A família do ex-presidente Jair Bolsonaro resolveu perpetuar a adjetivação do presidente Lula como sendo um “descondenado”. A partir dessa adjetivação que não possui base na realidade, todo tipo de chamadas desclassificantes são jogadas contra Lula.
Pois bem, em uma dessas reviravoltas que costumam colocar em xeque as narrativas da política brasileira e da campista em especial, a cabeça da nova executiva municipal do PL em Campos dos Goytacazes acaba de ser entregue ao afável e elegante Thiago Ferrugem, cujas atribulações com a justiça não foram poucas desde os tempos em que ocupou a cadeira de vereador.
Assim, eu diria que quando se trata de atribuir adjetivos para quem tem ou teve problemas com a justiça, os bolsonaristas do PL deveriam olhar primeiro para dentro da própria casa.
A ciência e a inovação são fundamentais para a agenda nacional da China e para os esforços do país para estimular o crescimento económico
Por Smriti Mallapaty para a Nature
Os gastos da China em ciência e tecnologia deverão aumentar em 2024, apesar do lento crescimento económico do país.
O governo gastará 371 bilhões de yuans (algo em torno R$ 310 bilhões) em ciência e tecnologia em 2024 – um aumento de 10% em comparação com o ano anterior – de acordo com um projeto de relatório orçamental do Ministério das Finanças da China. O relatório foi apresentado na reunião anual do órgão legislativo do país, a Assembleia Popular Nacional, esta semana. Do total dos gastos do governo, R$ 82 bilhões serão destinados à pesquisa básica, um aumento de 13%, segundo o relatório.
“O governo está mostrando que está empenhado em dar aos cientistas mais recursos para apoiar a sua investigação”, afirma Albert Hu, economista da China Europe International Business School, em Xangai.
O aumento dos gastos governamentais em ciência e tecnologia é o maior em cinco anos, diz Jing Qian, que dirige o Centro de Análise da China do Asia Society Policy Institute, na cidade de Nova Iorque. Com uma queda de 9% em 2020, seguida de dois anos de crescimento estagnado, o governo aumentou os seus gastos em 2% no ano passado.
O último impulso demonstra o “compromisso genuíno do governo com as suas prioridades”, diz Qian. A Chinaelevou a ciência na agenda nacionalnos últimos anos. O primeiro-ministro do Conselho de Estado, Li Qiang, reiterou esse compromisso no relatório escrito do congresso apresentado na sessão de abertura em 5 de março. “Agiremos mais rapidamente para aumentar a autossuficiência e a força na ciência e na tecnologia”, afirma o relatório.
Impulso econômico
O aumento do dinheiro para a ciência ocorre num momento em que a economia luta para cumprir as metas de crescimento. “A China está no meio de uma transição estrutural”, diz Hu. O país está a passar de uma economia baseada em sectores tradicionais, como o imobiliário, para uma maior ênfase no desenvolvimento de alta tecnologia, diz ele.
A corrida pela supremacia tecnológica com os Estados Unidos é outro factor motivador, dizem os investigadores. Os Estados Unidos restringiram o acesso da China a tecnologias essenciais em áreas como inteligência artificial, semicondutores e computação quântica. Isto estimulou o país a investir na autossuficiência tecnológica, diz Marina Zhang, que estuda inovação com foco na China na Universidade de Tecnologia de Sydney, na Austrália. “Para vencer este jogo, a China tem de investir em ciência e tecnologia, especialmente em investigação básica.” diz Zhang.
Mas embora o aumento da despesa “representa um maior compromisso do governo para com a ciência e a tecnologia”, ainda representa apenas uma pequena fracção da despesa total em investigação e desenvolvimento do país, diz Hu. Os gastos do governo representam cerca de 11% dos 3,3 trilhões de yuans gastos em P&D na China, segundo dados oficiais. Os gastos em P&D representam atualmente cerca de 2,6% do produto interno bruto total da China, em comparação com 3,6% nos EUA em 2020.
A sessão do congresso termina no dia 11 de março e será seguida por uma reunião do órgão consultivo político da China, a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, na próxima semana.
Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela revista “Nature” [Aqui!].
O tubarão-barriga-dágua (Carcharhinus plumbeus) teve declínio significativo nas capturas em Arraial do Cabo (RJ) devido à sobrepesca. Foto: Guy Marcovaldi/Projeto Tamar
Nos últimos 60 anos, houve uma queda significativa no número de tubarões capturados ao longo da costa de Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Sem acesso a áreas de proteção, os indivíduos ficaram expostos à pesca predatória durante o século passado e como resultado, passaram a ser menos abundantes nos antigos locais de captura a partir de 2006. Portanto, apesar do aumento das atividades pesqueiras na região, pescadores da região relatam uma redução de 75% na captura de espécies destes animais neste período.
Os dados são de estudo das Universidades Federais Fluminense (UFF), de Santa Maria (UFSM) e do Oeste do Pará (UFOPA) publicado na revista “Neotropical Ichthyology”na sexta (8) e trazem informações sobre a população desses animais na costa fluminense.
Os pesquisadores entrevistaram, entre julho de 2018 e 2019, 155 pescadores com experiência de pesca de três até 64 anos na região de Arraial do Cabo, Rio de Janeiro, para investigar mudanças no número e na distribuição espacial dostubarõesnesta região. As entrevistas abordaram a época de reprodução, os comportamentos alimentares, a quantidade de capturas ao longo do tempo e outras características das espécies de tubarões. Os dados foram divididos em dois grupos: antes e depois de 2006. Neste ano, houve o fechamento da Companhia Nacional de Álcalis, em Arraial do Cabo, o que fez com que a pesca artesanal voltasse a se tornar a principal fonte econômica do município.
O artigo destaca que cerca de 2 mil indivíduos dessas espécies foram capturados com rede de praia entre 1979 e 2005. De 2006 a 2019, o número de tubarões capturados caiu para 500, ou seja, 75% a menos do que no período anterior. O estudo ressalta que a sobrepesca ao longo dos anos fez com que os animais se afastassem da costa. Após 2006, quando novos locais de pesca passaram a ser explorados, as capturas desses animais passaram a se concentrar em locais mais distantes.
“Os pescadores relataram seis espécies de tubarões, todas categorizadas como ameaçadas segundo listas nacionais e globais, como a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas e a União Internacional para a Conservação da Natureza”, explica Carine Fogliarini, lider do estudo e pesquisadora da UFSM. Ostubarõesmais capturados foram o tubarão-galha-preta, o tubarão-anequim e o tubarão-barriga-dágua. Nas últimas seis décadas, as capturas do tubarão-galha-preta foram marcadas por uma queda de mais de 70% em um dos locais de pesca próximo a costa. Em geral, a localização espacial dos locais de pesca de tubarões na costa cabista também mudou, segundo relatam os pesquisadores.
A região de Arraial do Cabo tem uma reserva extrativista classificada como unidade de conservação de uso sustentável. Criada em 1997 para proteger recursos naturais e direitos de pescadores locais, a Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo carece de zonas de proibição de pesca definidas. Assim, a gestão da pesca e a fiscalização da captura de espécies ameaçadas e protegidas é insuficiente, segundo Fogliarini. “A falta de áreas de refúgio ou berçários contribui para a vulnerabilidade das espécies marinhas diante da pesca intensa”, completa.
Os resultados do estudo apontam para a necessidade de políticas de proteção de ecossistemas mais eficazes, ampliando o envolvimento das comunidades locais. A pesquisadora defende a promoção do turismo sustentável, com uma gestão efetiva da pesca, em locais como Arraial do Cabo. “Um tubarão vivo vale muito mais do que um animal morto onde o turismo para ver esses animais existe. Vários países proibiram a pesca de tubarões devido ao risco de colapso das espécies e à importância desses animais para o equilíbrio das cadeias alimentares”.
A equipe de pesquisa quer contribuir para frear ou reverter o declínio populacional de tubarões na costa brasileira, o que pode ser feito por meio do monitoramento de pescarias, campanhas educativas para conscientização e redução do esforço de pesca com abertura de novas possibilidades de geração de renda para os pescadores. “Não adianta apenas proibir a pesca, pois os pescadores precisam sustentar suas famílias. Eles necessitam ter alternativas de geração de renda na pesca ou em outras atividades que sejam mais sustentáveis”, finaliza a autora.
Ingestão de suco de laranja contendo resíduos de agrotóxicos perigosos representa um grave risco à saúde humana
Dois agrotóxicos foram encontrados em amostras de laranjas e de sucos de laranja submetidos a ensaios pela técnica especializada Kelly Cristina Manhani, do Laboratório de Processos Químicos e Tecnologia de Partículasdo IPT, em sua dissertação de mestrado que analisou a presença de multirresíduos de agrotóxicos em alimentos cítricos por meio de técnicas cromatográficas – um dos compostos encontrados, o Dicofol, se destaca por ser um produto organoclorado utilizado no controle de ácaros e insetos que, recentemente, foi proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e adicionado à Convenção de Estocolmo devido à sua classificação como Poluente Orgânico Persistente (POP).
