Três geleiras da Antártica mostram perda de gelo rapidamente acelerada devido ao aquecimento dos oceanos

Ondas oceânicas poderosas desencadearam parcialmente este rápido recuo

geleiras derretendoA ruptura do gelo marinho ao longo da Península Antártica (vista nesta foto de satélite) em 2022 levou ao rápido recuo de três geleiras que deságuam na baía. Joshua Stevens, MODIS/LANCE/EOSDIS/NASA, VISÃO MUNDIAL/GIBS/NASA

O rápido recuo “é realmente inédito”, diz Mathieu Morlighem, glaciologista do Dartmouth College que não fez parte da equipa que relatou estas descobertas.

O colapso foi desencadeado por temperaturas anormalmente quentes do oceano, que fizeram com que o gelo marinho recuasse. Isso permitiu que uma série de ondas grandes atingissem uma seção da costa que normalmente é protegida delas. “O que estamos a ver aqui é uma indicação do que poderá acontecer noutros lugares” na Antártida, diz Naomi Ochwat, glaciologista da Universidade do Colorado em Boulder, que apresentou as descobertas a 11 de dezembro na reunião da União Geofísica Americana.

A geleira Hektoria, a geleira Green e a geleira Crane ficam perto da ponta da Península Antártica, que se estende em direção à América do Sul. A baía em forma de lua crescente, chamada Larsen B Embayment, já pareceu estável. À medida que estes glaciares escorriam da costa, o seu gelo costumava fundir-se numa placa flutuante com cerca de 200 metros de espessura. Esta laje, chamada plataforma de gelo Larsen B, tinha aproximadamente o tamanho de Rhode Island e preenchia toda a baía.

Existindo há mais de 10.000 anos, esta plataforma de gelo sustentou e estabilizou as geleiras que fluíam para ela. Mas durante um verão quente em 2002, de repente ele se fragmentou em milhares de icebergs finos (SN: 27/03/ 02).

As geleiras Hektoria, Green e Crane – não mais contidas pela plataforma de gelo – começaram a fluir para o oceano várias vezes mais rápido do que antes, derramando bilhões de toneladas de gelo na década seguinte.

Então, a partir de 2011, a hemorragia desacelerou. A fina camada de gelo marinho que se forma sobre a baía a cada inverno começou a persistir durante todo o ano, preservada por uma série de verões frios. Este “gelo terrestre”, firmemente preso à costa, cresceu de cinco a 10 metros de espessura, estabilizando as geleiras. Suas línguas flutuantes avançaram gradualmente de volta para a baía. Mas as coisas mudaram abruptamente no início de 2022. Nos dias 19 e 20 de janeiro, o gelo terrestre desintegrou-se em fragmentos, que se afastaram.

Imagens de satélite tiradas com apenas 10 dias de intervalo revelam a dramática ruptura do gelo marinho no Larsen B Embayment, na Antártica. Em 16 de janeiro de 2022, o gelo marinho encheu a baía (esquerda). Em 26 de janeiro (à direita), o gelo havia fraturado e estava se afastando após uma série de ondas poderosas que atingiram a baía vários dias antes. À Esquerda: Joshua Stevens, MODIS/LANCE/EOSDIS/NASA, WORLDVIEW/GIBS/NASA À Direita Joshua Stevens, MODIS/LANCE/EOSDIS/NASA, WORLDVIEW/GIBS/NASA

Utilizando dados de bóias oceânicas mais a norte, Ochwat e colegas determinaram que uma série de ondas poderosas, superiores a 1,5 metros, tinham vindo do nordeste – quebrando o gelo fixo em terra firme. Essas ondas eram altamente incomuns nesta área.

O Oceano Antártico, que circunda a Antártida, contém algumas das águas mais agitadas do mundo. A Península Antártica estende-se até esta região turbulenta, mas o seu lado leste, onde fica o Embayment Larsen B, raramente sente as ondas. Normalmente é protegido por várias centenas de quilómetros de blocos de gelo – blocos de gelo marinho, pressionados uns contra os outros pelas correntes oceânicas – que amortecem as ondas, deixando as águas perto de Larsen planas como um espelho.

Em 2022, as temperaturas da água perto da superfície do Oceano Antártico aumentaram vários décimos de grau Celsiusacima do normal, causando a formação de camadas de gelo encolher e descascar da península. Isso expôs a área às ondas, que quebraram o gelo marinho.

Os glaciares aceleraram à medida que as suas línguas flutuantes, já não mantidas no lugar, se fragmentaram em icebergs. A geleira Crane perdeu 11 quilômetros de gelo, quase apagando sua língua flutuante; A Geleira Verde perdeu 18 quilômetros, abrangendo todo o seu gelo flutuante.

Hektoria perdeu todos os 15 quilómetros do seu gelo flutuante – seguido por outros 10 quilómetros de gelo que normalmente é mais estável, porque repousa no fundo do mar. Isso “é mais rápido do que qualquer recuo das geleiras das marés que conhecemos”, diz Ochwat.

O destaque anterior, o Glaciar Columbia, no Alasca, tinha perdido 20 quilómetros de gelo em 30 anos, mostram os registos. Mas Hektoria perdeu os seus 10 quilómetros de gelo não flutuante em apenas cinco meses – incluindo 2,5 quilómetros que se desintegraram num período de 3 dias.

Tudo isto sugere que as pessoas que tentam prever a subida do nível do mar precisam de considerar o gelo marinho, diz Morlighem. Até agora, “o seu papel na dinâmica [das geleiras] foi completamente ignorado”.

Ochwat está esperando para ver o que acontecerá à medida que o atual verão antártico esquentar entre dezembro e março. Hektoria e os outros glaciares têm recuado apenas durante os meses de verão, quando o gelo marinho está ausente; eles fazem uma pausa durante o inverno, quando a superfície da baía congela por alguns meses.

