Deputado Flávio Serafini vem a Campos para cumprir agendas na 3a. feira (26/8), duas delas na Uenf

O deputado estadual Flávio Serafini (PSOL), que preside a Comissão de Servisores da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) estará em Campos dos Goytacazes para cumprir uma série de compromissos, dois deles no campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) (ver imagem abaixo).

Essa visita é particularmente importante porque os servidores da Uenf esperam há mais de dois anos pelo envio do seu Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) para a Alerj,  e demandam que o governador Cláudio Castro pague duas parcelas atrasadas de parte das perdas inflacionárias ocorridas nos últimos anos.

Os servidores da Uenf também estão preocupados com a decisão do governador de retirar recursos dos royalties do seu fundo próprio de pensão, o RioPrevidência.  Se o projeto de lei enviado por Cláudio Castro for aprovado é quase certo que haverá muita instabilidade na capacidade de pagamento de pensões e aposentadorias pelo RioPrevidência.

Por isso, a vinda de Flávio Serafini ganha uma relevância espacial, especialmente porque os professores já decidiram que irão paralisar suas atividades no dia 11 de setembro para participar de uma audiência pública que ocorrerá na Alerj para tratar das pautas que deverão ser abordadas nos encontros desta 3a. feira.

Karl Marx como um crítico romântico da alienação

Quanto de ecologia já havia em Marx? Heinrich Detering quer contribuir para essa questão

Marx na verdade inspirou como um teórico materialista – ele também pode ser lido como um amante romântico da natureza?

Marx na verdade inspirou como um teórico materialista – ele também pode ser lido como um amante romântico da natureza? Foto: pixabay 
Por Klaus Weber para o “Neues Deutschland”

Mesmo que pouco mais dos escritos de Marx tenha finalmente penetrado na consciência pública, muitos agora sabem que sua crítica às condições capitalistas não se dirigia apenas à exploração dos trabalhadores, mas também à destruição da “natureza”. Marxistas como Kohei Saito , Simon Schaupp e Donna Haraway podem, portanto, com Marx, atacar a destruição de nossos meios de subsistência através da natureza da economia capitalista. Eles se referem, por exemplo, à maravilhosa frase que escandaliza a propriedade de uma parte da humanidade sobre uma parte muito maior, incluindo a Terra inteira, de uma perspectiva utópica: “Do ponto de vista de uma formação social econômica superior, a propriedade privada de indivíduos no globo parecerá tão absurda quanto a propriedade privada de uma pessoa sobre outra. Mesmo uma sociedade inteira, uma nação, na verdade, todas as sociedades contemporâneas em conjunto, não são donas da Terra. São meramente seus possuidores, seus beneficiários e, como boni patres familias, devem legá-la melhorada às gerações seguintes.”

Mas como é possível que um renomado estudioso da literatura como Heinrich Detering, ordenado diácono em 2019 e membro do Comitê Central dos Católicos Alemães desde 2016, veja Marx, com esta citação, como um pioneiro e coautor de uma crítica ecológica radical da sociedade? Como é possível que alguém que, de outra forma, escreve estudos sobre Thomas Mann, Johann Wolfgang Goethe e outras figuras literárias importantes, estude os escritos de Marx (de ponta a ponta) e admire seu “ecossocialismo”?

Mais humanístico que as pessoas

Detering explora as origens de Marx na poesia romântica da natureza (Wackenroder, Tieck, Günderode, Novalis) e nos poemas que ele próprio escreveu no “Livro do Amor” (“ecoando Goethe”) e no “Livro dos Cânticos” (“com referência explícita a Heine”) na década de 1830. No entanto, a “evocação nostálgica da floresta e da natureza” que Detering reconhece não impede Marx de acusar aqueles que veem a floresta e as árvores como mera propriedade, a serem exploradas exclusivamente em benefício dos ricos, seis anos depois, na famosa série de artigos “Debates sobre a Lei do Roubo de Madeira” (1842). Como as árvores deixam cair sua madeira velha, da qual os pobres precisam desesperadamente para o calor do inverno, Marx as descreve como “um poder amigo, mais humano que o poder humano”.

