Fundação Heinrich Böll lança edição atualizada do “Atlas dos Agrotóxicos”

Atlas dos Agrotóxicos: Fatos e dados do uso dessas substâncias na agricultura

atlas 2024

Por Fundação Heinrich Böll 

Nas frutas, nos vegetais, no leite materno, no ar e até mesmo nos solos de territórios protegidos – vestígios de agrotóxicos usados na agricultura podem ser encontrados em toda parte. Os agrotóxicos deterioram a saúde humana, a biodiversidade, a água e o solo, mas isso não é, de jeito algum, novidade. Em 1962, por exemplo, tivemos a publicação do livro mundialmente aclamado Primavera Silenciosa, da bióloga Rachel Carson, que descreveu os efeitos nocivos do uso desses produtos. O trabalho foi inovador para o movimento ambiental e levou à proibição de agrotóxicos altamente tóxicos, como o DDT (diclorodifeniltricloroetano).

Porém, sessenta anos após o lançamento do livro de Carson, os agrotóxicos estão sendo usados no mundo inteiro em quantidades cada vez maiores, mesmo com regulamentações de aprovação mais rígidas – e acordos voluntários e obrigatórios sobre o manuseio desses produtos. O cultivo de plantas geneticamente modificadas como a soja, criadas pelas mesmas corporações que estão produzindo agrotóxicos, tem contribuído para o aumento do uso de herbicidas, principalmente em países ricos em biodiversidade. O mercado global de agrotóxicos é altamente lucrativo. Algumas empresas agroquímicas influentes estão expandindo seu controle sobre o mercado e prosperando com lucros cada vez maiores. Na vanguarda: empresas europeias como Bayer e BASF. A União Europeia (UE) é o maior mercado de exportação de agrotóxicos do mundo, e vem investindo cada vez mais em países do Sul Global. As empresas da região exportam agrotóxicos que são proibidos em seus próprios territórios, devido aos seus efeitos nocivos na saúde humana e no meio ambiente.

O Brasil é um dos países mais importantes para esse mercado, ocupando o pódio dos maiores consumidores e importadores de agrotóxicos. O país permite limites de resíduos em água e alimentos muito superiores aos da UE. Isto possibilita o registro cada vez maior de novos agrotóxicos, com recordes sendo batidos a cada ano, além do crescimento da importância das commodities na economia brasileira, a partir da ampliação da área plantada e da produção de culturas mais dependentes desses produtos. Este processo gera uma série de problemas nacionais relativos ao uso de agrotóxicos, que por sua vez são sui generis, como o crescimento dos registros de conflitos no campo envolvendo a contaminação de comunidades da agricultura familiar ou de povos tradicionais.

Em contrapartida ao consumo cada vez maior desses produtos, multiplicam-se também os movimentos sociais e organizações da sociedade civil que pesquisam e denunciam os impactos dos agrotóxicos, para combater o seu avanço e apresentar alternativas a este modelo, como a agroecologia. Pesquisas recentes indicam um aumento no consumo de alimentos orgânicos entre brasileiros durante os últimos anos, o que mostra que as pessoas estão cada vez mais conscientes em relação à importância do acesso aos alimentos cultivados sem o uso de agrotóxicos. O debate sobre os riscos do consumo de agrotóxicos não cresce apenas em solo brasileiro. O tema tem visibilidade mundial, a partir do avanço de graves A União Europeia é o maior mercado de exportação de agrotóxicos do mundo, e vem investindo cada vez mais em países do Sul Global.”

“Diante do papel central do Brasil no debate sobre os impactos dos agrotóxicos, o escritório da Fundação Heinrich Böll considerou fundamental produzir uma edição brasileira do Atlas dos Agrotóxicos. impactos. A morte massiva de abelhas causada por agrotóxicos à base de fipronil em diferentes partes do planeta e a contaminação de escolas por produtos aplicados via pulverização aérea são dois exemplos que ilustram os riscos do uso dessas substâncias. Assim, diante do papel central do Brasil no debate sobre os impactos dos agrotóxicos, o escritório da Fundação Heinrich Böll considerou fundamental produzir uma edição brasileira do Atlas dos Agrotóxicos, publicado originalmente na Alemanha, em 2022. Este material faz um raio-x sobre a questão dos agrotóxicos no Brasil a partir de um conjunto de artigos traduzidos e outros originais, escritos por autores que são referência na pesquisa do tema no Brasil. Todos os textos apresentam dados e fatos sobre o uso e o impacto dos agrotóxicos na agricultura e na saúde humana.

Desde seu lançamento, o Atlas dos Agrotóxicos já foi adaptado e lançado pelos escritórios das Fundação Heinrich Böll em mais de oito países e cinco línguas. Este movimento contribui com as ações para a costura de acordos internacionais que buscam enfrentar o avanço do uso de agrotóxicos. Na União Europeia, a Estratégia Farm to Fork (do campo ao garfo) foi elaborada para pedir que os Estados-Membros reduzam o uso de agrotóxicos e os riscos associados em 50% até 2030. Em paralelo, organizações internacionais como o Programa Mundial de Alimentos (WFP) e a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO) enfatizam a necessidade da transição para sistemas alimentares mais sustentáveis.