Se o gelo marinho da Antártica continuar a diminuir, como tem acontecido desde 2022, isso poderá significar problemas, diz o coautor do estudo, Ted Scambos, glaciologista também da UC Boulder. “Teremos uma secção mais longa da costa onde a acção das ondas pode actuar na frente das plataformas de gelo e dos glaciares”, acelerando potencialmente o recuo glacial.

color compass

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Science [Aqui!].

Água mole em pedra dura, tanto bate e nunca apanha

water supply
Por Douglas Barreto da Mata
Apesar de ser de conhecimento de todos os moradores, e até das pedras portuguesas e dos banquinhos arrancados da Praça Quatro Jornadas em Campos dos Goytacazes, de que a empresa concessionária de água e esgotos da cidade presta um serviço caro e porco, não houve nenhuma alteração e/ou intervenção séria pelos poderes constituídos, que, via de regra, deveriam estar a serviço da população que lhes outorga os mandatos…
Não bastam os dados nacionais e internacionais que apontam que o modelo de concessão/privatização dos serviços essenciais não funciona, nem aqui, nem nas terras do rei da Inglaterra…
Mesmo assim, os proprietários e/ou acionistas majoritários e controladores dessas empresas seguem impunes e seus interesses intactos…
Lembram do rompimento do dique? 
Pois é…caiu no esquecimento, e sem uma apuração digna desse nome, a conta do estrago ficou para a viúva…
Sabem os questionamentos sobre os níveis de substâncias tóxicas (incluindo aí agrotóxicos) na água fornecida?
Nada!
Neste último domingo, a população pobre da comunidade da Linha interrompeu o tráfego na BR 101, causando transtornos e até prejuízo para concorrentes ao cargo de guarda municipal, cujo concurso foi realizada naquele dia.
A queima de pneus, método utilizado, acabou por danificar o recém-instalado pavimento.
water privatization
Ou seja, devido a uma justa revolta de pessoas privadas de um insumo mais básico e essencial, água, mais equipamento público foi danificado e  vários candidatos a uma vaga no serviço público foram prejudicados
O que esperam os poderes legislativo e executivo da cidade?
Que a empresa concessionária de águas e esgoto provoque uma tragédia, uma revolta popular sem precedentes?
O estranho disso tudo é que os combativos e beligerantes vereadores, que vociferam impropérios uns contra os outros, como leões, quando na disputa pelos seus espaços políticos, sejam da oposição ou situação, parecem gatinhos domesticados a espera do pires de leite…quando se trata da empresa, ronronam…
Ao seu lado, o prefeito e sua astuta equipe de procuradores batem às portas do Judiciário, sem qualquer resultado prático…
Ora, ora, ora…
Se tivessem um mínimo de coragem e empatia ao sofrimento da população pobre que os elege, e que é quase sempre a primeira a ser privada da água, do esgoto, da luz, enfim, adotariam o que a Lei manda:
– CASSAR A CONCESSÃO, pela não prestação de contas da empresa junto aos vereadores, pelas diversas irregularidades na prestação do serviço, pela tarifa não justificada, já que as planilhas de custo operacional, cronograma de investimentos e etc, nunca são apresentadas, nem na Justiça, e por último, pelo total descaso da empresa com a municipalidade…
Fica enfim a pergunta: para que eleição em Campos dos Goytacazes? Pois basta entregar a cidade à empresa, que no fim das contas, é quem parece mandar na cidade, de fato….

Seguindo o turbilhão da Zara: a moda aérea de outras marcas e seus impactos nas mudanças climáticas

moda

Por Public Eye

Atualmente, apenas algumas empresas informam voluntariamente como transportam os seus produtos. E as estatísticas públicas, especialmente dos maiores mercados de importação da Europa e da América do Norte ou dos principais países industriais como a China, não são suficientemente detalhadas para apresentar uma imagem precisa. Portanto, a nossa investigação de acompanhamento sobre a moda aérea não deve ser interpretada como sendo um quadro completo ou mesmo representativo da situação atual. Mas dá uma indicação clara da importância do frete aéreo para marcas individuais. Salvo indicação em contrário, os dados mencionados referem-se aos últimos 12 meses para os quais existem dados disponíveis.

Que evidências existem de que o frete aéreo está sendo utilizado por outros varejistas de moda?

Já destacamos em nossa investigação até que ponto a Inditex e Shein dependem de frete aéreo. Comparado a isso, o padrão que vemos emergir dos dados alfandegários analisados ​​é bastante misto.

  • No que diz respeito a alguns dos principais concorrentes diretos no segmento de fast-fashion, os dados disponíveis indicam uma taxa comparativamente baixa de moda aérea. Em Bangladesh, por exemplo, a taxa atual parece estar abaixo de 2% para grandes clientes, como H&M ou  a Primark, e abaixo de 3% para Bestseller (Jack Jones, Vero Moda). Em comparação, o número da Inditex é superior a 20% este ano.
  • Por outro lado, encontramos evidências de uma maior incidência de moda aérea no grupo Próximo. Das suas importações provenientes do Bangladesh, cerca de 10% vêm por via aérea e das provenientes da Índia cerca de 20%. O terceiro maior grupo de moda do mundo, Fast Retailing (Uniqlo), também envia seus produtos de moda para todo o mundo, com quase 20% das importações provenientes do Vietnã. provavelmente chegará de avião.
  • Entre os principais grupos de moda esportiva, Lululemon se destaca em particular, transportando cerca de 30% dos seus produtos são fabricados no Vietname e no Sri Lanka por avião. Compare isso com os concorrentes Nike e Adidas para os quais observamos uma proporção menor do transporte aéreo a partir do Vietname – menos de 5 por cento. E a Puma nos informou que sua taxa de voo para produtos do Vietnã é atualmente de apenas 0,5%.

Até as roupas íntimas chegam de avião, com cerca de um quarto dos produtos fabricados para a Victoria’s Secret no Vietnã e até um terço dos produtos do Sri Lanka sendo transportados desta forma. A gigante da roupa íntima Calzedonia também possui produtos fabricados na ilha, com a proporção de transporte aéreo na faixa de 5 a 10%.

