A reforma do Arquivo Municipal merecerá ao menos uma pergunta na entrevista coletiva do reitor da Uenf?

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A Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual do Norte Fluminense divulgou ontem que o reitor Raul Palacio irá realizar uma coletiva de imprensa na próxima terça-feira, 01/08, às 10h, no Centro de Convenções, onde irá divulgar a programação dos 30 anos da Universidade que ocorrerá no dia 16 de agosto. 

A mesma comunicação informa que o reitor fará um balanço dos avanços, conquistas e desafios da instituição durante a sua gestão (abro um parêntesis aqui para dizer que o reitor da Uenf é mesmo ousado!).  Segundo o que também foi informado, os veículos de imprensa que desejarem participar da coletiva devem se credenciar até às 18h desta segunda-feira, dia 31/07. 

Pois bem, aí que me ocorre a sugestão de que uma pergunta chave que poderia ser feita ao reitor nessa tal coletiva de imprensa seria a seguinte:  Magnífico reitor da Uenf, quando serão iniciadas as tão esperadas obras de recuperação da estrutura física do Solar do Colégio, lar do Arquivo Municipal de Campos dos Goytacazes?

Vamos lá pessoal da imprensa campista e fluminense, como diria o imperador romano Júlio Cesar: alea jacta est

México mantém uso intensivo do Clorpirifós, agrotóxico proibido em partes da América Latina

plaguicida-prohibido-996x567Um estudo mostrou que a presença do agrotóxico clorpirifós está acima do permitido no solo, água e peixes em uma área com alta atividade agrícola. Crédito da imagem: Sundaram/PixaHive , imagem em domínio público

Por Daniela Lopes para a SciDev

Enquanto a União Europeia e alguns países da América Latina proíbem ou restringem o uso do agrotóxico clorpirifós diante de múltiplas evidências de efeitos nocivos à saúde humana e ambiental , no México ele ainda é aplicado sem controle.

Naquele país, um estudo recente analisou a comercialização e a presença do composto para uma área de alta atividade agrícola em Nayarit, no oeste do México.

“Foi demonstrado que é o pesticida mais vendido e sua presença está acima dos níveis permitidos tanto no solo quanto na água e nos peixes”, disse Francisco Herrera, do Laboratório de Contaminação Ambiental e Toxicologia da Universidade Autônoma de Nayarit, ao SciDev.Net e um dos autores do estudo.

Em geral, esse agrotóxico é aplicado no controle de pragas porque inibe a enzima acetilcolinesterase, que regula os impulsos nervosos dos insetos. Mas também afeta animais, incluindo humanos.

“É um composto perigoso que, por sua toxicidade, persistência, bioacumulação e deslocamento por longas distâncias, foi indicado pela União Européia para sua eliminação mundial na Convenção de Estocolmo”.

Fernando Bejarano, Rede de Ação sobre Pesticidas e suas Alternativas no México

De acordo com o relatório de 2023 da Rede de Ação Latino-Americana sobre Pesticidas e Alternativas, nos últimos 40 anos o México autorizou o uso de clorpirifós como inseticida para controlar baratas, moscas e cupins em casa; de insetos e ácaros nas lavouras; contra ectoparasitas em bovinos; em coleiras para animais domésticos, em campos de golfe e até para controlar mosquitos transmissores de doenças como a dengue.

Aponta, ainda, que a exposição a esse inseticida afeta trabalhadores agrícolas, consumidores e moradores rurais e urbanos .

“É um composto perigoso que, por sua toxicidade, persistência, bioacumulação e deslocamento por longas distâncias, foi indicado pela União Européia para sua eliminação global na Convenção de Estocolmo”, disse Fernando Bejarano, da Pesticide Action Network , ao SciDev. Net . e suas alternativas no México.

Esta convenção é um tratado global para proteger a saúde humana e os ecossistemas de substâncias químicas que permanecem no meio ambiente por muito tempo.

No trabalho realizado no México, os especialistas apontam que não existem doses seguras para evitar danos ao desenvolvimento infantil , alterações cerebrais e desenvolvimento psicomotor e cognitivo.

“Nós nos perguntamos por que não há medidas no México se em outros países foram tomadas evidências para começar a restringir ou reduzir seu uso. Somos de outro planeta?”, questiona Aurora Rojas-García, pesquisadora da Universidade Autônoma de Nayarit e uma das autoras do estudo.

No Peru, o Serviço Nacional de Saúde Agrária (Senasa) aprovou em julho uma resolução que “proíbe, a partir de 1º de agosto de 2024, o uso de agrotóxicos químicos (…) que contenham o princípio ativo clorpirifós”.

O prazo é para as empresas que ainda comercializam o produto implementarem alternativas técnicas e econômicas “com menor risco à saúde e ao meio ambiente”, detalha a resolução, que oferece informações sobre elas .

O texto também alerta que o composto é neurotóxico, desregulador endócrino, e há evidências da causa de dificuldades de aprendizagem em crianças.

Na Argentina, um decreto presidencial proibiu seu uso e comercialização a partir de 2021 e estabeleceu que até junho de 2023 o Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Agroalimentar deveria garantir a erradicação de toda aplicação e comercialização neste país.

No entanto, após a data, vários lugares ainda o vendem. “Também não vemos que haja um controle efetivo. Primeiro, é preciso divulgar para que as pessoas saibam que esse produto é proibido e, segundo, o Estado deve recriar as nascentes para controlá-lo” , disse Javier Souza Casadinho, agrônomo e coordenador regional da Rede de Ação de Pesticidas , à SciDev.Net .suas alternativas.