As mudanças climáticas têm se tornado um tema central em qualquer debate sobre políticas e direitos humanos, e a redução de insumos de agrotóxicos na agricultura é um ponto chave dessa discussão. A Fundação Heinrich Böll já publicou uma série de materiais voltados para os impactos sociais e ambientais dos sistemas alimentares, entre elas o Atlas do Agronegócio, o Atlas da Carne e o Atlas dos Insetos. É crucial que alternativas mais sustentáveis sejam ampliadas, trabalhando com a natureza – e não contra ela. Temos que definir o curso agora. A agroecologia e o manejo integrado de pragas (MIP), além da produção de mais pesquisas com biopesticidas, podem ajudar nesse processo.

Para a Fundação Heinrich Böll e muitos parceiros, comer é um ato político. Porque debater as origens dos alimentos e como eles são produzidos é condição fundamental para que todes tenham garantido o direito ao acesso a alimentos saudáveis e de qualidade. Acreditamos que este atlas fornece material que contribui para um debate dinâmico e para uma transformação em nossa forma de produzir e consumir.

Annette von Schönfeld

Diretora do escritório da Fundação Heinrich Böll no Brasil

Marcelo Montenegro

Coordenador de programas e projetos de Justiça Socioambiental

Julia Dolce

Co-Editora do Atlas dos Agrotóxicos


Fonte: Fundação Heinrich Böll

Cientistas precisam de tempo para pensar

Chamadas de vídeo. Mensagens instantâneas. Chamadas de voz. E-mails. Mídias sociais. Smartphones. Tablets. Laptops. Desktops. Mais dispositivos digitais equivalem a menos tempo para se concentrar e pensar

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Por Nature

Os efeitos negativos disso sobre os pesquisadores são abordados pelo cientista da computação Cal Newport em seu último livro, Slow Productivity1. O título do livro desafia a ideia, comum a muitos locais de trabalho, de que a produtividade deve sempre aumentar. Um estudo mostrou que a ciência está se tornando menos disruptiva, embora agora haja mais artigos sendo publicados e bolsas concedidas do que nunca2. Newport, que estuda tecnologia no local de trabalho na Georgetown University em Washington DC, diz que pesquisadores e outros trabalhadores do conhecimento precisam desacelerar e gastar mais tempo pensando, para se concentrar em manter e melhorar a qualidade em seu trabalho.

Newport presta um serviço à comunidade de pesquisa ao destacar uma força de trabalho sobrecarregada. As instituições já deveriam estar acessando a expertise que existe dentro de suas paredes na busca por respostas, mas não estão fazendo isso. Novas tecnologias de comunicação têm enormes benefícios, incluindo acelerar a pesquisa, como foi necessário durante a pandemia da COVID-19. Mas elas também estão espremendo o tempo de pensamento. O livro de Newport nos lembra que há pesquisadores que saberão como ajudar. Tempo de pensar — ​​o tempo necessário para se concentrar sem interrupções sempre foi essencial para o trabalho acadêmico. É essencial para projetar experimentos, compilar dados, avaliar resultados, revisar literatura e, claro, escrever. No entanto, o tempo de pensar é frequentemente subvalorizado; raramente, ou nunca, é quantificado nas práticas de emprego.

Uma maneira de pensar sobre a prática de fazer malabarismos com pesquisa, e-mail e mensagens instantâneas é visualizar alguém trabalhando ao lado de uma caixa de correio física. Imagine abrir e ler cada carta assim que ela chega e começar a redigir uma resposta, mesmo que mais cartas caiam na caixa

— o tempo todo tentando fazer seu trabalho principal. Pesquisadores dizem que suas listas de tarefas tendem a aumentar, em parte porque os colegas podem contatá-los instantaneamente, geralmente por bons motivos. Pesquisadores também frequentemente precisam escolher o que priorizar, o que pode fazer com que se sintam sobrecarregados.

Newport dá sugestões sobre como recuperar o tempo de reflexão, incluindo limitar o número de itens em listas de tarefas e equipes de projeto reservando tempo para concluir tarefas que exigem todos os membros, evitando assim que membros individuais enviem e-mails uns aos outros. Para instituições, Newport recomenda um sistema transparente de gerenciamento de carga de trabalho

— uma maneira de os gerentes verem tudo o que um colega deve fazer — e então ajustar a carga de trabalho se houver mais tarefas do que tempo disponível.

O tempo de reflexão é frequentemente subvalorizado; raramente, se é, quantificado em práticas de emprego.”

Sem dúvida, um bom conselho, isso pode ser mais fácil de implementar em ambientes industriais do que em acadêmicos. Em muitos laboratórios de pesquisa acadêmica, os pesquisadores se reportam a um único pesquisador principal, com pouca estrutura de gestão. Isso ocorre em parte porque é difícil justificar aos financiadores acadêmicos o orçamento para pagar por funções de gestão e administração.

Mas Felicity Mellor, pesquisadora de comunicação científica no Imperial College London, é cética sobre dar aos gerentes uma função no tempo de reflexão. Em muitos casos, os pesquisadores já estão sentindo o peso dos sistemas de monitoramento e avaliação de suas instituições. Mellor argumenta que incluir mais uma caixa em um formulário de avaliação pode não cair bem. Ela também acha que as instituições não aceitarão isso. “Você consegue imaginar a resposta se um cientista preenchesse uma planilha de ponto onde diz ‘oito horas gastas pensando’?” Em última análise, ela diz, criar uma cultura de pesquisa mais favorável precisa de uma mudança muito mais fundamental. Isso sugere uma reformulação ainda mais radical do modelo de financiamento atual para pesquisa acadêmica, como escrevemos no mês passado (veja Nature 630, 793; 2024), juntamente com mudanças em outros aspectos da ciência acadêmica.

