Estudo mostra que oferta de orgânicos produzidos no Brasil falha em suprir demanda, apesar do mercado crescente

organicosConsumo de orgânicos tem procura, mas produção no país não supre a demanda; levantamento mostra que muitos itens são importados de outros países

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Vasto em terras cultiváveis, o Brasil tem um dos principais mercados agrícolas do mundo, inclusive, de produtos orgânicos. A oferta, no entanto, ainda é inferior à demanda, de acordo com dados analisados por cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). A pesquisa publicada na sexta (24) na revista científica “Desenvolvimento e Meio Ambiente” aponta, ainda, que há falhas no levantamento de dados referente ao cultivo de orgânicos no país.

O trabalho traçou um panorama sobre a produção e a demanda de orgânicos no Brasil, a partir de dados do Censo Agropecuário de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO), realizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), e dados de consumo de pesquisas da Associação de Promoção dos Orgânicos (Organis) e do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

As vendas de produtos orgânicos quadruplicaram entre 2003 e 2017 e tiveram um crescimento de 30% em 2020, movimentando cerca de R$ 5,8 bilhões, revela a pesquisa. O mercado brasileiro se abastece, também, de importações — o que demonstra que a produção de orgânicos não supre a demanda: há 953 certificações de orgânicos para produtos importados, provenientes de 23 países, segundo dados do Mapa. Os alimentos vão desde produtos provenientes de espécies características de outros países, como amaranto, quinua, damasco, azeite de oliva, até alimentos também produzidos em território nacional como amendoim, arroz, soja, tomate, milho e feijão.

O número de cadastros de produtores de orgânicos realizados via Mapa aumentou 75% entre 2017 e 2022. Estes números, no entanto, não devem ser comparados com os dados do IBGE, já que as metodologias são diferentes. “As informações do Mapa consideram o produtor orgânico, mas não o estabelecimento, enquanto o IBGE trabalha com estabelecimentos”, explica a pesquisadora Andréia Lourenço, da UFRGS, co-autora do estudo.

As propriedades com agricultura orgânica correspondem a 1,28% do total no país, e cerca de 30% estão concentradas na região Sudeste. Estimativas apontam que esse tipo de cultivo ocupa 0,6% das áreas agrícolas do país, com predomínio da produção vegetal em 36.689 estabelecimentos. Os outros 17.612 estabelecimentos dedicam-se à produção animal, enquanto uma parcela menor de 10.389 estabelecimentos têm produção animal e produção vegetal orgânicas.

“Existe uma tendência de expansão da oferta, já que as áreas cultivadas podem ser maiores, mas há um descompasso em relação ao consumo”, explica Lourenço. Uma das hipóteses é de que uma parte dos orgânicos produzidos no país seja enviada para Europa e Estados Unidos, enquanto uma boa quantidade é destinada para a agroindústria.

A agrônoma destaca que as bases de dados utilizadas pelo estudo são limitadas. “Precisamos de ferramentas mais aprimoradas para ter um panorama mais preciso da cadeia produtiva de orgânicos do país”, avalia. O avanço na captação de informações pode favorecer a criação e a aplicação de políticas públicas para os produtores, além de mapear melhor onde está a demanda por esse tipo de produto e ampliar a sua oferta para o mercado consumidor interno.

Face à intensificação dos furacões, é urgente proteger os ecossistemas costeiros

huracanes-ecosistemas-996x567Os ecossistemas costeiros, como os mangais, reduzem os efeitos dos furacões, pelo que a sua proteção ajuda a reduzir a vulnerabilidade a este tipo de eventos climáticos. Crédito da imagem: Gildardo Sánchez/Flickr , licenciado sob Creative Commons CC BY 2.0 Deed

De acordo com um estudo recente de Andra J. Garner, pesquisadora da Rowan University, nos Estados Unidos, publicado na Scientific Reports , a possibilidade de uma tempestade tropical fraca se tornar um furacão de alta intensidade em um curto espaço de tempo (12 horas) é de três vezes mais provável de acontecer agora do que antes de 2000.

“Já estamos a assistir a um aumento global na taxa de intensificação dos furacões no Atlântico, o que significa que provavelmente já estamos a assistir a um aumento do risco de perigos para as nossas comunidades costeiras”, disse Garner ao SciDev.Net, depois de analisar dados de 1970 a 2020 .

Mas os furacões não afetam apenas pessoas e estruturas. Também danificam florestas, praias e recifes de coral, reduzem a quantidade e a diversidade de espécies que dependem destes habitats e afetam a qualidade do solo e da água na área onde impactam.

“Os ecossistemas costeiros naturais são essenciais para reduzir eventos extremos como furacões. Em primeiro lugar, porque muitos deles, como as turfeiras costeiras, são grandes captadores de CO2 e podem ajudar a reduzir as emissões das alterações climáticas.”

Luis Zambrano, pesquisador do Instituto de Biologia da Universidade Nacional Autônoma do México

Para Naxhelli Ruíz Rivera, coordenadora do Seminário Universitário sobre Riscos Socioambientais do Instituto de Geografia da Universidade Nacional Autônoma do México, é urgente considerar os ecossistemas costeiros porque se eles se perderem, a integridade da costa também muda quando ocorrem furacões.

“Os ecossistemas costeiros naturais são essenciais para reduzir eventos extremos como furacões. Em primeiro lugar, porque muitos deles, como as turfeiras costeiras, são grandes coletores de CO 2 e podem ajudar a reduzir as emissões das alterações climáticas”, disse Luis Zambrano, investigador do Instituto de Biologia da UNAM, ao SciDev.Net .

Da mesma forma, os ecossistemas, como os manguezais, reduzem os efeitos dos furacões. “Quando o furacão passa sobre um mangue, os efeitos das ondas e dos ventos são reduzidos”, disse Zambrano.