O Brasil é o maior produtor de laranja do mundo, responsável por mais de um quarto da exportação in natura e três quartos da exportação mundial de suco de laranja. Em 2021, o país produziu 16.214.982 toneladas de laranja, das quais São Paulo é o principal estado citricultor. “Por conta de sua posição de destaque na cadeia agroindustrial, a segurança alimentar é item fundamental para o Brasil garantir a sustentabilidade produtiva, a competitividade de mercado e a qualidade na produção”, afirma Manhani, que defendeu a dissertação de mestrado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen).
Para a realização da pesquisa, que teve como objetivo o estudo de uma metodologia para determinação de multirresíduos de agrotóxicos em alimentos cítricos, doze amostras de laranja pera (também conhecida como pera Rio, pera coroa ou simplesmente pera) foram coletadas em feiras livres, sítios e supermercados do Estado de São Paulo e nove amostras de suco de laranja integral produzidas no Brasil foram adquiridas em supermercados. “Escolhi a laranja pera porque a sua produção se destaca no país: além de termos colheitas durante quase o ano todo, o suco produzido tem um alto rendimento e qualidade”, explica ela.
O preparo das amostras de laranja in natura seguiu o procedimento operacional padrão do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) – esta é uma ação do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), coordenado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em conjunto com órgãos estaduais e municipais de vigilância sanitária e laboratórios estaduais de saúde pública.
As nove amostras de sucos de laranja foram adquiridas em supermercados convencionais e restaurantes na região da zona oeste da cidade de São Paulo. Uma das amostras foi de suco fresco preparado no ato da compra em um restaurante nas proximidades da Universidade de São Paulo (USP) e o restante foram sucos industrializados conhecidos como sucos integrais ou néctar.
Agrotóxicos no Brasil
Os agrotóxicos são produtos químicos sintéticos utilizados para combater os insetos, larvas, fungos e carrapatos que são vetores de doenças em cultivos. A Anvisa autoriza o uso dos agrotóxicos de acordo com os estudos de toxicidade e segurança alimentar; porém, o uso em excesso dessas substâncias e a ausência de Boas Práticas Agrícolas (BPA) podem trazer riscos de intoxicação ao trabalhador rural e danos ao meio ambiente.
Segundo relatório do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em 2011 as vendas de ingredientes ativos (i.a) em produtos formulados foram de 422.166,85 toneladas; dez anos depois, em 2021, este número subiu para um total de 720.869 toneladas, com crescimento expressivo entre 2018 e 2021. “Com o crescimento da produção de laranja e outros cultivos, o Brasil como grande potência agropecuária tornou-se um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo”, afirma Manhani.
Metodologia
Cinco tipos de compostos foram analisados (Trifluralina, Clorotalonil, Clorpirifós, Dicofol e Azoxistrobina) e o Instituto Adolfo Lutz fez a doação de padrões de agrotóxicos, colaborando com o preparo das amostras e dando o suporte com a experiência técnica da equipe de pesquisadores. Os ingredientes ativos em estudo foram selecionados com base nos resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) – das 744 amostras de laranja analisadas no período de 2013 a 2015, o i.a. Azoxistrobina foi encontrado em 71 amostras, o Clorpirifós em 217 e o Dicofol em 30 amostras.
As 21 amostras cítricas do estudo de Manhani foram analisadas pelas técnicas analíticas de cromatografia a gás com detector de captura de elétrons (GC-ECD) e cromatografia a gás com espectrometria de massas (GC-MS). A técnica do IPT utilizou os equipamentos para a quantificação e a confirmação dos analitos, ou seja, das substâncias ou componentes químicos, em uma amostra, que eram alvo de análise nos ensaios.
Foram estudados no projeto três métodos de extração: ‘QuEChERS ORIGINAL’, ‘QuEChERS Acetato MODIFICADO’ e extração líquido-líquido. “O método QuEChERS está revolucionando o preparo de amostras de matrizes complexas e, neste estudo, foram avaliados a mudança de pH na extração bem como a proporção de amostra e adição de diferentes sais e adsorventes na etapa de limpeza da amostra (clean up) para a eficiência da extração dos ingredientes ativos”, explica ela. Parâmetros de qualidade analítica como seletividade/efeito matriz, linearidade, limite de detecção e quantificação foram estabelecidos para os cinco pesticidas.
Os ensaios foram feitos no Laboratório de Processos Químicos e Tecnologia de Partículas, no Laboratório de Biotecnologia Industrial e no Laboratório de Química e Manufaturados do IPT. No preparo de amostras foram realizados estudos para comparar os métodos e verificar a eficiência de extração dos agrotóxicos da matriz e qual o mais adequado em relação à detecção do ingrediente ativo e o efeito matriz sobre o sinal do equipamento.
Em suas análises, Manhani detectou a presença do i.a. Dicofol em cinco amostras de suco de laranja, dentre elas um suco orgânico certificado; outro dos agrotóxicos encontrados, o Clorpirifós, está atualmente sob reavaliação da Anvisa e de outros órgãos internacionais do Canadá e Austrália, sendo que nos EUA foi proibido em 2022. O motivo da nova avaliação são aspectos toxicológicos como mutagenicidade e toxicidade para o desenvolvimento, especialmente a neurotoxicidade, encontrados em estudos recentes. E apesar de terem sido detectados nas amostras, as concentrações são muito pequenas, sendo que para o i.a. Clorpirifós o valor ficou muito menor que o limite máximo de resíduo (LMR) permitido para a cultura citros pela ANVISA.
“As técnicas analíticas aplicadas na determinação de resíduos em alimentos devem garantir alta sensibilidade e robustez nas análises por instrumentação e, não menos importante, os métodos de preparo de amostras adequados para cada matriz, a fim de garantir a confiabilidade nos resultados obtidos”, ressalta a técnica. “A determinação de resíduos nos alimentos torna-se uma ferramenta de grande valia na estimativa de exposição do ser humano e do meio ambiente, bem como o indicativo de Boas Práticas Agrícolas, ajudando na tomada de decisões regulatórias a fim de se garantir a segurança alimentar”, conclui ela.
Este texto foi originalmente publicado pelo IPT [Aqui!].
Por Maurício Angelo, Foto: Isis Medeiros, Entrevista: Gabriela Sarmet e Isis Medeiros
O cacique Merong Kamakã, 37 anos, liderança de uma retomada em Córrego de Areias, Brumadinho (MG), foi encontrado morto na manhã da última segunda-feira com indícios de enforcamento. A Polícia Militar informou que a causa da morte foi suicídio. A Polícia Civil de Minas Gerais, porém, não confirmou a informaçãoe diz que está investigando o caso em conjunto com a Polícia Federal.
O sepultamento ocorreu na madrugada desta quarta, no território, 06 de março. A área em que o cacique vivia com seu povo desde outubro de 2021 está em litígio com a Vale, que move uma ação de reintegração de posse e, por causa disso, tentou impedir o sepultamento na justiça, que atendeu ao pedido da mineradora. O sepultamento, porém, ocorreu antes mesmo que a comunidade soubesse da decisão judicial. Diante dos fatos, a Vale recuou.
Merong Kamakã era uma respeitada liderança indígena tanto na luta pelos direitos do seu povo, Kamakã-Mongoió, quanto na luta de outros povos indígenas, como os Xokleng, Kaingang, Guarani, Xukuru-Kariri, Pataxó, Pataxó Hã-Hã-Hãe, entre outros.
Em abril de 2022, Merong Kamakã concedeu uma entrevista ao Observatório da Mineração durante o Acampamento Terra Livre em Brasília. Diante do seu falecimento, em respeito à sua memória, publicamos a entrevista inédita.
Kamakã relata as dificuldades que o seu povo viveu durante a pandemia e alerta que, caso a humanidade siga destruindo a natureza, outras doenças virão. O cacique afirma que sofria ameaças de seguranças da Vale, intimidação, que o povo indígena era vigiado por drones, acusa a Vale de se apropriar do território, incluindo as nascentes de água.
“Um mês depois os seguranças da Vale nos descobrem (onde estávamos) e assim começa as repressões. Chegamos ali por causa da água potável. A gente vem passando ameaças com drone, seguranças que vão em peso nos intimidar. Para nós indígenas, não estamos invadindo nada de ninguém, porque a terra, nem a mata, nem a água pode ser vendida. O criador, nosso grande Espírito deixou para que nós pudéssemos viver. E com o passar do tempo, no desenrolar dessa luta, a gente descobre que a mineradora está comprando todas as áreas de nascente da região”, afirma Kamakã.
Para o cacique, a necessidade de mineração e do plantio de soja transgênica, por exemplo, precisa ser urgentemente revisto pela sociedade. “A gente precisa de território, de produzir alimento orgânico para ficar aqui no nosso país”, ressaltando a agricultura familiar praticada por seu povo.
O cacique afirmou, na época, que “se for preciso morrer na luta pelo território eu vou morrer, mas eu não saio dali. Porque eu sei o que o meu povo passou na pandemia. (…) Quem vai fazer a recuperação ambiental será nós, que somos originários. Território é para ser preservado com floreta sustentável. Chega de mineração. Acorde o povo brasileiro que está dormindo. Essa luta não é só nossa, é de todos”, disse.