Mas além de eliminar seu uso, Souza Casadinho aponta que o armazenamento do restante é outro problema, pois quando os produtos são proibidos, ficam armazenados em galpões por anos e nas piores condições, e isso também afeta a saúde ambiental.

“O grande passo agora na Argentina é ver quanto de clorpirifós sobra, onde é armazenado e o que é feito com esses produtos”, diz.

Por isso, os que defendem a proibição desse agrotóxico pedem uma transição para a busca de estratégias ecológicas que resolvam a destinação final e, além disso, mantenham a produtividade agrícola.

“Existem produtores de trigo e soja que estão produzindo sem agrotóxicos, então isso incentiva outros a fazerem também”, acrescenta Souza Casadinho, também professor da Universidade de Buenos Aires.

“As alternativas existem e é preciso pensar que não há nada mais importante do que o corpo e a saúde de todos os seres vivos”, conclui.

Este artigo foi produzido pela edição América Latina e Caribe de  SciDev.Net


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev [Aqui!].

Mais da metade da população da Amazônia Legal e Centro-Oeste sofre com poluição causada por queimadas, aponta estudo

Pesquisadores calcularam exposição da população da região da Amazônia Legal e do Centro-Oeste à poluição do ar gerada por queimadas entre 2010 e 2019. Mais de 20 milhões de brasileiros são expostos a ar de má qualidade por até seis meses ao ano. Exposição à poluição pode causar doenças respiratórias e cardiovasculares e gerar impacto no SUS nas regiões afetadas

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Mais de 20 milhões de habitantes da Amazônia Legal e do Centro-Oeste do Brasil convivem por mais de seis meses ao ano com poluição do ar constante gerada por queimadas na Floresta Amazônica. O levantamento foi feito por pesquisadores da Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT) com dados de satélite do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo analisados entre 2010 e 2019. Os resultados estão publicados na edição de sexta (28) da revista “Cadernos de Saúde Pública”.

Os incêndios, segundo observação dos cientistas, são provocados no processo de produção agropecuária. Esse tipo de queima de biomassa é uma das etapas para derrubada da floresta e gera partículas poluentes chamadas de material particulado fino. O estudo classifica a qualidade do ar de acordo com a Organização Mundial da Saúde, que determina que a concentração máxima aceitável desse material no ar é de 15 microgramas por metro cúbico em uma média diária. Acima disso, a concentração passa a ser de risco para a saúde humana.

Para efeitos de comparação, algumas áreas da região metropolitana da cidade de São Paulo convivem com níveis altos de poluição por até 80% dos dias do ano. Já a área estudada, que compreende as regiões Norte e Centro-Oeste mais o estado do Maranhão, conviveu quase inteiramente com níveis preocupantes de poluição por, pelo menos, metade do ano durante uma década. A área equivale a 68% do território brasileiro e conta com mais de 40 milhões de habitantes no total.

“É consolidado que a poluição faz mal à saúde. Sabemos que tem consequências cardiovasculares importantes e efeitos respiratórios”, afirma Eliane Ignotti, epidemiologista, professora da UNEMAT e uma das autoras do artigo. “Essa poluição por queima de biomassa interfere na qualidade de vida das pessoas”, avalia. Longe de ser esporádica, a exposição sofrida pela população amazônida, tanto de cidades pequenas, quanto grandes acontece todos os anos no período da seca. Por isso, os efeitos sobre a saúde e qualidade de vida da população também são sentidos ao longo do tempo.

Consequentemente, diz Ignotti, estes efeitos terão impacto sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) nas regiões afetadas. “Em termos de custo, serão milhões de reais, que poderiam ser usados para outras finalidades”, avalia a pesquisadora. Para os cientistas, a poluição na área monitorada piorou nos últimos cinco anos com a redução de políticas públicas voltadas para a preservação do meio ambiente. O artigo alerta que os municípios mais impactados pela má qualidade do ar estão na região conhecida como arco do desmatamento, que envolve Acre, Rondônia, sul do Amazonas e do Pará e norte do Mato Grosso.

O próximo passo da equipe é medir os impactos econômicos e sociais da elevada exposição da população brasileira à poluição do ar. “Os riscos de desenvolver problemas de saúde não são iguais para todos os indivíduos. Eles são maiores para os mais vulneráveis, ou seja, crianças, idosos e pessoas em vulnerabilidade social e econômica”, afirma Ignotti. “Mas é importante frisar que toda a população está exposta, e os tomadores de decisão precisam ficar atentos”, conclui.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Ainda sobre o imbróglio dos R$ 20 milhões para a reforma do prédio do Arquivo Municipal

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Acabo der ler um longo arrazoado emitido pelo blogueiro Edmundo Siqueira sobre o imbróglio envolvendo a reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes envolvendo o (não) uso de R$ 20 milhões disponibilizados pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para realizar obras de recuperação no prédio do Arquivo Municipal de Campos dos Goytacazes.

Já abordei esse assunto diversas vezes aqui neste espaço quando instei ao reitor da Uenf, Raúl Palácio, a devolver essa fortuna para a Alerj e também ao prefeito Wladimir Garotinho para que solicitasse o retorno do dinheiro para os cofres do legislativo estadual.  Até onde ouvi, ambos ignoraram minha sugestão, sabe-se lá por quais razões.

