Conversamos com o professor do Departamento de Química da UFPR sobre os estudos que coordena com o objetivo de entender pontos de encontro e desencontro entre o ciclo do ferro e o combate da crise climática
Marco Tadeu Grassi adiantou na SBPC informações sobre os estudos do ciclo biogeoquímico no mar da Baía do Almirantado, na Antártica. Foto: Leo Bettinelli/Sucom-UFPR
Por Camile Bropp para o Ciência UFPR
Entre os ciclos biogeoquímicos essenciais para o meio ambiente, o do ferro talvez seja o menos conhecido. Apesar disso, é um tema relevante entre as questões relacionadas à emergência climática desde o fim da década de 1990. Isso porque a quantidade de ferro nos mares é um fator determinante na população de fitoplâncton, o conjunto de microalgas e cianobactérias que, por fazerem fotossíntese, ajudam a retirar dióxido de carbono da atmosfera, para a qual liberam oxigênio. Por conta dessa dinâmica, muitas teses têm sido formuladas — algumas polêmicas — a respeito de qual papel o ferro poderia ter em planos de mitigação da crise climática.
Uma das linhas de pesquisa do Grupo de Química Ambiental (GQA) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) trata de investigar aspectos do ciclo biogeoquímico do ferro nos mares da Antártica. A escolha tem sua razão de ser, isto é, o fato de o antártico ser ainda um ecossistema com poucas interferências — apesar dos pesares.
“Como estamos falando de uma região bastante remota, é pouco provável que o ferro disponível no oceano austral venha de outras regiões do planeta, sendo ele próprio a principal fonte de ferro, majoritariamente”, afirma o professor Marco Tadeu Grassi, coordenador do grupo no Departamento de Química da UFPR.
Grassi coordena outro projeto de pesquisa que busca estudar o comportamento biogeoquímico do ferro no Complexo Estuarino de Paranaguá, região no litoral do Paraná com áreas de Mata Atlântica, baías e manguezais. O objetivo é avaliar a influência das mudanças climáticas sobre os sistemas naturais por meio do que se percebe nos ciclos do ferro e do cobre.
Agora, a intenção é entender o que ocorre na Baía do Almirantado, localidade onde estão a maioria das estações de pesquisa na Antártica.
Nesta quarta-feira (26), das 9h30 às 11 horas, Grassi adianta informações sobre os estudos na Antártica na sua conferência pela 75ª Reunião Anual da SBPC no Anfiteatro 12 do Setor de Ciências Biológicas da UFPR, no Centro Politécnico, em Curitiba (veja aquia programação científica completa).
O que a Antártica significa para estudos do meio ambiente? Cientificamente, ela representa mais do que um continente inóspito e distante?
A Antártica é muito importante para estudos sobre o meio ambiente. Pelas suas características peculiares, que incluem condições climáticas extremas e baixíssimas temperaturas, toda a região permanece bastante preservada, uma vez que o território é o único continente não habitado do nosso planeta.
Fitoplâncton é a comunidade de microalgas e cianobactérias que fazem fotossíntese nos mares e oceanos. Na foto, colônia de diatomáceas do gênero Thalassiosira registradas no mar da Antártica. Foto: Luca Santangeli/EMBL Heidelberg/Commons
Por conta destas características o continente tem uma importância enorme na compreensão de toda a história do planeta, assim como de inúmeros fenômenos que ocorrem na natureza.
Por exemplo, sabemos hoje que a região funciona como um “refrigerador” que ajuda a regular a temperatura da Terra. Foi na Antártica que se detectou pela primeira vez o buraco na camada de ozônio. Além disso, o espesso manto de gelo que existe sobre a placa continental aprisiona microbolhas de ar que guardam um registro histórico sobre a composição e as características da atmosfera terrestre.
A região da Baía do Almirantado tem alguma particularidade que a faz ser tão pesquisada?
A Península Antártica, onde se encontra a Baía do Almirantado, abriga uma variedade de pássaros e mamíferos. Como dito antes, a região pode ser considerada uma das poucas áreas relativamente preservadas do nosso planeta.
Ela é constituída de sistemas ecológicos sensíveis a mudanças ambientais ocorridas tanto em escala local quanto global, principalmente aquelas relacionadas às mudanças climáticas.
Nesse sentido, alterações na quantidade de gelo marinho, no aporte de material proveniente das áreas continentais, decorrentes do aquecimento global, podem provocar mudanças envolvendo constituintes importantes de todo este ecossistema subantártico.
Na baía encontram-se cinco estações científicas de diferentes países, incluindo a estação de pesquisa brasileira. Nas proximidades localizam-se também quase uma dezena de outras estações de pesquisa.
Devido a estes aspectos, entre outros, a Baía do Almirantado desperta um grande interesse na comunidade científica que trabalha na Antártica, representando praticamente um laboratório onde diferentes projetos acabam sendo desenvolvidos.
O que a biogeoquímica do ferro é capaz de apontar sobre a situação ambiental de um lugar? Existe diferença, em termos de conclusões a que se pode chegar, entre medir esse ciclo na água e no solo?
Apesar de ser um dos elementos mais abundantes na crosta terrestre e de ser encontrado em grandes quantidades nos constituintes minerais do solo, o ferro é o micronutriente limitante da fotossíntese em águas marinhas, onde suas concentrações são extremamente baixas.
É sua disponibilidade que determina a extensão da produção e do crescimento de microalgas, que representam a base de toda a cadeia alimentar nos oceanos. A fotossíntese também é importante na fixação de dióxido de carbono, um dos principais gases do chamado efeito estufa.
Como estamos falando de uma região bastante remota, é pouco provável que o ferro disponível no oceano austral venha de outras regiões do planeta, sendo ele próprio a principal fonte de ferro, majoritariamente.
No caso do mar da Antártica, por quais mudanças ele tem passado quanto ao ciclo biogeoquímico estudado? O que isso significa?
Como o mar se congela durante o inverno, acredita-se que este oceano congelado possa ser a fonte dominante de ferro para as águas polares quando ocorre o derretimento do gelo, nos períodos mais quentes. Este processo contribui com a fertilização das águas da região, impulsionando a chamada “bomba biológica”, a partir da fotossíntese.
Nesse contexto, nossos estudos têm como objetivo aprofundar o conhecimento sobre como todo esse processo ocorre, de forma a elucidar questões relacionadas com as fontes de ferro, assim como seu comportamento e papel no crescimento da comunidade fitoplanctônica, na medida em que estes organismos acabam contribuindo com a presença de outras substâncias químicas que são essenciais para todo o ecossistema antártico.
Este registro é importante também dado que toda a região subantártica tem se mostrado bastante sensível ao aumento de temperatura global, fator que pode gerar um desequilíbrio nos ecossistemas da região.
Ficará algum alerta da sua conferência?
O principal alerta da conferência está relacionado à necessidade urgente da adoção de medidas que visem a mitigação dos efeitos provocados pelo aquecimento global.
Nesse sentido, está mais do que evidente que alterações provocadas pelas mudanças climáticas podem ter consequência bastante graves não apenas para os ecossistemas subantárticos, como também para outras regiões, em especial para os países do Atlântico Sul, como é o caso do Brasil.
Esta entrevista faz parte de uma série de conversas da Ciência UFPR com conferencistas da Universidade Federal do Paraná que estão na programação da 75ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Curitiba.
O site especializado Agrolink divulgou hoje o resultado de uma pesquisa indicando que os gastos com agrotóxicos nas monoculturas de soja na safra 2022-2023 teriam alcançado estratosféricos US$ 11,4 bilhões (algo em torno de R$ 54,84 bilhões na cotação de hoje). Esse valor representaria uma elevação de 50% em relação à safra 2021-2022.
O Agrolink confirmou ainda algo conhecido que é o fato de que a parte substancial dos gastos com agrotóxicos no Brasil está concentrada em três monoculturas de exportação que são, respectivamente, soja, milho e cana-de-açúcar. Tal informação apenas reafirma o impacto das monoculturas de exportação sobre o uso intensivo de agrotóxicos no Brasil.
Por outro lado, os dados indicam que os maiores gastos estão concentrados nos herbicidas, sendo que este tipo de agrotóxicos representa 60% dos gastos realizados pelos agricultores, com forte participação de diferentes formulações de glifosato. Esse é um fato particularmente significativo, na medida em que o glifosato tem sido associado ao desenvolvimento de um tipo específico de câncer pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer (IARC), o chamado Linfoma de Non-Hodgkin.
O fato é que para além do enorme custo financeiro dos agrotóxicos, haveria que se considerar os impactos sociais e ambientais causados pela forte dependência das monoculturas de exportação em relação a este tipo de venenos agrícolas.
Dez pessoas foram mortas em favela do Rio e 19 pessoas morreram na Bahia, enquanto o número de mortos subiu para 16 na região de São Paulo
Policiais militares realizam operação contra o tráfico de drogas em favelas da zona norte da cidade, em outubro de 2022. Foto: Agência Anadolu/Getty Images
Por Constança Malleret no Rio de Janeiro para o “The Guardian”
Pelo menos 45 pessoas foram mortas em uma série de operações policiais em três estados brasileiros, em uma semana particularmente sangrenta até mesmo para o Brasil – um paísnotório por sua violência policial.
Dez pessoas foram mortas durante uma operação das polícias civil e militar contra traficantes de drogas na favela do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro , na manhã desta quarta-feira, com moradores afirmando que os tiros começaram às 3h.
No estado da Bahia,19 pessoas morreram entre sexta e segunda-feira em confrontos com a polícia militar na capital do estado, Salvador, e nas cidades vizinhas de Camaçari e Itatim.
A Bahia e o Rio de Janeiro abrigam a segunda e terceira forças policiais mais letais do Brasil, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Enquanto isso, as autoridades estaduais de São Paulo confirmaram na quarta-feira que o número de mortos em uma operação policial em andamento na região da Baixada Santistasubiu para 16, tornando esta uma das operações mais mortais já realizadas pela polícia de São Paulo.
Batizada de Operação Escudo, a mobilização de cerca de 600 policiais foi motivada pelo assassinato, na última quinta-feira, de um policial no Guarujá. Um último suspeito de envolvimento na morte de Patrick Bastos Reis, integrante da unidade tática Rota da Polícia Militar, foi preso na madrugada desta quarta-feira. A polícia diz ter prendido 58 pessoas até agora e apreendido 400 quilos de entorpecentes, além de 18 armas.
Organizações de direitos humanos denunciaram as ações da polícia na Baixada Santista como um massacre motivado por vingança, enquanto moradores relataram ameaças e casos de tortura.
“O que aconteceu no Guarujá foi um massacre. As mortes foram deliberadas. […] O estado de São Paulo precisa conter essa onda de violência”, disse Dimitri Sales, presidente do conselho estadual de defesa dos direitos humanos (Condepe), à emissora GloboNews.
O governador do estado, Tarcísio de Freitas, defendeu a polícia, dizendo que agiu em resposta a ataques de criminosos e descartando relatos de abusos como uma “narrativa”. A Operação Escudo, supostamente um esforço para combater o narcotráfico na região, deve durar até o final de agosto.
A alegação das autoridades de que todas as vítimas são supostos criminosos que morreram em confrontos com a polícia foi contestada por especialistas em direitos humanos e segurança, que exigem que as ações da polícia sejam cuidadosamente examinadas.
“É extremamente preocupante que o governador e o secretário de segurança declarem que não houve abusos [dos direitos humanos] antes mesmo de uma investigação ser realizada … [Isso] é efetivamente um endosso de práticas arbitrárias”, disse Oscar Vilhena, advogado e membro do Comissão Arns, uma organização de direitos humanos.
As forças policiais militares estaduais do Brasil são notoriamente violentas e muito mais mortais do que suas contrapartes civis. A volta de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder em janeiro despertou a esperança de uma reforma, mas especialistas em segurança pública dizem queum projeto de lei recentemente aprovado por uma comissão do Senado não tratará de questões cruciais de segurança pública, como câmeras corporais policiais.
Em São Paulo, o uso de câmeras corporais pela polícia militar tem sido amplamente creditado por ajudar a reduzir a violência cometida por e contra a força. Mas os assassinatos cometidos pela polícia de São Paulo aumentaram sob Tarcísio Freitas , um aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro que adota um discurso de segurança linha-dura e questionou a política de câmeras corporais.
