Corrida por “impacto” torna academia refém de grupos editoriais

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Por Marcelo Yamashita 

No último 8 de dezembro, a Universidade de Sorbonne anunciou que em 2024 vai deixar de assinar o serviço Web of Science, uma plataforma que agrega dados e artigos de várias revistas científicas, e também interromperá o contrato com os demais produtos da Clarivate, uma empresa de serviços relacionados à publicação científica e propriedade intelectual, com produtos voltados principalmente para o meio acadêmico, entre eles a Web of Science.

Com um faturamento anual na casa dos bilhões de dólares, editoras de periódicos científicos são pagas por agências públicas, instituições de ensino e pesquisa e governos para disponibilizar o acesso a artigos científicos, muitos deles financiados pelos próprios clientes: as agências de fomento financiam a pesquisa, pagam às editoras para publicar o artigo (caso a publicação se dê na modalidade de acesso aberto) ou pagam para acessá-lo (no caso de acesso restrito). Se isto parece estranho para alguém não acostumado com os trâmites da pesquisa universitária, é simplesmente porque é mesmo esquisito.

Apesar desses serviços serem importantíssimos para a maioria dos pesquisadores, o custo é elevado. Para se ter uma ideia, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) paga perto de R$ 48 milhões por ano para que pesquisadores de diversas universidades possam acessar revistas científicas. É, portanto, inevitável refletir sobre a conveniência de manter essa espiral de dependência voluntária em que a própria comunidade científica se colocou.

Em outro contexto mais abrangente, já que neste caso a interrupção dos serviços traria um problema generalizado, atingindo setores além da pesquisa científica, o Google começou a cobrar caro para manter dados na nuvem. Isto requer decisões complicadas por parte dos gestores, com restrições rigorosas de disponibilização de espaço, principalmente por não haver uma alternativa que dê conta dos arquivos que estão sob a guarda de empresas que estão no seu direito de estabelecer políticas de uso e preços para seus produtos.

Deve haver, é claro, um ponto intermediário entre a dependência plena e a desconexão total. No caso das publicações científicas, porém, é preciso que haja algum movimento, principalmente das agências de fomento, no sentido de mostrar para a comunidade científica que existe vontade de mudar o cenário de subserviência.

A necessidade que se impõe aos pesquisadores, em boa parte pelas exigências das políticas de concessão de auxílios à pesquisa, acaba criando um preocupante vínculo entre riqueza e pesquisa. Paga-se caro não somente para consultar os artigos, mas também para publicá-los nas revistas que são consideradas “boas” – valores que muitas vezes são abusivos e não se justificam: os pareceristas não são remunerados e o artigo não passa de umas poucas páginas em formato digital.

Movimentos drásticos vindos de universidades, similares ao da Sorbonne, podem dificultar a vida dos pesquisadores se as agências que estabelecem o destino do dinheiro continuarem a valorizar somente revistas onde se paga R$ 60 mil para publicar um artigo em acesso aberto. Nesses casos, por exemplo, o discurso retoricamente bonito de valorização da qualidade do trabalho torna-se vazio no momento em que os editais descartam deliberadamente, sem análise prévia, artigos com base no fator de impacto da revista.

A política de acesso aberto, uma importante iniciativa no sentido da democratização da ciência, teve início nos anos 1970, com o Projeto Gutenberg. Na prática, algumas áreas do conhecimento já teriam condições de adotar esta política desde 1991, quando foi criado o repositório de preprints (artigos preliminares, antes de serem avaliados por especialistas) arXiv pelo físico Paul Ginsparg. Nessa plataforma qualquer artigo pode ser acessado sem a necessidade de senhas em paywalls. Diferentemente dos artigos publicados em revistas, onde um escrutínio prévio já foi feito por outros pesquisadores, esses repositórios demandam que cada artigo seja analisado com um pouco mais de cuidado pelo autor que pretende considerá-lo.

Na área de física, a grande maioria dos artigos publicados tem uma versão gratuita em preprint. Ou seja, nesta situação, não existe a impossibilidade de acessar os resultados da pesquisa de outros grupos, mas o prestígio vem do processo de convencer os pares de que o seu estudo é bom o suficiente para estar em algum periódico revisado – já escrevi em outro artigo sobre o equívoco que se comete ao associar qualidade a um artigo ao fator de impacto do veículo onde é publicado.

Embora seja animador vislumbrar ações objetivas na direção de tornar o conhecimento mais acessível, é sempre bom lembrar que, como se diz por aí, não existe almoço grátis. Neste contexto, há estratégias de acesso aberto em que o lucro das grandes empresas editoriais é mantido (ou aumentado) mudando-se apenas a fonte pagadora: em vez de vender assinaturas para bibliotecas, vendem-se cotas de publicação para universidades, agências de fomento ou outras entidades, como ministérios de Ciência, por exemplo – o dinheiro, diga-se de passagem, é proveniente da população.

Esse deslocamento do ônus financeiro tem o efeito colateral de deslocar, também, a estrutura de incentivos da publicação: se no modelo de assinaturas o “cliente” é o leitor, no de cotas de publicação é o autor – com possível impacto sobre o rigor dos critérios de aceitação de artigos.

Existem movimentos organizados, como a cOAlition S, para tornar todas as publicações científicas imediatamente em acesso aberto. O grupo foi formado em 2018 e recentemente lançou uma proposta com valores diferenciados para alguns países com base em indicadores do Banco Mundial – dar-se-iam descontos das taxas de publicação de acordo com as rendas dos países. A despeito da pertinência desses indicadores para a classificação dos países, estabelecer um compromisso de descontos com empresas que não estão submetidas a um teto de preços segue a mesma lógica ingênua da lei de meia-entrada brasileira: paga-se a metade do dobro.

É desejável que se caminhe para um modelo de política universitária que seja conectada com o mundo, mas não excessivamente dependente – estabelecer um bom equilíbrio para os pratos dessa balança não é simples. Mas qualquer solução deve pressupor uma análise mais qualitativa dos critérios de avaliação das agências que fornecem os financiamentos para as pesquisas. Afinal, não é sempre que, a exemplo de Grisha Perelman – matemático que resolveu a conjectura de Poincaré, um problema formulado no ano 1900 –, encontramos pessoas dispostas a publicar um artigo importantíssimo em uma plataforma de preprint e, com isso, “perder pontos” na corrida do fator de impacto, correndo o risco de ficar sem recursos para desenvolver a sua pesquisa.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência


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Este texto foi originalmente publicado pela Revista Questão de Ciência [Aqui!].

Academia Americana de Pediatria aconselha evitar alimentos OGM devido a resíduos de glifosato

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Fonte: GMWatch , por Claire Robinson

Por Sustainable Pulse

Um novo  relatório clínico emitido pela Academia Americana de Pediatria (AAP) – a maior associação profissional de pediatras dos Estados Unidos – para fornecer orientação aos médicos na prestação de cuidados pediátricos aborda as preocupações levantadas pelas famílias sobre os alimentos geneticamente modificados. Centra-se nos riscos dos herbicidas pulverizados em culturas alimentares e rações geneticamente modificadas – especialmente o glifosato, informou o GMWatch .

Os autores do relatório da AAP, três eminentes pediatras, observam que o glifosato é um provável carcinógeno e pode ser um desregulador endócrino (hormonal) em humanos. Eles também apontam a ligação entre níveis elevados de glifosato na urina em mulheres grávidas com risco aumentado de partos prematuros. Acrescentam que outros herbicidas utilizados em culturas geneticamente modificadas – dicamba e 2,4-D – são “possíveis” cancerígenos, de acordo com a Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC).

Os autores mencionam o relatório de 2016 da Academia Nacional de Ciências, que concluiu que havia falta de provas de uma diferença no risco para a saúde humana entre culturas não geneticamente modificadas e geneticamente modificadas. No entanto, os autores alertam que “o relatório enfatizou que não havia estudos epidemiológicos publicados de longo prazo que avaliassem diretamente o potencial impacto na saúde dos alimentos geneticamente modificados e da exposição a herbicidas associados, portanto, as conclusões sobre a saúde foram em grande parte feitas na ausência de dados disponíveis”. .

