As enchentes devastadoras do Brasil atingiram mais duramente a “população negra da periferia”

Os bairros mais pobres de Porto Alegre, muitas vezes mais próximos dos rios e com a pior infraestrutura, sofreram o impacto da crise

sarandi rsHomens olham para uma rua inundada em Sarandi, uma das mais atingidas pelas fortes chuvas em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, em 27 de maio de 2024. Fotografia: Anselmo Cunha/AFP/Getty Images

A esposa e os quatro filhos partiram em busca de abrigo com parentes, mas Ferreira, 51 anos, quis ficar: seu pai havia construído a modesta estrutura térrea e ele morou lá a vida toda.

Pela manhã, porém, a água lamacenta chegava até seu peito e ele sabia que não tinha escolha a não ser fugir.

A casa passou quase um mês sob a água fétida, poluída por esgoto, animais mortos, restos de comida e combustível de milhares de veículos submersos.

pessoa vestindo calça e suéter preto fica no portão em frente à casa com uma pilha de tábuas e itens empilhados em frente ao portão

Marcelo Moreira Ferreira. Fotografia: Fornecida

Quando Ferreira regressou numa manhã recente para começar a limpeza, uma mancha castanha a cerca de 1,8 metros acima das paredes ainda marcava a marca da água alta.

Para ajudar a mascarar o fedor, ele acendeu um incenso. Depois examinou a ruína: tudo o que sua família possuía estava em uma imensa pilha de escombros em frente à casa, esperando para ser recolhido.

“Temo que a água suba novamente, mas voltamos porque é o único lugar que temos”, disse ele.

Ferreira, um homem negro, vive em Sarandi, um dos bairros mais atingidos pelas cheias que mataram 175 pessoas, deslocaram centenas de milhares e deixaram mais de um milhão sem serviços essenciais como electricidade e água potável.

E embora os danos tenham afectado milhões de pessoas, a população negra da região foi a mais atingida: pesquisas recentes mostraram que as áreas onde as águas das cheias atingiram o pico mais alto, se espalharam mais e permaneceram por mais tempo foram aquelas com a maior proporção de residentes afro-brasileiros.

“As pessoas dizem: ‘As enchentes atingiram todo mundo’”, disse o geógrafo Paulo Soares, pesquisador do Observatório das Metrópoles, que participou do estudo. “Mas quando refinamos a pesquisa, vemos que – embora tenha atingido a todos de uma forma ou de outra – atingiu alguns grupos com mais força.

Em Porto Alegre e cidades vizinhas, os bairros mais pobres – muitas vezes mais próximos dos rios e com a pior infraestrutura – foram os mais afetados.

Historicamente, as pessoas se mudaram para bairros como Sarandi, e os vizinhos Farrapos, e Humaitá porque eram mais acessíveis.

“E eram mais baratos porque foram inundados durante a grande cheia de 1941”, disse Soares.

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Em 1941, as enchentes duraram 22 dias e inundaram 15 mil casas em Porto Alegre. O principal rio da cidade, o Guaíba, atingiu 4,76 metros de profundidade.

Esse costumava ser o padrão para inundações extremas, mas em maio deste ano todos os recordes foram quebrados. Mais de 300 mil casas foram inundadas só em Porto Alegre e o Guaíba atingiu 5,35 metros no dia 5 de maio.

Outro estudo recente mostrou que a queima humana de combustíveis fósseis e árvores tornava as inundações pelo menos duas vezes mais prováveis, enquanto as falhas nas infra-estruturas agravavam os danos.

Mais de 420 mil pessoas ainda estão deslocadas e 16 mil vivem em abrigos.

O governo federal do Brasil e o governo do estado do Rio Grande do Sul anunciaram pagamentos de ajuda totalizando cerca de £ 1.000 (US$ 1.273) por família às pessoas afetadas, mas para muitos – incluindo Ferreira – os subsídios são apenas uma gota no oceano.

“Eu trabalho como pintor de paredes. Se eu não trabalhar, não recebo salário e não trabalho há um mês. Estamos sobrevivendo graças às doações. Vou ao quilombo buscar comida.”

“Quilombo” é uma palavra de origem bantu que, durante os 350 anos de escravidão no Brasil, referia-se a comunidades estabelecidas por escravos fugitivos.

Agora a palavra também é usada para grupos comunitários negros tanto no Brasil rural quanto urbano. Hoje, existem cerca de 3.500 quilombos autodeclarados no país, incluindo o Quilombo dos Machado, a cerca de 500 metros da casa de Ferreira, onde a população local se reuniu para distribuir doações às famílias afetadas.

Cerca de 20 voluntários se revezam na distribuição de quatro refeições diárias (café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar), cestas básicas e colchões. As doações vêm de todo o país.

Luiz Rogério Machado, 43 anos, mais conhecido como Jamaika, próximo ao Quilombo dos Machado.Luiz Rogério Machado, 43 anos, mais conhecido como Jamaika, próximo ao Quilombo dos Machado. Fotografia: Fornecida

“Estamos operando 24 horas por dia, 7 dias por semana”, disse o líder quilombo, Luiz Rogério Machado, 43 anos, mais conhecido como Jamaika.

Atendendo cerca de 2.500 pessoas por dia, o centro está em funcionamento desde 2 de maio e não tem planos de fechar tão cedo. “Só quando esse inferno acabar”, disse Jamaika.

Jamaika disse que a história recente já mostrou que a população negra do Brasil muitas vezes sofre o impacto das crises de saúde pública.

“Quando veio a pandemia de Covid, já sabíamos qual população iria morrer… Então, com as enchentes não seria diferente. Sabíamos que a mais afetada seria a população negra da periferia”

Soares, o geógrafo, ressaltou que os cidadãos brancos do Rio Grande do Sul foram afetados e, embora os bairros mais atingidos tenham uma proporção maior de negros, eles ainda são predominantemente brancos. Os bairros mais ricos também foram gravemente afetados, assim como a cidade de maioria branca, Eldorado do Sul.

O pesquisador disse que algumas pessoas ficaram surpresas com os resultados do estudo por um motivo específico – até porque o Rio Grande do Sul é amplamente visto como uma das regiões “mais brancas” do Brasil.

Até o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, disse durante recente visita que não sabia que havia “tantos negros” no estado.