A preocupação com a perda de ecossistemas costeiros é cada vez maior, especialmente devido à possibilidade de os furacões se tornarem mais intensos em menos tempo.

De acordo com o trabalho de Garner, estes fenômenos serão mais desafiantes no sudoeste do Mar do Caribe, pois “têm o potencial de criar impactos devastadores em muitas nações

Foi o que aconteceu na costa da Nicarágua em 2020, quando os furacões Eta e Iota se intensificaram em questão de horas.

Algo semelhante também acontece no Pacífico. No final de outubro, a fraca tempestade Otis que atingiu o estado de Guerrero, no México, tornou-se em poucas horas um furacão de categoria 5, tornando-se assim o mais forte da história daquele estado. Até agora, deixou 48 mortos, 26 desaparecidos e milhares de perdas de infra-estruturas, segundo o relatório mais recente do governo mexicano.

O furacão Otis, em outubro de 2023, tornou-se a tempestade mais forte a impactar o estado de Guerrero. Crédito da imagem: Secretaria de Gestão Integral de Riscos e Proteção Civil de Guerrero

Vários investigadores acreditam que para prevenir este tipo de danos não devemos focar apenas nas pessoas e nas cidades, mas também nos ecossistemas costeiros.

Num artigo de março de 2023 ,  pesquisadores dos Estados Unidos e da Dominica descrevem como os furacões podem ser devastadores para a cobertura florestal ao “remover partes significativas da copa das árvores e quebrar caules. “O aumento das chuvas, combinado com ventos fortes, faz com que as árvores sejam arrancadas, tornando as florestas em encostas íngremes cada vez mais propensas a deslizamentos de terra.”

Embora seja claro que os furacões podem afetar os habitats e os seus serviços ecossistêmicos de muitas maneiras, alguns especialistas salientam que também podem ser oportunidades para mudar o ambiente e reduzir os riscos.

“Todas as cidades do mundo, costeiras ou não, precisam de considerar as suas condições geofísicas, geológicas, hidrológicas, meteorológicas e ambientais, porque esta configuração conduz a certas vulnerabilidades físicas “intrínsecas” (…) Então, se quisermos recuperar de um desastre, o primeiro passo “É pensar em como integrar este tipo de visão no planeamento da cidade e nas estratégias de reconstrução e intervenção nas comunidades, para que os benefícios dos espaços verdes e das infraestruturas verdes e azuis reduzam as vulnerabilidades físicas e sociais”, afirma Ruíz Rivera.

No caso de Otis, no México, devastou a costa de Guerrero porque foi “construída nas ravinas que são peça fundamental para escoar o excesso de água do furacão, nos deltas que fazem parte da interação água-terra e em as praias que são uma peça importante na redução dos efeitos do furacão e da perda de areia”, disse Zambrano.

Por esta razão, “há agora uma grande oportunidade de reconstruir uma cidade, deixando os ecossistemas fluírem com o mar e, assim, torná-los mais resilientes e tornar a cidade mais resiliente face a outro evento extremo. (…) deve gerar corredores nas ravinas, manguezais próximos ao mar e nos deltas e recuperar dunas e gramíneas costeiras. Isso perderia espaço para hotéis e campos de golfe, mas o próximo evento extremo não devastaria tudo”, concluiu.


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição América Latina e Caribe do SciDev.Net e publicado [Aqui!].

Pesquisadores verificam maior recorrência de eventos climáticos extremos no Acre a partir de 2010

acre floodingFoto: Gleison Miranda/ Agência de Notícias do Acre 

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O ano de 2010 pode ter sido um ponto de virada para a ocorrência de eventos climáticos extremos no estado do Acre, no Norte do Brasil. É o que aponta artigo publicado nesta terça (21) na revista “Perspectives in Ecology and Conservation”. O estudo, uma parceria entre a Universidade Federal do Acre (UFAC), a Universidade Estadual do Ceará (UECE), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o centro de pesquisas americano Woodwell Climate, sugere que o estado pode ser uma das regiões brasileiras mais afetadas pelos eventos climáticos extremos.

A fim de quantificar a frequência de inundações, secas, crises hídricas e incêndios florestais no estado do Acre, além de identificar suas causas e impactos, os pesquisadores examinaram uma série de estudos publicados entre 1987 e 2023, bem como decretos estaduais e municipais relacionados a alertas climáticos e ambientais emitidos no mesmo período. Os dados mostram que a região enfrentou 254 eventos climáticos extremos nos últimos 36 anos e que, desde 2010, há uma tendência constante de aumento na frequência e na intensidade dessas ocorrências.

“A partir de 2010, vemos uma quebra, uma ruptura do padrão que se mostrava até então”, destaca Sonaira Silva, pesquisadora da UFAC e autora do estudo. Até 2004, os registros indicavam a ocorrência de, em média, um evento extremo por ano nas cidades acreanas. No entanto, desde então e, principalmente, após 2010, dois ou mais eventos têm sido registrados com frequência no mesmo ano em um mesmo município. “Esse é o padrão que está se mostrando para o futuro; o ambiente não está conseguindo se regenerar depois de cada evento e, a cada ano, está mais frágil”, explica a autora.

Segundo o artigo, 60% das ocorrências enfrentadas pelos cidadãos acreanos no período analisado foram caracterizadas como incêndios florestais ou queimadas em áreas desmatadas, enquanto 33% foram inundações e 6% crises hídricas. “Geralmente as pessoas mais afetadas são aquelas que estão em áreas de risco, pessoas mais pobres e com menos estrutura”, destaca Silva. As perdas econômicas em larga escala também são alarmantes: registros do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres do Brasil mostram que, entre 2000 e 2015, de todos os 27 estados brasileiros, o Acre teve o maior custo financeiro por evento: o prejuízo estimado é de mais de 15 milhões de reais a cada crise.