Transparência? Raramente encontrado

Esta evidência mostra-nos que a moda transportada pelo ar não só prevalece amplamente na Inditex e na Shein, mas também noutras partes da indústria do vestuário. Contudo, o facto de alguns dos principais concorrentes directos utilizarem apenas uma pequena proporção dos voos proporciona uma luz de esperança. A forma como a moda aerotransportada é tratada de forma diferenciada no setor também pode ser percebida na forma como as empresas se comunicam sobre ela.

Next e Victoria’s Secret estão assumindo a liderança de Inditex e Shein e não falam mais do que em termos gerais sobre as suas emissões provenientes dos transportes. A história é semelhante com o Fast Retailing. Esta empresa, que tem Roger Federer como embaixador da sua marca principal Uniqlo, respondeu à nossa consulta, mas não partilhou quaisquer detalhes sobre a moda aérea. A empresa refere-se, em vez disso, aos seus objetivos climáticos globais e ao envolvimento numa iniciativa para reduzir as emissões dos transportes. Contudo, este compromisso não apresentou progressos até agora; muito pelo contrário, já que as emissões dos transportes aumentaram 55% desde 2019.

Outras empresas estão adotando uma abordagem mais proativa em relação ao problema.Bestseller afirma que o uso de frete aéreo vem diminuindo há quatro anos e que sua proporção no total de frete transportado é atualmente de 1,04%. Como resultado disso, as emissões relacionadas aos transportes caíram 55% desde 2018. O relatório de sustentabilidade da H&M também mostra uma redução significativa no frete aéreo. emissões (–51%) no último exercício financeiro. Quando questionada, a Primark explicou que geralmente faz encomendas com longos prazos de entrega e permite tempo suficiente para transportes marítimos. O frete aéreo seria, portanto, usado com pouca frequência. No entanto, a empresa não nos forneceu quaisquer números sobre isso.

A Nike menciona um ligeiro aumento no frete aéreo utilizado para o fluxo de mercadorias em 2022, mas o volume permaneceu baixo e abaixo do nível pré-pandemia. A Lululemon pelo menos identifica o frete aéreo como o principal contribuinte para a elevada proporção de suas emissões totais contabilizadas pelos transportes (25%) e está anunciando uma tarefa forçar a transferência do transporte de mercadorias do ar para o mar. Mas é difícil definir estes anúncios e dados sem ter números específicos para basear. 

Apenas algumas empresas fornecem detalhes mais precisos sobre a proporção atual da sua carga transportada por via aérea. A Calzedonia estima que este valor representa uns impressionantes 20% do volume total, o que significa que as emissões comunicadas são correspondentemente elevadas. Por outro lado, a proporção relatada pela Adidas é significativamente menor: 2% em 2022.

Descobrimos que Puma forneceu as informações mais detalhadas. A empresa reporta uma redução na sua taxa de frete aéreo de 3% antes da pandemia para 1% hoje, fornece números detalhados sobre as emissões para cada modo de transporte e é a única empresa que nos informa a quantidade total de carga aérea que transporta. Sem mencionar que a Puma estabeleceu uma meta de redução específica: reduzir a proporção de frete aéreo pela metade, para 0,5%, até 2025.

As grandes disparidades entre estas empresas sublinham o quão desnecessária a moda aérea é também do ponto de vista empresarial. Apelamos a todas as marcas para que eliminem gradualmente o transporte aéreo e forneçam informações transparentes sobre os meios de transporte que utilizam e as suas emissões.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Public Eye [Aqui!].

Os perigos dos agrotóxicos para a saúde

agrotóxicos 2

Por Sabrine Teixeira Grünewald para a Medscape

Um relatório [1] publicado recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) revela que um em cada quatro alimentos consumidos com frequência por brasileiros apresenta resíduos de agrotóxicos proibidos ou em quantidades acima do permitido. As amostras foram coletadas em supermercados de diversos municípios nos anos de 2018, 2019 e 2022.

Agrotóxicos são produtos químicos sintéticos usados para matar insetos, larvas, fungos, carrapatos etc. sob a justificativa de controlar os danos provocados por esses vetores e de regular o crescimento da vegetação, tanto no ambiente rural como no urbano. [2]

No entanto, a exposição aos agrotóxicos pode causar uma série de doenças, dependendo do produto utilizado, do tempo de exposição e da quantidade absorvida pelo organismo.

Toda a população está suscetível a múltiplas exposições aos agrotóxicos por meio de consumo de água e alimentos contaminados, porém gestantes, crianças e adolescentes são considerados grupos de risco devido a questões metabólicas, imunológicas ou hormonais.

Efeitos agudos e crônicos

A exposição a agrotóxicos pode causar efeitos agudos, que são mais frequentes em trabalhadores envolvidos na aplicação ou manipulação desses produtos. No relatório da Anvisa, concentrações de agrotóxicos grandes o bastante para representarem risco agudo à saúde foram encontradas em 0,55% das amostras coletadas entre 2018 e 2019 e em 0,17% das coletadas em 2022.

Já os efeitos crônicos aparecem após exposições repetidas a pequenas quantidades de agrotóxicos por um período prolongado. [3] Alguns exemplos desses impactos: distúrbios do sono, alterações da memória, abortamento, impotência sexual, transtorno depressivo, problemas respiratórios graves, alteração de função hepática e renal, alteração da produção de hormônios da tireoide, dos ovários e da próstata, infertilidade, malformação e problemas no desenvolvimento em crianças.

Além disso, os agrotóxicos são prováveis agentes carcinogênicos, embota a associação entre essas substâncias e o surgimento de tumores ainda é muito debatida.Segundo o novo relatório da Anvisa, 25% do total de amostras apresentavam alguma inconformidade, ou seja, tinham resíduos de um agrotóxico não autorizado ou as quantidades encontradas estavam acima do limite permitido. Esses alimentos teriam o potencial de causar efeitos crônicos em seus consumidores.