Tendo em conta todos estes fatos, os autores consideram que conselhos os pediatras podem dar às famílias num clima de desconfiança pública em relação aos alimentos OGM. Eles observam que, contrariamente à crença de muitas pessoas, a prevalência de OGM no abastecimento alimentar é restrita. Embora os produtos alimentares que contêm OGM sejam amplamente encontrados no abastecimento alimentar nos Estados Unidos, eles provêm de uma lista relativamente estreita de 10 culturas geneticamente modificadas. A maioria dos produtos norte-americanos derivados destas culturas geneticamente modificadas pode ser encontrada em alimentos ultraprocessados ​​e em rações animais. Por causa disso, “A AAP pede transparência nas informações sobre produtos alimentícios para ajudar as famílias a tomar decisões informadas”,  disse a Dra. Jaclyn Lewis Albin, uma das autoras do relatório,  em um comunicado à imprensa da AAP.

Os autores afirmam que a exposição aos OGM pode ser bastante reduzida evitando ingredientes derivados do milho e da soja – em particular, aqueles presentes em produtos alimentares processados, incluindo aqueles feitos com amido de milho, óleos à base de soja e xarope de milho rico em frutose. Eles recomendam uma dieta composta principalmente de alimentos integrais e vegetais, minimizando os alimentos ultraprocessados.

O relatório da AAP também diz: “Escolas e hospitais dedicados ao cuidado de crianças podem considerar evitar servir alimentos OGM para minimizar a exposição ao glifosato quando alternativas estiverem disponíveis e acessíveis”.

De acordo com o relatório da AAP, tornar-se orgânico é uma boa abordagem onde as famílias podem pagar: “Um grande benefício dos alimentos orgânicos é que reduz substancialmente a exposição alimentar aos pesticidas. Estudos mostram que consumir uma dieta principalmente orgânica reduz a carga de pesticidas no corpo em cerca de 90%.”

GMWatch acrescentou que as famílias que não conseguem optar por produtos totalmente orgânicos ou principalmente orgânicos podem priorizar a compra de grãos orgânicos e produtos à base de grãos, como trigo, aveia, pão, cereais matinais e biscoitos. Isto ocorre porque estes grãos são frequentemente “secos” ou dessecados  pouco antes da colheita com glifosato ou outras pulverizações de herbicidas, levando a  níveis especialmente elevados  de resíduos de herbicidas nessas culturas.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Sustainable Pulse [Aqui!].

Sul e Sudeste lideram perda de manguezais no Brasil em oito anos

MANGUEEstudo identificou perda de 34 km de manguezais; No detalhe, manguezais em Florianópolis (SC) próximo aos grandes centros comerciais. Foto:  Pedro Walfir Souza-Filho/ Arquivo Pesquisadores 

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Estudo realizado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), o Instituto Tecnológico Vale (ITV) e a empresa Soluções em Geoinformação (Solved), a partir de sensoriamento remoto, revela que os manguezais das regiões Sul e Sudeste do Brasil perderam 34 quilômetros quadrados de sua extensão em apenas 8 anos. Essa redução representa 4% da cobertura total desse bioma na área em questão e pode ser um alerta para ampliar os cuidados com o ecossistema. Os resultados estão descritos em artigo científico publicado na sexta (22) na revista “Anais da Academia Brasileira de Ciências”.

Os pesquisadores submeteram imagens de satélites radares e ópticos e dados coletados em campo a uma Análise Baseada em Objetos Geográficos (GEOBIA), método que classifica as imagens nas seguintes categorias: corpos d’água, terra firme e manguezais. Segundo um dos autores do estudo, Pedro Walfir Souza-Filho, da UFPA e do ITV, a técnica escolhida é mais precisa do que aquelas baseadas apenas em imagens de satélites ópticos. “Ela reúne pixels semelhantes baseadas na classificação do conteúdo. Assim, ela forma uma visualização mais integrada”, explica o cientista.

Os resultados revelaram a perda de 34 quilômetros quadrados de manguezais nas regiões Sul e Sudeste  entre 2008 a 2016, ou seja, a cobertura total passou de 823 para 789 quilômetros quadrados em oito anos. A diminuição foi observada em todos os cinco estados do Sul e Sudeste banhados pelo mar, com exceção do Rio de Janeiro. “Os manguezais têm um papel importante na proteção costeira em resposta a eventos extremos, na conservação de habitats marinhos e da vida selvagem, além de capturar grandes quantidades de carbono da atmosfera”, destaca Souza-Filho.

Em comparação com outras regiões do Brasil, o Sul e o Sudeste foram os mais afetados pela perda de manguezais no período estudado. No Nordeste, as áreas cobertas por esse bioma permaneceram estáveis entre 2008 a 2016, enquanto, no Norte, elas cresceram cerca de 10%. Baseado em observações e análises, os pesquisadores levantaram hipóteses para explicar essa diferença e atribuíram a redução na cobertura principalmente à ocupação da zona costeira com aumento de urbanização e de atividades portuárias.

Para os pesquisadores, o método utilizado no estudo é uma ferramenta eficaz para o monitoramento dos manguezais, e os dados podem colaborar para uma proteção mais acentuada desse ecossistema. “Os resultados podem ser utilizados como referência para o estabelecimento de políticas de conservação, principalmente em função do mapeamento das áreas de manguezais estáveis”, salienta Souza-Filho.

Os cientistas pretendem seguir estudando o tema para contribuir com a compreensão e a preservação das áreas de mangue no Brasil. “Continuamos desenvolvendo pesquisas na região estudada e atualizando o mapeamento anualmente para que possamos observar as tendências atuais”.


Fonte: Agência Bori 

Estudo mostra que a cor dos rios é uma pista confiável na luta contra a Malária

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Um estudo no Brasil constatou que perto de rios de águas escuras há maior incidência de malária que em zonas que lindan com rios de águas claras. Crédito da imagem: Alexandre Amorim/Panoramio , sob licença Creative Commons CC BY-SA 3.0 Deed 

Por Pablo Corso para a SciDev

As populações que vivem próximas de rios de águas escuras têm maior incidência de malária do querios de águas claras, é o que mostra um estudo pesquisadores brasileiros no Malaria Journal .

Esta informação deveria facilitar a identificação de zonas com alto risco de transmissão de doenças e contribuir para o planejamento de ações preventivas.

A malária é transmitida pelo mosquito Anopheles , com casos sendo impulsionados pela combinação de más instalações sanitárias, degradação ambiental , mudanças de temperatura e condições hidrológicas.

No Brasil, a doença se concentra nos estados da Amazônia, e em alguns rios se reproduzem os mosquitos que atuam como vetores.

Na Amazônia, que abriga uma das maiores bacias  hidrográficas do mundo, sedimentos como areia, silte e argila afetam a coloração dos rios, o que deriva em pistas confiáveis ​​sobre a presença —ou não— do mosquito que transmite a malaria. Os rios classificados como brancos, segundo dados do estudo, transportam grande quantidade de sedimentos.  Os “negros” levam grandes quantidades de nutrientes orgânicos.

Os casos de malária são mais frequentes nestes últimos, concluiu o estudo que se estendeu durante 17 anos (2003-2019) em 50 municípios do estado do Amazonas.

“É possível que estes achados ajudem a melhorar as estratégias de controle, ampliando o conhecimento sobre a identificação de zonas com maior risco de transmissão (…) e que ser extrapoladas para regiões com características semelhantes”.

Jesem Yamall Orellana, coautor do estudo

Os sedimentos em suspensão, em mudança, baixam a temperatura e aumentam a velocidade das águas, um obstáculo para a reprodução do vetor.

Para realizar essas observações, o pesquisador recorreu a imagens de satélite, informações de estações pluviométricas e bases de dados oficiais sobre a doença.

