Observatório divulga lista completa dos 410 agrotóxicos liberados pelo governo Lula

Com ritmo de liberações semelhante ao de Jair Bolsonaro, Lula mantém Brasil afundado em uma agricultura baseada na monocultura de exportação e fortemente dependente de agrotóxicos

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Como adiantado em postagem anterior, o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski divulga hoje (22/10) a base de dados contendo os 410 agrotóxicos liberados pelo governo Lula entre 01 de janeiro e 10 de outubro.  Apesar de ser relativamente trabalhosa, a compilação dos agrotóxicos liberados por diferentes atos publicados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) que hoje é comandado pelo ruralista e defensor do “Pacote do Veneno, o senador Carlos Fávaro (PSD/MT).

Quem inspecionar os dados sobre os 410 agrotóxicos liberados pelo governo Lula poderá observar algumas tendências que já se mostravam evidentes durante o governo de Jair Bolsonaro. Uma delas é a aprovação de agrotóxicos que já estão banidos em outras partes do mundo por terem sido identificadas uma série de consequências ambientais e sobre a saúde humana (com destaque para produtos que já estão associados ao desenvolvimento de câncer, por exemplo).

A segunda tendência é a presença cada vez mais evidente de agrotóxicos ditos “genéricos” que são fabricados principalmente na China, muito em função da expiração das patentes originais nos países de origem. Outro questão é que muitos desses agrotóxicos genéricos são compostos por princípios ativos que já foram retirados do comércio dos países onde foram originalmente desenvolvidos por serem muito tóxicos para o ambiente e para os seres humanos.

O governo Lula descumpre a promessa de trabalhar por uma agricultura de base ecológica

Diogo Schelp: Sem ideias novas, Lula relança antigos programas

Com a manutenção de um ritmo bastante alto de aprovação de agrotóxicos, o governo Lula descumpre uma das promessas da campanha eleitoral de 2022 e do próprio discurso da vitória do presidente Luís Inácio Lula da Silva que é justamente apoiar o fortalecimento da agricultura familiar e da produção orgânica de alimentos

Em seu discurso da vitória, o presidente Lula citou explicitamente o seu compromisso com a modificação das bases da agricultura brasileira para um modelo ecologicamente sustentável. No entanto, a manutenção do ritmo de liberação de agrotóxicos somada à falta de investimentos no desenvolvimento de projetos de base agroecológica demonstra que esse discurso ainda está longe de materializado em políticas públicas.

A raíz desse descumprimento é a contínua aposta na exportação de commodities agrícolas que, além de serem dependentes de agrotóxicos, está associada ao processo de desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Com isso quem acaba ganhando mais é a China que além de comprar soja barata do Brasil mantém uma forte influência no mercado de agrotóxicos.

A base principal e as planilhas com os atos publicados desde agosto

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Como a última vez que publiquei a base geral dos dados agrotóxicos liberados pelo governo Lula, além da base geral agora com 410 agrotóxicos, estou disponibilizando as planilhas relativas aos atos 37, 39, 42 e 45 . Desta forma, os leitores do blog poderão baixar também identificar os agrotóxicos liberados em cada um dos atos assinalados.

Documentário apresenta líderes ameaçados pelo agronegócio no Maranhão

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Por Natalie Hornos e Luís Indriunas para o “De Olho nos Ruralistas”

 Eu estou ameaçado desde 2016. Você ser ameaçado é pior coisa do mundo, porque você pode sair de casa, mas não sabe se volta.

Uma das líderes ameaçadas entrevistadas no documentário SOS Maranhão. (Foto: Manoel Marques Neto/De Olho nos Ruralistas)

O depoimento é de José, nome fictício para uma das 114 pessoas ameaçadas de morte no Maranhão, o estado mais violento no campo brasileiro. José é líder de uma comunidade quilombola. Entre 2011 e 2020, o Maranhão foi o estado com mais conflitos no campo: 1.772 ocorrências, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Quarenta e quatro camponeses, 34 quilombolas, 19 indígenas, 11 ambientalistas e cinco pescadores estão no Programa Estadual de Proteção a Defensores e Defensoras de Direitos Humanos, envolvidos em 37 casos, todos relacionados a conflitos no campo.

Entre 2020 e 2022, 21 líderes foram assassinados e mais de 30 mil pessoas ameaçadas.

De Olho nos Ruralistas ouviu seis dessas pessoas no documentário “SOS Maranhão”, produzido com apoio da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), organização ecumênica que atua na defesa de direitos humanos no Brasil há 50 anos. O filme foi lançado no dia 19 no YouTube e integra a editoria De Olho na Resistência:

Matopiba protagoniza a expulsão das pessoas do campo e a invasão dos territórios 

Maranhão é peça central do complexo agroexportador brasileiro. (Imagem: Porto do Itaqui)

 Na última década, o Matopiba — fronteira agrícola que reúne 337 municípios do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — tem sido palco de invasões violentas do agronegócio e de grandes projetos de infraestrutura aos territórios das comunidades tradicionais.

“O Matopiba se aproxima onde estão as comunidades”, explica Ivo Fonseca, cofundador da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq). “É onde está a água, onde está a preservação, onde está o rio. Para os latifundiários, essas áreas são estratégicas”.

“O avanço do Matopiba está acabando com os mananciais em nome das commodities“, aponta a quebradeira de coco babaçu Ana (nome fictício), uma das mulheres que integram a lista de ameaçados do Maranhão. “Essas commodities geram dólares para quem?”, questiona.

De janeiro de 2019 a julho de 2023, o Maranhão perdeu 767.328,2 hectares de vegetação para o desmatamento, o equivalente a 13 vezes o tamanho da sua capital, de acordo com dados da plataforma Mapbiomas Alerta.

Terra com isolados registra mortes e invasões

 Paulo Paulino Guajajara foi morto em 2019. (Foto: Sarah Shenker/Survival International)

Com 413 mil hectares, a Terra Indígena Arariboia, cuja maior parte está em Amarante do Maranhão, além de outros seis municípios, viu 25 mil hectares de sua área (6%) serem desmatados por madeireiros, sojeiros e pecuaristas.

As propriedades pressionam a fronteira do território, onde vivem mais de 5 mil Guajajara e isolados Awá-Guajá. “[O agronegócio] está impactando em todos os nossos costumes, principalmente na cultura e nos nossos rios, aonde está sendo diretamente desmatada a cabeceira, jogando agrotóxico, acabando com nossos açaís e com nossos peixes”, conta a líder Jacirene Guajajara.

Entre 2003 a 2021, 21 indígenas Guajajara foram mortos. Muitos deles eram parte do grupo Guardiões da Floresta, que vigia o território para combater invasores e madeireiros. Em 2019, ano em que Jair Bolsonaro assumiu a presidência, um dos principais líderes dos guardiões foi morto por grileiros: Paulo Paulino Guajajara, com 26 anos, cuja luta foi detalhada em um episódio do De Olho na História. Apesar da repercussão internacional do caso, a violência continuou: seis indígenas da TI Arariboia foram assassinados entre 2022 e 2023.

Cerca de 25 mil hectares foram desmatados por madeireiros e fazendeiros na TI Arariboia. (Cartografia: Eduardo Carlini/De Olho nos Ruralistas)

Indígenas Gamella tiveram mãos decepadas 

Indígena Gamella teve as mãos decepadas durante ataque de fazendeiros em 2017. (Foto: Ana Mendes/Cimi)

Frequentemente os Gamella são surpreendidos com tiros em direção às suas comunidades, principalmente aos finais de semana. É o que conta Cawcree Akroá Gamella, um dos líderes do território, retomado em Viana (MA) durante 2014. Em abril de 2017, um grupo de 30 jagunços, contratados por fazendeiros da região, atacou a comunidade num episódio de horror, deixando 22 feridos, sendo que dois indígenas tiveram as mãos decepadas.