Cerca de 40 mil casos de intoxicação aguda por agrotóxicos são registrados no Brasil a cada década, de acordo com o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox). No entanto, especialistas sugerem que os problemas para a saúde decorrentes dos agrotóxicos são subnotificados no Brasil, principalmente em áreas rurais mais afastadas, onde o contato com esses produtos é mais intenso.

Diante de tudo isso, fica o questionamento: será que nós, enquanto profissionais da saúde, estamos preparados para atender a pacientes com efeitos agudos e crônicos dos agrotóxicos? Os dados preocupantes do relatório da Anvisa sugerem que em breve essa conta vai chegar nos consultórios e hospitais.


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Este artigo foi originalmente publicado pela Medscape [Aqui!].

Ligações do Paraquat com o Mal de Parkinson são destaque na mídia internacional

paraquat

A Syngenta vende paraquat nos EUA e em outros países sob o nome Gramoxone. ABC News
Por Care Gillam para o “The New Lede”

Evidências que ligam o popular herbicida paraquat à doença de Parkinson são apresentadas esta semana em um segmento de notícias on-line que inclui novos detalhes sobre a influência corporativa sobre Reguladores dos EUA e supressão da pesquisa científica.

O programa investigativo da Al Jazeera, Fault Lines, destaca as reportagens do The New Lede (TNL) e os milhares de documentos corporativos internos obtidos pela TNL que revelam décadas de esforços da Syngenta, fabricante de longa data do Paraquat, para ocultar evidências de como a exposição crônica ao paraquat pode causar o Mal de Parkinson.  

No mês passado, a reportagem “Paraquat Papers” do The New Lede também foi o foco de um segmento do ABC News Nightline.

The New Lede, em colaboração com The Guardian, revelou pela primeira vez uma coleção de documentos internos da Syngenta em outubro de 2022 e seguiu em matérias subsequentes , expondo anos de esforços empresariais para encobrir evidências de que o paraquat pode causar a doença de Parkinson. Os documentos obtidos pelo The New Lede também mostraram evidências de esforços para manipular e influenciar a Agência de Proteção Ambiental (EPA) e literatura científica publicada. Os documentos também mostram como a empresa trabalhou para enganar o público sobre os perigos do paraquat, entre outras estratégias secretas.

O artigo Fault Lines acrescenta à reportagem do TNL várias entrevistas diante das câmeras, incluindo uma com a Dra. Deborah Cory-Slechta, uma pesquisadora proeminente que investigou os impactos do paraquat nas células cerebrais. No segmento de notícias, Cory-Slechta afirma que “há um conjunto de evidências muito fortes e convincentes, baseado em estudos epidemiológicos e no que sabemos a partir de modelos animais da doença de Parkinson”, de que o Paraquat causa alterações no cérebro que levam à doença do Mal de Parkinson. Conforme revelado pela reportagem da TNL, a Syngenta trabalhou nos bastidores para impedir que Cory-Slechta participasse de um painel consultivo da EPA, considerando-a uma ameaça ao Paraquat. Funcionários da empresa queriam ter certeza de que os esforços não poderiam ser rastreados até a Syngenta, mostram os documentos obtidos pela TNL.

Notavelmente, Fault Lines inclui em seu segmento uma entrevista com a cientista aposentada da EPA Karen McCormack, que trabalhou na agência por 40 anos antes de se aposentar em 2018. McCormack diz diante das câmeras que a EPA não está cumprindo sua missão. 

“Nas últimas três décadas em que trabalhei na EPA, foi muito raro que um pesticida tóxico fosse retirado do mercado”, disse ela à Fault Lines. “Quase todo novo pedido de autorização de agrotóxico submetido à agência é aprovado, não importa quão alto seja o risco”, disse McCormack no segmento de notícias. Isso significa que o Paraquat e “muitos outros agrotóxicos altamente perigosos” são permitidos no mercado, disse ela.

“As empresas de agrotóxicos e os seus congressistas têm uma influência tremenda nas decisões da EPA”, disse ela. 

Uma transcrição da entrevista completa da Fault Lines com McCormack mostra que ela disse muito mais sobre a influência corporativa sobre a EPA. A seguir estão comentários adicionais feitos por McCormack que não foram incluídos na versão final do segmento de notícias:

“A captura regulatória é galopante na EPA e não creio que as pessoas sequer percebam que estão sendo capturadas”, disse McCormack. “E tenho visto vários cientistas muito bons que ficam frustrados com esta organização e abandonam o programa de agrotóxicos ou abandonam totalmente a agência. E é uma pena que isso aconteça.”

McCormack disse que “pode ser prejudicial para a carreira de alguém na EPA” falar sobre dados que mostram que um agrotóxico é potencialmente inseguro para uso. 

“As consequências não são boas. E acho que é por isso que muitas pessoas não seguem esse caminho”, disse ela, de acordo com a transcrição. “Se você decidir trabalhar para o programa de controle de agrotóxicos da EPA e for contra os interesses agrícolas, isso não será bom para sua carreira.”

“Os representantes dos fabricantes de agrotóxicos que conheci são muito sofisticados. Eles são muito charmosos. Eles querem ser seus amigos e ajudá-lo no trabalho que você faz. E, infelizmente, algumas pessoas caem na ofensiva do charme e tornam-se amigas das empresas fabricantes de agrotóxicos. É um grande problema na EPA”, acrescentou ela. 

Leia mais sobre a investigação da TNL sobre os Documentos do Paraquat aqui.

Veja o artigo da ABC News aqui.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “Thr New Lede” [Aqui!].

Liminar determina que Super Bom Supermercados cumpra uma série de medidas para garantir a segurança e saúde dos trabalhadores

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Decisão decorre de ação civil pública ajuizada pelo MPT-RJ após investigação autuada em razão da notícia de acidente ocorrido em uma das lojas da rede

A 1ª Vara do Trabalho de Campos dos Goytacazes expediu liminar determinando que as empresas Barcelos e Cia Ltda e Barcelos Varejo e Atacado Ltda (Grupo Barcelos – Super Bom Supermercados) cumpram uma série de medidas para garantir a segurança e saúde dos trabalhadores.

