Espécie rara de morcego é reencontrada no Brasil após mais de um século sem registros

Descoberta ocorreu durante projeto de pesquisa em Palmas (PR) e revelou espécie em risco de extinção. Primeira e única descrição da espécie Histiotus alienus era de 1916, feita por um naturalista inglês. Além de ilustrar a biodiversidade brasileira, teria essa história relação com o colonialismo científico?

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Localizado inicialmente em uma área costeira de Santa Catarina, o morcego agora foi encontrado em uma floresta de araucárias no Sudoeste do Paraná. Fotos: Vinícius C. Cláudio/Fiocruz/Promasto
Por Camille Bropp para a Ciência UFPR

Éum morcego pequeno, de cerca de 12 centímetros da cabeça aos pés, mas até a sua presença ser registrada em uma área de transição entre campos naturais e florestas de araucárias do Paraná há uma longa história a ser contada. O morcego da espécie Histiotus alienus havia sido documentado pela primeira e única vez por um naturalista inglês em 1916, depois de ser capturado em Joinville, no Norte de Santa Catarina. Assim, teve seu corpo catalogado entre as espécies da biodiversidade da América do Sul no Museu de História Natural de Londres.

Mais de um século depois, o encontro de pesquisadores brasileiros com a espécie, que teve o registro publicado em setembro no periódico ZooKeys, fez avançar o conhecimento sobre esse mamífero voador da Mata Atlântica.

A captura do morcego ocorreu em 2018, durante o trabalho dos pesquisadores do projeto “Mamíferos do Refúgio de Vida Silvestre dos Campos de Palmas e do Parque Nacional dos Campos Gerais”, o Promasto. Financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o projeto tem o objetivo de documentar os mamíferos dessas duas unidades de conservação paranaenses e já investigou o impacto da descontinuidade das unidades de conservação na vida deles.

O morcego, um macho, foi interceptado por equipamentos para captura chamado rede de neblina, uma rede de malha de náilon instalada em pontos estratégicos do refúgio, que fica em Palmas, cidade de 52 mil habitantes no Sudoeste do Paraná. A unidade de conservação é federal, gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Entre as diferenças da espécie de morcego em relação a outros do mesmo gênero são suas orelhas menores e com membrana extra
Entre as diferenças da espécie de morcego em relação a outros do mesmo gênero são suas orelhas menores e com membrana extra
A partir daí, começou o longo trabalho de comparação que levou à comprovação da espécie, que teve que ser pesquisada em vários países, incluindo a conclusão na Inglaterra. Afinal, é onde estava o único registro científico do Histiotus alienus, ou seja, o seu holótipo — o exemplar coletado pela primeira vez e que foi utilizado para uma descrição ou representação da espécie, que pode até ser uma ilustração, mas geralmente é um esqueleto, um fragmento ou o conjunto disso com o corpo do exemplar embalsamado.

Mas por que o morcego ficou tanto tempo sem aparecer?

“Ainda temos muito a investigar. Pode ser uma espécie naturalmente rara. Pode ser uma espécie que sofreu muito o impacto da devastação da Mata Atlântica, tanto no passado quanto no presente. Ou pode se tratar de uma espécie que é difícil de ser coletada com técnicas tradicionais”, conta Liliani Marilia Tiepolo, coordenadora do projeto de pesquisa e professora do curso de Ciências Ambientais da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O projeto reúne cientistas do Laboratório de Análise e Monitoramento da Mata Atlântica (Lamma) da UFPR, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com apoio do ICMBio e do CNPq.

Espécie já é considerada criticamente ameaçada de extinção no Paraná

Além de jogar luz sobre uma espécie pouco conhecida da Mata Atlântica, a descoberta também aumenta a lista das espécies de mamíferos do Paraná. Dessa forma, pôde ter seu grau de conservação avaliado pelas pesquisadoras do Lamma, que coordenam a lista vermelha de mamíferos no Paraná. A análise já adianta que especialistas em morcegos acreditam que a espécie corre risco severo de extinção e precisa ser protegida.

“A comunidade de especialistas em morcegos que esteve presente nas oficinas de avaliação foi unânime em considerar que a espécie, em nível regional, passa a ser considerada como criticamente ameaçada de extinção no Estado do Paraná”, afirma Liliani, que é uma das coordenadoras do Lamma, juntamente com a professora Juliana Quadros, também da UFPR.

São vários os fatores que levaram à essa avaliação, que é o grau mais perigoso de extinção. Primeiro, o alto grau de fragmentação dos ambientes naturais onde o morcego vive no Paraná, como os campos nativos e as florestas de araucárias. Hoje as unidades de conservação que protegem estes ambientes são relativamente pequenas e descontínuas, portanto o espaço para o desenvolvimento da espécie acaba restrito.

Outro risco para a espécie é o fato de seus habitats naturais no Paraná estarem sendo transformados em pastagens, monocultivos agrícolas e área comercial de plantio de pinus e eucalipto. Também a expansão da energia eólica em Palmas e das hidrelétricas na Bacia do Rio Iguaçu atrapalham a sobrevivência dos morcegos. A expansão do desmatamento da Floresta Atlântica no Paraná nos últimos cinco anos soma mais um alerta.

A análise deve ajudar a tirar a espécie da lista de “dados insuficientes” da International Union for Conservation of Nature and Natural Resources (IUCN), que mantém um banco de dados sobre espécies ameaçadas de extinção no mundo.

O fato de ter sido encontrada a 400 quilômetros de onde foi coletada pela primeira vez pode significar uma área maior de habitação ampliando sua distribuição geográfica. Em Joinville, a Mata Atlântica é uma floresta ombrófila densa, ou seja, um tipo de floresta sempre verde que precisa de muita chuva.

A região onde a espécie foi encontrada é diferente. É uma mistura de floresta ombrófila mista, que são as florestas com araucária, também com grande necessidade de chuva e geralmente localizadas em áreas mais altas e mais frias, com campos naturais sulinos entre as florestas.

Orelhas diferenciam o morcego de outros mais conhecidos do seu gênero

A curiosidade em relação ao morcego foi imediata, conta Vinícius Cardoso Cláudio, pesquisador da Fiocruz Mata Atlântica. Cláudio é especialista em quirópteros, como também são chamados os morcegos, os únicos mamíferos que conseguem voar por completo. Como os morcegos de Palmas ainda são pouco conhecidos, achar espécies raras ou diferentes era uma possibilidade para o projeto.

O gênero do morcego, Histiotus, foi identificado logo que o bicho foi examinado, porque o pesquisador conhece bem esse grupo. Aqui vale relembrar as aulas de biologia na escola. Para estudar os seres vivos, a ciência busca agrupá-los pelas semelhanças. No caso do morcego, o maior grupo a que ele pertence é pelo fato de ele ser um animal (reino animal), como os seres humanos. De funil em funil, chegamos aos gêneros, que são o último grupo antes da espécie. O gênero Histiotus tem 11 espécies conhecidas de morcegos, entre elas o Histiotus alienus.

As orelhas em formato de vela são a principal característica do gênero Histiotus. Outra é o corpo coberto por pêlos amarronzados. Esses morcegos são insetívoros (comem insetos) e habitam boa parte da América do Sul, locais tão diferentes quanto florestas e montanhas. A dúvida sobre a espécie correta, porém, continuou.

“No momento da captura percebemos que alguns dos caracteres morfológicos [características físicas] eram diferentes do esperado para as espécies que poderiam ocorrer no local, podendo talvez se tratar de uma nova espécie ou alguma espécie não registrada no Brasil”, lembra Cláudio.

Inicialmente, pensou-se que o morcego poderia ser da espécie Histiotus bonariensis, que é mais comum, ou da Histiotus montanusregistrada pela primeira vez no Paraná em 2006. Mas as orelhas não batiam. Entre as características que chamam a atenção no Histiotus alienus estão as orelhas, que são menores do que a dos morcegos do gênero, além de triangulares e conectadas por uma membrana. “Alienus” vem de “estranho”. Ele também tem pelos avermelhados e compridos no dorso, enquanto as costas são cobertas por pêlos escuros.

Daí a necessidade da comparação com o primeiro exemplar recolhido da espécie, que está em Londres.

