Escutar os saberes ancestrais para evitar a queda do céu, o sumiço do chão e o veneno no prato

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Por Susana Prizendt para o Midia Ninja

“Parem de falar. E façam alguma coisa!”
Laila, menina, moradora do Estado insular de Barbados, no filme O que importa – Uma mensagem das crianças aos líderes da COP28

“Cuidado, muito cuidado. Não tire da terra mais do que você pode oferecer a ela.”

Mestre Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo)

“Nos próximos 10 anos o mundo poderá ter seu primeiro trilionário, mas levará quase 230 anos para acabar com a pobreza.” (Relatório Desigualdade S.A. divulgado pela Oxfam em janeiro de 2024)

Nenhum(a) artista visual poderia ter criado uma obra tão tragicamente simbólica: uma cidade afundando devido à voracidade que o sistema econômico que a domina apresenta pelas “riquezas” que seu território abriga. No caso real que aqui mencionamos, os “tesouros”, como as estórias de piratas sempre mencionam, estão bem enterrados no subsolo – parte deles a centenas de metros abaixo da superfície – e atendem pelo nome de sal-gema, um mineral usado na indústria química, que demora milênios para formar suas jazidas subterrâneas.

Maceió, capital do estado de Alagoas, ganhou espaço de destaque no noticiário nacional, no último trimestre de 2023, após agonizar por anos em um processo de canibalização, em que seu território foi sendo devorado pela fome insaciável que o capitalismo mundial apresenta por “recursos” que mantenham suas engrenagens funcionando. Uma área em que moram dezenas de milhares de pessoas está condenada por, literalmente, não ter mais o chão firme debaixo de seus pés, e precipícios podem se abrir a qualquer momento, sobretudo em tempos de chuvas de verão, engolindo carros, casas, ruas inteiras…

Quando um povoado é vítima de um banquete mortal como esse, o que perece não é somente sua matéria física. A história, o modo de viver, a sensação de pertencimento à uma coletividade, a perspectiva de um futuro conjunto… tudo isso é mastigado pelos dentes dos banqueteadores.

Mas, afinal, quem seriam esses devoradores de futuro, que parecem não sentir nem um pingo de empatia pelo povo que habita o local?

Podemos começar citando o nome de uma empresa: Braskem. Mas ela é somente a boca no sistema digestivo que processou a carne desse território, através da exploração que fez por décadas em suas 35 minas. Depois do trabalho inicial de mastigação, ainda vêm muitas etapas e há todo um conjunto de atores que entram em cena. Ao contrário do que o nome da tal empresa sugere, o processo de digestão não se restringe ao território brasileiro, ele se estende globalmente, alimentando um modelo produtivo internacional que suga gentes e naturezas para se perpetuar.

E é justamente por isso que a imagem de uma grande cidade sendo tragada pelo abismo que os próprios seres humanos cavaram é tão representativa. A sociedade globalizada está fazendo exatamente isso com o planeta. Do mesmo modo como as pessoas que conduziram a capital de Alagoas para o buraco sabiam muito bem que isso iria acontecer e não mudaram seus planos, a elite mundial que detém o poder político-econômico sabe que estamos chegando a um ponto de desequilíbrio ambiental, provocado pelas ações humanas, em que calamidades como essa vão se tornar fichinha perto das que virão.

Pisando no acelerador

Química Tory/Shutterstock

Não é à toa que a comunidade internacional de ativistas socioambientais se revoltou contra o teatro do absurdo que assistimos durante a 28ª Conferência de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (COP 28), chamada ironicamente de COP dos Lobistas, realizada de 30 de novembro a 12 de dezembro de 2023.

Começando pelos seus anfitriões, os Emirados Árabes Unidos, que enviaram como seu representante e, portanto, como o presidente do encontro, o Sultan Al Jaber – ministro da Indústria e Tecnologia Avançada, chefe da Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi (ADNOC) e presidente da Masdar, a empresa estatal nacional de energia renovável (fundada em 2006 e vista pelos ambientalistas como um instrumento para tentar dissimular a pegada climática do país, um ávido extrator e fornecedor de combustíveis fósseis) -, o show de horrores seguiu com declarações estapafúrdias, inclusive por parte de brasileiros, como Jean Paul Prates, atual presidente da Petrobrás, ao dizer que a empresa será das últimas a parar de extrair petróleo (destoando do discurso pró-ambiente feito por Lula, que chegou ao encontro embalado pela redução do desmatamento na Amazônia em seu governo).

A declaração de Prates não parece ter sido bravata porque, entre as benesses previstas nos planos de sua atual gestão, está a exploração de fontes até em Fernando de Noronha, ilha que é (ainda) um reduto de preservação da natureza. As emissões geradas pelos campos leiloados, no que foi chamado de Leilão do Fim do Mundo, se eles forem mesmo explorados, corresponderão ao volume que nosso país havia se comprometido a reduzir nos próximos seis anos, caso fosse mesmo cumprir a meta estabelecida no Acordo de Paris. Várias petições e manifestos contra esse acinte vêm circulando nas redes sociais, mas seu alcance é muito restrito e a população nem tem consciência do que está em questão.

Seria coincidência ser essa mesma Petrobrás uma grande acionista da Braskem, a maior empresa latino-americana no setor petroquímico e uma das maiores do mundo, com receita anual de quase 100 bilhões de reais – cobiçada pela mesma ADNOC dos anfitriões da COP 28 – e justamente a empresa que comeu Maceió? Não, não dá mais para acreditar em coincidências. Já ficou nítido que o sistema capitalista está disposto a dobrar a aposta com a natureza e seguir vampirizando o planeta até que este dê um basta e se livre, enfim, de uma espécie animal que parece insensível aos avisos dramáticos emitidos por ele.

No entanto, nesse “jogo”, quem sofre primeiro e mais intensamente são os seres vivos que não compartilham do poder de decisão que tais apostadores compulsivos detém. São animais e vegetais de todos os tipos e tamanhos, muitos ainda nem conhecidos por nós, que agonizam na jogatina. É a sexta extinção em massa vindo no galope de uma manada de veículos bebedores de gasolina que não cessa de crescer, ao contrário das expectativas geradas nas 27 COPs anteriores.

Só que nós, homens e mulheres sapiens, estamos dentro dessa teia biodiversa que se esfacela. E uma grande parcela da nossa espécie vem sendo continuamente devorada pela máquina de moer carne corporativa, pilotada por uma elite ínfima em tamanho e gigantesca em voracidade. O que dizer quando o 1% mais rico do planeta é responsável pela mesma pegada climática que os 5 bilhões mais pobres?

Segundo o relatório Desigualdade S.A. – Como o poder corporativo divide nosso mundo e a necessidade de uma nova era de ação pública (recém-lançado pela Oxfam para fazer um contraponto ao Fórum Econômico Mundial, que ocorreu de 15 a 19 deste janeiro de 2024), a riqueza dos cinco homens mais ricos do mundo cresceu 114% nos últimos 4 anos, ao mesmo tempo em que a riqueza detida por 5 bilhões de pessoas diminuiu. Isso significa que, se seguirmos esse ritmo, em 10 anos veremos surgir o primeiro trilionário e levaremos 230 anos para acabar com a pobreza.

Se números são uma abstração, carentes de emotividade, pense em uma multidão de pessoas que não tem o que comer, assistindo meia dúzia de indivíduos se banqueteando com todas as iguarias imagináveis e em volume incalculavelmente superior ao que precisam para viver e ao que a vida pode sustentar. Cruel, não é? O empanturramento desse grupelho hoje, significa a fome de todos, amanhã.

Não dá para deixar de perguntar quem são esses comilões e quem faz parte da multidão faminta. Homens, brancos, bilionários: se você não pode ser descrito ou descrita por esses três termos, tá fora do clube gourmet. Mas isso não significa que todo o restante pertence ao grupo de famélicos. Ele é composto majoritariamente por mulheres negras do sul global e, para dar uma noção dessa realidade, podemos mencionar o fato de que toda a riqueza que a população feminina africana detém conjuntamente equivale ao que 22 homens bilionários possuem. E vale lembrar que, mesmo assim, esse punhadinho de machos alfa não está nem um pouco satisfeito!

Mais veneno no horizonte

Bárbara Cruz / Greenpeace

O resultado dessa desigualdade brutal é que estamos vendo nosso mundo, em toda a sua vasta sociobiodiversidade, ser destruído em função do que é usufruído irresponsável e insaciavelmente por uma pequena “casta” de indivíduos humanos. Nesse redemoinho, as crises enfrentadas (atualmente e daqui pra frente), incluindo a crise climática, vão gerar consequências também muito desiguais, ampliando ainda mais o sofrimento de quem já luta para sobreviver e menos contribui com o processo de destruição em curso.

Para tentar contrabalançar a desfaçatez de quem estava nos debates oficiais da COP, a programação paralela abriu espaço para iniciativas menos sujeitas ao engessamento causado pelos lobbies de sempre. Um grupo de parlamentares ambientalistas da América Latina e do Caribe, integrantes do Observatório Parlamentar de Mudança Climática e Transição Justa (OPCC), por exemplo, propôs uma união em torno do que chamaram de Bancada Pelo Planeta. Com forte protagonismo de representantes dos povos originários, como a deputada federal brasileira Célia Xakriabá, o coletivo lançou um pacto baseado em três princípios: não regressão ambiental; prática baseada em evidências e diálogo social; transição justa, participação social e inclusão produtiva.

O documento está aberto para assinaturas de outros parlamentares de todo o mundo e talvez consiga fazer com que essa rede global ajude cada nação a enfrentar suas bancadas da bala, do boi e da bíblia, nas quais o negacionismo climático sempre é predominante. Dois meses antes, o Observatório já havia criado o que chamou de Plataforma Virtual e Monitor de Dados Legislativos, em que é possível acompanhar o que está sendo feito a nível legislativo nos 18 países integrantes da rede. Não chega a ser revolucionário, mas é uma ferramenta importante para o acesso à informação e o estímulo à integração da região e à participação social de seus habitantes no processo de transformação que precisamos fazer.