Agora que noto o contínuo e justificado interesse de Edmundo Siqueira nessa querela interminável, aproveito para sugerir o mesmo a ele. É que, meu caro Edmundo, como já disse antes, desse mato não sai coelho.  Se tivesse que ter saído, já teria. E não vai ser agora que o reitor da Uenf vai estar ocupado com a tentativa de manter seu grupo político dirigindo a universidade entre 2024 e 2027 que ele vai gastar tempo com algo que já deveria ter sido resolvido há muito tempo.

Que esse dinheiro volte para a Alerj e que se ache outra via para fazer esses milhões chegarem para pagar a reforma do prédio do Arquivo Municipal. A comunidade universitária da Uenf agradecerá imensamente já que nunca foi ouvida sobre esse espinhoso assunto.

Grandes bancos são responsáveis pela maioria dos US$ 20 bilhões em financiamento destinados a empresas de petróleo e gás que estão destruindo a Amazônia, mostra estudo

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Belém, Brasil, 25 de julho de 2023. Oito grandes bancos norte-americanos, europeus e brasileiros estão contribuindo para a destruição da Amazônia e do clima, sendo responsáveis pela maior parte do financiamento do setor de petróleo e gás em acordos diretamente ligados a atividades no Peru, Colômbia, Brasil e Equador, de acordo com uma pesquisa divulgada hoje pela Stand.earth e pela Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA), antecedendo a Cúpula da Amazônia, que será realizada em Belém no próximo mês.

O relatório Capitalizing on Collapse (“Os lucros do colapso”), elaborado por pesquisadores premiados do Stand.earth Research Group, detalha como o JPMorgan Chase, Itaú Unibanco, Citibank, HSBC, Banco Santander, Bank of America, Banco Bradesco e Goldman Sachs concederam mais de US$ 11 bilhões em financiamento às atividades de exploração de petróleo e gás na Amazônia nos últimos 15 anos, de 2009 a 2023. Embora representem apenas 5% dos bancos na base de dados, eles são responsáveis por 55% do total estimado de US$ 20 bilhões diretamente direcionados para a região. Dos oito bancos, seis têm sede nos EUA ou atuam por meio de suas subsidiárias norte-americanas e operam acordos na região, enquanto dois bancos brasileiros – Itaú Unibanco e Banco Bradesco – estão fortemente ligados a projetos específicos do setor de petróleo e gás no país.

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Figura 1. Embora representem apenas 5% dos bancos na base de dados, esses 8 grandes bancos representam 55% do financiamento direto estimado nos últimos 15 anos. O JPMorgan Chase encabeça a lista da destruição na Amazônia com 10% do financiamento direto, ou US$ 1,9 bilhão.

Bancos como o JPMorgan Chase, que encabeça a lista com 10% do financiamento direto (US$ 1,9 bilhão), lucraram com o setor de petróleo e gás nos últimos 15 anos, apesar de a ameaça de um colapso na Amazônia ter aumentado drasticamente no mesmo período. A floresta tem sofrido com a fragmentação, o desmatamento e as queimadas, a tal ponto que os cientistas alertam que ela pode estar chegando a um ponto de não retorno ecológico desastroso. Décadas de queima e vazamentos associados ao setor de petróleo e gás poluíram os cursos d’água e o solo na Amazônia, deixando as comunidades Indígenas doentes, reduzindo seus meios de subsistência e violando seus direitos. E, como o financiamento criou novas oportunidades de expansão, o setor impulsionou as emissões de carbono na atmosfera à custa de um futuro seguro para o clima.

Os estudos de caso incluídos no relatório Capitalizing on Collapse ilustram como cada um desses grandes bancos esteve envolvido em acordos que expandiram a produção de petróleo e gás na Amazônia, incluindo seu envolvimento no projeto da maior bomba de carbono da Amazônia, o Complexo Parnaíba, capaz de liberar duas gigatoneladas de carbono ao longo de sua vida útil. De acordo com a Agência Internacional de Energia, essa expansão não é compatível com a meta de manter o aquecimento global sob controle, apesar de os compromissos climáticos dos bancos afirmarem que estão alinhados com o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 °C.

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O relatório Capitalizing on Collapse também revela os bancos que financiam empresas envolvidas na exploração de petróleo e gás na Amazônia, o que é conhecido como financiamento indireto, dificultando o rastreamento do dinheiro. O relatório explora como a falta de transparência nos dados financeiros e a fragilidade das políticas bancárias de risco socioambiental (ESR) podem criar condições para que o financiamento seja destinado à produção de combustíveis fósseis, mesmo quando os bancos assumem compromissos explícitos com o clima, os direitos humanos e a biodiversidade.

Com a reunião dos líderes governamentais em Belém, na Cúpula da Amazônia, a ser promovida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre 8 e 9 de agosto, para discutir como proteger a região, fortalecer as lideranças Indígenas e proteger os valores ambientais, o relatório Capitalizing on Collapse demonstra que os bancos têm um papel fundamental a desempenhar no futuro, que não incluem a destruição da Amazônia. A iniciativa de proteção regional liderada pelos Povos Indígenas, Amazônia para a Vida: Proteger 80% até 2025, também menciona a necessidade de abandonar os investimentos em combustíveis fósseis como uma das principais medidas para o sucesso da empreitada.

Alguns bancos se mobilizaram para lidar com sua cumplicidade na destruição da Amazônia. Em maio de 2022, o BNP Paribas se comprometeu a não mais financiar ou investir em empresas que produzem a partir de reservas de petróleo e gás na Amazônia ou que desenvolvem infraestruturas relacionadas, tornando-se o primeiro grande banco a adotar a exclusão geográfica do petróleo e gás na floresta amazônica. Em dezembro de 2022, o HSBC alterou suas políticas para excluir todos os novos serviços de financiamento e assessoria a qualquer cliente para a exploração, avaliação, desenvolvimento e produção de projetos envolvendo petróleo e gás no Bioma Amazônico. Esses dois bancos, juntamente com alguns outros, estão dando sinais importantes de que precisam estar dispostos a rever sua relação com a destruição da Amazônia e tomar medidas para gerenciar esse risco.