“Ao comparar os valores mais altos de incidência de malária, a probabilidade de que fosse menor nos rios de água branca era cerca de 96%”, precisou SciDev.Net Jesem Yamall Orellana, um dos autores do trabalho.

“É possível que esses achados ajudem a melhorar as estratégias de controle, ampliando o conhecimento sobre a identificação de zonas com maior risco de transmissão”, acrescenta. “Pode-se extrapolar para regiões com características semelhantes”.

Gabriel Zorello Laporta, autor de outro trabalho sobre a incidência da Malária no Brasil , sinalizou que a pesquisa “estabelece em termos formais uma relação empírica muito conhecida pelos entomólogos que trabalham na região amazônica”. Coincide que os resultados poderiam extrapolar para países como o Peru, onde vive o mesmo vetor ( Nyssorhynchus darlingi ), mas não poderia acontecer o mesmo em países com vetores diferentes.

O caminho da prevenção

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o planeta registrou 247 milhões de casos de malária em 2021. Isso representa dois milhões a mais que em 2020, embora se atribua a suba à interrupção dos serviços sanitários durante a pandemia.

Nas últimas décadas, iniciativas governamentais avançadas para prevenir a doença levaram à redução global do ritmo de contágios e mortes .

Em países onde a doença é endêmica, a incidência foi reduzida de 82 casos por cada 1.000 habitantes em 2000 para 57 em 2019, destaca o Relatório Mundial sobre Malária de 2022.

Enquanto a África relatava 95 % dos casos de malária no mundo, nas Américas o número baixou de 1,5 milhão em 2000 para 600.000 em 2021. Países como Argentina, Paraguai e El Salvador conseguiram eliminar a doença.

O Brasil também mostra uma tendência decrescente, com ações de prevenção, controle e vigilância. Entre eles, Yamall Orellana destaca o “apoio técnico, maior acesso a mosquitos e inseticidas de longa duração, testes de diagnóstico rápido, melhorias em redes de laboratórios, educação sanitária e formação de profissionais”.

Então, fique muito por fazer. “Dos 29 municípios classificados como de alto risco pelo Ministério da Saúde do Brasil em 2021, 14 foram estabelecidos no Amazonas ”, precisa. “Esses estados são muito grandes e heterogêneos e —em geral— compreendem territórios de difícil acesso, o que torna muito desafiador o controle da doença”, disse Zorello Laporta.

Isso dificultou zonas de abarca como Roraima, o estado onde habitam os indígenas yanomami, vítimas de uma catástrofe social e sanitária que complica ainda mais a abordagem.

Junto ao Pará, neste estado também avançou o garimpo ilegal. “Os portadores assintomáticos perpetuam a transmissão, especialmente se eles fizerem parte de uma atividade econômica ilícita, que implica uma dinâmica de mobilidade entre diversas localidades”, explica.

O contexto nacional, de Zorello Laporta, motiva um grande otimismo, porque o governo de Lula da Silva respalda “a conservação das florestas, dos direitos indígenas e das disparidades na saúde”, elogia. “O compromisso político e económico é fundamental para sustentar a luta contra a malária”.

Esta luta, advertiu Yamall Orellana, deve se estender a países como Venezuela e Colômbia, que junto com o Brasil concentram cerca de 80% dos casos na América do Sul

“A situação epidemiológica ainda é preocupante” nessas nações, alerta, porque se enfrenta desafios persistentes em torno da disposição de dados confiáveis ​​e estratégias para melhorar o diagnóstico e o acesso ao tratamento.


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do SciDev.Net e publicado Aqui!

Desmatamento no Cerrado mais do que dobrou em novembro, aponta SAD Cerrado

Área de vegetação perdida aumentou 103% em relação a novembro de 2022, atingindo 115 mil hectares do bioma

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O desmatamento no Cerrado mais do que dobrou em relação ao ano passado, atingindo 115 mil hectares. A área registrada em novembro de 2023 é 103% maior do que a registrada no mesmo mês do ano passado e 70% maior do que a marca de 2021. Os dados foram divulgados pelo SAD Cerrado (Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado) nesta quarta-feira (20). O desmatamento acumulado de 2023 até este mês, para todo o bioma, chega a 966 mil hectares, já 19% maior do que todo o desmatamento de 2022 no bioma.

Além do aumento em relação ao ano passado, novembro registrou um crescimento de 5% em relação a outubro e se tornou o mês com a terceira maior área desmatada em 2023. A alta no desmatamento no período foi impulsionado pelo crescimento da área devastada no Matopiba – fronteira agrícola composta por partes dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Área desmatada mensalmente no bioma Cerrado entre janeiro a novembro de 2021 a 2023 mapeada pelo SAD Cerrado/IPAM.

Matopiba

A área desmatada no Matopiba aumentou 173% em relação a novembro do ano passado, atingindo 84,3 mil hectares apenas em novembro de 2023. Esse número representa 73% do que foi desmatado no bioma no mês.

No cerrado baiano, o aumento nesse mês de novembro chegou a 671%, passando de 2,4 mil hectares desmatados em novembro de 2022 para 18,9 mil hectares em 2023. Já no Piauí, onde foram desmatados 18,1 mil hectares, o aumento foi de 259%. No Maranhão, estado que liderou o desmatamento em novembro, o crescimento foi de 131% e 32,7 mil hectares desmatados, enquanto o Tocantins aumentou seu desmatamento em 74%, chegando a 22,8 mil hectares perdidos.

“O ano de 2023 está se consolidando como o ano dos recordes de desmatamento no Cerrado. Historicamente, o pico costuma ocorrer no meio do ano, na época de seca. Estamos observando um aumento atípico do desmatamento agora no final do ano, sendo que a expectativa era de queda nesse período. Assim como foi possível reduzir o desmatamento na Amazônia em ao menos 50%, esperamos no próximo ano que esses esforços sejam também direcionados para uma drástica redução do desmatamento no Cerrado”, afirmou Fernanda Ribeiro, pesquisadora do IPAM.

Municípios

Por conta do aumento acelerado do desmatamento no Matopiba, municípios dessa região ocupam todas as posições nas listas dos dez maiores desmatadores do Cerrado. Em novembro, esse ranking foi ocupado por cinco municípios baianos, três tocantinenses, um maranhense e um piauiense.

Pelo segundo mês consecutivo, Cocos, no oeste baiano, sofreu o maior desmate do bioma, com 4,3 mil hectares derrubados. A segunda posição foi ocupada por Alto Parnaíba, no Maranhão, com 3,7 mil hectares desmatados. São Desidério, vizinho de Cocos, perdeu 3,5 mil hectares de Cerrado e ficou com a terceira posição.

A área de desmatamento registrada em Cocos, neste ano, foi 611 vezes maior do que aquela registrada em novembro de 2022, quando foram detectados apenas 7 hectares de desmatamento no município.

Concentração de alertas de desmatamento mapeados pelo SAD Cerrado/IPAM em novembro de 2023.

Vazio fundiário

Assim como no último mês, os vazios fundiários – áreas sem mecanismos de governança definidos – foram a segunda categoria fundiária mais desmatada, correspondendo a 14% dos alertas. A categoria com mais alertas, no entanto, ainda foi a de áreas privadas, com mais de 75% da área derrubada, cerca de 87 mil hectares.

O tipo de vegetação nativa mais derrubado no Cerrado segue sendo a savana, que ocupa a maior parte do bioma, enquanto as formações campestres ocuparam a segunda posição. As formações florestais, por sua vez, concentraram 21% do desmatamento de novembro.

“Precisamos implementar e fortalecer as políticas públicas voltadas para prevenção e controle do desmatamento, conservação e restauração do Cerrado, que são necessárias para garantir a proteção dos últimos remanescentes de vegetação nativa. É essencial incluir o Cerrado, juntamente com outros biomas não-florestais, em discussões internacionais sobre mudanças climáticas e biodiversidade, como a COP, para o fortalecimento e incentivo a essas políticas”, Ribeiro.