O ataque aconteceu após a “Marcha pela Paz”, onde políticos locais como o deputado federal Aloisio Mendes (Republicanos-MA) incentivaram a violência. “Gente ordeira, que trabalha há mais de 90 anos, e nunca viu índio aqui”, disse o integrante da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no carro de som.

Os primeiros ataques aos Gamella aconteceram na década de 1960. O povo chegou a ser considerado extinto. Hoje, toda a comunidade Gamella está inscrita no Programa Estadual de Proteção a Defensores e Defensoras de Direitos Humanos, enquanto retomam o manejo de agrofloresta em parte do seu território.

Na entrevista, Cawcree alerta que, além do gado e da especulação imobiliária, os indígenas sofrem com a violência institucional. “A própria Justiça, ao negar nossos direitos, é uma ameaça”.

Em 2021, 16 indígenas foram presos após protestarem contra a construção de dois linhões de energia, pertencentes aos grupos Eletronorte e Equatorial.

Sem consulta prévia, porto e rodovia violam territórios

“Quando os grandes empreendimentos chegam, eles já colocam a máquina e começam a trabalhar”, relata Leleco, líder do Quilombo Santa Rosa dos Pretos, em Itapecuru-Mirim.

Duplicação da BR-135 beneficia o agronegócio e impacta a vida dos quilombolas. (Foto: GovBr)

A cerca de 100 quilômetros dali, a comunidade de pescadores do Cajueiro, em São Luís, sofre a mesma pressão pela ampliação da infraestrutura logística. Os dois locais estão na rota das obras de duplicação da BR-135, cujo projeto pretende ampliar o escoamento da produção do Matopiba. Iniciada em 2017, a obra foi paralisada após um recurso das organizações quilombolas, em ação impetrada pelo Ministério Público Federal. Em 2020, a Justiça Federal suspendeu a construção até que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) fizesse os ajustes e propusesse uma contrapartida para as comunidades. Mesmo sem acordo fechado, em junho deste ano, o juiz federal Ricardo Felipe Rodrigues Macieira  autorizou a retomada das obras da da BR-135. Poucas semanas após a liberação, o ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB-AL), anunciou investimento federal na duplicação entre os km 95,6 a 127,75, exatamente onde estão os quilombos.

O Cajueiro enfrenta também as ameaças vindas da expansão do Porto de São Luís. Em agosto de 2019, policiais derrubaram 22 casas, sem mandado judicial. A comunidade é compreendida por cinco núcleos (Parnauaçu, Andirobal, Guarimanduba, Morro do Egito e Cajueiro), onde vivem cerca de 500 famílias, entre pescadores, agricultores e extrativistas.

No local, está prevista a duplicação do porto, que visa atender as indústrias sojeira e sucroalcooleira, além de beneficiar a Vale, que já duplicou a Ferrovia Carajás para escoar, não só sua produção, mas também transportar grãos de fazendas do Pará e Maranhão.

Na região do porto, fica o Terreiro do Egito, o mais antigo do Maranhão. Considerado um local sagrado para as religiões de matriz africana, o terreiro abriga um enorme patrimônio arqueológico. Em 2019, a Defensoria Pública da União no Maranhão (DPU-MA) entrou com uma ação contra o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a empresa WPR São Luís Gestão de Portos — formada, na época, pela construtora paulista WTorre e pela China Communications Construction Company (CCCC). A empresa foi comprada em 2022 pela gigante Cosan, que prometeu recomeçar as obras em 2024.

“O Estado se omitiu a tomar uma decisão e investigar de fato as questões”, afirma o líder comunitário Clóvis Amorim. “O que a gente quer é que o Estado não só nos respeite, mas que ele tome medidas. Ele próprio, contra as empresas e contra o Judiciário que não investiga e também participa. Não é para ele ser conivente”.

| Natalie Hornos é produtora do De Olho nos Ruralistas e uma das diretoras do documentário. |

|| Luís Indriunas é roteirista e editor do observatório. ||

Foto principal (Reprodução): documentário mostra a história de pessoas ameaçadas  por lutar pela preservação de seus territórios.


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Este foi originalmente publicado pelo “De olhos nos ruralistas” [Aqui!].

Versão compacta das ideias revolucionárias de Karl Marx

Edipro lança edição de “O Capital” com extratos de Paul Lafargue, genro do filósofo

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O Capital, de Karl Marx, revolucionou as ciências sociais e a economia política e proporcionou ferramentas para a libertação do proletariado ao expor as contradições do sistema capitalista. Mais de um século e meio após sua publicação, o livro segue uma leitura atual e necessária para a compreensão da sociedade contemporânea.  

Uma versão resumida do clássico indispensável para quem quer compreender melhor essa corrente de pensamento, O Capital – Extratos por Paul Lafargue ganha nova edição da Editora Ediprocom prefácio de Edmílson Costa, economista e membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e tradução de Edson Bini.

Neste livro, o também jornalista, escritor, ativista político e genro de Marx tem como objetivo popularizar a teoria econômica marxista, em especial junto aos operários europeus. Para o filósofo alemão, este foi o ensaio que mais se aproximou de uma leitura sintética de O Capital.

Ao longo das páginas, Lafargue apresenta de maneira minuciosa a teoria do valor, que representa uma das principais discordâncias de Marx em relação à economia neoclássica. Além disso, explora os conceitos de mais-valia, a visão da força de trabalho como uma mercadoria, o processo de transformação do dinheiro em capital e as contradições sistêmicas.

A produção de mais-valia não é, portanto, outra coisa
senão a produção de valor, prolongada além de certo ponto.
Se o processo de trabalho cura somente até o ponto em que o
valor da força de trabalho paga pelo capital, substituído por
um novo equivalente, há produção simples de valor;
quando ultrapassa esse limite, há produção de mais-valia.
(O Capital — Extratos por Paul Lafargue, p. 122)

Publicado originalmente em 1893,O Capital – Extratos por Paul Lafargue se concentra basicamente no Livro I dos três volumes que compõem O Capital. Ao condensar os principais tópicos da extensa obra de Marx, o autor dialoga com aqueles que buscam conhecer mais sobre a ciência econômica.

Ficha Técnica

Título: O Capital – Extratos por Paul Lafargue
Autores: Paul Lafargue e Karl Marx
Tradução: Edson Bini
Número de páginas: 160
ISBN: 9786556601274
Dimensões: 14 cm x 21 cm
Preço: R$ 41,90
Onde encontrar: Amazon

Repasses do Programa Nacional de Alimentação Escolar caíram nos últimos anos na maioria dos estados

Escola Municipal

Alunos do ensino fundamental da escola Municipal Jardim da Conquista do bairro de Perus, São Paulo/SP

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Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) constataram que os repasses financeiros do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) diminuíram nos últimos seis anos na maioria dos estados brasileiros. A análise dos dados de 2014 a 2020 está descrita em artigo publicado na sexta (20) na revista científica Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação.

Apenas o Amapá e o Distrito Federal receberam maiores repasses financeiros do programa em 2020 quando comparados a 2014. A queda atinge até mesmo o estado de São Paulo, que foi um dos estados que mais recebeu recursos do Pnae ao longo dos anos, junto com Bahia e Minas Gerais. De 2014 a 2020, o estado teve uma redução de 15% de repasses, recebendo aproximadamente 870 milhões de reais do programa no ano da pandemia.