O relatório é acompanhado pela primeira base de dados pública em que se pode pesquisar todos os bancos envolvidos com o setor de petróleo e gás na Amazônia por meio de financiamentos diretos e indiretos. A base de dados Amazon Banks Database baseia-se em pesquisas anteriores realizadas pelo Stand Research Group sobre financiamento ao comércio e políticas de ESR dos bancos. A base de dados é uma lista abrangente dos bancos envolvidos em acordos de subscrição de empréstimos e títulos para empresas envolvidas na exploração e produção (upstream) e no armazenamento, comércio e transporte (midstream) de petróleo e gás na Amazônia. Essa base de dados estará disponível publicamente a partir de 25 de julho em Exit Amazon Oil and Gas.

O Stand Research Group ganhou recentemente o Prêmio Keeling Curve na categoria de finanças, em reconhecimento à sua liderança e inovação em pesquisas financeiras, políticas e sobre a cadeia de fornecimento na Amazônia. Essa base de dados e o relatório fazem parte desse esforço. A pesquisa na base de dados também embasou a análise sobre o financiamento na Amazônia incluída no relatório Banking on Climate Chaos (“Financiando o caos climático”), de 2023.

Angeline Robertson, Pesquisadora Líder do Stand Research Group:

“Essa pesquisa premiada destaca que os bancos têm um papel fundamental a desempenhar na mudança da economia energética por trás da crise climática. A Amazônia é uma região fundamental para que os bancos apresentem políticas globais ousadas que possam cumprir a intenção de defender os direitos humanos, proteger a biodiversidade e manter o aquecimento global em 1,5 °C. De acordo com a orientação da Agência Internacional de Energia, não deveria haver nenhuma nova produção de petróleo e gás se quisermos ficar abaixo de 1,5 °C, mas continuamos a ver financiamentos bancários para a expansão da exploração de petróleo e gás na maior floresta tropical do mundo.”

Fany Kuiru, Coordenadora Geral da Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA):

“A expansão do petróleo na Amazônia é uma ameaça latente aos territórios Indígenas e aos ecossistemas vitais no Peru, Equador, Brasil e Colômbia, mas também coloca em risco dezenas de Povos Indígenas isolados, cuja existência depende da integridade de seus territórios. A degradação e o desmatamento combinados nos colocam diante de um iminente ponto de não retorno que, para nossos povos, se traduz em doenças crônicas como consequência da contaminação, na perda de nossa soberania alimentar devido a metais pesados encontrados nos peixes e na água que bebemos e na violência sistemática contra aqueles que defendem nosso lar. Os bancos, financeiras e outras empresas que investem na região e cujos lucros são derivados da exploração de petróleo são cúmplices da morte de nossas lideranças, de nossas culturas e de nossos modos de vida. Pedimos que os maiores investidores bancários deixem a Amazônia imediatamente.”

Todd Paglia, Diretor Executivo da Stand.earth:

“O relatório Capitalizing on Collapse mostra claramente que os bancos precisam parar de financiar projetos envolvendo petróleo e gás na Amazônia. A plataforma pela exclusão geográfica para abandonar a exploração de petróleo e gás amazônicos (Exit Amazon Oil and Gas) aponta para um dos pilares da iniciativa Amazônia para a Vida: 80 X 2025 e é um caminho claro para os bancos enviarem o sinal de que querem investir no futuro da Amazônia, não em seu colapso. Ao implementar a exclusão de investimentos problemáticos em petróleo e gás em toda a Amazônia, abandonando acordos e relacionamentos que causam destruição e investindo no desenvolvimento econômico ecológico, apoiado pelos Povos Indígenas na região, bancos como JPMorgan Chase, Itaú Unibanco e Citi têm a chance de estar do lado certo da história.”

April Merleaux, Gerente de Pesquisa, Equipe de Clima e Energia, Rainforest Action Network:

“O relatório Capitalizing on Collapse destaca uma importante pesquisa sobre o financiamento bancário destinado à extração de petróleo e gás no bioma amazônico. O caminho mais seguro para manter o aumento das temperaturas globais abaixo de 1,5 ˚C é promulgar os princípios do CLPI (Consentimento Livre, Prévio e Informado) para os Povos Indígenas. A proteção dos direitos humanos e a manutenção dos combustíveis fósseis no solo nos afastarão do Caos Climático. Mas esse relatório mostra que os bancos – inclusive os grandes bancos dos EUA, como o Bank of America e o JPMorgan Chase – estão indo na direção oposta, financiando a destruição nessa região vital. Capitalizing on Collapse lança dúvidas sobre as promessas de zerar as emissões de carbono feitas pelos bancos.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Stand.Earth [Aqui!].

ABC e Ianas reúnem comunidade científica das Américas para debater futuro sustentável da Amazônia

Encontro em Manaus visa apoiar o desenvolvimento de soluções de longo prazo e ancoradas na ciência

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Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Rede Interamericana de Academias de Ciências(Ianas) reúnem em Manaus as Academias de Ciências das Américas para discutir o desenvolvimento de soluções sustentáveis para a região amazônica. O evento Ciência por e para a Amazônia acontece nos dias 2 e 3 de agosto, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

“Um encontro como este para promover a ciência feita na Amazônia e pela Amazônia é central neste momento que estamos vivendo de preparação para a COP30, daqui a dois anos. Sem ciência, não é possível construir a sustentabilidade que buscamos para o planeta como um todo, mas especialmente para o bioma amazônico, tão estratégico para as metas que queremos atingir até 2030”, afirma Helena Nader, presidente da ABC e copresidente da Ianas.

