climática: “Se a Gunvor adquirir uma usina elétrica a gás, como fizemos este ano na Espanha, e nosso correspondente aumento de emissões do Escopo 1, seremos acusados ​​de fracasso?” 

A Public Eye avaliou sistematicamente os relatórios climáticos publicados pelas Big Five em termos de dados de emissões, metas climáticas, medidas planejadas e outros aspectos (veja o box). Quando se trata da transparência e adequação das metas e medidas apresentadas, nós as avaliamos como ruins ou muito ruins na maior parte (Tabela 1).

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Até agora, publicar relatórios de sustentabilidade tem sido quase superficial para os comerciantes de commodities. Isso agora está prestes a mudar. Novos requisitos legais estipulam que, a partir de 2024, as empresas afetadas pela contraproposta à Responsible Business Initiative também serão obrigadas a fornecer informações abrangentes sobre questões climáticas pela primeira vez. Também estão preocupadas as emissões indiretas de segmentos comerciais materiais, para o comércio de commodities, especialmente aquelas provenientes do uso de produtos vendidos. Se as grandes lacunas e pontos de interrogação que normalmente marcaram os relatórios anteriores publicados pelos comerciantes a esse respeito são compatíveis com a lei criminal ou podem ser multadas sob essas disposições, em breve terá que ser esclarecido.

Estudo de caso sobre crise climática

Enquanto os comerciantes de commodities continuam a ignorar os verdadeiros custos ambientais de seus lucrativos negócios de carvão, petróleo e gás, os danos causados ​​pelo aquecimento global estão se tornando cada vez mais perceptíveis e mensuráveis. Cada seca, cada inundação e cada onda de calor aumentam a pressão política nacional e internacional sobre os comerciantes de commodities para que acabem com seu modelo de negócios de combustíveis fósseis. Com o objetivo de evitar regulamentações correspondentes e também permanecerem lucrativos, eles estão em uma busca para encontrar novos bens comercializáveis ​​globalmente, de preferência com credenciais verdes. Cobalto, lítio ou hidrogênio vêm à mente hoje em dia. Mas nossos comerciantes sempre inovadores já encontraram um completamente diferente. 

De acordo com seu inventor, as compensações de carbono são uma mercadoria muito estranha “que você não pode ver, cheirar ou sentir”. No passado, os comerciantes suíços provavelmente teriam torcido o nariz para essas propriedades frágeis. Mas hoje em dia, eles parecem apreciar os benefícios oferecidos por uma mercadoria amplamente baseada em papel, que não precisa ser armazenada e transportada com grandes despesas, mas pode simplesmente ser mantida em uma pasta. Tudo isso mantendo uma fachada verde.

Revelações sobre um projeto realizado pela empresa suíça South Pole no Zimbábue em 2023 revelaram a promessa na qual todas as compensações de carbono são baseadas. É possível emitir gases de efeito estufa em um lugar com a consciência tranquila, desde que as florestas sejam preservadas, as energias renováveis ​​sejam promovidas ou novas árvores sejam plantadas em outro lugar. Essas medidas de compensação visam vincular o CO 2 que já foi emitido ou prevenir ou pelo menos reduzir novas emissões. Os resultados dessas medidas são concedidos em créditos que representam uma tonelada economizada de CO 2 que pode ser comprada e aposentada pelos usuários finais para compensar suas emissões de gases de efeito estufa. Tudo isso sem ter que reduzi-las efetivamente. O fato de que os projetos podem ser implementados de forma mais barata em locais diferentes de onde as emissões foram produzidas é o principal pré-requisito para o negócio de compensação climática. 

Negociar créditos de carbono é semelhante a commodities fósseis, não apenas porque eles geralmente vêm de partes do mundo que não os consomem. Os preços de compensação também são extremamente voláteis e podem dobrar ou triplicar em um curto período de tempo. Lucrar com essas oscilações é o principal negócio de todo negociador de commodities. O mercado de créditos de carbono também é envolto em muito sigilo. De acordo com estimativas, quatro em cada cinco negócios de compensação são transacionados fora da bolsa de valores, tornando-os, de fato, completamente secretos. 