“É um achado muito significativo, pois traz luz a uma série de novas informações científicas sobre a espécie, sua evolução, relações de parentesco e morfologia a partir de uma nova descrição mais elaborada e detalhada, que poderá ser útil para novas identificações. A descrição original de 1916 era limitada a poucas informações, como era típico na época”, conta Liliani.

Acervos da biodiversidade tropical no Norte Global são expressão do colonialismo científico

O naturalista que descreveu o Histiotus alienus no início do século XX na Inglaterra também tem uma longa história para contar. Michael Rogers Oldfield Thomas foi um ativo mastozoólogo — um estudioso de mamíferos — que trabalhou por décadas para o Museu de História Natural de Londres, aposentando-se em 1923.

Ao se retirar, havia descrito mais de 2,9 mil espécies do mundo todo, número que seus colegas hoje consideram imbatível. Foi também um hábil taxidermista. Então, além de descrever novas espécies, conseguia transformá-las em objetos de exposição para o museu, empalhando os corpos.

Pode-se dizer ainda que Oldfield Thomas tinha ideias visionárias sobre a divulgação científica. Já naquela época era um defensor dos museus e da capacidade de disseminação de conhecimento a partir deles. Por isso, escreveu uma carta de opinião a um jornal sustentando a necessidade de que a entrada para museus fosse gratuita. Também defendia que cientistas adotassem uma linguagem simples e objetiva.

Com seu trabalho e fontes financeiras, que incluíam o acesso à herança da mulher, Oldfield Thomas expandiu a coleção de mamíferos do museu de forma notável. Comprou coleções particulares de mamíferos empalhados e viajou de museu em museu em busca de novas espécies.

Por outro lado, a atuação de Oldfield Thomas acaba sendo um caso da história da ciência que faz pensar sobre o chamado colonialismo científico, que é o uso dos avanços do conhecimento como arma política de dominação sobre outros países. O próprio naturalista deu muitas vezes a entender que trabalhava para essa concentração de conhecimento a favor da Inglaterra.

Isso está registrado, por exemplo, na coleção de cartas do zoólogo estadunidense Gerrit Smith Miller guardada pelo Museu Smithsoniano, nos Estados Unidos. Um estudo informal sobre o conteúdo do arquivo revela que Oldfield Thomas reclamava de administradores de museus das colônias britânicas que, no seu entender, dificultavam o traslado de espécimes. Chamava-os de “anti-britânicos”. Também se referia à expansão da coleção de mamíferos da Inglaterra como uma amostra de poderio nacional. Uma das coleções mais completas de mamíferos do museu é a de espécies da Índia, país que só se libertou da Inglaterra em 1947.

A postura dos cientistas de países colonizadores da época se reflete negativamente até hoje sobre o desenvolvimento da ciência em ex-colônias, entre as quais o Brasil se inclui. A demora no reencontro do pequeno morcego da Mata Atlântica tem tudo para estar entre esses efeitos, devido às dificuldades em se acessar estas coleções.

Segundo Vinícius Cláudio, da Fiocruz, estivesse o primeiro espécime no Brasil, a situação poderia ter sido diferente para toda a espécie.

“Sem dúvidas é um fator limitante. Barreiras geográficas, financeiras e linguísticas inviabilizam a visita a museus para diversos pesquisadores, ficando a maioria das visitas atreladas a grants [financiamentos] oferecidos por essas instituições. Talvez se o holótipo estivesse no Brasil, essa espécie poderia ter sido redescoberta antes”.

➕ Leia detalhes no artigo “Rediscovery of Histiotus alienus Thomas, 1916 a century after its description (Chiroptera, Vespertilionidae): distribution extension and redescription, publicado no periódico ZooKeys.

➕ Leia o texto “MR. M. R. Oldfield Thomas, F.R.S., o obituário de Oldfield Thomas reproduzido pela Nature em 2019 (em inglês).

Edição: Camille Bropp


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Este texto foi originalmente publicado pelo Ciência UFPR [Aqui!].

Mais de um quarto dos blocos de petróleo e gás recentemente aprovados no Reino Unido se situam em áreas marinhas protegidas

As novas licenças offshore do Reino Unido para as gigantes petrolíferas multinacionais Shell e Eni estão entre as que se encontram em locais de conservação sensíveis

Culzean Gas Platform in the North Sea
Culzean Gasplatform

Por Richa Syal e Ellie O’Donnell para a Unearthed

Mais de um quarto dos locais offshore de petróleo e gás licenciados pelo governo do Reino Unido no mês passado situam-se em áreas marinhas protegidas (AMPs) valorizadas pelos seus habitats e espécies raros, revelou  uma análise da Unearthed .

A concessão de novas licenças de petróleo e gás nas nossas áreas marinhas protegidas constitui uma paródia dos nossos compromissos climáticos

– Hugo Tagholm, diretor da Oceana Reino Unido

No final do mês passado, a Autoridade de Transição do Mar do Norte (NSTA), um órgão regulador responsável pela supervisão das operações de petróleo e gás no Reino Unido, concedeu às empresas licenças para desenvolver ou explorar recursos de petróleo e gás em 64 locais offshore , conhecidos como ‘ blocos’, nas águas do Reino Unido .

Uma análise da Unearthed descobriu que 17 destes blocos (27%) ficam total ou parcialmente dentro de uma AMP.

As novas licenças foram saudadas como “senso comum” pelo governo, que mais tarde revelou planos para introduzir rodadas de licenciamento anuais obrigatórias , como parte da promessa do primeiro-ministro Rishi Sunak de “maximizar” as reservas de petróleo e gás do Mar do Norte.  

Mas os grupos de conservação dos oceanos alertaram que novas atividades de petróleo e gás em áreas de conservação protegidas tinham o potencial de causar “devastação” à “vida selvagem e aos habitats que são vitais para a saúde dos oceanos”. 

“A concessão de novas licenças de petróleo e gás em nossas áreas marinhas protegidas zomba de nossas promessas climáticas, dizima nossa já sofrida vida oceânica e ameaça as comunidades costeiras”, disse Hugo Tagholm, diretor da Oceana UK, ao Unearthed . 

Tagholm disse que a perfuração do fundo do mar destrói habitats vitais, como corais de água fria e comunidades de esponjas do fundo do mar, e que, além do risco de derramamentos catastróficos de petróleo em grande escala, “derramamentos menores e rotineiros desses desenvolvimentos podem poluir, e de fato poluem”. diariamente nos mares do Reino Unido.” Uma investigação da Unearthed de setembro de 2023 descobriu que mais da metade do petróleo derramado acidentalmente pelas operações offshore de petróleo e gás do Reino Unido na última década acabou em AMPs. 

Mesmo antes do início da perfuração, as operações de petróleo e gás podem danificar a vida marinha nas AMP, acrescentou Tagholm. 

“Na fase de exploração, as pesquisas sísmicas com armas de ar comprimido – que são usadas quase exclusivamente na exploração offshore de petróleo e gás – emitem um ruído ensurdecedor que é 100.000 vezes mais intenso do que um motor a jato. Essas explosões ensurdecem animais que dependem da ecolocalização, como os golfinhos, e podem causar interrupção da alimentação e até mesmo a morte de uma variedade de vida oceânica.”

Caroline Lucas, deputada do Partido Verde, disse: “este governo que pisoteia todas estas zonas de proteção com perfurações imprudentes de petróleo e gás não reduzirá as contas de energia das pessoas nem proporcionará maior segurança energética – mas encherá os bolsos dos mega-ricos gigantes dos combustíveis fósseis, e causar danos tangíveis à nossa vida marinha crítica.”

Segundo a Oceana, na fase de exploração, os levantamentos sísmicos de ar comprimido emitem um ruído ensurdecedor, 100 mil vezes mais intenso que o de um motor a jato. Foto de Marten van Dijl via Greenpeace.

Embora uma licença de exploração nem sempre conduza a um campo de produção , a NSTA afirma que as novas licenças foram priorizadas porque têm potencial para entrar em produção mais rapidamente do que outras. ” 

Cerca de metade das 27 licenças iniciarão o desenvolvimento em reservas conhecidas, enquanto as restantes iniciarão a exploração .

Um porta-voz da NSTA disse: “ Habitats e espécies vulneráveis ​​e protegidos são considerados durante todo o processo de licenciamento e permissão e as licenças só são concedidas quando a NSTA recebe permissão do OPRED de que seus requisitos de avaliação ambiental são atendidos”.