Um dos objetivos da reunião intercontinental é gerar contribuições da comunidade científica para a Cúpula dos Países Amazônicos, que será realizada em Belém na semana seguinte, em 8 e 9 de agosto.

Durante o encontro no Inpa, haverá palestras de atores regionais relevantes, como André Baniwa, diretor do departamento de Territórios na Secretaria de Direitos Ambientais do Ministério dos Povos Indígenas, e María Alexandra Moreira López, secretária-geral da Organização do Tratado da Cooperação Amazônica (OTCA).

Representantes do Painel Científico para a Amazônia (SPA, na sigla em inglês) falarão sobre a construção de um futuro sustentável para a Amazônia. E acadêmicos de todos os países com território amazônico apresentarão suas visões sobre como aliar ciência e políticas públicas para levar mais sustentabilidade à floresta. O vice-presidente da ABC para a Região Norte, Adalberto Val, participará deste debate.

No dia 3, as copresidentes da Ianas, Helena Nader e Karen Strier, vão apresentar a Carta de Manaus, na qual as Academias de Ciências e outras organizações científicas do continente se comprometerão a fortalecer parcerias entre países amazônicos e não amazônicos para desenvolver políticas para restauração e conservação da floresta. A versão final do documento será encaminhada às delegações dos países participantes da Cúpula Amazônica, em Belém.

Credenciamento para a imprensa

Clique aqui para acessar a programação completa do evento, que será fechado para convidados. Jornalistas credenciados poderão participar presencialmente. Para se credenciar, o jornalista deve enviar nome, CPF, veículo de imprensa e contato para o endereço carlacamargo@corcovadoestrategica.com.br até às 18h de terça-feira, 1° de agosto. Haverá ainda transmissão ao vivo no canal da ABC no Youtube.

“Science for and by the Amazon”

Data: 2 e 3 de agosto

Local: Bosque da Ciência – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)

End.: R. Bem-Ti-VI, s/n – Petrópolis, Manaus – AM, 69060-001

Horário: de 9h às 17h40

Xico Graziano e sua insustentável defesa dos agrotóxicos

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O ex-tucano Xico Graziano vem atuando há algum tempo como um defensor das causas impossíveis, o que ficou claro com sua adesão ao ex-presidente Jair Bolsonaro.  Agora, enquanto articulista do site Poder360, Graziano saiu-se com um texto bastante confuso para tentar desmentir algo que já está bem estabelecido na literatura científica, qual seja, a ligação entre agrotóxicos e o desenvolvimento de diferentes tipos de câncer.

Para tentar levar essa empreitada adiante, Graziano usou de um estratagema aparentemente inteligente. Ele acessou a lista de analisou todas as substâncias químicas, processos e fatores supostamente perigosos à saúde humana e propositalmente concentrou sua atenção no chamado grupo 1 que são os agentes considerados como carcinogênicos, com evidências comprovadas. Espertamente Graziano desprezou os grupos 2a e 2b que incluem 822 agentes que ainda não tiveram uma conclusão definitiva, mas que onde estão listados 25 agrotóxicos como potencialmente carcinogênicos em humanos apenas no período compreendido entre 1971 e 2014 (seja provável ou possivelmente).

Se isso não fosse o suficiente, Graziano deixou de acessar o sítio oficial da própria International Agency for Research on Cancer (IARC) onde existem múltiplos estudos associando diferentes agrotóxicos ao desenvolvimento de câncer.  Bastaria ter ido ao site do IARC que Graziano teria encontrado a negação da sua afirmação sobre a inexistência de agrotóxicos no mercado brasileiro com potencial para o desenvolvimento de câncer.  Mas como a intenção dele nunca foi informar, mas confundir, Graziano resolveu brindar os leitores do Poder360 com sua variante de negacionismo científico.

Os agrotóxicos na Europa que abundam no Brasil

Um das principais marcas da onda gigantesca de aprovações de agrotóxicos que começou no governo Bolsonaro e continua mais leve no governo Lula é de que em torno de 30% das substâncias liberadas estão proibidas na Europa por serem danosas ao meio ambiente e à saúde humana.  Entre as razões para tal banimento são justamente as evidências de que parte destas substâncias são potencialmente causadoras de diferentes formas de câncer.

Mas se é assim, por que a IARC não a lista no chamado grupo 1? A razão para isso é que boa parte das evidências clínicas está baseada em experimentos de laboratório que usam ratos como cobaias.  Esses experimentos apesarem de serem aceitos como geradores de evidência para o potencial carcinogênico das substâncias não tem evidentemente o mesmo impacto de terem sido testados em seres humanos, o que sabemos é praticamente impedido pelas normas éticas de realização de pesquisas.

Por outro lado, aqui mesmo no Brasil já temos estudos relacionando a alta exposição a agrotóxicos com o surgimento de taxas mais altas de câncer em determinadas regiões. Um estudo que foi citado por mim foi desenvolvido por um grupo binacional de pesquisadores que estabeleceram uma relação direta entre o alto nível de uso de agrotóxicos, a contaminação de água usada para consumo humano com a incidência de câncer em municípios produtores de grãos na região Oeste do Paraná.