Os últimos assassinatos podem marcar um “ponto de inflexão” para a segurança pública no maior estado do Brasil, de acordo com David Marques, coordenador do projeto no Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Essa mudança está ligada a um discurso político que valoriza [a violência], que diz que a polícia deve usar a violência para controlar a violência e o crime organizado”, afirmou.
Este artigo escrito originalmenteem inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].
Os presidentes que se reunirão nos dias 8 e 9 de agosto em Belém (PA) na Cúpula Amazônica – 4a Reunião dos Chefes de Estado das Partes do Tratado de Cooperação Amazônica – têm por missão chegar a uma visão comum de desenvolvimento sustentável para os povos que habitam o bioma. Para quase 300 líderes e especialistas de mais de 100 organizações dos nove países da Pan Amazônia, isso não é possível sem colocar a bioeconomia no centro de um novo modelo de desenvolvimento para a região.
“A floresta amazônica está perigosamente perto de seu ponto de colapso. Em algumas regiões, ela já se degradou. Ainda estamos em tempo de impedir a imensa perda de biodiversidade que isso acarretaria e promover as economias lideradas pelas comunidades, que são os atores principais de sua conservação. A próxima década será crucial para a sobrevivência – ou não – da floresta e do modo de vida e cultura de seus povos”, alerta Rachel Biderman, Vice-presidente Sênior para as Américas da Conservation International.
A rota para a implementação e fortalecimento da bioeconomia na Pan-Amazônia foi desenvolvida por um grupo de mais de 300 especialistas, que se reuniram em Belém no final de junho. Eles chegaram a um roteiro com nove eixos de ação, subdivididos em 31 recomendações, que foram entregues aos ministros presentes no encontro preparatório realizado em Letícia, na Colômbia. A expectativa agora é que a bioeconomia faça parte das metas estabelecidas pelo documento da Cúpula de Belém e venha a ser fortalecida com investimentos concretos dos nove países do bioma, onde vivem mais de 47 milhões de pessoas.
“A bioeconomia é a chave para desbloquear o potencial econômico da região, preservando seu patrimônio ecológico e, como tal, precisa estar no centro de qualquer plano de desenvolvimento sustentável e inclusivo da Amazônia. Precisamos preservar a Amazônia não só pelas consequências de uma eventual perda, mas também pelo que ela pode oferecer permanecendo viva”, explica Vanessa Pérez, Diretora Global de Economia do World Resources Institute.
O programa de trabalho proposto engloba uma série de elementos essenciais destinados a aproveitar o potencial da bioeconomia para salvaguardar a Amazônia e seus povos:
Estabelecer um compromisso conjunto para conservar a floresta amazônica: a declaração insta os governos participantes a se unirem e se comprometerem a conservar pelo menos 80% da floresta amazônica, reconhecendo sua importância para a estabilidade climática global e suas contribuições vitais para o bem-estar das comunidades.
Promover a bioeconomia como forma de proteger a Amazônia: evidências recentes destacam o potencial da economia como uma ferramenta poderosa para salvar a Amazônia e, ao mesmo tempo, fortalecer os meios de subsistência A conferência pede a priorização de práticas bioeconômicas sustentáveis como a pedra angular dos esforços de conservação ambiental.
Combater atividades ilícitas e aplicação do Estado de Direito: para garantir a viabilidade da bioeconomia, a conferência enfatiza a necessidade de os governos intensificarem os esforços para erradicar todas as atividades ilícitas na Amazônia. Fortalecer a repressão aos crimes contra a natureza e defender o estado de direito são passos cruciais para alcançar esse objetivo.
Proteger as terras dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais: preservar a rica biodiversidade da Amazônia e as áreas ricas em carbono depende da proteção e respeito às terras dos povos indígenas e comunidades tradicionais. A salvaguarda destes territórios é essencial para o património ecológico único da região.
Mudar as finanças públicas para incentivar uma bioeconomia próspera: os participantes da conferência pedem aos governos que redirecionem as finanças públicas para longe dos subsídios nocivos e priorizem incentivos que promovam cadeias de valor de bioeconomia prósperas e Essa transformação é vista como essencial para o crescimento sustentável do setor bioeconômico.
Reduzir requisitos legais desnecessários para as cadeias de suprimento da bioeconomia local: para facilitar o crescimento das cadeias de suprimento da bioeconomia local, a conferência pede que os governos adaptem e reduzam os requisitos legais desnecessários. Isso criará um ambiente favorável à inovação e ao empreendedorismo na região.
Tornar obrigatórias a transparência e a rastreabilidade de commodities para garantir que sejam livres de desmatamento: para combater o desmatamento, a conferência defende a implementação de medidas de transparência e rastreabilidade na produção e comércio de commodities. Isso ajudará a identificar e mitigar práticas que contribuem para a destruição da Amazônia.
Estabelecer uma plataforma de financiamento da bioeconomia Pan-Amazônica: os especialistas propõem a criação de uma Plataforma Ad-hoc de Financiamento da Bioeconomia Pan-Amazônica que priorize investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Essa plataforma impulsionará a pesquisa, o desenvolvimento e a implementação de iniciativas bioeconômicas sustentáveis.
Investir em infraestrutura sustentável e revitalizar rios: ao investir em infraestrutura sustentável, a conferência visa transformar as cidades da Amazônia em polos de inovação para a bioeconomia. Além disso, a restauração dos rios contribuirá para o equilíbrio ecológico e apoiará o desenvolvimento sustentável.
“A floresta amazônica está perigosamente perto de seu ponto de colapso. Em algumas regiões, ela já se degradou. Ainda estamos em tempo de impedir a imensa perda de biodiversidade que isso acarretaria e promover as economias lideradas pelas comunidades que são os atores principais de sua conservação. A próxima década será crucial para a sobrevivência – ou não – da floresta e do modo de vida e cultura de seus povos”, alerta Rachel Biderman, da Conservation International.
Os organizadores e participantes da conferência defendem que os diversos setores da sociedade, em especial as populações da Amazônia, sejam ouvidas e tenham suas necessidades contempladas na
Declaração da Cúpula da Amazônia. “O Programa de Trabalho sobre a Bioeconomia que Queremos não é apenas um slogan: é um chamado à ação para que todas as partes interessadas se unam e abracem um futuro que assegure uma bioeconomia próspera, preservando o inestimável patrimônio natural da floresta amazônica”, declara Vanessa Pérez.]
Sobre a Conferência de Bioeconomia da Panamazônia
A Conferência de Bioeconomia da Panamazônia reúne especialistas, formuladores de políticas e partes interessadas da região amazônica para promover práticas bioeconômicas sustentáveis e inclusivas. A conferência é uma plataforma para troca de conhecimento, discussão de desafios e formulação de soluções acionáveis para proteger a floresta amazônica e seu povo. Para o conjunto completo de recomendações transformadoras apresentadas na Conferência de Bioeconomia da Panamazônia, visite: https://amzbio.org/
Os estados do Pará e do Mato Grosso já concentram mais focos de calor este ano do que em 2022, o que torna o cenário preocupante. O fenômeno provoca alterações na temperatura da superfície do Oceano Pacífico e compromete o regime de chuvas na região(Foto: Bruno Kelly/Amazonia Real/2020).
Por Wérica Lima para a Amazônia Real
Manaus (AM) – O cenário de queimadas e devastação na Amazônia pode ser mais crítico este ano devido à potência do fenômeno climático El Niño, que provoca alterações na temperatura do Oceano Pacífico e compromete o regime de chuvas na região, dizem cientistas consultados pela Amazônia Real. O momento é preocupante porque os focos de calor de 2023, que somam 12.124 registros até o momento, já superam os de 2022, com uma diferença de 772. Uma das ações de prevenção para grandes desastres naturais é o relançamento do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) pelo governo Lula.
Em julho, começa a estiagem em grande parte da região Norte (com exceção de Roraima), estação conhecida como “verão amazônico”. Até outubro, o volume de chuvas cai drasticamente, resultando em tempo seco, que pode ser agravado com o aquecimento do Pacífico.
O Mato Grosso, um dos Estados mais devastados pelas queimadas desde 2019, continua liderando o primeiro lugar no ranking do Satélite de Referência do BDQueimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desde o início do ano até o mês de julho. A região concentra quase metade de todos os focos de calor do ano na Amazônia Legal, com 43,8% de todas as queimadas e um aumento de 20% com relação ao ano passado.
Em segundo lugar no ranking está o Pará, com 25,3% dos focos e, em terceiro, Roraima, um Estado que ganhou destaque nos últimos anos pela grilagem e garimpo e compõe 10,5% de toda a destruição, tomando a posição de anos anteriores do Amazonas, com uma diferença de 0,5%.
“Os Estados da Amazônia onde o número de focos de calor aumentou foram o Pará e o Mato Grosso. No Mato Grosso pode ser que haja uma relação mais próxima entre o desmatamento recente e as queimadas, visto que o estado foi o único onde o desmatamento aumentou comparado com o período anterior. Já no Pará houve uma redução do desmatamento e a área que tem apresentado focos de calor é uma área que aparentemente está queimando mais cedo do que o normal, o que pode indicar um efeito ainda precoce do El Niño”, afirma Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenadora da rede colaborativa Mapbiomas Fogo.
O mês de junho registrou 3.075 focos, o que não se via havia 16 anos, desde 2007, no satélite do Inpe. O número representa 20% a mais do que o ano passado e também acende o alerta para estratégias que podem estar sendo desenvolvidas para driblar o governo Lula nas ações de fiscalização.
Conforme os especialistas entrevistados pela Amazônia Real, ainda não há uma explicação exata para que as queimadas estejam maiores do que em 2022 em determinados meses considerados fora do período do fogo, como abril e junho.
Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) (Foto: Ivan Canabrava/ Ipam)
“As queimadas voltaram a preocupar na Amazônia. As causas desse aumento ainda são um pouco inconclusivas, pois um dos principais tipos de queimadas são aquelas utilizadas para finalizar o processo de desmatamento, entretanto, o desmatamento sofreu uma redução importante no primeiro semestre deste ano”, ressalta Ane Alencar.
A redução citada pela pesquisadora, em número, chega a 33,6% nos seis primeiros meses de 2023 em comparação com o mesmo período de 2022, um resultado significativo.
“Pode ser que uma parte dessas queimadas estejam relacionadas com o desmatamento que ocorreu no ano anterior, ou seja, pode ser ainda um legado do governo anterior. Por outro lado, o clima é um fator importante para o alastramento dessas queimadas, gerando incêndios. E no mês de junho foi confirmada a instalação do fenômeno El Niño, que causa seca na Amazônia, principalmente na Amazônia oriental”, afirma a pesquisadora.
Os Estados que Ane Alencar cita como os mais afetados pelo El Niño da Amazônia oriental são Pará, Maranhão, Amapá, Tocantins e Mato Grosso. Sem muita surpresa, todos eles estão no ranking com os maiores focos de calor neste mês de julho. Liderando, o Pará encontra-se com 42,1 % dos 3.780 focos da Amazônia Legal somente do mês de julho; em segundo lugar está o Amazonas, com 21,8%; em terceiro, Mato Grosso (19,7%). Nos demais lugares do ranking encontram-se Rondônia (8%), Acre (4%), Maranhão (3,1%), Tocantins (0,8%), Roraima (0,3%) e Amapá (0,1%).
Alberto Setzer, pesquisador titular do Inpe, que atua na Coordenação-geral de Ciências da Terra (CGCT) e já coordenou diversos projetos de monitoramento de queimadas, analisa o aumento.
“Desde o início do ano a Amazônia Legal apresentou 1% a mais de focos do que no ano passado. Para o bioma Amazônia o aumento foi de 10%, já significativo mas não exagerado. Mato Grosso foi o Estado com mais focos em junho, talvez reflexo do período proibitivo de queima, cujo início foi marcado para 1º de julho de 2023, ou seja, uma antecipação das queimas para ficar menos exposto”, ressalta.
Há uma intensa preocupação com os possíveis impactos que o El Niño pode promover. “Anos de El Niño costumam apresentar períodos mais longos sem precipitação e com temperaturas mais altas no sul da Amazônia brasileira, o que facilita o uso e a propagação do fogo na região. A expectativa da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), dos Estados Unidos, é de 56% de probabilidade de um El Niño forte neste semestre”, explica Setzer.