A NSTA enfatizou que, mesmo após a concessão de uma licença, o licenciado ainda precisará obter mais consentimentos da autoridade antes de poder realizar pesquisas sísmicas, perfurar poços de exploração ou avançar para a produção plena . 

Mais de metade dos blocos adjudicados no mês passado (11 de 17) que se situam dentro ou se sobrepõem a AMPs foram para a gigante petrolífera Shell UK. Outros três foram para uma subsidiária da petrolífera italiana Eni e três para a Athena Exploration.

A Shell se recusou a comentar esta história.

Um porta-voz da Eni disse ao Unearthed que embora a área licenciada da empresa “se sobreponha parcialmente” a uma zona de conservação marinha, “nenhuma actividade de qualquer tipo foi prevista na área que se enquadra na área marinha protegida”.

Ecossistemas inteiros serão impactados negativamente pela exploração destrutiva de petróleo e gás

– Anna Moscrop , gerente de políticas da Whale and Dolphin Conservation

A AMP mais afectada pela nova parcela de licenças é o canal Nordeste Faroe-Shetland, que se acredita ser uma rota de migração para mamíferos marinhos , incluindo baleias-comuns e cachalotes. No total, 11 dos blocos aprovados situam-se total ou parcialmente dentro desta área de conservação, incluindo oito dos blocos da Shell .

“As AMP são habitats chave que sustentam a rica vida marinha do Reino Unido, incluindo baleias e golfinhos, e ecossistemas inteiros serão impactados negativamente pela exploração destrutiva de petróleo e gás”, disse Anna Moscrop, gestora de políticas da Whale and Dolphin Conservation . 

Ela disse ao Unearthed que o canal Faroé-Shetland é “uma das maiores AMP designadas para conservação da natureza”. 

“É um corredor vital para as baleias migratórias que se deslocam entre áreas de alimentação e áreas de reprodução em altas latitudes ao sul, e para espécies de mergulho profundo, como cachalotes e baleias-de-bico, que se alimentam em águas profundas”, acrescentou ela. “Esponjas frágeis e vulneráveis ​​do fundo do mar e corais de água fria também são encontrados aqui.” 

No início deste ano, o governo anunciou planos para emitir centenas de novas licenças para petróleo e gás do Mar do Norte . As licenças concedidas nos últimos meses são apenas o primeiro lote de blocos a ser aprovado na atual rodada de licenciamento. A NSTA afirma que mais blocos serão oferecidos nesta rodada, sujeitos a verificações ambientais adicionais . 

Os novos blocos foram concedidos um mês após a aprovação do polêmico projeto Rosebank, o maior campo petrolífero inexplorado do Reino Unido na costa da Escócia, que, de acordo com a declaração ambiental da Equinor , envolverá a construção de um novo oleoduto que atravessa a AMP Faroe-Shetland Sponge Belt. 

A AMP com a maioria dos blocos aprovados ou sobrepostos às suas fronteiras é o canal Nordeste Faroe-Shetland. Foto de Will Rose via Greenpeace

As concessões de licença do mês passado também incluíram um bloco que fica inteiramente dentro do Cinturão de Esponjas Faroe-Shetland. O local abriga raras esponjas gigantes do fundo do mar que, devido à sua aparência, também são conhecidas como “fundos de queijo”. As esponjas muitas vezes fornecem abrigo para espécies de peixes, e as suas populações só são encontradas nas águas do Reino Unido .  

Outras AMPs afetadas pela parcela de licenças do mês passado incluíram East Gannet e Montrose Fields e a zona de conservação marinha de Fulmar .

Áreas protegidas como East Gannet e Montrose Fields protegem espécies como o quahog oceânico, uma das criaturas de vida mais longa da Terra, e oferecem fontes vitais de alimento para os peixes . 

De acordo com um relatório da Oceana publicado no início deste ano, 40% de todas as novas licenças para perfuração de petróleo e gás no Mar do Norte que poderiam ser aprovadas na atual rodada estão dentro de áreas marinhas protegidas. 

De acordo com o Joint Nature Conservation Committee (JNCC), o organismo público responsável pela conservação da natureza no ambiente marinho offshore do Reino Unido, as características protegidas de cada uma destas AMP são “consideradas sensíveis às pressões associadas a…’actividades licenciáveis’”.

No entanto, o JNCC também observa que atividades como a exploração de petróleo e gás dentro destas AMPs seguem os regulamentos descritos na Lei de Acesso Marítimo e Costeiro. De acordo com estas regras, o JNCC aconselha o regulador sobre desenvolvimentos que possam ter um impacto significativo nas características protegidas da AMP e prejudicar os objetivos de conservação . 

“É cada vez mais claro que não existem mecanismos de proteção eficazes para garantir que as áreas marinhas protegidas designadas e as espécies protegidas estejam protegidas de perigos e danos em todo o Reino Unido”, disse Moscrop.

Como fizemos esta reportagem

Foram analisados shapefiles usados ​​fornecidos pela Autoridade de Transição do Mar do Norte, delineando os novos blocos e mapeando-os em um mapa de Áreas Marinhas Protegidas do Comitê Conjunto de Conservação da Natureza (JNCC) usando QGIS.

Existem vários tipos de AMPs no Reino Unido. Nossa análise incluiu todas as AMPs offshore:

  • Áreas Especiais de Conservação (ZECs)
  • Zonas de Proteção Especial (ZPE)
  • Zonas de Conservação Marinha (MCZs) na Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte
  • Áreas Marinhas Protegidas para Conservação da Natureza na Escócia (NCMPAs)
  • Áreas Marinhas Altamente Protegidas (HPMAs)

Em seguida, usamos o documento ‘ Tabela de possíveis prêmios por administradores ‘ da NSTA, que descreve todas as 32 licenças (27 novas e 5 existentes), seus proprietários e IDs de bloco para cruzar as localizações de cada bloco no QGIS com as localizações das AMPs.

O governo do Reino Unido concedeu um total de 58 blocos offshore em 30 de outubro , resultando em 27 novas licenças. Além disso, seis blocos foram fundidos em cinco licenças existentes.


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Este texto escrito originalmente foi publicado pela Unearthed [Aqui!].

Grande seguradora suíça tem contratos com fazendas responsáveis por desmatamento, violência armada e trabalho escravo no Brasil

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Por Public Eye

O grupo segurador suíço celebrou contratos com fazendas brasileiras que contribuíram para o desmatamento ou estão sob investigação por violência armada e trabalho escravo. É o que mostra uma pesquisa da Repórter Brasil, viabilizada pelo Prêmio Public Eye Investigation. De acordo com o relatório, a Swiss Re venda seguro para fazendas no Brasil cujas terras equivalem aproximadamente à área de Grisões, o maior cantão da Suíça.

Escassez de água na Amazônia, temperaturas recordes nas principais cidades e enchentes com dezenas de mortes no sul do país: o Brasil sofre cada vez mais com fenômenos climáticos extremos . São a principal razão para o aumento acentuado dos seguros agrícolas e pecuários subsidiados pelo Estado . Ao mesmo tempo, porém , a indústria agrícola no Brasil é a que mais contribui para a crise climática global e , portanto , para condições climáticas extremas – devido às suas emissões diretas , mas também através do desmatamento e da assim causada expansão de terras agrícolas. Neste contexto , é escandaloso que a Swiss Re tenha vendido pelo menos 19 apólices entre 2016 e 2022 para grandes explorações agrícolas que as autoridades provaram serem desmatadas ilegalmente . Dado que o cultivo de culturas agrícolas e a pecuária são proibidos nessas áreas restritas , estas apólices de seguro apoiavam de fato atividades ilegais .  

Isso foi revelado pela organização investigativa Repórter Brasil com dados disponíveis publicamente e pesquisas in loco . Esta reportagem foi financiada pelo Prêmio de Investigação apresentado pela Public Eye pela terceira vez . De acordo com estes dados, a Swiss Re, que em muitos países não é apenas uma empresa de resseguros, ficou em quarto lugar no ano passado em contratos agrícolas celebrados no âmbito de um programa de subsídios estatais . A área total segurada pela subsidiária brasileira do grupo sediado em Zurique no âmbito deste programa cobre 659 mil hectares, o que equivale aproximadamente ao cantão dos Grisões. Isto inclui , por exemplo , a fazenda Manto Verde, de 2.400 hectares , para cujo cultivo de soja a Swiss Re contratou impressionantes 17 apólices de seguro desde 2016. Isto independentemente do fato da Manto Verde ter sido declarada uma área restrita pelas autoridades devido a desmatamento ilegal .  