Afastando-se dos “temas românticos de seus escritos juvenis”, Marx desenvolveu “uma preferência por uma retórica da frieza”, segundo Detering. Em meados da década de 1840, nos “Manuscritos de Paris ” , nos quais a força de trabalho como mercadoria ainda não era tema, ele afirmou: “O trabalho produz maravilhas para os ricos, mas produz degradação para o trabalhador. Produz beleza, mas paralisante para o trabalhador (…). Produz intelecto, mas produz absurdo, cretinismo para o trabalhador.” Para Detering, isso significa: a humanidade é alienada da natureza pelo trabalho capitalista: “Não foi o trabalho original que rompeu o vínculo entre o homem e a natureza. Foi sua transformação em capital que provocou isso.”

Contra Kohei Saito, que descreve como “banal” a afirmação postulada por Marx de que o homem e a natureza não podem existir em sua relação recíproca na realidade, Detering enfatiza a singularidade das considerações de Marx. Suas observações expandem o conceito de natureza e minam as dicotomias simples entre natureza e cultura. Os humanos, portanto, não são apenas parte inescapável da natureza, mas “tudo o que eles produzem, desde a primeira ferramenta até o argumento mais abstrato e a obra de arte mais sutil, é e permanece parte de uma relação entre a natureza e ela mesma “. Para Detering, portanto, em relação ao capitalismo: “Com sua transformação dos meios de trabalho, dos trabalhadores e dos produtos do trabalho em valores de troca, em mercadorias, em capital — este capitalismo é a desordem metabólica fatal deste corpo. É assim não apenas em seus efeitos, mas também em sua própria constituição.”

Gaia romântica kitsch

Por mais que Detering critique o sistema econômico capitalista, ele é incapaz de criticar adequadamente as condições pré-capitalistas; às vezes, elas lhe parecem idílicas e excessivamente harmoniosas. Goethe e Schiller podem ter vivido bem em suas circunstâncias de classe média – mas, para a maioria das pessoas nos séculos XVIII e XIX, a questão central era a sobrevivência em condições de trabalho e dependência, por vezes cruéis. Essa idealização do Romantismo também pode ter levado Detering a pensar em Marx como um precursor da hipótese de Gaia do sociólogo Bruno Latour: “A imagem da família concebida em torno de Gaia, a mãe-terra, percorrerá o capital como um fio condutor . A terra permanece sempre a provedora original, e o ser humano original aparece como seu aluno.” No entanto, Detering não usa “O Capital” de Marx como fonte para sua imagem da família, mas sim os “Manuscritos de Paris” – algo que não pode ser ignorado por um estudioso da literatura.

Da mesma forma, uma crítica àquela “nova sociologia para uma nova sociedade”, na qual o “conceito profano de sociedade deve ser dissolvido”, como postula Bruno Latour, teria sido absolutamente necessária. Para esse “inovador heideggeriano”, como Latour se autodenominava, a “Mãe Terra” e seus filhos sentam-se em um “parlamento das coisas” para punir a humanidade — distinções de classe esquecidas — por sua destruição da natureza. Mesmo que seja duvidoso que “O Capital” trate apenas da Terra como Mãe Natureza, o autor pode demonstrar com inúmeras passagens que, em muitos de seus escritos posteriores, Marx vê a economia “de forma mais profunda e abrangente do que (…) em suas reflexões anteriores, como inserida em contextos naturais”, “dos quais ela é tão dependente quanto a existência contínua da espécie humana”.