O grande El Niño
Em 2016, comunidades afetadas pelo El Niño “Godzilla” sofreram com a estiagem no município de Presidente Figueiredo, no Amazonas (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).
O cenário para 2023 na Amazônia não é um dos mais favoráveis. A região encontra-se sobre um fenômeno que prolonga o verão e aumenta a temperatura, favorecendo os crimes ambientais e as queimadas. Em 2016, quando o El Niño Godzilla pairou sobre a Amazônia, as taxas de desmatamento e queimadas cresceram em 125% comparadas a anos anteriores, conforme publicado na época pela Amazônia Real. Agora, uma nova onda de calor promovida pelo El Niño, principalmente na região Norte, pode trazer seca e um verão prolongado.
Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o segundo cientista mais citado na área de aquecimento global, fez uma avaliação à reportagemda intensidade do fenômeno este ano.
“O aquecimento no Oceano Pacífico é forte e também está ocorrendo cedo no ano, indicando um grande impacto. A temperatura da superfície do mar está bem acima do normal em uma faixa que se estende praticamente de um lado ao outro do Pacífico na região equatorial. As grandes ondas de calor ocorrendo neste momento na Europa e na América do Norte são consistentes com um El Niño forte”, afirmou.
Conforme o cientista, apesar do El Niño ser um fenômeno natural, que ocorre há milhares de anos e resulta no aquecimento da superfície da água do Oceano Pacífico perto da linha do Equador, ele está aumentando em frequência devido às emissões de gases acima da média emitida pelos humanos.
Na Europa, as ondas de calor estão se espalhando, fazendo as temperaturas chegarem a 40 graus. Um gráfico da Noaa publicado nos últimos dias revela que a mais alta temperatura já registrada no Atlântico Norte em 41 anos, entre 1982 a 2023, é a deste mês de julho de 2023.
Ao ouvir especialistas, o jornal The Guardiannoticiouque “mais de 90% do calor extra causado pela adição de gases de efeito estufa à atmosfera pela queima de combustíveis fósseis e desmatamento foi absorvido pelo oceano”, o que tem ocasionado altas temperaturas.
Referente aos impactos no Brasil, Fearnside prevê que o fenômeno deve impactar toda a Amazônia. “A Amazônia fica mais quente e mais seca. Isto leva a morte de árvores em pé pela combinação seca e calor, sendo que qualquer planta precisa de mais água se a temperatura aumenta. Também leva a incêndios florestais, que matam mais árvores. As secas de El Niño normalmente afetam mais a parte norte da Amazônia, Roraima sendo o lugar mais famoso para incêndios florestais. No entanto, às vezes as secas se estendem até a parte sudoeste da região, como ocorreu em 2015, quando houve grandes incêndios no Acre”.
Cadastro rural e o fogoBrigadista combate chamas em Rio Branco, no Acre (Foto: Sérgio Vale/Amazônia Real/2020)
O equivalente a 60% do desmatamento de junho de 2023 ocorreu nas áreas inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR), o que aponta para uma temporada de fogo conduzida não por grileiros, mas por fazendeiros. Os dados são do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes).
Para Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, o governo federal está debruçado na análise do aumento de queimadas e ainda não conseguiu achar uma resposta. Ele ressalta, porém, o papel da matéria orgânica das áreas desmatadas anteriormente por fazendeiros.
Além disso, Astrini afirma que existem situações facilitadoras para que as queimadas estejam crescendo, principalmente o curto tempo que o governo Lula tem para que haja implementação das ações de combate e governança na região da Amazônia.
“Até agora eles [órgãos federais] têm tentado restabelecer essa governança, estão com problemas porque as agências de fiscalização sofreram sabotagem nos últimos anos, mas estão sendo recuperadas, estão atuando. Portanto, o que a gente pode esperar é que o governo, com as forças que tem, com as possibilidades que tem hoje, faça uma atuação para diminuir as queimadas e o desmatamento”, acrescenta.
Ele demonstra preocupação com as ações dos governos estaduais da Amazônia, que ao longo dos últimos anos adotaram agendas antiambientais. Astrini cita como exemplo o governador de Roraima, Antônio Denarium, que contribuiu com a situação do garimpo no estado ao autorizar o uso do mercúrio e as situações políticas vividas no estado de Rondônia, onde houve tentativa de acabar com as unidades de conservação.
“Os governadores precisam agora mostrar na prática que desejam mudar e realmente atuar contra as queimadas e a favor da floresta, mas infelizmente a gente não vê isso de forma clara, ostensiva ou tendo esperanças aí de que esses governadores vão se mobilizar, o que é torna ainda mais difícil qualquer batalha para proteção da Amazônia, porque o aparato dos Estados, principalmente a força policial, é fundamental para complementar a força do governo federal no combate ao crime”, complementa.
Fumaça das queimadasFumaça provocada pelas queimadas encobre a cidade de Novo Progresso, Pará, em 2022 (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real/2022)
Anualmente, os incêndios e impacto das fumaças chegam até as cidades. A temporada do fogo é um cenário que se repete, aumenta o número de doenças respiratórias, mas ainda não tem ação concreta de mitigação por parte dos estados da Amazônia. Como exemplo, no último ano a fumaça chegou nas áreas urbanas de Novo Progresso e Altamira, no Pará, e Manaus, no Amazonas.
Ane Alencar acredita que com o relançamento do PPCDam, os governos têm incentivos para trabalharem seus planos de controle do desmatamento e queimadas, ou, no mínimo, para reativar os planos nesta temporada.
Criado em 2004, o PPCDAm foi o principal responsável pela queda de 83% do desmatamento até 2012, segundo dados do Inpe. Com a revogação do PPCDAm em 2019 e o desmonte dos órgãos ambientais no governo Bolsonaro, o desmatamento atingiu a marca de 13 mil km² em 2021, o que não ocorria desde 2006. Isso afastou o país das metas estabelecidas em acordos internacionais.
A quinta fase do plano estabelece a meta de desmatamento zero até 2030, a partir de quatro eixos temáticos: atividades produtivas sustentáveis; monitoramento e controle ambiental; ordenamento fundiário e territorial; e instrumentos normativos e econômicos voltados à redução do desmatamento e à efetivação das ações abrangidas pelos demais eixos.
“Entretanto, a temporada do fogo está aí, no mínimo tanto o governo federal quanto os governos estaduais já deveriam estar com campanhas prontas para a redução do uso do fogo e para prevenção, porque eu acho que isso ajuda bastante, principalmente num contexto onde o clima está bastante favorável para ocorrência de incêndios”, ressalta a pesquisadora, que também frisa o papel do engajamento da sociedade no tema.
A respeito da governança e fogo nos estados, A Amazônia Real procurou todas as secretarias de meio ambiente dos nove estados da Amazônia Legal para coletar informações sobre preparo para a temporada de fogo e monitoramento, mas obteve baixo retorno, indicando uma possível falta de organização e preparo nos estados.
Apenas quatro estados retornaram até a publicação desta reportagem. No Mato Grosso (MT), a secretaria respondeu que o investimento para combater e prevenir queimadas chegou a R$ 38 milhões e que o Plano de Operações da Temporada de Incêndios Florestais (POTIF) prevê a implantação de 81 instrumentos de resposta, composto por 25 unidades do Corpo de Bombeiros, 29 Brigadas Estaduais Mistas, 17 Brigadas Municipais Mistas, sete bases descentralizadas de Bombeiro Militar e quatro equipes de intervenção e apoio operacional.
A respeito do monitoramento, a Secretaria de Meio Ambiente informou que possui quatro equipamentos para monitorar a qualidade do ar na capital Cuiabá. Elas são responsáveis por avaliar a concentração de gases poluentes e material particulado na atmosfera.
No Amazonas, a secretaria informou apenas que a primeira fase da Operação Aceiro 2023 começou para combater incêndios florestais no sul do Amazonas. É composta por 74 bombeiros militares e 10 viaturas com destino aos municípios de Humaitá, Apuí, Boca do Acre, Lábrea e Manicoré. Não houve respostas às demais perguntas sobre monitoramento da qualidade do ar, que até 2022 não possuía equipamentos.
Já no Maranhão, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais informou que 25 municípios estão dentro do plano de combate às queimadas com foco nos municípios mais atingidos e tem feito monitoramento de queimadas e emissão de boletins de monitoramento de focos de calor.
Com relação ao monitoramento da qualidade do ar, afirmou que possui seis estações de monitoramento em São Luís e nos demais municípios o controle da qualidade do ar é realizado através de relatórios de automonitoramento enviados por empreendimentos licenciados pelas secretarias locais.
À Amazônia Real, a Secretaria do Meio Ambiente de Rondônia, umestado devastado pelo agronegócio, não respondeu aos questionamentos sobre monitoramento, mas informou que “vem desenvolvendo atividades como campanhas de educação ambiental nas escolas, pit stop de educação e conscientização ambiental, intensificação na fiscalização, divulgação nas redes sociais, palestras com o tema risco de queimadas, além do WhatsApp de denúncias”.
As secretarias dos Estados do Pará, Tocantins, Acre, Amapá e Roraima não responderam às perguntas enviadas pela Amazônia Real.
Este texto foi publicado originalmente pela Amazônia Real [Aqui!].
Parar a perda de empregos e conhecimento de pequenos produtores requer investir na sustentabilidade rural, abordar a pobreza e a desigualdade e garantir que os ganhos econômicos permaneçam locais. Os benefícios seriam compartilhados globalmente
O manejo comunitário da pesca do pirarucu ( Arapaima gigas ) na Amazônia salvou a espécie da beira da extinção. Crédito: Ricardo Oliveira/AFP via Getty
Por Eduardo S. Brondizio , Stacey A. Giroux , Júlia CD Valliant , Jordan Blekking , Stephanie Dickinson e Beate Henschel para Nature
Avançar nas metas acordadas internacionalmente para o desenvolvimento sustentável, mudança climática e biodiversidade exigirá grandes mudanças na forma como os alimentos do mundo são produzidos e distribuídos 1 . Em 2021, o Banco Mundial estimou que os atuais sistemas alimentares representam US$ 12 trilhões em custos sociais, econômicos e ambientais ocultos 2 .
Nas últimas décadas, surgiram iniciativas globais para começar a fazer essas mudanças. E estão surgindo oportunidades para enfrentar a pobreza, a desigualdade e outros problemas sociais juntamente com as crises do clima e da biodiversidade, em parte graças ao aumento do interesse em tornar a produção de alimentos menos destrutiva do meio ambiente e mais sustentável. Os avanços tecnológicos também podem melhorar as condições de trabalho e aumentar a produção e o acesso ao mercado para pequenos e médios produtores de alimentos.
No entanto, fazer com que essas iniciativas funcionem em escala significa reverter uma tendência que muitas pessoas veem como uma consequência inevitável da modernidade e do progresso: o movimento de milhões de pessoas das regiões rurais para as cidades ou suas periferias.
Dados de emprego da Organização Internacional do Trabalho, uma agência das Nações Unidas, mostram que, nos últimos 30 anos, cerca de 200 milhões de empregos na produção de alimentos foram perdidos globalmente (consulte ‘O declínio dos empregos na produção de alimentos’). De acordo com nossa análise, o ritmo atual pode acelerar, resultando na perda de pelo menos mais 120 milhões de empregos até 2030 — principalmente em países de baixa e média renda (LMICs; consulte informações complementares). Esse declínio global maciço no emprego contribuiu para a destruição de famílias e comunidades em todos os países de baixa e média renda, à medida que milhões de pessoas se mudam para áreas urbanas 3 , um processo que está sendo intensificado pelas mudanças climáticas 4. Após a migração dentro e entre os países, muitas pessoas que acabam em ambientes urbanos ou periurbanos vivem de forma mais precária do que antes — sem emprego e sem serviços básicos, como moradia5 . Eo conhecimento intergeracional está desaparecendo : sobre a biodiversidade usada por agricultores, pescadores, pastores, administradores florestais e de espécies selvagens; das tecnologias de produção de alimentos; e sobre como gerenciar o ambiente 6 .