Verificação de qualidade

A tese de Newport levanta uma questão muito mais fundamental: qual é o impacto do tempo de concentração perdido na ciência — não apenas na estrutura e no processo da ciência, mas também no conteúdo e na qualidade da pesquisa?

Em 2014, Mellor coliderou um projeto de pesquisa, financiado pelo Conselho de Pesquisa em Artes e Humanidades do Reino Unido, chamado The Silences of Science, publicado como um livro dois anos depois3. Os pesquisadores discutiram essa questão e outras em uma série de workshops, mas o trabalho não continuou após o término da bolsa. Essas explorações precisam ser revividas, mas também precisam incorporar o impacto das tecnologias de inteligência artificial. Essas ferramentas estão sendo implementadas em ritmo acelerado em todo o mundo para automatizar muitas tarefas administrativas de rotina. Os pesquisadores precisam avaliar se essas ferramentas podem liberar mais tempo de pensamento para os pesquisadores; ou se elas podem ter o efeito oposto.

As tecnologias de comunicação certamente evoluirão ainda mais e continuarão distraindo os pesquisadores de seu trabalho. Mais estudos investigando o efeito dessas tecnologias na ciência são necessários urgentemente, assim como estudos sobre como o tempo de pensamento pode ser protegido em um mundo de comunicação instantânea. Esse conhecimento ajudará pesquisadores e líderes institucionais a tomar melhores decisões sobre a implantação das tecnologias — e, esperançosamente, permitirá que os pesquisadores criem aquele espaço e tempo tão importantes para pensar.


Fonte: Nature

Circling the wagon: os muitos amigos da Águas do Paraíba e o esforço para esconder a crise hídrica em Campos

circling

Circle the wagons é uma expressão idiomática da língua inglesa que pode se referir a um grupo de pessoas que se unem por um propósito comum. Historicamente, o termo era usado para descrever uma manobra defensiva que era empregada pelos americanos no século XIX. O termo evoluiu coloquialmente para significar pessoas defendendo umas às outras.

Pois bem, os campistas acabaram de assistir uma demonstração prática do “circle the wagons” com a crise detonada pelo excesso de geosmina na água servida aos campistas pela eterna concessionária “Águas do Paraíba”.  O que se viu de gente apontando o dedo para todos os lados, menos para quem deveria (até pelo preço que cobra) entregar água seguindo padrões máximos de ser “inodora, insípida e incolor”.

Uma olhada pelas páginas dos diversos veículos da mídia corporativa campista pode verificar uma série de manifestações que, ao contrário do que poderia se esperar, se esmeraram em procurar defender a concessionária, mesmo levando em conta o fato de que se o cheiro, o sabor e a cor não tivessem entregue o trabalho mal feito, nunca teríamos descoberto que estavam nos servindo uma solução aquosa contendo, entre outras coisas, geosmina. É importante notar que a geosmina foi a melhor amiga dos campistas, pois pelo cheiro soubemos do que estava acontecendo. Se tivéssemos dependido dos dados postados pelas Águas do Paraíba ou da fiscalização que deveria estar sendo feita pelos órgãos ambientais, teríamos continuado a receber gato por lebre.

O curioso é que até o momento quem deveria ser o maior interessado em fiscalizar a água servida com olhos de lince parece estar mantendo um silêncio típico dos ambientes que hospedam sepulcros. Falo tanto do prefeito de Campos dos Goytacazes, como do presidente da Câmara Municipal de Vereadores. Sempre tão loquazes e agudos na hora de se atacarem, os dois têm mantido uma posição para lá de discreta. Tanto silêncio em um caso tão caro aos campistas (e bota caro nisso quando se trata das tarifas cobradas por serviços duvidosos como os prestados pela concessionária das tarifas exorbitantes) deveria ser bem aproveitado pelos oposicionistas. Aliás, se não for, isso deverá indiciar que a expressão “circle the wagons” inclui também o mundo partidário. Falando nisso, por onde os partidos políticos que nada falaram até agora sobre a crise hídrica em curso? Estão todos tomando água mineral? Parece que sim.

Os destoantes do grande círculo: O MPRJ e o Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf

Uma nota positiva nessa crise que parece interminável foi a ação do Ministério Público do Rio de Janeiro e do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf. Ao primeiro procurar o segundo é tivemos um mínimo de transparência sobre a situação, o que se aprofundou com a visita de uma equipe de promotores às instalações da Águas do Paraíba,

É preciso que se diga que a partir da ação do MPRJ e do LCA/Uenf, possamos ver ações mais contundentes de órgãos como a Agência Nacional de Águas, Ibama, Inea e o Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana saiam da inércia em que se encontram e comecem a fazer o que deles se espera que é olhar de muito perto o que anda fazendo a concessionária, especialmente no que se refere ao tratamento de água e esgotos pelo qual os campistas são cobrados de forma salgada.

Aliás, uma das missões do MPRJ poderá ser investigar o porquê de tanta inércia e ineficácia desses órgãos todos em cumprir a missão básica de garantir que a Águas do Paraíba seja fiscalizada e não defendida em momentos em que a baixa qualidade dos seus serviços fica evidente,.

A Águas do Paraíba e a obrigação de mostrar os dados que realmente importam

Uma das coisas mais trombeteadas pela mídia amiga da Águas do Paraíba é que a empresa publiciza os dados do tratamento que é feito da água que chega na casa dos campistas.  Quem for procurar por esses dados na página da empresa vai notar que não é bem assim, e que só são mostrados dados que são convenientes.