Detering conhece a famosa carta de Marx a Vera Zasulich, escrita dois anos antes de sua morte (1883). Nela, ele questiona se “no caminho da libertação (…) é preciso superar as etapas da sociedade capitalista” ou se o estilo de vida e o sistema econômico da “comunidade rural russa autossuficiente” constituem uma forma possível de se alcançar uma comunidade comunista por outros caminhos que não a conquista do poder estatal pela classe trabalhadora. Marx consegue dar à socialista russa uma resposta a essa questão: ela vê a “propriedade comum da terra arável” como um pré-requisito, mas também enfatiza que a falta de identidade nacional dessa forma de propriedade comum e a ameaça representada pelos interesses do capital constituem um grande problema. Somente quando a “propriedade comunista” atinge um estágio mais avançado é que se pode falar de uma mudança na formação. Mas a incerteza de Marx sobre essa questão não deve nos preocupar. Permite-nos considerar por nós mesmos se existem possíveis “ilhas” de comunitarismo e não alienação nas atuais condições sociais que lançam um “vislumbre” (Ernst Bloch) de um mundo diferente e justo.

Curar a alienação?

Embora o Detering católico nunca cite a Bíblia, ele se refere duas vezes ao Gênesis com a Queda do Homem através da “mordida da maçã”: “Esta foi a transgressão da fronteira entre o homem e Deus; para Marx, esta é a ruptura da relação original entre os trabalhadores, de um lado, seu trabalho físico, e a terra como recurso primário, de outro”. Essa “ruptura” do homem com a natureza e do homem consigo mesmo — é “curável” em uma imaginação utópica?

Para Detering, a “saída” reside numa sociedade comunista. No capítulo com este título, ele cita a famosa passagem dos “Manuscritos Econômicos e Filosóficos” de 1844, que – como escreve Brecht – mostra que o comunismo é a coisa simples que é tão difícil de alcançar: ” O comunismo como a abolição positiva da propriedade privada como autoalienação humana e, portanto, como a verdadeira apropriação da natureza humana pelo e para o homem… É a verdadeira resolução do conflito entre o homem e a natureza e entre o homem e o homem.”

Apesar da concepção, às vezes retrógrada, de uma relação entre o homem e a natureza, que ignora as contradições da vida real, o livro de Detering é pelo menos escrito como ele afirma que Marx foi: “Marx escreve de forma poderosa e terna, imaginativa e dura, apaixonada, indignada e empática, e escreve em diálogo contínuo”.

Heinrich Detering: A Revolta da Terra. Karl Marx e a Ecologia. Wallstein 2025, 221 pp., capa dura, € 28.


Fonte: Neues Deutschland

Vento sob demanda cria disputas: excesso parques eólicos offshore rouba capacidade de geração elétrica

As empresas de energia estão chegando a acordos para combater o “roubo de energia eólica” em parques eólicos offshore. Como os grandes rotores roubam a energia uns dos outros 

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Um ladrão mais ousado que o outro: turbinas eólicas são posicionadas de forma inteligente

Por Gerrit Hoekman para o “JungeWelt”

Sem brincadeira: três empresas de energia assinaram um acordo para impedir que umas às outras roubem energia eólica. O acordo, assinado pela Energie Baden-Württemberg (EnBW), pela Jera Nex BP, com sede em Londres, e pela dinamarquesa Ørsted, pode até servir de modelo. Com a construção de parques eólicos offshore cada vez maiores, o “roubo de energia eólica” é um problema sério no setor, podendo até mesmo separar países.

Há vento mais do que suficiente no agitado Mar da Irlanda – qualquer pessoa que já tenha pegado a balsa de Holyhead, no País de Gales, para Dun Laoghaire, na Irlanda, pode confirmar isso. No entanto, surgiu uma disputa entre as três empresas de energia sobre a distribuição justa dessa energia eólica. A EnBW e a Jera Nex BP querem construir o parque eólico “Morgan” ao norte do Mar da Irlanda, que cobrirá aproximadamente 300 quilômetros quadrados. Ørsted, no entanto, já opera o parque eólico offshore “Burbo Bank” nas proximidades. Os dinamarqueses temiam que “Morgan” tirasse o vento de suas velas, ou melhor, de suas pás de rotor. Isso teria um impacto nas vendas e nos lucros – porque é disso que se trata, afinal.

Os detalhes exatos do acordo para resolver a disputa são desconhecidos. A EnBW e a Jera Nex BP declararam apenas na quarta-feira que “estão satisfeitas com o acordo e ansiosas para levar o projeto adiante e trabalhar com Ørsted no futuro”. O planejamento para “Morgan” pode, portanto, continuar.