Fonte: OIT
Parar essa tendência requer três grandes mudanças. Primeiro, governos e organizações não-governamentais precisam investir em infraestrutura básica e serviços públicos (escolas, transporte, tecnologias digitais e assim por diante) nas áreas rurais e indígenas. Eles também devem ajudar a reformular as narrativas amplamente difundidas que consideram os produtores de alimentos de pequena e média escala como tendo valor limitado. Em segundo lugar, mais iniciativas internacionais e nacionais para tornar a produção de alimentos mais resiliente e biodiversa devem abordar os problemas sociais ao lado dos ambientais. Em terceiro lugar, os benefícios econômicos da produção de alimentos devem ser trazidos para mais perto de onde esses alimentos são cultivados.
Para serem eficazes, as iniciativas precisam considerar os direitos inerentes de diversas comunidades indígenas e rurais, respeitar e aproveitar os conhecimentos e tecnologias indígenas e locais e ser lideradas por essas comunidades. Eles também precisam reconhecer o papel e as aspirações dos jovens como agentes ativos na promoção de oportunidades atraentes de emprego na economia alimentar 7 , 8. Talvez de forma mais crucial, suposições arraigadas decorrentes de teorias acadêmicas desenvolvidas nos séculos XIX e XX e mantidas em todo o mundo devem ser desafiadas. Isso inclui as ideias de que a produção de alimentos indígenas e de pequena escala e os sistemas de gerenciamento de recursos não são importantes para alimentar a população mundial e que a perda de empregos nas áreas rurais e indígenas é uma consequência inevitável e necessária de países que se tornam modernos e eficientes.
Pequeno mas poderoso
Embora a maioria dos estudiosos, formuladores de políticas e governos concentrem sua atenção quase inteiramente em operações que produzem commodities para exportação, ascontribuições dos sistemas de produção de alimentos indígenas, de pequenos proprietários e familiares são consideráveis. Mais de 866 milhões de pessoas apoiam famílias e comunidades trabalhando na agricultura, pesca, pecuária, manejo florestal e outros sistemas de produção de alimentos de pequena a média escala. Isso representa 26% da força de trabalho globalmente e mais de 80% disso em alguns países, como Burundi. Cerca de 89% dessas pessoas vivem em áreas rurais e territórios indígenas, e quase 500 milhões de indígenas administram mais de um quarto da superfície terrestre global.
As pequenas fazendas (aquelas com menos de 2 hectares) sozinhas fornecem cerca de 35% do suprimento global de alimentos e uma parcela muito maior na América Latina, África subsaariana e sul e leste da Ásia9. Enquanto isso, a pesca artesanal gera até 110 milhões de empregos, segundo algumas estimativas (consulte go.nature.com/478xt9g ). Isso é mais do que o total combinado da pesca industrial, produção de petróleo e gás, navegação e turismo10 .
Um pequeno proprietário colhe uma safra de pimentas no sul do Egito. Crédito: Khaled Desouki/AFP via Getty
Apesar de sua importância, milhões de pequenos e médios produtores de alimentos em todo o mundo enfrentam imensos desafios. Dificuldades em obter empréstimos bancários ou acessar mercados criam obstáculos financeiros significativos, e muitas vezes carecem de assistência técnica e acesso a maquinário básico, tecnologia e infraestrutura logística. Seus conhecimentos, práticas e técnicas são muitas vezes desconsiderados e estigmatizados em políticas e programas de desenvolvimento. Onde as pessoas estão tentando produzir alimentos ao lado de vastas fazendas de commodities, até mesmo o acesso a recursos básicos, como água e ar limpos, pode não ser confiável .
Pequenos e médios produtores de alimentos estão entre os mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas 11; além disso, este grupo inclui 65% das pessoas do mundo que vivem em extrema pobreza. Pequenos agricultores e grupos indígenas, em particular, são frequentemente pressionados pelas indústrias de commodities a vender suas terras e podem ser expostos à violência em seus esforços para proteger seus territórios e recursos contra grilagem de terras e água, extração ilegal de madeira, mineração, pesca ou caça. Eles sãovulneráveis aos preços dos alimentos ditados por atores poderosos em cadeias de abastecimento altamente consolidadas. Eles também carecem da proteção da legislação trabalhista e de direitos sociais, como benefícios previdenciários e seguro-saúde.
Em muitas regiões, o trabalho dos produtores rurais e indígenas e a propriedade da terra ou das águas que utilizam não são formalmente reconhecidos. Mesmo localmente, o trabalho de produção de alimentos não é respeitado ou valorizado, principalmente para mulheres e meninas 12. Essa invisibilidade se reflete em muitas estatísticas nacionais, embora avaliações mais abrangentes estejam começando a surgir. No Brasil, por exemplo, os censos agropecuários contabilizando a contribuição da produção agrícola familiar de alimentos começaram em 2006.
Mudando mentalidades e narrativas
Desde o final do século XIX, as teorias acadêmicas sobre a evolução social e as transformações estruturais econômicas previram o desaparecimento inexorável dos pequenos proprietários, trabalhadores agrícolas e povos indígenas do mundo, e sua eventual incorporação às sociedades urbanas. Essas ideias continuam a informar políticas e atitudes sociais negativas em relação às áreas rurais e indígenas. No entanto, a narrativa dominante – de que as pessoas deixam as áreas rurais para adotar a vida urbana moderna e que a produção de alimentos indígenas e de pequena escala inevitavelmente desaparecerá à medida que os funcionários se mudarem para empregos na indústria – não resiste ao escrutínio.
Sem surpresa, os desafios que descrevemos desencorajam muitos de se envolverem na produção de alimentos nas áreas rurais, principalmente os jovens. Mas em muitos lugares, a maioria dos empregos perdidos na produção de alimentos não está sendo substituída por empregos na indústria ou nos serviços. O emprego na indústria permaneceu constante nas últimas três décadas, e as oportunidades em serviços variam significativamente por região, deixando centenas de milhares de jovens desempregados e dependentes do trabalho informal, principalmente nos países de baixa e média renda 3, 8 , 13.
No entanto, as opiniões dos pequenos e médios produtores de alimentos contam uma história diferente.
Quatro de nós (ESB, SAG, JCDV e JB) trabalhamos com pequenos produtores de alimentos no Brasil, Estados Unidos, Zâmbia, Quênia e Itália, e com comunidades rurais e organizações indígenas na Amazônia 14e internacionalmente1. Nosso trabalho — junto com as avaliações de outros — nos convenceu de que o que leva as pessoas a deixar as regiões rurais não é a atração da vida na cidade em si, mas a falta de oportunidade de melhorar a situação onde vivem. Muitas pessoas querem voltar para suas terras indígenas e rurais ou não querem sair. Muitas vezes, eles precisam se mudar, porque não conseguem acesso à tecnologia, infraestrutura, educação e serviços básicos que lhes permitiriam produzir alimentos de forma mais criativa e lucrativa, com menos mão de obra e com melhor qualidade da vida.
Produtores locais vendem suas colheitas em um mercado de vegetais em Mandalay, Myanmar. Crédito: Gavriel Jecan/VWPics/Redux/eyevine
Em um estudo de 2019 com quase 600 pessoas na zona rural da África do Sul com idades entre 15 e 35 anos, 64% das respostas coletadas foram negativas em relação à agricultura. As pessoas viam isso como um meio de sobrevivência ou um trampolim para algo melhor. Apesar de uma taxa de desemprego de 60%, eles não foram atraídos pelos empregos de baixa qualificação e baixa remuneração disponíveis na agricultura, percebendo um estigma social em relação a esse trabalho. No entanto, 36% viam a agricultura como um caminho potencial e achavam que a agricultura de pequena escala revitalizada poderia ajudar sua comunidade a florescer15 .
Um estudo de 2021 de mais de 100 comunidades ribeirinhas rurais no oeste da Amazônia talvez seja ainda mais revelador. Mostrou que apenas 5% das pessoas engajadas na pesca comunitária lucrativa e socialmente valorizada e no manejo florestal (em reservas de uso sustentável) queriam se mudar para a cidade. Por outro lado, nas comunidades vizinhas que não estavam envolvidas em sistemas de cogestão nessas reservas, 58% expressaram esse desejo 16 . Embora os pescadores lutem contra as pressões dos mercados ilegais e dos preços injustos pagos pelos intermediários, os sistemas comunitários de gestão pesqueira resgataram a maior pesca regional — composta pelo pirarucuespécies – à beira da extinção. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente do Brasil, esses sistemas de gestão atualmente envolvem e apoiam mais de 5.500 pescadores individuais em comunidades ribeirinhas e indígenas.
Poder para as pessoas
Não estamos propondo que a produção de alimentos em pequena escala por si só seja uma solução para os males sociais e ambientais da agricultura e da pesca em grande escala. Mas muitos desses problemas e suas interconexões poderiam ser resolvidos capacitando as pessoas que já estão produzindo uma parcela significativa dos alimentos do mundo para produzi-los de forma mais sustentável, lucrativa e criativa.
Nas últimas duas décadas, as campanhas de comunicação tentaram mudar as narrativas sobre a produção de alimentos, classificando os empregos na agricultura e na pesca como justos, envolventes e recompensadores. Os exemplos incluem a campanha de mídia da França em 2009, ‘Agricultura: trabalho na moda’ e a campanha de Ruanda em 2023 ‘Compre da juventude‘. Mas para conter ou reverter a migração global de pessoas de áreas rurais, essas campanhas devem ser acompanhadas de investimentos governamentais e não governamentais. Estes precisam aumentar o acesso das pessoas ao crédito, tecnologia e mercados, e melhorar os serviços básicos como escolas, saúde, transporte e acesso à água potável. Talvez o mais importante seja que haja uma mudança de mentalidade, de modo que priorizar as necessidades das comunidades produtoras de alimentos – e reconhecer e valorizar suas contribuições – seja normalizado no planejamento nacional e global para o desenvolvimento econômico.
Da mesma forma, um número crescente de mecanismos e compromissos financeiros – de fontes intergovernamentais, governamentais e privadas – estão sendo direcionados para mudar as práticas agrícolas, florestais e pesqueiras. Seu objetivo é tornar a produção de alimentos mais amigável ao clima, resiliente e biodiversa, e promover novas oportunidades econômicas 2. Esses mecanismos somam-se a centenas de esquemas existentespara conservação, restauração, adaptação climática e mitigação. Mas até agora, pouca atenção tem sido dada ao emprego em sistemas alimentares ricos em biodiversidade e resilientes ao clima, ou à importância de também abordar problemas sociais em áreas indígenas e rurais.
Um agricultor carrega uma cesta de açaí colhido na floresta tropical no estado do Pará, Brasil. Crédito: Tarso Sarraf/AFP via Getty
Em princípio, muitos subsídios existentes na agricultura e pesca – estimados em US$ 540 bilhões e US$ 35 bilhões por ano, respectivamente – poderiam ser reconfigurados para encorajar uma produção de alimentos mais sustentável e ajudar a revitalizar comunidades rurais e indígenas 17 ,18 . Pegue a Amazônia. Décadas de subsídios à pecuária no Brasil para impulsionar as exportações de carne bovina continuam a impulsionar a degradação ambiental, a desigualdade e a exploração dos trabalhadores19. Em vez disso, os subsídios poderiam ser direcionados para aumentar o emprego e apoiar as comunidades rurais – com crédito para agricultores, pescadores e gestores florestais vinculados a transições para práticas sustentáveis de produção de alimentos, digamos.
Por fim, os benefícios da produção de alimentos devem ser levados para mais perto dos locais onde esses alimentos são produzidos. Isso pode ser alcançado por meio de acordos de comércio justo, garantindo que os alimentos sejam comprados a um preço justo, permitindo que os produtores vendam diretamente aos consumidores ou fornecendo suporte de crédito para que a indústria local de pequena e média escala possa processar alimentos localmente 20( ver Informações complementares). Todas essas intervenções ajudam a trazer mais benefícios econômicos da produção de alimentos para as comunidades, incluindo a receita de impostos municipais e diversas oportunidades de emprego na fabricação e varejo de alimentos.
Muitos exemplos mostram os possíveis ganhos dessa abordagem. Por exemplo, durante a década de 1950, a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (CAMTA) ajudou o Brasil a se tornar um dos maiores exportadores mundiais de pimenta-do-reino (ver http://www.camta.com.br ) . Mas depois que doenças fúngicas dizimaram as monoculturas de pimenta nas décadas de 1970 e 1980, a cooperativa ampliou sua gama de produtos adotando e adaptando sistemas agroflorestais ricos em biodiversidade usados por agricultores indígenas e ribeirinhos da Amazônia e criando uma indústria de processamento local.