A equipe também identificou tendências e semelhanças nas áreas mais atingidas pelos eventos. A capital Rio Branco e o município de Cruzeiro do Sul, duas das áreas mais populosas do estado, são os principais locais afetados. “As regiões que têm menos floresta são aquelas em que os eventos climáticos mais ocorrem, mas o prejuízo está por todos os lados”, diz Silva.

Para a pesquisadora, as alternativas para mitigar a situação são recompor a vegetação nativa, adaptar as cidades para modelos mais sustentáveis e inteligentes, criar políticas e cumprir legislações ambientais. “Ao que tudo indica, os eventos extremos vão continuar não só ocorrendo, mas aumentando. Pretendemos continuar olhando isso muito de perto para tentar ajudar na tomada de decisões que podem mudar esse cenário”, conclui a autora.

O impacto monumental das chuvas no Rio Grande do Sul explicita a crise climática

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A mídia corporativa brasileira está literalmente ocultando as dimensões diluvianas do que está acontecendo no extremo sul do Brasil após um período inclemente de fortes chuvas. Inexistem matérias mostrando a escala dos transbordamentos de bacias hidrográficas inteiras após semanas de chuvas torrenciais.  A inexistência de matérias mais completas e com a devida documentação fotográfica serve provavelmente para manter a maioria dos brasileiros ignorante em relação ao tamanho do problema que se abateu sobre os estados do sul, especialmente sobre a região central do Rio de Grande do Sul.

Agora, graças ao meu colega professor de Filosofia na Universidade Estadual do Norte Fluminense, o gaúcho César Meurer, posso mostrar algumas imagens de um sobrevoo que ele realizou na região central do Rio Grande do Sul na confluência dos rios Taquari e Jacui (ver imagens abaixo)

O que transparece nessas imagens é algo completamente oposto ao que está sendo vivenciado na bacia Amazônia que vive a maior seca de mais de 100 anos. O problema é que este padrão de seca extrema para uns e inundações diluvianas para outros está sendo previsto pelos estudiosos do clima pelo menos há 30 anos, e deverá ser agravado pelo contínuo aquecimento da atmosfera da Terrapela emissão dos gases estufa.

No caso do sul do Brasil,  a situação atual deverá ser agravada ainda mais porque o pico do atual ciclo do El Niño ainda não foi alcançado. Além disso, estudiosos do El Niño lembram que os piores impactos de cada ciclo deste fenômeno se dão basicamente 12 meses após o seu encerramento. Assim, se a coisa está ruim para quem vive próximo dos rios no Rio Grande do Sul, o problema poderá ser maior ainda no início de 2025.

Enquanto isso, nada de termos uma discussão mais séria sobre a adoção de uma política nacional de adaptação climática. Na verdade, o principal movimento no plano federal atualmente no plano federal é tentar aprovar um acordo comercial com a União Europeia que deverá acelerar ainda mais o processo de desmatamento dos biomas florestais brasileiros, incluindo o pouco que ainda resta da Mata Atlântica!

 

Shell enfrentará processos judiciais no Reino Unido por causa da poluição crônica de petróleo no delta do Níger

Mais de 13.000 aldeões nigerianos podeminiciais  ações judiciais contra empresas petrolíferas, decide tribunal superior em Londres

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Manifestantes reúnem-se em frente ao tribunal superior de Londres, em Julho, devido aos derrames de petróleo da Shell no delta do Níger. Fotografia: Vuk Valcic/Zuma Press Wire/Shutterstock

Por Sandra Laville para o “The Guardian” 

Milhares de aldeões nigerianos podem apresentar queixas de direitos humanos contra a empresa de combustíveis fósseis Shell devido à poluição crónica das suas fontes de água e à destruição do seu modo de vida, decidiu o tribunal superior de Londres.

A Sra. May decidiu esta semana que mais de 13.000 agricultores e pescadores das comunidades Ogale e Bille, no delta do Níger, tinham o direito de intentar ações judiciais contra a Shell por alegadas violações do seu direito a um ambiente limpo.

O juiz decidiu que era  passível de análise se a poluição tinha violado fundamentalmente o direito dos aldeões a um ambiente limpo ao abrigo da constituição nigeriana e da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos. As reivindicações sob esses direitos não têm prazo de prescrição.

A Shell disse que a sua subsidiária nigeriana, a Shell Petroleum Development Company of Nigeria (SPDC), aceitou a responsabilidade pelos derrames que causou e compensou as partes afectadas quando exigido pelos regulamentos nigerianos relevantes. Afirmou que também corrige todos os derramamentos de seus ativos, independentemente da causa. A Shell plc nega que tenha um dever de diligência diretamente para com os requerentes.

A Shell disse em resposta à sentença que os requerentes não conseguiram identificar o derramamento ou derramamentos específicos que teriam causado o dano, apesar de o tribunal ter ordenado que isso fosse feito.

Matthew Renshaw, parceiro da equipe internacional do Leigh Day, que representa os moradores, disse: “Esta decisão é um momento significativo na batalha de oito anos das comunidades Ogale e Bille para fazer com que a Shell assuma a responsabilidade pela poluição por petróleo que tem arruinaram suas terras.

“Durante esse período, a Shell recorreu repetidamente ao uso de aspectos técnicos para tentar bloquear e atrasar as reivindicações dos nossos clientes. Segundo a lei constitucional nigeriana, a Shell já não poderia argumentar que não tem responsabilidade pela poluição porque esta ocorreu há mais de cinco anos.”

Renshaw acrescentou: “Esperamos agora avançar sem mais demoras para um julgamento, onde as reivindicações dos nossos clientes por uma limpeza completa e compensação pela destruição do seu modo de vida possam ser plenamente ouvidas”.

Há três anos, o Supremo Tribunal decidiu por unanimidade que “há um bom argumento discutível” de que a Shell plc (a empresa-mãe sediada no Reino Unido) é legalmente responsável pela poluição causada pela sua subsidiária nigeriana.