Eu consultei a Lei brasileira que regula os Agrotóxicos, que consta em sua versão vigente desde 1989, e não há menção, por enquanto, à aprovação do Pacote do Veneno pelo Congresso Nacional, tapa na cara que todos os nossos senadores, exceto a senadora Zenaide Maia, nos deram às vésperas da realização da COP, jogando uma batata fervendo (e tóxica) nas mãos do governo Lula. O prazo para o veto ou sanção presidencial ao estrupício ruralista, uma verdadeira bomba para a saúde da população e do ambiente, se encerrou no dia 27 de dezembro e, durante todo este tempo, os movimentos sociais fizeram ações constantes pelo veto integral por parte do presidente.

Pressionado pela bancada do trator e pelo Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Lula acabou optando pela sanção parcial, vetando apenas 14 pontos do famigerado PL, sendo o veto mais importante o que é referente ao artigo que retira o poder da ANVISA (órgão regulatório do Ministério da Saúde) e do IBAMA (instituto atrelado ao Ministério do Meio Ambiente) de participar ativamente da decisão de liberar novos agrotóxicos. Se o artigo constasse na Lei da forma como foi aprovado pelo Congresso, a tendência seria o aumento ainda mais acentuado de aprovação dessas substâncias, que já vem ocorrendo em ritmo recorde, acima de 500 novas liberações ao ano, muitas com alto teor toxicológico e proibidas em países da União Europeia. Mesmo no ano passado, já sob a nova administração, tivemos a aprovação de 557, queda de apenas 15% em relação ao aprovado em 2022, no governo anterior.

Agora, cabe a nós seguir na luta contra a derrubada de vetos pelos parlamentares e contra todo o processo de envenenamento que tem assolado nossa população. Vale lembrar que o último levantamento sobre a presença de resíduos dessas substâncias na nossa comida, recém divulgado pela ANVISA, mostra que um em cada quatro alimentos analisados têm níveis acima do permitido ou a presença de agrotóxicos proibidos no território nacional. E que a cada US$1 gasto na compra de agrovenenos, há um ônus de US$1,28 para o SUS, como menciona o Atlas dos Agrotóxicos, elaborado pela Fundação Heinrich Böll e também recém lançado.

O setor vem sendo alvo de discussões acaloradas mundo afora e, recentemente, a UE renovou a permissão do uso do glifosato, agrotóxico mais utilizado no mundo e comprovadamente cancerígeno, por mais 10 anos, em uma nítida demonstração de que mesmo seus habitantes, cujas vidas têm sido consideradas mais valiosas do que as da rapa planetária, como exposto no livro Colonialismo Químico, de Larissa Bombardi e já descrito em um artigo que escrevi anteriormente, também não estão a salvo do lobby veneneiro.

Vozes dissonantes ou ressonantes?

Voltando aqui pra Terra Brasilis, embora tenhamos assistido mais de 500 anos de massacre contra os povos originários, eles ainda resistem e representam a possibilidade de algum tipo de reequilíbrio socioambiental. É nos territórios indígenas e quilombolas que ainda encontramos os ecossistemas preservados, segurando os fios que compõem nossa teia vital para que ela não se dissolva frente à exploração humana. Não é por acaso que a reserva do Xingu tem uma temperatura média de 5 graus a menos que seu entorno, onde o agronegócio tóxico impera.

Mas a trama está cada vez mais frágil, a derrubada de vetos de Lula ao Marco Temporal, que o Congresso promoveu no dia 14 de dezembro de 2023, jogou mais lenha na fogueira que consome nossas matas e aquece o planeta, abrindo espaço para mais soja, mais gado, mais extração de minérios e muito menos vida. Os alertas desses povos, mesmo quando chegam a espaços de decisão como as COPs, não costumam ser ouvidos e os recursos prometidos em apoio ao papel que desempenham como guardiões das florestas quase não chegam às suas mãos.

Cacique Raoni, David Kopenawa, Txai Suruí, Ailton Krenak, Sônia Guajajara (hoje à frente do Ministério dos Povos Indígenas do Brasil) são algumas das lideranças indígenas que já lançaram suas flechas certeiras ao mundo, ao mostrarem como seus territórios seguem sob ameaça de destruição – o que tem implicações planetárias, pois isso representa a perda das condições vitais básicas da natureza da qual dependemos. Os pontos de inflexão, a partir dos quais não é mais viável recuperar o equilíbrio de biomas como a Amazônia, já estão próximos de virar realidade.

No livro A Queda do Céu, Kopenawa conta como seu povo, os Yanomami, tem sido, há décadas, alvo de extermínio devido ao garimpo na região, chegando, durante o desgoverno Bolsonaro, a um nível tão acentuado, que podemos falar em genocídio. Aqui vale dizer que, assim que assumiu a presidência, Lula tomou medidas para promover a expulsão dos garimpeiros, mas eles acabaram voltando no último trimestre do ano passado e colocando em risco a população indígena local, através da contaminação da água por mercúrio e da forma violenta com que agem.

Na virada de 2022 para 2023, as imagens de crianças esqueléticas em aldeias Yanomami chocaram quem assistiu às reportagens apresentadas na TV. Mas, depois do noticiário, sempre vem as novelas e os anúncios publicitários, a rotina segue, e a fome, tanto a que é sentida por crianças pelo mundo afora quanto a que é apresentada pela sociedade em relação ao consumo dos tais “recursos” naturais, se perpetua. Quem se coloca no caminho dessa perpetuação corre sérios riscos.

Há alguns meses, assistimos com tristeza a despedida de Maria Bernadete Pacífico, conhecida como Mãe Bernardete, líder quilombola que foi assassinada em sua casa no dia 17 de agosto de 2023. Sua voz havia destoado demais do coro do gado humano que costuma caminhar para o abatedouro sem reagir. Apesar da tal “cordialidade” atribuída ao Brasil, somos um dos países que mais matam ativistas no mundo e as taxas de assassinatos de mulheres quilombolas têm aumentado, como revela o relatório feito pela Terra de Direitos e pela Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (CONAQ), o que provavelmente tem relação com o fato de 99% de seus territórios, cerca de 5 mil no país, terem a natureza bem preservada – segundo o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal (PRODES), realizado entre 2008 e 2022 -, representando barreiras ao desmatamento em regiões como a Amazônia e o Cerrado.

A esses assassinatos podemos somar as mortes originadas pelo contínuo massacre sofrido pelo povo negro – ao qual Mãe Bernardete pertencia e era uma liderança reconhecida -, nas periferias urbanas do nosso imenso território. Uma pessoa negra foi assassinada a cada 4 horas no Brasil e pessoas negras constituíram 87% do total de vítimas fatais de ações policiais no país, durante o ano de 2022. Quem incomoda ou quem não interessa à manutenção do sistema costuma ser descartado, seja pela violência da bala, seja pela violência da miséria. E ambas as violências tendem a se agravar em um planeta que ferve.

Se calamos as vozes que nos alertam sobre o colapso civilizatório iminente ou se as ouvimos e não conseguimos assimilar realmente seu conteúdo por estarmos já anestesiados em um dia a dia baseado no consumo das tais, como diz Kopenawa, “mercadorias” – que hoje não se restringem à esfera material, já que uma série de produtos virtuais inundam nossas vidas, – deixamos de perceber que existe uma outra forma de existência humana e que não precisamos nos resignar à que nos é imposta pela elite devoradora do futuro. E o que piora o drama é que muitas dessas vozes estão se extinguindo.

No final de 2023, foi a vez do mestre Antônio Bispo dos Santos, ou Nêgo Bispo, como era conhecido, nos deixar. Embora sua morte não tenha sido obra de capangas a mando de mandatários de plantão e, sim, decorrente de um problema cardíaco, ela tocou fundo na alma das pessoas que fazem parte do movimento agroecológico. Integrante da Teia dos Povos, autor de livros como Colonização, quilombos: modos e significações e A Terra Dá, a Terra Quer, lavrador de alimentos e pensamentos, ele sempre nos presenteou com formas de compreender a vida que estavam a quilômetros-luz de distância das formas hegemônicas e denunciou veementemente a doutrinação que sofremos desde que nascemos para acreditar que as relações humanas precisam sempre ser mediadas pelo dinheiro e que o imediatismo é a única maneira de lidar com o tempo. E denunciava-anunciando, ao partilhar que o projeto de coletividade ao qual se dedicava tem como referência os próximos três mil anos!

Desmonoculturar e contracolonizar a vida

O fundamentalismo de mercado, contra o qual Bispo lutou, usa as demais esferas passíveis de doutrinações fundamentalistas, como a religiosa, a de gênero e a étnico-racial, para nos fazer acreditar que manter a lógica capitalista, com sua estrutura patriarcal, que pressupõe a supremacia branca cristã, é a única possibilidade para que possamos existir enquanto humanidade, o que não apenas é falso, mas que é justamente o oposto do que é necessário fazer. Ouvir pessoas que viram essa lógica do avesso, como Nêgo Bispo e sua proposta “envolvimentista” de existência, mencionada em oposição ao império da busca pelo tal desenvolvimento infinito – seja ele acompanhado de palavras mais “verdes”, como sustentável, ou não -, pode fazer com que algo estrale de repente em nossa consciência.

Colonizados fomos e colonizados estamos, no cerco imposto pelas monoculturas físicas e mentais – sempre bem disfarçadas pelas falsas afirmações de diversidade – e, se não percebermos que há outras formas de existência, colonizados seremos até que o colapso ambiental nos mostre que o ser humano não manda nos demais seres e forças da natureza e que o sistema que tenta impor ao planeta não tem a menor sustentação. O rompimento dessa servidão ao Deus mercado, às vezes apelidado “carinhosamente” de PIB, passa por abrir os ouvidos para as vozes das florestas, das águas e dos campos e deixar que elas insuflem em nós as chamas da re-existência.

É assim que poderemos juntar a ancestralidade com o por vir, entender como se deu a formação da realidade atual, olhar para os antigos saberes dos povos do mundo e descobrir como podemos nos inspirar em experiências diferentes de existência para transformar essa realidade, abrindo espaço para que surja uma nova forma do que é chamado de Bem-viver. Perceber que não estamos fadados ao que se apresenta de forma majoritária no presente, mas que existiram e ainda existem outras maneiras de nos relacionarmos com a natureza da qual somos parte, é um verdadeiro despertar, a partir do qual a jornada rumo ao futuro pode ser trilhada com mais esperança.