Os pesquisadores analisaram dados de repasses financeiros do Pnae de 2014 a 2020, fornecidos pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento para a Educação (FNDE). Eles identificaram as oscilações durante o período do programa por município e modalidade de ensino. Uma correção monetária foi aplicada, de acordo com a inflação, para que os dados pudessem estar o mais próximo possível da realidade, visto que os preços dos alimentos apresentam variação durante o ano.

De acordo com o trabalho, a redução de repasses do Pnae pode estar relacionada à evasão escolar de estudantes. O valor a ser repassado pelo governo federal para as secretarias estaduais de educação e prefeituras municipais em dez parcelas anuais é calculado de acordo com o número de alunos matriculados nas escolas federais, estaduais, municipais e distritais registradas no Censo Escolar e a quantidade de dias letivos.

“A decisão de delimitar a análise entre 2014 e 2020 foi estratégica para capturar os impactos reais de duas ações importantes para o quadro alimentar dos estudantes brasileiros: a saída do Brasil do mapa da fome estabelecido pelas Organizações das Nações Unidas (ONU), em 2014, e o impacto da extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), em 2019”, explica Nataniele dos Santos Alencar, co-autora do estudo e pesquisadora da UFC.

O trabalho mostra, também, o impacto da pandemia na educação: 2020 é o ano com menor número de municípios atendidos pelo Pnae, por causa do fechamento das escolas. Foram 3.611 municípios a menos do que em 2014, que contabilizou 29.370 municípios, maior quantidade do período. O número de secretarias estaduais de educação atendidas pelo programa teve uma redução de 18% em relação a 2016, ano com maior número de secretarias.

“Ao identificar dados discrepantes e cenários tão heterogêneos, o estudo disponibiliza ferramentas para a intervenção política”, avalia o pesquisador Jair Araújo, coautor do estudo. Os autores Nataniele Alencar, Filipe Lima e Jair Araújo reforçam a importância de investimentos no Pnae para garantir uma alimentação de qualidade para as escolas brasileiras, o que pode influenciar no desempenho acadêmico dos estudantes.

Cultura Kayapó chega ao Mac Niterói em forma de exposição no dia 28 de outubro

Mostra ‘Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos’ vai contar a ‘cultura da mistura’ na perspectiva dos jovens Kayapó

Metoro (festa) das mulheres na aldeia Mydjam_Tomoti Kayapo

A constante transformação da cultura do povo Mebêngôkre-Kayapó – habitante de seis terras indígenas no sul do Pará e no norte do Mato Grosso – é tema da exposição Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos, que ocupa o mezanino do Museu de Arte Contemporânea – MAC Niterói em outubro e novembro. Com experiências imersivas, depoimentos inéditos e um acervo composto por obras produzidas pela nova geração do povo Mebêngôkre-Kayapó, a mostra abre dia 28 de outubro e segue até 26 de novembro.

“Mekukradjá Obikàrà”, o conceito que inspirou e nomeia a mostra, pode ser traduzido para o português como “cultura impura”, resultado da mistura entre a modernidade e tradições Kayapó. Para retratar essa história, membros do Coletivo Audiovisual Beture, responsável pela curadoria da exposição, percorreram aldeias Kayapó para produzir materiais que desconstroem estereótipos sobre a população indígena e fortalecem a cultura da comunidade através de um olhar voltado para o futuro mas que respeite e honre o passado.

Um grupo de cineastas Kayapó viajou por algumas aldeias para produzir materiais que vão se unir com retratos e vídeos do acervo do Coletivo. Eles se juntam com uma grande tela pintada por 15 mulheres Kayapó durante o Acampamento Terra Livre (ATL) de 2023, fotografias e arquivos históricos.

A arquitetura circular do MAC de Niterói remete às aldeias Kayapó construídas em círculo com a ngá (casa dos homens) no centro e permitirá que o público se transporte ao local de origem dos indígenas e se sinta parte da comunidade. Os espaços contendo fotos, vídeos, obras de artesanato e peças históricas representam diferentes aspectos da cultura e das tradições Kayapó. Por meio das instalações, os visitantes poderão conhecer lideranças Kayapó, adornos usados nas festas e rituais até chegarem ao último espaço, dedicado à modernização das tradições.

Uma programação especial com a presença do cacique Raoni, liderança Kayapó mundialmente reconhecida, está prevista para o dia de abertura. Danças e cantos tradicionais serão apresentados por indígenas Kayapó que viajarão para acompanhar esse momento. Além disso, haverá feira de artesanato, oficina de pintura corporal, mostra de filmes do Coletivo Beture e roda de conversa com Alberto Guarani também estão na agenda do dia (programação completa abaixo).

A Exposição Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos é realizada pelo Tradição e Futuro na Amazônia (TFA), projeto patrocinado pelo Programa Petrobras Socioambiental e gerido pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). A Conservação Internacional Brasil e as organizações representativas parceiras do projeto, os institutos Kabu e Raoni e a Associação Floresta Protegida apoiam a iniciativa.

O Coletivo Beture

O Coletivo Beture é um movimento dos Mekarõ opodjwyj – cineastas e comunicadores indígenas Mẽbêngôkre-Kayapó. A denominação vem de uma formiga, encontrada no território Kayapó, que tem como característica uma mordida bastante potente, a cabeça vermelha e a bunda preta, mesmas cores usadas pelos indígenas desta etnia quando se pintam para a guerra.

Surgido em 2015, o Beture tem contribuído para organizar e estruturar um movimento da juventude que vem surgindo em muitas comunidades. A juventude Mẽbêngôkre-Kayapó deseja registrar a vida e a cultura de seu povo por meio de tecnologias audiovisuais e diversas mídias. Hoje o coletivo desempenha um papel fundamental na conquista de reconhecimento cultural assim como na visibilidade das estruturas políticas. Desde então, formações audiovisuais têm sido realizadas com o objetivo de potencializar as produções do coletivo e ofertar aos cineastas mais conhecimento sobre as técnicas de captação de imagens, de roteirização e edição.

O trabalho dos Mekarõ opodjwyj também tem o objetivo duplo de construir um caminho profissionalizante para garantir uma fonte alternativa de renda para o povo Mẽbêngôkre-Kayapó, assim como gerar a possibilidade de jovens lideranças de participar em mobilizações políticas e trocas de conhecimento com outros povos. O audiovisual passou então a ser um instrumento dos mais potentes para o fortalecimento cultural: os Mẽbêngôkre-Kayapó deixam de ser apenas objeto de estudo para fazer seus próprios

registros sobre a vida, atividades cerimoniais e cotidianas.

O Beture tem uma produção de cerca de 30 filmes por ano, que geralmente tratam sobre: metoro – festas de nominação, eventos políticos, e alguns filmes de ficção que representam narrativas oriundas da mitologia Mẽbêngôkre-Kayapó, geralmente transmitida oralmente pelos velhos. Os filmes circulam bastante nas comunidades e são muito bem recebidos nas aldeias Mẽbêngôkre-Kayapó. Esses filmes também circulam amplamente atingindo outros públicos a nível regional, nacional e internacional.