Mas como evidência científica não é o que importa para Xico Graziano, ele tem que lançar mão de seu pequeno estratagema negacionista. Mas que fique claro: agrotóxicos causam câncer.

Mudança climática: recorde de temperaturas sob a cúpula de calor

Eventos climáticos extremos também estão se tornando mais fortes, mais frequentes e mais longos no hemisfério norte

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Ed Hawkins, um cientista climático da Universidade Britânica de Reading, usa tiras de aquecimento para ilustrar o drama da mudança climática no período de 1850 a 2022. O branco representa o centro da temperatura média global anual durante este período, o azul está abaixo, o vermelho está acima. Em comparação com os tempos pré-industriais, aqueceu cerca de 1,1 a 1,2 graus Celsius até o momento – e a tendência é aumentar. Foto: http://www.showyourstripes.info

Por Kurt Stenger para o Neues Deutschland

Julho de 2023 entrará para a história do clima. Ondas de calor extremo vêm ocorrendo em várias regiões do mundo há semanas, inclusive no sudoeste dos EUA e no México, no sul da Europa e na China. As máximas históricas foram alcançadas em muitas estações meteorológicas na República Popular da China, e o recorde nacional de calor foi quebrado em 16 de julho em Sanbao, uma comunidade remota no noroeste, com 52,2 graus Celsius. Um pouco mais tarde, a Catalunha registrou o dia mais quente desde o início dos registros meteorológicos, as temperaturas noturnas mais altas até o momento foram registradas nas Ilhas Cayman, no oeste do Caribe, e o maior tempo em que o termômetro não caiu abaixo de 32 graus em Phoenix (EUA estado do Arizona).

Em muitos lugares, não há dúvida de um verão normal no hemisfério norte este ano. Grandes regiões inteiras estão sob o chamado domo de calor há semanas – isso ocorre quando uma área de alta pressão se instala sobre uma região e retém o calor ali. Como sempre acontece com um evento climático extremo, muitos querem saber se ele é causado pela mudança climática. Essa é a pergunta errada, escreve o meteorologista Karsten Haustein, da Universidade de Leipzig, em uma análise da Helmholtz Climate Initiative. “A correta é: que papel a mudança climática desempenha na frequência de tais eventos?”

É exatamente disso que trata a World Weather Attribution Initiative (WWA). A associação internacional de pesquisadores chegou a uma conclusão clara em um estudo apresentado na terça-feira: um evento como o atual na região dos EUA/México pode ser esperado atualmente a cada 15 anos, no sul da Europa a cada dez anos e na China a cada cinco anos. “Sem a mudança climática causada pelo homem, esses eventos de calor teriam sido extremamente raros”, escrevem os pesquisadores. Na China, tal evento teria ocorrido cerca de uma vez a cada 250 anos, enquanto o pico de calor como julho de 2023 na região dos EUA/México e no sul da Europa seria praticamente impossível. “O resultado deste estudo não é surpreendente”, diz Friederike Otto, cientista do clima do Imperial College London: “O mundo não parou de queimar combustíveis fósseis, o clima continua a aquecer e as ondas de calor estão a tornar-se mais extremas. Tão simples como isso.”

As outras descobertas do trabalho: nem todas as ondas de calor são iguais. Os autores da WWA calcularam que as ondas de calor extremas no clima de hoje são 2,5 graus mais quentes no sul da Europa, 2 graus na América do Norte e cerca de 1 grau na China do que seriam sem as mudanças climáticas causadas pelo homem. E em um mundo 2 graus mais quente que o clima pré-industrial, ondas de calor como a atual ocorreriam a cada dois a cinco anos.

O estudo da WWA usa os insights da pesquisa de atribuição, que avalia as contribuições relativas de vários fatores causais para uma mudança ou evento climático e fornece confiança estatística. As probabilidades de alterar o risco de eventos climáticos extremos são determinadas no computador com base em séries de dados meteorológicos e inúmeras simulações de modelos climáticos. Os pesquisadores de atribuição agora podem fornecer suas análises apenas alguns dias após um evento. Inevitavelmente, esses estudos ainda não foram verificados de forma independente. Isso às vezes causa críticas entre os cientistas, que dizem que o rigor é sacrificado ao ritmo da mídia. No entanto, a metodologia agora é amplamente aceita e estudos importantes foram posteriormente revisados ​​por pares em periódicos revisados ​​por pares.

No entanto, os modelos meteorológicos têm dificuldades com a atribuição das cúpulas de calor. Normalmente, eles estão associados ao comportamento da corrente de jato, uma faixa de ventos rápidos na atmosfera que geralmente serpenteia de oeste para leste. À medida que esses loops ficam maiores, eles se movem mais lentamente e podem parar. O calor pode então se acumular, como é o caso atualmente com as atuais ondas de calor extremo. Uma conexão com a mudança climática é suspeita por alguns, mas não há confirmação até agora.

Os pesquisadores de atribuição se fazem menos perguntas técnicas. De qualquer forma, a WWA não faz apenas uma análise científica, os autores também querem alertar e apontar as consequências para os grupos vulneráveis: “O calor extremo é mortal e está aumentando rapidamente”, diz Julie Arrighi, diretora do centro climático da Cruz Vermelha . É crucial fortalecer os sistemas de alerta, planos de ação contra o calor e investimentos em medidas de adaptação de longo prazo. “Para salvar vidas em calor extremo, devemos cuidar dos mais vulneráveis ​​– incluindo idosos, pessoas com condições médicas subjacentes, sem-teto e comunidades com acesso limitado a espaços frescos”.