A Agroecologia desponta nesse caminhar, ao unir as dimensões sociais, como justiça socioeconômica, alimentação saudável e saúde popular, com as dimensões ambientais, como a restauração dos ecossistemas e o cuidado com o solo e os cursos hídricos, para que sejam livres de contaminação. Ela é a bandeira viva que nossos movimentos costuraram, através do trabalho de milhões de mãos de todas as cores, para empunhar na luta contra o mecanismo que está gerando o caos planetário. As sementes que estão sendo plantadas diariamente por essas mesmas mãos vão brotar e gerar novas sementes, demonstrando o que dizia Nêgo Bispo: que, no modo de viver dos povos originários e afro-confluentes, não há começo, meio e fim, mas há começo, meio e começo novamente.

Então, se podemos ter a possibilidade de começar, por onde poderia se dar esse novo começo? Cuidar do céu, limpando seus ares de tantos gases estufadores (ou descarbonizando-o, como dizem os cientistas) para que ele não caia. Cuidar da terra, ao deixar de remover irresponsavelmente os seres minerais que estão abaixo de sua superfície e voltar a nos dedicar a nutrir a fertilidade das camadas nas quais pisamos, para que o chão não suma, o abismo não nos engula e a fome não nos devore. Trocar as monoculturas que nos oprimem pelas pluriculturas que nos libertam.

anúncio de confirmação de que haverá a realização da Cúpula dos Povos da COP 30 em 2025 no Brasil, feito durante a COP 28, representa um gesto nessa direção, trazendo as vozes que são dissonantes em relação ao poder econômico, mas estão em ressonância com a natureza, para assumirem o protagonismo no debate sobre os rumos planetários (já que os representantes oficiais dos países nesses encontros seguem em marcha lenta em relação às decisões necessárias, como mostram os resultados do documento consensual).

E essas vozes também protagonizaram um outro encontro fundamental para a população brasileira: a 6ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CNSAN), realizada entre os dias 11 e 14 de dezembro de 2023, sob organização do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), após um amplo processo de conferências municipais e estaduais. A presença das mulheres negras na condução das atividades do encontro foi uma demonstração de que a hegemonia branca patriarcal não tem nada a ver com a conquista do alimento saudável e biodiverso no prato do povo. Vale conferir o Manifesto pela Erradicação da Fome e pela Garantia do Direito à Comida de Verdade, Democracia e Equidade, lido ao final do encontro com a síntese do que foi debatido.

Sim, nossas Mães de gentes e de santos renovaram as energias da luta, seja nas declarações que deram nos debates sobre o que é realmente Soberania Alimentar, seja nos atos simbólicos realizados para marcar a confluência entre a Conferência Popular de SAN – que se constituiu como alternativa durante o vazio gerado pelo fim do CONSEA durante os anos Bolsonaro – e a Conferência Nacional de SAN – que voltou triunfante para ressoar as vozes de quem nutre as barrigas e as almas dos povos em nossos territórios!

Entretanto, para quem preferir ouvir vozes menos “alternativas”, é possível encontrar “inspiração” na frase de um comunicado da Braskem sobre como a situação em Maceió pode se desenvolver: “um cenário é de acomodação gradual e estabilização; o segundo é uma possível acomodação abrupta”. Ou, ainda, ficar com a fala do prefeito de Maceió à CNN Brasil: “a boa notícia é que conseguimos evacuar toda essa área” – o que, no nosso caso, seria o equivalente a evacuar “todo esse planeta”.

Eu fico com nossas Mães e nossos Nêgos, e você?

Susana Prizendt, arquiteta urbanista, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e do Movimento Urbano de Agroecologia – MUDA.


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Este texto foi originalmente publicado pelo Midia Ninja [Aqui!].

Estudo mostra que os investimentos em pesquisas sobre biodiversidade secundariza instituições sediadas na Amazônia

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A Amazônia brasileira é uma das regiões de maior biodiversidade e ecologicamente importantes da Terra. No entanto, segundo um estudo que se encontra no prelo para publicação pela revista Perspectives in Ecology and Conservation, os investimentos em pesquisa para a biodiversidade nos biomas amazônicos são desproporcionalmente baixos em comparação com outras regiões do Brasil (Ver figura abaixo).

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Distribuição de recursos financeiros para projetos de pesquisa e bolsas entre macrorregiões brasileiras. As bolsas representam o número de bolsas individuais de mestrado, doutorado e pós-doutorado financiadas pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Ensino Superior) para a área de biodiversidade em 2022; O orçamento do projeto é o investimento realizado por Bolsas Universais financiadas pelo CNPq relacionadas à Botânica, Zoologia, Ecologia e Limnologia entre 2016 e 2022; O orçamento do PELD são os recursos entregues pelo CNPq em 2020 para monitoramento de locais de Pesquisa Ecológica de Longa Duração, conforme situação da instituição executora. Todos os valores foram calculados considerando a conversão monetária da moeda de 1 USD para 5,34 BRL. A coluna (A) indica os valores totais; (B) a relação entre os valores totais e a população total de cada macrorregião (IBGE, 2022); e (C) a relação entre os valores totais e a área total (km²) de cada macrorregião.

Os autores do estudo mostram que em 2022, a Amazônia recebeu 13% das bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado e abrigou 11% de todos os pesquisadores que atuam em programas de pós-graduação em biodiversidade.

Além disso, os dados levantados pelos autores do estudo mostram que as instituições amazônicas receberam aproximadamente 10% de todo o orçamento federal gasto em subsídios e bolsas de estudo e cerca de 23% de todos os recursos destinados ao apoio a sítios ecológicos de longo prazo.  Por outro lado, as cidades de Manaus e Belém concentram cerca de 90% de todas as bolsas e bolsas disponíveis para toda a região.

Um fato relevante que é mostrado no estudo é que, apesar do investimento per capita em pesquisa na Amazônia ser igual ou melhor do que o disponível para as regiões economicamente mais desenvolvidas do Brasil, a distribuição de recursos por área é altamente desigual.

Finalmente, os autores do estudo argumentam que o aumento do financiamento da pesquisa para a região amazônica requer contribuições diferenciadas das agências federais e mais colaborações transnacionais e integração entre programas amazônicos e fundos internacionais.

Os níveis das águas subterrâneas estão caindo rapidamente em todo o mundo, muitas vezes em taxas aceleradas

Declínios rápidos são mais comuns em aquíferos sob terras agrícolas em regiões mais secas, incluindo a Califórnia, como mostra a análise mais extensa das tendências das águas subterrâneas até agora

Irrigação de milho suprida por águas subterrâneas em Kabwe, Zâmbia. Crédito: Mark Hughes

Por Liza Gross para o Inside Climate News

O abastecimento de água subterrânea está a diminuir nos aquíferos em todo o mundo, concluiu um novo estudo inovador, com as taxas de declínio a acelerarem ao longo das últimas quatro décadas em quase um terço dos aquíferos estudados.

Muitos centros agrícolas enfrentam um futuro incerto, uma vez que o aquecimento do clima ameaça a disponibilidade de água em todo o mundo. As águas subterrâneas há muito que funcionam como amortecedores climáticos, fornecendo uma fonte de água doce para comunidades com chuvas pouco fiáveis. Mas a actividade humana desencadeou um ciclo de retroalimentação que está a colocar em risco este recurso crucial: décadas de combustão descontrolada de combustíveis fósseis causaram secas mais frequentes e graves, o que por sua vez levou a uma maior dependência das águas subterrâneas.

Na Califórnia, os produtores trataram os aquíferos subterrâneos como fontes ilimitadas de água até que o estado finalmente começou a regular as águas subterrâneas, há uma década. Nessa altura, o bombeamento irrestrito já tinha deixado mais de 20 bacias de águas subterrâneas do estado – linhas vitais para muitos sistemas comunitários de água potável – “criticamente sobrecarregadas”.

A nova investigação, publicada quarta-feira na revista Nature , mostra que a Califórnia não está sozinha na falha na salvaguarda de um recurso crítico.

Os declínios foram mais prevalentes, e caíram mais rapidamente, em regiões mais secas com agricultura extensiva, descobriu uma equipe internacional liderada por pesquisadores da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara e ETH Zurique, analisando dados de satélite em combinação com poços de monitoramento individuais em mais de 40 países. . A irrigação é responsável por cerca de 70% das retiradas globais de água subterrânea, e os investigadores descobriram que os níveis de água subterrânea em rápido declínio estavam “virtualmente ausentes” em terras não cultivadas.

Ainda assim, as notícias não são de todo ruins. As perdas de águas subterrâneas a longo prazo “não são universais nem inevitáveis”, observa a equipa.

“O rápido e acelerado declínio das águas subterrâneas está, infelizmente, generalizado em todo o mundo”, disse Scott Jasechko, especialista em recursos hídricos da UC Santa Barbara que co-liderou o estudo. “Mas também encontramos casos em que as tendências de declínio das águas subterrâneas foram revertidas após intervenções inteligentes.”

Em quase metade dos casos analisados, os níveis das águas subterrâneas que estavam a diminuir abrandaram (20 por cento), inverteram o seu declínio (16 por cento) ou aumentaram (13 por cento). As reversões resultaram, em grande parte, da implementação de políticas ou regulamentos que se voltaram para fontes alternativas, como água reciclada ou desvios de caudais de rios, utilizaram taxas escalonadas ou mais elevadas para o consumo de água ou reabasteceram ou recarregaram intencionalmente aquíferos com água de outras fontes.

A pesquisa baseia-se em trabalhos anteriores de Jasechko e Debra Perrone, especialista em sustentabilidade hídrica da UC Santa Bárbara que também contribuiu para o artigo da Nature. No estudo anterior, publicado na Science , analisaram a profundidade de quase 40 milhões de poços de água subterrânea que abastecem famílias e explorações agrícolas em todo o mundo. Eles descobriram que milhões de poços eram tão rasos – penetrando apenas 5 metros, ou 16,4 pés, nas águas subterrâneas – que poderiam secar, mesmo com quedas modestas nas águas subterrâneas.