Desde o século XIX, as ondas de imigração alemã e italiana para a região – parte de um projeto governamental para “embranquecer” sua população – tiveram um claro impacto na demografia do Rio Grande do Sul: 78,4% de sua população é branca, segundo dados o censo de 2022 – quase o dobro do valor nacional de 43,5%.

Mas também existem 2,3 milhões de negros – 21% da população do estado, conhecidos como gaúchos.

Os negros gaúchos foram os responsáveis ​​por instituir o que mais tarde ficou conhecido como Dia da Consciência Negra, que este ano será comemorado pela primeira vez como feriado nacional.


Fonte: The Guardian

Tragédia socioambiental no RS: revelando pobres e negros

Ao analisarmos com mais detalhe diversos dados sobre os territórios e as populações atingidas, algumas nuances da realidade se revelam

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Por André Coutinho Augusting e Paulo Roberto Soares para o Nexo Jornal

As enchentes das últimas semanas no Rio Grande do Sul são um doloroso exemplo brasileiro dos eventos extremos e das mudanças climáticas que têm alcançado uma nova magnitude em todo o mundo. Uma grande extensão do estado, incluindo a RMPA (Região Metropolitana de Porto Alegre) e seu entorno, porção do território que concentra a maior parte da população e das atividades econômicas (especialmente industriais e de serviços), foram afetadas.

Todos os gaúchos e gaúchas foram impactados de alguma forma. Alguns perderam suas casas ou seus negócios. Outros ficaram sem abastecimento de água, energia elétrica ou internet. Dificilmente alguma pessoa do estado não foi afetada ou não tenha algum conhecido afetado. Foram tantos os problemas que se torna difícil mensurar de forma objetiva as perdas de cada um. A paralisação e o isolamento rodoviário e aeroviário da capital do estado, Porto Alegre, gerou transtornos na prestação de serviços públicos, especialmente na área de saúde e em diversos serviços estaduais cujos sistemas de informação e dados encontram-se centralizados na capital. Houve perda de conexão aérea com as principais capitais. Enfim, uma situação nunca antes experimentada no estado e no país.

De acordo com o mapa elaborado, as áreas que mais sofreram com as enchentes apresentam uma concentração expressiva de população negra (pretos e pardos), geralmente acima da média dos municípios

No entanto, afirmar que a catástrofe afeta a todos e todas igualmente não é o mais correto. Ao analisarmos com mais detalhe diversos dados sobre os territórios e as populações atingidas, algumas nuances da realidade se revelam. Por isso, nós do Observatório das Metrópoles realizamos alguns cruzamentos de informações disponíveis da população das áreas afetadas diretamente pela inundação e publicamos um conjunto de mapas sobre estes temas.

Inicialmente, ao cruzar o mapa das áreas que inundaram com os dados de renda do Censo Demográfico de 2010 (ainda não há dados disponíveis para o Censo 2022), percebe-se que as regiões atingidas na RMPA concentram principalmente populações de baixa renda. É verdade que, ao contrário de outras enchentes de menor intensidade, dessa vez algumas áreas mais ricas também alagaram, como o bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Mas ainda assim não dá para dizer que todos foram atingidos da mesma forma.

Também comparamos as áreas atingidas pela enchente com a composição étnico-racial dos seus habitantes. Novamente utilizamos os dados do Censo Demográfico de 2010, uma vez que ainda não temos disponíveis os dados por setor censitário do Censo 2022. É importante ressaltar que, para o total de cada município, os dados de 2022 já foram divulgados e mostraram um crescimento significativo da proporção de negros (pretos e pardos segundo a denominação do IBGE) para toda RMPA, como mostram os seguintes municípios: Porto Alegre (de 20,2% em 2010 para 26,0% em 2022), Canoas (14,3% para 21,2%), São Leopoldo (13,7% para 21,2%), Novo Hamburgo (9,3% para 15,2%), Eldorado do Sul (18,0% para 25,4%), Guaíba (16,8% para 22,5%), Alvorada (26,1% para 33,2%). Há, portanto, uma defasagem nos dados de 2010, que são os únicos disponíveis para a análise das diferentes regiões de cada cidade.

De acordo com o mapa elaborado, as áreas que mais sofreram com as enchentes apresentam uma concentração expressiva de população negra (pretos e pardos), geralmente acima da média dos municípios. É o caso de Porto Alegre no Humaitá e Sarandi, embora também haja casos como a Restinga, que possui uma grande população negra mas está localizada longe do Guaíba. Em Canoas o bairro que mais sofreu foi o Mathias Velho, com uma forte presença negra especialmente no seu extremo oeste, próximo ao Rio dos Sinos. Em São Leopoldo, o bairro mais afetado foi o Santos Dumont e em Novo Hamburgo, o bairro Santo Afonso, ambos com maior proporção de população negra nestas cidades. Em Guaíba o bairro mais atingido foi o Santa Rita, que concentra uma grande proporção de população negra e de baixa renda.

Isto quer dizer que “a água escolhe cor” na hora das inundações? Evidentemente que não, quem “escolheu” estes espaços para a população mais pobre e negra foi a sociedade e o modelo socioeconômico historicamente estabelecido no estado e no país.

Os recortes de renda e étnico-racial são importantes (assim como o de gênero), pois eles muitas vezes se sobrepõem (isto está comprovado pelas estatísticas). Os dados gerais da população brasileira e gaúcha apontam que a população negra é a menos favorecida em termos salariais, qualificação profissional e nível de escolaridade, apesar das políticas afirmativas desenvolvidas desde a última década. Portanto, os programas de intervenção e recuperação destes territórios deverão levar em conta as especificidades da população que aí reside, caso queiram atingir resultados satisfatórios.

Também precisamos destacar que, apesar de haver alguns casos, a maioria das áreas atingidas não são de ocupação irregular. Em entrevista ao Jornal Nacional, o prefeito de Porto Alegre afirmou que as pessoas que estão nos abrigos “nunca deveriam morar onde moram”. Entretanto, para ficar em apenas um exemplo, quase 100% dos bairros do chamado Quarto Distrito (antiga região industrial próxima ao centro de Porto Alegre) ficaram debaixo d’água. Essa área tem uma ocupação centenária, presença de moradores de classe média e de classe baixa, e teve sua legislação urbanística recentemente alterada para permitir mais construções e beneficiar o mercado imobiliário. A prefeitura inclusive encomendou um “master plan” visando ampliar atividades e população (de 28 mil para 60 mil habitantes). Como que agora as pessoas “não deveriam estar onde estão”? Talvez a disputa não seja sobre onde deve haver pessoas morando, mas qual a cor e a renda dessas pessoas.