No entanto, a principal razão pela qual os comerciantes de commodities suíços estão agora fazendo grandes incursões no mercado de offset é sua crença em seu futuro lucrativo. Um número crescente de países está atribuindo importância vital à promessa oferecida pelos offsets entre a série de medidas políticas contra a crise climática. Essas condições estão definidas para empurrar os preços para cima; o próximo boom de commodities está acenando. Fiel ao lema: quanto mais cedo e maior o investimento, maior o retorno. Esta é provavelmente a lógica que leva os comerciantes de commodities ao mercado de offset, em vez de preocupações com o clima ou a imagem da empresa. 

Fogões para o clima

“Você realmente não sabe que tipo de intermediários estão envolvidos, quantos estão envolvidos, que tipo de dinheiro eles estão pegando. Continua sendo um grande desafio para nós entender o rastro do dinheiro no comércio de crédito”, conta Trishant Dev do Centro de Ciência e Meio Ambiente em Nova Déli. Ele produziu um relatório detalhado sobre projetos de compensação na Índia. Este país é um dos maiores produtores mundiais de reduções de emissões creditadas. No entanto, durante sua pesquisa, ele teve problemas para descobrir quais revendedores realmente acabaram com os créditos de carbono. “É como um buraco negro.” 

Em um caso, no entanto, Dev conseguiu identificar o comprador. Ele aponta para um contrato entre uma empresa indiana que desenvolve projetos climáticos e a Vitol. Esta última comprou créditos para 11 milhões de toneladas de CO 2 em abril de 2022. Em troca, a empresa indiana se comprometeu a distribuir 600.000 fogões no subcontinente. As supostas compensações de carbono após cinco anos são equivalentes às emissões causadas por 10 milhões de voos transatlânticos de Zurique para Nova York. Embora não esteja claro de onde exatamente vêm as compensações da Vitol, Dev visitou vários projetos de fogões administrados pela empresa desenvolvedora na Índia central. “Muitas das famílias envolvidas não sabem que os fogões são usados ​​para créditos de carbono. Também vimos os fogões não sendo utilizados pelas famílias”, ele descreve suas observações. 

A suposição de que os fogões são ecologicamente corretos é simples. Em vários países de baixa renda, o cozimento é feito usando um braseiro simples ou em fogo aberto. Como resultado, o carvão queimado para esse propósito emite calor em todas as direções, o que, por um lado, perde energia e, por outro, produz fumaça tóxica e fuligem, representando um grande risco à saúde, especialmente em ambientes fechados. Se uma empresa distribui fogões com eficiência energética, o resultado disso não é apenas menos fumaça, mas também economia de CO 2 . No mercado de compensação, as empresas de desenvolvimento de projetos podem calcular essa redução elas mesmas seguindo padrões estabelecidos e, após contratar um consultor independente para uma auditoria, ter registros de certificados certificando os créditos de carbono correspondentes para revenda.

Uma mulher na Tanzânia cozinhando uma refeição em um fogão de baixo consumo de energia. A Vitol distribuiu 2,1 milhões de fogões na África Subsaariana durante os últimos 20 anos. ©Alamy/Joanna B. Pinneo

“As suposições feitas nesses cálculos e o uso fragmentado dos fogões contribuem para o fato de que as reduções de emissões alcançadas são significativamente superestimadas”, explica Benedict Probst. Junto com pesquisadores da ETH Zurich e 11 outras universidades, Probst, um economista ambiental do Instituto Max Planck em Munique, investigou quantos dos certificados de CO 2 emitidos nos tipos mais comuns de projetos climáticos atendem aos padrões científicos. Os projetos de fogões ficaram entre os piores: apenas 11% dos créditos de carbono emitidos realmente representam emissões reduzidas. 

Apesar dessas descobertas preocupantes, a Vitol, que pré-financiou e conduziu estudos para um dos projetos avaliados criticamente, continua a promover esses projetos controversos em larga escala. E não apenas na Índia, mas também na República Democrática do Congo, Quênia e Tanzânia. A Vitol respondeu à nossa pergunta que, antes de se envolver, “realiza uma diligência significativa e apoia apenas projetos da mais alta qualidade”. O projeto em questão deve em breve ser submetido a uma reavaliação. A empresa sediada em Genebra teve mais de 2,1 milhões de fogões de cozinha distribuídos na África Subsaariana nos últimos 20 anos. Em maio de 2024, o CEO Russell Hardy anunciou que investiria mais US$ 550 milhões na África até 2030, uma parte significativa dos quais seria nesses mesmos projetos de fogões.