“Já estamos vendo evidências claras de poços secando impactando comunidades e famílias no sul do Vale Central da Califórnia”, disse Jasechko, referindo-se a uma das regiões agrícolas mais ricas do mundo.

Uma motivação para este projecto, disse ele, foi colocar o declínio das águas subterrâneas da Califórnia num contexto global mais amplo. Assim, a dupla juntou-se a outros importantes especialistas em água para controlar as mudanças nos níveis das águas subterrâneas ao longo do tempo, revisando medições feitas em poços usados ​​apenas para monitoramento.

Poço de água subterrânea com equipamento de monitoramento de nível de água localizado na Reserva Jack e Laura Dangermond, na Califórnia.  Crédito: Scott Jasechko.

Poço de água subterrânea com equipamento de monitoramento de nível de água localizado na Reserva Jack e Laura Dangermond, na Califórnia. Crédito: Scott Jasechko.

Começaram com cerca de 300 milhões de medições do nível da água a partir de 1,5 milhões de poços de monitorização e determinaram os limites dos aquíferos a partir de estudos anteriores. Mas para detectar uma tendência, necessitaram de um mínimo de duas medições durante o século XXI, separadas por pelo menos oito anos. Isso deixou-os com 170.000 poços em quase 1.700 aquíferos em todo o mundo – o maior conjunto de dados alguma vez compilado a uma escala tão local.

A análise mostra que os rápidos declínios no nível das águas subterrâneas de meio metro por ano (cerca de 1,6 pés) são generalizados, disse Jasechko. “E o que isso significa na prática, em locais onde os poços não estão mais de cinco metros abaixo do lençol freático, é que esses poços secariam na próxima década se os níveis das águas subterrâneas continuarem a diminuir meio metro por ano.”

Eles também descobriram que as taxas de declínio do nível das águas subterrâneas em algumas áreas na porção sul do Vale Central e no Vale Cuyama adjacente estão entre as mais altas do mundo, disse Jasechko.

Os aquíferos na Índia também registaram graves declínios, juntamente com regiões menos estudadas, incluindo um centro agrícola no Irão, a planície ocidental de Qazvin.

“Eles fizeram um ótimo trabalho ao reunir muitas fontes de dados díspares para esclarecer essa questão”, disse Ellen Hanak, pesquisadora sênior do Instituto de Políticas Públicas, sem fins lucrativos, do Centro de Políticas Hídricas da Califórnia, que não esteve envolvida no a pesquisa.

O estudo fornece insights em nível local que serão realmente úteis para quem analisa as questões das águas subterrâneas em muitas partes diferentes do mundo, disse Hanak.

Lacunas e oportunidades

Estudos anteriores analisaram o esgotamento das águas subterrâneas à escala global, mas basearam-se em dados de satélite ou de modelização, que não revelam as condições do mundo real a nível local. A equipe de Jasechko também usou dados de satélite para coletar insights sobre locais que não possuíam dados sobre poços individuais, recorrendo a satélites implantados como parte de uma colaboração NASA-Alemanha chamada missão Gravity Recovery and Climate Experiment, ou GRACE . Como as flutuações nos níveis da água podem afetar a gravidade, os cientistas podem usar satélites que detectam mudanças na gravidade da Terra para rastrear a dinâmica da água subterrânea em grande escala.

Uma das contribuições deste artigo é o incrível conjunto de dados globais que a equipa reuniu, ao mesmo tempo que destacou lacunas, disse Donald John MacAllister, especialista em águas subterrâneas do British Geological Survey que revisou o artigo. “Ainda existem grandes partes da superfície da Terra que ela não cobre.”

O estudo cobre cerca de três quartos das retiradas globais de águas subterrâneas, incluindo todas as remoções significativas, com a Índia, o Paquistão e os Estados Unidos entre os maiores, disse MacAllister. Mas existem lacunas significativas na China, que é um “grande utilizador de águas subterrâneas”, disse ele. “E existem lacunas realmente grandes em África, onde penso que as águas subterrâneas serão cruciais no futuro para a resiliência climática e a resposta à seca, e também na América do Sul.”

Dito isto, acrescentou, “este tipo de análise global nunca foi feito antes”.

Os dados eram inacessíveis ou ausentes em alguns países, disse Richard Taylor, professor de hidrologia na University College London que contribuiu para o novo estudo. Mas também há bastante informação em alguns lugares que ele visita com frequência, disse ele, como a África tropical. Simplesmente não existe na forma necessária para o estudo.

Ter dados durante um período de tempo mais longo tem a vantagem de permitir aos cientistas compreender como as águas subterrâneas respondem às alterações climáticas e à utilização humana, disse Taylor, especialista em garantir o acesso à água potável e para irrigação em países tropicais de baixos rendimentos.

E em muitos locais onde a informação de poços individuais não estava disponível, as evidências provenientes de observações de satélite e de estudos de modelação sugerem que o declínio das águas subterrâneas pode ser ainda mais generalizado do que a equipa conseguiu confirmar.

“Acho que um caminho promissor para pesquisas futuras seria reunir os pontos fortes das tecnologias baseadas em satélite, como o GRACE, e os pontos fortes das observações do nível das águas subterrâneas localmente relevantes que estamos relatando aqui”, disse Jasechko.

Ao contrário das observações baseadas em satélite, as informações dos poços de monitorização estão ligadas a aquíferos individuais, disse Taylor. Isso significa que as pessoas podem agir porque agora têm informações sobre locais precisos. Também mostra que o detalhe é importante, disse ele. “Uma das surpresas para nós é que temos sistemas aquíferos lado a lado que estão se esgotando e que estão sendo recuperados.”

Isto levanta a questão de saber por que razão um sistema aquífero – que consiste num ou mais aquíferos ligados – estaria a drenar e outro a recuperar em locais com agricultura, clima e geologia semelhantes, disse Taylor. “Equipado com esse tipo de informação, torna-se um pouco menos apocalíptico e um pouco mais, ei, podemos fazer algo sobre isso.”

Revertendo Declínios

Aproximadamente metade da população mundial, incluindo cerca de 145 milhões de americanos, obtém água potável de águas subterrâneas.

As águas subterrâneas oferecem um nível de resiliência que não se obtém com as águas superficiais, disse MacAllister. “À medida que temos alterações climáticas, secas crescentes e chuvas extremas, as águas superficiais respondem quase imediatamente, enquanto as águas subterrâneas são protegidas disso.”

As águas subterrâneas ainda não foram desenvolvidas como um recurso em muitas partes do mundo, mas são claramente necessárias, disse ele, apontando para a África Oriental, que enfrenta uma seca de seis anos.

E embora o novo estudo forneça uma imagem sombria do estado precário de um recurso do qual dependem milhares de milhões de pessoas, disse MacAllister, é importante reconhecer locais onde as soluções mudaram a situação.

Uma região da Arábia Saudita, por exemplo, pareceu conter a velocidade das suas perdas com políticas que reduziram a procura agrícola. A bacia de Abbas-e Sharghi, no Irão, conseguiu reverter o declínio no final do século passado, desviando a água de uma barragem próxima, enquanto Tucson, no Arizona, reverteu o declínio com projectos de recarga de aquíferos que reabastecem as águas subterrâneas, colocando água de outras fontes em bacias, onde ele vaza de volta para o aquífero.

Aprender com estes tipos de medidas tornar-se-á cada vez mais importante à medida que as áreas agrícolas registam mudanças na disponibilidade de água, especialmente em regiões destinadas a secas mais frequentes e mais severas.

“Descobrimos que em mais de 80% dos locais onde o declínio das águas subterrâneas se acelerou, houve uma redução na precipitação total nos últimos 40 anos”, disse Jasechko. Esta relação, acrescentou, “sugere uma ligação entre a variabilidade climática e a mudança do nível das águas subterrâneas”.

Irrigação alimentada por águas subterrâneas por meio de uma bomba elétrica no sudoeste de Bangladesh.  Crédito: Ahmed Ziaur Rahman
Irrigação alimentada por águas subterrâneas por meio de uma bomba elétrica no sudoeste de Bangladesh. Crédito: Ahmed Ziaur Rahman

As alterações na precipitação podem exacerbar a procura das águas subterrâneas.

Digamos que um agricultor normalmente irrigasse as plantações com água superficial alimentada pela neve que derreteu de abril a agosto, explicou Taylor. Então, uma mudança na precipitação de neve para chuva não apenas reduziu a camada de neve, mas também alterou o volume e a distribuição de sua água de degelo, de modo que toda a água tenha desaparecido em maio.

Como resultado, os agricultores a jusante que anteriormente dependiam de águas superficiais para irrigação estão agora a utilizar águas subterrâneas em Junho em vez de Setembro, disse Taylor. “Isso cria uma espécie de maior dependência dos recursos hídricos subterrâneos como fonte de irrigação.”

Também levanta a questão da seleção de culturas, disse ele. “Porque é que estamos a cultivar culturas que exigem muita água numa área que não tem muita água?”

Taylor aponta para uma história de sucesso inspiradora no centro-oeste do Bangladesh, uma das regiões mais pobres do país, com o esgotamento mais grave das águas subterrâneas. Eles conseguiram reabastecer as águas subterrâneas mudando do arroz para o trigo, juntamente com um esquema de recarga de aquíferos, disse ele.

Ele reconhece que é um desafio dizer às pessoas para pararem de cultivar culturas das quais depende a sua subsistência. Mas se os produtores de uma região que era o quarto maior produtor de arroz do mundo puderem mudar, isso oferecerá lições para os produtores de lugares como a Califórnia, disse ele.

Para Hanak, do Instituto de Políticas Públicas da Califórnia, o estudo levanta a questão: o que pressagiam as tendências encontradas pelos autores? Em alguns lugares, será possível encontrar água para usar como substituto ou para reabastecer aquíferos, disse ela, e em alguns lugares isso não acontecerá. O desafio será provavelmente maior nas regiões agrícolas onde as alterações climáticas estão a reduzir a disponibilidade.