A CAMTA fez parceria com organizações governamentais e não governamentais e com a indústria privada para desenvolver produtos, incluindo polpas e óleos de frutas, que são vendidos a clientes que variam de escolas locais a compradores corporativos internacionais. Hoje, a indústria de processamento de alimentos da CAMTA emprega 172 pessoas e produz 5.000 toneladas de frutas tropicais por ano, cultivadas por cerca de 2.000 pequenos e médios agricultores. A CAMTA estima que sua agroindústria gere cerca de 10 mil empregos diretos e indiretos.
Os consumidores em todo o mundo querem cada vez mais saber mais sobre seus alimentos e as pessoas que os produzem – se os produtos são orgânicos ou de comércio justo, de onde vêm, se estão ligados ao desmatamento e à violação dos direitos indígenas e se envolvem práticas trabalhistas injustas . Permitir a certificação de produtos alimentícios e cadeias de abastecimento de alimentos pode ajudar a aumentar e diversificar o emprego, tornando os produtores mais visíveis para os consumidores e incentivando a produção, processamento, manufatura e varejo locais. Enquanto isso, novas tecnologias que reduzem o trabalho pesado ou fornecem comunicações digitais estão tornando mais fácil para pequenos e médios produtores trazer os benefícios de seus esforços para mais perto de casa17 , 18.
Conter a maré de perda de empregos na produção de alimentos e apoiar sistemas alimentares diversificados e inclusivos não é apenas uma questão econômica. Com 1,2 bilhão de pessoas chegando à idade de trabalhar nesta década, principalmente nos países de baixa e média renda, a falta de oportunidades de emprego ameaça as metas sociais e ambientais acordadas internacionalmente (consulte Informações complementares). Isso inclui os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU acordados internacionalmente e a meta ’30 × 30′ da Convenção sobre Diversidade Biológica para proteger 30% das terras e oceanos da Terra até 2030.
Abordar o problema da perda de empregos na produção de alimentos alcançaria múltiplos objetivos. Mas fazer isso requer melhorar os meios de subsistência das populações rurais e indígenas e reconhecer suas bases de conhecimento e diversas necessidades. Significa limitar a consolidação empresarial e a homogeneização dos sistemas alimentares, revitalizar as economias regionais e avançar no clima, na biodiversidade e nos ODS. Talvez o mais importante, significa garantir que as pessoas tenham um trabalho digno e esperança para o futuro, e que isso se torne uma prioridade para todos.
OIT. Destaque para as estatísticas do trabalho nº 11. Mercados de trabalho rurais e urbanos: diferentes desafios para a promoção do trabalho decente (Organização Internacional do Trabalho, 2020).
Painel de Alto Nível de Especialistas em Segurança Alimentar e Nutrição do Comitê de Segurança Alimentar Mundial. Promover o envolvimento e o emprego dos jovens nos sistemas agrícolas e alimentares (HLPE CFS, 2021).
FIDA. Relatório de Desenvolvimento Rural de 2019: Criando oportunidades para a juventude rural (Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola, 2019).
Bezner Kerr, R. et ai . Em Mudanças Climáticas 2022: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade. Contribuição do Grupo de Trabalho II para o Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (eds Pörtner, H.-O. et al .) 713–906 (Cambridge Univ. Press, 2022).
FAO, PNUD e PNUMA. Uma oportunidade multibilionária: redirecionar o apoio agrícola para transformar os sistemas alimentares (Food & Agriculture Organization, 2021).
Vídeos em que jovens exibem suas compras da gigante chinesa de roupas Shein são populares no TikTok. O varejista levou apenas alguns anos para se tornar um concorrente sério de marcas de fast fashion como Zara e H&M no Ocidente. A Shein copiou seu modelo de negócios e o tornou ainda mais rápido ao produzir roupas ‘sob demanda’. Isso tem ramificações para trabalhadores têxteis, consumidores e meio ambiente.
Por Yara Van Heugten para o “Follow the Money”
‘Na verdade, eu deveria estar muito envergonhada’, Elena disse a seus 29 mil seguidores no TikTok no início de junho. ‘Como você pode ver, eu pedi algumas coisas na Shein.’ Ela diz isso rindo e mostra duas sacolas plásticas brancas da loja virtual chinesa. ‘Vou sair de férias em breve’, explica Elena. Ela comprou seis pares de sandálias, 16 tops, dois macacões, uma saia, dois sutiãs, três colares e um par de brincos. O custo: 400 euros.
O vídeo já foi visto mais de 570 mil vezes e curtido 25 mil vezes. A seção de comentários mostra que o comportamento de compra de Elena não é incomum entre os adolescentes e jovens de 20 e poucos anos que a seguem. ‘Oh meu deus, eu fiz a mesma coisa hoje.’ ‘Se encomendar um valor superior a 180 euros, tem de pagar taxas de serviço, por isso peço sempre em vários lotes.’ ‘Eu pensei que eu era ruim, haha.’
Vídeos em que os jovens desempacotam, personalizam e comentam seus pedidos de Shein (pronuncia-se She-in) são populares no TikTok (#sheinhaul). As centenas de milhares de vídeos de influenciadores formam um fluxo contínuo de publicidade para a marca que foi vista mais de 11,3 bilhões de vezes em todo o mundo. Isso transformou Shein namarca de moda mais pesquisada no Google em 2022 e uma séria concorrente dos titãs da moda rápida H&M e Zara.
Milhares de jovens compartilham suas compras da loja virtual Shein no TikTok (#sheinhaul)
Porque a Shein é ainda mais barata: você compra camisetas e vestidos lá pelo preço de um cappuccino. É mais rápido: a Zara já foi elogiada por seu ciclo de produção de três semanas, mas a Shein inventa, fabrica e vende produtos em menos de uma semana. E produz muito mais. Segundo Sheng Lu, professor associado da Universidade de Delaware, a H&M oferece cerca de 25 mil produtos diferentes anualmente, e a Zara cerca de 35 mil. A Shein vende 1,3 milhão de produtos diferentes no mesmo período. Isso é 40 a 50 vezes mais.
E o modelo ultrarrápido da Shein está funcionando. A varejista chinesa está crescendo rapidamente. Em uma rodada de investimentos em maio de 2023, os investidores avaliaram a Shein em 66 bilhões de dólares – três vezes mais do que o Grupo H&M.
Como funciona a Shein? Como ficou tão grande tão rapidamente? E como o método operacional do varejista afeta as pessoas que fazem as roupas, os consumidores e o meio ambiente?
Um modelo revolucionário
Em 2009, Wang Xiaohu descobriu que seu parceiro de negócios havia desaparecido. Eles administravam um negócio de comércio eletrônico de roupas, eletrônicos, louças e muito mais. Xu Yangtian, mais tarde chamado de Chris Xu, não estava no escritório nem em casa. No ano passado, Wang disse àrevista norte-americana Wired que Xu não atendia o telefone e havia alterado as senhas de suas contas comerciais.
Wang não falou com ele desde então.
Em 2011, ele descobriu que Xu havia aberto uma nova loja virtual de roupas: She Inside , que ele encurtou para Shein em 2015. Xu usou o modelo que eles testaram juntos. Ele não desenhava as roupas sozinho – revolucionário para uma empresa de moda – mas as comprava diretamente dos fornecedores. Apenas pequenas quantidades por item: 100 a 200 peças. A quantidade de compra só era aumentada se um produto vendesse bem.
A empresadisse ao The Wall Street Journal que a Shein ainda usa esse modelo: produzir uma quantidade mínima de itens, aumentar a escala se um produto se mostrar popular. Essa é a razão dos preços extremamente baixos, explicou Shein . ‘Muito pouco de nossa mercadoria não é vendido. É assim que podemos ser tão econômicos.’
Shein evita responsabilidades usando um ‘jogo bizantino de estrutura corporativa’
Há outro motivo, porém: a Shein sabe exatamente o que seu público-alvo deseja. Seja uma tendência circulando no TikTok – como as roupas rosa choque de #bimbocore – ou roupas caras de grife usadas por uma celebridade em uma nova postagem no Instagram, você pode encontrar quase instantaneamente algo semelhante na Shein.
Quando um entrevistador da revista Time perguntou ao vice-presidente David Wang no início de julho como a Shein sabe o que os clientes querem, ele respondeu : ‘Se você é um consumidor que passa muito tempo navegando, descobrindo e refletindo, basicamente você está projetando. É basicamente análise de comportamento, e então você agrega, e isso se torna um padrão.’
Em outras palavras: a Shein acompanha de perto o que seus usuários fazem no aplicativo e na web e deduz disso o que deve fazer. De acordo com os blogueiros de tecnologia Packy McCormick e Matthew Brennan, a empresa combina os dados do aplicativo com os dados de pesquisa do Google e a inspiração que reúne navegando pelos sites concorrentes.
Roubo de design
Enquanto isso, centenas de marcas e artistas afirmam nas redes sociais que a Shein está produzindo cópias idênticas de seus trabalhos e vendendo-as por uma fração do preço. Na semana passada, surgiram as notícias de que a H&M está processando a Shein por roubo de design. A empresa já foi processada pela marca de jeans Levi’s, pela empresa de moda Ralph Lauren e pela marca de calçados Dr Martens.
No início de julho, três estilistas americanos de quem a Shein roubou designs anunciaram um processo contra a empresa. Eles argumentamque, devido ao processo de design baseado em dados da Shein, um padrão de infração criminosa sistemática de propriedade intelectual está embutido no modelo de negócios.
De acordo com os designers, a empresa conseguiu evitar qualquer responsabilidade até agora usando um ‘jogo bizantino de estrutura corporativa’. ‘Como mencionado, a Shein argumenta regularmente que qualquer entidade que está sendo processada não tem acesso às informações mantidas pela empresa responsável pelo design.’
Portanto, os demandantes estão invocando uma lei originalmente projetada para combater o crime organizado (Racketeer Influenced and Corrupt Organizations Act, RICO). “Isso pode fornecer os remédios necessários para combater esses erros bem organizados distribuídos por uma série de atores e entidades relacionados”, explicam.
Esta lei permite processar conjuntamente crimes de empresas aparentemente independentes.
Uma série de empresas
De fato, quem tenta desvendar a empresa Shein não pode ignorar o fato de que ela envolve uma série de empresas e que a inter-relação entre elas não é transparente, de modo que nunca fica totalmente claro quem é o responsável.
Quando Xu fundou a She Inside em 2011, ele nomeou a empresa por trás dela como Nanjing Diangshang Information Technology. Em 2015, ele também iniciou a Zoetop Business em Hong Kong, para a qual transferiu os direitos da marca Shein. Em 2017, ele abriu uma nova empresa, Guangzhou Xiyin International Import & Export, para enviar roupas para o exterior.
Há também uma empresa em Cingapura (Roadget Business), uma sede europeia em Dublin (Infinite Styles Ecommerce) e uma empresa de investimentos nas Ilhas Virgens Britânicas: Beauty of Fashion Investment.
A julgar pela página da Shein no LinkedIn, a empresa agora considera a Roadget Business como sua sede. O proprietário final da rede de empresas é uma empresa de investimentos com sede nas Ilhas Cayman chamada Elite Depot.
Isso é conveniente: as empresas chinesas que se registram no exterior evitam o escrutínio rigoroso do governo chinês se quiserem abrir o capital no exterior. E é isso que Shein quer, segundo a agência de notícias Reuters: a empresa quer abrir o capital nos Estados Unidos. Uma vantagem adicional das Ilhas Cayman é que as empresas não precisam pagar impostos sobre seus lucros.
O nome do fundador Xu não aparece em nenhum dos relatórios anuais e estatutos encontrados pela Follow the Money, nem mesmo no relatório anual da sede de Cingapura. Não está claro quem é o dono do Elite Depot.
As pessoas que acessam o app diariamente recebem pontos que podem ser trocados por descontos
A Shein não divulga dados financeiros, mas de acordo com o último relatório anual da Roadget Business, a empresa faturou mais de 5 bilhões de dólares em 2021 e obteve lucro de 220 milhões de dólares. Fontes anônimas disseram ao The Wall Street Journal que um ano depois, em 2022, Shein obteve quase cinco vezes mais receita (23 bilhões de dólares) e quatro vezes mais lucro (800 milhões de dólares). Comparativamente, a Inditex, controladora da H&M e da Zara, faturou 21 e 35 bilhões de dólares em vendas, respectivamente.