André Coutinho Augustin é economista e pesquisador do Observatório das Metrópoles – Núcleo Porto Alegre.

Paulo Roberto Soares é professor do Departamento de Geografia da UFRGS e pesquisador do Observatório das Metrópoles – Núcleo Porto Alegre.

Os artigos publicados na seção Opinião do Nexo Políticas Públicas não representam as ideias ou opiniões do Nexo e são de responsabilidade exclusiva de seus autores.


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Fonte: Nexo Jornal

Tecnologia de ponta e novos produtos: os avanços do projeto Impacta Bioeconomia

Equipe da Sudene visitou laboratórios que serão utilizados para experimentos e pesquisas de insumos de origem natural típicos da caatinga

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Petrolina (PE) – Quem tem a oportunidade de viajar pelo interior do Nordeste e observar a paisagem típica da caatinga talvez não possa imaginar que este bioma é capaz de sustentar uma cadeia produtiva que envolve alta tecnologia e muita inovação. Os processos envolvidos na produção de medicamentos a partir de insumos típicos deste território foram conferidos de perto por uma equipe da Sudene durante visita técnica realizada ontem (11) à Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). A instituição de ensino superior é parceira da autarquia no Impacta Bioeconomia

Os coordenadores da Sudene Beatriz Lyra e José Farias foram recebidos pelo professor do Colegiado de Farmácia da Univasf, Jackson Guedes. O objetivo do encontro foi demonstrar a infraestrutura que será utilizada para pesquisar produtos fitoterápicos, dermatológicos, cosméticos e de suplemento alimentar a partir do maracujá do mato, do licuri e do umbu.

A equipe esteve presente nos laboratórios do Núcleo de Estudos e Pesquisas de Plantas Medicinais (Neplame) da universidade. Na unidade de Bioquímica, serão realizados os procedimentos de extração e isolamento dos princípios ativos de origem vegetal. Nas instalações do laboratório de Fisiologia, ocorrem experimentos para avaliação da atividade farmacológica das plantas medicinais.

Também foram visitados os laboratórios da Central de Análise de Fármacos, Medicamentos e Alimentos (CAFMA), que possui equipamentos como infravermelho, ultravioleta, cromatografia líquida de alta eficiência e ressonância magnética nuclear (RMN). Este equipamento é o único dessa natureza instalado no interior do Nordeste. “Ele nos ajuda a avaliar a composição química dos extratos para relacioná-la com os princípios ativos que compõem os medicamentos que poderão se originar a partir desta pesquisa”, explicou o professor Jackson Guedes.

Além de fármacos, o Impacta Bioeconomia poderá identificar o potencial de desenvolvimento de itens das indústrias de cosméticos e alimentícia a partir de insumos típicos da caatinga. “A tendência de mercado é retirar da composição dos produtos os sintéticos como sulfatos, conservantes, silicones e incorporar óleos vegetais, que são naturais. Uma das matérias-primas que iremos estudar é o do maracujá”, destacou Guedes. A casca deste fruto pode ser transformada em farinha, que funciona como um suplemento alimentar. Outro insumo a ser pesquisado é o licuri, também conhecido como coco catolé, que pode dar origem a produtos dermatológicos e para higiene dental.

O Impacta Bioeconomia conta com R$ 553 mil em investimentos da Sudene. Além da Univasf, a iniciativa conta com a participação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), através do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Complexo Econômico Industrial da Saúde (iCeis). Para o início do projeto, a rede conta com a parceria das cooperativas Coopercuc (Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá), localizada na Bahia, e a Cooates (Cooperativa de Trabalho Agrícola, Assistência Técnica e Serviços), de Pernambuco.

Governo Lula escorrega pelo campo pantanoso do ultraneoliberalismo e pode trazer Bolsonaro de volta ao poder

lula grevista

De líder à coveiro de greves, essa é a trajetória escolhida por Lula

Aparentemente há no governo Lula uma insistência em ignorar os sinais que brotam em diversas partes do mundo sobre a relação entre a obediência extrema aos canones ultraneoliberais e a as vitórias eleitorais da extrema-direita.   O problema é que ao optar pela cegueira deliberada, o presidente Lula e seu governo estão claramente terraplanando o caminho para a volta de Jair Bolsonaro (ou algum escolhido para substituí-lo em caso de impedimento) ao Palácio do Planalto em 2026.

O governo Lula e, surpreendentemente, o próprio presidente que o comando estão se esmerando em erros absurdos que estão tendo o primor de enfraquecer o apoio político nos segmentos de esquerda da sociedade, enquanto não alteram em nada a rejeição do segmentos de direita.

Exemplos dessa ação desastrosa estão por todos os lados. Uma hora é a tentativa de esmagar políticamente a greve de professores e servidores técnicos das universidades e institutos federais, outra hora é o apoio à exploração do petróleo na Foz do Amazonas, complementado pela decisão de ir adiante com a equivocada pavimentação da BR-319.

Mas para quem acha que a trilha de ações desastradas para por aí, ainda temos a decisão de rebaixar os índices constitucionais de financiamento da saúde e da educação por parte do ministro Fernando Haddad. Essa decisão, pasmemos todos, não foi tentada sequer pelo incrível ministro Paulo Guedes. Aliás, para quem achava que Guedes era o fundo do poço, Haddad veio mostrar que o fundo sempre pode ser bem mais fundo.

Vejo de tempos em tempos críticas ao seria a esquerda brasileira por ser incapaz de fazer frente aos avanços da extrema-direita no congresso nacional. Ora, quando se vê que determinadas propostas passam facilmente não por falta de coordenação entre o que seria a esquerda, mas basicamente porque a articulação do governo opta por acordos diretamente com seus aliados do centrão. Aí, convenhamos, não há como impedir que, por exemplo, o rebaixamento dos índices constitucionais de financiamento da saúde e da educação venha a ser facilmente aprovado em um futuro próximo.

E tudo isso para quê? Obviamente para manter os grandes detentores da dívida pública brasileira, principalmente os grandes bancos e fundos privados, felizes, enquanto o povo trabalhador se afunda nas dificuldades cotidianas.