A decisão acolhe pedido do Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro (MPT-RJ), por meio da Procuradoria do Trabalho no Município (PTM) de Campos dos Goytacazes, em Ação Civil Pública (ACP) ajuizada após investigação autuada em razão da notícia de acidente ocorrido em uma das lojas da rede.

No decorrer da investigação, o MPT identificou diversas infrações relacionadas ao descumprimento de medidas de saúde, higiene e segurança no trabalho. Em consulta aos dados do INSS, constatou-se a expedição de 88 Comunicações de Acidente de Trabalho (CATs) em estabelecimentos das duas empresas, além da existência de 11 autos de infração.

Diante da falta de interesse das rés em solucionar a questão de forma extrajudicial, o MPT pleiteou a concessão da tutela provisória, que foi deferida pela juíza Paula Cristina Netto Gonçalves Guerra Gama. A decisão ressalta a urgência das medidas, considerando o grande contingente de trabalhadores afetados e a necessidade de prevenir futuros acidentes de trabalho.

Na sentença, foram estabelecidas 13 obrigações que devem ser adotadas pelas empresas, entre elas:

  • Manutenção das câmaras frias/frigoríficas com condições específicas de organização, limpeza e segurança;
  • Comunicação de acidentes de trabalho à Previdência Social e às autoridades competentes, com respeito ao prazo fixado em lei;
  • Elaboração, implementação e manutenção de programas de gerenciamento de riscos e controle médico de saúde ocupacional;
  • Treinamento específico para operadores de equipamentos, como empilhadeiras, com certificação;
  • Permitir que os integrantes da CIPA tenham autonomia, e adotar as medidas de correção apontadas pela comissão;
  • Fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) adequados;
  • Submeter a treinamento e capacitação os trabalhadores que utilizam máquinas e equipamentos (moedor de carne, serra fita, cortador de carne, amaciador de carne, cortadores de frios, etc).

Em caso de descumprimento, ficou determinado o pagamento de multa no valor de R$2 mil por medida não efetivada e a cada constatação, limitada a R$100 mil, sem prejuízo de outras medidas que se fizerem necessárias, visando garantir a efetividade das medidas estabelecidas pela Justiça.


Fonte: Assessoria de Comunicação • Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro (MPT-RJ) 

1 em cada 10 casos de melanoma ocorrem em pessoas que herdaram mutação genética

O Melanoma Familial é uma síndrome clínica que, além de responsável por 10% dos casos de melanoma, está associada com aumento da predisposição para câncer de pâncreas, mama, rim e no sistema nervoso central. A identificação dos grupos de risco e acompanhamento são ações fundamentais para o diagnóstico precoce e a redução de mortalidade. No Brasil, o melanoma representa apenas 3,9% dos casos de câncer de pele, mas responde por 43% das mortes

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Embora o melanoma represente apenas 3,9% do total de casos de câncer de pele no Brasil, esta doença é responsável por 43% das mortes. O alerta é da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica, com base nas estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para cada ano do triênio 2023-2025. Em números, devem ser diagnosticados, no período, 229.460 novos casos anuais de câncer de pele (destes, serão 8.980 melanomas). Já o Atlas de Mortalidade por Câncer (SIM) do Ministério da Saúde, mostra que em 2019 foram registradas 4.594 mortes por câncer de pele, sendo que 1.978 delas foram por melanoma.

Portanto, embora apenas 4 entre 10 casos de câncer de pele diagnosticados no Brasil sejam melanoma, é alarmante o fato desta doença representar quase metade das mortes por tumores cutâneos. Esse cenário amplia a atenção, inclusive, para o Melanoma Familial, uma síndrome clínica que responde por cerca de 10% dos casos de melanoma. As mutações mais frequentes nesta síndrome hereditária são nos genes CDKN2A, CDK4, MC1R e BAP1. O risco de desenvolvimento da doença chega a ser sete vezes maior nos portadores de mutação genética.

“Quando essas mutações genéticas são herdadas, os pacientes e seus familiares se tornam mais suscetíveis a desenvolver o tumor. Sendo assim, eles devem realizar exame clínico regularmente, geralmente uma vez por ano, para a detecção de melanomas precoces”, adverte o cirurgião oncológico João Pedreira Duprat Neto, coordenador da Comissão de Neoplasias da Pele da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) e diretor no Centro de Referência de Oncologia Cutânea do A.C.Camargo Cancer Center.

As mutações do melanoma familial e o risco para outros tipos de câncer

De acordo com as diretrizes do National Comprehensive Cancer Network (NCCN), os genes herdados que aumentam o risco de melanoma podem ainda elevar o risco de outros tipos de câncer. A pessoa pode estar enquadrada na síndrome de melanoma hereditário se houver histórico familiar de:

– Melanoma cutâneo, especialmente entre múltiplos parentes de sangue, ou melanoma ocular (uveal);
– Câncer de pâncreas, rim ou mama;
– Astrocitoma (câncer do cérebro ou medula espinhal);
– Mesotelioma (câncer do tecido que cobre os órgãos internos). Existem vários genes anormais (mutados) relacionados ao melanoma hereditário. Eles incluem: mutação no gene CDKN2A, que é a mutação genética mais comum. Também é chamada de p16INK4A ou MTS1. Muitos casos de melanoma em idade jovem também são motivo de alerta. O gene do receptor de melanocortina-1 (MC1R), que ajuda a determinar a cor da pele. O MC1R pode determinar se a pessoa ou seus familiares têm cabelos ruivos e/ou peles claras, o que aumenta o risco de desenvolver melanoma;
– Mutações no gene BAP1, que podem causar melanoma uveal e cutâneo.