Merong Kamakã afirma, por fim, que o seu povo é reprimido e perseguido pela Vale, chama a mineradora de assassina e pede a saída da Vale do território. Assista a entrevista completa abaixo.
O Observatório da Mineração solicitou um posicionamento da Vale, não enviado até a publicação desta matéria. O texto será atualizado assim que a mineradora se manifestar. À Agência Brasil, a Vale disse que o terreno ocupado pelos indígenas em Brumadinho se destina à recuperação ambiental e se tornou objeto de discussão na Justiça. “A Vale lamenta a morte do cacique Merong e se solidariza com seus familiares e a comunidade indígena”, diz a empresa.
Nota do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) lembra que, no relatório Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil – dados de 2022, a média de suicídios indígenas é três vezes maior que a população em geral, “na medida também que avançam os processos de violências contra os territórios, em especial os ainda não demarcados ou regularizados”.
Para o Cimi, é necessário que todas as possibilidades sobre a morte de Merong Kamakã sejam investigadas com rigor e seriedade por parte do poder público. “Mas sem perder de vista que os suicídios indígenas também devem ser vistos como um processo de violência contra os povos originários enquanto um projeto de extermínio. Os povos indígenas não estão se suicidando, estão sendo suicidados. Pois antes da morte acontecer, a sociedade já os matou muito antes e por fragmentos. Os matam quando negam o território, quando negam a possibilidade de viver a espiritualidade, os matam quando negam seus direitos, quando os ameaçam e os constrangem, os matam quando roubam a possibilidade de ser sujeito e coletivo”, ressaltam.
Atualização: a Vale enviou a seguinte nota ao Observatório da Mineração às 18:09h desta quarta (06).
A Vale reitera seu pesar pelo falecimento do cacique Merong Kamakã e se solidariza com seus familiares e a comunidade indígena. Jamais houve, por parte da Vale, qualquer tipo de ameaça ou violência aos indígenas, uma vez que a empresa repudia esse tipo de ação.
A ação de reintegração de posse decorre de uma ocupação ocorrida em 2021 em uma área pertencente à Vale. Essa área está destinada para fins de compensação ambiental. A Vale busca uma solução para a questão, em conjunto com a comunidade, dentro da legalidade. Por fim, a Vale reitera que tem como compromisso atuar alinhada ao respeito aos direitos humanos.
Este texto foi originalmente publicado pelo “Observatório da Mineração” [Aqui!].
Um decreto presidencial proibiu o uso de milho geneticamente modificado (GM) na alimentação no México. Mas os governos dos Estados Unidos e do Canadá estão utilizando o acordo comercial EUA-Canadá-México (USMCA) para desafiar as ações do México.
O objetivo das restrições do México ao milho geneticamente modificado é salvaguardar a integridade do milho nativo da contaminação geneticamente modificada e proteger a saúde humana. O objetivo do desafio dos EUA e do Canadá é defender os interesses da indústria biotecnológica. Os EUA e o Canadá querem forçar o México a abrir o seu mercado a todos os alimentos e sementes geneticamente modificados. O Canadá apoia o desafio dos EUA (como terceiro na disputa), embora o Canadá não exporte milho para o México.
O México tem o direito de restringir o uso de milho geneticamente modificado. Os EUA argumentam que as ações do México não se baseiam em princípios científicos, mas o governo tem ciência suficiente para justificar as suas políticas de precaução.
A nossa organização, a Canadian Biotechnology Action Network, é uma grande rede de agricultores e grupos ambientalistas que monitoa a utilização de organismos geneticamente modificados (OGM) há mais de 15 anos e apoiamos as restrições do México. Fomos um dos dois grupos canadenses que receberam permissão para enviar comentários de especialistas sobre os riscos do milho geneticamente modificado ao painel de arbitragem nesta disputa, mas em janeiro, os grupos canadenses não foram convidados a pedido do governo dos EUA, apoiado pelo Canadá, com o detalhe técnico de que a disputa é apenas entre os EUA e o México.
De qualquer forma, publicamos a nossa análise para mostrar que a proibição do México é apoiada pela ciência. A pesquisa continua a encontrar indicadores de danos potenciais aos seres humanos decorrentes da ingestão de milho geneticamente modificado resistente a insetos. A ciência também continua a alertar para os impactos na saúde decorrentes da exposição ao herbicida glifosato, utilizado na produção de milho geneticamente modificado.
A maioria das plantas de milho geneticamente modificadas são geneticamente modificadas para matar pragas de insetos. As plantas geneticamente modificadas expressam uma toxina da bactéria do solo Bacillus thuringiensis (Bt) que é conhecida por prejudicar o intestino de tipos específicos de insetos, mas não de outros. Os agricultores há muito usam o Bt como spray para matar pragas, mas as toxinas Bt nas culturas geneticamente modificadas são diferentesdeste Bt natural em estrutura, função e efeitos biológicos. Na verdade, estudos revistos por pares em toda a literatura científica continuam a descobrir que as toxinas Bt em plantas geneticamente modificadas podem prejudicar insectos (aranhas, vespas, joaninhas e crisopídeos, por exemplo) que não são os alvos pretendidos.
Ainda no ano passado, novos estudos revistos por pares encontraram impactos do Bt onde se supunha que não existiam. Por exemplo, um estudo de 2023 conduzido por uma equipe de pesquisadores de universidades do Brasil e da Colômbia, financiado pelo governo brasileiro, descobriu que o Bt teve muitos impactos significativos na saúde das vespas, afetando até mesmo a próxima geração. Pesquisadores universitários na China e no Paquistão também encontraram menor diversidade de bactérias no intestino de aranhas-lobo expostas ao Bt. Isto se soma a um teste de laboratório publicado em 2023 , financiado pelo governo francês, que descobriu que uma toxina Bt específica perturba o crescimento e o funcionamento normais das células intestinais em moscas da fruta, levantando a possibilidade de que as toxinas Bt possam prejudicar o revestimento intestinal de animais, incluindo humanos. .
Para somar a estes resultados, vários ensaios de alimentação animal também concluíram que as toxinas Bt e as culturas GM Bt podem ter efeitos tóxicos nos mamíferos. Efeitos tóxicos e indicações de toxicidade foram observados de várias maneiras no sangue , estômago, intestino delgado, fígado, rim, baço e pâncreas, bem como nasrespostas imunológicas , embora o mecanismo não esteja claro nesses estudos. Criticamente, os governos dos EUA ou do Canadá não exigem estudos sobre alimentação animal para demonstrar a segurança alimentar dos OGM. Na verdade, existem muito poucos testes de longo prazo e multigeracionais em animais na literatura científica.
Mas a toxicidade do Bt não é a única preocupação de segurança. A produção de milho geneticamente modificado também está ligada ao uso de glifosato e outros herbicidas que estão associados a graves problemas de saúde, incluindo doenças neurológicas e alguns tipos decâncer. A Agência Internacional para Pesquisa do Câncer da Organização Mundial da Saúde classifica o glifosato como um provável carcinógeno humano. De forma crítica, as evidências também apontam para o perigo da exposição a resíduos nos alimentos , que é a preocupação destacada pelo México em relação ao milho geneticamente modificado .
Esta preocupação é particularmente premente porque os mexicanos comem mais milho do que qualquer pessoa no mundo, em grande parte através de farinha minimamente processada para fazer tortilhas. Esta é uma maneira totalmente diferente de consumir milho geneticamente modificado da dieta de ingredientes de milho em alimentos altamente processados nos EUA e no Canadá. A exposição alimentar única do México ao milho geneticamente modificado exige que o México estabeleça o seu próprio “nível aceitável de protecção” contra os riscos.
Nas suas observações ao painel de litígios comerciais, o governo dos EUA argumenta que não foram encontrados quaisquer efeitos adversos para a saúde dos consumidores. Contudo, sem monitoramento dos alimentos geneticamente modificados, não há base científica para fazer esta afirmação. Não houve estudos pós-comercialização em populações humanas para determinar se houve efeitos adversos à saúde e, sem rastreamento ou rotulagem de alimentos geneticamente modificados, tais estudos não são possíveis .
Os EUA e o Canadá argumentam essencialmente que se decidiram que um alimento geneticamente modificado é seguro, então o México deveria concordar.
No início de Março, a defesa formal do México à proibição do milho geneticamente modificado será publicada como parte do processo de disputa comercial. Logo depois ouviremos argumentos de oito grupos não governamentais que têm permissão para enviar comentários. Esses documentos devem deixar claro que as restrições ao milho no México são apoiadas pela ciência e são justificadas para defender o futuro do milho e proteger a segurança alimentar.
( Este artigo apareceu pela primeira vez noFood Tank.)
Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “The New Lede” [Aqui!].