“As turbinas eólicas são projetadas para capturar o vento do ar. Se você medir atrás de uma turbina eólica, o vento sopra com menos força. Atrás de um parque eólico com muitas turbinas posicionadas próximas umas das outras, a velocidade do vento é significativamente menor”, explicou Remco Verzijlbergh, da Universidade Técnica (TU) de Delft, o fenômeno preocupante na Rádio Belga 1 em maio.

O chamado efeito esteira pode se estender por distâncias de até 100 quilômetros. Um estudo recente da Universidade Belga de Leuven constatou que o novo parque eólico planejado na costa belga poderia reduzir a produção dos outros dez já instalados em mais de 10%. A cada cinco dias de alta produção, as perdas podem chegar a ultrapassar 15%.

O acordo entre a EnBW, a Jera Nex BP e a Ørsted pode ser o primeiro do gênero, mas provavelmente não será o último, visto que os parques eólicos estão cada vez mais próximos uns dos outros. Isso significa que o “roubo de energia eólica” se tornará ainda mais comum no futuro. Os parques eólicos holandeses já estão reclamando. A Universidade Técnica de Delft estima que os parques eólicos na costa da província holandesa de Zelândia geram de dois a três por cento menos eletricidade porque o vento vem principalmente do sudoeste e sopra primeiro pelos parques belgas.

“Mais de 170 turbinas eólicas estão operando na costa da Zelândia. Mas o vento que elas tentam capturar muitas vezes já foi parcialmente roubado”, explicou a emissora regional Omroep Zeeland , que descreveu o problema. Isso não foi intencional, é claro, acrescentou a emissora. Mas as consequências podem ser significativas: “Mesmo uma queda de alguns pontos percentuais na produtividade pode impactar negativamente a situação financeira dos parques eólicos, que tradicionalmente são financiados com dívidas significativas. Em alguns casos, os governos precisam fornecer fundos adicionais para mecanismos de apoio”, segundo o jornal econômico flamengo De Tijd .

Encontrar uma solução é difícil. Pedir para o vento vir de uma direção ou de outra provavelmente é inútil. Pesquisadores já estão considerando como esse efeito pode ser reduzido de outras maneiras. Engenheiros suspeitam que uma leve oscilação das pás do rotor poderia ajudar. “Ninguém sabe ainda se isso vai funcionar, e em que porcentagem”, diz Remco Verzijlbergh, demonstrando paciência. Até lá, certamente seria benéfico se certos parques eólicos fossem um projeto conjunto envolvendo todos os envolvidos, governos e empresas, desde a fase de planejamento. Porque uma coisa é clara: cada novo parque eólico coloca outro em seu vácuo.


Fonte: JungeWelt

Agrotóxicos: Perto de completar 30 anos, farra tributária do ICMS terá R$ 1,93 bi de isenção somente em SP 

Valor previsto na lei orçamentária para 2026 é semelhante ao repasse anunciado pelo governo Tarcísio à saúde de 645 municípios paulistas

Pulverização aérea de agrotóxicos em fazenda no interior paulista. Foto: reprodução vídeo YouTube

Cida de Oliveira 

Passou quase despercebida a prorrogação, em julho, do convênio que desde 1997 garante aos fabricantes de agrotóxicos isenção ou descontos de 60% no ICMS. Principal fonte de recursos dos estados, o imposto incide sobre operações relativas à circulação de mercadorias e prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação. A renovação garante ao setor a continuidade de lucros exorbitantes em todo o Brasil até 31 de dezembro de 2027, quando a mamata tributária completará 30 anos. É difícil calcular a perda de arrecadação dos estados brasileiros em todo esse tempo, mas dá para ter uma ideia. Um estudo do grupo de pesquisa em justiça ambiental, alimentos, saberes e sustentabilidade da Universidade do Vale do Taquari (RS), calculou soma da renúncia de todos os estado e Distrito Federal 2017. E atualizou para valores de 2023 com base no IPCA, encontrando perda de R$ 7,05 bilhões.