Programação completa do evento de abertura – ENTRADA FRANCA

10h – Abertura do Museu e entrada simbólica dos indígenas na exposição

10h30 – Início da feira de artesanato (haverá pintura corporal na parte da manhã – serviço pago)

10H30 – Plenária dos povos tradicionais em defesa de seus territórios e maretórios com representantes dos povos indígenas, quilombolas e caiçaras do Pará, Mato Grosso e Rio de Janeiro

17h – Apresentação de canto e dança – Metoro (festa)

17h30 – Apresentação Cacique Raoni e lideranças Kayapó sobre a história do povo

18h a 20h – Mapping (projeção) da arte Kayapó na fachada do prédio

19h – Apresentação musical – Rapper Matsi

Em tempos de Greenwashing: títulos ‘verdes’ do UBS e do Santander são ligados a fazendeiros acusados ​​de trabalho escravo no Brasil

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 O Santander cocoordenou um CRA “verde” de £76 milhões para a SLC Agrícola em dezembro de 2020. Acima, 5.200 ha desmatados na Fazenda Parceiro da SLC de 2019-2020. Imagem: AidEnvironment, com imagens do Planet Satellite © 2020 Planet Labs PBC 

Por Fernanda Wenzel e Olivier Christe para a Unearthed

Os bancos europeus UBS e Santander levantaram centenas de milhões de libras em títulos “verdes” que se destinavam em parte a agricultores e pecuaristas acusados ​​de abusos ambientais e de direitos humanos no Brasil, concluiu uma investigação do Unearthed e O Joio e O Trigo .

Entre os vinculados aos títulos estão um agricultor que supostamente mantinha cinco trabalhadores em condições “semelhantes à escravidão”, uma empresa de soja identificada como a maior desmatadora do cerrado brasileiro, um pecuarista multado por impedir a regeneração de 17 quilômetros quadrados de floresta amazônica e um produtor de etanol que envenenou um rio de que dependia uma comunidade indígena.

Esse fluxo de caixa foi possível graças a ferramentas financeiras chamadas CRAs. Sendo títulos especificamente ligados ao agronegócio brasileiro, os CRAs são pouco conhecidos fora do país – nem a Bloomberg nem a Refinitiv, a plataforma de dados financeiros da Bolsa de Valores de Londres, os acompanham detalhadamente. As CRAs representam uma proporção relativamente pequena do financiamento total do agronegócio do Brasil, mas estão crescendo rapidamente: a quantidade de capital que levantaram aumentou mais de 500% nos últimos cinco anos, de R$ 7 bilhões (£ 1,15 bilhões) em 2018 para quase R$ 43 bilhões (£ 7,1 bilhões) em 2022, de acordo com a Uqbar , uma empresa brasileira de inteligência de mercado. 

Um CRA é um tipo especial de título lastreado em ativos que pode ser emitido por uma empresa ou indivíduo que se compromete a investir o dinheiro no agronegócio. O papel dos bancos coordenadores é definir o preço dos títulos e vendê-los aos investidores. Para isso, os bancos coordenadores recebem uma taxa, geralmente de 3% a 5% do total da oferta, que dividem entre si. 

“O CRA está ganhando força e se tornando um importante instrumento [de financiamento do agronegócio]”, disse Juliano Assunção, diretor executivo da Climate Policy Initiative , um think tank de políticas públicas.

As reformas legais que permitiram a proliferação das CRAs foram inicialmente elogiadas como apoiando agricultores sustentáveis ​​de pequena escala, e foram bem recebidas por grupos como a WWF e a Climate Bonds Initiative . Na prática, porém, este mercado tem sido liderado pelos gigantes da indústria pecuária brasileira JBS, Marfrig e Minerva, que têm sido repetidamente associados ao desmatamento da Amazônia . Mais recentemente, em agosto, o Santander ajudou a coordenar um dos maiores CRAs do ano, um título de R$ 1,5 bilhão (240 milhões de libras) para a JBS 

Como uma investigação desenterrada pode revelar pela primeira vez, mesmo CRAs distribuídos a investidores pelo UBS e Santander e comercializados como “verdes” foram destinados a agricultores e empresas que estão sendo investigados por seu papel em desastres socioambientais, desmatamento em grande escala , apropriação de terras e trabalho escravo. 

“Acho que o termo lavagem verde é muito fraco… Estas são alegadas violações dos direitos humanos”, disse Alex Wijeratna, diretor sênior da Mighty Earth , ao Unearthed .

Trabalhadores limpam o prédio do Supremo Tribunal Federal em janeiro, após um ataque de milhares de apoiadores de Bolsonaro. Antônio Galvan, listado pela Caramuru como fornecedor, é investigado por suposta participação no planejamento do levante. Foto: DOUGLAS MAGNO/AFP via Getty Images

Um destinatário pretendido do dinheiro verde do CRA era Antônio Galvan, um grande agricultor e presidente do grupo comercial de produtores de soja do Brasil (Aprosoja). Em agosto de 2021, dois meses antes da emissão da CRA, Galvan seria investigado por suposta conspiração contra instituições brasileiras e por incentivar a população a praticar atos criminosos e violentos. O Supremo Tribunal Federal do Brasil também está investigando Galvan por planejar o ataque ao Congresso, ao Supremo Tribunal e ao Palácio Presidencial do Brasil em 8 de janeiro por partidários de Bolsonaro, amplamente interpretado pelos serviços de segurança como uma tentativa de derrubar a eleição do presidente Lula.

Embora essas investigações ainda não tenham sido concluídas, e Galvan tenha dito ao Unearthed que as alegações “não têm uma única prova”, ele também foi multado por 5 km2 de desmatamento ilegal e por venda ilegal de soja. Galvan também foi acusado de roubar 76 ha – mais de 100 campos de futebol – das terras do seu vizinho, deslocando marcos de fronteira e registando as terras como suas. Galvan acrescentou que as questões legais sobre as fronteiras de propriedade são normais.

Galvan foi listado como destinatário pretendido do dinheiro arrecadado de um CRA verde de R$ 354 milhões (£ 56,4 milhões) vendido pelo UBS ao banco brasileiro BTG Pactual em outubro de 2021 para Caramuru , um grande comerciante brasileiro de grãos. 

O mercado de CRA é actualmente dominado por bancos brasileiros, mas dois bancos europeus estão a ganhar força discretamente. O Santander da Espanha tem sido coordenador ou coordenador principal em CRAs totalizando pelo menos R$ 23,4 bilhões (£ 3,7 bilhões) por meio de CRAs para o agronegócio brasileiro desde 2018, dos quais R$ 8,6 bilhões (£ 1,3 bilhões) foram apenas em 2022. 

Em 2020, o UBS da Suíça fez parceria com o Banco do Brasil , maior financiador do agronegócio do mundo , para criar a joint venture UBS BB Investment Bank . Desde então, tem sido coordenador ou coordenador principal de CRAs, totalizando R$ 12 bilhões (£ 1,9 bilhões), dos quais mais da metade foi arrecadado em 2022. 

O UBS-BB recebeu honorários estimados em cerca de R$ 5 milhões (£ 800.000) pela coordenação do CRA 2021 da Caramuru. Em 2022, coordenou um segundo CRA verde maior para Caramuru , elevando seus honorários totais para cerca de R$ 13 milhões (£ 2,1 milhões). 

A primeira emissão da Caramuru levantou dinheiro para comprar soja de 310 fornecedores, listados nos documentos do CRA – entre eles Galvan e seu filho, Albino Galvan Neto. O escritório de finanças sustentáveis ​​Resultante aprovou o CRA 2021 da Caramuru como “verde”, baseado na produção de biodiesel e no compromisso da Caramuru com a “produção agrícola sustentável”. 

A Galvan está longe de ser o único fornecedor potencial controverso na lista da Caramuru. Também inclui Werno Elger, produtor de soja processado por supostamente manter cinco homens em condições análogas à escravidão no município de Aporé, no estado de Goiás. Os trabalhadores foram resgatados em abril de 2021, cinco meses antes da emissão do CRA da Caramuru, por uma força-tarefa do governo federal. A investigação está em andamento.