A Repórter Brasil também documentou vários casos em que a Swiss Re celebrou contratos de seguro com fazendas que cultivam ilegalmente áreas indígenas protegidas e às vezes até recorrem à violência armada. Um desses clientes era réu em um caso de  homicídio quando fez três apólices de seguro e outro está sob investigação por trabalho escravo em sua fazenda de café . Quando confrontada com estes factos , a Swiss Re, que opera em 25 países, limita-se a afirmar que “nos esforçamos para identificar riscos de sustentabilidade em todos os nossos negócios”. De acordo com o relatório de sustentabilidade do ano passado , o Grupo pretende neutralizar as suas emissões de gases com efeito de estufa até 2050. Ao mesmo tempo, porém , está a ignorar qualquer responsabilidade política climática nos seus negócios no Brasil, cujas emissões brutas provenientesde desmatamento em 2021 excederam as emissões totais. de um país como o Japão, segundo o Observatório do Clima . 


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Public Eye [Aqui!]. 

Metais pesados são encontrados em chocolates de marcas famosas

As análises, publicadas em uma revista dos EUA sobre direitos do consumidor, mostraram que um terço das marcas apresentava níveis alarmantes de chumbo e cádmio

chocolatePhoto Illustration: Chris Griggs/Consumer Reports, Getty Image 

Um teste divulgado pela revista americana Consumer Reports (CR) traz alertas importantes sobre alguns dos chocolate mais tradicionais no mercado. A publicação apresenta uma análise em 48 chocolates de marcas diferentes separados em sete categorias — cacau em pó, pedaços de chocolate, barras de chocolate ao leite, misturas para brownies, bolo de chocolate, chocolate quente e barras de chocolate amargo —, e mostra que foram identificados níveis considerados preocupantes de chumbo e cádmio, metais considerados pesados e tóxicos, no cacau.

Os metais estão relacionados com o desenvolvimento de enfermidades graves, como problemas pulmonares, cognitivos, câncer e até morte precoce. 

Entre as marcas estão a Hershey’s, Nestlé, Ghirardelli e Lindt. Em 16 produtos analisados foi possível verificar e encontrar quantidades elevadas de chumbo ou cádmio acima do nível que a Califórnia considera seguro, que são para chumbo de 0,5 microgramas por dia e para cádmio de 4,1 microgramas por dia.

“Dezesseis dos 48 produtos tinham quantidades acima dos níveis de preocupação da CR (Consumer Reports) para pelo menos um dos metais pesados – em alguns casos, mais que o dobro do nosso limite”, diz James E. Rogers, PhD, diretor e chefe interino de testes de segurança de produtos na Consumer Reports (CR).

Para a testagem dos produtos, os especialistas mediram os metais — chumbo, cádmio, mercúrio e arsênico — em três amostras de cada alimento e calcularam a média dos resultados. Nenhum dos produtos apresentou algum tipo de risco ao arsênico ou ao mercúrio.

De acordo com os especialistas da Consumer Reports, esse foi o padrão usado, pois “não há limites federais para a quantidade de chumbo e cádmio que a maioria dos alimentos pode conter“ e por acreditarem que “os níveis-padrão da Califórnia são os mais protetores disponíveis”.

De acordo com os resultados, entre as barras de chocolate testadas, a Perugina apresentou a maior quantidade de chumbo (539% acima do limite). Já a Evolved — encontrada em mercados americanos — apresentou o maior teor de cádmio (236% acima do que é permitido) e a barra de chocolate ao leite da Lindt (11% de chumbo e 13% de cádmio, acima do padrão).

A pesquisa também constatou que os chocolates amargos possuem níveis mais altos de metais pesados do que os chocolates ao leite. “Todos os produtos que testamos tinham quantidades detectáveis de chumbo e cádmio”, relata James E. Rogers.

Declarações

Hershey

Nestlé

“Aplicamos padrões rigorosos para garantir que os nossos produtos são de alta qualidade e cumprem todos os requisitos regulamentares aplicáveis, incluindo limites para cádmio e chumbo”, informou a Nestlé para a Consumer Reports.


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Correio Braziliense” [Aqui!].

Calor recorde deve castigar o Hemisfério Sul com o início do verão

O Hemisfério Norte experimentou um verão sufocante devido aos padrões climáticos e meteorológicos. Os cientistas dizem que o Hemisfério Sul não escapará do mesmo destino

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Uma combinação semelhante de padrões climáticos em 2019-2020 resultou nos devastadores incêndios florestais do “verão negro” na Austrália. Crédito: Carla Gottgens/Bloomberg via Getty

Por Bianca Nogrady para a Nature

O hemisfério sul enfrenta um Verão de extremos, dizem os cientistas, à medida que as alterações climáticas amplificam os efeitos da variabilidade climática natural. Isto surge na sequência de um verão no hemisfério norte que assistiu a ondas de calor extremas em toda a Europa, China e América do Norte, estabelecendo novos recordes de temperaturas diurnas e noturnas em algumas áreas.

Andrew King, cientista climático da Universidade de Melbourne, na Austrália, afirma que há “uma grande probabilidade de vermos temperaturas recordes, pelo menos na média global, e de vermos alguns eventos particularmente extremos em algumas partes do mundo”.

Efeitos do El Niño

À medida que 2023 chega ao fim, meteorologistas e cientistas do clima estão prevendo padrões climáticos que levarão a temperaturas recorde da superfície da terra e do mar. Estes incluem um forte El Niño no Oceano Pacífico e um Dipolo positivo no Oceano Índico.

“Esses tipos de grandes fatores podem ter uma grande influência na seca e nos extremos em todo o hemisfério sul”, diz Ailie Gallant, cientista climática da Universidade Monash em Melbourne, Austrália, e investigadora-chefe do Centro de Excelência para Extremos Climáticos do Conselho Australiano de Pesquisa. Na Austrália, ambos os fenómenos tendem a “causar condições de seca significativas, especialmente no leste do país”.

Durante 2019 e 2020, a mesma combinação de fatores climáticos contribuiu para incêndios florestais que arderam durante vários meses em mais de 24 milhões de hectares no leste e sudeste da Austrália.

Na África Oriental, a combinação do El Niño e de um Dipolo positivo do Oceano Índico está associada a condições mais húmidas do que o normal e a uma maior probabilidade de ocorrência de chuvas extremas e inundações. Prevê-se precipitação acima da média para grande parte da África Austral entre meados e finais da Primavera (Outubro a Dezembro), seguida de condições quentes e secas no Verão.

Um homem carrega um idoso por uma estrada inundada durante fortes enchentes na vila de Sir Lowry, na África do Sul.A África do Sul sofreu inundações na primavera de 2023. Crédito: Rodger Bosch/AFP via Getty

Na América do Sul, o El Niño tem um efeito mais quadriculado. Traz condições húmidas e inundações para algumas partes do continente, particularmente Peru e Equador, mas condições quentes e secas para a Amazónia e regiões do Nordeste.

Antes de 2023, os três anos consecutivos de contraparte do El Niño, La Niña, trouxeram condições relativamente frias e húmidas ao leste da Austrália e conduziram a secas recordes e a clima quente na metade inferior da América do Sul. Mas o “triplo mergulho” do La Niña ajudou a mascarar os aumentos da temperatura global associados ao aumento das emissões de gases com efeito de estufa e às alterações climáticas, diz King.

Ele diz que, juntamente com as condições do El Niño, todo o efeito da mudança climática está “emergindo adequadamente”.

Entretanto, a atividade humana continua a contribuir para os níveis de gases com efeito de estufa na atmosfera.