“Haverá um acerto de contas de uma forma ou de outra”, disse Hanak. Isso pode acontecer através de regras de gestão que reduzam as alocações ou através da queda dos níveis de água a tal ponto que se torne demasiado caro continuar a bombear.

Jasechko espera que o estudo inspire cientistas, legisladores e gestores de águas subterrâneas a agirem de acordo com as descobertas.

“As águas subterrâneas são uma das nossas melhores proteções contra a variabilidade e as mudanças climáticas no futuro”, disse Jasechko. “Gerenciar isso com sabedoria é do nosso interesse, dadas as incertezas inerentes ao que vem a seguir.”


Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Inside Climate News [Aqui!].

Maior hospital do sul de Gaza colapsa e população fica sem opção de atendimento

“Todo o sistema de saúde ficou inoperante”, alerta coordenadora médica de MSF na Palestina

NASSER

Em meio a intensos conflitos e bombardeios em Khan Younis, no sul de Gaza, na Palestina, serviços médicos essenciais entraram em colapso no hospital Nasser, atualmente a maior instalação de saúde em funcionamento no enclave. Médicos Sem Fronteiras (MSF) lamenta essa situação, que deixa pessoas sem opções de tratamento em caso de um grande fluxo de feridos de guerra.

A maioria dos profissionais do hospital, juntamente com milhares de pessoas deslocadas que procuraram abrigo no local, fugiram nos dias que antecederam a ordem de evacuação das áreas ao redor da instalação médica dada pelas forças israelenses. A capacidade cirúrgica do hospital é agora quase inexistente, e a equipe médica que permanece precisa lidar com a pouca quantidade de suprimentos, insuficiente para situações de vítimas em massa, ou seja, um grande fluxo de pessoas feridas.

Entre 300 e 350 pacientes permanecem no hospital Nasser, impossibilitados de evacuar porque é muito perigoso e não há ambulâncias. Essas pessoas têm lesões relacionadas à guerra, como ferimentos abertos, lacerações por explosões, fraturas e queimaduras. Em 24 de janeiro, pelo menos um paciente do hospital morreu porque não havia cirurgião ortopédico disponível.

 “A vida das pessoas está em risco por causa da falta de cuidados médicos. Com [o hospital] Nasser e o hospital Europeu de Gaza quase inacessíveis, não há mais um sistema de saúde em Gaza”, disse Guillemette Thomas, coordenadora-médica de MSF na Palestina. “Esses ataques sistemáticos a instalações de saúde são inaceitáveis e devem terminar agora para que os feridos possam receber os cuidados de que precisam. Todo o sistema de saúde ficou inoperante.”

Rami*, profissional de enfermagem de MSF que está dentro do hospital Nasser, descreveu a impotência que sentiu durante uma situação com vítimas em massa, que trouxe 50 feridos e cinco mortos para a sala de emergência da unidade, em 25 de janeiro.

“Não havia profissionais na sala de emergência do hospital Nasser. Não havia leitos, apenas algumas cadeiras e nenhuma equipe, apenas alguns enfermeiros”, relatou Rami. “Levamos os pacientes à sala de emergência para prestar primeiros socorros. Lidamos com o que tínhamos, tentamos estancar o sangramento e classificar os pacientes lá. Foi uma situação horrível e realmente me afetou psicologicamente.”

Suprimentos básicos, como compressas de gaze, estão acabando.

“Fui à sala de cirurgia hoje para receber um paciente em nosso departamento e perguntei aos poucos profissionais restantes se eles poderiam fornecer gaze abdominal”, lembra Rami. “Eles disseram que não tinham nada sobrando e que as que tinham já estavam sendo usadas em vários pacientes.”

“Eles usam uma vez, depois espremem o sangue, lavam, esterilizam e reutilizam com outro paciente”, continua Rami. “Esta é a situação na sala de cirurgia, você pode imaginar?”

O Hospital Europeu de Gaza é a segunda maior instalação no sul de Gaza, depois do hospital Nasser, com uma grande capacidade cirúrgica. Hoje, a instalação também está inacessível para a equipe médica e a população, pois suas áreas vizinhas estão sob ordem de evacuação.

Os hospitais precisam permanecer como espaços protegidos, e as pessoas e os profissionais médicos devem ter permissão para acessar e fornecer cuidados médicos.

Hoje, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) emitiu uma decisão preliminar determinando que Israel evite atos de genocídio contra palestinos e tome medidas imediatas para melhorar a situação humanitária em Gaza. Embora este seja um passo significativo, apenas um cessar-fogo sustentado pode impedir a perda de mais vidas civis, permitir o fluxo de assistência humanitária e suprimentos vitais para 2,2 milhões de pessoas que vivem no enclave.

*Por razões de segurança, Rami pediu que seu sobrenome não fosse usado.

Navio do Reino Unido completa 15 dias encalhado diante do Porto do Açu

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As causas do incidente já estão sendo apuradas pela autoridade marítima, e o porto segue monitorando para que o desencalhe seja concluído o quanto antes. (Crédito: Reprodução / Redes Sociais)

Por Isto É

Um navio do Reino Unido está há pelo menos 15 dias encalhado no mar de São João da Barra (RJ). A embarcação, que carregava minério de ferro, saiu de Porto do Açu, localizado no norte do Rio de Janeiro, quando encalhou, e há equipes fazendo monitoramento para saber as causas do acidente e possíveis danos causados.

A Marinha do Brasil informou que o navio Mercante “M/V CARO”, empregado no serviço de transporte de minério, tinha como destino o Bahrein, no Oriente Médio. A embarcação encalhou com prático a bordo, a aproximadamente uma milha náutica do Terminal 1 do porto.

Um Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação foi instaurado para apurar causas, circunstâncias e possíveis responsabilidades sobre o encalhamento. Concluído o inquérito, o documento deve ser encaminhado ao Tribunal Marítimo.

Duas empresas de salvamento foram contratadas e estão finalizando o Plano de Salvamento sob a orientação da Marinha. Está marcada para os próximos dias uma reunião entre o representante do Navio, o Instituto Estadual do Ambiente e a Marinha para estabelecer um Plano de Proteção ao meio ambiente.

Segundo nota, o Porto do Açu tem prestado suporte ao armador da embarcação chamada M/V Caro, que segue encalhada a 4 km da costa, fora do canal de navegação. Não há registros de que o navio esteja afetando o fluxo de embarcações que acessam os terminais do Porto do Açu. “Não ocorreram danos a pessoas e ao meio ambiente”, reforça a equipe do porto.

As causas do incidente já estão sendo apuradas pela autoridade marítima. O desencalhe do navio está previsto para o mês de fevereiro, onde será realizado o alívio da carga.


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Este texto foi inicialmente publicado pela revista “Isto É” [Aqui!].

Sul Global paga caro pelo uso de venenos agrícolas, revela o novo Atlas dos Agrotóxicos

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Por Matheus Lopes Quirino para a Mongabay Brasil

O Brasil está no topo dos países que mais importam e consomem agrotóxicos no mundo. Só no final de 2023, foi aprovada, com vetos, a PL 1459/2022, conhecida entre ambientalistas como “PL do Veneno, lei que flexibiliza a utilização de pesticidas em todo o país.

São mais de 3 mil agroquímicos registrados hoje em território nacional, número que dobrou entre os anos de 2010 e 2021. Desse montante, 49% dos produtos são considerados altamente perigosos, como mostram dados publicados no recém-lançado Atlas dos Agrotóxicos, editado pelo braço brasileiro da fundação alemã Heinrich Böll.

Ao compilar dados de forma inédita sobre a ação de determinados produtos no solo, no ar e nas águas, o atlas joga luz em questões sobretudo comunitárias, como a insegurança alimentar, a pobreza e a influência de empresas do ramo em políticas públicas – além de estudos sobre o impacto dos agrotóxicos em vários campos, como o econômico, o ecológico e o social.

O gráfico acima revela que foram encontrados resíduos de agrotóxicos em mais da metade das amostras de 14 alimentos; 23% estão acima do Limite Máximo de Resíduos permitido pela Anvisa. Entre os mais contaminados, estão o pimentão, a cenoura e o tomate. Imagem: Atlas dos Agrotóxicos

“Um dos objetivos do mapa é visibilizar o trabalho de pesquisadores de todo o país”, conta Marcelo Montenegro, coordenador de programas e projetos de justiça socioambiental da fundação no Brasil. Para ele, a mudança de paradigma pode acontecer quando a perspectiva regional for sobreposta à visão econômica. “O pensamento tem que ser feito a partir do ambiental, do local, ao invés do econômico. Hoje, continua-se usando agrotóxico para resolver o problema, não a causa do problema.”

Neste processo, uma máxima do filósofo inglês Thomas Hobbes parece pautar o debate: se os fins justificam os meios, agir com o intuito de produzir alimentos em larga escala é ir de encontro com o projeto da Revolução Verde, que incentivou as monoculturas pelo mundo – e popularizou o uso de pesticidas também.

No atlas, a pesquisadora Julia Dolce, co-editora da publicação, escreve sobre as falhas dessa política implementada no Brasil na década de 1960 e faz paralelos com problemas contemporâneos. Um deles está nas recentes nomenclaturas e readequações para tornar produtos mais ‘verdes’. Um rebranding, uma maquiagem para a comercialização desses insumos danosos para a agricultura.

Ao mesmo tempo, a fome, fantasma que assombrou o Brasil nos últimos anos, voltou, atingindo 15,5% da população. Um indício de que o aumento da produção de alimentos favorecida pelos pesticidas não foi capaz de combater a insegurança alimentar – como mostra o gráfico abaixo, produzido com dados da Rede Penssan e publicado no Atlas dos Agrotóxicos.

Pesquisas regionais, perspectivas globais

Por meio de artigos de ativistas e ambientalistas de vários biomas do Brasil, a Fundação Heinrich Böll pretende pautar o debate público para a revisão e a implementação de políticas regulatórias para o consumo dos agrotóxicos.