Dados sobre agrotóxicos, micropoluentes emergentes, presença de cianabactérias? Isso nem pensar, como se não fosse obrigação da empresa informar de forma ampla o que é servido na água que chega nas residências, escolas e unidades hospitalares do município.

Aliás, uma boa medida do MPRJ seria exigir que dados mais amplos e completos sejam disponibilizados pela concessionária em sua página. Sem esse mínimo de transparência, não há como se saber o que está, de fato, acontecendo. E eu diria que até pelo que se paga, os campistas merecem ter esse acesso garantido.

Produção científica brasileira cai pelo segundo ano consecutivo

Queda foi de 7,2% em 2023 comparada com 2022, segundo relatório da editora Elsevier e da Agência Bori

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Segundo o documento, os investimentos públicos federais em pesquisa e desenvolvimento no Brasil vêm diminuindo desde 2013 (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Enrico Di Gregorio | Revista Pesquisa FAPESP 

A produção científica no Brasil caiu 7,2% em 2023 comparada a 2022, ano que havia registrado a primeira queda desde 1996. As informações são do relatório da editora científica Elsevier e da Agência Bori divulgado na terça-feira (30/07). É a primeira vez que a produção científica do Brasil, quantificada em 2023 em 69.656 artigos, cai por dois anos seguidos. Outros 34 países sofreram retração no mesmo setor, um aumento de 12 nações em relação ao ano anterior. Enquanto isso, 17 países tiveram alta na produção científica e apenas a Áustria não variou. A redução em massa impactou na produção científica mundial, que concentrou o maior número de países em decréscimo desde 1997. No total, o relatório avaliou 53 países que publicaram mais de 10 mil artigos científicos entre 2022 e 2023.

O Brasil seguia uma tendência de crescimento constante até 2021, quando registrou uma queda que não ocorria desde 1996. Os primeiros sinais dessa tendência apareceram em 2020, quando o ritmo de crescimento desacelerou. “A primeira hipótese para explicar essa queda é a falta de verbas. Sem dinheiro não se faz pesquisa”, diz o cientometrista Estêvão Gamba, cientista de dados da Agência Bori. “A segunda é a pandemia: houve um boom de publicações naquele período e depois veio uma queda.”

Para Dante Cid, vice-presidente de Relações Acadêmicas da Elsevier para a América Latina, a pandemia também teve outros efeitos. “A queda em um grande número de países a partir de 2022 nos leva a considerar que a pandemia pode ter impactado a continuidade de diversos projetos de pesquisa e, portanto, a publicação de seus resultados”, afirma.

Segundo o documento, os investimentos públicos federais em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil vêm diminuindo desde 2013. No caso das instituições estaduais, a redução orçamentária foi registrada desde 2015. Em 2023, a quantidade de dinheiro público destinada para P&D foi 76% do aplicado em 2015. O menor valor foi em 2021, quando só foram investidos 71% do valor de 2015.

O filósofo Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), concorda com o impacto dos cortes. Para ele, o financiamento é o que está por trás da retração. “A ciência precisa de investimento constante, tanto em equipamentos, laboratórios, material de consumo quanto em recursos humanos. Há instituições que carecem de centenas ou até milhares de funcionários”, comenta Janine.

Nesse cenário, o Brasil foi o 14° colocado no ranking mundial de publicações científicas. Entre 2019 e 2023, o país publicou 376.220 artigos. As únicas áreas que registraram crescimento nesse período, contudo, foram as ciências sociais, com aumento de 11,6%, e humanidades, com uma alta de 82% em artigos publicados. De 2022 para 2023, todas as ciências registraram queda na produção. A área com maior diminuição foi ciências médicas, com 10% de retração.

O relatório também avaliou o número de artigos nas instituições de ensino e pesquisa que publicaram mais de mil artigos em 2022. Ao todo, foram 31 universidades e centros de pesquisa analisados, mas somente a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) registrou crescimento de 0,3%.

Das instituições que sofreram queda, as mais afetadas foram as universidades Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, e Federal do Espírito Santo (Ufes). É uma mudança em relação ao ano anterior, quando a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) estavam no fim da lista.

Em São Paulo, as universidades de São Paulo (USP), Estadual de São Paulo (Unesp), Estadual de Campinas (Unicamp) e Federal de São Paulo (Unifesp) figuram todas na lista de queda na produção científica. O cenário chama a atenção pela maior quantidade de verbas destinadas à pesquisa no Estado, por meio da FAPESP.

Para o geneticista Marcio de Castro, diretor científico da Fundação, o impacto da pandemia nas pesquisas é inegável, mas há outros fatores. “Acho que esse decréscimo reflete um cenário maior que afeta principalmente a pós-graduação”, diz ele, que foi pró-reitor de pós-graduação na USP. Castro explica que, nos últimos anos, houve um declínio significativo na relação candidatos-vaga nos programas de mestrado e doutorado em São Paulo. “Precisamos refletir sobre outras causas dessa baixa”, sugere.

Uma das razões é um formato definido por ele como “muito rígido e tradicional” nas pós-graduações, em que os jovens cientistas são formados somente para trabalhar na academia, sem muita abertura para uma formação destinada ao serviço público, empresas, organizações não governamentais e outros meios. “Na USP, dois terços dos jovens que terminam o mestrado não seguem para o doutorado. Vão fazer outras coisas”, explica Castro.