Outros fatores de risco para melanoma familial e o papel do diagnóstico precoce

Além do histórico familiar, existem outros fatores utilizados como marcadores para medir o risco de síndrome de melanoma familial, como indivíduos com mais de cem pintas ou com pintas consideradas atípicas, ou seja, com bordas irregulares e com mais de uma cor, são mais propensas a desenvolver melanomas. Caso esses pacientes que estejam no grupo de risco não sejam identificados e tratados adequadamente, poderão morrer em decorrência da enfermidade. Por outro lado, com o diagnóstico precoce, é possível quase zerar a mortalidade. 

Proporcionalmente, as chances de cura (sobrevida em cinco anos) de um melanoma com até 1 milímetro (mm) de profundidade são de 90%. Sendo assim, é necessário sempre observar na pele a presença de feridas que não cicatrizam ou manchas e pintas que crescem rapidamente e mudam de cor e formato, e procurar um dermatologista caso note alguma diferença ou anormalidade. “Outro cuidado essencial é não se expor ao sol sem os devidos cuidados e por muito tempo”, frisa Duprat. 

O especialista acrescenta que, quando diagnosticado precocemente, além de serem maiores as chances de cura, há menor risco de cicatrizes e outras sequelas que afetam a qualidade de vida do paciente. O cuidado começa na prevenção, evitando a exposição sem proteção aos raios solares, principalmente entre às 10h e 16h. É recomendável o uso de filtro solar e proteção física, como óculos e chapéus. “Ademais, a atenção aos sinais na pele é fundamental e, na observação de alterações, por exemplo, em determinadas pintas, consultar um dermatologista”, explica João Pedreira Duprat Neto. Outra recomendação é que as pessoas se protejam do sol usando protetor solar com o fator indicado para o seu tom de pele, mesmo em dias nublados e reaplicando no decorrer do dia. 

Aconselhamento e Teste Genético

A depender do histórico clínico e familiar, pode ser indicada a realização de testes multigênicos, que podem ajudar os médicos a identificar se a pessoa tem um risco genético maior de desenvolver melanoma e outros tipos de câncer. Essas informações podem auxiliar a orientar recomendações para monitoramento e detecção precoce dos pacientes seus familiares. O paciente pode ser encaminhado para aconselhamento genético e teste de mutação em p16/CDKN2A se houver o histórico de três ou mais casos de diagnóstico de melanomas cutâneos invasivos, câncer de pâncreas e/ou astrocitomas (câncer do cérebro ou da medula espinhal) na família. Também podem ser necessários testes para outros genes que podem abrigar mutações predisponentes ao melanoma.

Caso se identifique uma mutação associada com maior risco para desenvolvimento de melanoma, é recomendável que o paciente seja encaminhado para acompanhamento em um ambulatório especializado, que poderá realizar o mapeamento dos sinais (pintas na pele), acompanhando a possível evolução destas lesões, com dermatoscopia digital, microscopia confocal e outras tecnologias, com foco na prevenção e diagnóstico precoce de lesões potencialmente malignas.

Informações importantes para a população

⮞A pele é o maior órgão do corpo humano;
⮞ A pele protege contra invasores, ajudando a controlar a temperatura corporal e permitindo sensações de toque, calor e frio;
⮞ A melanina é o pigmento (produto químico) da pele que lhe dá cor e a protege dos nocivos raios ultravioletas (UV);
⮞ O melanoma é uma forma grave de câncer de pele, mas também é curável se for diagnosticado precocemente;
⮞ A principal causa do câncer de pele é a exposição à radiação UV, que vem principalmente do bronzeamento excessivo e do uso de aparelhos de bronzeamento;
⮞ Os fatores físicos genéticos que podem aumentar as chances de desenvolver câncer de pele incluem pele mais clara, tendência a queimaduras solares e muitas manchas.
⮞ Seu histórico médico pode desempenhar um papel no desenvolvimento do melanoma, incluindo queimaduras solares frequentes, bolhas, antecedentes de câncer de pele e um sistema imunológico enfraquecido;
⮞ Algumas famílias partilham genes anormais que as colocam em risco de melanoma. Seu médico avaliará se você tem melanoma hereditário com base em seu histórico e no histórico de câncer de sua família.

Referências bibliográficas

Ferlay J, Colombet M, Soerjomataram I, Parkin DM, Piñeros M, Znaor A, Bray F. Cancer statistics for the year 2020: An overview. Int J Cancer. 2021 

Estimativa 2023: incidência do Câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/estimativa Acesso em: 12 dez 2023

Swetter SM, Thompson JA, Albertini MR, Barker CA, Baumgartner J, Boland G, Chmielowski B, DiMaio D, Durham A, Fields RC, Fleming MD, Galan A, Gastman B, Grossmann K, Guild S, Holder A, Johnson D, Joseph RW, Karakousis G, Kendra K, Lange JR, Lanning R, Margolin K, Olszanski AJ, Ott PA, Ross MI, Salama AK, Sharma R, Skitzki J, Sosman J, Wuthrick E, McMillian NR, Engh AM. NCCN Guidelines® Insights: Melanoma: Cutaneous, Version 2.2021. J Natl Compr Canc Netw. 2021 Apr 1;19(4):364-376.

Sobre a SBCO

Fundada em 31 de maio de 1988, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) é uma entidade sem fins lucrativos, com personalidade jurídica própria, que agrega cirurgiões oncológicos e outros profissionais envolvidos no cuidado multidisciplinar ao paciente com câncer. Sua missão é também promover educação médica continuada, com intercâmbio de conhecimentos, que promovam a prevenção, detecção precoce e o melhor tratamento possível aos pacientes, fortalecendo e representando a cirurgia oncológica brasileira. É presidida pelo cirurgião oncológico Rodrigo Nascimento Pinheiro (2024-2026).

O círculo vicioso do Glifosato: mulheres grávidas vivendo perto de áreas de cultivo apresentam concentrações muito elevadas na urina

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Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Mulheres grávidas que vivem perto de campos agrícolas apresentam concentrações “significativamente” aumentadas do herbicida glifosato na urina durante períodos sazonais, quando os agricultores pulverizam seus campos com o pesticida, de acordo com um novo artigo científico publicado na quarta-feira.