Werno Elger, um produtor de soja processado por supostamente manter trabalhadores em condições análogas à escravidão, foi listado pela Caramuru como destinatário pretendido do dinheiro verde do CRA. Acima, alojamento dos trabalhadores. Foto: Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil

Entre os trabalhadores estavam meninos de 14 e 17 anos que, segundo os inspetores, passavam os dias arrancando raízes e pedras do solo e pesando sacos de 30 kg. Viviam no local, em alojamento descrito pelos fiscais como “um barraco antigo, anteriormente utilizado como armazém de selaria, totalmente vazio e em péssimo estado de conservação e higiene […] em completo desrespeito às regras de segurança, saúde e higiene na zona rural”. trabalhar.” 

O advogado de Elger rejeitou veementemente as acusações, dizendo por e-mail que “o processo ainda está sendo investigado, não sendo possível falar em condenação ou responsabilidade do Sr. Werno Elger”. 

Também está na lista de fornecedores pretendidos da Caramuru Ana Cláudia Borges de Almeida Coelho, dona das empresas do agronegócio mato-grossenses Uberê Agropecuária e Agropecuária Atlas. Em 2021, a Secretaria do Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema) multou Coelho em R$ 11,2 milhões (£ 1,7 milhões) por, entre outras coisas, cultivar grãos e criar milhares de gado em 17 quilômetros quadrados de floresta amazônica que foram desmatados ilegalmente por seu proprietário anterior. Marcelo Vercesi Coelho, marido e sócio de Ana Cláudia, disse ao Unearthed Sema que o autorizou a usar a área para agricultura. 

Karine Becker Wessner, outra agricultora mato-grossense listada pela Caramuru, também foi processada por cultivar soja em área desmatada ilegalmente . Wessner resolveu o caso assinando acordo com o Ministério Público Federal. 

Outro destinatário pretendido do dinheiro “verde” da Caramuru é acusado de grilagem de terras e intimidação de pequenos agricultores na Amazônia. A Polícia Federal apontou José Romanzzini como um dos líderes de um programa sistemático de “apropriação indébita de terras públicas, violência contra assentados, ameaças, expulsão e reconcentração de lotes” no assentamento Itanhangá/Tapurah, no Mato Grosso. Itanhangá/Tapurah é um dos maiores assentamentos de reforma agrária do Brasil, que visa aliviar a pobreza rural e, ao mesmo tempo, ajudar a proteger a Amazônia do avanço do agronegócio, concedendo lotes a pequenos agricultores e pessoas que vivem da coleta de frutas e nozes da floresta .

Relatórios policiais alegam que Romanzzini e outros tentaram expulsar as famílias assentadas, destruindo as suas colheitas e ameaçando-as com violência e até morte. Os relatórios acrescentam que depois que Romanzzini e seus comparsas tomaram as terras, eles desmataram pelo menos 80% da floresta. Uma decisão liminar em uma ação judicial decorrente das reportagens proibiu Romanzzini de entrar na área do assentamento, mas ainda aguarda decisão final.

Nem Romanzzini nem Wessner responderam a um pedido de comentário.

Em seu Relatório de Sustentabilidade 2022 , a Caramuru afirma que monitora a conformidade ambiental de todos os seus fornecedores e não negocia com pessoas da “lista suja” do trabalho escravo do Ministério do Trabalho do Brasil. Werno Elger não está na lista, mas seu filho e sócio, Vanderlei Elger, está 

Alojamento dos trabalhadores na fazenda de Elger. O advogado de Elger disse ao Unearthed que eles rejeitaram quaisquer alegações de irregularidades. Foto: Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil

Em comunicado enviado por e-mail, a Caramuru disse que, em última análise, não comprou soja de todos os fornecedores listados com o dinheiro do CRA e que seus procedimentos internos de due diligence teriam impedido o comércio com produtores com quaisquer violações socioambientais. Contudo, não negou ter comprado soja dos fornecedores listados acima.

“Embora o prospecto inclua uma extensa lista de fornecedores, não é fato que a Caramuru tenha comprado soja de todos eles. A cada compra, a Caramuru verifica a procedência dos locais de origem. Portanto, é possível afirmar que a soja não foi adquirida em locais com problemas de desmatamento ilegal ou grilagem de terras, nem em fazendas com trabalho análogo ao escravo.” A resposta completa de Caramuru pode ser vista aqui 

Incêndios na Amazônia, tragédia indígena por trás dos títulos verdes

Em maio, a Uisa, um dos maiores produtores de etanol e açúcar do mundo, emitiu um CRA verde de R$ 150 milhões (£ 24 milhões) coordenado pelo Santander . A empresa – que mudou seu nome de Usina Itamarati em 2019 após ser comprada por um fundo de private equity  supostamente fornece açúcar à Coca Cola. 

O Santander recebeu cerca de R$ 3,8 milhões (£ 604.000) em taxas pela venda de títulos CRA da Uisa a investidores. 

Segundo os documentos do CRA, o dinheiro será utilizado na compra de cana-de-açúcar a cinco agricultores, para produção de energia e biocombustível. Isso foi suficiente para que o título ganhasse um rótulo verde – apesar das dezenas de multas ambientais impostas à Uisa ou à Usina Itamarati, mais recentemente por atearem fogo a 17 quilômetros quadrados de floresta amazônica no ano passado. 

Um fornecedor da Uisa é Altair Nodari, produtor processado pelo Ministério Público de Mato Grosso por desmatar nove quilômetros quadrados em Porto Estrela, Mato Grosso, de 2018 a 2020. Por e-mail, o advogado de Nodari disse que contestava as acusações e que a liberação estava em andamento. atendimento ao Código Florestal Brasileiro. Ela acrescentou que a investigação estava em andamento.

desmatamento

A Uisa – ou Usina Itamarati, como era chamada na época – também foi responsável pelo vazamento de vinhaça, subproduto tóxico da produção de etanol, em um rio que margeia a Terra Indígena Umatina, no Mato Grosso 

O líder indígena Cacildo Amajunepa disse ao Unearthed que seu povo sempre viveu do rio Bugres, mas em julho de 2007 o rio escureceu e começou a cheirar mal. Milhares de peixes mortos flutuaram para a superfície.

“Nunca pensamos que experimentaríamos algo assim”, disse Amajunepa. “Você ganha a vida lá e de repente não tem mais nada.”

Segundo o Ministério Público de Mato Grosso , seis dias se passaram até que a empresa notificasse as autoridades locais sobre o acidente. Entretanto, “nenhuma acção foi tomada em benefício do ambiente”.

Está em andamento uma ação judicial visando indenização aos povos indígenas e outras pessoas afetadas pelo derramamento . Em abril de 2023, a empresa ofereceu uma indenização de R$ 2 milhões (£ 322 mil), que o Ministério Público Federal de Mato Grosso (MPF-MT) considerou inadequada. 

Segundo Paulo Augusto Mario Isaac, antropólogo aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso que escreveu um relatório de 2017 sobre o acidente anexado à ação contra o Itamarati , a comunidade não conseguiu beber a água do rio durante um ano inteiro e não pôde pescar por dois anos. Ainda hoje o seu rendimento é menor do que antes do acidente. Muitos indígenas, que dependiam da pesca para obter renda, tiveram que abandonar suas aldeias para trabalhar na cidade ou nas fazendas próximas. 

Uisa não quis comentar a investigação.

Wijeratna, da Mighty Earth, argumenta que o papel dos bancos como intermediários nestas transações não os isenta da responsabilização pelos seus impactos. 