A cientista climática Danielle Verdon-Kidd, da Universidade de Newcastle, Austrália, diz que as ondas de calor — um dos eventos climáticos mais mortais — são uma grande preocupação para o verão de 2023. “Sabemos que com as condições que temos agora é mais provável que esse tipo de sistema se desenvolva durante o verão”, diz ela

O verão de 2023 no hemisfério norte registou temperaturas elevadas sem precedentes na China, em partes da Europa e no Norte de África, a pior época de incêndios florestais alguma vez registada no Canadá e graves ondas de calor marinhas no Mediterrâneo. As grandes massas de terra no hemisfério norte criam áreas de circulação de ar quente e seco, conhecidas como cúpulas de calor, que bloqueiam os sistemas de baixa pressão que, de outra forma, trariam condições mais frias e húmidas.

No hemisfério sul, as cúpulas de calor são menos preocupantes. “Também temos uma grande massa terrestre na Austrália”, diz Verdon-Kidd, mas o hemisfério sul tem uma proporção oceano-terra muito maior, “portanto, os nossos sistemas são diferentes”.

Além desses fenômenos convergentes, o Sol e o vapor de água atmosférico influenciarão o clima. King diz que o Sol está se aproximando do pico do seu ciclo de atividade de 11 anos, o que poderia contribuir com um pequeno mas significativo aumento nas temperaturas globais. Entretanto, a erupção do vulcão subaquático Hunga Tonga – Hunga Ha’apai em Janeiro de 2022 aumentou a quantidade de vapor de água na alta atmosfera, o que também deverá aumentar ligeiramente as temperaturas globais. As mudanças de temperatura são “centésimas de grau em relação à média global, portanto não são nem de longe tão importantes como as alterações climáticas ou mesmo o El Niño neste momento, mas são um factor pequeno”, diz King.

Aquecimento do planeta.  Gráfico mostrando o aumento da temperatura média global desde 1970.

Fonte: Clima Central

Oceanos quentes

Os oceanos também estão sentindo o calor. As temperaturas médias globais da superfície do mar atingiram um máximo recorde em Julho deste ano, e algumas áreas estiveram mais de 3 ºC mais quentes do que o habitual. Houve também níveis recordes de gelo marinho ao redor da Antártica durante o inverno, o que poderia levar a um ciclo de feedback, diz Ariaan Purich, cientista climático da Universidade Monash. “Grandes áreas do Oceano Antártico que normalmente ainda estariam cobertas por gelo marinho em Outubro, não estão”, diz ela. Em vez de ser refletida no gelo branco, a luz solar que entra tem maior probabilidade de ser absorvida pela superfície escura do oceano. “Isso aquece a superfície e derrete mais gelo marinho, para que possamos ter esse feedback positivo.”

Icebergs derretidos são vistos na Ilha Horseshoe, na Antártica.À medida que o gelo da Antártida derrete, a água mais escura absorve mais luz solar, provocando mais derretimento. Crédito: Agência Sebnem Coskun/Anadolu via Getty

Outro elemento meteorológico presente neste verão é o Modo Anular Sul, também conhecido como Oscilação Antártica, que descreve a mudança para o norte ou para o sul do cinturão de ventos de oeste que circunda a Antártida.

Em 2019, a Modalidade Anular Sul esteve numa fase fortemente negativa. “O que isto significou foi que em todo o leste da Austrália havia muitos ventos muito quentes e secos soprando do deserto para o leste da Austrália, o que realmente exacerbou o risco de incêndios florestais”, diz Purich. Um Modo Anular Sul positivo está associado a maiores precipitações na maior parte da Austrália e no sul da África, mas a condições secas na América do Sul, Nova Zelândia e Tasmânia.

O Modo Anular Sul está atualmente em um estado positivo, mas a previsão é que retorne à posição neutra nos próximos dias, e “eu diria que não esperamos ter um Modo Anular Sul negativo muito forte nesta primavera”, diz Purich. 

E, por mais quente que seja o verão, o pior ainda pode estar por vir. O cientista atmosférico David Karoly, da Universidade de Melbourne, que foi membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, afirma que o maior impacto do El Niño provavelmente será sentido no verão de 2024–25. “Sabemos que o impacto nas temperaturas associado ao El Niño acontece um ano após o evento”, diz Karoly.

doi : https://doi.org/10.1038/d41586-023-03547-9


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Nature [Aqui!].

Após vitória de Milei, governo Lula reforça sua face antiambiental para tentar aprovar acordo comercial com a União Europeia

lula raoni

O presidente Lula coloca adereço entregue pelo cacique Raoni.  O prometido compromisso ambiental parece ter ficado na campanha eleitoral

Que o terceiro mandato do presidente Lula não está sendo exemplar em termos de proteção ambiental já está claro para quem acompanha a situação brasileira com um mínimo de visão crítica.  A combinação de uma postura leniente com os invasores de terras indígenas com a manutenção dos níveis elevados de aprovação de agrotóxicos (muito deles proibidos em outras partes do mundo) já deixava isso transparecer. Além disso, a insistência em pavimentar a BR-319 ligando Manaus a Porto Velho também demonstra que não há realmente uma preocupação séria com a busca de soluções para os graves problemas ocorrendo na maior floresta tropical do planeta, em que pese os crescentes desajustes ambientais que a degradação e o desmatamento já estão causando.

Agora, uma matéria do jornalista Jamil Chade aponta que na esteira da vitória eleitoral do ultradireitista Javier Milei, o governo Lula e a cúpula da União Europeia estão tentando fechar o acordo comercial Mercosul-União Europeia antes que ocorra a troca de cadeiras em Buenos Aires. Para isso, uma cúpula deverá ser realizada no Brasil no dia 6 de dezembro, apenas quatro dias antes da posse de Milei.

Detalhes oferecidos por Chade indicam que o governo Lula vem trabalhando para remover demandas ambientais impostas pela União Europeia, a principal delas sendo a determinação de que haja uma contenção do desmatamento em áreas novas na Amazônia. Lembrando que atualmente a degradação causada por garimpos, extração ilegal de madeira e a intrusão de queimadas vindas das áreas desmatadas (ou não) emitem tanto carbono quanto o desmatamento, essa posição do governo Lula é uma autodeclaração de que não intenciona agir de forma séria para impedir o avanço de franja de desmatamento para áreas ainda relativamente intocadas da floresta amazônica.

A indústria química europeia entre as principais interessadas do acordo

Mas a faceta antiambiental do governo Lula também deixa escancarada a hipocrisia da União Europeia que tem como objetivo comercial continuar empurrando para o mercado brasileiro agrotóxicos que ela mesmo já baniu ou impôs fortes restrições para a continuação do uso, incluindo o caso do herbicida glifosato que é fabricado pela multinacional alemã Bayer.

Como tenho apontado, a questão dos agrotóxicos representa um elemento chave na definição do perfil ambiental do governo Lula, na medida em que a continuidade das políticas de liberalização de aprovação e comercialização que foram determinadas durante a gestão de Jair Bolsonaro e permanecem intocadas até agora, mas com tendências de piora!

Ao pressionar pela assinatura do acordo comercial, o que Brasil e União Europeia fazem é tentar manter o Mercosul como uma destino preferencial dos venenos agrícolas que os países europeus não querem mais usar por conhecerem seus graves riscos ao meio ambiente e os seres humanos.

E por onde Marina Silva?

No meio dessas pressões todas, uma voz que tem feito se ouvir pouco é obviamente o da ministra Marina Silva que vem cumprindo o papel de uma espécie de rainha da Inglaterra da agenda antiambiental do governo Lula.  Quando aparece para falar, Marina Silva mostra que seu foco parece ser algum tipo de evolução para acordos do mercado de carbono durante a Cúpula do Clima (a COP 28) que ocorrerá em Dubai quase uma semana depois da cúpula Mercosul-União Europeia. 

Mas e as demais questões prementes que hoje assolam o Brasil e explicitam a urgência de uma mudança no modelo agrícola que o acordo Mercosul-União Europeia visa preservar e até fortalecer? Sobre isso, Marina Silva marca sua atuação pela ausência de uma crítica sistêmica, preferindo se juntar às vozes que apoiam a assinatura deste malfadado tratado comercial. Em outras palavras, a ministra do Meio Ambiente é mais uma que abraça um acordo claramente antiambiental e pró-corporações.