Hoje, por exemplo, a quantidade de resíduo do herbicida glifosato encontrado em amostras de água potável no Brasil é 5 mil vezes maior do que na União Europeia. Usado para o controle de ervas daninhas, o glifosato é danoso para espécies polinizadoras, como as abelhas – um dos maiores e mais recentes problemas da fauna brasileira.

“Herbicidas como o glifosato e 2,4-D provocam uma redução de organismos vivos do solo”, pontua a pesquisadora Francileia Paula de Castro. “Pesquisas realizadas com minhocas expostas a concentrações de glifosato por períodos incubatórios mostraram redução de peso – com perda de até 50% –, parada reprodutiva e notórias alterações morfológicas, podendo [estes organismos] inclusive desaparecer de plantações que usam este ingrediente ativo”.

Como relembra o Atlas dos Agrotóxicos, o glifosato é potencialmente cancerígeno para os humanos, assim como outros herbicidas amplamente vendidos também causam sérios danos à saúde: a atrazina, por exemplo, é um desregulador hormonal, e o paraquat pode causar intoxicações fatais.

A pesquisadora em Saúde Pública Aline do Monte Gurgel, em seu artigo sobre a presença de pesticidas na água publicado no atlas, mostra como a questão começa antes da própria vida, no ventre das mulheres: “Há também um recorte de gênero nestas intoxicações, posto que as mulheres têm sofrido em seus próprios corpos os desdobramentos delas: seja por resíduos de agrotóxicos encontrados no leite materno, seja pelos casos de abortos em função da exposição aos agrotóxicos, seja ainda por gerarem bebês com malformação fetal e/ou que apresentam puberdade precoce nos primeiros anos de vida”.

Ao longo da edição, mapas elaborados com base em pesquisas de institutos, com dados checados pela Agência Lupa, mostram vários gargalos do agronegócio, como a contaminação do milho por defensores agrícolas. Como hoje 96% da produção do alimento é transgênica, Castro trouxe os perigos da contaminação cruzada na cultura do grão – que é importado para diversos países do globo.

Nos últimos anos, a União Europeia aprovou uma série de medidas para controlar o uso de agrotóxicos em suas plantações sem deixar, no entanto, de os produzir em larga escala. A exportação de insumos para países do Sul Global é uma faca de dois gumes.

Em um levantamento recente, compilado no Atlas dos Agrotóxicos, dados que mostram como resíduos de defensivos agrícolas proibidos em países como França e Alemanha são encontrados em alimentos consumidos nas dietas locais. “As commodities brasileiras entram em solo europeu com uma espécie de consentimento”, alerta Montenegro, citando uma das medidas mais polêmicas da Convenção de Roterdã.

“Essas empresas acabam produzindo e exportando para países como o Brasil, mas o impacto volta para os países do norte. É um problema global, porque existem poucos processos internacionais em que se pode debater essa questão. É preciso de um marco global para se regular a questão dos agrotóxicos”, ressalta Montenegro.

Para complementar a questão, a pesquisadora Katrin Wenz, em seu artigo no atlas, mostra o impacto dessas substâncias no pólen e néctar de plantas tratadas com agrotóxicos, citando um estudo de 2017 revelador: “75% de todas as amostras de mel do mundo todo continham pelo menos um neonicotinoide, conhecido por ser prejudicial às abelhas”.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Mongabay Brasil [Aqui!].

Moeda, uma cidade contra a mineração da Gerdau

Moeda, município próximo a Belo Horizonte, luta contra o avanço de mina de ferro da Gerdau

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Por Lara Machado para a Piauí

Quem vai de Belo Horizonte ao município de Moeda passa por oito áreas de mineração ativas em uma viagem que dura menos de uma hora. É a região do centro-sul mineiro conhecida como Quadrilátero Ferrífero, com a maior produção nacional de minério de ferro bruto. A economia de Moeda, porém, não depende do minério. Seus 5 125 moradores vivem sobretudo do turismo ecológico. A cidade está próxima de uma área de preservação ambiental rica em cachoeiras, nascentes e espécies nativas: o Monumento Natural Estadual (Monae) Serra da Moeda.

Desde 2012, o Plano Diretor de Moeda proíbe a mineração. O município é o único dos 34 da Região Metropolitana de Belo Horizonte em que não se extrai minério. Apesar disso, os limites de Moeda estão sendo afetados pela Mina Várzea do Lopes, explorada pela Gerdau, a maior produtora de aço do país, na cidade vizinha de Itabirito. Em seu plano de expansão, a empresa quer explorar 8,86 hectares (equivalente a oito campos de futebol) de uma área que pertence a Moeda.

Os planos dos moradores, no entanto, não incluem a empresa. “A população da cidade tem o maior pavor de falar em mineração”, diz o ambientalista Cléverson Vidigal. “A vocação do município é para o turismo e para a agricultura familiar. É uma área conservada ambientalmente, rica em história e cultura, que atrai os turistas para a região.”

Desde 2013, Vidigal, agrônomo aposentado de 67 anos, vem armazenando dados em um mapa topográfico da Serra da Moeda para documentar o crescimento da mineração. “Hoje eu tenho mais de 20 mil coordenadas lançadas aqui. Tem hora que fica até difícil de encontrar as coisas”, brinca, enquanto mostra a área disputada pela Gerdau no mapa. É possível verificar que o avanço da Mina Várzea do Lopes ameaça um espaço de intersecção entre dois territórios protegidos – o Monae e a Reserva Biológica Sul – e os limites municipais de Moeda. Nessa região, há ainda sete nascentes que podem secar, caso a extração de minérios avance.

Quando se vê a Serra da Moeda do alto, é possível observar um ponto em que o contraste entre preservação e devastação é didaticamente óbvio: uma face da montanha é coberta pela Mata Atlântica; a outra face está rasgada pela cava de onde a Gerdau retira por hora 624 mil litros de água do lençol freático, usada para a extração do minério. O lado preservado pertence a Moeda; a cava fica em Itabirito.

A topografia da serra funciona como uma divisora de bacias hidrográficas marcadas pela destruição. A Leste fica a Bacia do Rio das Velhas, poluída pelos rejeitos das mineradoras. A Oeste fica a Bacia do Rio Paraopeba, que foi destruída pelo desastre de Brumadinho, em 2019, quando uma barragem da Vale se rompeu, liberando uma onda de 12 milhões de m3 de rejeitos de mineração que contaminou a água, destruiu 297 hectares de Mata Atlântica e matou 272 pessoas.

A Mina Várzea do Lopes começou suas atividades em Itabirito em 2006, quando recebeu do governo estadual a Autorização Ambiental de Funcionamento. Em 2008, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais suspendeu a autorização a pedido do Ministério Público de Minas Gerais, pois a Gerdau ainda não havia realizado o Estudo de Impacto Ambiental da exploração de cerca de 1,5 milhão de toneladas de minério por ano. A empresa fez o estudo e se comprometeu a atualizá-lo a partir de 2009. Assumiu outras 28 obrigações, como a de não solicitar novas licenças de exploração na Serra da Moeda. Em 2013, a Gerdau assinou um novo termo de ajuste para negociar o aumento da produção da mina para 13 milhões de toneladas de minério por ano, o que demandou novos estudos de impacto.

O município de Moeda só entrou na batalha judicial em 2017, quando o Instituto Estadual de Florestas (IEF), responsável pelo Monae, constatou que a ampliação da cava havia impactado o território protegido – e alcançado os limites do município onde a mineração é proibida por lei.

Em 2019, a Gerdau fez um novo pedido de licença ambiental à Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Queria expandir a mina e implantar uma nova pilha de rejeitos. Na área que seria afetada por essas atividades existe, conforme o termo assinado pela mineradora em 2009, um corredor ecológico entre duas unidades de conservação, Monae e a Estação Ecológica de Arêdes, em Itabirito.

Além das batalhas judiciais, outra frente de defesa dos interesses da mineradora foi aberta no Legislativo mineiro. O projeto de lei nº 1822/2020, de autoria do deputado estadual Antonio Carlos Arantes (PSDB, hoje no PL), previa que 12,8 hectares da Serra da Moeda fossem retirados da área protegida. Sob forte pressão de ambientalistas, o projeto foi arquivado em setembro de 2020.

Dois anos depois, durante a pandemia, o deputado Thiago Cota (MDB, hoje no PDT) apresentou uma proposta similar, incluída como jabuti em um projeto de lei sobre apreensão de veículos. A proposta foi aprovada em três comissões em menos de 24 horas, mas acabou retirada de tramitação a pedido do próprio autor.

Não terminou aí: em 2023, o deputado Noraldino Júnior (ex-PSC, hoje no PDB) propôs incorporar ao Monae uma porção de terra de 62,65 hectares na parte mais baixa da serra, em troca da liberação dos 12,8 hectares disputados pela Gerdau no cume da serra. O projeto ainda aguarda o parecer da Comissão de Constituição e Justiça. A troca pode até parecer favorável, mas Vidigal diz que não é bem assim: a área maior, na parte baixa, já estava destinada para reserva ambiental no termo de 2009. E o terreno no cume tem maior valor ambiental. “Desculpa a expressão, mas isso é uma tremenda safadeza”, diz o ambientalista. À piauí, a empresa disse: “A Gerdau opera a Mina Várzea do Lopes, em Itabirito-MG. A mi­na não opera no município de Moeda-­MG. A possível continuidade das operações da mina, que está no fim da sua vida útil, dependeria de mudanças legislativas que hoje não estão sendo discutidas.”

Apaixonado pela cidade onde vive e seu entorno, Cléverson Vidigal criou, em 2008, a ONG Abrace a Serra da Moeda, dedicada à preservação do patrimônio ambiental do município. Em 2013, uma procuradora aposentada de Belo Horizonte, Rosângela Maciel, de 60 anos, fundou a ONG Serra Viva, também em Moeda. “O município tem uma população que ama essa serra e sabe o tanto que ela é importante para a cidade”, diz Maciel. “O poderio da Gerdau é muito forte e a política dividiu todo mundo, mas a serra une as pessoas.”


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Este texto foi originalmente publicado pela revista Piauí [Aqui!].