Em novembro do ano passado, o lobby do veneno agradeceu ao governador de São Paulo, o bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos) por se antecipar em defesa da manutenção do convênio e pedir ao legislativo paulista providências nesse sentido. Foi mais uma ação generosa do gestor aliado ao agro e defensor da manutenção dos privilégios dos seus barões.

Um dos 26 estados, incluindo o Distrito Federal, que isentaram os agrotóxicos de recolher o imposto em operações internas, além da redução de 60% na alíquota de 18% nas operações interestaduais, SP ocupa o segundo estado no ranking do consumo nacional de agrotóxicos. Faz a festa das fábricas, que venderam 98,2 milhões de toneladas desses produtos em 2023, conforme relatório do Ibama. Perdeu apenas para o Mato Grosso, com 165,6 milhões. Com tanto agrotóxico comprado para despejar sobre lavouras de cana, soja e outras, não chega a causar surpresa a presença de 14 tipos deles na chuva em cidades do interior e da capital. A constatação veio de pesquisa da Unicamp divulgada em março, em uma publicação científica estrangeira. Entre os venenos encontrados estava a atrazina, proibida em diversos países justamente devido aos seus efeitos altamente tóxicos.

Pelas contas da equipe econômica de Tarcísio, a perda paulista com agrotóxicos estará próxima dos R$ 2 bilhões no ano que vem. Mais precisamente R$ 1,93 bi, segundo a Lei de Diretrizes Orçamentárias 2026, aprovada em 1º de julho. Desse total, R$ 1,81 bi vem da redução de 60% na base de cálculo. E R$ 121,8 milhões da isenção total do imposto. O total da renúncia com os agrotóxicos está próximo dos R$ 2 bilhões que Tarcísio repassou em junho último à área da saúde dos 645 municípios paulistas desde que tomou posse, em janeiro de 2023. Entre os quais certamente muitos carentes de recursos para tratar intoxicações e doenças causadas por esses produtos à sua população.

Benefícios a perder de vista

Mas há também previsão de perdas com outros setores do agro que elegeu Tarcísio. A lei prevê mais R$ 1,13 milhão para o setor que inclui agricultura e pecuária”. E ainda R$ 902,5 milhões para “agricultura, pecuária e serviços relacionados”. Com isso o estado fica sem arrecadar R$ 3,92 bilhões. Um montante três vezes maior que o R$ 1,3 bi que o mesmo governo repassou neste ano a 145 instituições conveniadas ao SUS na região Metropolitana de São Paulo.

Enquanto fabricantes como Syngenta, Bayer, Basf e outras fazem a festa nos estados, para desespero de muitos governadores, o da Califórnia aprovou mudanças significativas nas leis que afetam essas indústrias, com aumento na alíquota sobre a venda de agrotóxicos e prazos para a reavaliação. E também reforçar a regulamentação dos produtos, programas de segurança e melhorar a eficiência e a transparência do processo de registro.

O ralo de recursos públicos não se limita a isenções e redução de alíquotas do ICMS. Os fabricantes de agrotóxicos se beneficiam também das isenções em impostos e contribuições federais, que foram sendo concedidas a partir da década de 1990: o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o Imposto de Importação (II), Contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e as Contribuição Social dos Programas de Integração Social (PIS) e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep). A alíquota zero dessas contribuições, aliás, impediram os cofres públicos de arrecadar R$ 8,9 bilhões de 2010 a 2017, conforme um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU). Segundo dados divulgados pela Receita Federal com base em informações declaradas pelas empresas sobre créditos tributários decorrentes de benefícios fiscais, de janeiro a agosto de 2024 os agrotóxicos deixaram de pagar mais de R$ 10,7 bilhões em impostos federais. A Syngenta deixou de recolher R$ 4 bilhões, a Bayer R$ 2,11 bilhões e a Basf, R$ 1,87 bi.