Outros países

No ranking mundial, Taiwan e Etiópia foram os países que tiveram as maiores reduções de produção científica, logo abaixo do Brasil. Em 2022, o país tinha sido o último da lista, enquanto o penúltimo foi a Ucrânia. “São dois anos seguidos no fim da lista”, constata Gamba. “Não podemos olhar para o aumento dos países em decréscimo e achar que é normal o Brasil estar nessa posição”, alerta.

No ano passado, a Ucrânia conseguiu reverter o quadro, apesar de estar em guerra, e ficou em 10° lugar na lista dos que tiveram aumento da produção científica. A lista foi liderada pelos Emirados Árabes Unidos, Iraque e Indonésia, com incremento de 15%. Em 2022, foi encabeçada pela China, seguida por Estados Unidos e Índia – naquele ano, a Índia cresceu 19%, e superou pela primeira vez o Reino Unido na lista anual de acréscimo.

De acordo com Gamba, a subida dos novos líderes também pode ser explicada pela pandemia. Enquanto em algumas nações, como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França e Alemanha, a elevada produção científica no período pré-pandemia teve um boom no período de alta da contaminação e depois uma queda, nos países onde a produção era baixa, a elevação impulsionada pela pandemia se manteve.

Um terceiro fator são os problemas econômicos, como baixo crescimento, alta inflacionária e endividamento externo, que afetam países de todos os continentes. “Não tem como esses problemas deixarem de impactar”, diz Gamba. Apesar do cenário de recessão, as perspectivas são positivas. “Calculamos que, com o distanciamento da pandemia e a redução nos cortes, a situação deva melhorar daqui a dois ou três anos no Brasil.” Isso não significa que não haverá desafios. “Vimos mudanças no orçamento para melhor, mas a carência ainda é muito grande”, finaliza Janine.

No relatório deste ano, “2023: ano de queda na produção científica de 35 países, inclusive o Brasil”, foi utilizada a ferramenta analítica Scival, da Elsevier, para coletar dados da base Scopus, que guarda informações de mais de 85 milhões de publicações editadas por mais de 7 mil editoras científicas no mundo.


Fonte: Agência Fapesp
 

Pescadores artesanais usam aplicativo para monitorar Baía de Guanabara

Tecnologia vai facilitar denúncias de vazamento de petróleo e gás

ahomar app

O aplicativo faz o mapeamento de onde estão os pescadores artesanais da Baía de Guanabara e onde estão ocorrendo violações socioambientais. | Imagem: Reprodução

Por Redação Ciclo Vivo

A tecnologia vai ajudar pescadores artesanais a proteger a Baía da Guanabara, símbolo do Rio de Janeiro e fonte de subsistência para milhares de famílias. Por meio do aplicativo “De Olho na Guanabara”, pescadores de toda a baía terão, ao alcance das mãos, uma forma de denunciar irregularidades ambientais ligadas, sobretudo, à indústria de petróleo e gás na região.

O aplicativo, desenvolvido pela 350.org e pela Associação dos Homens e Mulheres do Mar da Baía de Guanabara (Rede Ahomar), foi lançado na última sexta-feira (26), em um evento na Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, com a presença de lideranças das comunidades pesqueiras e representantes dos governos municipal e estadual e do Ministério Público.

Baía de Guanabara
A Baía de Guanabara é um dos cartões postais do Rio de Janeiro e um ecossistema ameaçado pela poluição. Foto: Lucas Campoi na Unsplash

Dezenas de derrames e irregularidades ambientais ligadas à produção e ao transporte de combustíveis fósseis foram registrados na baía nos últimos anos, de maneira dispersa, pelos pescadores artesanais que circulam pelo local. No entanto, a maioria sequer foi investigada, por questões como a dificuldade em precisar o ponto do vazamento e a ausência de um canal que reúna os vários órgãos que precisam ser informados das ocorrências.

A ideia é que, pelo celular, os pescadores, moradores e ambientalistas tenham uma ferramenta de registro e denúncia dos frequentes impactos ambientais na Baía da Guanabara provocados pelo setor de petróleo e gás na região. Será possível compartilhar com as autoridades competentes fotos e vídeos dos vazamentos, bem como identificar por georreferenciamento o local exato dos derrames e em tempo real.

A denúncia, após verificação da coordenadoria da Rede Ahomar, ficará registrada no mapa e em um passo seguinte, será encaminhada para os órgãos de fiscalização oficiais do governo brasileiro (IBAMA, ICMbio, Marinha, entre outros).

Como denunciar

Desde o lançamento do aplicativo em prol da proteção e preservação da Baía de Guanabara, algumas denúncias já foram aprovadas e podem ser vistas neste mapa – destacadas em laranja. Isso porque cada ponto publicado foi verificado antes de se tornar público.

aplicativo Baía de Guanabara
Imagem: Reprodução

Para aproveitar ao máximo a ferramenta, os pescadores estão recebendo treinamento e acompanhamento do uso do aplicativo pela Rede Ahomar. Para registrar as denúncias, é preciso ser membro das associações de pescadores artesanais da região, se inscrever no site e receber uma senha de acesso. É uma forma de garantir a credibilidade dos registros. Outro ponto importante é que os dados dos denunciantes são protegidos, de forma a impedir que sofram represálias.

Veja como saber mais sobre o projeto De Olho na Guanabara, acompanhar as denúncias e ajudar a propagar as irregularidades, de forma a preservar este importante patrimônio natural. 