Justiça condena Vale, BHP e Samarco ao pagamento de R$ 47,6 bilhões pela tragédia em Mariana

O valor deverá ser corrigido com juros desde a data da tragédia; ainda cabe recurso contra a decisão

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No intuito de garantir a reparação aos atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (MG), a Justiça Federal determinou, nesta quinta-feira (25), que as empresas Samarco, Vale e BHP Billiton paguem indenização no valor de R$ 47,6 bilhões por danos morais coletivos, em razão da violação de direitos humanos das comunidades atingidas.

A DPU assinou o pedido de julgamento antecipado do mérito. A instituição acompanha o caso desde o início, por meio das Defensorias Regionais de Direitos Humanos de Minas e do Espírito Santo e do Comitê Temático Especializado Rio Doce/Brumadinho da DPU.

O valor da condenação é destinado a um fundo previsto por lei e administrado pelo governo federal. O montante deverá ser empregado, exclusivamente, em projetos realizados nas áreas impactadas pelo rompimento.

O defensor regional de direitos humanos do Espírito Santo, Frederico Aluísio Carvalho Soares, explica que a população será beneficiada pela decisão em diferentes áreas. “A decisão é fundamental para a efetiva reparação coletiva do desastre nos eixos ambiental, de saúde e indenizações”. Ainda cabe recurso contra a decisão e o pagamento só deverá ser realizado após o trânsito em julgado.

A tragédia

Considerado o maior crime ambiental do país e um dos mais graves do mundo, o rompimento da barragem deixou 19 mortos, 329 famílias desabrigadas e despejou 40 bilhões de litros de rejeitos de minério sobre os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, no município de Mariana (MG), e Gesteira, em Barra Longa (MG).

Atuação da DPU

Desde 2020, por meio do Comitê Temático (CT) Bacia do Rio Doce/Brumadinho, a instituição acompanha a situação das pessoas e grupos vulneráveis vítimas dos danos provocados pelos rompimentos das barragens do Fundão, em Mariana, e da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, e defende seus direitos.

O comitê tem atuado em várias frentes, em Minas Gerais e Espírito Santo, com o objetivo de proteger e preservar os direitos humanos. São exemplos: a assistência direta às vítimas, os estudos de avaliação de risco, a recuperação de danos coletivos e de danos ambientais, a garantia de auxílios emergenciais, as audiências e estudos técnicos, além de alertas e recomendações quanto à violação dos direitos humanos na região.

Briga à toa pela LOA

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Por Douglas Barreto da Mata

Um extraterrestre que pousasse em Campos dos Goytacazes nos dias que antecederam a votação da Lei Orçamentária Anual de 2024, a LOA, se questionaria como um Poder Republicano, neste caso personificado na pessoa do seu Presidente da Mesa Diretora, conseguiu levar às últimas consequências a obstrução, não da votação da referida lei, mas sim do seu devido processo legislativo, em descumprimento daquilo que é o Manual a Lei Maior entre seus pares, ou seja, o Regimento Interno da Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes.

Se fosse convidado a ficar mais um tempo na planície goytacá, para assistir o desfecho desse conflito, com certeza o extraterrestre voltaria aos seus dizendo:

“Olha, façam o que fizerem, se forem à Campos dos Goytacazes, nunca confraternizem com uma parcela de vereadores da Câmara de Vereadores, liderados pelo seu Presidente…Não há possibilidade de interlocução eficaz ali.”

Novamente ressalto que tais constatações independem de preferência por este ou aquele grupo político, embora não seja crime em democracias ter opções políticas, e isso não invalida nossas opiniões.

Essa baboseira de neutralidade ou isenção é só anestésico vendido pela mídia comercial para que faça defesa de vários interesses, posando de vestal da moralidade.

Não cola mais.

Bem, voltando ao assunto principal, o certo é que, sejam lá quais forem os motivos que o grupo que rasgou o Regimento Interno da Câmara de Vereadores temos certeza de uma coisa:

  • Não foi para inserir emendas que ampliassem direitos deste ou daquele segmento da sociedade, até porque, esse movimento (ou “briga política” – e legítima, diga-se) se daria dentro do processo legislativo “abortado” pela minoria liderada pelo Presidente da Casa.

Se ele ainda vai ter que responder pelos atos perante a Justiça, só a Justiça dirá.

Mas politicamente ficou explícito que nunca foi pelo bem estar da cidade e dos cidadãos e cidadãs.

Não é à toa que a Casa de Leis municipais goza de tão pouco prestígio junto à comunidade, fato refletido em várias pesquisas de opinião.

Sim, sabemos que os parlamentos nunca são muito bem vistos, e isso, em parte, é um efeito da injusta criminalização da política, e da hipocrisia de um eleitor que parece querer se isentar da responsabilidade por más escolhas.

Na votação da LOA 2024, infelizmente, é corretíssima a percepção de que o Parlamento municipal abusou do seu mandato e da confiança outorgada pelo eleitor, através da intransigência “inexplicável” de sua atual minoria de 08 vereadores. 

Como os justos pagam pelos pecadores, é possível dizer que a Câmara Municipal, como um todo, saiu bem menor do que entrou nesse dissenso.

A cereja do bolo foi a abstenção dos 08 vereadores que pactuaram a votação, em cláusulas firmadas com a intermediação corretíssima do MPRJ.

Mais ou menos como a noiva que briga para ter um anel de 32 brilhantes pelo noivo, diz que não casará sem o mimo, e no momento do SIM, percebe que há 30 e não 32 brilhantes, como exigiu, diz, para espanto de todos os convidados, padrinhos e familiares na Igreja que se absterá da pergunta do celebrador.

No caso recente da LOA, como dizem os antigos, “briga” foi  “à toa”.

Por que o pacto da COP28 não será suficiente para prevenir os piores impactos das mudanças climáticas

A conferência da ONU sobre o clima (COP28) no Dubai chegou a acordo sobre um plano para manter o aquecimento global a 1,5 graus C e atingir emissões líquidas zero até 2050. Mas os investigadores alertam que estas promessas não se baseiam em ciência sólida e não conseguirão prevenir os piores impactos do clima.

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Derretimento do gelo marinho no Ártico em julho de 2022. KEREM YÜCEL/AFP VIA GETTY IMAGES

Por Fred Pearce para a Yale Environment 360 

Os negociadores climáticos reunidos no Dubai no mês passado comprometeram-se a traçar um rumo para a estabilização do sistema climático recorrendo à boa ciência. Mas muitos cientistas dizem que estas promessas são, na melhor das hipóteses, mal definidas e, na pior, uma paródia da boa ciência – vagas e cheias de lacunas.

A conferência da ONU sobre o clima, no Dubai, acordou num plano de acção para dois objectivos principais: manter o mundo no caminho certo para limitar o aquecimento global a 1,5 graus C (2,7 graus F) e permanecer abaixo deste limiar, alcançando emissões líquidas zero de gases com efeito de estufa. até 2050. Os negociadores  prometeram que ambos os objectivos seriam prosseguidos “de acordo com a ciência”.

Mas nenhum dos objectivos tem definições acordadas que permitam avaliar se foram alcançados. Dois estudos publicados durante o evento do Dubai expuseram o problema e revelaram grandes lacunas entre as metas de 1,5 graus e de zero emissões líquidas, expondo as tensões entre a conveniência política e a probidade científica.

Relativamente ao objectivo de 1,5 graus, meteorologistas britânicos  relataram  na revista  Nature que a falta de acordo sobre como medir as temperaturas médias globais poderá atrasar o reconhecimento formal de que o limite foi excedido em até uma década. O resultado, alerta o principal autor Richard Betts, do Hadley Centre do Met Office do Reino Unido, será “distração e atraso justamente no ponto em que a ação climática é mais urgente”, resultando em “ultrapassagem” de temperatura e na necessidade de soluções altamente caras – e não comprovadas –. ações posteriores para reverter o aquecimento.

Entretanto, um  estudo  liderado por Matthew Gidden, modelador climático do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) na Áustria, descobriu que as regras que regem a forma como os países podem declarar que atingiram emissões líquidas zero são fixadas para que os governos possam afirmar conformidade anos antes da realidade científica.

Estas questões técnicas críticas têm estado em grande parte fora do radar até agora – em parte, dizem os investigadores preocupados, porque os cientistas não quiseram confundir ou negar os decisores políticos que procuram obter apoio público para a acção climática. Mas as discrepâncias levantam sérias questões sobre se os governos estão realmente empenhados em respeitar a ciência. “Os políticos estão a tentar encontrar uma forma fácil de cumprir as suas promessas”, disse o ecologista florestal do IIASA, Dmitry Shchepashchenko.

No entanto, a urgência em resolver as incertezas está a aumentar. O ano passado viu o sistema climático entrar no que os investigadores chamam de  “território desconhecido”. Cerca de um terço dos dias em 2023 ultrapassaram o limite de 1,5 graus e setembro foi 1,8 graus mais quente do que nos tempos pré-industriais. As estatísticas brutas traduziram-se em incêndios florestais recordes no Canadá e na perda de gelo marinho em torno da Antártida, ondas de calor de verão sem precedentes do Arizona ao sul da China e inundações extremas em regiões normalmente desérticas do Norte de África.

A meta de limitar o aquecimento global a 1,5 graus C acima dos níveis pré-industriais entrou pela primeira vez na elaboração de políticas climáticas internacionais através do inovador Acordo de Paris de 2015. Como parte do acordo, os governos prometeram manter o aquecimento “bem abaixo dos 2 graus”, ao mesmo tempo que “prosseguiram esforços” para limitá-lo a 1,5 graus.

Desde então, os cientistas alertaram que qualquer aquecimento sustentado acima de 1,5 graus corre o risco de agravar o clima perigoso e causar mudanças fundamentais e irreversíveis no sistema climático. Assim, na conferência do Dubai, esse objectivo tornou-se inequívoco.

Mas como saberemos se nos mantivemos abaixo ou ultrapassamos?

A Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas calcula que há dois terços de hipóteses de um único ano exceder o limiar até 2027. Tal situação única não violaria, por si só, o objectivo acordado, que se refere às temperaturas médias a longo prazo. Mas nem o Acordo de Paris nem os seus sucessores estabeleceram como essa média de longo prazo deveria ser calculada.