Introduzidos a partir da década de 1990, os incentivos fiscais a esses produtos foram sendo ampliados nos anos seguintes. Inclusive nos governos progressistas, com o mesmo argumento dos fabricantes. Ou seja, de que contribuiriam para tornar os alimentos mais baratos. A falácia, aliás, tenta endossar outra balela do setor: o princípio da seletividade e da essencialidade tributária que justificariam todas essas isenções e benefícios.

Distorções

No entanto, a assessora jurídica da organização Terra de Direitos, Jaqueline Andrade, disse ao Blog do Pedlowski que há, na verdade, uma distorção. “São classificados como produtos essenciais, apesar de serem cientificamente e comprovadamente danosos à saúde e ao meio ambiente”, afirma. “Essa classificação é política, tanto que privilegia determinadas parcelas de grupos econômicos e produtivos do país. Especialmente setores do agronegócio extensivo, com um altíssimo custo à coletividade e à população brasileira, ao patrimônio e ao erário público.”

Como exemplo, ela menciona resultado de estudo dos pesquisadores Marcelo Firpo Porto, da Fiocruz, e Wagner Soares, do IBGE, sobre os impactos negativos à economia da saúde: para cada US$ 1 gasto na compra de agrotóxicos, é gerado um custo de até US$ 1,28 com o tratamento apenas das intoxicações agudas causadas por agrotóxicos.

A organização é amicus curiae na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5.553, que tramita desde 2016 no Supremo Tribunal Federal (STF). Apresentada pelo Partido Solidariedade e Liberdade (Psol), a petição questiona a legalidade de pontos do convênio ICMS 100/97 e da legislação do IPI ao beneficiar agrotóxicos. Segundo a advogada, os argumentos para a criação e renovação do convênio já se provaram insustentáveis e falsos. “O censo agropecuário de 2017 mostra que as pequenas propriedades, de até 100 hectares, as maiores em número no Brasil, cultivadas majoritariamente pela agricultura familiar, afirmam gastar até 4,9% das despesas de produção com agrotóxicos. Por outro lado, as grandes propriedades, com mais de 500 hectares, que representam menos propriedades no Brasil, afirmam gastar mais com agrotóxicos”, ponderou.

Comida, commodities e golpismo

O fato de o Brasil ter 71,2 milhões de hectares plantados, dos quais a soja representa 42%, o milho, 21% e a cana, 13%, conforme estudos da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), é outro aspecto para o qual Jaqueline chama atenção.  “Juntos, estes três cultivos representaram 76% de toda a área plantada do Brasil e foram os que mais consumiram agrotóxicos, correspondendo a 82% de todo o consumo do país em 2015. Paralelamente são as culturas majoritariamente exportadas. Assim, o uso intensivo de agrotóxicos é direcionado para a produção de commodities, não de alimentos”, ressalta.

Em contraposição, como lembra, a produção de alimentos é a menor dependente desses produtos. “O Censo Agropecuário de 2017 mostra que a maioria dos alimentos vem da agricultura familiar. São estes estabelecimentos da agricultura familiar que produzem 69,6% do feijão, 83% da mandioca, 45,6% do milho em grão, 21% do trigo e 38% do café, os quais permanecem no mercado brasileiro para consumo interno da população brasileira. Assim, a tributação dos agrotóxicos impacta quase que de forma insignificante na produção massiva de alimentos no país e no repasse ao consumidor. Impactará grandes proprietários rurais que destinam a produção para exportação e que já são beneficiados por outros incentivos e benefícios no sistema tributário nacional, como é o caso das desonerações para exportações e do financiamento por bancos públicos. É uma escolha que premia poucos, mas impacta muitos.”