A Nature conversou com a bibliotecária responsável pela Lista de Periódicos de Alerta Precoce da China sobre como ela é compilada anualmente
A Biblioteca Nacional de Ciências da Academia Chinesa de Ciências em Pequim. Crédito: Yang Qing/Imago via Alamy
Por Smriti Mallapaty para a “Nature”
A China atualizou a sua lista de revistas consideradas não confiáveis, predatórias ou que não atendem aos interesses da comunidade científica chinesa. Chamada de Early Warning Journal List, a última edição , publicada no mês passado, inclui 24 periódicos de cerca de uma dúzia de editoras. Pela primeira vez, sinaliza periódicos que apresentam má conduta chamada manipulação de citações, na qual os autores tentam aumentar suas contagens de citações.
Yang Liying estuda literatura acadêmica na Biblioteca Nacional de Ciências da Academia Chinesa de Ciências, em Pequim. Ela lidera uma equipe de cerca de 20 pesquisadores que produz a lista anual, que foi lançada em 2020 e se baseia em insights da comunidade global de pesquisa e na análise de dados bibliométricos.
A lista está se tornando cada vez mais influente. É referenciado em avisos enviados pelos ministérios chineses para abordar a má conduta académica e é amplamente partilhado em websites institucionais em todo o país. Os periódicos incluídos na lista normalmente veem as submissões de autores chineses caírem. Este é o primeiro ano em que a equipe reviu o seu método de desenvolvimento da lista; Yang fala com a Nature sobre o processo e o que mudou.
Como você cria a lista todos os anos?
Começamos coletando feedback de pesquisadores e administradores chineses e acompanhamos as discussões globais sobre novas formas de má conduta para determinar os problemas nos quais devemos nos concentrar. Em janeiro, analisamos dados brutos da base de dados de citações científicas Web of Science, fornecida pela empresa de análise editorial Clarivate, com sede em Londres, e preparamos uma lista preliminar de periódicos. Compartilhamos isso com editoras relevantes e explicamos por que seus periódicos podem acabar na lista.
Às vezes, os editores nos dão feedback e argumentam contra a inclusão de seu periódico. Se a resposta deles for razoável, iremos removê-la. Agradecemos sugestões para melhorar nosso trabalho. Nunca vemos a lista de diários como perfeita. Este ano, as discussões com as editoras reduziram a lista de cerca de 50 revistas para 24.
Yang Liying estuda literatura acadêmica na Biblioteca Nacional de Ciências e gerencia uma equipe de 20 pessoas para montar a Lista de Periódicos de Alerta Precoce. Crédito: Yang Liying
Que mudanças você fez este ano?
Nos anos anteriores, os periódicos eram categorizados como de alto, médio ou baixo risco. Este ano, não reportamos os níveis de risco porque removemos a categoria de baixo risco, e também percebemos que os investigadores chineses ignoram as categorias de risco e simplesmente evitam completamente as revistas da lista. Em vez disso, fornecemos uma explicação de por que o periódico está na lista.
Nos anos anteriores, incluímos periódicos com números de publicações que aumentaram muito rapidamente. Por exemplo, se uma revista publicasse 1.000 artigos num ano e depois 5.000 no ano seguinte, a nossa lógica inicial era que seria difícil para estas revistas manter os seus procedimentos de controlo de qualidade. Removemos esse critério este ano. A mudança para o acesso aberto significou que é possível que os periódicos recebam um grande número de manuscritos e, portanto, aumentem rapidamente o seu número de artigos. Não queremos atrapalhar esse processo natural decidido pelo mercado.
Você também introduziu periódicos com padrões anormais de citação. Por que?
Percebemos que tem havido muita discussão sobre o assunto entre pesquisadores de todo o mundo. É difícil dizer se o problema vem dos periódicos ou dos próprios autores. Às vezes, grupos de autores concordam mutuamente com essa manipulação de citações ou usam fábricas de papel, que produzem artigos de pesquisa falsos. Identificamos esses periódicos procurando tendências nos dados de citações fornecidos pela Clarivate — por exemplo, periódicos em que as referências de manuscritos são altamente distorcidas para uma edição de periódico ou artigos de autoria de alguns pesquisadores. No próximo ano, planejamos investigar novas formas de manipulação de citações.
Nosso trabalho parece ter impacto nos editores. Muitos editores nos agradeceram por alertá-los sobre os problemas em seus periódicos, e alguns iniciaram suas próprias investigações. Um exemplo deste ano é a editora de acesso aberto MDPI, com sede em Basileia, na Suíça, a quem informamos que quatro de seus periódicos seriam incluídos em nossa lista devido à manipulação de citações. Talvez não esteja relacionado, mas em 13 de fevereiro, o MDPI enviou umaviso informando que estava investigando uma possível má conduta dos revisores envolvendo práticas antiéticas de citação em 23 de seus periódicos.
Você também sinaliza periódicos que publicam uma grande proporção de artigos de pesquisadores chineses. Por que isso é uma preocupação?
Este não é um critério que usamos por si só. Estas revistas publicam — por vezes quase exclusivamente — artigos de investigadores chineses, cobram taxas de processamento de artigos excessivamente elevadas e têm um baixo impacto de citações. Do ponto de vista chinês, isto é uma preocupação porque somos um país em desenvolvimento e queremos fazer bom uso do nosso financiamento de investigação para publicar o nosso trabalho em revistas verdadeiramente internacionais, a fim de contribuir para a ciência global. Se os cientistas publicarem em revistas onde quase todos os manuscritos provêm de investigadores chineses, os nossos administradores sugerirão que, em vez disso, o trabalho seja submetido a uma revista local. Dessa forma, os pesquisadores chineses podem lê-lo e aprender com ele rapidamente e não precisam pagar tanto para publicá-lo. Este é um desafio que a comunidade científica chinesa tem enfrentado nos últimos anos.
Como você determina se um periódico tem problemas com a fábrica de papel?
Minha equipe coleta informações postadas nas redes sociais, bem como em sites como o PubPeer, onde os usuários discutem artigos publicados, e o blog de integridade de pesquisa For Better Science. Atualmente, não fazemos as verificações de imagem ou texto, mas poderemos começar a fazê-lo mais tarde.
Minha equipe também criou um banco de dados online de artigos questionáveis chamadoAmend, que os pesquisadores podem acessar. Coletamos informações sobre retratações de artigos, avisos de preocupação, correções e artigos que foram sinalizados nas redes sociais.
Fonte: Lista de Diários de Alerta Precoce
Que impacto a lista teve na pesquisa na China?
Esta lista beneficiou a comunidade científica chinesa. A maioria dos institutos de investigação e universidades chineses fazem referência à nossa lista, mas também podem desenvolver as suas próprias versões. Todos os anos, recebemos críticas de alguns investigadores por incluírem revistas nas quais publicam. Mas também recebemos muito apoio daqueles que concordam que as revistas incluídas na lista são de baixa qualidade, o que prejudica o ecossistema de investigação chinês.
Houve muitas retratações da China nos periódicos da nossa lista. E quando um periódico entra na lista, as submissões de pesquisadores chineses normalmente caem (veja “Marcados para baixo”). Isso explica por que muitos periódicos da nossa lista são excluídos no ano seguinte — esta não é uma lista cumulativa.
Em agosto de 2020, Maria do Espírito Santo estava voltando do campo de sua família na savana do Nordeste do Brasil quando viu fumaça saindo de sua cabana de palha.
Do Espírito Santo correu de volta e descobriu que sua casa e a de seus vizinhos haviam sido incendiadas por um grupo de homens armados, alguns deles policiais locais. Eles derrubaram árvores frutíferas, destruíram plantações com tratores e expulsaram a pequena comunidade de Bom Acerto das terras onde cultivavam mandioca, milho e feijão há gerações. Posteriormente, as famílias descobriram que um empresário do Maranhão, estado em que ela mora, havia reivindicado 10.872 acres de terras públicas adjacentes a 9.884 acres de terras que ele havia comprado, o que inclui as terras onde sua família vive há gerações. Eles suspeitam que ele contratou os homens e subornou a polícia para vir aterrorizar as famílias para que partissem.
“Quando chegamos, encontramos várias dezenas de pessoas, principalmente mulheres e crianças, amontoadas sob a única estrutura remanescente que lançava alguma sombra”, disse Maciana Veira, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Balsas, a associação local de trabalhadores rurais. Veira, nas suas décadas de trabalho para a associação, tem mais relatos de roubo de terras de comunidades rurais do que consegue contar.
Maria do Espírito Santo e o marido estão em frente à sua antiga casa, que foi destruída por homens armados que suspeitam ter sido contratados por um agricultor local para reivindicar ilegalmente as suas terras. Ingrid Barros / Grist
O Brasil possui vastas extensões de terras que existem no domínio público. Povos tradicionais, pequenos agricultores, quilombolas e outros proprietários rurais têm o direito legal de reivindicar essas terras, mas no Brasil rural,muitas comunidadescomo Bom Acerto ainda carecem de escrituras formais. Aqueles que procuram reivindicar essas terras – muitas vezes proprietários de empresas ou empresas – alegadamente contratam homens armados paraintimidar e expulsar os residentes. Eles então limpam a terra de árvores ou vegetação nativa, seja semeando pastagens para vacas ou preparando-as para o cultivo de culturas como soja, algodão ou milho. Eventualmente, ganham propriedade formal através de manobras legais ou falsificando títulos de propriedade, por vezes deixando títulos falsificados numa caixa com grilos, cujos excrementos fazem com que os papéis pareçam mais antigos do que são. É uma prática tão comum que ganhou um nome próprio: grilagem , derivado do português para críquete, grilo .