Mas o caso continuou numa série de disputas jurídicas entre a Shell e os requerentes.

Um porta-voz da Shell disse sobre o último julgamento: “Acreditamos fortemente no mérito do nosso caso. O petróleo está sendo roubado em escala industrial no delta do Níger. Esta criminalidade é uma importante fonte de poluição e é a causa da maioria dos derrames nas reivindicações de Bille e Ogale.

“Independentemente da causa, a SPDC limpa e remedia áreas afetadas por derrames provenientes das suas instalações ou rede de gasodutos, trabalhando em estreita colaboração com reguladores, comunidades locais e outras partes interessadas. Acreditamos que os litígios pouco fazem para resolver o problema real no delta do Níger: derrames de petróleo devido a roubo, refinação ilegal e sabotagem, com os quais o SPDC é constantemente confrontado e que causam a maior parte dos danos ambientais.”

Um porta-voz acrescentou: “A Shell não tem planos de deixar a Nigéria. Como afirmado anteriormente, a intenção da Shell é reduzir o seu envolvimento na produção de petróleo onshore na Nigéria, mantendo ao mesmo tempo as suas posições em águas profundas e de gás integradas no país.”

A decisão desta semana significa que os requerentes irão agora se preparar para um julgamento. Uma audiência acontecerá nos dias 12 e 13 de dezembro para mais argumentos jurídicos.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Pecuária na Amazônia pode ser responsável por 3 milhões de hectares de desmatamento até 2025

Estudo publicado nesta quarta calculou risco de destruição da floresta em áreas de compra de frigoríficos instalados no bioma. JBS é a empresa com maior risco

Gado na região de Marapá, sudeste da Amazônia paraense 

Se não adotar práticas mais eficientes de controle da cadeia, como a rastreabilidade individual, a pecuária na Amazônia pode ser responsável pela destruição de 3 milhões de hectares de floresta nos próximos dois anos, uma área equivalente ao território da Bélgica. Os dados são de um estudo realizado pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado nesta quarta-feira (22).

Para chegar a esse número, o Imazon calculou o grau de exposição ao desmatamento dentro das áreas de compra dos frigoríficos, considerando diferentes critérios.

O que encontraram foi que a exposição dos frigoríficos à destruição da floresta passou de 6,8 milhões de hectares em 2016, para 14,2 milhões de hectares em 2022. Isto é, a quantidade de áreas expostas ao desmatamento cresceu 108% em seis anos, mesmo sob forte pressão para o setor desvincular-se do problema.

Destes 14,2 milhões de hectares, 8,7 milhões de hectares já foram de fato desmatados em alguma medida, de forma legal ou ilegalmente. Outros 2,3 milhões são áreas embargadas pelo Ibama. 

Os 3,2 milhões de hectares restantes são justamente as porções de floresta em pé existentes nas áreas de compra dos frigoríficos que correm o risco de virem ao chão.

Segundo a pesquisa, a ameaça de destruição futura foi estimada levando em conta variáveis importantes para o desmatamento, como a inclinação do terreno, distância para rios, estradas e frigoríficos, classe territorial (terras indígenas, unidades de conservação, etc) e proximidade de derrubadas recentes e antigas.

“Já temos literatura científica e projetos de campo suficientes para mostrar que não precisamos mais desmatar nenhum hectare na Amazônia para aumentar a produção de carne. O que precisamos é melhorar a produtividade, que pode passar de um a pelo menos três bois por hectare com as tecnologias e as ofertas de crédito existentes”, defende a pesquisadora do Imazon Ritaumaria Pereira, uma das responsáveis pelo relatório.

Gigantes expostasO estudo também ranqueou os frigoríficos em relação à exposição deles às ameaças de destruição da floresta. A empresa mais crítica é a JBS, com quase 10 milhões de hectares desmatados, embargados ou sob risco de derrubada em suas zonas de compras. Em seguida está a Vale Grande, com pouco mais de 4 milhões de hectares. Masterboi, Minerva e Mercúrio completam o top 5, todas com mais de 2 milhões de hectares. 

O trabalho chama atenção para o fato de que nem as empresas que firmaram compromissos com Ministério Público Federal para controle da cadeia conseguem garantir que seus produtos estejam isentos da devastação ilegal.

Isso acontece porque os fornecedores indiretos ainda estão fora da equação. Ou seja: os frigoríficos prestam contas ao MPF apenas dos fornecedores diretos, que, apesar de estarem legalizados, podem ter adquirido animais de fazendas irregulares. 

A prática, conhecida como “lavagem de gado”, poderia ser resolvida com a exigência da rastreabilidade de todos os bovinos desde o nascimento, defende o Imazon. Algumas empresas têm anunciado medidas nesse sentido, mas apenas para depois de 2025.

“É inviável aceitar esse prazo para um problema que se arrasta há décadas, ainda mais quando ele pode representar o desmatamento de uma área do tamanho de Alagoas. Isso aumentará significativamente as emissões brasileiras de gases de efeito estufa em um momento de emergência climática que traz consequências como as secas no Norte e as chuvaradas no Sul. Se forem tomadas medidas urgentes focadas nas principais zonas de compra, já será possível evitar grande parte da derrubada prevista”, explica o pesquisador do Imazon Paulo Barreto, que também assina o trabalho.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo OECO [Aqui!].

Triunfa a sabotagem do “lobby” dos agrotóxicos contra a redução do uso de venenos agrícolas na União Europeia

O Parlamento Europeu, com o voto do Partido Popular, rejeitou a proposta de redução do uso de agrotóxicos na União Europeia (UE). O motivo: a grande pressão que o lobby dos agrotóxicos tem feito para minar os esforços para reduzir o uso de venenos agrícolas

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Agur, redução de agrotóxicos

Nem objetivos não vinculativos, nem redução dos objetivos de redução do uso de agrotóxicos. O Parlamento Europeu rejeitou toda a proposta da Comissão Europeia sobre o regulamento da UE para a redução de agrotóxicos. No final, não “diluíram” o Regulamento de Utilização Sustentável: mataram-no.