A saída para este imbróglio passa por se encerrar qualquer ilusão de que Lula e seu terceiro mandato estão sob disputa. A opção de Lula e seu partido é por manter uma rota ajustada ao morimbundo Consenso de Washington.  A saída, como sempre, terá de ser pela esquerda, região onde nem Lula ou o PT se encontram neste momento.

PEC das Praias ameaça ecossistemas que protegem zonas costeiras do aumento do nível do mar

shorelinePEC propõe vender um espaço que está sob risco de desaparecer em função da erosão e da elevação do nível do mar

Por Alexander Turra

A recente discussão da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 03/2022 – a chamada PEC das Praias – no Senado Federal viralizou com a manifestação de políticos, ambientalistas, cientistas e, principalmente, personalidades do mundo das artes e do futebol. Os variados argumentos mais parecem confundir do que explicar o real problema associado à PEC e sua mais controversa intenção, a transferência onerosa de terrenos de marinha já ocupados por cessionários autorizados pela União. Em outras palavras, a privatização de uma área pública com importantes funções sociais e ambientais, como veremos adiante.

De acordo com a Constituição Federal, terrenos de marinha têm uma profundidade de 33 metros, medidos horizontalmente, a partir da linha média de maré máxima. Na prática, tipicamente, os terrenos “de” marinha (e não “da” Marinha) incluem uma porção de praia e uma porção do ambiente sobrejacente, como a planície costeira. A porção de praia equivale à parte de areia mais seca acima da linha da maré alta.

Portanto, as porções de praia dos terrenos de marinha não são e não poderão ser ocupadas e não poderão ter sua titularidade transferida para privados. Por conseguinte, as praias não são objeto direto da PEC.

Por outro lado, na planície costeira há um forte processo de ocupação, pois as áreas defrontantes ao mar são altamente cobiçadas pelo mercado imobiliário. Essa porção dos terrenos de marinha, já concedida a particulares e já ocupada por eles, é que está no foco da PEC.

Mas ao invés da PEC buscar uma solução voltada para o aspecto tributário, como a redução ou eliminação dos impostos cobrados aos ocupantes desses terrenos, ela cria uma situação paradoxal, vendendo um espaço que está sob risco de desaparecer em função dos processos erosivos e da elevação do nível do mar.

Os terrenos de marinha, atualmente, acabam cumprindo essa função, de acomodar os movimentos de elevação do nível do mar e de proteger as ocupações humanas e os ambientes costeiros visando garantir a vitalidade da zona costeira. Agora, com as ocupações humanas, esse movimento tem sido impedido, e o resultado é a intensificação dos processos erosivos que levam à supressão desses ambientes. Curiosamente, a discussão da PEC está voltada para as praias, mas seus efeitos serão tragicamente transpostos para os manguezais. Mas qual o problema de perder as praias e os manguezais?

De uma forma geral, os ecossistemas praiais e de manguezal, importantes componentes da biodiversidade marinha, provêm relevantes benefícios para as pessoas. Dentre eles, temos a proteção da linha de costa de eventos extremos, sustentação da biodiversidade e da produção pesqueira e sequestro e estocagem de carbono, contribuindo para a regulação climática. Além disso, no caso específico das praias, há o suporte a uma variada gama de atividades de lazer e recreação, promovendo benefícios imateriais para a sociedade.

Diante desse cenário, o Congresso Nacional, como ente fiscalizador do Poder Executivo, deveria mudar o foco de sua ação e exigir que as políticas públicas existentes e que estão relacionadas com essa temática sejam implementadas adequadamente.

Mas, em última instância, a PEC é uma oportunidade de falar do oceano e do planeta como um todo, pois o oceano tem um papel transversal na transição para a sustentabilidade. A discussão da PEC nesse momento, no meio da Década do Oceano da ONU (2021-2030) e na iminência de comemorarmos o dia do meio ambiente (05/06) e o dia do oceano (08/06), curiosamente, nos permite reforçar o compromisso com um oceano limpo, saudável, resiliente e próspero para todos, com o qual ela peca em contribuir.

 

Sobre o autor

Alexander Turra é coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados e do Instituto Oceanográfico Universidade de São Paulo


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Fonte: Agência Bori

Desastres no RS: adaptação a mudanças climáticas precisa entrar na pauta das eleições municipais

Rio Guaíba, após forte chuva em Porto Alegre

Menos de 15% dos municípios brasileiros têm planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas

Por André Luiz Cotting e Victor Marchezini

O ano de 2024 é ano de eleições municipais no Brasil. E os desastres são um problema que tem afetado os municípios e suas populações em todas as regiões do país. Desde as últimas eleições, presenciamos inundações nos estados da Bahia em 2021 e no Rio Grande do Sul em 2024, deslizamentos de terra nas cidades de Petrópolis (RJ) em 2022 e de São Sebastião (SP) em 2023, além da seca nos municípios do Amazonas no ano passado.

As perdas de vidas e econômicas em desastres só aumentam, mas menos de 15% dos municípios brasileiros têm planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. No Rio Grande do Sul, essa porcentagem cai para menos de 5% dos municípios. As enchentes que estão atingindo as cidades gaúchas de forma desproporcional agora em maio mostram a necessidade de incluir a gestão de riscos de desastres nos programas de governo para prefeito(a) e nos planos de legislatura para vereador(a) nos municípios brasileiros.

O governo municipal tem uma série de responsabilidades nesse tema, conforme a Lei 12.608/2012, como garantir o pleno funcionamento das defesas civis municipais, que devem atuar em contextos de desastre, fazer o mapeamento das áreas de risco de inundação e deslizamentos para implantar medidas estruturais, como muros de contenção de encostas, e não estruturais, como sistemas de alerta e realizar o zoneamento municipal, que prevê melhorias na infraestrutura urbanas para as áreas de risco, como a drenagem da água das chuvas. Também cabe ao poder público municipal definir onde podem ser construídas moradias para pessoas desabrigadas por desastres.

Essas iniciativas são importantes para a adaptação às mudanças do clima, pois eventos extremos como chuvas intensas e ondas de calor serão cada vez mais frequentes e intensos. Mas outra frente de ação tão importante quanto a adaptação é a mitigação das mudanças do clima. A diminuição das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global, pode reduzir o aumento da temperatura média da Terra a níveis mais seguros para a adaptação.