A grilagem de terras não é um fenômeno novo no Brasil, mas éespecialmente desenfreada nos 337 municípios do norte do Cerrado que compõem uma área conhecida comoMatopiba(uma sigla que designa a combinação dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). a savana com maior biodiversidade do mundo, estende-se por 1,2 milhões de milhas quadradas ao longo da espinha dorsal do Brasil, cobrindo um quinto do país. Espremida entre a floresta amazônica, de um lado, e a floresta atlântica, do outro, ela foi apelidada de “floresta subterrânea” porque grande parte de sua biomassa é encontrada nas raízes longas e grossas que canalizam a água para os aquíferos e armazenam quantidades impressionantes de carbono. O desmatamento e a mudança no uso da terra são a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa do Brasil, portanto, a conservação do Cerrado e seu papel como sumidouro de carbono é crucial para que o Brasil cumpra as metas do Acordo de Paris. Grande parte dos últimos vestígios de vegetação nativa do Cerrado no bioma estão no Matopiba, a última fronteira agrícola do país.
No Matopiba, cerca de1,7 milhão de hectaresde vegetação nativa foram destruídos e transformados em plantações de soja entre 2013 e 2021, ajudando a transformar o Brasil no maior produtor e exportador mundial de soja. A maior parte do feijão é usada para engordar o gado na Europa e na China, os dois maiores compradores da safra brasileira. A narrativa habitual é que a destruição do Cerrado está intimamente ligada à crescente procura por carne e lacticínios. A história completa, no entanto, é mais confusa e de âmbito mais vasto: por detrás desta transformação rápida e generalizada estão alguns dos maiores fundos de investimento do mundo que investiram milhares de milhões na compra de terras agrícolas no Cerrado, incluindo fundos de pensões na Suécia e na Alemanha, fundos de doação da Universidade de Harvard , e a Teachers Insurance and Annuity Association, mais conhecida como TIAA, o fundo de pensões de 1,2 biliões de dólares para5 milhõesde pessoas nos Estados Unidos.
Graças, em parte, aos seus investimentos em terras agrícolas brasileiras, a TIAA tornou-se um dos maiores investidores em terras agrícolas do mundo. Através da sua subsidiária integral, Nuveen Natural Capital, o fundo acumuloucerca de 3 milhões de acres em 10 países . Ela possui participações em pomares de amêndoas e pistache, que necessitam de água, naCalifórnia, assolada pela seca, em fazendas de nozes de macadâmia e em plantações em linha na Austrália , e em vastas áreas ao redordo Delta do Mississippi . Mas os seus investimentos no Brasil, onde administra cerca de 500 mil hectares , são algumas das suas participações mais controversas.
Na época da crise financeira de 2008, o TIAA e outros fundos de investimento começaram a comprar terras agrícolas no Brasil, eventualmente concentrando-se no norte do Cerrado, especificamente no Matopiba, onde as proteções ambientais são escassas e a propriedade da terra é frequentemente disputada. De acordo com organizações ambientais , pesquisadores, imagens de satélite e reportagens da mídia, muitas das fazendas adquiridas pela TIAA estão ligadas à grilagem de terras e ao desmatamento. A TIAA negou regularmente qualquer conhecimento dessas práticas, mas e-mails e outrosdocumentos vazados obtidos em uma violação de dadosno ano passado mostraram que, já em 2010, a TIAA estava ciente de que alguns dos terrenos que comprou foram comprados de pessoas publicamente acusadas de roubar isto — grupos como aqueles que destruíram a aldeia de Bom Acerto, no Espírito Santo. Apesar de uma campanha de quase décadas realizada pela organização sem fins lucrativos brasileira Rede pela Justiça Social e Direitos Humanos, juntamente com grupos de defesa ambiental como ActionAid e Friends of the Earth, para fazer com que a TIAA e outros fundos estrangeiros se desinvestissem de suas propriedades brasileiras, a TIAA continua a arrecadar dinheiro para investir na região.
Os escritórios de Nova York da empresa de serviços financeiros TIAA-CREF vistos em janeiro de 2009. Mark Lennihan / AP Photo
Conectar fazendas específicas a fundos de investimento específicos é uma tarefa complicada, disse Lucas Seghezzo, professor de sociologia ambiental na Universidade Nacional de Salta, Argentina, que estuda aquisições de terras em grande escala. Os fundos de investimento muitas vezes mantêm os seus activos privados quando não são acções e obrigações, e seguir o dinheiro pode levar a um labirinto de empresas de fachada e cadeias de subsidiárias. Os pesquisadores acabam presos em becos sem saída. O desmatamento e o desmatamento são processos complexos e nem todas as instâncias estão diretamente ligadas a fundos de pensão ou investidores. Mas os especialistas atribuíram o influxo maciço de capital estrangeiro no Matopiba ao aumento vertiginoso dos preços da terra na região, o que, por sua vez, alimentou a apropriação de terras, o desmatamento e os conflitos violentos, todos com consequências devastadoras para as comunidades locais e para a própria terra.
“Há muitas evidências de que os investidores que compram terras na América Latina, por exemplo, mas também no Sudeste Asiático, são responsáveis pelo desmatamento – direta ou indiretamente”, disse Seghezzo, que também é consultor científico da Land Matrix Initiative , uma iniciativa iniciativa de monitorização independente. “Existe uma correlação clara entre aquisições de terras e desmatamento, especialmente aqueles destinados à agricultura.”
Bom Acerto fica a duas horas de carro de Balsas, uma cidade agrícola no coração do Matopiba. A rota até lá é em grande parte não pavimentada, passando por colinas e por quilômetros de arbustos desgrenhados e grama dourada ondulante. A estrada desce ocasionalmente de trechos planos de savana até florestas exuberantes encravadas em pequenos vales ribeirinhos. Muito menos conhecido do que a floresta amazônica que faz fronteira com a savana ao norte e ao oeste, o Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil, cobrindo uma área maior que a Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Espanha juntas. É um dos ecossistemas mais antigos e ricos da Terra, com 5% da biodiversidade do planeta.
Vista aérea do Cerrado nativo no oeste da Bahia, Brasil. Nelson Almeida/AFP via Getty Images
Grande parte do Cerrado foi arado para a agricultura, especialmente nas partes sul e central da savana, que estão mais próximas de grandes centros urbanos como São Paulo e Brasília, a capital do país. Algumas das últimas faixas remanescentes de vegetação intacta do Cerrado permanecem no norte, em torno de lugares como Bom Acerto, que até o início do século XX era em grande parte ocupada por comunidades camponesas, afro-brasileiras e indígenas.
Fabio Pitta estuda a expansão da agricultura no Cerrado desde quando era estudante universitário pesquisando empresas canavieiras em meados dos anos 2000. O aumento dos preços do petróleo e do gás e o desejo das empresas de combustíveis fósseis de parecerem “verdes” alimentaram investimentos em cana-de-açúcar, que poderia ser transformada em etanol quando os preços do gás estivessem altos e usada como açúcar quando estivessem baixos. O tamanho das explorações agrícolas na região crescia constantemente, tal como o número de trabalhadoresque trabalhavam literalmente até à morte. Pitta se propôs a estudar essa dinâmica, com foco na Cosan, maior produtora de cana-de-açúcar do Brasil. Ele ficou intrigado ao descobrir que a empresa havia começado a comprar grandes extensões de terra no Cerrado por volta de 2008, a milhares de quilômetros de sua sede, perto de São Paulo, no sul do Cerrado, por meio de um braço de investimento que ela criou, chamado Radar Propriedades Agrícolas, ou simplesmente Radar.
Mais intrigante ainda era a identidade do segundo maior accionista da Radar, um fundo de investimento gerido pelo então conhecido como TIAA-CREF, o gigante das pensões na cidade de Nova Iorque que gere fundos de reforma para milhões de professores e professores americanos.
Pitta assistia à convergência de duas crises globais. Acrise financeira dos EUA que começou em 2007 fez com que os grandes investidores lutassem para encontrar ativos que não estivessem vinculados ao imobiliário americano. As terras agrícolas, antes consideradas um investimento atrasado e arriscado, ganharam apelo da noite para o dia. O aumento dos preços dos produtos básicos que começou em 2005 tinha, em 2008, levado a uma verdadeira crise alimentar global. As mercadorias que podiam ser cultivadas em terras agrícolas tornaram-se subitamente também muito mais valiosas. “Comprar terras agrícolas era como comprar ouro com rendimento”, disse Roman Herre, especialista em agricultura da FIAN Alemanha, uma organização de direitos humanos que defende o direito à alimentação. E os investidores globais, disse Herre, apressaram-se a comprar todas as terras agrícolas que pudessem.