E isto depois de ter sido aprovado na votação da Comissão do Meio Ambiente e da Agricultura nas últimas semanas.

A pressão orquestrada de todo o lobby dos agrotóxicos tem funcionado muito bem.

Sabotagem do lobby dos agrotóxicos para redução de agrotóxicos

Um novo estudo da organização Corporate Europe traz à luz centenas de documentos que mostram como o lobby da indústria de pesticidas sabotou repetidamente a redução de pesticidas na União Europeia, sabotando o desenvolvimento do regulamento para o uso sustentável de pesticidas, que estabelece metas vinculativas de redução.

Como o lobby dos agrotóxicos conseguiu atrair representantes políticos para o seu movimento?

Passo 1 (um clássico): atrasar os estudos de impacto

O lobby iniciou sua campanha com um clássico: atrasar todo o processo de desenvolvimento da norma solicitando estudos de impacto , em prol da “segurança alimentar”. Para dar força aos seus argumentos, usaram também a crise da Covid e a guerra na Ucrânia.

Em 2021 e 2022, o Observatório Empresarial Europeu publicou documentos internos que vazaram, mostrando como o lobby agrícola Copa-Cogeca e a CropLife Europe coordenaram estudos de impacto tendenciosos financiados pela indústria agrícola.

Por exemplo, um dos estudos, preparado pela Wageningen Economic Research, concluiu que o regulamento de redução de pesticidas “ provavelmente levaria a rendimentos mais baixos ”. No entanto, o próprio autor do estudo, Johan Bremmer, admitiu que a estratégia do prado ao prato “visa obter benefícios em termos de clima e biodiversidade” e que “estes benefícios não fazem parte do âmbito deste estudo”. Ao ocultar as limitações de seus estudos, o lobby dos agrotóxicos enganou os representantes políticos. Além disso, nenhum dos estudos levou em consideração o valor dos benefícios ambientais relacionados às metas do prado ao prato.

Passo 2: enfraquecer ou “diluir” a regulamentação

Os pontos-chave dos ataques do lobby foram evitar metas ambiciosas e obrigatórias de redução de agrotóxicos; evitar a proibição da utilização de  agrotóxicos em zonas sensíveis; trazer de volta ao debate a obrigatoriedade do Manejo Integrado de Pragas (que já é obrigatório desde 2014); e apoio financeiro aos agricultores na transição para uma produção com baixo teor de agrotóxicos.

Uma forma comum de pressão são as numerosas e pouco transparentes reuniões de lobby com representantes da UE (apenas 5 dos 27 estados forneceram informações à Europa Corporativa a este respeito). Outro exemplo clássico do funcionamento do lobby dos agrotóxicos: após a publicação da proposta da Comissão, a indústria e a Copa-Cogeca se reuniram. Após esta reunião, 60 integrantes da Copa-Cogeca enviaram perguntas à área de Saúde da Comissão. Na semana seguinte, a indústria organizou um “café da manhã SUR” com a Comissão, nos escritórios da empresa de lobby Rud Pedersen. Esta reunião contou com a participação da Syngenta, Corteva e Bayer, da Organização Europeia de Proprietários de Terras, da Pepsi e da Novozymes.

Evitar a redução de agrotóxicos na agricultura europeia

Como o núcleo do regulamento proposto para a utilização sustentável de agrotóxicos são metas vinculativas de redução, estas metas são o foco do seu lobby.

Existem dois objetivos: o primeiro é reduzir a utilização e o risco de agrotóxicos em 50% até 2030. O segundo é reduzir a utilização dos pesticidas mais perigosos, também em 50% até 2030 (aumentado para 65% pela ENVI Comissão do Parlamento Europeu) .

A Presidência espanhola da UE ouviu a indústria e, em setembro de 2023, perguntou aos Estados-Membros se as metas de redução deveriam permanecer juridicamente vinculativas a nível nacional e da UE. Onze estados (Bulgária, República Checa, Estónia, Hungria, Itália, Letónia, Lituânia, Malta, Polônia, Roménia e Eslováquia) exigiram que as metas nacionais vinculativas fossem eliminadas.

A indústria também conseguiu manter uma metodologia para medir a redução real de agrotóxicos que é tão falha que pode resultar numa redução quando na verdade não houve nenhuma.

Outro sucesso, desta vez graças à Comissão de Agricultura do PE, chefiada por Clara Aguilera, do grupo S&D, foi bloquear a utilização de fundos públicos da PAC para apoiar os agricultores na redução de agrotóxicos em suas lavouras. 

Os números do lobby

Os agrotóxicos são um negócio lucrativo. Especificamente, 12 mil milhões de euros por ano na UE. Este mercado está concentrado nas mãos de quatro grandes produtores (Bayer, BASF, Syngenta e Corteva) que investem em agrotóxicos e também em relações públicas e lobby .

Este grupo central de intervenientes empresariais que fazem lobby contra a lei de redução de agrotóxicos reportou coletivamente uma despesa total de lobby de 15 milhões de euros .

Estes números, declarados pela própria indústria, estão muito subestimados. Por exemplo, um único contrato entre a consultora FleishmanHillard e a Monsanto valia 14,5 milhões de euros .

Além disso, não inclui despesas de associações como a CropLife Europe  e  a Euroseeds , que contratam empresas de consultoria e escritórios de advogados para atividades de lobby especializadas.