Municípios podem ter soluções para essa agenda. Algumas sugestões: incentivar o uso do transporte público coletivo por meio de tarifas mais baixas (ou mesmo da gratuidade), criar condições seguras para pedestres e ciclistas para incentivar esse tipo de deslocamento e aproximar áreas de produção de alimentos aos locais de consumo, o que tem potencial de reduzir as emissões de gases de efeito estufa no transporte. O governo municipal também pode investir na ampliação de áreas verdes, como parques, para aumentar a absorção dos gases pela vegetação, o que ajuda também a reduzir os efeitos das ondas de calor, e na promoção da coleta seletiva de resíduos sólidos, diminuindo o volume destinado a aterros sanitários e lixões, que emitem gases de efeito estufa.

A conscientização de eleitores sobre a necessidade e a possibilidade de medidas como essas pode mobilizar candidatas e candidatos às prefeituras e às câmaras municipais a apresentarem propostas para o problema. Afinal, apesar de as mudanças do clima serem um fenômeno global, seus efeitos se manifestam localmente. Portanto, o enfrentamento também deve partir do nível local.

Sobre os autores

André Luiz Cotting é planejador territorial e pós-graduando em Desastres pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), com bolsa de apoio da Fapesp.

Victor Marchezini é sociólogo e pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/ MCTI).


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Fonte: Agência Bori

Principais bancos do mundo (incluindo Itaú Unibanco) fazem “greenwashing” para esconder papel na destruição da Amazônia

Grandes instituições financeiras mundiais concederam bilhões de dólares a empresas de petróleo e gás envolvidas em projetos que estão destruindo as florestas tropicais das Amazônia

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A análise concluiu que, em média, 71% da Amazónia não está efetivamente protegida pelas políticas de gestão de risco dos bancos relativamente às alterações climáticas, à biodiversidade, à cobertura florestal e aos direitos dos povos indígenas. Fotografia: Bram Ebus/The Guardian

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” 

Cinco dos maiores bancos do mundo estão  praticando “lavagem verde”  para esconder o seu papel na destruição da Amazônia, de acordo com um relatório que indica que as suas directrizes ambientais e sociais não conseguem cobrir mais de 70% da floresta tropical.

As instituições teriam fornecido milhares de milhões de dólares em financiamento a empresas de petróleo e gás envolvidas em projetos que estão a afetar a Amazônia, desestabilizando o clima ou afetando as terras e os meios de subsistência dos povos indígenas.

Os bancos afirmam que seguem políticas éticas que ajudam a proteger florestas intactas, pontos críticos de biodiversidade, territórios indígenas e reservas naturais. No entanto, a investigação afirma ter encontrado limitações geográficas e técnicas na sua capacidade de monitorizar e atingir estes objectivos declarados.

O relatório foi produzido pela organização de vigilância Stand.earth e pela Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica ( COICA ). As organizações mapearam a extensão dos compromissos de governança ambiental e social (ESG) de cinco principais financiadores de operadoras de combustíveis fósseis no bioma sul-americano. Esses bancos – Citibank, JPMorgan Chase, Itaú Unibanco, Santander e Bank of America – respondem juntos por mais da metade dos empréstimos a empresas deste setor.

A análise constatou que, em média, 71% da Amazônia não está efetivamente protegida pelas políticas de gestão de risco dos cinco bancos para mudanças climáticas, biodiversidade, cobertura florestal e direitos dos povos indígenas e comunidades locais.

As lacunas variaram significativamente de empresa para empresa. Num extremo do espectro está o JPMorgan Chase, cujas proteções à biodiversidade, dizem os autores do relatório, aplicam-se apenas a sítios do património mundial da Unesco que cobrem apenas 2% da Amazónia e são, em qualquer caso, pouco prováveis ​​de serem considerados para exploração de petróleo e gás. .

Do lado positivo, o estudo elogiou o banco britânico HSBC, que já foi um grande financiador de projectos destrutivos na região, mas não forneceu qualquer financiamento desde que adoptou uma política de exclusão de 100% da Amazônia em Dezembro de 2022.

“Até agora, o HSBC tem cumprido a sua palavra”, disse Angeline Robertson, principal autora do relatório. “Isso mostra que isso pode ser feito e tem sido feito, mesmo por uma empresa que tinha uma grande participação”

JP Morgan e Citigroup lideram financiamento a combustíveis fósseis na  Amazônia. Bradesco e Itaú também estão na lista

Alguns bancos argumentam que desempenham um papel positivo ao encorajar as indústrias extractivas a adoptarem políticas mais responsáveis. No entanto, de acordo com os autores do relatório, embora os acordos de empréstimos bancários envolvam relações de longo prazo e influência potencial, a maior parte do financiamento dos cinco grandes assume a forma de obrigações sindicadas com finalidades corporativas gerais. Estas obrigações, que são uma prática padrão, têm fins amplamente definidos e requerem pouco ou nenhum acompanhamento depois de assinado um acordo. Isto dificulta potencialmente a aplicação de diretrizes de devida diligência em questões ambientais ou sociais específicas.

O banco espanhol Santander – o maior financiador europeu de petróleo e gás na Amazônia e o quarto maior a nível mundial, com quase 1,4 mil milhões de dólares (1,1 mil milhões de libras) em financiamento direto entre 2009 e 2023 – tem uma das mais extensas políticas de exclusão para o petróleo e o gás, abrangendo 16% da Amazônia, mas o relatório indica que 85% de suas transações são na forma de títulos sindicalizados, que carecem de transparência e reduzem a responsabilidade do banco como contribuinte para impactos adversos.

Os autores examinaram 560 transações envolvendo atividades de petróleo e gás por 280 bancos nos últimos 20 anos na Amazônia usando o banco de dados de bancos da Amazônia da Stand , para determinar se estruturas de negócios que contornam exclusões e telas ESG são comuns.

Descobriram que dois bancos norte-americanos, o Citibank e o JPMorgan Chase, disponibilizaram a maior parte do capital – 2,43 mil milhões de dólares e 2,42 mil milhões de dólares, respetivamente – para empresas que operam projetos de petróleo e gás na Amazónia. O JPMorgan Chase retirou-se recentemente da Associação dos Princípios do Equador, que serve como base comum para as instituições gerirem os riscos ambientais e sociais no financiamento de projetos.