Sobre o SAD Cerrado

O Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado é um projeto de monitoramento mensal e automático que utiliza imagens de satélites ópticos do sensor Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia. O SAD Cerrado é uma ferramenta analítica que fornece alertas de supressão de vegetação nativa para todo o bioma, trazendo informações sobre desmatamento no bioma desde agosto de 2020.

A confirmação de um alerta de desmatamento é realizada a partir da identificação de ao menos dois registros da mesma área em datas diferentes, com intervalo mínimo de dois meses entre as imagens de satélite. O método é detalhado no site do SAD Cerrado.

Os relatórios de alertas para o mês de novembro e períodos anteriores estão disponíveis neste link. No painel interativo, é possível selecionar estados, municípios, categorias fundiárias e o intervalo temporal para análise.

O objetivo do sistema é fornecer alertas de desmatamentos maiores de 1 hectare, atualizados mês a mês. Pesquisadores entendem que o SAD Cerrado constitui uma ferramenta complementar a outros sistemas de alerta de desmatamento no bioma, como o DETER Cerrado, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), otimizando o processo de detecção em contextos visualmente complexos.

Acesse os dados georreferenciados clicando aqui.

O agro é tudo? Pacto do agronegócio e reprimarização da economia

Este artigo, dividido em duas partes, aborda a economia agrária contemporânea do Brasil tendo em vista o processo mais geral de condicionamento do sistema econômico como um todo pelas tendências de reprimarização da economia, fortemente observáveis em seu comércio exterior. Esse processo afeta também a indústria, que tende a declinar de peso econômico ou a se limitar a funções coadjuvantes da chamada “economia do agronegócio”

pulverizacao-de-um-plantio-de-algodao-da-Fazenda-Planeste_Balsas_MA_artigo-CWPG_TBauer-1-de-1-1024x683Pulverização de agrotóxicos em plantação de algodão, em Balsas (MA). (Foto: Thomas Bauer)

Por Guilherme C. Delgado e Sergio Pereira Leite para o LeMonde Diplomatique Brasil 

O tema da reprimarização da economia requer esclarecimentos, principalmente sobre suas implicações ocultas, visto que no tratamento midiático e ideológico do sistema agrário hegemônico todo esse processo é vendido como uma espécie de sucesso incontroverso de uma entidade mágica – o “agronegócio”[1].

A abordagem do texto está dividida em dois tópicos principais, que ao final se encontram numa seção de síntese a título de conclusão. A seção inicial trata de fazer certa dissecação temporal dessa economia reprimarizada, tomando por referência o início dos anos 2000, quando se (re)articulam os mecanismos de política econômica e social tendentes a converter as exportações de commodities agrícolas e minerais em espécie de carro chefe do comércio exterior brasileiro. Essa situação se configura não apenas como política econômica convencional de governo, mas adquire status de política de Estado por duas décadas até o presente, com consequências socioeconômicas e ambientais graves, mas de certa forma interditadas ao debate público. O diagnóstico macroeconômico e ambiental desse período revela indicadores empíricos críticos que convém ressaltar até para melhor caracterizar qualitativamente o processo em curso, bem como a rápida financeirização da agricultura, convertendo ativos reais, como commodities e terra em alvo de investimentos especulativos que conferem novos significados à dinâmica dessa economia agrária nacional.

Na seção seguinte destacamos o sentido da expressão “especialização primária” no comércio externo. Ao contrário do que sugere o senso comum, essa especialização não melhora a autonomia em nossas relações econômicas externas. Antes, acentua a dependência do conjunto do sistema econômico relativamente ao setor especializado em exportações, expelindo paulatinamente todos os demais, principalmente as exportações de manufaturados.

Afora o significado da dependência econômica, que pode ser medida pelo forte crescimento do déficit em “serviços e rendas pagos ao exterior” e pela virtual expulsão das manufaturas da Balança Comercial, tais processos aumentam ainda mais o peso de meia dúzia ou pouco mais de commodities agrícolas e minerais na economia brasileira; commodities que, para gerar os valores que delas requer o ambíguo conceito de “equilíbrio externo”, combinam mecanismos de dilapidação ambiental com outros de concentração fundiária de renda e riqueza.

Esse processo de especialização primário-exportadora afeta negativamente as estratégias alternativas de desenvolvimento rural baseadas na sustentabilidade agroecológica e no combate às desigualdades socioeconômicas. Nas Considerações Finais, reservamos algumas reflexões sobre a necessidade de mudança de rumos desse sistema de especialização primário exportador antiecológico, predatório, produtor de desigualdades e gerador de dependência econômica externa.

Commodities, Comércio Exterior, Financeirização: uma revisão crítica

Nas duas últimas décadas, as transformações econômicas, sociais e políticas na paisagem agrária nacional foram particularmente marcantes, especialmente quando vistas a partir de uma perspectiva mais ampla. Ao lado de conquistas importantes, em particular durante a década de 2000 – como a criação de um conjunto inovador de políticas agrárias e alimentares diferenciadas e a redução das desigualdades sociais e da fome (indicadores que seriam rapidamente revertidos a partir de 2016) -, também assistimos a um conjunto de processos que aprofundaram as contradições estruturais da sociedade brasileira e caracterizaram um forte viés regressivo no meio rural, ainda pautado pela alta desigualdade do acesso à terra. Com efeito, os dados do Censo Agropecuário de 2017 mostram que os estabelecimentos agropecuários menores do que 10 hectares, apesar de representarem metade do total de unidades, respondiam por apenas 2,28% da área total, enquanto os estabelecimentos com 1.000 ou mais hectares eram somente 1% do número total, mas detinham 47,52% da área (IBGE, 2019)[2].

Nesta seção, revisitaremos rapidamente esse quadro privilegiando dois aspectos: a expansão da produção de commodities e suas implicações no comércio exterior, bem como a intensidade do processo de financeirização do campo.

Especialização Primário-Exportadora e o Modelo de Expansão da Produção Agrícola

Como destacam Flexor, Kato e Leite (2022: 11)[3], “a dinâmica econômica global caracterizada pelo vigoroso crescimento econômico dos países em desenvolvimento, a expansão do comércio e a baixa inflação global tiveram um efeito significativo sobre o padrão de comércio brasileiro. Em particular, a ascensão da China à condição de potência econômica global impactou as relações comerciais brasileiras. […] em duas décadas o país passou a ser o principal mercado para as exportações brasileiras que, entre 2000 e 2020, teve seu valor aumentado em 6.048%, passando de um pouco mais de US$ 1,08 bilhões para mais de US$ 67,68 bilhões. A China, que representava o destino de somente 1,97% do valor total das exportações brasileiras em 2000, correspondia a quase um terço (32,40%) deste em 2020. As importações de produtos chineses seguiram trajetória semelhante. Em 2020, chegaram a US$ 34,77 bilhões, isto é 21,9% do valor total importado, representando um aumento de 2.752% em 20 anos”.

FIGURA 1 – PRINCIPAIS SETORES EXPORTADORES E OS RESPECTIVOS VALORES DAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS EM 2020 – EM US$ BILHÕES FOB

Fonte: ComexStat (2020). Apud Flexor et al. (2022: 13)
Fonte: ComexStat (2020). Apud Flexor et al. (2022: 13)

Essa concentração no mercado chinês foi ainda acompanhada por uma mudança radical na estrutura das exportações brasileiras, visto que até 2000 ainda era relativamente diversificada a pauta de comércio exterior, que vai dando lugar ao predomínio dos produtos básicos ao longo de 20 anos. Como exemplifica a Figura 1, a soja, o minério de ferro e o petróleo integram esse maior peso das exportações de bens primários intensivos em recursos naturais e o concomitante crescimento relativo das importações de produtos manufaturados. Como informado pela Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), a partir de 2018 o Brasil volta a contar com mais de 50% das suas exportações baseadas em produtos básicos, após décadas e décadas de diversificação da corrente de comércio externo.