Árvores na prancheta

A Trafigura está latindo para outra árvore errada, por assim dizer. Ela só se envolveu com o comércio de carbono em 2021 e, de acordo com a Bloomberg, já se tornou líder do setor em apenas três anos. Sua chave para o sucesso são as “soluções baseadas na natureza”, incluindo o plantio em larga escala de novas florestas. Se ao menos houvesse uma segunda Amazônia para extrair CO 2 do ar, a crise climática seria evitada . Essa suposição ousada fundamenta um dos projetos de compensação que a Trafigura exibe em seus vídeos promocionais. 

No leste da Colômbia, perto do Rio Orinoco, a Trafigura está financiando um projeto chamado “Green Compass”. Milhões de árvores serão plantadas na savana para permitir que uma nova floresta cresça em uma área que cobre 100 quilômetros quadrados. Para garantir que isso comece a funcionar o mais rápido possível, a Trafigura está plantando eucaliptos de rápido crescimento. O que parece uma escolha ousada e proativa pode, no entanto, sair pela culatra rapidamente, porque o eucalipto é considerado uma árvore altamente inflamável e, nos últimos anos, houve uma série de incêndios florestais devastadores na região. Em um período de seca de dois meses no ano passado, o projeto teve que gerenciar cerca de 200 incêndios. A Trafigura diz que “investiu significativamente em medidas rigorosas de gerenciamento de incêndios” e que esses incêndios não tiveram impacto na área plantada. Mas se as árvores realmente sobreviverão aos 30 anos esperados, o que ainda é muito pouco para um projeto climático eficaz, é uma questão completamente em aberto.

Como parte do projeto “Green Compass” na Colômbia, a Trafigura está contando com árvores de eucalipto de rápido crescimento, como as plantadas aqui na região de Quindío. ©Alamy/Alfredo Máiquez.

Mas é precisamente essa questão sobre a durabilidade ou permanência das reduções de emissões que é o cerne da questão para cientistas do clima como Probst. Ele acredita que as compensações podem desempenhar um certo papel na visão de longo prazo. Mas apenas se seus compradores tiverem reduzido anteriormente a maioria de suas próprias emissões, e se esses projetos puderem então armazenar o CO 2 por um longo período. Esse risco é frequentemente subestimado, especialmente em projetos florestais, por exemplo, por causa de incêndios: “Pode muito bem ser que em 10 anos, muitos dos créditos que podem representar reduções de emissões hoje não representem nenhuma redução real.” 

Nenhuma lição aprendida com o escândalo do Pólo Sul

Mas projetos florestais são ainda mais fáceis e menos dispendiosos do que plantar árvores: prometem protegê-las ou pelo menos cortá-las menos rapidamente. Nesses tipos de projetos, os desenvolvedores modelam quanta floresta pode ser perdida no futuro devido a desmatamento ou incêndios em uma região. Se o nível real de desmatamento for menor do que o assumido pelos desenvolvedores do projeto, créditos de carbono são criados. Cerca de um quarto de todos os créditos voluntários de carbono no mundo, ou seja, cobrindo mais de 460 milhões de toneladas, vêm de tais projetos, que são chamados em termos técnicos de REDD+ (Redução de emissões por desmatamento e degradação florestal), de acordo com um banco de dados administrado pela Universidade de Berkeley nos Estados Unidos. 

Grande parte disso é pouco mais do que ar quente, mas muito lucrativo, porque os gerentes de projeto frequentemente superestimam quanta floresta será perdida: por exemplo, ao recorrer à experiência histórica em áreas comparáveis ​​que preveem uma perda perigosamente alta de floresta na região do projeto. Se esse cenário sombrio não acontecer, mais créditos de carbono são criados do que seria justificado. A discrepância em seus próprios cálculos pode compensar para os desenvolvedores do projeto, pois eles receberão mais compensações para venda. No escândalo em torno do projeto do Polo Sul, o canal investigativo Follow the Money também relatou essas discrepâncias. 

Um estudo conduzido pela Universidade de Amsterdã examinou quão sistematicamente os efeitos compensatórios foram superestimados para 26 dos maiores projetos REDD+. Eles levaram em conta não apenas o desmatamento assumido, mas também o desmatamento como realmente observado. Eles concluíram que, na realidade, os projetos florestais só conseguiram atender a 7% dos efeitos compensatórios atribuídos a eles. 