Fonte: Ciclo Vivo

Temperaturas na Antártica sobem 10°C acima da média em onda de calor

As temperaturas relatadas no continente no meio do inverno chegam a 28 °C acima das expectativas em alguns dias de julho

degelo polo sulCientistas do clima dizem que os recentes aumentos de temperatura na Antártica confirmam o que os modelos preveem. Fotografia: Anadolu/Getty Images

Por Damien Gayle e Dharna Noor para o “The Guardian”

As temperaturas do solo em grandes áreas das camadas de gelo da Antártica subiram em média 10 °C acima do normal no mês passado, no que foi descrito como uma onda de calor quase recorde.

Enquanto as temperaturas permanecem abaixo de zero na massa terrestre polar, que fica envolta em escuridão nesta época do ano, nas profundezas do inverno do hemisfério sul, as temperaturas atingiram 28°C acima do esperado em alguns dias.

O globo vivenciou 12 meses de calor recorde, com temperaturas excedendo consistentemente o aumento de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, que tem sido apontado como o limite para evitar o pior do colapso climático.

Michael Dukes, diretor de previsão do MetDesk, disse que, embora as altas temperaturas diárias individuais tenham sido surpreendentes, muito mais significativo foi o aumento médio ao longo do mês.

Os modelos dos cientistas do clima há muito preveem que os efeitos mais significativos das mudanças climáticas antropogênicas ocorreriam nas regiões polares, “e este é um ótimo exemplo disso”, disse ele.

“Normalmente, você não pode olhar apenas para um mês para uma tendência climática, mas está bem alinhado com o que os modelos preveem”, Dukes acrescentou. “Na Antártica, geralmente, esse tipo de aquecimento no inverno e continuando nos meses de verão pode levar ao colapso das camadas de gelo.”

Um mapa fornecido mostra dados provisórios de calor sobre a Antártida em julho. Muitas partes do continente estavam 5-10 °C acima da média climática de 1991-2020

Um mapa fornecido mostra dados provisórios de calor sobre a Antártica em julho. Muitas partes do continente estavam 5-10C acima da média climática de 1991-2020. Fotografia: metdesk

“A Antártica como um todo aqueceu junto com o mundo nos últimos 50 anos, e para esse assunto 150 anos, então qualquer onda de calor está começando dessa linha de base elevada”, ele disse. “Mas é seguro dizer que a maioria do pico no último mês foi impulsionada pela onda de calor.”

A onda de calor é a segunda a atingir a região nos últimos dois anos, com a última, em março de 2022, levando a um pico de 39 °C e causando o colapso de uma parte da camada de gelo do tamanho de Roma.

O aumento das temperaturas na Antártica em julho ocorreu após um El Niño particularmente forte, o fenômeno climático que leva ao aquecimento em todo o mundo, e provavelmente também foi um efeito retardado disso, em combinação com o aumento geral nas temperaturas causado pelo colapso climático, disse Dukes.

Cientistas disseram que a causa próxima da onda de calor foi um vórtice polar enfraquecido, uma faixa de ar frio e baixa pressão que gira na estratosfera ao redor de cada polo. A interferência de ondas atmosféricas enfraqueceu o vórtice e levou ao aumento das temperaturas em altitudes elevadas este ano, disse Amy Butler, cientista atmosférica da National Oceanic and Atmospheric Administration, ao Washington Post .

Jamin Greenbaum, geofísico da Instituição Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego, disse que estava “certamente preocupado com o que o futuro reserva para esta região nos próximos anos”.

“A maioria das minhas expedições de campo foram para a Antártica Oriental, onde vi um derretimento crescente ao longo dos anos”, ele disse. “Embora eu esteja, é claro, alarmado ao ver esses relatos do vórtice polar enfraquecido causando a tremenda onda de calor lá, também não estou surpreso, considerando que isso é, infelizmente, um resultado esperado da mudança climática.”

Jonathan Overpeck, um cientista climático da Escola de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Universidade de Michigan, disse no X que a onda de calor foi um “sinal revelador de que as mudanças climáticas estão realmente começando a transformar o planeta”.

Edward Blanchard, um cientista atmosférico da Universidade de Washington, disse ao Post que foi um evento quase recorde. “É provável que ter menos gelo marinho e um Oceano Antártico mais quente ao redor do continente antártico ‘carregue os dados’ para um clima de inverno mais quente sobre a Antártica”, disse Blanchard.

“Desta perspectiva, pode ser um pouco ‘menos surpreendente’ ver grandes ondas de calor na Antártida este ano, em comparação com um ano ‘normal’ com condições médias de gelo marinho.”

Jonathan Wille, pesquisador que estuda ciências climáticas na ETH Zürich, uma universidade pública de pesquisa em Zurique, Suíça, disse que a onda de calor foi atribuída a um “evento de aquecimento estratosférico do sul” com duração de semanas na região.

“Eles são realmente raros na Antártica, então não estava muito claro como isso afetaria as condições de superfície no continente”, ele disse. “Tem sido interessante ver quão disseminados os efeitos têm sido.”

Embora ele tenha dito que “parece haver ondas de calor cada vez mais frequentes no continente”, ele disse que ainda não estava claro o quanto a crise climática foi um fator na criação deste evento em particular.

“Teremos que esperar pelos estudos de atribuição para descobrir”, ele disse. “É um cenário de ‘esperar para ver.” 