“Se eles estão trazendo esses títulos para o mercado e os vendendo, eles deveriam ter alguma responsabilidade legal pelos abusos dos direitos humanos e pelo desmatamento que acontecem no terreno”, disse ele ao Unearthed . 

O CRA verde da Uisa será usado para comprar cana-de-açúcar de cinco agricultores para produzir energia e biocombustível, segundo documentos do CRA. Foto: Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Tanto o UBS BB Investment Bank quanto o Banco Santander (Brasil) SA estão sujeitos às políticas de risco ambiental e social de suas controladoras na Suíça e na Espanha, respectivamente. O Santander lista uma série de situações que precisam de “atenção especial”, incluindo “atividades com impacto em florestas tropicais, savanas tropicais e biomas de savana ou localizadas em geografias de alto risco” e “risco de desmatamento com clientes do agronegócio no bioma Amazônia”. Não especifica o que significa “atenção especial”, exceto para dizer que “é realizada uma análise detalhada”. 

Um porta-voz do Santander disse ao Unearthed que os CRAs são regulamentados pela CVM e que o banco pode atuar como estruturador e distribuidor desses títulos e também como investidor. 

“Para que um CRA seja classificado como verde ou sustentável quando emitido para o mercado, ele deve cumprir os Princípios de Títulos Verdes da ICMA e exigir uma validação independente de segunda parte. O Santander possui fortes processos de governança para garantir que os padrões de mercado exigidos sejam cumpridos”, afirmou o banco.

O UBS compromete-se a “não fornecer conscientemente serviços financeiros ou de consultoria aos clientes” associados a danos a florestas de alto valor de conservação, trabalho infantil e trabalho forçado, entre outras coisas. O banco suíço também tem uma política para o setor da soja: “as empresas que produzem soja em mercados com alto risco de desmatamento tropical” devem ser membros ou comprometer-se publicamente com a Mesa Redonda sobre Soja Responsável (RTRS) ou normas semelhantes. 

Um porta-voz do UBS disse que eles “aplicam as diretrizes de todo o Grupo sobre sustentabilidade e riscos climáticos. Essas diretrizes nos ajudam a identificar e abordar possíveis efeitos adversos sobre o clima, o meio ambiente e os direitos humanos, bem como os riscos associados a eles para nossos clientes e para o UBS.”

 “Apoiamos nossos clientes em sua transição para a meta líquida zero e não fornecemos serviços financeiros ou de consultoria a empresas cuja atividade comercial principal esteja associada à extração ilegal de madeira ou florestas de alto valor de conservação”, disse o comunicado, acrescentando que eles não comentam no relacionamento com clientes.

Investidores miram no Cerrado

No total, a Uisa arrecadou quase R$ 595 milhões (£ 95 milhões) por meio de quatro emissões CRA em 2021 e 2023, das quais apenas uma era verde. Todas utilizaram terras rurais como garantia, totalizando pelo menos 192 quilômetros quadrados em 35 propriedades localizadas em Mato Grosso, ou seja, em caso de falência da empresa, as terras seriam vendidas e os recursos repassados ​​aos investidores, após os custos. 

O uso de terras como garantia e a criação de Fiagros, fundos de investimento no agronegócio, estiveram entre as medidas legislativas empreendidas no governo do presidente Bolsonaro. Eles ajudaram as CRAs, originalmente criadas em 2004 , a finalmente decolarem — com taxas de crescimento de 60% em 2021 e 70% em 2022, segundo Uqbar.

Matopiba é a nova fronteira do agronegócio brasileiro, aumentando rapidamente o desmatamento no crucial e ameaçado bioma Cerrado. A SLC Agrícola possui 10 fazendas de grande porte na região. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

As leis “aproximaram ativos reais, como terra, água e serviços ambientais, dos ativos financeiros”, disse Larissa Parker, advogada socioambiental da Grain, organização sem fins lucrativos que apoia pequenos agricultores e movimentos sociais.

Fábio Pitta, pesquisador de Harvard e da Universidade de São Paulo (USP), disse ao Unearthed que a entrada do agronegócio brasileiro no mercado financeiro fez com que os preços das commodities subissem no mercado futuro, com consequências diretas para o desmatamento e a apropriação de terras no terreno. 

“A empresa quer ampliar a produção para aproveitar esses preços. Então eles contraem grandes dívidas e prometem expandir, mas para isso precisam abrir novas áreas”, disse Pitta, que passou anos pesquisando o papel dos investidores estrangeiros na destruição do Cerrado, o bioma de savana ecologicamente único do Brasil, e o impactos em suas comunidades tradicionais.

Essa expansão está acontecendo principalmente em uma área do Cerrado conhecida como Matopiba, nos quatro estados por onde se estende: Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Historicamente uma região empobrecida e relativamente subdesenvolvida, Matopiba está sendo rapidamente transformada na mais nova fronteira do agronegócio do país por fazendas que cultivam soja, algodão e milho em uma escala quase inimaginável.

“A lei permite desmatar muito mais no Cerrado do que na Floresta Amazônica, [e] você tem áreas planas, propícias à mecanização e com acesso à água”, disse Pitta, que também coordena um grupo de organizações que trabalham em direitos à terra. problemas.

Localizado no Norte e Nordeste do Brasil, o Matopiba foi responsável por 61% (5.227 km2) de todo o desmatamento do Cerrado de agosto de 2020 a julho de 2021, segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, Ipam . O bioma é um sumidouro de carbono crucial, fundamental para o abastecimento de água do continente e para a estabilização climática. É a savana mais rica do mundo, concentrando 5% da biodiversidade vegetal e animal do mundo. Mas está pouco protegida – os agricultores podem desmatar até 80% das suas propriedades em algumas partes – e quase metade da sua área já foi perdida para o agronegócio. 

Nesse processo, as comunidades tradicionais do Cerrado são expulsas de suas casas. Matopiba tem um dos maiores índices de conflitos por terra e água do Brasil, segundo a CPT, que monitora essas questões. 

“A entrada de capital estrangeiro trouxe dinheiro para financiar o desmatamento e tornou mais intensa a grilagem de terras”, disse Altamiran Ribeiro, agente da CPT no Piauí.

Uma empresa com uma estratégia de expansão particularmente agressiva na região é a SLC Agrícola, fornecedora da Cargill, que possui 23 fazendas em 7 estados, incluindo 10 operações de grande escala no Matopiba. A Chain Reaction concluiu que a SLC Agrícola foi a maior desmatadora do Cerrado em 2020, desmatando 101,5 quilômetros quadrados (39 milhas quadradas) de vegetação nativa. Uma investigação de 2020 da Unearthed e da TBIJ encontrou mais de 210 quilômetros quadrados de desmatamento registrados nas fazendas da SLC Agrícola de 2015 a 2020. Desde 2012, também conta com uma subsidiária, a SLC Land.Co, especializada na compra , desmatamento e venda de terras em Matopiba. 

Em dezembro de 2020, mesmo ano em que a SLC supostamente desmatou mais terras do Cerrado do que qualquer outra entidade, a empresa conseguiu arrecadar R$ 480 milhões (£ 76 milhões) por meio de um CRA “verde , graças ao Santander. O dinheiro será investido  “projetos diretamente ligados à redução das emissões de gases de efeito estufa”, como a “expansão de práticas agrícolas digitais e de baixo carbono”. O CRA é apoiado por 55 mil toneladas de algodão, a serem produzidas em 48 fazendas em seis estados brasileiros, incluindo Maranhão, Bahia e Piauí, no Matopiba.