Um campo agrícola confina com o Cerrado nativo no oeste do estado da Bahia, Brasil. Nelson Almeida/AFP via Getty ImagesMais de 100 novos fundos de investimento especializados na alimentação e na agricultura foram criados entre 2005 e 2008, e as revistas e conferências sobre investimento agrícola aumentaram. Investidores famosos como George Sorosqueriam entrar. Enquanto em 2008 a expansão anual das terras agrícolas girava em torno de 9,9 milhões de acres por ano, em meados de 2009, cerca de 138 milhões de acres em negócios de terras agrícolas em grande escala foram anunciados, muitos deles maiores. mais de 500.000 acres, ou duas vezes e meia o tamanho da cidade de Nova York. Foi apelidada de “uma nova corrida global pela terra”.
“No início, era mais como uma história do Velho Oeste”, disse Herre. E um dos maiores intervenientes foi a TIAA, que passou de praticamente nenhuma terra agrícola em 2007 para deter cerca de1 milhão de hectaresem todo o mundo no espaço de uma década.
Mas não eram apenas os professores nos Estados Unidos cujas poupanças forneciam o capital para a corrida pela terra. Funcionários públicos holandeses, canadenses e suecos, juntamente com médicos alemães, também o financiavam. Em 2012, a TIAA lançou seu primeiro fundointernacional de terras agrícolaschamado TIAA-CREF Global Agriculture LLC com US$ 2 bilhões principalmente de fundos de pensão para investir em terras agrícolas, principalmente no Brasil, na Austrália e nos EUA. A lista incluía o sueco AP2, então um dos maiores fundos de pensão fundos no norte da Europa, o Ärzteversorgung Westfalen-Lippe da Alemanha, um fundo de pensões para médicos, e a Caisse de dépôt et colocação du Québec, uma gestora de fundos de pensões públicos e privados com cerca de 176 mil milhões de dólares em activos na altura. A TIAA lançou um segundo fundo em 2015, o TIAA-CREF Global Agriculture II LLC, de US$ 3 bilhões.
Descobrir exatamente onde esses investimentos estavam localizados foi difícil. Os fundos de pensões e outros investidores privados não têm de divulgar com precisão onde estão as suas terras agrícolas, e os investidores utilizam frequentemente estruturas empresariais complexas para comprar terras agrícolas – especialmente em locais como o Brasil, onde a propriedade estrangeira de terras é legalmente restrita. Muitos dos dados sobre os investimentos da TIAA vêm de organizações como a Rede para a Justiça Social e os Direitos Humanos, para a qual Pitta trabalha agora, que rastrearam o dinheiro através de uma teia confusa de subsidiárias e empresas de aquisição de terras, das quais a TIAA possui mais de sete em Brasil, segundodeclarações de 2021 do TIAA .
Em 2016, a empresa de dados de investimento Preqinestimou que, desde 2006 , mais de 100 fundos não cotados tinham angariado aproximadamente 22 mil milhões de dólares em capital a nível mundial para investir na agricultura e em terras agrícolas. Os investimentos da TIAA, de longe os maiores de qualquer investidor, representaram quase um quarto deles.
“O TIAA é realmente a vanguarda dos fundos de pensão que fazem esse tipo de investimento”, disse Gustavo Oliveira, professor assistente de geografia na Clark University em Worcester, Massachusetts, que estuda investimentos estrangeiros no Brasil. “O papel importante que a TIAA desempenha não é apenas por si só, porque tem muito dinheiro e investe em muitas terras. É que, uma vez que a TIAA tenha se aventurado profundamente, será possível que fundos de pensões mais pequenos e outros investidores sigam o seu rasto.”
Onorte do Cerrado é atravessado por um punhado de rodovias pavimentadas, ladeadas por soja em todos os lados, que conectam grandes centros agrícolas no Matopiba. Na estação das chuvas, é um mar verde brilhante até onde a vista alcança. Caminhões percorrem as rodovias de e para grandes silos de grãos, muitos deles de propriedade de gigantes agrícolas internacionais como Bunge e Cargill que, juntamente com algumas outras empresas, controlam mais da metade do comércio de soja no Brasil. Na estação seca, o solo fica nu e empoeirado, grandes pilhas de cal branca empilhadas de um lado, aplicadas generosamente para persuadir o solo ácido e pobre em nutrientes a produzir o que é hoje um dos produtos de exportação mais lucrativos do Brasil . Nas últimas duas décadas, a produção de soja no Brasil mais que quadruplicou .
Uma fábrica da empresa holandesa de agronegócio e alimentos Bunge, no oeste da Bahia, Brasil, em 25 de setembro de 2023. Nelson Almeida / AFP via Getty Images
As fazendas são tão grandes que seus complexos de escritórios ficam a quilômetros de distância da rodovia, muitas vezes nas icônicas montanhas planas chamadas chapadas , antigas formações de arenito e quartzito formadas há dezenas de milhões de anos. Embora as placas enferrujadas nas fazendas sejam em grande parte em português, alguns dos proprietários são globais. Entre 2008 e 2020, a Harvard Management Company, que administra o fundo de doações da Universidade de Harvard, acumulou mais de 40 propriedades rurais cobrindo aproximadamente 1 milhão de acres, uma área duas vezes maior que todas as terras agrícolas no estado natal da escola, Massachusetts. A BrasilAgro, cujos acionistasincluemo Utah Retirement Systems, o Los Angeles City Employees Retirement System e o Public School and Education Employee Retirement Systems of Missouri, possui um total de 741.000 acres em Matopiba. A SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de soja do país e a maior operadora agrícola da TIAA, e sua organização irmã SLC Landco, uma joint venture com o fundo de private equity britânico Valiance, compraram coletivamente mais de 450 mil acres de fazendas no Matopiba entre 2011 e 2017.
Embora o cultivo da soja tenha se expandido no Cerrado há várias décadas, destaca-se a disseminação relativamente recente da soja no Matopiba, que atraiu a maior parte do investimento estrangeiro em terras agrícolas. “Matopiba é uma porção relativamente pequena do Cerrado em geral, mas é sem dúvida a principal fronteira de expansão da soja na região”, disse Lisa Rausch, cientista da Universidade de Wisconsin-Madison que nas últimas duas décadas estudou como a produção agrícola leva à perda de florestas no Brasil.
Em outras partes do Cerrado, a soja tende a ser cultivada em terras já convertidas, muitas vezes pastagens. Mas no Matopiba, a grande maioria das novas terras agrícolas criadas desde a virada do século provém de vegetação de Cerrado anteriormente intacta.De acordo com Trase, grupo que rastreia cadeias de abastecimento globais, três quartos de todo o desmatamento causado pela produção de soja em todo o Cerrado entre 2005 e 2016 aconteceu somente no Matopiba. “Uma das principais características da expansão da soja no Matopiba tem sido a sua associação com a derrubada da vegetação nativa”, disse Rausch.
Com base em dados obtidos da Rede por Justiça Social e Direitos Humanos e Trase, Grist mapeou os municípios de fazendas que tiveram investimentos significativos de fundos de pensão estrangeiros com informações sobre quais municípios apresentavam maior risco de desmatamento devido ao cultivo de soja. Os resultados revelaram que as explorações agrícolas com investimento estrangeiro significativo possuíam milhares a dezenas de milhares de hectares em nove dos 10 municípios que sofreram o maior desmatamento causado pela soja entre 2008 e 2020.
Grist / Clayton Aldern
A perda de habitat ameaça a biodiversidade da região e, consequentemente, a subsistência dos habitantes locais, muitos dos quais dependem das florestas e matagais do Cerrado para alimentação e medicamentos. Juntamente com a desflorestação e o investimento estrangeiro em terras agrícolas, os violentos conflitos fundiários na região também aumentaram. O Matopiba registou um aumento global de 56% nos conflitos de terra relatados entre 2012 e 2016, em contraste com um aumento nacional de 21 por cento. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, organização filiada à Igreja Católica que acompanha conflitos no interior do Brasil, a Bahia e o Maranhão — ambos no Matopiba — ficaram em primeiro e segundo lugar entre os estados com maior número de conflitos em 2022.
É certo que alguns fundos abandonaram os seus investimentos em empresas que comercializam soja no Cerrado brasileiro, alguns alegando risco de desflorestação, outros com base no que alegam seremrazões financeiras . O Fundo de Pensões do Governo Norueguêse a seguradora dinamarquesa Danica Pension alienaram as suas açõesda SLC Agricola em 2017 e 2021, respectivamente. E no ano passado, o fundo de pensões alemão para médicos na Vestfália-Lippe alienou as suas ações dosFundos Agrícolas Globais da TIAA. Mas outros entraram em ação: em 2022, o Conselho da Associação de Aposentadoria dos Funcionários do Condado de Los Angeles comprometeu cerca de US$ 500 milhõespara o TIAA-CREF Global Agriculture Funds, que abrange suas fazendas brasileiras.