Governo Lula é mais parte do problema do que da solução

Aos que desejam que o Brasil trilhe um caminho mais sustentável na formulação de suas polítcas econômicas e de uso das florestas nacionais é forçoso reconhecer que o governo Lula é mais parte do problema do que das soluções. Seja pela presença de latifundiários nos ministérios ou pelo abraço das políticas neoliberais por Fernando Haddad, o governo Lula não se mostra disposto a se mover para longe das políticas de Jair Bolsonaro que enfraqueceram as agências de proteção ambiental que hoje operam no limite extremo por falta de orçamento e de pessoal.

Além disso, além do anúncio de ações relacionadas ao chamado PAC 3 que reforçam opções desastrosas para o ambiente e populações tradicionais e povos originários, temos que nos defrontar com o torniquete orçamentário que foi imposto pelo chamado “novo teto de gastos” e a absurda meta do déficit zero em 2024. Com isso, o que teremos é a manutenção de níveis altos de desmatamento e degradação florestal e a expansão do uso de agrotóxicos banidos em outras partes do planeta. 

Com tudo isso, a certeza que fica é que 2024 poderá ser um ano de maior destruição ambiental e de aumento dos custos socioambientais da agenda antiambiental que embala objetivamente as ações do governo Lula.  Este cenário será agravado caso se consiga assinar o Acordo Mercosul-União Europeia antes da posse de Javier Milei.

O grande divisor do carbono: 1% mais rico é responsável por mais emissões de carbono do que 66% mais pobres, diz relatório

A ‘elite poluidora’ está saqueando o planeta até o ponto de destruição, diz Oxfam após estudo abrangente sobre a desigualdade climática

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Embora os 1% mais ricos tendam a viver vidas isoladas do clima, as suas emissões são responsáveis ​​por imenso sofrimento. Ilustração:  Desenho: The Guardian

Por Jonathan Watts Editor de meio ambiente global do “The Guardian”

O 1% mais rico da humanidade é responsável por mais emissões de carbono do que os 66% mais pobres, com consequências terríveis para as comunidades vulneráveis ​​e para os esforços globais para enfrentar a emergência climática, afirma um relatório.

O estudo mais abrangente sobre a desigualdade climática global já realizado mostra que este grupo de elite, composto por 77 milhões de pessoas, incluindo multimilionários, milionários e aqueles que recebem mais de 140.000 dólares (112.500 libras) por ano, foi responsável por 16% de todas as emissões de CO 2 no mundo . 2019 – o suficiente para causar mais de um milhão de mortes em excesso devido ao calor, de acordo com o relatório.

Nos últimos seis meses, o Guardian trabalhou com a Oxfam , o Instituto Ambiental de Estocolmo e outros especialistas numa base exclusiva para produzir uma investigação especial, A Grande Divisão do Carbono. Explora as causas e consequências da desigualdade de carbono e o impacto desproporcional dos indivíduos super-ricos, que foram denominados “a elite poluidora”. A justiça climática estará no topo da agenda da cimeira climática Cop28 da ONU deste mês nos Emirados Árabes Unidos.

O relatório da Oxfam mostra que, embora os 1% mais ricos tendam a viver vidas climaticamente isoladas e com ar condicionado, as suas emissões – 5,9 mil milhões de toneladas de CO 2 em 2019 – são responsáveis ​​por imenso sofrimento.

Utilizando uma fórmula de “custo de mortalidade” – utilizada pela Agência de Protecção Ambiental dos EUA, entre outros – de 226 mortes em excesso em todo o mundo por cada milhão de toneladas de carbono, o relatório calcula que as emissões de 1% por si só seriam suficientes para causar o calor. mortes relacionadas de 1,3 milhão de pessoas nas próximas décadas.

Durante o período de 1990 a 2019, as emissões acumuladas do 1% foram equivalentes à destruição das colheitas do ano passado de milho da UE, trigo dos EUA, arroz do Bangladesh e soja chinesa.

O sofrimento recai desproporcionalmente sobre as pessoas que vivem na pobreza, as comunidades étnicas marginalizadas, os migrantes e as mulheres e raparigas, que vivem e trabalham fora ou em lares vulneráveis ​​a condições meteorológicas extremas, de acordo com a investigação. Estes grupos têm menos probabilidades de ter poupanças, seguros ou proteção social, o que os deixa mais em risco económico, bem como fisicamente, de inundações, secas, ondas de calor e incêndios florestais. A ONU afirma que os países em desenvolvimento são responsáveis ​​por 91% das mortes relacionadas com condições meteorológicas extremas.

O relatório conclui que seriam necessários cerca de 1.500 anos para que alguém dos 99% mais pobres produzisse tanto carbono como os bilionários mais ricos produzem num ano.

“Os super-ricos estão a saquear e a poluir o planeta até ao ponto da destruição e são aqueles que menos podem pagar que pagam o preço mais elevado”, disse Chiara Liguori, conselheira sénior de política de justiça climática da Oxfam. As crises gêmeas do clima e da desigualdade estavam “alimentando-se mutuamente”, disse ela.

A disparidade de riqueza entre as nações explica apenas parcialmente a disparidade. O relatório mostra que em 2019 – o ano mais recente para o qual existem dados abrangentes – os países de rendimento elevado (principalmente no norte global) foram responsáveis ​​por 40% das emissões globais de CO 2 baseadas no consumo, enquanto a contribuição dos países de baixo rendimento países (principalmente no sul global) foi insignificante de 0,4%. África, onde vive cerca de uma em cada seis pessoas da população mundial, foi responsável por apenas 4% das emissões.

Um problema menos discutido, mas que cresce mais rapidamente, é a desigualdade dentro dos países. Os multimilionários ainda são esmagadoramente brancos, do sexo masculino e residentes nos EUA e na Europa, mas os membros desta influente classe de super-ricos podem ser cada vez mais encontrados noutras partes do mundo. Os milionários estão ainda mais dispersos.

O relatório diz que esta é uma má notícia para o clima em vários níveis. A extravagante pegada de carbono dos 0,1% – desde super iates, jactos privados e mansões até voos espaciais e bunkers do Juízo Final – é 77 ​​vezes superior ao nível máximo necessário para que o aquecimento global atinja o pico de 1,5ºC.

As ações corporativas de muitos super-ricos são altamente poluentes . Esta elite também exerce um enorme e crescente poder político ao possuir organizações de comunicação social e redes sociais, contratar agências de publicidade e relações públicas e lobistas, e misturar-se socialmente com políticos seniores, que também são frequentemente membros do 1% mais rico, de acordo com o relatório.

Nos EUA, por exemplo, um em cada quatro membros do Congresso possui ações de empresas de combustíveis fósseis, num valor total entre 33 milhões de dólares e 93 milhões de dólares. O relatório diz que isto ajuda a explicar porque é que as emissões globais continuam a aumentar e porque é que os governos do norte global forneceram 1,8 biliões de dólares para subsidiar a indústria dos combustíveis fósseis em 2020, contrariando os seus compromissos internacionais de eliminar gradualmente as emissões de carbono.

A Oxfam apela a impostos pesados ​​sobre a riqueza dos super-ricos e impostos inesperados sobre as empresas de combustíveis fósseis para apoiar os mais afectados, reduzir a desigualdade e financiar uma transição para as energias renováveis. Diz que um imposto de 60% sobre os rendimentos do 1% mais rico arrecadaria 6,4 biliões de dólares por ano e poderia reduzir as emissões em 695 milhões de toneladas, o que é mais do que a pegada de 2019 do Reino Unido.

O diretor executivo interino da Oxfam Internacional, Amitabh Behar, disse: “Não tributar a riqueza permite que os mais ricos nos roubem, arruínem o nosso planeta e reneguem a democracia. A tributação da riqueza extrema transforma as nossas possibilidades de enfrentar tanto a desigualdade como a crise climática. São biliões de dólares em jogo para investir em governos verdes dinâmicos do século XXI, mas também para reinjetar nas nossas democracias.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “The Guardian” [Aqui!].

Desigualdade e crise climática: os 1% mais ricos emitem tanta poluição quanto 2/3 da Humanidade, revela relatório da Oxfam

As emissões de carbono do 1% mais rico aumentaram para 16% do total das emissões mundiais de CO2 em 2019. As emissões de carbono  deste segmento são suficientes para causar 1,3 milhões de mortes em excesso devido ao aquecimento da Terra

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O 1% mais rico da população mundial produziu tanta poluição de carbono em 2019 quanto os cinco mil milhões de pessoas que constituíam os dois terços mais pobres da humanidade, revela hoje um novo relatório da Oxfam.  Este relatório surge antes da Conferência da ONU sobre o clima no Dubai, num contexto de receios crescentes de que a meta de 1,5°C para reduzir o aumento das temperaturas pareça cada vez mais inatingível.