E claro, não podemos esquecer o lobby agrícola da Copa-Cogeca , que declara um gasto anual em lobby de 1,5 milhões de euros . (Aliás, uma investigação do Lighthouse Reports  revelou como a Copa-Cogeca exagera o número de agricultores que realmente representa e como promove os interesses das explorações agrícolas industriais em detrimento dos interesses das pequenas empresas e dos jovens agricultores.

No total, se somarmos os valores de gastos com lobby reportados para o conjunto de organizações durante os três anos em que o SUR foi debatido (2020, 2021, 2022), eles tiveram um valor total declarado de gastos com lobby de 40,4 milhões de euros.

Se for considerado que os níveis de despesas em 2023 provavelmente estarão no mesmo nível, as despesas autodeclaradas por estes intervenientes para os quatro anos-chave do desenvolvimento do SUR (2020-2023) certamente excederão os 50 milhões de euros .

Muitos mais exemplos de lobby no relatório Corporate Europe “ Sabotage of the EU Pesticide Reduction Law (SUR) ”.


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Este texto escrito originalmente em espanhol foi publicado pelo “libresdecontaminanteshormonales.org” [Aqui!].

Especialista faz previsão tenebrosa: governo Lula deverá liberar 1.000 agrotóxicos em um só ano

LULA RECORDE

No dia 12 de novembro fiz uma postagem informando que o governo Lula havia decidido flexibilizar (ainda mais) o processo de liberação de agrotóxicos ao publicar duas portarias Conjuntas nº 02 nº 03 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que visam conceder “celeridade e segurança”  à aprovação dos pedidoss de registros e alterações de pós-registros de agrotóxicos e afins.  

Eis que hoje conversei com um especialista familiarizado com o processo de liberação de agrotóxicos no Brasil, e ele me disse que, particularmente no IBAMA,  a Portaria n° 03 terá um grande impacto no número de registros aprovados em velocidade no estilo “The Flash“, em função do fato de que quando esta portaria começou a ser tramitada havia no órgão em avaliação um total de de 906 produtos formulados clones de outros já aprovados.

A questão é que tais avaliação eram realizadas pelos técnicos do IBAMA juntamente com os produtos “clones” mas as aprovações só eramemitidas para os processos já estão em análise, conforme uma fila de espera. Agora esse especialista avalia que o IBAMA vai poder desconsiderar a fila e liberar os produtos junto com os produtos de referência, independente se chegou a vez do produto na fila ou não.

Uma consequência particularmente preocupante dessa nova forma de liberação de agrotóxicos adotada pelo governo Lula é que boa parte destes produtos já foi efetivamente analisada e será liberada de uma vez só, impactando significativamente o número de registro concedido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Quão significativo será esse impacto? O especialista com quem conversei avalia que talvez ainda em 2023, mas com certeza em 2024, o Governo Lula alcançará um recorde histórico de registro de agrotóxicos, com mais de 1000 produtos aprovados em apenas um ano.

O especialista aponta que esse recorde dificilmente será superado por qualquer governo no futuro porque o número de registros e aprovações facilitadas pela Portaria n° 03 será tão significativo.  O problema é que as consequências desse “recorde venenoso imbatível” do governo Lula terá consequências dantescas sobre o ambiente e a saúde humana no Brasil. Enquanto isso, as multinacionais europeias coçam as mãos com a possibilidade de grandes lucros que essa corrida à aprovação vai acarretar.

Como a IA moldou o caminho de Milei até a presidência da Argentina

milei iaO presidente eleito da Argentina, Javier Milei, em uma seção eleitoral em Buenos Aires no domingo | REUTERS 

Por David Feliba, Thomson Reuters Foundation

Nas últimas semanas de campanha, o presidente eleito argentino, Javier Milei, publicou uma imagem fabricada retratando o seu rival peronista Sergio Massa como um comunista à moda antiga em traje militar, com a mão levantada em saudação.

A imagem aparentemente gerada por Inteligência Artificial (IA) atraiu cerca de 3 milhões de visualizações quando Milei a publicou numa conta de rede social, destacando como as equipes de campanha rivais usaram tecnologia de inteligência artificial para chamar a atenção dos eleitores numa tentativa de influenciar a corrida.

“Houve sinais preocupantes de uso de IA” nas eleições, disse Darrell West, pesquisador sênior do Centro de Inovação Tecnológica da Brookings Institution, com sede em Washington.

“Os ativistas usaram a IA para entregar mensagens enganosas aos eleitores, e isso é um risco para qualquer processo eleitoral”, disse ele.

O libertário de direita Milei venceu o segundo turno de domingo com 56% dos votos, ao aproveitar a raiva dos eleitores com a classe política – incluindo o partido peronista dominante de Sérgio Massa, mas ambos os lados recorreram à IA durante a turbulenta campanha eleitoral.

A equipe de Massa distribuiu uma série de imagens e vídeos estilizados gerados por IA por meio de uma conta não oficial do Instagram chamada “AI for the Homeland”.

Num deles, o ministro da economia de centro-esquerda era retratado como um imperador romano. Em outros, ele foi mostrado como um boxeador nocauteando um rival, estrelando uma capa falsa da revista New Yorker e como um soldado em cenas do filme de guerra “1917”.

Outras imagens geradas por IA pretendiam minar e difamar Milei, retratando o economista de cabelos rebeldes e sua equipe como zumbis e piratas enfurecidos.

A utilização de tecnologia de IA cada vez mais acessível em campanhas políticas é uma tendência global, dizem especialistas em tecnologia e direitos, levantando preocupações sobre as potenciais implicações para eleições importantes em países como os Estados Unidos, a Indonésia e a Índia no próximo ano.

Uma série de novas ferramentas de “IA generativa”, como o Midjourney, estão tornando mais barato e fácil a criação de fotos e vídeos fabricados.

Javier Milei fala aos apoiadores depois de vencer o segundo turno das eleições presidenciais na sede de seu partido, em Buenos Aires, no domingo.