No entanto, em 2023 não só os eventos extremos atuais vão se destacar, mas também no que diz respeito à temperatura média global. Avaliações da autoridade de apostas dos EUA, NOAA, e do serviço de mudanças climáticas da UE, Copernicus, mostraram que este ano teve o mês de junho mais quente até agora. Segundo a última estimativa do climatologista-chefe da agência espacial norte-americana Nasa, Gavin Schmidt, julho de 2023 será, inclusive, o mês mais quente do mundo por “centenas, senão milhares de anos”. O ano como um todo também deve ser um dos mais quentes até o momento. E em meados de maio, a Organização Meteorológica Mundial WMO calculou uma probabilidade de dois terços de que pelo menos um dos anos de 2023 a 2027 quebrará o limite de 1,5 grau do acordo climático de Paris. Este ano, em relação ao período pré-industrial, um estará entre mais 1,

Especialmente porque existem outras ondas de calor que estão tendo um grande impacto no clima global: temperaturas anormalmente altas foram registradas no Pacífico e no Atlântico Norte por vários meses. Até o Mar do Norte estava temporariamente cinco graus acima do normal. Ao mesmo tempo, pela primeira vez em sete anos, é muito provável que se desenvolva a anomalia climática do El Niño, que fará com que o Pacífico tropical aqueça significativamente, o que deve ser perceptível nas temperaturas globais e eventos climáticos extremos pelo final deste ano, o mais tardar. Eric Achterberg, do Geomar Helmholtz Center for Ocean Research Kiel, vê uma conexão direta entre as ondas de calor no mar e na terra. “Parece que as ondas de calor marinhas locais são causadas por temperaturas atmosféricas muito aumentadas”, explica ao “nd”. As ondas de calor marinhas ocorrem na superfície ou em águas costeiras rasas. Para ele, também, os efeitos do El Niño são “óbvios”, pelo menos no oeste da América e no leste da Ásia. Apesar dos extremos, o investigador marinho assume que o oceano “continuará a funcionar como um enorme amortecedor de calor”.

Também é importante para Friederike Otto ressaltar que, apesar das atuais ondas de calor, não há evidências de aquecimento descontrolado ou mesmo de colapso climático. “Ainda temos tempo para garantir um futuro seguro e saudável, mas precisamos urgentemente parar de queimar combustíveis fósseis e investir na redução da vulnerabilidade”.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Estudo mostra relação entre agronegócio e taxas de câncer no Mato Grosso

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Foto: Agência Pública/Repórter Brasil

Por Mídia Ninja

Um estudo realizado pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) aponta diversos municípios do estado de Mato Grosso com alta incidência de casos de câncer. No estudo, os pesquisadores ressaltam que a maioria destes municípios mato-grossenses são grandes produtores de commodities agrícolas para exportação e concentram um grande contingente de pessoas envolvidas na agricultura e pecuária, com um menor grau de instrução – dificultando o manejo adequado de agrotóxicos – e maior exposição ocupacional e ambiental e esses produtos.

O estudo, denominado “Ambiente, saúde e agrotóxicos: desafios e perspectivas na defesa da saúde humana, ambiental e do(a) trabalhador(a)”,  tem por objetivo tratar do cenário atual das contaminações por agrotóxicos no ambiente, nas águas, nas populações e classe trabalhadora; os desafios para atuação do poder judiciário e do Ministério Público e a produção de uma vigilância popular; as contribuições de saberes plurais, ancestrais e originários para o enfrentamento da realidade de destruição socioambiental analisada. 

Em um trecho, os pesquisadores questionam o forte apelo em torno do agronegócio, com discursos que defendem a atividade como sendo o melhor negócio para seus países, apresentando alta do Produto Interno Bruto (PIB) e avanços tecnológicos como algumas de suas vantagens.

“De fato, o Brasil é um dos maiores produtores agropecuários do mundo e o segundo maior exportador de commodities, mas a que custos social e ambiental?” pergunta o estudo.

Caso do Mato Grosso

Em maio deste ano, a Mídia NINJA fez uma matéria onde apontou o estado do Mato Grosso como, além de ser o maior produtor do agronegócio do país, também o que mais sofre com acidentes envolvendo agrotóxicos, criando um mercado que é completamente dependente do veneno para que possa ser produtivo.

“Eu chamo esse modelo econômico de modelo químico dependente de fertilizante. Isso leva ao risco sanitário, alimentar, ambiental. É claro que Mato Grosso é campeão nacional de produção de soja, de milho, de algodão, mas também é campeão nacional de consumo de agrotóxico”, destacou o professor Wanderlei Pignati, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso.

Ilustração: Ambiente, saúde e agrotóxicos: desafios e perspectivas na defesa da saúde humana, ambiental e do(a) trabalhador(a)

Acidentes de trabalho

A publicação da UFMT aponta para outro dado importante: o estado do Mato Grosso é também campeão nacional de incidência de acidentes e mortes no trabalho, dos quais 70% estão relacionados ao agronegócio (agropecuária, frigoríficos, usinas de açúcar/álcool, madeireiras e transporte/silagem).

“Em 2020, por exemplo, o Brasil plantou 75,6 milhões de hectares de lavouras em 21 dos maiores tipos de cultivos, nos quais foram pulverizados um total de 1,2 bilhão de litros de agrotóxicos (produtos formulados de herbicidas, inseticidas e fungicidas) e usados 7 bilhões de quilogramas de fertilizantes químicos. Destes agrotóxicos, 15% eram extremamente tóxicos, 25% altamente tóxicos, 35% medianamente tóxicos e 25% são pouco tóxicos na classificação de toxicidade aguda para humanos”, diz o estudo.