A SLC Agrícola disse em 2020 que iria parar de desmatar no Cerrado, mas que ainda planejava desmatar terras ainda naquele ano . Incêndios foram detectados em uma de suas fazendas em 2021. Por email, a SLC Agrícola informou que deixou de abrir novas áreas antes do final de 2020 e que os incêndios detectados desde então tiveram causas naturais ou podem ter origem em propriedades vizinhas. Leia a resposta completa aqui .

Para obter o rótulo verde, o CRA deve ser verificado externamente. Apesar do histórico da SLC Agrícola, a consultoria Resultante concluiu que a empresa possui“práticas de gestão consolidadas e integração de questões ambientais, sociais e de governança corporativa”. 

“Tenho visto opiniões de segundas partes que passam por títulos verdes com muito pouco escrutínio, pelo que podem ser muito perigosos”, disse Wijeratna. “Assim que você obtiver a opinião da segunda parte, isso é tudo de que você precisa para obter o financiamento.”

A KPMG, que comprou a Resultante em 2022, disse que estas verificações aconteceram antes da aquisição, pelo que não pôde comentar.

Os três CRAs verdes da SLC Agrícola, Caramuru e Uisa também afirmam atender às diretrizes da Climate Bonds Initiative (CBI) ou aos Green Bond Principles (GBP), das Associações do Mercado de Capitais (ICMA). Mas nenhum destes órgãos tem autoridade para monitorizar se as reivindicações das empresas em torno da sustentabilidade estão realmente a ser cumpridas. 

“Não há responsabilidade atribuída. Não há ninguém que faça cumprir e verifique as reivindicações feitas nos CRAs, e essa é a grande falha”, disse Wijeratna. “Se estes tipos de mecanismos financeiros estão a facilitar violações dos direitos humanos e a desflorestação, então precisam de ter uma regulamentação muito mais forte.” 


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Unearthed [Aqui!].

Tsulama da Mineradora Samarco: DPU e instituições pedem condenação no valor de R$ 100 bilhões por dano moral coletivo

Desastre ambiental e social na Barragem do Fundão completa 8 anos em 5 de novembro

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A Defensoria Pública da União (DPU), a Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais (DPE/MG) e do Espírito Santo (DPE/ES), o Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MPMG) e do Espírito Santo (MPES) e o Ministério Público Federal (MPF) protocolaram uma petição solicitando o julgamento antecipado parcial de mérito e a condenação das empresas Vale, BHP e Samarco em dano moral coletivo no valor de R$ 100 bilhões.

Essa quantia equivale a 20% do lucro líquido obtido pela Vale e da BHP nos últimos três anos. Além do dano coletivo, também foi solicitado o reconhecimento dos danos individuais homogêneos, de modo a estabelecer o direito das vítimas atingidas pelo desastre.

Na petição, apresentada na 4ª Vara Federal Cível e Agrária de Belo Horizonte na última segunda-feira (16), as instituições argumentam que, passados quase oito anos desde o desastre ambiental, foram produzidas diversas provas no curso do processo e há elementos suficientes para o reconhecimento dos pedidos, que são incontroversos. Além disso, ressaltam que o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), resultou em uma grave contaminação devido à liberação de uma grande quantidade de resíduos de mineração.

“Esse incidente causou danos significativos aos ambientes natural, urbano, cultural e paisagístico. Como resultado, também provocou diversos prejuízos socioeconômicos à coletividade e a milhares de pessoas naturais, físicas e jurídicas em várias áreas afetadas, incluindo comunidades e povos tradicionais”, afirmam na petição.

O documento enfatiza ainda que as empresas têm capacidade econômica para arcar com as indenizações. Apenas nos últimos três anos, a BHP e a Vale obtiveram, conjuntamente, um lucro líquido declarado de aproximadamente R$ 500 bilhões, sendo que cerca de R$ 355 bilhões foram distribuídos como dividendos aos acionistas.

Pela Defensoria Pública da União (DPU), assinam o documento o defensor regional de Direitos Humanos da DPU do Espírito Santo (DRDH/ES), Frederico Aluísio Carvalho Soares, e o defensor regional de Direitos Humanos da DPU de Minas Gerais (DRDH/MG), João Márcio Simões.

Leia a petição na íntegra.

Sobre o incidente em Mariana

O rompimento da Barragem do Fundão, ocorrido em 2015, em Mariana (MG), completará oito anos em 5 de novembro. Esse incidente, considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil, resultou em 19 mortes e causou o despejo de 44 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. A lama contaminou toda a extensão da bacia hidrográfica do Rio Doce e parte do litoral capixaba, afetando municípios nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, onde se encontra a foz do rio.

Ao todo, foram atingidos, de forma direta ou indireta, 49 municípios, com um contingente populacional de 2.449.419 pessoas.

Hospital bombardeado em Gaza e a pergunta que não quer calar: quem tem a capacidade militar para tal destruição?

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As cenas de horror vindas do Hospital al-Ahli al-Arabi  na cidade de Gaza impressionam pela letalidade da explosão que ceifou a vida de pelo menos 500 pessoas, incluindo uma grande quantidade de mulheres e crianças.  O governo  israelense que inicialmente reclamou para si o bombardeamento, agora tenta jogar a culpa nas costas do grupo Jihad Islâmica que teria cometido um erro e lançado para a área do hospital  um foguete que era destinado para Israel.

O presidente dos EUA, Joe Biden, comprou a versão do governo israelense e teria afirmado que a explosão seria responsabilidade do “outro time”, em uma espécie de metáfora esportiva macabra destinada a culpar os palestinos pelo incidente mortal.

O problema para o governo de Israel e seus aliados estadunidenses tem a ver com a escala de destruição que foi imposta ao edifício que abrigava o hospital al-Ahli al-Arabi, pois os grupos palestinos não são possuidores de armamentos capazes de tamanha destruição. Se esse fosse o caso, a escala de destruição dentro de Israel já seria muito maior do que é.

Mas como em guerras a primeira vítima é a verdade, certamente teremos nos próximos dias uma onda de matérias jornalísticas confirmando a tese israelense. Mas aí que aparece a questão: qual lado deste conflito que tem a capacidade militar para tamanha destruição?

Fogo descontrolado na Amazônia ameaça ganhos ambientais e proteção do bioma

Incêndios se tornam principal fator de degradação da floresta e ação coordenada é urgente para eliminar riscos, avaliam pesquisadores
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Em artigo publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution nesta terça-feira (16), pesquisadores do Brasil e do exterior alertam que os incêndios se tornaram o principal fator de degradação da Amazônia brasileira, passando a ameaçar ganhos ambientais na proteção do bioma, como a efetividade do PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal).

O grupo de cientistas recomenda esforços “urgentes e coordenados” para eliminar os riscos do fogo descontrolado, incluindo a cooperação e apoio internacional em pesquisa e governança.

“Primeiro, é preciso entender o que levou ao aumento do fogo. Com mais dados em mãos, as políticas podem ter maior efetividade. Uma das hipóteses que consideramos para explicar a alta nos incêndios é a ocorrência de uma queima antecipada, aproveitando o início da estação seca amazônica, para evitar sanções mais severas no final do ano, quando teremos que lidar com os efeitos fortes e esperados do El Niño”, explica Paulo Moutinho, cientista sênior no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e um dos autores do artigo.

Apesar da queda de 42% registrada no desmatamento da Amazônia brasileira no primeiro semestre de 2023, na comparação com o mesmo período do ano passado, o fogo continuou subindo. De janeiro a julho deste ano, os focos de incêndio no bioma tiveram alta de 10,76% em relação a 2022.

Pela primeira vez, indicam os pesquisadores, o fogo parece se desassociar do desmatamento na região. Atividades que costumavam aparecer uma depois da outra nos indicadores, agora seguem rumo inverso.