Aplicação de agrotóxicos em lavoura de cana, principal cultura do Estado de SP. Foto: Reprodução YouTube

Para além da questão agrícola, a advogada considera os aspectos políticos e ideológicos dos beneficiados pelas isenções aos setores do agronegócio. No caso, a estreita ligação do setor com os financiadores da logística dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. “A relatora Eliziane Gama apontou, por exemplo, o sojicultor Argino Bedin e a Aprosoja — que teve R$ 20 milhões bloqueados — como financiadores de caravanas de caminhões e protestos em Brasília”, lembrou. “Delações, como a de Mauro Cid, também confirmaram que o general Braga Netto buscou recursos junto ao ‘pessoal do agro’ para viabilizar a tentativa de golpe, no custeio de transporte, alimentação e estrutura de acampamentos. Nos resta então perguntar: por que o estado brasileiro beneficiar o agronegócio, ao passo que esse recurso é o mesmo utilizado para a articulação e execução de ações antidemocráticas?”

Justiça social tributária

Advogada e membro do coletivo jurídico Zé Maria do Tomé e da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares, Geovana Patrício acompanha de perto a tramitação da ADI 5.553. Para ela trata-se de uma ação que busca efetivar o princípio da capacidade contributiva e justiça social tributária, segundo a qual quem tem maior capacidade econômica, paga mais. Ou, no caso, paga a tributação regular, tanto que o provimento da ação sequer implica em sobretaxação aos agrotóxicos.

O relator, ministro Edson Fachin, havia marcado julgamento para junho. Mas o cenário inicial não era bom, segundo Geovana Patrício. “Tinha o voto favorável do relator pela procedência, Carmen Lúcia acompanhou, o ministro Gilmar Mendes abriu divergência, pela total improcedência da ação. E foi acompanhado pelo Cristiano Zanin, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes”, lembrou. “André Mendonça abriu uma segunda divergência, reconhecendo, de maneira parcial, a inconstitucionalidade da isenção fiscal. E determinou que União e estados avaliem o benefício e apresentem estudos que justifiquem a continuidade da política. Na opinião dele, os agrotóxicos são danosos e é necessária uma taxação conforme o nível de toxicidade”.

De acordo com a advogada, os assessores jurídicos que assinam a petição do Psol solicitaram a realização de uma audiência pública para aprofundar o debate, o que ocorreu em novembro. (Clique aqui e aqui para conferir a íntegra). O Ministério da Saúde e do Meio Ambiente se manifestaram pela procedência da ação, ao contrário da Agricultura. O que falta, segundo Geovana, é o relator marcar novo julgamento, muito embora o governo federal ainda não tenha apresentado os dados solicitados.

Argumentos e reforma tributária

“A nossa expectativa é que o voto do relator Fachin seja seguido diante de todos os argumentos que foram apresentados em audiência. E que a isenção seja considerada inconstitucional, até porque vai ter um novo debate ano que vem, quando entra em vigor a reforma tributária que colocou na Constituição a redução da alíquota em 60%. A gente considera que isso não é compatível com os preceitos constitucionais. Penso que o relator está avaliando como vai ficar essa questão”.

Em janeiro de 2026 terá início a transição do sistema tributário com vistas à implementação escalonada da reforma, que deverá ser concluída em 2033. Até lá, impostos estaduais, municipais e federais (ICMS,ISS, PIS, COFINS e IPI) deverão ser substituídos pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IS (Imposto Seletivo), com incidência sobre produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. É o caso de cigarros, bebidas alcoólicas e os agrotóxicos. Entretanto, foram novamente agraciados. Vão gozar da redução de 60% na alíquota do IBS. E enquanto isso o governo sanciona, com 11 anos de atraso, o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos. Parece piada.

Leia também:

Rússia pode parar compra de soja brasileira por excesso de agrotóxicos


Cida de Oliveira é jornalista

Escândalo científico: estudo assinado por 63 pesquisadores e liderado pela USP é despublicado por fraude

Um estudo sobre os efeitos de fragmentos do virus SARS-Cov-2 em organismos aquáticos que foi publicado pela “Science of the Total Enviroment” em 2022 acaba de ser “despublicado”  após uma investigação conduzida em nome do periódico por equipe de integridade em Pesquisa e Ética da editora  Elsevier que descobriu irregularidades sérias que teriam cometidas pelos autores.