Outra coisa chama a atenção no relatório anual europeu. A diferença entre o valor total que a Shein paga a seus fornecedores e a receita que obtém de seus consumidores é de apenas 20%. Isso é surpreendente, já que essa margem é de 53% na H&M e de 57% na Inditex. Isso não apenas explica por que os preços da Shein são tão baixos, mas também por que ela vende seus produtos de forma tão agressiva: para obter um pouco mais de lucro, a empresa precisa vender grandes quantidades adicionais.
Loja virtual x Candy Crush x TikTok
Influenciadores como Elena desempenham um papel importante nesse processo. Eles atraem novos usuários para o aplicativo Shein em troca de roupas grátis e 10 a 20 por cento de comissão. Enquanto estiver nele, o lojista faz de tudo para prender a atenção do usuário. Para pessoas com mais de 30 anos, o aplicativo parece confuso e intrusivo: a loja virtual encontra o Candy Crush e o TikTok.
Há transmissões ao vivo e um canal de vídeo que lembra o TikTok, com um fluxo interminável de videoclipes, e os usuários podem postar fotos de si mesmos usando seus itens favoritos em uma página pessoal.
A Shein entende que quanto mais tempo as pessoas gastam em seu aplicativo, maior a probabilidade de encontrarem algo que desejam. Assim, as pessoas que acessam o app diariamente recebem pontos que podem ser trocados por descontos. ‘Jogar fora’ é impossível, pois Shein adiciona de 5 a 10 mil novos produtos todos os dias.
E se a usuária estiver hesitante, o app a ajuda a tirar suas dúvidas.
Por exemplo, sempre há uma oferta especial que expira em pouco tempo, comentários positivos aparecem abaixo de quase todos os produtos (você ganha pontos por deixar um comentário) e, no checkout, você é incentivado a adicionar um pouco mais às suas compras carrinho: ‘Mais dois euros por um brinde’, ‘Peça mais 20 euros e ganhe 30 por cento de desconto’.
‘Parece que a Shein está encorajando ativamente os jovens a comprar o máximo de merda possível’
Shein não é o único a usar esses truques de sedução. Mas a escala em que a empresa os aplica é. Em setembro de 2022, a ONG suíça Public Eye pesquiou quais truques de sedução quinze varejistas de moda aplicam em suas lojas online. A Shein provouser o líder absoluto: seu aplicativo usa dezoito táticas diferentes. H&M e Zara usam respectivamente seis e quatro.
Marijn Sax, que obteve seu PhD pela Universidade de Amsterdã em um estudo sobre ambientes on-line manipuladores, acha que o aplicativo Shein é muito sofisticado. ‘É sujeira sobre sujeira sobre sujeira. Muitos truques usados por Shein não são explicitamente proibidos, mas como um estudioso da ética, acho a estrutura como um todo muito problemática.’
Sax pesa suas palavras e depois acrescenta: ‘Vamos contar como é: parece que a Shein está encorajando ativamente os jovens a comprar o máximo de merda possível. A influência é permitida, mas torna-se manipulação se os consumidores começarem a fazer escolhas que não fariam de outra forma. A Autoridade para Consumidores e Mercados proíbe isso. Mas judicialmente, algo assim é difícil de comprovar. A Shein alegará que vende produtos que os consumidores provavelmente desejam de qualquer maneira.’
Hotéis caros, champanhe e selfies com funcionários
Em junho deste ano, Shein levou seis influenciadores americanos para a China e Cingapura para uma viagem com todas as despesas pagas. “Muitos de vocês perguntaram mais sobre a Shein, e criamos [a viagem] como uma forma de dar aos nossos clientes uma visão dos bastidores de nossas operações e modelo de negócios sob demanda”, explicou a empresa no Instagram.
As influenciadoras, mulheres de cor ou mulheres de tamanho grande, vlog sobre isso em abundância. Nós as vemos bebendo champanhe na frente do espelho em luxuosos quartos de hotel e em um jantar de dez pratos com os principais executivos da empresa. Em vídeos editados em T, eles compartilham suas opiniões sobre o centro de inovação, sede e fábrica de reluzentes que puderam visitar, localizado a duas horas de Guangzhou.
‘Eu esperava que esta instalação estivesse tão cheia de pessoas trabalhando como escravos’, disse Destene Sudduth a seus 4 milhões de seguidores no Instagram. ‘Mas, na verdade, fiquei agradavelmente surpreso […] Honestamente, todo mundo estava trabalhando normalmente, relaxado, sentado. Eles nem estavam suando. Éramos nós que suamos andando por toda a instalação.
No total, a Shein tem impressionantes 5.400 fornecedores, escreveua empresa em seu primeiro relatório de sustentabilidade no início de 2023. O varejista não divulgou quem são.
Mesmo assim, a influenciadora plus size Dani Carbonari (478 mil seguidores) acreditou em tudo o que a equipe de marketing de Shein estava mostrando para ela: ‘Consegui entrevistar uma mulher que trabalhava no departamento de corte de tecidos, e vocês me conhecem, [sou] uma jornalista investigativa, então fiz a ela todas as nossas perguntas. Ela ficou muito surpresa com todos os rumores que estavam sendo espalhados nos Estados Unidos. Ela me contou sobre sua família, seu estilo de vida, seu trajeto, seus horários. [..] Acho que minha maior lição desta viagem é: seja um pensador independente, obtenha os fatos e veja com seus próprios olhos.’
‘Não quero pensar no que aconteceria se um incêndio começasse lá’
Os ‘rumores’ que Carbonari se refere a se originarem de uma investigação da ONG suíça Public Eye e de um documentário do canal de televisão britânico Channel 4. No final de 2021, a Public Eye localizou dezessete fornecedores Shein nas regiões de Guangdong e Jiangsu. Com a ajuda de um investigador local, eles descobriram que os trabalhadores da Shein trabalham em turnos de até 14 horas por dia. De acordo com a lei chinesa, uma semana de trabalho não pode exceder 40 horas, mas uma semana de trabalho padrão em um fornecedor da Shein é de 75 horas. Não há prêmio de horas extras.
O relatório da investigação inclui fotos das fábricas. Depois de inúmeros acidentes fatais em fábricas de roupas, é impressionante que as fábricas de Shein ainda tenham uma configuração tão insegura. As janelas estão trancadas, não há saídas de emergência e grandes sacolas de roupas e rolos de tecido bloqueiam corredores e escadas. ‘Eu não quero pensar sobre o que aconteceria se um incêndio começasse lá’,disse o investigador que visitou a fábrica ao Public Eye.
Untold , o documentário feito pelo Channel 4 em outubro de 2022, também pintaum quadro diferente das páginas do Instagram dos influenciadores.
Em uma fábrica apertada e escura, um jornalista disfarçado como funcionário corta tecidos em alta velocidade no formato necessário. Se ela for muito devagar, o supervisor grita para ela se apressar. Ela ganha cerca de cinco centavos por hora; se ela cometer um erro, dois terços de seu salário serão descontados.
Uma noite, ela visita a fábrica às três horas. Seus colegas ainda estão no trabalho. ‘Pessoas de classe baixa, que não têm um diploma adequado, não têm escolha a não ser trocar tempo por dinheiro’, explica o trabalhador da produção.
Acredita-se que as pessoas mais abaixo na cadeia de produção da Shein estejam trabalhando em condições ainda piores. A Bloomberg News teve roupas de algodão da Shein testadas em laboratório. A conclusão foi que, com base nas características genéticas, o algodão usado provavelmente veio da região chinesa de Xinjiang. O governo chinês está detendo mais de 1 milhão de uigures em campos de detenção e os forçando a trabalhar, inclusive em plantações de algodão.
Segundo a Shein, a empresa não tem fornecedores em Xinjiang, tem “tolerância zero para trabalho forçado” e respeita os direitos humanos.
As violações dos direitos humanos são uma consequência lógica do modelo de negócios ultrafast fashion de Shein, argumenta Nynke Eggen – sua consultoria, The Sustainability Club, aconselha marcas sobre empreendedorismo responsável. ‘Quando grandes volumes de roupas devem estar prontos alguns dias após serem encomendados, isso leva a grandes cargas de trabalho e horas extras excessivas nas fábricas.’
Ela diz que isso também se aplica ao fornecimento de materiais como o algodão. ‘Uma marca deve fazer pesquisas para saber de onde vêm os materiais e em que condições eles são adquiridos. Você dificilmente pode fazer essa pesquisa com prazos de entrega tão curtos.’
‘Cometi um grande erro’, disse a influenciadora Carbonari em um vídeo ao vivo em seu canal do Instagram uma semana depois de voltar da China. Após a viagem, ela enfrentou duras críticas de seguidores e completos desconhecidos. ‘Eu deveria ter feito mais pesquisas.’ Ela encerrou sua colaboração com Shein.
Encomendas de avião
“Como todas as empresas, estamos em uma jornada de sustentabilidade”, escreveu o fundador da Shein, Xu, no prefácio do relatório de sustentabilidade de sua empresa. Embora ele não desempenhe formalmente nenhum papel nas várias empresas por trás de Shein, ele continua sendo o CEO para declarações públicas. Ele assina como ‘Sky Xu’, um nome que não apareceu em fontes públicas antes.
‘No entanto, o que nos diferencia é nossa ambição de liderança’, continua ele, ‘sustentado pelo uso de tecnologia inovadora para reduzir o desperdício de estoque e fornecer produtos a preços acessíveis para clientes em todo o mundo.’
Shein costumava se gabar da sustentabilidade de seu modelo sob demanda. Durante uma entrevista à Time Magazine no início de julho, o vice-presidente Wang disse : ‘Somos moda sob demanda. Nós tentamos descobrir o que você quer. E então nós fazemos isso para você. Portanto, sempre temos números de estoque de um dígito muito, muito baixos. Considerando que [outros varejistas] têm que projetar coisas e, em seguida, armazená-las, comercializá-las e depois vendê-las. E então eles têm sobras. ‘Temos muito, muito poucas sobras’, afirma Wang.
O consultor de sustentabilidade Eggen considera o modelo de Shein ‘perfeito como tal’. ‘Ficarei muito entusiasmado se outras empresas usarem esse modelo para reduzir estoques desnecessários. Mas, no caso deles, não faz sentido pelos volumes e pela forma como produzem.’
Shein usa essas alegações para desviar a atenção de onde está o verdadeiro impacto ambiental de seu modelo de negócios. A empresaafirmou que até 2022, a Shein foi responsável por mais de 9 milhões de toneladas de emissões de carbono. Quase metade de todos os países do mundo emite menos, incluindo Luxemburgo, Moçambique e Costa Rica.
Mais da metade das emissões da Shein vêm de materiais e produção. Suas roupas são feitas principalmente de poliéster (64 por cento), um material derivado do petróleo. Menos de 1% das roupas de Shein vem de materiais reciclados.
Um terço das emissões de carbono da Shein vem do envio de pacotes para os consumidores. A empresa faz isso de avião, conforme revela seu portal de rastreamento. Aqueles que encomendarem algo receberão uma atualização quando o voo com a encomenda deixar a China.
‘Um terço é muito’, diz Eggen. ‘Outras empresas geralmente enviam produtos para um centro de distribuição na Europa primeiro. De lá, os produtos são transportados até os clientes em caminhões”.
Além disso, você também tem problemas ambientais causados pela Shein, pois os consumidores descartam as roupas depois de usá-las poucas vezes por estarem com defeito ou fora de moda. Shein não fala uma palavra sobre isso em seu relatório de sustentabilidade.
O que acontece com esses produtos depois? ‘Em princípio, reciclamos itens defeituosos em novos materiais. Nesse caso, não podemos porque os tecidos da Shein são de qualidade muito baixa para serem usados em novos fios’, diz Sympany, um dos maiores colecionadores de tecidos da Holanda. ‘Então a reciclagem de baixo teor é a única opção que resta, por isso é transformada em um material isolante, por exemplo.’
A Sympany revende roupas sem nenhum defeito. Isso acaba em outros lugares na Europa, Oriente Médio, Ásia e África por meio de intermediários. E essa não é a única maneira pela qual as roupas de Shein chegam aos países de baixa renda.