O terceiro maior financiador nas últimas duas décadas é o Itaú Unibanco do Brasil, que, afirma o relatório, não tem quaisquer exclusões ou telas que se apliquem às operações de petróleo e gás na região. A base de dados mostra que financiou projetos da Eneva, Frontera, Geopark, Petrobras, Petroquímica Comodoro Rivadavia e Transportadora de Gas del Perú.

O quinto da lista era o Bank of America . No ano passado, foi o financiador número um de petróleo e gás na Amazónia e alargou 99% das transações sob a forma de obrigações sindicadas, diz o relatório, o que significa que estas transações não teriam necessariamente sido sujeitas a uma análise ESG reforçada.

O relatório insta os bancos a adotarem uma exclusão geográfica que abranja todas as transações envolvendo o setor de petróleo e gás na Amazônia. Os autores dizem que isto é essencial porque a floresta tropical é o sumidouro terrestre de carbono mais importante do mundo e o lar da biodiversidade, mas está a degradar-se até um ponto sem retorno .

“Estamos literalmente vivendo em uma floresta tropical em chamas, nossos rios estão poluídos ou secando”, disse Fany Kuiru, coordenadora geral da COICA. “Nosso destino é o seu destino: a Amazônia é crítica para o futuro do nosso planeta. Os bancos tentam lavar as mãos da culpa através de políticas vagas, mas devem ser responsabilizados pelos danos que o seu dinheiro está a causar aos povos indígenas da Amazónia e à biodiversidade da floresta tropical. Nem uma única gota do petróleo amazônico foi extraída com o consentimento dos povos indígenas. Exigimos que Citibank, JPMorgan Chase, Itaú Unibanco, Santander e Bank of America acabem com o financiamento de petróleo e gás.”

Desde que o Stand.earth lançou a sua campanha Exit Amazon Oil and Gas , afirma que vários bancos, incluindo BNP Paribas, Natixis, ING e Credit Suisse, prometeram acabar com o financiamento do comércio de petróleo dos portos do Equador e do Peru, que cobre grande parte do comércio de combustíveis fósseis da Amazônia. O HSBC e o Barclays também aplicaram políticas abrangentes de exclusão geográfica.

Os autores afirmam que querem trabalhar com os restantes financiadores do petróleo e do gás amazónico para reforçar as suas políticas ESG e excluir dos seus portfólios os projetos petrolíferos na floresta tropical.

Robertson disse que os cinco bancos têm políticas que “parecem muito simbólicas; parecem ter mais a ver com riscos para a reputação do que com riscos de impactos no terreno”. Mas ela enfatizou que isso pode mudar. “Existem muitas oportunidades para os bancos responderem adequadamente e incorporarem o risco ambiental nas suas carteiras, porque é isso que o futuro reserva. Com as alterações climáticas e a perda de biodiversidade a pairar sobre nós, precisamos que os bancos tomem melhores decisões para o bem dos seus clientes e dos seus próprios interesses comerciais. Este é um acerto de contas aqui e um chamado à responsabilidade.

“Tentamos dar uma ideia dos efeitos adversos no terreno. Este é um esforço não apenas para revelar o greenwashing dos bancos, mas também para colocar as vozes dos mais afetados na Amazônia”.

Alguns membros do sector financeiro contestam a metodologia do relatório, dizendo que não era apropriado somar financiamento plurianual, linhas de crédito, refinanciamento e financiamento indirecto e depois sugerir que este montante foi canalizado para um grupo específico. Disseram que os empréstimos para fins corporativos gerais há muito que constituem a grande maioria dos mercados de crédito e que seria necessário perguntar a empresas específicas se ou como este capital é utilizado.

O Citibank disse que tinha uma “ política abrangente de gestão de riscos de segurança empresarial , que descreve nossas expectativas para os clientes e nos leva a fazer a devida diligência em torno de atividades com riscos elevados relacionados aos direitos humanos, biodiversidade, povos indígenas, habitats críticos, conflitos comunitários e/ou justiça ambiental. Envolvemo-nos diretamente com os clientes para avaliar o seu compromisso, capacidade, políticas, sistemas de gestão e pessoal para gerir estes riscos ambientais e sociais específicos.” A empresa atualizou sua política de riscos agrícolas em 2022.

O JPMorgan Chase disse: “Apoiamos os princípios fundamentais dos direitos humanos, incluindo os direitos dos povos indígenas, em todas as nossas linhas de negócios e em cada região do mundo em que operamos. O nosso relatório ESG de 2023 reflete as nossas políticas e práticas relativas aos riscos ambientais e sociais, bem como aos direitos humanos, incluindo atividades restritas e atividades comerciais sensíveis. A triagem de clientes e transações em relação às nossas atividades restritas e atividades comerciais sensíveis sujeitas a revisão aprimorada inclui atividades de financiamento do GCP (fins corporativos gerais). Não se limita ao financiamento de projetos.”

Em relação à decisão do JPMorgan Chase de deixar a Equator Principles Association, um porta-voz acrescentou que a adesão à EPA “não era necessária para que pudéssemos defender de forma independente os melhores padrões de gestão de risco ambiental e social” e que a empresa permaneceria alinhada aos princípios da organização .

O Bank of America referiu ao Guardian a sua estrutura de política de risco ambiental e social , que observa “devida diligência aprimorada para transações em que a maior parte do uso dos recursos é atribuída a atividades identificadas que podem impactar negativamente uma área usada ou tradicionalmente reivindicada por uma comunidade indígena”. ”.

Um porta-voz do Santander disse: “Compreendemos perfeitamente a importância de proteger a Amazônia e apoiar o desenvolvimento sustentável na região. Todas as decisões de financiamento são orientadas por um quadro político rigoroso aprovado pelo nosso conselho de administração, e as nossas atividades estão alinhadas com todas as regulamentações ambientais da região. Também estamos ativamente envolvidos em diversas iniciativas do setor para proteger a região e trabalhar proativamente com os clientes, bem como com outros bancos, governos, reguladores e outras instituições para ajudar a melhorar as práticas, reconhecendo que este é um desafio altamente complexo que requer uma resposta multifacetada e multilateral. .”

O Itaú Unibanco não havia respondido ao pedido de comentários do Guardian no momento da publicação.