Javier Milei fala aos apoiadores depois de vencer o segundo turno das eleições presidenciais na sede de seu partido, em Buenos Aires, no domingo. | AFP-JIJI

Com poucas salvaguardas legais em muitos países, há um desconforto crescente sobre a forma como esse material pode ser utilizado para enganar ou confundir os eleitores no período que antecede as eleições.

“Em todo o mundo, estas ferramentas para criar imagens falsas estão a ser usadas para tentar demonizar a oposição”, disse West.

“Embora não seja ilegal usar conteúdo gerado por IA em quase nenhum país, imagens que retratam pessoas dizendo coisas que não disseram ou inventando coisas claramente ultrapassam os limites éticos”.

Uso político

A maioria das imagens geradas por IA usadas na campanha eleitoral argentina tinham um sabor satírico, buscando provocar uma reação emocional dos eleitores e se espalhar rapidamente nas redes sociais.

Mas os algoritmos de IA também podem ser treinados em muitas imagens on-line para criar imagens, gravações de voz e vídeos realistas, mas fabricados – os chamados deepfakes.

Durante a recente campanha, um vídeo adulterado que parecia mostrar Massa usando drogas circulou nas redes sociais, com imagens existentes manipuladas para adicionar a imagem e a voz de Massa.

É uma nova fronteira perigosa em notícias falsas e desinformação, dizem os pesquisadores, com alguns pedindo que material contendo imagens deepfake carregue um rótulo de divulgação dizendo que foram gerados usando IA.

“Agora eles têm uma ferramenta que lhes permite criar coisas do zero, mesmo que seja evidente que pode ser gerado artificialmente”, disse West, acrescentando que “a divulgação por si só não protege as pessoas do perigo.

“Será um enorme problema nas eleições globais no futuro, pois será cada vez mais difícil para os eleitores distinguirem o falso do real”, disse ele.

Risco para a democracia

À medida que o conteúdo gerado pela IA se torna mais acessível e mais convincente, as plataformas de redes sociais e os reguladores lutam para se manterem à frente, disse o investigador de desinformação Richard Kuchta, que trabalha no Reset, um grupo que se concentra no impacto da tecnologia na democracia.

“É claramente um jogo de gato e rato”, disse Kuchta. “Se você observar como a desinformação funciona durante uma eleição, ela ainda é praticamente a mesma. Mas ela foi enormemente ampliada em termos de quão enganosa pode ser.”

Apoiadores do candidato presidencial argentino Javier Milei comemoram após o fechamento das urnas durante o segundo turno das eleições presidenciais em frente à sede do partido em Buenos Aires, no domingo.

Apoiadores do candidato presidencial argentino Javier Milei comemoram após o fechamento das urnas durante o segundo turno das eleições presidenciais em frente à sede do partido em Buenos Aires, no domingo. | AFP-JIJI

Ele citou um caso na Eslováquia no início deste ano, em que verificadores de factos se esforçaram para verificar gravações de áudio falsas publicadas no Facebook poucos dias antes das eleições de 30 de Setembro no país.

Na fita, uma voz parecida com a de um dos candidatos parecia estar discutindo como fraudar a eleição.

“Eventualmente, a peça foi considerada falsa, mas causou muitos danos”, disse Kuchta.

A Meta Platforms, proprietária do Facebook e do Instagram, disse este mês que a partir de 2024 os anunciantes terão que divulgar quando a IA ou outros métodos digitais forem usados ​​para alterar ou criar anúncios políticos, sociais ou relacionados a eleições nos sites.

Nos Estados Unidos, um grupo bipartidário de senadores propôs legislação para proibir a “distribuição de áudio, imagens ou vídeos materialmente enganosos gerados por IA relacionados a candidatos federais em anúncios políticos ou em determinados anúncios temáticos”.

Além disso, a Comissão Eleitoral Federal dos EUA pretende regular os deepfakes gerados por IA em anúncios políticos para proteger os eleitores contra a desinformação antes das eleições presidenciais do próximo ano.

Outros países estão a liderar esforços semelhantes, embora nenhuma proposta regulamentar deste tipo tenha ainda sido apresentada na Argentina.

“Ainda estamos nos estágios iniciais da IA”, disse Olivia Sohr, jornalista da ONG argentina de verificação de fatos Chequeado, observando que a maior parte das informações falsas que circularam durante a campanha envolviam manchetes de jornais fabricadas e citações falsas atribuídas a um candidato específico. .

“A IA tem o potencial de elevar a desinformação a um novo nível. Mas, por enquanto, existem outras formas igualmente eficazes de cumprir os seus objetivos sem serem necessariamente tão caras ou sofisticadas.”


color compass

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Japan Times [Aqui!].

Lula e Marina Silva arremetem contra a regra anti-desmatamento da União Europeia e esquecem da irmã siamesa, a degradação florestal

marina lula

Para garantir assinatura do acordo do Mercosul com a União Europeia, Lula e Marina Silva atacam lei anti-desmatamento dos europeus, e correm do debate sobre o papel da degradação florestla na destruição da Amazônia e do Cerrado

Os últimos dias estão sendo marcados pelo aparecimento de renovadas reclamações do presidente Lula e, pasmem, da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, contra a lei anti-desmatamento da União Europeia com a qual os dois não concordam, sob o argumento que se trata de uma forma de protecionismo disfarçado sob a capa de preocupação com a situação das florestas tropicais.

No caso de Marina Silva, em uma matéria publicada hoje pelo jornal “Valor Econômico”, a ministra do Meio Ambiente que a questão do desmatamento não seria mais um problema real, mas apenas uma desculpa dos europeus, porque os níveis estão em queda ao longo de 2023, esquecendo que essa queda nos recoloca, quando muito, nos níveis de 2019 que já eram bem acima do que foi experimentado entre 2009 e 2018 (ver imagem abaixo).