Revendedores em países de baixa renda mostram seus produtos Shein no TikTok
250 peças por 40 euros
Em 14 de março de 2023, Xiongjie Zhang da China fez um apelo no Facebook: ‘Sou um fornecedor da Shein com sede em Guangzhou, China. Tenho 200 mil peças em estoque. Estou procurando um revendedor.’ De preferência nas Filipinas, Malásia ou Vietnã.
Shein exige que façamos entregas rápidas. Se as vendas não forem boas, o estoque de tecidos ficará por sua conta
O modelo sob demanda da Shein pode resultar em estoques pequenos na própria empresa, mas certamente não nos fornecedores. Um fornecedor da Sheinreclamou sobre isso em um artigo de notícias chinês.
“A Shein exige que façamos entregas rápidas, o que significa que os fornecedores precisam preparar os acessórios com antecedência antes de poderem produzir. […] Se as vendas não forem boas, o estoque de tecidos e acessórios ficará por sua conta.’
Dezenas de vídeos do TikTok e páginas do Facebook mostram as enormes quantidades de sobras de roupas de Shein que acabam em países de baixa renda.
Em um dos vídeos, um homem filipino abre um fardo de roupas com uma faca Stanley. Sacos de plástico com ‘SHEIN’ impresso em letras pretas saem do buraco. O vídeo é parecido com o da holandesa Elena, mas esse fardo é dez vezes maior. ‘Somos um revendedor oficial da Shein’, diz a legenda. Ele vende os fardos por 2.500 pesos filipinos (41 euros) por 250 peças: cerca de 20 centavos cada.
‘Você não pode estar falando sério’, Eggen exclamou quando ouviu isso. ‘Isso prova que este modelo não pode funcionar com preços tão baixos. E isso faz sentido. Uma pequena produção significa relativamente muito tempo de preparação. Essa linha de produção deve ser configurada com as linhas de cores corretas e as instruções corretas. Só então a velocidade de produção aumenta. Para uma peça de roupa de 3 euros, você precisa de cada segundo para ser eficiente. É aí que está a margem da fábrica. Portanto, se você precisa fazer 100 peças, mas sabe que outras 3.000 podem chegar, é melhor fazer isso de uma só vez. É lógico que os fornecedores façam essa aposta.’
Ela ri. ‘Merda. Mesmo esta parte do Shein não é sustentável. Isso é algo que o mundo precisa saber.
Follow the Money escreveu para Shein fazendo perguntas durante esta investigação, mas não recebeu resposta.
Este artigo escrito originalmente em inglês foi publicado pela “Follow the Money” [Aqui!].
A “Folha de São Paulo” publicou hojeum artigo assinado pela jornalista pela Alexa Gusmãoque, apesar de ser contraditória em aspectos chaves, mostra que o Brasil tem menos servidores públicos do que outros países considerados mais desenvolvidos (no caso da OCDE a média é de 23,48% contra 12,45% do Brasil na relação trabalhadores/por servidores públicos), mas também do que em países da América do Sul (Argentina e Chile, por exemplo) (ver figura abaixo).
Em primeiro lugar, os dados mostrados na matéria servem para desmentir a fábula neoliberal de que o Brasil tem servidores públicos demais, pois o correto é justamente o contrário. Além disso, há o fato de que se ter quase 3 vezes menos servidores públicos do que um país rico como a Dinamarca implica na precarização da qualidade dos serviços prestados a uma população que depende majoritariamente da ação do Estado para minimizar problemas sociais criados pela profunda desigualdade social existente no Brasil.
O pior é que apesar desses dados concretos, o congresso nacional se prepara para voltar a debater a reforma administrativa preparada pelo governo Bolsonaro que, se aprovada, irá piorar não apenas a condição laboral e salarial dos servidores públicos, mas também representará um enfraquecimento na capacidade das diferentes de governo (i.e., municípios, estados e União) de ofereceram serviços públicos de qualidade.
Será interessante ver como se comportará o presidente Lula e seus ministros diante do seguimento da discussão da reforma administrativa no interior do congresso nacional. Até aqui, no caso de outras heranças malditas deixadas pela dupla Michel Temer/Jair Bolsonaro, o comportamento do governo Lula tem sido deixar intacta a maioria das medidas draconianas que foram impostas contra os trabalhadores e a juventude brasileira (vide o chamado Novo Ensino Médio).
Preocupações climáticas proeminentes enquanto centenas participam da celebração do 91º aniversário de Raoni
Raoni subiu ao palco para discursar na reunião que convocou para pensar novas estratégias diante das ameaças políticas e climáticas. Fotografia: Kamikia Kisedje
Por Jonathan Watts para o “The Guardian”
Durante o mês mais quente do mundoem mais de 100.000 anos , homens, mulheres e crianças indígenas de todo o Brasil chegaram a um dos últimos grandes redutos da floresta amazônica para uma celebração marcada pela tristeza e desafio.
Em meio a crescentes preocupações com a seca e crescentes evidências de que as maiores árvores da floresta estão começando a morrer, eles vieram ao Parque Nacional do Xingu para prestar homenagem ao mais eficaz protetor da Amazônia de todos, o cacique Raoni Metukire, que indicou ele pode estar chegando ao fim de seus dias de ativista.
Homenagens vieram do rei Charles III, patriarca da igreja ortodoxa e realeza do rock em Sting, enquanto mais de 800 pessoas compareceram pessoalmente. Estavam presentes os Kayapó, Yanomami, Munduruku, Xipaya, Xikrin, Krenak, Wapichana, Guajajara, Paiakan, Arara e Panará, além de conservacionistas brasileiros, cientistas, um ministro do governo, um juiz e dezenas de apoiadores estrangeiros. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não compareceu, alegando a necessidade de um procedimento médico em seu quadril.
O motivo aparente da reunião em Piaraçu, vila do Mato Grosso, foi o aniversário nominal de 91 anos de Raoni, mas, na verdade, como as árvores mais poderosas da Amazônia, ninguém sabe ao certo quantos anos ele tem. Raoni existe há mais tempo do que a maioria, fez mais campanhas, viajou mais, sem dúvida conquistou mais e definitivamente é mais visível globalmente, graças à sua placa labial inconfundível.
Muitos observaram que o evento parecia um último suspiro para um líder que parece fisicamente forte e politicamente astuto, mas diz publicamente que seus dias como ativista estão acabando, gerando especulações sobre quem poderia ocupar seu papel como chefe do povo Kayapó.
Uma liderança forte é vital neste momento extraordinário de oportunidade política nacional e preocupação climática global que tornou o mundo exterior mais disposto do que nunca a ouvir as vozes indígenas, mas aparentemente ainda despreparado para se sentar ao lado deles nas negociações ou agir em seus melhores interesses.
Isso é uma fonte de frustração antes de duas reuniões de importância crucial na cidade amazônica de Belém que ajudarão a decidir o destino da floresta tropical: uma cúpula amazônica no próximo mês que reunirá os líderes do Brasil, Colômbia, Peru, Bolívia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname, e a cúpula do clima Cop30 da ONU em 2025.
Raoni e outros líderes acreditam que os povos indígenas merecem mais do que seu status de observador habitual nesses eventos, porque eles provaram ser os guardiões da floresta mais bem preservada do mundo. “Estou esperando uma chance de participar”, disse Raoni. “Quando os líderes nacionais prometem discutir esse assunto, nós, indígenas, os ouvimos. Mas também discutimos essas coisas entre nós e temos ideias sobre como impedir a destruição da floresta.”
As esperanças entre os quase 1 milhão de indígenas do país aumentaram desde que Lula se tornou presidente: ele já nomeou o primeiro chefe indígena de assuntos indígenas da história do país, criou um novo ministério indígena e prometeu que seu governo demarcaria mais territórios indígenas e colocaria um deter as invasões de garimpeiros ilegais e grileiros.
A primeira ministra dos assuntos indígenas do Brasil, Sonia Guajajara, (segunda da esquerda) caminha de braço dado com outras lideranças indígenas em direção ao encontro convocado pelo reverenciado cacique Raoni Mekutire. Fotografia: Kamikia Kisedje
Desde então, como observou a nova ministra do índio, Sônia Guajajara, no encontro de Piaraçu, houve ganhos significativos. Seis territórios indígenas foram demarcados, o desmatamento caiu em mais de um terço e o governo lançou campanhas paramilitares para expulsar alguns garimpeiros do território Yanomami.
Mas o progresso tem sido mais lento do que muitos aqui esperavam, enquanto novas ameaças políticas e climáticas surgiram, como uma ação do poderoso lobby ruralista do Brasil para limitar as demarcações a áreas ocupadas por povos indígenas em 1988. Esse estratagema, que é objeto de uma feroz batalha no senado e na suprema corte, poderia impedir e até reverter o reconhecimento oficial dos territórios.
Os participantes também notaram como o clima ficou conturbado, com os indígenas shamen observando que os rios estavam “tristes”, esgotados além dos níveis normais. Paulo Moutinho, chefe do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, observou que a temperatura em Piaraçu esta semana subiu para 46°C, muito acima do normal em uma área onde as árvores geralmente ajudam a manter o calor baixo em comparação com as planícies agrícolas desmatadas. Registros anteriores sugerem que o El Niño deste ano trará mais secas e uma estação seca mais longa, o que enfraquecerá a floresta.
“As grandes árvores estão morrendo na Amazônia porque os El Niños estão se tornando mais frequentes e de maior duração, tornando mais difícil para o solo repor a umidade. Isso resulta em estresse hídrico para as árvores. A Bacia do Xingu já está em uma situação ruim e esperamos uma seca longa e forte nos próximos anos”, alertou Moutinho.
Davi Kopenawa Yanomami, um dos grandes líderes espirituais do maior território indígena do Brasil, expressou preocupação com as mudanças climáticas e raiva pela falta de apoio do Estado para seu povo, cuja terra ainda é atormentada por garimpeiros ilegais e pelas doenças que eles trazem. “Se o governo não conseguir resolver isso, estamos preparados para entrar em guerra”, disse ele.
Ele queria falar cara a cara com os líderes mundiais. “Não quero apenas enviar-lhes uma mensagem. Eu preciso olhar nos olhos deles”, disse ele. “Meu papel é cuidar do meu povo. A responsabilidade deles é cuidar do nosso planeta.”
Ele elogiou Raoni por ter convocado a reunião. “Isso é histórico. Não vai nascer outro Raoni. Isso me preocupa muito, mas a luta vai continuar”.
Mais de 800 pessoas compareceram à celebração de Raoni Metuktire, incluindo representantes das tribos Kayapó, Yanomami, Munduruku, Xipaya, Xikrin, Krenak, Wapichana, Guajajara, Paiakan, Arara e Panará. Fotografia: Kamikia Kisedje
Houve sinais positivos de troca de guarda, com mulheres assumindo mais cargos de liderança no movimento indígena e no governo, como Guajajara e a chefe do órgão de assuntos indígenas, Joênia Wapichana.
Alessandra Munduruku, que liderou a batalha contra o garimpo ilegal nas terras de seu povo na bacia do rio Tapajós, apesar das ameaças à sua vida, enfatizou diplomaticamente, mas com firmeza, a mudança de papéis. “As mulheres também devem estar envolvidas na tomada de decisões porque lembramos que temos filhos. Dizemos aos líderes da aldeia que vocês não precisam decidir sozinhos, podemos assumir parte da responsabilidade. Agora estamos na linha de frente.”
Raoni expressou sua frustração com o não comparecimento de Lula. “Você me disse que iríamos conversar sobre os territórios que não foram demarcados. Eu não esqueci isso,” ele disse. “Eu não sou uma criança. Somos da mesma geração. Somos adultos. Antes que fiquemos velhos, temos que falar de terras indígenas para que nosso povo viva em paz”.
Uma declaração de toda a reunião ecoou esse pedido, conclamando o estado a expulsar os garimpeiros ilegais , anular os acordos de crédito de carbono e impedir o arrendamento de terras indígenas para a agricultura industrial.
No último dia do encontro, depois de dias de discursos e noites de dança, o velho cacique apareceu formidavelmente forte, permanecendo no palco por horas no calor intenso, andando sem ajuda, fazendo um discurso de 20 minutos e demonstrando sua capacidade única de unificar com um momento de mãos dadas que reuniu rivais políticos indígenas, um juiz, um prefeito local que representa principalmente agricultores brancos, altos funcionários da saúde e líderes femininas.