Os cientistas do clima têm tradicionalmente avaliado as tendências de temperatura médias ao longo das três décadas anteriores. O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, que avalia a ciência climática para a comunidade internacional, favorece agora duas décadas. Mas, em qualquer dos casos, os cálculos baseados em temperaturas passadas recentes significam que a média estará sempre aquém da realidade, mantida baixa pelos primeiros anos mais frios do período. Os resultados não refletirão a situação atual, afirma Betts no  artigo da Nature  publicado durante a conferência de Dubai.

Na prática, uma média de 20 anos refletirá as temperaturas no meio desse período, diz Betts. “O aquecimento de 1,5 seria confirmado… uma década depois de ultrapassar o nível de 1,5 graus C.”

Assim, se o aquecimento médio atingir 1,5 graus em 2030, os registos só serão alcançados no final do período de 20 anos em que 2030 foi o ponto médio – 2040, por outras palavras. Nos anos seguintes, diz Betts, haveria “uma década ou mais” de reivindicações e reconvenções, com os cientistas climáticos dizendo que o mundo quase certamente ultrapassou o limiar, mas os políticos seriam capazes de negar isso e alegar que têm mais tempo para reduzir as emissões. .

Este ritual de negação já estava em evidência no Dubai, segundo Piers Forster, da Universidade de Leeds, principal autor de vários relatórios do IPCC. Ele salienta que o acordo de balanço global da conferência, que resumiu os planos de acção para cumprir os compromissos de Paris, afirmou que houve até agora 1,1 graus de aquecimento, com base numa média retrospectiva, enquanto a média real actual é de cerca de 1,3 graus. Os governos estão “jogando um jogo político para fazer com que 1,5 pareça mais viável”, disse Forster à  Yale Environment 360 .

Betts quer que o IPCC acabe com o subterfúgio adoptando um “indicador mais instantâneo”. Seu artigo sugere o cálculo da temperatura média combinando 10 anos de temperaturas históricas com 10 anos de previsões de modelos de temperaturas futuras. Isso seria controverso. Mas, por enquanto,  diz ele , “sem uma métrica acordada, não pode haver consenso sobre quando o nível de 1,5ºC foi alcançado”.

O segundo desafio à integridade científica das negociações climáticas da ONU é como avaliar o progresso nas promessas feitas pelos governos de alcançar zero emissões líquidas até 2050. Os compromissos exigem que quaisquer emissões contínuas de gases com efeito de estufa sejam compensadas até essa data por ações humanas. para capturar quantidades equivalentes, nas florestas ou em outros lugares. Mas existe uma grande preocupação entre os cientistas de que o sistema acordado pelos negociadores para calcular estas “compensações” seja contraditório e amplamente aberto a abusos.

A  meta líquida zero  foi proposta pela primeira vez pelo IPCC. Foi amplamente adoptado há dois anos na conferência climática de Glasgow, quando 74 nações se comprometeram a alcançá-lo, e consagrado no acordo do Dubai como objectivo principal da política climática. Mas existem duas metodologias muito diferentes em utilização para calcular o zero líquido: um método científico utilizado pelos cientistas do IPCC para medir o carbono no mundo real, e um método muito mais flexível, adoptado pelos negociadores e agora incorporado nos acordos climáticos da ONU.

Gidden e outros cientistas climáticos alertam que esta fórmula flexível da ONU para calcular as compensações não conseguirá travar o aumento das concentrações de gases com efeito de estufa, levando ao aumento contínuo das temperaturas.

A maioria das compensações consideradas pelos governos envolve a gestão florestal – muitas vezes apelidada de soluções baseadas na natureza para as alterações climáticas. Mas decidir que absorção de carbono nas florestas é antropogénica – e, portanto, potencialmente qualificada como uma compensação contra as emissões – e que absorção é natureza é difícil, porque o carbono é constantemente capturado e libertado naturalmente pelas florestas.

Cientistas e negociadores da ONU concordam que apenas as florestas geridas diretamente devem ser qualificadas como potenciais compensações. Mas além disso, há desacordo.

De acordo com a abordagem do IPCC, apenas o carbono capturado por ações humanas diretas em florestas manejadas, como o plantio de árvores ou a redução da exploração madeireira, deveria ser qualificado. O carbono capturado no interior de florestas geridas como resultado de processos naturais não deve ser contabilizado, uma vez que faz simplesmente parte do ciclo natural do carbono entre os ecossistemas e a atmosfera.

Mas os negociadores do clima adoptaram uma abordagem diferente. Dizem que à escala local pode ser quase impossível distinguir claramente entre o que é natural e o que é antropogénico. Assim, resolveram o problema ao permitir que todo o carbono capturado dentro das florestas geridas se qualificasse para compensação de emissões.

Os resultados das duas abordagens podem ser muito diferentes, concluiu o estudo de Gidden. Muitas das grandes florestas do mundo estão actualmente a capturar carbono em grande escala, através de um crescimento adicional impulsionado por condições mais quentes e húmidas e pelo efeito fertilizante do dióxido de carbono extra na atmosfera. De acordo com as regras da ONU, esta absorção natural aumenta a quantidade de carbono que os países podem compensar com as suas emissões, o que acelera o seu caminho para poderem afirmar ter alcançado o zero líquido.

O estudo de Gidden concluiu que as regras da ONU permitem que os governos compensem colectivamente entre 4 e 7 mil milhões de toneladas de CO2 anualmente provenientes de processos naturais que não se enquadram na abordagem do IPCC. Isto representa entre 10 e 18 por cento do total atual de emissões de combustíveis fósseis, um número que ele espera que aumente ainda mais até 2050.

É justo, alguns podem dizer. Se a captura de carbono for real, não importa se os processos por detrás da captura são naturais ou antropogénicos. “A atmosfera não se importa de onde vem o dióxido de carbono”, concorda Giacomo Grassi, investigador do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia e co-autor do artigo de Gidden. Mas, acrescenta, “a forma como o afundamento de terras é contabilizado como antropogénico ou natural ainda é importante para avaliar o progresso [político]”.

Também é importante porque a tarefa de reduzir as emissões deve ser partilhada de forma justa, em vez de dar uma oportunidade a alguns países com boas florestas. E porque, argumenta Grassi, os processos naturais de captura de carbono são quase sempre temporários e passíveis de retrocesso, especialmente à medida que as alterações climáticas continuam a acelerar.

As alterações climáticas podem actualmente estar a impulsionar a captura em muitos locais, mas as secas, as altas temperaturas e os incêndios poderão em breve transformar estes sumidouros de carbono novamente em fontes de carbono. Na verdade, dizem os cientistas, isso é extremamente provável. Gidden espera que, depois de meados do século, as florestas que atualmente capturam carbono comecem a libertá-lo novamente em grandes quantidades, criando um enorme défice no cumprimento do carbono zero.

O impacto global das regras flexíveis da ONU permitirá à ONU “declarar que as emissões líquidas zero globais foram alcançadas vários anos antes do que seria o caso de acordo com a definição do IPCC”, diz Chris Jones, analista do ciclo do carbono no UK Met Office, que revisou o artigo de Gidden. Pior ainda, podem declarar sucesso e nunca atingir o verdadeiro zero líquido.

Outros especialistas no ciclo do carbono vão mais longe, dizendo que a metodologia da ONU é uma bola de demolição que destruirá as esperanças de alcançar um verdadeiro zero líquido. Trata-se “essencialmente de preencher um cheque em branco para os países com florestas que pretendem continuar a queimar combustíveis fósseis”,  diz  Wolfgang Knorr, ecologista da Universidade de Lund, na Suécia. Ele chama-lhe um “truque contabilístico [que] acabará por aparecer como dióxido de carbono adicional na atmosfera e aquecimento adicional. Mas quando todos perceberem isso, nenhum dos responsáveis ​​agora estará no cargo.”

A diferença entre os dois métodos de contabilização do carbono é enorme em alguns países. A Rússia, que abriga mais de um quinto das árvores do mundo, está actualmente a assistir a um rápido crescimento florestal como resultado de temperaturas mais altas. A maioria dos conservacionistas afirma que as suas vastas florestas em toda a Sibéria estão próximas do seu estado natural. Eles argumentam, como diz Shchepashchenko, que nesses locais “os processos naturais não podem ser considerados como resultado do manejo florestal”.

Mas Moscovo vê as coisas de forma diferente. Declarou que a maior parte destas florestas remotas são “geridas” e, portanto, que a sua acumulação de carbono é válida para compensar as emissões de carbono do país. A mais recente declaração da Rússia publicada pela ONU   sobre emissões subtrai um sumidouro de carbono florestal de 540 milhões de toneladas das emissões globais do país de 2,12 mil milhões de toneladas, reduzindo as suas emissões “líquidas” declaradas em um quarto. Os ministros falaram do desejo de alargar ainda mais a definição de florestas geridas para “maximizar” a sua contribuição para a compensação de emissões.

Os EUA não são tão diferentes. Algumas florestas orientais, especialmente nos Apalaches, estão a absorver carbono a um ritmo rápido, através de uma combinação de regeneração natural após desflorestação histórica e do efeito de fertilização do aumento de CO2 na atmosfera. Aproveitando isto, as submissões da Agência de Protecção Ambiental à ONU compensaram 11,9 por cento das emissões de gases com efeito de estufa do país contra a absorção de carbono nas florestas e outras terras geridas. Mas um estudo do ano passado realizado por William Anderegg, da Universidade de Utah e colegas, destacou uma “impressionante incerteza” sobre como este número poderá mudar no futuro devido às alterações climáticas, incluindo “riscos substanciais de perdas de carbono… em regiões onde os projectos de compensação de carbono florestal são atualmente localizado.”

Os modeladores de carbono e os negociadores climáticos estão aparentemente em desacordo. Apesar da sua evidente importância, Gidden afirma que “o impacto desta discrepância nos parâmetros de referência de mitigação nacionais e globais ainda não é bem compreendido”. Mas precisa de ser resolvido, diz ele, para que o zero líquido seja realmente alcançado “de acordo com a ciência”. E assim por diante.

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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Yale Environment 360 [Aqui!].