“O fogo na Amazônia geralmente ocorre em áreas que foram desmatadas, ou seja, uma ilegalidade conectada à outra. Por isso, chamamos fogo de desmatamento. Além desse, há outros tipos de fogo característicos do bioma, como o fogo de manejo em pastagens. Mas o fogo de desmatamento era o mais comum, muitas vezes causando incêndios de grande proporção”, comenta Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM, também autora do texto.

Só 19% dos focos detectados pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), nos primeiros seis meses de 2023, estavam relacionados a desmatamentos recentes – uma queda, cita a publicação, comparada aos 39% registrados em 2022.

Além da ação humana, o contexto climático oferece condições para o aumento do fogo: um El Niño ativo, com efeitos de mais calor e mais seca, em retroalimentação com as mudanças climáticas, que têm como consequência a alteração de padrões e ciclos naturais, como o da chuva.

“O futuro da Amazônia sob as mudanças climáticas – mesmo se o desmatamento ilegal for zero – permanece pouco claro com as ameaças da emergência no clima, da seca e do fogo”, dizem os pesquisadores em um trecho. “As consequências da inação sobre o fogo na Amazônia e a desatenção aos tipos e causas do fogo são severas e devem ser evitadas”, ressaltam em outro.

Junto à articulação internacional, os autores indicam o comprometimento de países amazônicos para os avanços considerados necessários na gestão “equitativa e segura” contra os incêndios. Também sinalizam que a perda de vegetação nativa deve ser reduzida de maneira concomitante, bem como a transição de uma economia baseada em commodities agrícolas para uma bioeconomia sustentável.

Seca transforma Manaus em uma distopia climática

Os incêndios florestais deixam Manaus com a segunda pior qualidade do ar do mundo, enquanto os baixos níveis dos rios isolam as comunidades

Os rios são o único meio de acesso em muitas partes da Amazônia. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Por Jonathan Watts, em Manaus, para o “The Guardian”

Uma seca devastadora transformou a capital amazónica de Manaus numa distopia climática, com a segunda pior qualidade do ar do mundo e rios nos níveis mais baixos dos últimos 121 anos.

A cidade de 1 milhão de habitantes, cercada por uma floresta, normalmente se aquece sob o céu azul. Os turistas viajam em barcos de recreio para o encontro próximo dos rios Negro e Amazonas (conhecido localmente como Solimões), onde golfinhos podem ser vistos frequentemente desfrutando daqueles que são geralmente os recursos de água doce mais abundantes do mundo.

Mas uma estação seca incomum, agravada pelo El Niño e pelo aquecimento global provocado pelo homem, ameaça a imagem da cidade, o bem-estar dos seus residentes e as perspectivas de sobrevivência de toda a bacia amazônica.

A capital das florestas foi envolta numa névoa castanha escura que lembra a China durante a sua fase mais poluída. O porto geralmente vibrante foi empurrado para longe, através das planícies lamacentas secas e cobertas de lixo. 

Um homem observa barcos ancorados no porto de Rio Negro enquanto a fumaça dos incêndios na floresta amazônica cobre a área de Manaus

Na semana passada, monitores da qualidade do ar registaram 387 microgramas de poluição por metro cúbico, como resultado da névoa de fumo dos incêndios na floresta amazónica. 
Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Há tantos incêndios na floresta seca que circunda Manaus que os monitores da qualidade do ar registaram na semana passada 387 microgramas de poluição por metro cúbico, em comparação com 122 na capital económica do Brasil, São Paulo. A única cidade no mundo com pior desempenho foi um centro industrial da Tailândia.

Uma recente primeira página do jornal A Crítica mostrou uma fotografia do porto  de  Manaus atingido pela seca sob o título “Saúde em perigo” e uma reportagem sobre os desafios de garantir medicamentos e recursos essenciais numa altura em que os navios de mercadorias não podiam navegar pelo rio. “A Amazônia ferve” dizia a reportagem principal da revista Cenarium, que destacou o calor incomumente alto e a baixa umidade que criaram condições perigosamente secas na floresta.

A seca afetou áreas do Brasil. O estado do Amazonas registrou 2.770 incêndios durante a atual estação seca, que a mídia local disse ter sido o maior já registrado.

Embora fossem esperadas mais secas e incêndios do que o habitual em anos de El Niño como este, os serviços locais de combate a incêndios estavam mal preparados e mal equipados.

O secretário da cidade de Borba disse: “Se os municípios tivessem pelo menos a estrutura mínima instalada, poderíamos ter evitado muitos problemas”.

Jane Crespo, secretária de Meio Ambiente de Maués, uma comunidade a 250 quilômetros de Manaus, disse: “Alguns municípios não têm água suficiente para apagar os incêndios”. 



Casas flutuantes e barcos encalhados na Marina do Davi, ancoradouro do rio Negro, em Manaus.
Casas flutuantes e barcos encalhados na Marina do Davi, ancoradouro do rio Negro, em Manaus. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Os rios são o único meio de acesso em muitas partes da Amazônia. À medida que os seus níveis diminuíram, algumas comunidades foram isoladas, levantando preocupações de um desastre humanitário. Em outros lugares, a navegação só é possível por meio de pequenas embarcações, o que encarece o transporte. Em Tabatinga, Benjamin Constant e Atalaia do Norte, as pessoas reclamam que os produtos estão ficando mais caros.

A produção industrial também foi afetada pela falta de abastecimento, ameaçando a economia de Manaus e a sua reputação como zona de livre comércio. As autoridades do estado do Amazonas convocaram uma reunião de emergência para discutir a crise climática regional e apelaram ao governo federal por assistência.

Os lobistas da indústria rodoviária estão a utilizar a crise para pressionar por uma nova estrada pavimentada – a controversa BR 319 – que ligaria Manaus a Porto Velho. Os conservacionistas da Amazónia alertam que isto seria um desastre para uma das últimas áreas remanescentes de floresta intacta e de importância global.

O impacto sobre outras espécies será provavelmente devastador. Além das mortes em massa de golfinhos de rio ameaçados de extinção , inúmeras outras espécies provavelmente sofrerão mortalidade. A micologista Noemia Ishikawa, radicada em Manaus, disse ter notado uma ausência quase total de cogumelos nos campos.

Homens carregam produtos no porto de Rio Negro enquanto a fumaça dos incêndios na floresta amazônica cobre a área de Manaus
O porto de Rio Negro está coberto pela fumaça dos incêndios na floresta amazônica. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Philip Fearnside, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisa Amazônica, alertou que a floresta tropical está se aproximando de um ponto de declínio irreversível à medida que as estações secas se prolongam, juntamente com mais dias de calor extremo e sem chuva.

A somar aos riscos está uma crescente população humana que está a converter mais florestas em pastagens, que são regularmente queimadas. Fearnside disse que: “Todas as mortes de árvores causadas por esses processos podem contribuir para iniciar um ciclo vicioso, onde a madeira morta deixada na floresta serve como combustível para incêndios florestais, que têm maior probabilidade de começar e se espalhar e são mais intensos e prejudiciais se ocorrerem.

“Incêndios repetidos podem destruir totalmente a floresta. Além dos pontos críticos em termos de temperatura e duração da estação seca, há também um ponto crítico devido à perda de floresta além de um certo limite, que também se acredita estar próximo.”

Breves períodos de chuva rio acima nos últimos dias aumentaram as esperanças de que a estação seca possa estar chegando ao fim, mas os meteorologistas dizem que é muito cedo para prever isso com alguma confiança. No entanto, as tendências climáticas tornam quase certo que esta seca não será um recorde durante muito tempo.


Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].