A rápida expansão de grandes explorações agrícolas, financiadas por um influxo de capital estrangeiro, remodelou a paisagem do Cerrado. As longas e grossas raízes da vegetação armazenam milhares de milhões de toneladas métricas de carbono e há muito que canalizam a água da chuva da região para os aquíferos. Dois terços dos rios do Brasil nascem aqui, e nove em cada 10 brasileiros usam eletricidade gerada pela água originada no Cerrado, de acordo com o World Wildlife Fund. Agora, tantas árvores e arbustos foram arrancados para campos de soja, gado e plantações de cana-de-açúcar que quase metade do bioma é composta por terras agrícolas ou pastagens. Os cientistas prevêem que, se a expansão agrícola continuar inabalável, o bioma poderá entrar em colapso até 2030, ameaçando a água potável da região, bem como os milhares de espécies únicas nativas da savana tropical com maior biodiversidade do mundo.
O boom da soja está longe de terminar. Espera-se que o Brasil plante cerca de 30 milhões de acres a mais de soja entre 2021 e 2050, de acordo com um estudo . Desse total, 27 milhões de acres são destinados ao Cerrado, e 86% desse valor está previsto para ser plantado no Matopiba. Mas isso já tem um custo. “A perda de vegetação nativa no Cerrado tem consequências ambientais muito graves”, disse Rausch. Essa perda perturbou o ciclo hídrico da região e aumentou a frequência de dias extremamente quentes em locais como Matopiba, levando a secas mais severas . É provável que as alterações climáticasagravem todos estes problemas.
Tratores trabalham em um campo agrícola no oeste da Bahia, Brasil, em 29 de setembro de 2023. Nelson Almeida / AFP via Getty Images
A TIAA disse anteriormente que investe de forma responsável e sempre realiza a devida diligência nas compras de terrenos. Mas no ano passado, um grupo de hackers obteve100 gigabytes de arquivos da Cosan , gigante brasileira da cana-de-açúcar, por meio de um ataque de ransomware, um tesouro que incluía documentos de vendas, registros de propriedade de terras, documentos legais e e-mails, que foram então entregues à Distributed Denial of Secrets, um grupo ativista. Eles teriamreveladoque tanto a Cosan quanto a TIAA ignoraram os sinais de alerta ao comprar fazendas brasileiras – até mesmo comprando terras de pessoas que já haviam sido publicamente acusadas de roubá-las.
Grist contactou a TIAA e a sua subsidiária Nuveen para responder às informações descobertas na violação de dados e perguntou como o fundo de pensões incorpora a sustentabilidade nas suas decisões de investimento. Um porta-voz respondeu que a TIAA e a Nuveen avaliam o impacto dos seus investimentos nas comunidades locais, certificam-se de que as terras que adquirem e mantêm cumprem todos os requisitos governamentais para a protecção das florestas e dos habitats naturais, e também garantem que os seus investimentos cumprem as regras e regulamentos locais.
“Qualquer sugestão de que a TIAA se envolveu em práticas comerciais impróprias não tem mérito”, escreveu o porta-voz. “Em todos os países em que operamos, incluindo o Brasil, seguimos os requisitos de todas as leis e aderimos a fortes diretrizes éticas em nossos investimentos. E esperamos que o governo investigue e processe casos de apropriação de terras onde quer que ocorra.”
As notícias sobre as propriedades agrícolas da TIAA no Brasil ganharam atenção generalizada pela primeira vez em 2015, quando algumasreportagens da mídiacomeçaram a expor a extensão dos investimentos da TIAA no Cerrado. Mas foi um relatório de 2018 que detalhou oâmbito e a escala das extensas propriedades fundiárias do fundo de Harvard no Brasil, escrito pela Rede para os Direitos Humanos e Justiça Social e pela organização internacional sem fins lucrativos GRAIN, que deu força à questão nos Estados Unidos. A notícia estimulou o crescente movimento de desinvestimento de combustíveis fósseis em Harvard a incluir a apropriação de terras em sua plataforma, formando a campanha “Stop Harvard Land Grabs”. As autoridades brasileiras também estavam começando a prestar atenção, examinando minuciosamente as empresas apoiadas pelofundo patrimonial de Harvarde pelo TIAA.
Em 2020, um pequeno grupo activista chamado TIAA Divest convocou Caroline Levine, professora de inglês na Universidade Cornell, para ajudar a liderar uma campanha para instar a TIAA a livrar-se dos seus investimentos em combustíveis fósseis e outras indústrias ambientalmente destrutivas. No início daquele ano, Levine ajudou a vencer a campanha para fazer com que Cornell desinvestisse sua própria dotação em combustíveis fósseis, e ela ficou irritada com o que considerou o flagrante desrespeito ao meio ambiente e aos direitos humanos que acompanhou muitas das decisões de investimento nas universidades. estava fazendo.
Um manifestante segura uma placa em um comício de 2022 na cidade de Nova York, pedindo ao TIAA que cumpra seus compromissos antidesmatamento. Erik McGregor/LightRocket via Getty Images
“Tive a ideia de que os financiadores não tinham consciência do que estava a acontecer, que havia uma espécie de distância entre o investimento e o que se passava no terreno”, disse Levine. “Mas quanto mais eu olhava para isso, mais parecia: ‘Não, há muitas ações ruins e conscientes acontecendo’”.
Levine e uma dúzia de outros professores começaram a pesquisar os investimentos do TIAA, mas foram surpreendidos pelo grande número de empresas de fachada e pela teia opaca de fluxos financeiros. “Sou pesquisadora, mas esse não era realmente o meu objetivo”, disse ela. Eles trouxeram Tom Sanzillo, um ex-controlador do estado de Nova York que então trabalhava no Instituto de Economia Energética e Análise Financeira, que os conversou sobre os obstáculos financeiros. Após dois anos de recolha de provas, apresentaram uma queixa de 87 páginasem Outubro de 2022 aos Princípios para o Investimento Responsável,patrocinados pelas Nações Unidas, contra a TIAA e a sua subsidiária, Nuveen. Quase 300 acadêmicos, pesquisadores e titulares de contas TIAA assinaram o contrato, incluindo o cientista climático Michael Mann, a acadêmica americana Judith Butler e o escritor e ativista Bill McKibben.
“Os compromissos climáticos da TIAA/Nuveen são contrariados pelos seus investimentos substanciais em combustíveis fósseis e mercadorias ligadas à desflorestação, que prejudicam os objectivos climáticos estabelecidos no Acordo de Paris”, afirma a queixa. “Os investimentos contínuos da TIAA/Nuveen em carvão, petróleo e gás, bem como os investimentos em terra ligados ao desmatamento e à ilegalidade, são financeira, moral e socialmente irresponsáveis.”
A TIAA foi um dos signatários fundadores dos Princípios para o Investimento Responsável, ou PRI, em 2006, que visava ajudar os investidores a tornar os seus fundos mais sustentáveis. A queixa argumentava que os investimentos no valor de 78 mil milhões de dólares em combustíveis fósseis, bem como vários abusos ambientais e de direitos humanos ligados às suas grandes explorações agrícolas no Cerrado brasileiro, violavam os princípios do PRI, bem como os próprios compromissos climáticos da TIAA. Acusou a TIAA de enganar os investidores ao anunciar os seus fundos como amigos do clima, argumentando que muitos dos seus produtos comercializados como estando alinhados com os princípios ESG – abreviatura de ambiental e socialmente responsável – alegadamente tinham maior exposição do que os fundos não ESG aos combustíveis fósseis. combustíveis e desmatamento, as duas principais fontes de emissões de gases de efeito estufa no mundo.
Os signatários do PRI comprometem-se com seis princípios, incluindo a incorporação de questões ESG na tomada de decisões. Embora o PRI tenha uma política de violações graves, ela é aplicada apenas com moderação, disse Levine. Em 2021, o projeto Save the Dawson na Austrália apresentou uma reclamação ao PRI sobre o financiamento de uma mina de carvão pela Liberty Mutual, o que resultou no cancelamento do financiamento pela seguradora global. Em outubro de 2022, o PRI disse que revisou a resposta da Nuveen às alegações e “decidiu que as alegações não constituem uma violação da política. Como tal, não há razão para alterar o status da Nuveen como signatária do PRI”, escreveram eles em resposta por e-mail a Levine.
“Sabíamos que era um tiro no escuro”, disse Levine. Mesmo assim, ela considerou o resultado decepcionante.
Estudantes universitários, professores e titulares de pensões não são os únicos que tentam realçar a ligação entre fundos de investimento estrangeiros, desflorestação e apropriação de terras. As comunidades tradicionais e os agricultores do Matopiba protestaram em frente às agências governamentais ebloquearam estradaspara chamar a atenção para o problema. Em junho passado, uma delegação de líderes de diversas comunidades rurais do Piauí entregou uma carta às autoridades governamentais pedindo ao Estado que as protegesse da violência contínua e das violações de seus direitos.
“As violações dos direitos humanos no Piauí causadas pela grilagem de terras, desmatamento, fumigação com agroquímicos tóxicos e outros poluentes, bem como violência física e psicológica contra comunidades rurais, foram amplamente documentadas e levadas ao conhecimento das autoridades estaduais e federais”, diz a carta. “Os perpetradores da violência são geralmente indivíduos ligados a grileiros locais e/ou agronegócios, mas pesquisas mostramque os investidores internacionais desempenham um papel fundamental no incentivo a violações dos direitos humanos e crimes ambientais na região.”