Prodes e PrevisIA - Desmatamento na Amazônia em 2023 pode passar dos 11 mil km² se seguir o ritmo atual, estima PrevisIA

Fonte: Imazon

No caso do presidente Lula, a reclamação é em relação ao fato de que a partir da adoção de sua nova lei anti-desmatamento, a União Europeia vetará a importação de alimentos de áreas desmatadas a partir de dezembro de 2020.  Curiosamente, no caso brasileiro, o que permitiu valores recordes de desmatamento em todos os nossos biomas foi a postura para lá de leniente de Jair Bolsonaro em relação à devastação das florestas amazônicas. Mas nem esse fato parece aplacar as reclamações de Lula, o que reflete uma postura de concordância prática com o desmatamento na Amazônia.  Se o compromisso de desmatamento zero até 2030 fosse sério, ao contrário de reclamar, Lula estaria usando a nova lei europeia como argumento para diminuir de forma mais célere o processo de desmatamento que, ao contrário do que diz Marina Silva, continua alto na Amazônia e, ainda mais alta, no Cerrado.

Lula e Marina fogem de um debate urgente: a questão da degradação florestal

Ao centrar as reclamações contra a postura dos europeus na questão da lei anti-desmatamento, tanto o presidente Lula como a sua ministra do Meio Ambiente estão empurrando o assunto espinhoso da degradação florestal para debaixo do tapete.

Como já demonstrado em um artigo do qual sou co-autor e foi publicado pela revista Science em 2020, as florestas amazônicas vivem hoje sob o tacão de duas graves ameaças que são o desmatamento e a degradação florestal, sendo que a segunda está se ocorrendo em um ritmo mais forte e no interior de áreas que ainda estão distantes da franja de desmatamento. O impacto da degradação florestal medida pelas áreas impactadas pela extração seletiva de madeira e pelas queimadas é tão grande que as estimativas que oferecemos davam conta que as emissões de CO2 a partir dos dois processos são basicamente as mesmas.

São mostrados quatro tipos de floresta degradada: derrubada, queimada de sub-bosque, bordas e fragmentos florestais isolados. O tipo quantitativamente mais abundante em cada célula da grelha de 200 km 2 é o factor dominante a nível local. A cor representa o tipo mais dominante, enquanto o gradiente tonal indica o quão dominante ele é em comparação com outros tipos, como uma porcentagem de todos os tipos presentes. Se todos os quatro tipos existissem em magnitude aproximadamente igual, o tom estaria próximo de 25%, enquanto o tom da cor seria mais escuro e próximo de 100% se houvesse apenas um tipo presente. ( A ) O estatuto global dos tipos dominantes cumulativamente ao longo de todo o período de tempo, de 1992 a 2014. ( B ) O tipo dominante no início do período de análise, observado em 1992. ( C ) O tipo dominante no final do período de análise. período de análise, observado em 2014.

A questão é que desde 2020 vem surgindo um grande corpo de literatura científica centrado nos estudos sobre degradação florestal que não apenas confirmam o que dissemos no artigo da Science, mas que adicionam ainda mais informações sobre os impactos da degradação florestal que não pode mais ser tratado com um problema maior ameaçando a existência das florestas tropicais.

Assim, ao insistir em não incluir o problema da degradação florestal nas políticas de proteção da Amazônia, o que Lula e Marina Silva fazem é prestar um grande desserviço aos interesses estratégicos do Brasil que depende dos serviços ecossistêmicos que são fornecidos pelas suas florestas.

O pior é que ouvindo pesquisadores que estão ou estiveram na Amazônia recentemente, ouvi relatos de coisas inéditas como a presença de incêndios florestais em pleno mês de novembro, o que representa uma confirmação de que a degradação florestal está se alastrando e tornando as florestas mais suscetíveis a incêndios.

As consequências do acordo Mercosul-UE serão agravados se a lei anti-desmatamento for ignorada pelas partes (e não esqueçamos dos agrotóxicos altamente perigosos)

Eu tenho uma forte desconfiança que a Comissão Europeia irá rasgar com prazer a lei anti-desmatamento para viabilizar o acordo do tratado com o Mercosul. Acontece que os europeus estão em um momento grave que resulta da sua adesão completa e acabada às posições estadunidenses na questão dos conflitos da Ucrânia e da Palestina. Esta adesão serviu para agravar uma crise econômica que já estava em andamento por causa da pandemia da COVID-19. 

Agora a conclusão do acordo com o Mercosul aparece como uma espécie de tábua de salvação, principalmente porque a balança comercial penderá para o lado dos europeus que vão nos empurrar bens de capital e insumos agrícolas em troca da aquisição de commodities agrícolas baratas. Assim, deixar que ocorra mais desmatamento não será certamente um problema.

Mas não esqueçamos que os europeus também convivem com a necessidade de competir com a indústria de agrotóxicos da China e da Índia que hoje estão em posição forte, especialmente no que se refere ao mercado brasileiro.  Diante disso, os europeus também querem que seus agrotóxicos possam entrar aqui em condição de competitividade, em que pese o fato de que muitos dos produtos que as empresas europeias fabricam estão banidos para consumo no Velho Continente.

Nenhuma das preocupações que apontei acima parecem tirar o sono de Lula e Marina Silva, e suspeito que isto ocorra por causa da dependência política e econômica que o atual governo optou por ter em relação ao latifúndio agro-exportador (também conhecido como agronegócio).

Finalmente, razões para se preocupar com essa pressa de assinar o acordo Mercosul-EU não faltam. Mas no tocante ao debate sobre as florestas tropicais, especialmente na Amazônia, será preciso continuar cobrando a adoção de metas e ações claras para conter o processo de degradação florestal.  É que se continuarmos apenas com polítcas anti-desmatamento, o máximo que se conseguirá é minimizar os efeitos de um dos pés da destruição.