A equipe de pesquisa disse que as descobertas são preocupantes, dados estudos recentes que associaram a exposição gestacional ao glifosato com redução do crescimento fetal e outros problemas fetais.

“Se o feto em desenvolvimento é especialmente vulnerável ao glifosato, é fundamental compreender a magnitude e as fontes de exposição durante este período crítico de desenvolvimento”, afirma o novo artigo. Os autores incluem pesquisadores da Universidade da Califórnia, Berkeley; a Universidade de Washington; King’s College de Londres; Universidade Estadual de Boise; e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA.

Os resultados também foram considerados surpreendentes porque nenhuma das mulheres estudadas trabalhava com glifosato ou outros pesticidas ou tinha um membro da família que trabalhasse com pesticidas, disse Cynthia Curl, professora associada da Boise State e autora principal do artigo.

“O que está acontecendo? Está à deriva mais do que pensamos? Está aderindo às partículas do solo que depois se espalham e acabam na poeira doméstica das pessoas? É água potável? Até descobrirmos isso, não poderemos sugerir as intervenções corretas”, disse Curl.

A pesquisa de acompanhamento coletará amostras de poeira doméstica e água para tentar determinar as rotas de exposição, disse Curl.

Descobertas anteriores da mesma equipe de pesquisa descobriram que mulheres grávidas reduzem os níveis de glifosato na urina quando seguem uma dieta orgânica, a menos que vivam perto de campos agrícolas.

Medos de “efeitos tóxicos”

O glifosato é o herbicida mais utilizado no mundo e é o ingrediente ativo em produtos vendidos em todo o mundo, incluindo a marca Roundup amplamente utilizada, desenvolvida pela Monsanto e agora propriedade da Bayer após a aquisição da Monsanto pela Bayer em 2018. 

Para avaliar a exposição ao glifosato em mulheres grávidas, a equipe de pesquisa coletou 453 amostras de urina quinzenalmente de 40 mulheres grávidas no sul de Idaho, de fevereiro a dezembro de 2021. Considerou-se que as mulheres viviam perto de um campo agrícola se residissem a menos de 0,5 quilômetro. , ou cerca de 0,3 milha, de um campo cultivado ativamente.

Naqueles que viviam perto dos campos, o glifosato foi detectado com mais frequência e em concentrações muito mais elevadas durante os meses em que os agricultores pulverizavam glifosato do que durante os períodos em que não o pulverizavam. Os participantes que moravam mais longe ainda apresentavam glifosato na urina, mas a frequência e as concentrações permaneceram relativamente inalteradas ao longo do ano.  

“Infelizmente, não estou surpreso que mulheres grávidas que vivem perto de campos pulverizados com glifosato tenham níveis elevados de glifosato em seus corpos durante a temporada de pulverização”, disse Philip Landrigan, diretor do Programa para Saúde Pública Global e Bem Comum do Boston College. . “Esta situação é análoga às elevadas exposições ao benzeno, 1,3-butadieno e outros produtos químicos tóxicos de plásticos que foram documentadas em mulheres que vivem em comunidades ‘cercadas’ perto de ‘crackers’ e outras instalações de produção de plástico e produtos químicos.”

“Embora esta descoberta não seja surpreendente, ainda é importante porque tem implicações claras para os efeitos tóxicos no desenvolvimento dos filhos das mulheres”, acrescentou.

Embora o glifosato esteja no mercado há mais de 50 anos, foi apenas nos últimos anos que os investigadores começaram a documentar a extensão da exposição humana.

De acordo com uma pesquisa publicada em 2017 por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego, tanto a quantidade quanto a prevalência do glifosato encontrado na urina humana têm aumentado constantemente desde a década de 1990, quando A Monsanto Co. introduziu culturas geneticamente modificadas projetadas para serem pulverizadas diretamente com Roundup, 

Em 2022, uma unidade do CDC informou que de 2.310 amostras de urina coletadas, 1.885 (mais de 80%) estavam contaminadas com vestígios detectáveis ​​de glifosato. E num recente inquérito populacional realizado em França, o glifosato foi encontrado em 99% das amostras de urina recolhidas de cerca de 7.000 participantes.

Perguntas sobre segurança

Mais de 114 milhões de toneladas de glifosato são usados ​​anualmente pelos agricultores dos EUA em suas áreas de cultivo. O herbicida é pulverizado diretamente sobre culturas geneticamente modificadas, como milho e soja, e também sobre culturas não geneticamente modificadas, como trigo e aveia, como dessecante para secar as culturas antes da colheita. Muitos agricultores também o utilizam nos campos antes da estação de cultivo, incluindo produtores de espinafre e produtores de amêndoas. É considerado o herbicida mais utilizado na história.

Resíduos de glifosato foram documentados em uma uma variedade de alimentos populares feitos com culturas pulverizadas com glifosato, incluindo comida para bebês. 

As empresas que vendem produtos de glifosato afirmam que são seguros e que resíduos nos alimentos e na urina humana não representam um risco para a saúde. Mas muitos pesquisadores discordam e dizem que há um grande conjunto de evidências que ligam a exposição ao glifosato a doenças. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, uma unidade da Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato como provável carcinógeno humano em 2015. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) assumiu a posição oposta, classificando o glifosato como provavelmente não cancerígeno.

Milhares de pessoas que sofrem de cancro processaram a Monsanto culpando a exposição ao Roundup pelas suas doenças e a Bayer pagou milhares de milhões de dólares em indemnizações até à data, embora muitos casos permaneçam por resolver e os julgamentos estejam em curso.

Um estudo separado realizado por um grupo diferente de pesquisadores, publicado em 2 de dezembro, utilizou dados do CDC para determinar que a exposição recente ao glifosato “poderia estar associada ao aumento da mortalidade”. Os autores desse trabalho disseram que são necessários mais estudos para “compreender o risco populacional associado ao produto, dado o seu uso generalizado na agricultura”.