Fonte: The Guardian

MPRJ reúne-se com dirigentes da Uenf para tratar das investigações sobre supostas ingerência e manipulação no programa de bolsas em curso de Pós-Graduação

uenf mp 1

Por ASCOM MPRJ 

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), por meio da 1ª Promotoria de Tutela Coletiva do Núcleo Campos dos Goytacazes, com a presença da titular Olívia Venâncio Rebouças, participou, na quarta-feira (31/07), de reunião com a reitora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Rosana Rodrigues, o vice-reitor, Fábio Lopes Olivares, e o advogado Humberto Nobre, assessor jurídico da instituição de ensino superior. O objetivo da reunião foi o de apurar a notícia de ingerência e a manipulação, pelo professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem da Uenf quanto aos critérios para concessão e manutenção de bolsas..

Foi explicitado aos participantes que o Ministério Público, para efetivar uma investigação exitosa, precisa da colaboração da reitoria, até mesmo pelo dever administrativo de coibir atos ilegais praticados no âmbito da instituição. Os representantes da universidade demonstraram a intenção de colaborar com as investigações. Ao final da reunião, o MPRJ recomendou que a Reitoria proceda à análise, sob a sua autonomia universitária e diante dos documentos apresentados, acerca da pertinência de afastamento do investigado das funções de coordenação e chefia durante as investigações.

Foi recomendado ainda que a Uenf elabore documento contendo a listagem dos integrantes e Coordenadores da Comissão Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem; o elenco compilado dos requisitos de concessão de bolsas; a declaração de cumprimento dos termos da Resolução COLAC nº 34/2024 e demais normas de regência impostas pelas agências de fomento; a declaração de ausência de parentesco, afinidade ou amizade íntima com membros da Comissão sob investigação, convocando todos os bolsistas do Programa a assinarem tal documento em até 30 dias corridos a partir do ato convocatório; que, igualmente, sejam os membros da Comissão sob investigação convocados a firmar documento atestando absoluta isenção quanto aos bolsistas contemplados sob suas gestões, em qualquer Programa de Pós-Graduação da Uenf, notadamente se participaram da etapa (classificatória e eliminatória) de entrevista, dado o seu inerente subjetivismo.

Também foi recomendado à Reitoria que, no exercício de sua autonomia, afaste os membros das Comissões Coordenadoras dos Programas de Pós-Graduação da Uenf que apresentem incompatibilidades com o desempenho de tais funções, a exemplo de parentesco ou afinidade com bolsistas; abuso de poder; conduta incompatível com a esperada de um servidor público; falta de urbanidade no trato profissional (ainda que em redes sociais) e desprovimento de lisura na administração de recursos públicos. A Reitoria da Uenf tem o prazo de dez dias para se manifestar quanto às recomendações feitas. As investigações tramitam sob o número ICP 030/24 – MPRJ 2024.00550138 e denúncias podem ser endereçadas ao email protptcocgo@mprj.mp.br.


Fonte: MPRJ

Marina Silva lembra da Venezuela, mas esquece do seu próprio ministério

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Marina da Silva: com força para criticar eleições alheias e fraca demais para mudar o rumo do descalabro ambiental na Amazônia

A ministra do Meio Ambiente Marina Silva foi mais uma das vozes a se somar ao coro dos descontentes com o nível democrático das eleições da Venezuela. O curioso é que Marina Silva não tenha o mesmo nível de desenvoltura para cuidar das condições de trabalho dos agentes do IBAMA e do ICMBio que continuam atuando em condições péssimas, com salários defesados e planos de cargos ultrapassados.

A verdade é que Marina Silva se omite diariamente na luta pelas condições laborais daqueles que estão na linha de frente do combate contra o desmatamento e o garimpo ilegais na Amazônia, sem que esboce um mínimo de crítica ao tratamento que é dispensados aos servidores que estão na prática sob sua responsabilidade.

Sumida”, Marina Silva vira motivo de chacota na web

Aliás, não é preciso dizer que neste exato momento o Brasil passa por uma crise ambiental sem precedentes em função da ocorrência de milhares de focos de incêndio que castigam principalmente o Pantanal e a Amazônia, sem que se ouça qualquer manifestação que se aproxime ao nível de preocupação demonstrado com as eleições venezuelanas.

O fato inescapável é que a Marina Silva de hoje é uma sombra pálida daquela que entrou e saiu intacta durante o segundo governo Lula.  É que a Marina de ontem já teria saído do atual governo, mas a atual não só fica, como tem tempo para dar opinião sobre situações cuja clareza é igual a dos rios tomados pelos garimpos ilegais na Amazônia.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura

agua mole

Por Douglas Barreto da Mata

Podemos acusar a empresa concessionária de fornecimento de água e tratamento de esgoto de Campos dos Goytacazes de muitas coisas, menos de falta de engenhosidade para driblar qualquer subordinação às normas e regulamentos do contrato a qual está vinculada, junto com a municipalidade.  Aliás, se usassem 5% dessa engenhosidade e energia para melhorarem os seus processos administrativos, para cumprimento de suas obrigações, Campos dos Goytacazes estaria no paraíso.

A estratégia dos grupos concessionários, sem exceção, no Brasil e no resto do mundo, e em qualquer atividade econômica, seja conservação de estradas, gestão de rodoviárias, aeroportos, portos, ou, neste caso, seja de águas  esgoto é sempre a mesma.Ignoraram o poder concedente.

Veja o caso da concessão estadual de trens urbanos no Rio. Literalmente  derrubam esgoto in natura na cabeça do poder concedente, e estão na iminência de entregar a concessão de volta, sem os investimentos prometidos.  Cobram tarifas, e pronto, agora, depois de comida a carne, entregam os ossos para o Governo do Estado.

A concessão da BR 101 também não é lá muito diferente, e vez por outra tenta escapar às suas obrigações contratuais, quando ameaça devolver a concessão.