O caso da soja merece destaque. Em 2000, o valor das exportações da cadeia oleaginosa representava 5% do valor total exportado pelo Brasil, passando para 16,8% em 2020, explicado pelo aumento expressivo das importações chinesas, que representavam mais de 70% do valor total de soja exportada pelo Brasil neste último ano. O mesmo aconteceria com o minério de ferro. É importante sublinhar que o setor rural (incorporando os setores industriais adjacentes) tem mantido uma performance superavitária na sua corrente de comércio ao longo do período aqui analisado, como atesta a Figura 2. Enquanto a balança comercial geral alternou momentos deficitários e momentos timidamente superavitários, a balança do “macro setor agrícola” abriu importante diferença entre exportações e importações, corroborando o processo de reprimarização da pauta de exportações[4].

FIGURA 2 – BALANÇA COMERCIAL DO “MACRO SETOR AGRÍCOLA” (EXPORTAÇÕES, IMPORTAÇÕES E SALDO) – 2000/2020 (EM US$ FOB)

Fonte: SECEX (vários anos). Apud Flexor et al. (2022: 15)
Fonte: SECEX (vários anos). Apud Flexor et al. (2022: 15)

O aumento dos preços das commodities e sua capacidade de geração de divisas levaram Maristela Svampa a caracterizar o período como o “Consenso das Commodities”[5], em contraste com o “Consenso de Washington”, cunhado para retratar o ajustamento estrutural das economias latino-americanas. Esse ciclo impactou diretamente o uso de recursos naturais, em particular a terra, pressionando seus custos, assim como áreas destinadas à preservação do meio ambiente e aquelas objeto da posse de populações originárias, em particular nos biomas da Amazônia e do cerrado, abrindo espaço para novas disputas territoriais fartamente noticiadas pela imprensa. Outro efeito do mesmo movimento é a diminuição da área destinada ao plantio das culturas alimentares, em particular aquelas que integram a cesta básica e são comercializadas em âmbito local e/ou regional. Como demonstram Flexor et al. (2022), arroz e feijão perderam terreno consideravelmente nesses vinte anos, o que foi relativamente compensado pelo aumento da produtividade em determinados anos. Resultado dessa equação é o encarecimento dos preços dos bens que integram a alimentação de boa parte da população e o retorno impressionante da fome no país, associado ao desmonte de políticas agroalimentares nos últimos cinco anos. Dados produzidos pela Rede PENSSAN informam que praticamente 60% da população brasileira encontra-se atualmente no grupo de insegurança alimentar, sendo 33 milhões de pessoas na categoria de insegurança alimentar grave[6].

 

Guilherme C. Delgado é pesquisador aposentado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e membro da Direção Colegiada da Associação Brasileira de Reforma Agrária.

Sergio Pereira Leite é professor Titular do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

[1] Sobre uma discussão mais aprofundada a respeito do emprego e do significado do termo “agronegócio”, ver DELGADO, G. 2012. Do capital financeiro na agricultura à economia do agronegócio: mudanças cíclicas em meio século (1965-2012). Porto Alegre: Ed. UFRGS, 142 p.; e HEREDIA, B.; PALMEIRA, M.; LEITE, S.P. 2010. Sociedade e economia do agronegócio no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 25 (74): 159-196.

[2] Ver INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2019. Censo Agropecuário 2017. Rio de Janeiro: IBGE.

[3] FLEXOR, G.; KATO, K.; LEITE, S.P. 2022. Transformações na agricultura brasileira e os desafios para a segurança alimentar e nutricional no século XXI. Textos para Discussão, 82. Rio de Janeiro: Fiocruz. (Projeto Saúde Amanhã).

[4] Cf. FLEXOR, G. et al., 2022. Op. cit.

[5] SVAMPA, M. 2013. Consenso de los commodities y lenguajes de valoración en America Latina. Nueva Sociedad, no. 244 (30:46), mar/abr.

[6] REDE BRASILEIRA DE PESQUISA EM SOBERANIA E SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL (Rede PENSSAN). 2022. II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid 19 no Brasil – II VIGISAN: Relatório Final. São Paulo, SP: Fundação Friedrich Ebert, Rede PENSSAN.


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Este texto foi originalmente publicado pelo LeMonde Diplomatique Brasil [Aqui!].

Novo plano da EPA para agrotóxicos que são desreguladores endócrinos desperta esperança, mas também ceticismo

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Por Johnathan Hettinger 

Um novo plano da Agência de Protecção Ambiental dos EUA (EPA) que visa proteger o público da exposição a agrotóxicos que prejudicam a saúde reprodutiva está despertando esperança nos defensores que apelam à ação há mais de duas décadas, mas o ceticismo continua elevado.

A EPA está aceitando comentários públicos sobre o plano, que poderá impactar a regulamentação de vários pesticidas amplamente utilizados, até 26 de dezembro. Mas os principais participantes da indústria agroquímica – bem como alguns defensores ambientais – estão pedindo à EPA que estenda o prazo, citando o complexidade e magnitude da proposta da EPA.   

A estratégia há muito esperada surge depois de litígios e múltiplas investigações do Inspetor Geral terem exposto décadas de inacção da EPA para lidar com provas de que muitos agrotóxicos amplamente utilizados estão pertubando a produção de hormônios em seres humanos de formas que interferem com gestações saudáveis ​​e causam uma série de outros danos.  

“No geral, estamos muito felizes por a EPA finalmente tomar algumas medidas neste programa”, disse Jenny Loda, advogada do Centro de Segurança Alimentar (CFS). No ano passado, o CFS processou a EPA em nome dos trabalhadores agrícolas por não cumprirem o Programa de Rastreio de Disruptores Endócrinos (EDSP) implementado pelo Congresso como parte da Lei de Protecção da Qualidade Alimentar de 1996. 

Loda disse que eles continuarão com seu litígio, que tem o potencial de definir prazos determinados pelo tribunal sobre o progresso da EPA com o programa.

“Política, não ciência”

Segundo a lei, a EPA deve analisar o impacto dos agrotóxicos no sistema endócrino humano – o sistema hormonal do corpo que controla ou regula muitas funções biológicas, incluindo as funções dos órgãos reprodutivos, o crescimento e os níveis de energia. A agência deverá então incorporar esses dados e considerar se são necessárias restrições para proteger o público dos riscos.

(Fonte: EPA)

No entanto, durante mais de 25 anos, a EPA não determinou sequer um único produto químico como sendo um desregulador endócrino através do seu processo de testes, e não introduziu qualquer regulamento para proteger os consumidores e os trabalhadores agrícolas de agrotóxicos que pesquisas independentes demonstraram ser desreguladores endócrinos.

Na verdade, a EPA testou apenas 4% de todos os agrotóxicos registrados quanto às qualidades desreguladoras do sistema endócrino e não concluiu uma segunda ronda de testes em nenhum agrotóxico.

Em 2011 e novamente em 2021, o Gabinete do Inspetor Geral (OIG) da EPA emitiu relatórios públicos detalhando a falha da EPA em tomar medidas em relação ao EDSP. O relatório do Inspetor Geral de 2021 descobriu que a EPA estava recebendo US$ 7,5 milhões por ano para o programa EDSP, mas os funcionários foram instruídos a operar como se ele não existisse.

“Essa é a história do EDSP”, disse Laura Vandenberg, professora da Universidade de Massachusetts que escreveu sobre os fracassos do programa. “É subfinanciado, com falta de pessoal e os funcionários são instruídos a trabalhar basicamente em outra coisa. Isso me parece política, não ciência.”

Em Outubro – com um ano de atraso – a administração Biden revelou finalmente um plano estratégico não vinculativo sobre a forma como o Gabinete de Programas de Pesticidas da EPA assumiria o EDSP. 

“Este plano é um marco importante em nossos esforços para garantir que as decisões sobre agrotóxicos continuem a proteger a saúde humana”, disse o vice-administrador assistente de programas de agrotóxicos do Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição, Jake Li, em um comunicado na época. “Começando com nossos produtos químicos de maior prioridade, a EPA comunicará de forma mais transparente nossas descobertas sobre desreguladores endócrinos para humanos, extraindo dados existentes quando possível e solicitando novos dados quando necessário para avaliar potenciais efeitos de estrogênio, andrógeno e tireoide.” 