(Uma versão desta história foi co-publicada pelo The Guardian.)

(Foto em destaque dey Alicia Petresc no Unsplash .

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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “The New Lede”  [Aqui!].

MPF questiona Incra sobre situação de créditos de habitação para assentados da reforma agrária no RJ

Assunto é objeto de inquérito civil instaurado em outubro pelo órgão para apurar eventual irregularidade nas construções

crédito habitação

O Ministério Público Federal (MPF) solicitou informações ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) sobre a atual situação dos créditos de habitação destinados a assentados da reforma agrária no estado do Rio de Janeiro. A medida faz parte de inquérito civil instaurado em outubro, para apurar eventuais irregularidades na construção de moradias destinadas a essa população, com o objetivo de assegurar o direito das famílias assentadas.

A atuação do MPF é decorrente de demandas que o órgão tem recebido sobre estruturação de assentamentos, pleitos de reforma agrária, segurança alimentar e conflitos relacionados às políticas conduzidas pelo Incra no estado. Em abril deste ano, o tema foi assunto de audiência pública realizada na sede do MPF no Rio de Janeiro. Na ocasião, beneficiários da política de reforma agrária apontaram demora na construção e entrega das moradias construídas pela associação cadastrada pelo Incra para executar o serviço. O assunto vem sendo acompanhado pelo Fórum de Reforma Agrária e Segurança Alimentar, que reúne diversas instituições do Rio de Janeiro.

No inquérito, de responsabilidade do procurador Regional dos Direitos do Cidadão adjunto, Julio José Araujo Junior, o MPF reforça que, apesar de o Incra ter destinado o crédito-habitação a assentados, a política não se concretizou. De acordo com informações do Sistema Nacional de Concessão de Crédito, 147 beneficiários repassaram a primeira parcela do crédito recebido à associação responsável pelas obras, sendo que boa parte das construções nem sequer foram iniciadas e nenhuma moradia atingiu evolução superior a 80% do esperado.

Em reunião realizada em novembro, a superintendente do Incra afirmou que a autarquia está fazendo o levantamento da situação dos assentados caso a caso. Além disso, afirmou que existe processo administrativo interno em trâmite para apuração de possíveis infrações cometidas pela associação indicada para a execução das obras.

No ofício enviado ao Incra, Araujo destaca que, apesar de a autarquia ter assinado contrato com a associação e efetuado o repasse inicial das verbas, não houve a construção das unidades habitacionais. “É necessário dar continuidade à política pública em questão, sem prejuízo da punição de pessoas jurídicas e naturais que cometeram irregularidades”, defende o procurador. O prazo para resposta do Incra é de dez dias.

Inquérito Civil nº 1.30.001.004649/2023-08

Ao derrubar vetos do Marco Temporal, agronegócio humilha Lula e o STF, e aumenta ameaça contra povos indígenas

marco temporal

O dia de ontem (14/12) foi marcado por uma clara mensagem dos representantes do agronegócio e das mineradoras no congresso brasileiro, a bancada ruralista e outras forças conjugadas, ao presidente Lula, aos membros do Supremo Tribunal Federal e, principalmente, para os povos indígenas. 

A mensagem diz o seguinte: não ligamos para os direitos dos povos indígenas ou, tampouco, para acordos internacionais que busquem colocar algum nível de proteção para suas terras, as quais cumprem um lugar fundamental na preservação da biodiversidade amazônica. Lembrando que as terras indígenas cumprem fundamental na regulação climática e no fornecimento de serviços ambientais como a preservação de mananciais hídricos.

Com a derrubada de 41 dos 47 vetos impostos anteriormente pelo presidente Lula, a situação da proteção dos povos indígenas e suas terras retrocede para níveis abaixo do que foram estabelecidos pelo regime militar de 1964, explicitando o nível de ataque que as forças do agronegócio e da mineração pretendem impor aos povos ancestrais que habitam diferentes pontos do território brasileiro.

O presidente Lula que tem preferido jogar parado em face dos crescentes ataques da bancada ruralista no congresso nacional teve que assistir o seu próprio ministro da Agricultura, o ruralista e senador Carlos Fávaro, votar a favor da derrubada dos vetos presidenciais. Fossem outros tempos, Fávaro já estaria hoje apresentando seu pedido de renúncia para o presidente que ele ajudou a humilhar junto com seus parceiros da bancada ruralista.  Mas o Lula de hoje é bem diferente daquele que subia na carroceria de caminhões para mobilizar trabalhadores em prol de seus direitos.  A versão atual é muito mais ajustada ao agronegócio e sua pauta arrasa quarteirão.

Aliás, não é só o presidente Lula que foi posto em xeque para ação da bancada do agronegócio. Entre as figuras do governo Lula que mais foram atacadas por essa ação avassaladora dos ruralistas e associadas estão as ministras Sônia Guajajara (dos Povos Indígenas) e Marina Silva (Meio Ambiente). No caso específico de Sônia Guajajara, o seu ministério poderia ter aberto (se já abriu um dia) as portas. Ela melhor serviria aos interesses dos povos indígenas se decidisse voltar à posição de liderança indígena fora do governo, pois como está neste momento ela não passa do que os estadunidenses chamam de “lame duck” ou, em bom português, um “pato manco”.  Aliás, quanto mais tempo Guajajara ficar neste governo, mais manca ficará.

O fato é que não há como o Brasil ser minimamente levado a sério em seus supostos compromissos com o combate às mudanças climáticas em face das forças que hoje comandam a vida política nacional. Quem em sã consciência acreditaria em qualquer coisa vinda das autoridades brasileiras depois dessa atuação escandalosa da bancada ruralista?

Finalmente, os povos indígenas e seus apoiadores devem se preparar para ataques mais acirrados em 2024, pois os objetivos do agronegócio e dos mineradores são mais do que óbvios.  Resistir à avalanche de destruição que virá será uma tarefa hercúlea, dados os interesses econômicos e políticos envolvidos.