Uma árvore arrancada com correntes industriais é deixada secar ao sol perto de Bom Acerto. Ingrid Barros / Grist
Acerca de 16 quilômetros de Bom Acerto, pilhas de arbustos e vegetação nativa cozinham sob o sol forte, suas raízes longas e grossas contrastam com o céu azul brilhante e as montanhas de topo plano ao longe. Durante gerações, os topos destas montanhas foram áreas comuns utilizadas por camponeses e comunidades afrodescendentes para procurar alimentos, lenha e medicamentos. As pessoas preferiam viver nos vales mais exuberantes, onde fluíam rios cristalinos. Hoje em dia, muitos destes rios estão poluídos com escoamento agrícola e os proprietários das plantações continuam a arrancar mais vegetação nativa. Logo na fronteira com Bom Acerto, no Piauí, 5.000 acres de terra foram desmatados em 2021 de uma grande fazenda, chamada Kajubar. Com toda a probabilidade, prevêem Pitta e outros pesquisadores, ele será vendido pelo lance mais alto.
Embora nem todo o desmatamento no Matopiba possa estar directamente ligado a investidores estrangeiros, os investigadores concordam que a escala e a velocidade da destruição não seriam possíveis sem o influxo maciço de capital estrangeiro. “Mesmo que tenham vendido todos os empreendimentos, lucraram muito com eles e os impactos ainda existem”, disse Pitta. No ano passado, a campanha Stop Harvard Land Grabs publicou uma petição exigindo que Harvard “parasse de investir em novas terras agrícolas, devolvesse as terras já adquiridas às comunidades afetadas e pagasse reparações pelos danos inegáveis do negócio global de terras de Harvard”.
Enquanto isso, as florestas continuam a ser derrubadas no Cerrado em ritmo acelerado. Entre julho de 2022 e agosto de 2023, o desmatamento na região aumentou quase 17% , consumindo mais de 1,5 milhão de acres de vegetação do Cerrado, uma área quase duas vezes maior que o Parque Nacional de Yosemite. Cerca de três quartos disso estavam no Matopiba. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, mais de 20 mil famílias nos quatro estados estiveram envolvidas em conflitos por terras em 2022, um número recorde.
Em Bom Acerto, do antigo povoado só restam montes de cinzas e trilhas vazias. A comunidade tentou levar à Justiça o empresário que alega ser dono de suas terras, mas o caso está paralisado. Apesar da incerteza, a comunidade começou a reconstruir algumas das baias para animais e a replantar os campos com mandioca, feijão e arroz. A maioria das trilhas termina na orla da mata seca, onde a vegetação nativa do Cerrado ainda se estende por hectares e hectares no horizonte.
Maria do Espírito Santo mora em Bom Acerto há décadas. “Tenho o sonho de ficar aqui”, disse ela a Grist em janeiro. Ingrid Barros / Grist
Em janeiro passado, do Espírito Santo parou no local da sua antiga casa e olhou para a aldeia que ela e os seus antigos vizinhos estão lentamente a reconstruir. “Meu sonho é ficar aqui”, disse ela. “Meu sonho é que tenhamos o direito de ficar aqui, que tenhamos o direito de ter nossa terra e nossa casa.”
No final de agosto, quatro homens em uma caminhonete sem identificação invadiram Bom Acerto e atearam fogo na casa de uma família. Agora, os moradores relatam que um drone sobrevoa constantemente. A maior parte do Cerrado nativo ainda é visível além de seus campos, mas por quanto tempo o Espírito Santo não sabe.
Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Grist [Aqui!].
Em 19 de agosto de 1836, Charles Darwin deixou o litoral brasileiro depois de uma viagem de quase cinco anos pelo mundo. O jovem naturalista já havia passado pelo Brasil antes, entre fevereiro e julho de 1832, nos primeiros meses da empreitada a bordo do HMS Beagle. Durante sua excursão por terras e águas brasileiras, ele registrou uma porção de anotações e enviou cartas para familiares e amigos. Ao retornar para a Inglaterra, Darwin reuniu parte deste material em um livro sobre a viagem, traduzido desde então para dezenas de idiomas e com novas edições lançadas até os dias de hoje.
Mas essa não é apenas mais uma tradução do Diário do Beagle, como o livro ficou conhecido. Primeiro título publicado pela editora Duas Aspas, Darwin no Brasil traz uma proposta diferente: uma versão editada e comentada, com 24 ilustrações coloridas e destaque para a passagem do naturalista pelo maior país da América do Sul. O relato pessoal de Darwin, neste formato, é intercalado por textos baseados em outras obras de sua autoria (incluindo A origem das espécies), além de correspondências, artigos e notas que ele escreveu ao longo da vida.
Ao recontar o Diário do Beagle em retrospectiva, Darwin no Brasil nos permite acompanhar a história de uma posição privilegiada – distante o bastante para entender como a experiência brasileira de Darwin contribuiu para a teoria da evolução, mas sem perder aquele clima de aventura tão característico nas narrativas de viagem do século XIX. É como se o próprio Darwin, mais velho, comentasse as descobertas de sua versão mais jovem, enquanto nos guia em uma jornada que mudaria para sempre o rumo da ciência.
Preço e onde comprar
Darwin no Brasil pode ser adquirido no site da editora Duas Aspas:www.duasaspas.com
A viagem de Darwin ao Brasil
O que será que o futuro Darwin diria a respeito do Brasil para o Darwin do passado? Tudo indica que ele aconselharia a si próprio para embarcar na aventura. Afinal, apesar de algumas impressões negativas do Brasil (especialmente a escravidão), Darwin deixou o país com muitas histórias para contar sobre a nossa biodiversidade.
Logo na chegada, ele se tornou o primeiro explorador científico a visitar o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, um dos pontos mais a leste do Brasil. Depois, ao ancorar em Salvador, ficou tão maravilhado com a exuberância da floresta tropical, que mal achou palavras para descrever o que viu. Na Mata Atlântica do Rio de Janeiro, Darwin encontrou seu primeiro macaco dos trópicos, pendurado pelo rabo no galho de uma árvore. Ainda no Brasil, ele descobriu novas espécies de planárias terrestres coloridas na Floresta da Tijuca e coletou uma infinidade de insetos e plantas.
Mas nem tudo foram flores e borboletas. Os horrores da escravidão deixaram Darwin cada vez mais revoltado, a ponto de jurar nunca mais pisar num país escravagista novamente. Ele também reclamou dos modos de nossos compatriotas, ficou assustado com a insegurança e a precariedade nas estradas brasileiras e chocado com a perícia de inocentes crianças no manejo de facões. O forasteiro tampouco se empolgou no carnaval baiano, nem ficou impressionado com a vegetação de Fernando de Noronha e achou as ruas de Recife imundas. Neste aspecto, ao pesar prós e contras de sua viagem, Darwin foi um visitante como qualquer outro, mesmo sendo um de nossos turistas mais ilustres.
O autor
Darwin no Brasil é uma tradução editada dos relatos de Charles Darwin ambientados no Brasil, o que inclui todo o segundo capítulo do Diário do Beagle e partes do primeiro e do último. Também foram usados trechos de outros capítulos, nos quais Darwin descreve espécies que poderia ter encontrado em território brasileiro (como os animais da região do Pampa) ou discorre sobre fenômenos que aconteciam similarmente no Brasil (por exemplo, o extermínio de povos nativos).
Como forma de mostrar as contribuições da viagem de Darwin para a teoria da evolução, as passagens do Diário são intercaladas por breves textos baseados no restante da obra do naturalista. A principal fonte aqui é A origem das espécies, entre outros livros de autoria de Darwin, bem como cartas, artigos, ensaios, contribuições e anotações que ele escreveu ao longo da vida. Os textos do livro são, portanto, do próprio Charles Darwin, com organização, tradução e textos complementares de Pedro Alencastro, jornalista e editor da Duas Aspas.
Os preços das commodities são invariavelmente afetados por ciclos de altas e baixas, o que implica em alto grau de incerteza para produtores que investem tudo o que tem nelas, especialmente durante ciclos virtuosos de preços altos. O Brasil, como talvez nenhum outro país do Sul Global, está fortemente aferrado em sua dependência da produção e exportação de commodities agrícolas, especialmente a soja.
O problema dessa dependência aparece quando se instala um período de preços baixos, como o que está ocorrendo neste momento. Para piorar, a situação da economia global está causando uma forte elevação de custos, especialmente no preço de fertilizantes e agrotóxicos.
Outra variável de complicação se relaciona ao clima, afetando pelo aquecimento da atmosfera da Terra e a ocorrência de ciclos imediatamente alternados de El Niño e La Ninã. Como isso, pioram acentuadamente as perspectivas de produção, na medida em que determinadas regiões serão afetadas por períodos de chuvas e secas extremas.
Pois bem, essa é exatamente a situação atual do Brasil. Com isso tudo, as perspectivas da economia brasileira não são exatamente animadoras e com tendência a piorar. É interessante notar que as pressões para que o governo federal abra as comportas dos subsídios baratos certamente vão aumentar, visto que tem muita gente que já está devendo a entrega de safras futuras e da compra antecipada de insumos agrícolas.