Climate Equality: A planet for the 99% [EN/AR] - World | ReliefWeb

Estas emissões descomunais dos 1% mais ricos causarão 1,3 milhões de mortes excessivas relacionadas com o calor, aproximadamente o equivalente à população de Dublin, na Irlanda. A maioria dessas mortes ocorrerá entre 2020 e 2030.

“Os super-ricos estão saqueando e poluindo o planeta até o ponto da destruição, deixando a humanidade sufocada pelo calor extremo, inundações e secas”, disse o Diretor Executivo interino da Oxfam International, Amitabh Behar.

“Durante anos lutamos para acabar com a era dos combustíveis fósseis para salvar milhões de vidas e o nosso planeta. Está mais claro do que nunca que isso será impossível até que nós também acabemos com a era da riqueza extrema”, disse Behar.

Os dados mostrados no relatório “ Igualdade Climática: Um Planeta para os 99% ” baseia-se na investigação do Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI) e avalia as emissões de consumo de diferentes grupos de rendimento em 2019, o ano mais recente para o qual existem dados disponíveis. O relatório mostra a enorme disparidade entre as pegadas de carbono dos super-ricos — cujos estilos de vida famintos de carbono e investimentos em indústrias poluentes, como os combustíveis fósseis, estão a impulsionar o aquecimento global — e a maior parte da população em todo o mundo. 

  • Os 1% mais ricos (77 milhões de pessoas) foram responsáveis ​​por 16% das emissões do consumo global em 2019 – mais do que todas as emissões dos automóveis e dos transportes rodoviários. Os 10 por cento mais ricos foram responsáveis ​​por metade (50 por cento) das emissões. 
     
  • Levaria cerca de 1.500 anos para que alguém entre os 99% mais pobres produzisse tanto carbono quanto os bilionários mais ricos produzem em um ano.  
     
  • Todos os anos, as emissões do 1% mais rico anulam as poupanças de carbono provenientes de quase um milhão de turbinas eólicas.
     
  • Desde a década de 1990, o 1% mais rico consumiu o dobro do carbono que nos resta para queimar, sem aumentar as temperaturas globais acima do limite seguro de 1,5°C, do que a metade mais pobre da humanidade. 
     
  • As emissões de carbono do 1% mais rico deverão ser 22 vezes superiores ao nível compatível com a meta de 1,5°C do Acordo de Paris em 2030.

O colapso climático e a desigualdade estão fechados em um ciclo vicioso — a Oxfam viu em primeira mão como as pessoas que vivem na pobreza, as mulheres e as raparigas, as comunidades indígenas e os países do Sul Global estão sentindo o impacto desigual dos impactos climáticos, que por sua vez aumentam a divisão. O relatório conclui que sete vezes mais pessoas morrem devido a inundações em países socialmente mais desiguais. Além disso, as alterações climáticas já estão agravando a desigualdade entre países e dentro deles.

Os governos podem enfrentar as crises gêmeas da desigualdade e das alterações climáticas, visando as emissões excessivas dos super-ricos e investindo em serviços públicos e cumprindo as metas climáticas. A Oxfam calcula que um imposto de 60%  sobre os rendimentos dos 1% mais ricos reduziria as emissões em mais do que as emissões totais do Reino Unido e angariaria 6,4 biliões de dólares por ano para pagar a transição dos combustíveis fósseis para as energias renováveis.

“Devemos fazer a conexão explicitamente. Não tributar a riqueza permite que os mais ricos nos roubem, arruínem o nosso planeta e reneguem a democracia. A tributação da riqueza extrema transforma as nossas possibilidades de enfrentar tanto a desigualdade como a crise climática. São triliões de dólares em jogo para investir em governos verdes dinâmicos do século XXI, mas também para reinjetar nas nossas democracias”, disse Behar.

A Oxfam apela aos governos para:

  • Reduzir drasticamente a desigualdade. A Oxfam calcula que seria possível, através de uma redistribuição global de rendimentos, proporcionar a todas as pessoas que vivem na pobreza um rendimento diário mínimo de 25 dólares, reduzindo ao mesmo tempo as emissões globais em 10 por cento (aproximadamente o equivalente às emissões totais da União Europeia). 
  • Abandonar os combustíveis fósseis de forma rápida e justa. Os países ricos são desproporcionalmente responsáveis ​​pelo aquecimento global e devem acabar com a produção de petróleo e gás de forma correspondentemente mais rápida. Novos impostos sobre empresas e multimilionários poderiam ajudar a pagar a transição para as energias renováveis.
  • Priorizar o bem-estar humano e planetário em detrimento do lucro, extração e consumo infinitos. É preciso parar de usar o crescimento do PIB como medida do progresso humano. 

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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Oxfam International [   ].

Impacto climático na Amazônia afeta o sul da América do Sul

clima-Amazonia-996x567O aquecimento global e o desmatamento poderiam impactar o transporte de umidade da floresta amazônica para a Bacia do Prata através dos chamados “rios voadores ou aéreos”. Crédito da imagem: Fábio Mitsuka Paschoal/Wikimedia Commons , licenciado sob Creative Commons CC BY-SA 4.0 Deed

Por Nicolás Bustamante Hernández para o SciDev 

O transporte de umidade da floresta amazônica para o sul da América do Sul está sendo seriamente afetado pelo aquecimento global e pelo desmatamento, o que pode gerar um desequilíbrio no clima desta região, que pode até piorar num cenário em que a temperatura do planeta diminuirá e subir acima de 2°C, como previsto para o final deste século.

Isto fica claro num estudo publicado recentemente na revista Science of the Total Environment . O objetivo do grupo de especialistas internacionais que escreveu o artigo foi analisar como o aquecimento global, num cenário de 2°C acima do período pré-industrial, somado ao desmatamento da Amazônia, poderia alterar o clima nas bacias hidrográficas não só desta vital floresta para o planeta, mas de outros ecossistemas relacionados, como no caso da Bacia do Prata (sul do Brasil, Uruguai e leste da Argentina).

Especificamente, os autores avaliaram como ambos os efeitos poderiam impactar o transporte de umidade da floresta amazônica para a Bacia do Prata através dos chamados “rios voadores”.

Esse conceito refere-se às enormes colunas de água que correm sobre o continente sul-americano, transportam umidade e energia e contribuem para precipitações abundantes durante o verão austral (entre dezembro e fevereiro), como explica Murilo Ruv Lemes, membro do INPE e

“Descobrimos que o transporte de umidade é impactado tanto pelo desmatamento da Amazônia quanto pelo aquecimento global (…) No cenário de aquecimento global, os efeitos sobre a fisiologia florestal podem ser mais fortes do que o desmatamento.”

Murilo Ruv Lemes, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Brasil

Para realizar a análise, os pesquisadores realizaram modelagem climática desenvolvida no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil.

“Descobrimos que o transporte de umidade é impactado tanto pelo desmatamento da Amazônia quanto pelo aquecimento global, que diminuiu em direção ao sudeste brasileiro e aumentou em direção ao sul da Bacia do Prata. No cenário de aquecimento global, os efeitos na fisiologia florestal podem ser mais fortes que o desmatamento”, acrescentou Ruv Lemes.

“Ou seja, uma alta concentração de CO 2 induz à diminuição da condutância estomática, mecanismo positivo para as taxas de evapotranspiração (processo de reciclagem da água na atmosfera), resultando em um ciclo hidrológico mais fraco”, acrescenta Ruv Lemes.

Segundo o cientista, a relação desses fenômenos com a Bacia do Prata reside no fato de esta depender da umidade transportada da floresta amazônica durante seu período chuvoso por meio de mecanismos aéreos fluviais (rios aéreos ou voadores).

“Basicamente, a umidade que evapora do Oceano Atlântico entra no continente sul-americano pelo norte, chegando à floresta amazônica. A floresta desempenha um papel importante em trazer mais água para a atmosfera através da evapotranspiração. Por fim, por meio de um Jato de Baixo Nível, corrente de vento e topografia elevada (Cordilheira dos Andes), esse transporte é redirecionado para o centro-sul da América do Sul, alimentando seu período chuvoso”, afirma Ruv Lemes.