 

A Uenf está sendo corroída pela precarização e ficando muito aquém das tarefas deixadas por Darcy Ribeiro

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O incêndio que ocorreu no último 17/05 e consumiu a sala que abrigava uma secretaria no prédio do Centro de Ciências do Homem é apenas o sinal de uma profunda precarização que vem sendo imposta à universidade criada por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.  Nascida sob demanda da população de Campos dos Goytacazes, entretanto, é o principal instrumento de desenvolvimento econômico do interior do estado do Rio de Janeiro, tendo gerado um ciclo de formação de profissionais e dinamizado a economia do município de Campos dos Goytacazes em um patamar muito acima do que os bilhões produzidos pelos royalties do petróleo.

Mas se a Uenf é isso tudo, por que precarizá-la a ponto de inviabilizar sua capacidade criativa e de inovação e reduzi-la a mais uma instituição que não gera potencial de desenvolvimento? Uma explicação muito provável tem a ver com a indiferença dos governos estaduais com as necessidades das regiões Norte e Noroeste Fluminense, e também dos grupos de poderes locais que não querem que mais pessoas estejam capacitadas para articular novas formas de governança que possam abalar os arranjos oligárquicos que guiam a política em nível municipal.

Entretanto, o que vem afogando a Uenf é o uso abusivo do chamado Programa de Recuperação Fiscal que asfixia financeiramente a instituição ao não possibilitar, por exemplo, que salários altamente defasados sejam colocados em um patamar de competividade com o que é praticado em outras instituições universitárias. Como agora sequer se há o acréscimo por tempo de serviço, é quase impossível atrair professores doutores de outras partes do Brasil e, menos ainda, de outros países. Essa foi a fórmula que possibilitou que a Uenf funcionasse em nível de excelência em anos iniciais, a ponto de se tornar uma referência de qualidade para outras universidades brasileiras.

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Um problema que vem aprofundando o nível de desgaste do projeto revolucionário elaborado por Darcy Ribeiro é que tem faltado à Uenf a atuação de lideranças capacitadas para manter a respeitabilidade que foi obtida nos seus primeiros anos. As diferentes reitorias que foram se sucedendo desde 1999, quando foi eleito o primeiro reitor, terminaram possibilitando a ascensão de uma visão altamente populista de integração com a sociedade regional,  a qual pode ser sintetizada na ideia de que bastaria abrir os gramados do campus Leonel Brizola para a realização de confraternizações e atividades esportivas para que a Uenf cumpra seus desígnios históricos. Com isso, o máximo que se tem conseguido é difundir a ideia de que a Uenf seria uma espécie de “Ibirapuera dos campistas”, e não o poderoso motor de desenvolvimento científico e tecnológico que Darcy Ribeiro idealizou e colocou para funcionar com os recursos alocados pelo governo de Leonel Brizola.

Disse recentemente em uma assembleia dos professores que é urgentemente necessário que a categoria retome urgentemente a primazia da ação política que possibilitou que a Uenf tenha chegado até onde chegou. Sem a liderança de um grupo altamente capacitado não há como qualquer instituição universitária atingir seus objetivos estratégicos, e a Uenf não é exceção. Caberá aos seus quadros mais capacitados garantir que, entre outras coisas, o governo do Rio de Janeiro decida pagar salários que sejam compatíveis com o papel de liderança que a Uenf deve exercer para catapultar as regiões Norte e Noroeste para um ciclo de desenvolvimento que finalmente as faça superior décadas de atraso econômico e social.

E eu lamento dizer:  ou os docentes assumem o papel de liderança que o modelo institucional lhes exige ou a Uenf nunca chegará a cumprir a trajetória pensada por Darcy Ribeiro. É que não se cumpre desígnios mais desafiadores aceitando projetos de mediocridade e de subalternidade que podem até soar “moderninhos” e “antenados” com as modas do momento, mas que são intrinsecamente desprovidos de substância.  Ou alguém acha que um punhado mal arrumado de conversas ocas sobre o papel de start ups e do uso de inteligência artificial resolverão o abissal atraso econômico e social que envolve o Norte e Noroeste do Rio de Janeiro?

Estudo mostra que a degradação florestal por extração seletiva de madeira avança para novas áreas no estado do Pará

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Pátio de estocagem de madeira extraída no interior de uma floresta na Amazônia brasileira

Desde um artigo publicado na revista Science em 2020 ficou demonstrado que o processo de degradação florestal causado pela extração seletiva de madeira e por incêndios se tornou mais abrangente em termos de área afetada do que o processo de desmatamento. O aumento das áreas afetadas pela degradação em combinação ou não com o desmatamento representa uma ameaça séria à capacidade das florestas amazônicas de oferecer uma série de serviços ecossistêmicos, a começar pela regulação das temperaturas.

Agora em um artigo publicado ontem (07/6) pela revista Ciência Florestal  se toronou possível entender melhor a abrangência e a distribuição temporal dos impactos da extração seletiva de madeira nas florestas do estado Pará.  Neste estudo, foram analisadas a dinâmica espacial e temporal das florestas perturbadas pela exploração seletiva de madeiras no estado do Pará, utilizando uma série temporal (1992 a 2018) de imagens Landsat e técnicas de sensoriamento remoto. Assim, as florestas afetadas por atividades de exploração seletiva foram mapeadas aplicando interpretação visual e técnicas de sensoriamento remoto semiautomática.

Os resultados deste estudo mostraram que aproximadamente 20% das florestas exploradas seletivamente para fins madeireiros foram desmatadas no período estudado no estado do Pará.  Além disso, o estudo mostra que a área total de florestas alterada pela exploração seletiva de madeiras superou a área desmatada em alguns anos analisados.

Um aspecto especialmente preocupante foi a detecção do aumento de florestas exploradas seletivamente dentro de áreas protegidas (Unidades de Conservação e Terras Indígenas) entre 1992 e 2018 (ver imagem abaixo).

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Áreas afetadas por extração seletiva de madeira no estado do Pará entre 1992 e 2018.

Além disso, a maioria das florestas exploradas seletivamente estava localizada na região conhecida como Arco do Desmatamento na Amazônia brasileira. Entretanto, nos anos mais recentes da análise, as florestas impactadas por atividades madeireiras foram detectadas nas novas fronteiras de desmatamento localizadas na região oeste do estado do Pará. Com isso, há uma ampliação do processo de degradação florestal e, consequentemente, da diminuição da capacidade das florestas de ofereceram serviços ecossistêmicos.