Alguns agrotóxicos podem perturbar o sistema endócrino, bloqueando ou imitando os hormônios do corpo. As pessoas podem ser expostas através da ingestão de água potável ou de alimentos contaminados com agrotóxicos e da respiração de ar contaminado. Os trabalhadores agrícolas geralmente enfrentam riscos de exposição mais elevados do que a população em geral porque os agrotóxicos são amplamente utilizados na agricultura. Mesmo pequenas perturbações no sistema endócrino podem causar impactos significativos na saúde humana. Os cientistas associaram a desregulação endócrina ao câncer da mama, diabetes, obesidade, infertilidade e dificuldades de aprendizagem.

Os cientistas perceberam que as doenças associadas aos produtos químicos desreguladores endócrinos estavam aumentando há muito tempo, o que levou à decisão do Congresso, na década de 1990, de pressionar a EPA a conceber um programa para identificar e lidar com a ameaça à saúde pública. 

A agência deveria inicialmente implementar o programa até agosto de 1999. Depois de perder o primeiro prazo, o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, uma organização ambiental internacional sem fins lucrativos, processou a EPA e, desde então, a EPA não conseguiu implementar o programa, repetidas vezes perdendo prazos judiciais e auto-impostos. 

Apesar das décadas de atraso, as empresas que vendem agrotóxicos amplamente utilizados, incluindo os fabricantes de herbicidas Syngenta e Bayer, que compraram a Monsanto em 2018, estão a pedindo à EPA que adie ainda mais a implementação do seu plano. Ambas as empresas, juntamente com o lobista da indústria agroquímica CropLife America, solicitaram à EPA que estendesse o período de comentários públicos em 90 dias.

“A Bayer tem um grande número de ingredientes ativos técnicos que precisam ser avaliados para determinar se há outras informações cientificamente relevantes disponíveis para fornecer à
Agência”, disse a Bayer em carta enviada à EPA no mês passado. Os produtos de eliminação de ervas daninhas à base de glifosato da Bayer – herdados da Monsanto – estão actualmente sob escrutínio global, uma vez que muitos cientistas apontam para o que consideram ser evidência de uma série de riscos para a saúde humana decorrentes da exposição ao glifosatoincluindo perturbações endócrinas. 

E, chamando o plano de um “passo importante”, a Rede de Proteção Ambiental, que é um grupo de ex-funcionários da EPA, pediu à agência que estendesse o período de comentários públicos por 30 dias para “permitir ao público o tempo necessário para se preparar ao máximo comentários abrangentes possíveis.” 

“Fé perdida”

De acordo com o seu novo plano, a EPA afirma que dará prioridade à compreensão dos efeitos que certos agrotóxicos têm nos sistemas endócrinos humanos, ao mesmo tempo que atrasará a análise dos efeitos na vida selvagem. A agência disse que utilizará os dados existentes que já possui, introduzindo gradualmente requisitos para novos dados de investigação ao longo do tempo, à medida que os agrotóxicos forem submetidos a revisão de registro. De acordo com a lei, a segurança dos agrotóxicos deve ser revista a cada 15 anos.

Atualmente, a EPA exige dois níveis de testes para determinar se um produto químico é um desregulador endócrino. Primeiro, os agrotóxicos passam por testes de Nível 1 para determinar se têm potencial para serem um desregulador endócrino. Se for determinado que um produto químico tem esse potencial, ele deverá passar para os testes de Nível 2, que fazem uma determinação. 

No entanto, a EPA nunca fez com que um produto químico passasse por testes de Nível 2, apesar de ter testado alguns produtos químicos como potenciais desreguladores endócrinos. 

Maricel Maffini, consultora independente que pesquisou a EDSP, disse que há muitas pesquisas que mostram que determinados pesticidas, como a atrazina, o clorpirifós e o glifosato, são produtos químicos desreguladores endócrinos, mas a EPA recusou-se a incorporar muitos dos produtos revistos por pares. literatura sobre esses agrotóxicos. 

“Quantos testes positivos eles precisam ter para chamar um gato preto de gato preto? Eles nunca aceitaram ter que tomar decisões. Eles estão chutando as latas que encontram no caminho”, disse Maffini.

A EPA perdeu muita confiança do público durante este atraso, de acordo com Jennifer Sass, cientista sénior do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais.

“As pessoas perderam a fé na EPA para fazer este trabalho”, disse Sass. “Eles estão se esforçando para não chamar de prejudiciais coisas que todos sabem que são prejudiciais.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “The New Lede” [Aqui!].

Lula repete Bolsonaro, e governo não compra terras para reforma agrária pelo terceiro ano seguido

Lula 3 tem reforma agrária lenta, mas mantém ritmo acelerado de emissões de títulos de lotes de assentados; política foi prioritária na gestão Bolsonaro, porém, é criticada por movimentos sociais

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Ato de solidariedade ao acampamento Terra e Liberdade, onde seis acampados e três trabalhadores morreram em incêndio em Parauapebas (PA) (Foto: Rodrigues Silva/MST) 

Por Fernanda Canofre para a Repórter Brasil

A morte de nove pessoas em um acampamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em Parauapebas (PA), no último dia 9, chamou atenção para a situação de risco enfrentada por acampados e pré-assentados no país. As políticas de reforma agrária caminham a passos lentos há dez anos, e pouco mudou no atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

O número de áreas adquiridas pela União para a criação de novos assentamentos vai terminar zerado pelo terceiro ano consecutivo – acompanhando o movimento iniciado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2021.

Cerca de 65 mil famílias vivem hoje em acampamentos, segundo fontes do movimento, e outras 30 mil estão em pré-assentamentos – onde os processos não foram concluídos e, por isso, os agricultores não têm acesso a créditos nem a outras políticas do programa de reforma agrária. 

O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) joga a conta da paralisia da atual gestão na herança deixada pelo governo anterior. ‘’Neste ano, não houve compra de terras para destinação ao Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA). Em função do orçamento exíguo herdado do governo anterior, estão sendo empreendidos esforços no sentido de mapear terras devolutas e direcioná-las ao programa’’, diz o órgão, via assessoria de imprensa.  

O orçamento deste ano, de R$ 256 milhões, foi o menor dos últimos 20 anos, segundo dados do Incra. O valor previsto para 2024 é de R$ 567 milhões, de acordo com a primeira versão da lei orçamentária do próximo ano, que deve ser votada ainda nesta semana no Congresso.

‘’O diálogo [com o governo] é uma beleza, mas não passa disso”, afirmaJoão Paulo Rodrigues, coordenador do MST. “O governo é democrático, de participação, explica o problema e traz para nós a situação. Mas a questão é a seguinte: como eu saio de R$250 milhões e chego a pelo menos R$ 1 bilhão para o Incra?’’, questiona. 

Além do orçamento abaixo do necessário, outros fatores dificultam o processo, como o fato de o Incra carecer de servidores e estrutura.

‘’A Superintendência aqui já teve mais de 200 servidores e hoje temos cerca de 50. Não tem gente para poder fazer revisão, não tem vistoria nos lotes, não tem dinheiro para poder ir lá. É uma situação caótica. O último concurso foi em 2012 e foi sucateando de lá para cá, o pessoal foi saindo’’, diz o superintendente regional do Incra em Marabá (PA), Reginaldo Rocha de Negreiros, em entrevista concedida antes do trágico incêndio ocorrido no sudeste do Pará, durante a instalação de uma antena de internet. A regional é responsável por Parauapebas.

Na região, há territórios que esperam o andamento do processo de regularização desde o governo Dilma Rousseff (PT), encerrado há quase oito anos.

É o caso do Projeto de Assentamento Marajaí dos Carajás. A área está localizada nos municípios de Sapucaia, Xinguara e Curionópolis. Ela foi reconhecida em portaria de 2016, após o acampamento ser erguido em 2010, mas não passou disso.