A Mercuria anunciou que pretende investir meio bilhão de dólares americanos em “soluções climáticas” até 2030. Apesar de todas as críticas científicas, a negociadora de petróleo investe uma proporção significativa disso em tais projetos de proteção florestal. No Brasil, por exemplo, a empresa garantiu os direitos exclusivos de compra dos créditos emitidos pela proteção da floresta tropical no estado do Tocantins. Se o desmatamento for contido lá, mais de 200 milhões de toneladas de gases de efeito estufa acabarão sendo compensadas em uma área do tamanho do Reino Unido. A Mercuria afirma que seus projetos “são desenvolvidos sob programas estabelecidos de compensação de carbono que têm forte governança, padrões técnicos, processos de auditoria de terceiros e processos de revisão regulares”. A empresa também acredita que “soluções baseadas na natureza têm o potencial de fazer uma contribuição significativa para os esforços globais para atingir o zero líquido”. Não apenas porque estão disponíveis hoje, mas também porque “o custo por tonelada é significativamente menor do que algumas das alternativas”. 

Em muitos países, as florestas são controladas por governos nacionais ou regionais. Por exemplo, os direitos de marketing da Mercuria para compensações de carbono dos estoques florestais peruanos em Ucayali e Madre de Dios também vêm dos respectivos governos regionais. Em uma carta de intenções, a trader de commodities já havia declarado em 2021 que queria empreender projetos semelhantes em ou com Gana. Como esses projetos, como muitos dos outros projetos climáticos envolvendo as traders de commodities, ainda não existem, o júri obviamente ainda não decidiu qual será seu impacto efetivo. 

As emissões de CO2 produzidas pelas cinco maiores empresas são apenas a ponta do iceberg do setor de commodities da Suíça, que consiste em mais de 900 empresas. ©Alamy

A Mercuria não depende apenas de agências governamentais para seus projetos climáticos, mas também atua em círculos internacionais de diplomacia climática. A conferência climática COP do ano passado em Dubai contou com a presença de três representantes da empresa, incluindo o chefe da empresa. A Glencore e a Trafigura também estavam na lista de participantes. A Trafigura aproveitou a oportunidade para se reunir com uma delegação governamental do Paraguai, enquanto a Vitol concordou no ano passado com o fundo soberano nigeriano em executar um projeto conjunto para distribuir seus fogões. Como em outros lugares no comércio de commodities, o mesmo parece se aplicar ao carbono. A moeda mais forte ainda mantém bons contatos com líderes políticos. 

Resposta inadequada

O modelo de negócios de combustíveis fósseis dos cinco maiores comerciantes de commodities da Suíça é baseado no comércio de carvão, petróleo e gás e nos danos climáticos associados a ele. Este modelo, que inclui suas emissões indiretas de gases de efeito estufa extraordinariamente grandes, atualmente não tem futuro político ou econômico a longo prazo, com o setor enfrentando uma reviravolta fundamental. Mesmo os relatórios cada vez mais espessos e brilhantes sobre projetos ambientais e sociais não conseguem esconder a urgência da situação. 

Uma resposta é supostamente fornecida por projetos de compensação climática. Mas mesmo que os projetos planejados realmente cumprissem suas promessas honrosas, seu impacto permaneceria completamente inadequado. As reduções de emissões prometidas pelo projeto florestal de 30 anos da Trafigura na Colômbia são negadas pelo volume de petróleo bruto que ela comercializa a cada oito dias. Em um ano, um projeto de fogão administrado pela Vitol na RDC, na melhor das hipóteses, previne os gases de efeito estufa produzidos pelo óleo que a empresa vende em meia hora!  

Além disso, esses projetos não conseguem compensar a natureza fundamentalmente desequilibrada do comércio de commodities. Também neste futuro, regiões com rendas mais baixas ainda devem satisfazer a demanda das regiões mais ricas do mundo, os comerciantes de commodities sempre são os intermediários dispostos. O fato de que as empresas estão confiando em tal abordagem, enquanto continuam a investir bilhões na expansão de combustíveis fósseis, revela a mensagem real contida em seus relatórios climáticos: veja se nos importamos.


Fonte: Public Eye