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Retorno do MST ao Norte Fluminense acomete latifundiários campistas da síndrome de Regina Duarte

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A ex-atriz e latifundiária Regina Duarte parece estar fazendo escola em Campos dos Goytacazes

Como estudioso dos assentamentos de reforma agrária no Norte Fluminense, sempre me pergunto o porquê da luta pela criação de mais unidades desse gênero não ser uma prioridade do governo federal, responsável constitucional pelo cumprimento da função social da terra no Brasil via o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra. Afinal, por aqui sobram grandes propriedades improdutivas e propriedades cujos donos somam dívidas vultosas com a União.  Se fosse seguido o exemplo do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) que se aproveitou das dívidas existentes pelos latifundiários para criar o Assentamento Zumbi dos Palmares, a produção familiar já estaria transformando terras improdutivas em celeiros de produção de alimentos. 

Uma das razões para a paralisação da reforma agrária no Norte Fluminense, que teve a última criação de assentamento há mais de 10 anos com o estabelecimento do Assentamento Osvaldo de Oliveira em Macaé, foi a diminuição da presença do MST cujas atividades de mobilização ocorridas entre 1997 e 2007 resultaram na criação de 12 assentamentos de reforma agrária,  fato que beneficiou diretamente 1.200 pobres que puderem retornar à terra para se envolver na produção de alimentos, como já foi documentado pelo meu grupo de pesquisas na Universidade Estadual do Norte Fluminense.

Agora, após mais de uma década de paralisia, a luta pela reforma agrária está de volta com o aparente retorno do MST à região. Com isso, o que está se vendo é uma espécie de pânico das entidades ligadas ao patronato rural. Isso ficou mais que evidente em uma curiosa reunião ocorrida no dia de ontem (07/6) na sede do “Sindicato Rural” e que contou com a presença até do ilustre desconhecido senador Carlos Portinho (PL/RJ).

Lendo relatos da cobertura feita pela mídia corporativa local do evento, só posso chegar à conclusão de que a simples menção da volta do MST está causando uma espécie de síndrome de Regina Duarte  (aquela que instala medo e pavor  nas mentes e corações em face de adversários reais ou imaginados) nos latifundiários campistas ou, pelo menos em suas lideranças.  Pelo menos, é o que pode se depreender, por exemplo, da fala registrada do presidente do Sindicato Rural, que teria afirmado que “não somos favoráveis a isso. Não queremos isso por aqui, porque isso traz insegurança para a gente. A gente não consegue trabalhar, os funcionários das propriedades ficam com medo desse pessoal do MST, que ameaça de morte os funcionários e até proprietários. A gente precisa dar um freio nisso, não tem condição. A gente se sente ameaçado porque a todo momento você pode receber uma visita, com o pessoal querendo invadir a sua propriedade, sem nenhum critério para a invasão“.

Movimento Sem-Terra ocupa propriedade em Campos e enfrenta policiais -  J3News

Ocupação no Distrito de Morro do Côco serviu para disparar a síndrome de Regina Duarte nos latifundiários campistas

Aqui vale algumas observações sobre a fala do presidente do Sindicato Rural. Não haveria qualquer motivo para insegurança se as terras altamente concentradas nas mãos do latifúndio (5% das maiores propriedades em Campos controlam 59,05% do estoque de terras) estivessem cumprindo sua função social. É que os movimentos que lutam pela reforma agrária não perdem tempo com a ocupação de terras produtivas, pois sabem que jamais conseguirão sua desapropriação. Ocupação de terra se dá sempre em propriedade improdutiva o que, convenhamos, há de sobra no Norte Fluminense. Além disso, quem teve diversas lideranças assassinadas nos últimos anos foi o MST, sendo o caso de Cícero Guedes apenas o mais emblemático. Por outro lado, quem deveria ter medo dos funcionários (ou pelo menos preocupação) são os latifundiários, já que as fileiras dos que lutam pela reforma agrária estão cheias de ex-empregados que se cansaram de não receber direitos devidos e resolveram se integrar aos movimentos sociais.  E para dar um freio na situação a coisa é bem simples: que se comece a fazer o uso produtivo das terras, de preferência sem os gordos subsídios oferecidos pelos cofres públicos.

Já em relação às demais falas, a que merece uma ênfase é o desconhecido senador Portinho.  Em uma das falas retratadas pela mídia campista, Portinho teria dito que “Eu vi aqui uma grande união, o que é muito positivo, porque geralmente dá resultado, juntando  federação, sindicatos dos produtores rurais e muitas autoridades que a gente conseguiu trazer pra esse evento (…) E aqui a gente pôde entender o problema dessa tensão no campo, que não é exclusividade da região, é do país. Infelizmente, o produtor rural está sendo muito sacrificado por políticas econômicas e por insegurança no campo (…) E eu acredito muito na força do nosso interior e aqui é o grande vetor de desenvolvimento do nosso estado”.

Ora, esse tipo de fala parece vinda de quem nunca pisou em uma área rural e chega aqui para reproduzir um discurso que passa ao largo da realidade.  Se fosse para falar de tensão no campo, haveria que abordar a criação em certos estados de milicias rurais que atacam assentados, indígenas e quilombolas para invadir terras de usufruto coletivo. É dessas milícias que parte a violência e não dos assentados e membros de comunidades tradicionais. Além disso, se tem uma coisa que o latifúndio não tem no Brasil é alguma ideia de sacrifício. Historicamente os latifundiários viveram e vivem sob as asas protetoras do estado brasileiro que lhes oferece todo tipo de regalias, desde as financeiras, entrega de maquinários e a proteção policial. Quem entende mesmo de sacrifício são os assentados de reforma agrária, indígenas e quilombolas que juntos produzem os alimentos que chegam nas mesas dos brasileiros.

Por isso tudo, essa repetina síndrome de Regina Duarte pode até servir para agitar discursos feitos em auditórios apertados, mas está longe de explicitar os reais problemas que estão borbulhando nas entranhas da sociedade brasileira, e especificamente no Norte Fluminense.  O fato inescapável é que enquanto terra improdutiva sobrando, haverá combustível pela luta pela reforma agrária.