Estes grupos econômicos agem como se fossem donos dos serviços concedidos, e ao mesmo tempo, subtraem as atribuições dos entes legislativos, e subvertem as regras, subordinando-as aos seus interesses negociais. Vencem pelo cansaço, daí o título desse texto.

Prestação de contas da empresa do grupo Águas? Ninguém sabe, ninguém viu?

Outro caso famoso na cidade campista foi o rompimento do dique na Av XV de Novembro. Com a velocidade da luz, construíram a narrativa de que foi a força do leito do rio que levou a contenção.

Aqui, uma outra face dessa estratégia:  O controle da narrativa, facilitado por relações incestuosas com grupos de mídia locais.Como água mole em pedra dura, a mentira repetida também “fura” a pedra da verdade.

O fato é que, depois da apresentação da “certeza” de que foi a cheia do rio a causa do incidente, ninguém mais questionou se poderia ter sido o rompimento da adutora, que passava bem no local.

Nesses últimos dias, a crise hídrica se apresentou, e houve fundada suspeita sobre a qualidade da água fornecida.

A empresa, antes de todos, sem qualquer base científica, correu e desmentiu qualquer possibilidade de contaminação, antes mesmo de que fosse comprovada ou afastada essa circunstância.  Depois disse que poderia ser, depois desdisse, e assim, ficou tudo por isso mesmo.

Por último, a “do carvão ativado”.  Eu não sou engenheiro, nem especialista no assunto, mas me pareceu que aquela mancha de carvão exaurida dos tanques de filtragem deixa algumas dúvidas:

– Se houve aumento do uso do insumo na filtragem, algo errado havia, ou não?

Eu dei uma rápida olhada no pai digital dos burros, o Google, e olhem o que achei:  o carbono é um material extremamente poroso que atrai e retém uma grande variedade de contaminantes prejudiciais à saúde. O carvão ativado consiste em uma esponja porosa sólida e preta. É usado em filtros de água, medicamentos que removem seletivamente toxinas e processos de purificação química.

Uai, se estava tudo certo, sem toxinas, por que colocar carvão ativado até ter que exaurir e jogar o excesso no Rio Paraíba do Sul?  E mais, que coincidência fazer isso quando negavam que havia toxinas, não é?

Enfim, como confiar em uma empresa que não tem transparência para apresentar suas contas aos consumidores e aos órgãos fiscalizadores do contrato? Como acreditar em quem esconde os números que integram o cálculo da tarifa, quando eles nos dizem que a água é boa?

Dizem os antigos, quem faz um cesto, faz cem.

Relatos de uma breve viagem de 1.000 km ou mais por Minas Gerais

casa

No Museu Casa de Guimarães Rosa em Cordisburgo, o escritor que amava cachorros e gatos

Em 14 dias de um misto de recesso e férias na Uenf, tive a oportunidade de viajar por mais de 1.000 km apenas dentro do estado de Minas Gerais, em um trajeto que começou em Lima Duarte, passou por Cordisburgo, Felício dos Santos, Diamantina e Serro. Como geógrafo, afora destacar o desafio que é dirigir nas estradas de Minas Gerais, só posso dizer que quem nunca fez uma viagem desse tipo não tem ideia do que está perdendo (ver imagens abaixo).

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A trajetória que eu cumpri é muito legal porque ao longo do caminho sempre pode se deparar com uma paisagem deslumbrante  que se mistura com um mosaico de vegetações (da Mata Atlântica ao Cerrado), distintas formas de relevo, e uma rica cultura que aparece em uma culinária tão saborosa quanto diversa, e, principalmente, no encontro com pessoas que mostram bem porque Minas Gerais pode ser inesquecível.

É verdade que como um turista interno também pude observar os efeitos da seleção de determinados lugares como pontos de atração turística, o que tende a deslocar os segmentos mais pobres de seus locais tradicionais, e a transformação dos lugares em pontos de espetáculo com o consequente aumento do custo de vida.

Mas essa também foi uma viagem para aprender que existe muita resistência cultural e valorização do conhecimento genuinamente brasileiro, o que ficou evidente nas visitas que fiz ao Museu Casa de Guimarães Rosa em Cordisburgo e ao Museu Casa da Chica da Silva em Diamantina. Nos dois locais foi possível não apenas visualizar a história, mas conversar com jovens e idosos sedentos para compartilhar conhecimentos que iam além da versão pasteurizada que nos é entregue sobre esses dois personagens históricos.

Essa também foi uma viagem para rever amigos de outras viagens e lamentar não se ter tempo para poder usufruir mais tempo da acolhida e da hospitalidade generosa com quem aparece de tempos em tempos para bater um papo apressado.

Obviamente falar de uma viagem por um trecho de Minas Gerais é falar sobre uma culinária que é muito mais diversa do que nos acostumamos com os restaurantes de comida que se diz mineira.  Os sabores distintos servem para mostrar uma riqueza que fica cada vez menos evidente sob o peso de uma cultura pasteurizada para atender as demandas do capitalismo global.  O que dizer de um torresmo feito na hora ou de um pastel de angu com seus diferentes recheios?  Não foi à toa que na maioria dos dias dessa viagem nem percebi a presença de uma rede multinacional de comida ultraprocessada, nem sem senti falta para falar a verdade.

Finalmente, depois disso tudo, apenas uma certeza: voltar pelos mesmos caminhos, ou pelo menos parte deles, é algo para futuras viagens, pois ainda há muito o que se ver, conversas para retomar, e aromas e sabores para apreciar.