O único gemido da multidão foi quando Raoni deu a entender que não tinha muito tempo para terminar seu trabalho. Mais característica foi a explosão de alegria da multidão quando foi anunciado que, após uma espera de 20 anos, o governo havia concordado em passar para a próxima etapa de demarcação de Kapot Nhinore, local de nascimento de Raoni e local de descanso de seus ancestrais, como território indígena. Esta notícia gerou cantos e danças espontâneas entre os Kayapó e sorrisos e lágrimas entre outros visitantes.
“Foi com isso que ele sonhou”, disse Patrick Cunningham, coautor de Spirit of the Amazon. “Minha única preocupação é que Raoni também disse que, assim que puder ir para Kapot Nhinore, poderá terminar seus dias em paz.”
Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].
Degradação da Floresta Amazônica é maior que desmatamento e emite tanto carbono quanto
Por Mariza Louven para o Carbon Report
A notícia de que oBrasil perdeu 15% de suas florestas tropicais primárias, de 2021 para 2022, a maior parte na Amazônia, não surpreendeu o professor Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense, de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro. Este problema, resultante do desmatamento, é a ponta mais conhecida do iceberg. Outro, menos visível e igualmente prejudicial ao meio ambiente e ao clima, é a degradação das áreas remanescentes. Ambos são agravados pelo que ele chama de “uma certa esquizofrenia” governamental.
A degradação florestal não é tão bem documentada quanto o desmatamento e nem recebe a mesma atenção do governo e da sociedade, dificultando seu combate. Isso torna ainda mais relevante a pesquisa científica sobre a extensão dos danos às florestas que ainda resistem em pé.
O fogo, a extração de madeira e outras atividades antrópicas (humanas) provocaram a degradação de 250 mil quilômetros quadrados (km2) da Floresta Amazônica, entre 2001 e 2018, segundo estudos de um pool de pesquisadores do qual Pedlowski faz parte. É uma área maior do que a do Reino Unido (243.610 km²) e equivalente a 38% do bioma.
São danos nem sempre reversíveis e que levam a emissões de carbono comparáveis às provocadas pelo desmatamento. Provocam também diminuição equivalente da biodiversidade e os mesmos impactos negativos sobre o regime de chuvas.
Dados baseados na ciência
Pedlowski é um dos que assinam textos sobre a degradação florestal da Amazônia veiculados por publicações como a Science Magazine. Um deles,“Os drivers e impactos da degradação da floresta amazônica”, de janeiro deste ano, revisou trabalhos anteriores sobre os impulsionadores da mudança na Amazônia e mostrou que elas estão ocorrendo muito rapidamente. A emissão de carbono provocada pela degradação florestal é comparável à resultante do desmatamento. Varia de 50.000 a 200.000 toneladas de carbono por ano, comparável à do desmatamento, de 60.000 a 210.000 toneladas.
Os pesquisadores haviam publicado, em 2020, o texto “Degradação florestal de longo prazo supera o desmatamento na Amazônia brasileira”, baseado em dados de sensoriamento remoto com resolução espacial de 30 metros. Eles descobriram que a extensão e a taxa de degradação florestal eram iguais ou superiores às desmatadas, com implicações importantes sobre a quantidade de carbono estocado pela floresta, a biodiversidade, o equilíbrio energético e a política internacional.
“Esses estudos já deveriam ter gerado uma mudança de paradigma nas ações governamentais em prol do uso sustentável da Amazônia, mas no governo Bolsonaro caíram em ouvidos surdos. E, no governo Lula, não vi mudança de postura até agora. Continua a ladainha do desmatamento zero, enquanto o problema da degradação é negligenciado”, afirma Pedlowski
A degradação florestal alcança atualmente um status tão ou mais grave do que o desmatamento. Ainda assim, os esforços realizados internacionalmente para impedir o avanço da destruição das florestas tropicais mencionam apenas o desmatamento. “É como se o que ainda não foi desmatado estivesse totalmente preservado. Isso não é, absolutamente, a verdade”, acrescenta.
Marcos Pedlowski enxerga avanços no governo Lula, mas também desencontro de ações
Desencontro de ações
Os próximos meses serão decisivos para diferenciar a gestão Lula da anterior. Pedlowski reconhece que qualquer avaliação do governo, agora, será sempre parcial e que houve avanços no controle do desmatamento. Ele vê recuperação de uma certa racionalidade no processo de gestão, inclusive do ministério do Meio Ambiente, e reconhece que, dado o que estava acontecendo antes, isso não é pouco.
Há, entretanto, lentidão na formação das equipes dentro de ministérios e agências, o que prejudica a execução da agenda proposta durante a campanha eleitoral do agora presidente Lula.
Quando fala em esquizofrenia governamental, o professor não está se referindo apenas à demora para reequipar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mas ao desencontro de ações.
“Por um lado, dentro do governo, fomentam o desmatamento e a degradação; e, por outro, procuram conter esses processos”, diz ele. Para reforçar esta tese, cita o atraso na formação de equipes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), enquanto no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) técnicos que atuaram no governo Bolsonaro foram promovidos.
Desmatamento legal
O pesquisador também chama a atenção para o grande peso do desmatamento legal, relacionado às políticas e projetos governamentais que apoiam o crescimento da agricultura em grande escala, extração seletiva de madeira e mineração. “Se olharmos em retrospectiva a ocupação da Amazônia, desde a década de 1970, sempre encontraremos projetos governamentais que estimularam tanto o desmatamento quanto a degradação florestal”, afirma.
Agora mesmo, no governo Lula, continua Pedlowski, existem propostas para a pavimentação da BR-319 e para a construção da chamada Ferrogrão que, se executadas, resultarão na abertura da porta de entrada para áreas ainda relativamente intactas da floresta amazônica.
Na opinião dele, estamos diante de um momento que poderá ser paradigmático para o futuro da Amazônia. Se o governo insistir em financiar projetos que poderão ter um efeito dominó em relação ao desmatamento e à degradação florestal, qualquer menção ou discurso ao desenvolvimento sustentável das florestas brasileiras, incluindo aí o Cerrado, será letra morta.
“Há que se levar a sério a necessidade de proteger as florestas brasileiras. Seguramente, elas valem mais em pé do que deitadas”, afirma. Entretanto, para isso, será necessário “superar a mentalidade de que o desmatamento e a degradação justificam uma espécie de destino manifesto do Brasil”.
Diferentes soluções
Como combater, efetivamente, as perdas florestais, que estão levando ao desaparecimento das florestas tropicais primárias? Para ele, a resposta passa por diferentes dimensões.
Uma delas é mais da alçada do governo, como restabelecer o sistema de comando e controle que foi basicamente desmantelado durante a gestão anterior. Isso envolve não apenas recuperar a capacidade de fiscalização no chão, mas também os sistemas de monitoramento que existiam e funcionavam com toda a qualidade, principalmente aqueles instalados dentro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Outra, é a desmilitarização completa de órgãos como o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), “que foram asfixiados pela instalação de chefias militares”, complementa.
Na avaliação de Pedlowski, também será preciso recuperar a sinergia com os órgãos ambientais estaduais, fato que não ocorreu ao longo da administração de Jair Bolsonaro. Sem isso, o professor acredita que não será possível estabelecer processos de cooperação que fortaleçam as ações de fiscalização, o desenvolvimento de políticas positivas e ações de estímulo a setores que vivem da exploração dos recursos florestais para manterem a floresta em pé. Isso passa pela valorização dos produtos não madeireiros.
O engajamento do setor privado
Segundo Pedlowski, o setor privado também deve ter um papel relevante. Sem a participação do setor privado, reconhece, não há como resolver grande parte das dificuldades que existem em torno da proteção da biodiversidade e busca de um crescimento econômico que não potencialize esquemas deletérios para o meio ambiente: “O setor privado tem que contribuir com soluções e não apenas com ferramentas de corporate washing, mantendo o business as usual”.
No caso do desmatamento causado pela expansão das áreas cultivadas com grãos, prevê, não haverá saída se as corporações globais que controlam as cadeias de produção e comercialização não começarem a agir com seriedade. Precisam impor restrições a produtos oriundos de áreas desmatadas ilegalmente, como começará a ser feito pela União Europeia.
Ele inclui a questão da madeira extraída ilegalmente e que tem impacto direto sobre o avanço do processo de degradação florestal em todos os países tropicais. “Sem que esses grandes atores adotem mecanismos efetivos de rastreamento ao longo da sua cadeia de produção, qualquer compromisso será inútil”, prevê.
O engajamento de governos e empresas é fundamental para impedir que as atividades clandestinas sejam premiadas com a inserção de seus produtos nos mercados nacionais e internacionais. Sem esse passo básico e fundamental, na visão de Pedlowski, as estruturas de fiscalização não resolverão o problema sozinhas.
E o mercado de carbono?
O mercado de carbono é uma das muitas ferramentas desenvolvidas para engajar o setor privado nos esforços de harmonizar demandas de crescimento com proteção ambiental. Para Pedlowski, no entanto, existem poucas evidências de que poderá alavancar essa sinergia.
Um dos principais obstáculos, na opinião dele, é a definição de quem irá efetivamente regular o funcionamento do sistema de créditos de carbono, ou ainda se isso é efetivamente viável. Um exemplo citado por Pedlowski é o episódio ocorrido no início deste ano, quando uma investigação liderada pelo jornal britânico “The Guardian” descobriu que compensações de carbono florestal aprovadas pela certificadora Verra, usadas por grandes corporações como a Disney, Shell e Gucci, são em grande parte inúteis e podem piorar o aquecimento global.
O peso do agronegócio e da geopolítica
O professor destaca a agricultura industrial, gerada pela “Revolução verde”, como uma grande emissora de carbono. Como hoje este setor domina a paisagem agrícola brasileira e cobre grandes extensões de terra, não há como pensar em soluções sem que o agronegócio seja parte integrante da equação.
Na opinião dele, o controle de emissões de gases de efeito estufa deve passar por uma combinação de mecanismos de regulação estatal com outros criados pelas relações de mercado. Entretanto, como o mercado é sempre mais pragmático, a questão seria como criar um sistema de incentivos que combine elementos positivos e negativos para, digamos, criar a dinâmica necessária e um controle mais eficiente.
Não se gera mudança em práticas de mercado só com restrições, reforça. É necessário colocar a possibilidades de ganho na equação. Caberia às lideranças multilaterais decidirem como criar um sistema de controle de emissões que combine restrição e incentivo.
“Uma coisa que se pode dizer é que as múltiplas reuniões multilaterais realizadas nas últimas décadas não geraram um sistema confiável para todos os atores envolvidos no processo”, avalia. Quando muito, complementa, produziram soluções parciais, enquanto a destruição das florestas continua avançando.
Mais recursos para a pesquisa
Pedlowski chama a atenção, ainda, para a necessidade de fortalecimento do financiamento para a pesquisa na Amazônia. Lá existem universidades e instituições de pesquisa como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) que têm um largo conhecimento sobre formas de exploração dos recursos das florestas amazônicas.
É fundamental, na avaliação dele, que essas instituições e grupos de pesquisa sejam corretamente financiadas, de modo a potencializar o desenvolvimento de estratégias e o uso sustentável dos ecossistemas amazônicos. Existem experiências e evidências científicas de que é possível explorar recursos madeireiros e não madeireiros na Amazônia, de forma eficiente e menos agressiva para as florestas.
“A questão é que, objetivamente, quando se formulam as políticas para a Amazônia, há mais dinheiro para boi e pasto e menos para sistemas agroflorestais, por exemplo. Enquanto isso não for alterado pelas diferentes esferas de governo e por instituições financeiras estatais e privadas, não há como esperar qualquer mudança prática”, completa.
“Participei de um projeto piloto de regeneração florestal em Rondônia, entre 1992 e 2008, e uma das lições que tirei dessa experiência é: muitas vezes, as soluções são geradas por quem vive na região. Posso afiançar que há muito espaço para criatividade e inovação em locais e pessoas que são normalmente invisíveis para quem formula as políticas públicas para a Amazônia”.
Este texto foi inicialmente publicado pelo CarbonReport [Aqui!]