Antônio Reis da Silva, 59, presidente de uma das associações do Assentamento Marajaí dos Carajás, conta que os agricultores, sem as políticas de reforma agrária, se viram como podem nos últimos 13 anos. Ergueram casas e instalaram serviços de internet e luz por conta própria. A única ajuda vinda por meio do poder público, diz ele, foi um trator comprado via emenda parlamentar de um vereador local.

“Essas trocas de governo sempre prejudicam os pequenos da agricultura familiar, que querem sobreviver trabalhando dos braços”, conta.

Para o advogado José Batista, da CPT (Comissão Pastoral da Terra) no Pará, ainda não está claro qual vai ser a prioridade do Incra nos próximos anos. ‘’Não tem um projeto. O que tem são discursos do ministro, do presidente do Incra, da cúpula do governo, mas não tem um programa divulgado das metas, das políticas que serão priorizadas’’, avalia. 

Assentados em queda, titulação em alta

Nesse cenário, o governo Lula vai fechar seu primeiro ano de gestão com índices próximos aos da gestão Bolsonaro. Segundo o Incra, foram criados dez assentamentos neste ano, em áreas que já haviam sido adquiridas pelo governo federal. Isso representa metade da meta para 2023, com base em um balanço dos oito primeiros meses da gestão ao qual a Repórter Brasil teve acesso. Os dez assentamentos criados somam área de 10,5 mil hectares.

Por outro lado, continua a política em torno da emissão de títulos definitivos da terra para quem já é assentado, empreendida a todo gás sob Bolsonaro. Foram 38 mil títulos em 2023, segundo o Incra, somando Títulos de Domínio (TD) em assentamentos e glebas públicas e Contratos de Concessão de Uso (CCU). A meta deste ano é chegar a  57.623, segundo o balanço.

Em tese, a titulação seria a última etapa do processo de reforma agrária, depois da implementação de outras políticas públicas para atender famílias cadastradas e consolidar territórios, aponta Batista, da CPT.

‘’Porém, no governo Bolsonaro, se inverteu essa lógica. Colocou-se a titulação como sendo a primeira e única política para os assentados, e a gente percebe o governo atual tendo dificuldade de romper com essa lógica”, diz Batista. “Não somos contra a titulação, mas ela atropela o processo, porque sem estudo prévio para saber quais famílias já foram beneficiadas, corre-se o risco de titular quem não teve acesso [aos benefícios da reforma agrária]. Se as pessoas continuarem na dependência do município, podem acabar vendendo o lote’’, explica. 

Quanto ao número de famílias assentadas anualmente, os dados obtidos pela reportagem mostram queda contínua desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, principalmente durante o governo Bolsonaro.

Em 2023, foram assentadas 5.711 famílias, segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Essa era a meta do Incra para o ano.

O Ministério do Desenvolvimento Agrário, responsável pelo Incra, afirma que o Plano Emergencial de Reforma Agrária prevê assentar 7.200 famílias e regularizar outras 40 mil, mas não fala em prazo. 

O governo vem tentando levantar terras por outros caminhos. No anúncio oficial do Plano Safra 2023/2024, no primeiro semestre, o presidente Lula  aventou a ideia de uma “prateleira de terras”.

‘’Se nós temos o Incra, que é responsável pela distribuição de terra nesse país, pela compra de terra, se nós temos em cada estado um instituto que cuida da terra, a minha pergunta é a seguinte: por que a gente tem que esperar as pessoas invadirem uma terra para a gente comprar? Por que a gente não faz um levantamento de todas as terras devolutas, de todas as terras ociosas e a gente cria no governo um balcão, uma prateleira de terras?’, discursou o presidente.

À reportagem, em novembro, o Ministério do Desenvolvimento Agrário afirmou que a Câmara Técnica de Destinação e Regularização Fundiária de Terras Públicas Federais Rurais foi reinstalada, e que ela dará ‘’início à consolidação de uma prateleira de terras públicas que podem ser destinadas à reforma agrária’’. Porém, não explicou como o sistema vai funcionar.

(Infografia: Cris Macari)
(Infografia: Cris Macari)
(Infografia: Cris Macari)

‘Sem guerra’

Em meio à falta de resultados, parlamentares do PT teriam criticado a demora do andamento de programas, segundo apurou aRepórter Brasil. A lentidão também impulsionou protestos do MST ao longo do ano – além de ocupações de terra –, colocando o governo e o movimento em lados opostos em alguns momentos.

Lula chegou a dizer que era possível fazer a reforma agrária sem “barulho” e sem “guerra”. “Eu disse para o [ministro do Desenvolvimento Agrário] Paulo Teixeira esses dias: não precisa mais invadir terra. Se quem faz o levantamento da terra improdutiva é o Incra, o Incra comunica o governo quais são as terras improdutivas que existem em cada estado brasileiro e a partir daí vamos discutir a ocupação dessa terra. É simples. Não precisa ter barulho, não precisa ter guerra”, disse o presidente em junho.

Seus ministros adotaram tom ainda mais crítico. Em maio, Teixeira e o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, foram à Comissão de Agricultura e Reforma Agrária no Senado e tocaram no assunto. ‘’Não tem posicionamento dúbio: invasão de terras não é legítimo. Não devemos apoiar’’, disse Fávaro. ‘’Isso é uma exigência do governo: com áreas ocupadas, não negociamos. Não há desse governo qualquer leniência com esse tipo de problema’’, afirmou Teixeira.

Rodrigues, coordenador do MST, afirma que as ocupações ocorrem como um protesto contra fazendas ou empresários suspeitos de cometer violações, e não miram o governo nem são uma “moeda de troca”. “Não sou eu, João Paulo, aqui de São Paulo, que decido ‘gente, amanhã vamos ocupar terra no Pará’. Não se trata disso. É um combinação de gente desempregada, alguma fazenda que está desocupada, tem trabalho análogo à escravidão, não respeita o meio ambiente’’, diz.

‘Nunca haverá, por parte do MST, uma moratória sobre ocupação de terra. O que há são cuidados. O MST não pode fazer ocupação com poucas famílias, não pode fazer em áreas produtivas que cumprem a função social, deve evitar áreas que podem ter conflito de alguma natureza’’, continua.

Em meio a esse fogo cruzado, ainda houve em maio a instalação da CPI do MST no Congresso, lembra Rodrigues, acrescentando que a comissão teria atrapalhado os planos do governo de cuidar do assunto. ‘’A direita conseguiu enquadrar e constranger o governo com essa CPI. O governo achou que a CPI era um problema do MST, só que também paralisou tudo por sete meses’’, afirma. A comissão perdurou na Câmara até setembro, e foi concluída sem a votação do relatório final.  

E o ano que vem?

A maior preocupação para 2024 é garantir orçamento para o Incra. Mas o plano de gastos do Executivo sequer foi aprovado no Congresso. O orçamento previsto para o próximo ano, de R$ 567 milhões, é abaixo do necessário na avaliação de movimentos. 

O MST diz ser necessário algo na casa de R$2,8 bilhões. Já a Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag) estima R$ 7 bilhões.

A falta de orçamento afeta as políticas agrárias há dez anos, avalia Ceres Hadich, coordenadora do escritório nacional do MST. “Nos assentamentos não conseguimos acessar as políticas públicas individuais e coletivas’.

‘’A gente está na briga para que o governo recomponha esse orçamento. Para o PAC [Plano de Aceleração do Crescimento] há recursos, por que não pode tirar algo disso para a reforma agrária? A gente avalia que está devagar, mas não é hora de desanimar’’, diz Alair Luiz dos Santos, secretário de política agrária da Contag.

‘’Os recursos destinados no orçamento do Incra são menos da metade do que um parlamentar tem direito de emenda individual impositiva. São cerca de R$ 11 milhões a R$ 12 milhões para investimento nas ações da reforma agrária no Brasil inteiro”, disse o senador Beto Faro (PT-PA), em discurso em agosto. À reportagem, o parlamentar, que já foi superintendente do Incra em Belém, disse que vai destinar emendas ao órgão no próximo ano.