Para o cientista, “as descobertas são necessárias para orientar as partes interessadas e os tomadores de decisão política a melhorar as suas práticas e planejar um futuro resiliente contra as alterações climáticas, que afetam milhões de pessoas por ano, principalmente as mais vulneráveis”.

Por sua vez, Benjamín Quesada, diretor do programa de Ciências do Sistema Terrestre da Universidad del Rosario (Bogotá, Colômbia), destaca que este estudo mostra como o desmatamento em um lugar pode ter efeitos em outro, até centenas ou milhares de quilômetros de distância.

“Essa é uma área para a qual a ciência está caminhando e teríamos que unir forças para documentar muito mais esse fenômeno. Estudos anteriores já mostraram que se ocorrer desmatamento no Brasil, o ciclo hidrológico da Colômbia ou do Chile,  é afetado, mostrando que a Amazônia deve ser protegida, pois o que acontece nela pode ter efeitos em escala global”, afirma Quesada.

“Precisamos de desmatamento zero daqui para frente”, afirma Ruv Lemes.

“Além disso, uma transição energética completa ou um novo estado de matriz energética sustentável deve ser implementado o mais rápido possível. O estado climático e a saúde da Terra são críticos e dependem de uma mudança completa no comportamento humano neste momento. A conhecida estrutura econômica não resolverá esse problema”, afirma o especialista.


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição América Latina e Caribe do SciDev.Net e foi publicado [Aqui!].

Rio, não! ‘Inferno de Janeiro’: calor escaldante destaca a flagrante desigualdade social do Brasil

Pareciam 58,5ºC no Rio na terça-feira – e as temperaturas elevadas, na verdade perigosas, estão atingindo os mais pobres com mais força

A man cools off in the Arara Park favela in Rio de Janeiro.

Um homem se refresca na favela Parque Arara, no Rio de Janeiro. Fotografia: Silvia Izquierdo/AP

Por Constance Malleret, no Rio de Janeiro, para o “The Guardian”

Ainda falta um mês para o início do verão no hemisfério sul, mas o Brasil já experimentou a oitava onda de calor do ano até agora, à medida que as temperaturas sobem para níveis perigosamente elevados.

Grandes áreas do país foram colocadas sob alerta vermelho esta semana pelo Inmet, o instituto meteorológico nacional, que alertou para os riscos para a saúde “e até para a vida”, uma vez que as temperaturas permaneceram pelo menos cinco graus Celsius acima da média durante mais de cinco dias.

Os perigos ficaram ainda mais evidentes com a morte de um fã em um show de Taylor Swift na noite de sábado no Rio de Janeiro, no qual milhares de outros espectadores tiveram que ser tratados por desidratação.

Ana Clara Benevides Machado, 23 anos, desmaiou no Estádio Olímpico Nilton Santos e morreu pouco depois, supostamente de parada cardíaca, após relatos de condições sufocantes no local, onde a temperatura externa era muito superior aos 39,1ºC oficiais.

A cantora juntou-se a fãs e políticos para expressar seu choque com a morte. Swift escreveu nas redes sociais que ficou “arrasada” com a notícia e “oprimida pela dor”.

No início do concerto, os adeptos teriam gritado repetidamente em direção ao palco por “água, água, água”, depois de terem sido alegadamente impedidos de levar consigo mantimentos para o estádio.

O ministro da Justiça do Brasil, Flávio Dino, postou no X que seriam implementadas regras de emergência exigindo que os locais de lazer permitissem o acesso dos torcedores à água. Esperava-se que outros políticos da região seguissem o exemplo.

Após os meses de julho, agosto , setembro e outubro mais quentes já registrados no Brasil , espera-se que as temperaturas desta semana “reescrevam a história do clima” no país, disse a empresa meteorológica MetSul . Os especialistas atribuem, em parte, o calor excessivo a um forte El Niño, sendo que a crise climática torna mais provável a intensidade e a frequência de tais eventos.

Os termômetros do Inmet registraram repetidamente temperaturas acima de 40ºC no Centro-Oeste e Sudeste, com pico de 43,3ºC em Corumbá, na fronteira com a Bolívia, na quarta-feira. Com temperaturas atingindo 37,7ºC e 42,6ºC, respectivamente, São Paulo e Rio de Janeiro bateram recordes para o ano. No Rio, carinhosamente apelidado de “Inferno de Janeiro” pelos moradores locais, as temperaturas parecem ter atingido impressionantes 59,7ºC no sábado. 

Um termômetro de rua em São Paulo. Fotografia: Miguel Schincariol/AFP/Getty Images

Os trabalhadores administrativos que normalmente trabalham em casa voltavam para os escritórios com ar-condicionado para escapar do calor implacável e das contas de luz astronômicas, mas essa não era uma opção para pessoas como Flávio Figueiredo, um mototaxista da favela.

O calor “torna o trabalho mais estressante”, disse o homem de 42 anos, abrigando-se à sombra de uma árvore na entrada do Parque Arará, favela localizada na Avenida Brasil – uma das vias mais movimentadas e poluídas do Rio – e voltando para uma refinaria de petróleo.

“Se a temperatura for, digamos, 30ºC, quando você para na pista parece 40, 50”, acrescentou.

Como em outros lugares, as flagrantes desigualdades sociais no Brasil são agravadas por eventos climáticos extremos.

“A realidade de uma onda de calor durante a semana não são as imagens de praias lotadas. … A realidade de uma onda de calor são ônibus lotados com ar condicionado quebrado, escolas públicas sem ar condicionado ou ventilador funcionando. Essa é a realidade da injustiça climática”, disse Marina Marçal, especialista em política climática que tem aconselhado o governo brasileiro sobre como abordar esta desigualdade nas suas agendas climáticas e urbanas.

Calor escaldante esta semana no Rio.
Calor escaldante esta semana no Rio. Fotografia: Pilar Olivares/Reuters

“As áreas mais pobres, como as favelas, são as mais quentes”, disse Andrews Lucena, geógrafo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro que estuda o calor urbano extremo. “As favelas são focos de calor porque apresentam as piores condições materiais de construção, ausência de espaços verdes e, muitas vezes, const

Muitas vezes dependentes de ligações clandestinas à rede, os moradores das favelas também são mais propensos a sofrer cortes frequentes de energia e água.

“As autoridades públicas não olham [para nós], não há nenhum esforço para melhorar as coisas”, disse Luis Cassiano Silva, morador de Arará, atribuindo isso ao racismo estrutural. Assim como 56% dos brasileiros – e 67% dos moradores de favelas – Silva é negro.

O calor opressivo da favela sempre incomodou o homem de 54 anos, que antes morava em áreas mais arborizadas e tem tendência a suar excessivamente. Há 12 anos, ele resolveu resolver o problema sozinho e criou um telhado verde em sua casa, trabalhando com pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro para projetar um protótipo que funcionasse em construções mais precárias.

Hoje, o florescente jardim na cobertura mantém o terraço visivelmente mais fresco. “É lindo”, disse o ativista ambiental, antes de acrescentar “mas, falando sério, está muito quente… e está cada vez pior”. 


Luis Cassiano no telhado verde de sua casa no Parque Arara.

Luis Cassiano Silva no telhado verde de sua casa no Parque Arará. Fotografia: Silvia Izquierdo/AP

A onda de calor deveria atingir o pico no fim de semana, segundo a meteorologista do Inmet Dayse Moraes, mas um verão particularmente quente pode estar por vir.

“Se ficar muito mais quente, não sei como vamos aguentar”, disse Marileidi Francisco, 42 anos, lojista em Arará.

Silva tentou replicar seu telhado de resfriamento, mas embora seu projeto Favela Teto Verde tenha ajudado a esverdear a praça onde Figueiredo se protegia do sol, os telhados com jardins não decolaram realmente no Parque Arará, que continua sendo uma mistura vermelha e cinza de bolhas formado por tijolos e ferro corrugado.

Para se refrescarem, os moradores simplesmente recorrem a “um banho ao ar livre ou uma cerveja no bar”, disse Silva, enxugando a testa pingando, enquanto na esquina os bandidos que controlam a área buscavam alívio em uma piscina que montaram na rua.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].