Os pesquisadores mostram que a contaminação por esses venenos se dá pela maneira que são manuseados, sendo mecanizados ou não, além da contaminação no próprio consumo.

Ilustração: Ambiente, saúde e agrotóxicos: desafios e perspectivas na defesa da saúde humana, ambiental e do(a) trabalhador(a)

Mais tarde, eles associam também o agronegócio a incidências de câncer no estado. De uma forma geral, os autores do artigo observaram que as maiores taxas da doença ficaram concentradas em municípios das partes Norte, Centro e Sul do estado.

E concluem que “A exposição ambiental e ocupacional por agrotóxicos pode estar relacionada, pois os municípios da região Norte, Centro e Sul do estado com maior concentração de casos são também os maiores produtores agrícolas do Centro-Oeste e com alto consumo de agrotóxicos.”

Em outro estudo chamado “Câncer infantojuvenil: nas regiões mais produtoras e que mais usam agrotóxicos, maior é a morbidade e mortalidade no Mato Grosso”, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso, foi mostrado que durante os oito anos nos quais a pesquisa foi realizada, o estado do Mato Grosso registrou mais de 10,9 mil internações por câncer infantojuvenil, sendo que 30% são crianças de 0 a 4 anos. Além disso, 406 pessoas de 0 a 19 anos morreram por câncer, dos quais 30,7% foram adolescentes e jovens de 15 a 19 anos.

As leucemias foram os tipos de câncer mais presentes entre os pacientes internados, correspondendo a 50,2% dos casos. A leucemia linfóide (quando surge um linfócito imaturo e danificado na medula óssea) causou 37,2% das mortes.

O estudo observou correlação positiva entre o uso médio de agrotóxicos em litros e a média de mortes e internações por câncer infantojuvenil.

O estudo “Ambiente, saúde e agrotóxicos: desafios e perspectivas na defesa da saúde humana, ambiental e do(a) trabalhador(a)” pode ser encontrado no link : EBOOK_Ambiente-saude-e-agrotoxicos.pdf (pedroejoaoeditores.com.br)


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Este texto foi inicialmente publicado pelo Mídia Ninja [Aqui!].

Caatinga tem mais de 480 espécies de plantas e animais ameaçados de extinção

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Todos os biomas do Brasil estendem suas fronteiras para além do limite do país, com exceção da Caatinga, que é o único bioma 100% brasileiro, com predomínio no Nordeste. Mas seu rico patrimônio biológico está ameaçado. Segundo dados da pesquisa Contas de Ecossistemas, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Caatinga tem pelo menos 481 espécies de plantas e animais com risco de extinção, o que torna o bioma o terceiro mais ameaçado à sobrevivência da fauna e flora no País, perdendo apenas para o Cerrado e para a Mata Atlântica, respectivamente.

O estudo analisou 3.220 espécies da Caatinga e concluiu que 15% corre o risco de desaparecimento. O bioma conta com aproximadamente 5.311 tipos de plantas e animais únicos, como o famoso tatu-bola, a jaguatirica e o carcará. “Se engana profundamente quem acredita que a Caatinga é um bioma pobre, seu ecossistema é valioso e não é encontrado em nenhuma outra região do mundo”, destaca Samuel Portela, coordenador técnico da Associação Caatinga.

Segundo Samuel Portela, entre as principais causas dessa devastação estão o uso de lenha como matriz energética e as queimadas para cultivos agrícolas. “Essas ações vão, aos poucos, diminuindo as florestas, matando as plantas e ameaçando o habitat natural dos animais”, explica o coordenador.

Segundo a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Estado (Sema), no Ceará, existem 55 espécies ameaçadas de extinção. Esses animais estão incluídos em uma chamada lista vermelha, que conta com cinco categorias: tartarugas marinhas, mamíferos marinhos, aves, anfíbios e répteis e mamíferos terrestres.

A Associação Caatinga desenvolve diversas iniciativas para preservar o ecossistema. Entre elas está o projeto “RPPN: Conservação voluntária: gerando serviços ambientais”, que visa ampliar e aprimorar a gestão de áreas protegidas legalmente, com foco nas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). “Existem hoje mais de 1.850 RPPNs no Brasil, protegendo mais de 833.000ha de áreas, sendo 44 no Ceará e 8 no Rio Grande do Norte. Estamos focando nesses dois estados, já que eles possuem quase a totalidade dos seus territórios inseridos na Caatinga e apresentam preocupantes dados de desmatamento acumulado”, declara Daniel Fernandes, coordenador geral da Associação Caatinga.

O projeto busca realizar a prospecção de áreas para a criação de futuras RPPNs, elaborar e revisar planos de manejo, realizar cursos de capacitação e apoiar a implementação das ações dos planos de manejo de unidades de conservação já existentes. O “RPPN: Conservação voluntária gerando serviços ambientais” é realizado pela Associação Caatinga e financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) no âmbito do Projeto Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre), que é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e tem o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como agência implementadora e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade – FUNBIO como agência executora.

Sobre a Associação Caatinga

A Associação Caatinga é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, cuja missão é promover a conservação das terras, florestas e águas da Caatinga para garantir a permanência de todas as suas formas de vida. Desde 1998, atua na proteção da Caatinga e no fomento ao desenvolvimento local sustentável, incrementando a resiliência de comunidades rurais à semiaridez e aos efeitos do aquecimento global.