Negreiros, superintendente do Incra em Marabá, diz conhecer bem a sensação da espera das famílias que aguardam o cenário mudar. Ele é agricultor familiar, assentado pela reforma agrária em São Geraldo do Araguaia, na região do Baixo Araguaia, mas aguarda há mais de três décadas pelo título definitivo da terra. Confirmado o orçamento enxuto outra vez, ele também se preocupa.

‘’A gente fica na angústia de sempre, porque sabe que não vai atender a demanda. A gente tem quase 200 áreas que o povo está ocupando, a maioria teria condições de fazer obtenção, mas cadê o dinheiro para comprar e assentar esse pessoal? Com um orçamento desses, não tem’’, finaliza.


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Grupos lançam ação legal para cassar registro do Glifosato nos EUA

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Por Sustainable Pulse 

Uma ação legal inovadora lançada quarta-feira apela à Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) para suspender e cancelar imediatamente o perigoso herbicida glifosato, o principal ingrediente do Roundup da Bayer/Monsanto

O registro do glifosato é ilegal, afirma a petição apresentada pelo Center for Food Safety em seu nome, pela Beyond Pesticides e por quatro grupos de defesa de trabalhadores rurais . No ano passado, em uma ação judicial movida pelas mesmas organizações sem fins lucrativos, um tribunal federal de apelações anulou a avaliação de saúde humana da EPA porque a agência rejeitou injustamente o risco de câncer do glifosato. A petição de hoje, pedindo o cancelamento e suspensão do registro do glifosato, tem mais de 70 páginas e inclui mais de 200 citações científicas.

“Esta petição é um modelo para a administração Biden fazer o que a lei e a ciência exigem e finalmente cancelar o registro do glifosato”, disse Pegga Mosavi, advogada do Centro de Segurança Alimentar e conselheira dos peticionários. “Existem inúmeras evidências científicas que demonstram que o glifosato põe em perigo a saúde pública e representa riscos de câncer para os agricultores e outros utilizadores do Roundup. As formulações de glifosato também são um perigo ambiental e provocaram uma epidemia de ervas daninhas resistentes que assolam os agricultores. Após a decisão judicial do ano passado, a EPA não tem bases legais para se sustentar. A EPA deve agir agora.”

O glifosato é o agrotóxico mais utilizado no mundo, com aproximadamente 136 milhões de toneladas aplicadas anualmente nos EUA. No entanto, a EPA recusou-se a agir, apesar dos danos infligidos pelo uso generalizado do glifosato. Numerosos estudos – incluindo muitos patrocinados pela Bayer/Monsanto – mostram que o glifosato tem efeitos nocivos no fígado, nos rins e no sistema reprodutor, e é um provável agente cancerígeno ligado especificamente ao cancro do sistema imunitário, o linfoma não-Hodgkin.

Caixa de glifosato

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Bill Freese, diretor científico do Center for Food Safety, observou: “A EPA certa vez reconheceu que o glifosato tem efeitos adversos no fígado, nos rins e no sistema reprodutivo dos mamíferos, e pode até causar câncer – efeitos que foram revelados pela primeira vez em estudos de décadas atrás com registrantes. . Mas à medida que a Monsanto procurava utilizações cada vez mais amplas para o seu herbicida de grande sucesso, a EPA relegou esses estudos incriminatórios ao esquecimento regulamentar, facilitando assim uma maior utilização, mesmo quando cientistas independentes confirmaram os danos que a EPA agora nega.”

As formulações de glifosato também devastaram o meio ambiente, causando consideráveis ​​danos causados ​​pela deriva em plantações e plantas silvestres. Ao dizimar a serralha, o glifosato tem sido um fator importante no declínio da borboleta monarca, e muitas formulações do Roundup são extremamente tóxicas para os anfíbios. A própria EPA descobriu que o glifosato provavelmente afetará negativamente incríveis 93% das espécies ameaçadas e em perigo de extinção e 96% do habitat crítico que as sustenta.

A petição de hoje pede à EPA que suspenda o uso do glifosato até que a agência possa concluir o processo de cancelamento ou demonstrar que o glifosato atende aos padrões de segurança exigidos pela Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas. O cancelamento tornaria ilegal a venda e o uso de qualquer produto que contenha o produto químico.

“As mulheres trabalhadoras agrícolas e as suas famílias têm experimentado os efeitos nocivos dos pesticidas para a saúde há demasiado tempo”, disse Mily Treviño-Sauceda, Diretora Executiva da Alianza Nacional de Campesinas. “A EPA deve proteger os trabalhadores agrícolas do país e o nosso ambiente, suspendendo e cancelando imediatamente todos os registros de glifosato.”

Fundo

A última vez que o glifosato foi sujeito a uma reavaliação abrangente foi em 1993, pouco antes da explosão na sua utilização que acompanhou as culturas Roundup Ready da Monsanto, que são geneticamente modificadas para resistir ao glifosato. De acordo com a lei federal, a EPA deve rever os registros de agrotóxicos a cada 15 anos para determinar se continuam a cumprir o padrão de segurança exigido – sem efeitos adversos excessivos no ambiente – tendo em conta a nova ciência e os padrões de utilização actuais. A EPA só iniciou este processo de revisão do registo do glifosato em 2009, emitindo uma decisão provisória em 2020.

Apesar de ter passado onze anos na sua revisão, a divisão de pesticidas da EPA não conseguiu chegar a uma conclusão sobre se o glifosato causa o linfoma não-Hodgkin (LNH). A agência, no entanto, rejeitou o risco global de cancro do glifosato, considerando que “não é provável” que cause cancro. O NHL é o cancro associado ao glifosato em muitos estudos epidemiológicos de agricultores e em avaliações realizadas por cientistas da divisão científica da EPA. É também o cancro associado ao glifosato pela maior autoridade mundial em substâncias cancerígenas, a Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro da Organização Mundial de Saúde. Muitos pacientes da NHL que atribuíram seu câncer ao uso do Roundup ganharam ações judiciais contra a Monsanto/Bayer.

Em 2022, o Tribunal de Apelações do Nono Circuito dos EUA derrubou o câncer da EPA e a avaliação mais ampla do glifosato para a saúde humana, em uma ação movida pelo Centro de Segurança Alimentar em nome dos mesmos peticionários. O tribunal considerou que a avaliação do glifosato sobre o câncer feita pela EPA é internamente contraditória e viola as próprias diretrizes da EPA para avaliação de risco cancerígeno. Críticas semelhantes foram feitas por um painel consultivo científico especializado nomeado pela EPA e por cientistas da EPA de fora da divisão de pesticidas.

Como resultado da decisão do tribunal, a EPA carece de uma avaliação legal do glifosato sobre a saúde humana para apoiar o seu uso atual. O tribunal também devolveu a avaliação de risco ecológico do glifosato à EPA, com prazo para concluí-la. A EPA não cumpriu este prazo e, em vez disso, optou por retirar toda a decisão de revisão provisória do registo. Posteriormente, o Congresso estendeu o prazo da EPA para concluir as revisões de registro do glifosato e de todos os outros pesticidas com conclusão prevista para outubro de 2022 a outubro de 2026.

Hoje, o glifosato continua registrado com base inteiramente em uma avaliação de 1993, realizada há três décadas. Esta avaliação desatualizada não leva em conta o aumento exponencial do uso de glifosato que começou com a introdução, em meados da década de 1990, de milho, soja, algodão e outras culturas importantes resistentes ao glifosato; também é anterior aos milhares de estudos científicos incriminatórios sobre o glifosato que se acumularam desde 1993. Esta avaliação antiquada também não explica os enormes custos impostos aos agricultores pelo surto de ervas daninhas resistentes ao glifosato neste século. Por todas estas razões, a EPA não pode cumprir o padrão de segurança exigido para os usos atualmente aprovados do glifosato e deve cancelar o seu registo.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Sustainable Pulse [Aqui!].