Uma das descobertas foi que três das revisões do artigo eram fictícias.  A investigação determinou que  três revisões submetidas sob o nome de cientistas conhecidos não foram feitas por eles.  A Elsevier também determinou que os nomes e dados de contato fictícios dos revisores foram submetidos pelo autor de correspondência do autor, o professor Guilherme Malafaia do Instituto Federal de Goiás.

A equipe de integridade em Pesquisa da Elsevier ainda considerou que, embora o artigo tenha sido revisado por revisores adicionais escolhidos pelo Editor da Science of the Total Environent, a violação cometida pelo autor de correspondência comprometeu todo o processo editorial., levando a uma perda perda de confiança na validade/ integridade do artigo e em suas conclusões.

A conclusão inevitável que o artigo deveria ser “despublicado” ( ver imagem abaixo).

Há que se lembrar que Guilherme Malafaia é um velho conhecido de despublicações, e já teve mais 40 artigos despublicados por má conduta científica, incluindo o cometimento de plágio. Uma pergunta que muitos poderão fazer é a seguinte: como um pesquisador com um histórico segue sendo incluído em autoria de artigos? E como um artigo com dezenas de autores, de instituições de ponta, passa por um processo de revisão tão fraudulento em uma revista de tamanha tradição?

Das duas uma: tem mais gente participando de esquemas fraudulentos ou vivemos uma epidemia de ingenuidade correndo solta na comunidade científica brasileira.

Estudantes da UENF são convidados para participar em pesquisa sobre manguezais

Aves e Árvores: Visita à Reserva Biológica de Guaratiba (RJ)

Os professores Carlos Eduardo de Rezende, do Laboratório de Ciências Ambientais do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB), e William Vasquez,  da Fairfield University (EUA),  estão convidando os estudantes da  Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) para participar de uma pesquisa sobre as preferências dos estudantes em relação às reservas florestais de manguezal.

O questionário é simples, leva aproximadamente 15 minutos para ser respondido, e a participação dos estudantes é voluntária, não remunerada e totalmente confidencial. As respostas coletadas contribuirão com dados relevantes para subsidiar políticas públicas e programas voltados ao aprimoramento da gestão dessas áreas. 

Quem desejar  saber mais sobre o projeto e responder ao questionário, deve clicar no link abaixo:

[https://fairfield.iad1.qualtrics.com/…/SV_7WY8pUUBke3tNnE]

Os professores Rezende e Vasquez agradecem antecipadamente a quem se dispuser a participar da pesquisa.

Pesquisas eleitorais e seus resultados (nada) misteriosos: nem tudo que reluz é ouro

Por Douglas Barreto da Mata

O mau do esperto é imaginar que todos à sua volta são tolos.  Pois é.  Em alguns casos, a tentativa de passar a perna em todos acaba por trazer momentos vergonhosos para os “espertos”. As pesquisas eleitorais servem para muita coisa: análises sérias, mas também para propaganda, manipulação de resultados e até auto engano. 

Eu não saberia dizer quais das circunstâncias levou o pré-candidato Rodrigo Bacellar a se expor dessa maneira.  Eu creio que ele não fez isso sozinho, ou só pegou carona na estratégia alheia, ou é um “inocente útil”. Eis a receita dos “alquimistas políticos”, que desejam transformar pedra em metal valioso.

Primeiro, a “inacreditável sabedoria” de suprimir o nome de Wladimir Garotinho, nesta pesquisa Quaest.  O prefeito campista é um dos principais rivais do deputado estadual, e apareceu em segundo, seguido de Washington Reis, e depois, em quarto, o próprio presidente da Alerj, na pesquisa Prefab.

Quem observar os números das duas pesquisas vai poder concluir que Rodrigo só chega a 9%, na pesquisa Quaest, por causa da ausência de Wladimir.  Todos os demais permanecem com números parecidos.  Ou seja, Wladimir vai bem com Rodrigo, mas Rodrigo não resiste à presença de Wladimir no questionário.

Ah, sim, mas o contratante da pesquisa tem o direito de explorar os cenários que deseja.  O contratante, sabemos, é o grupo Globo, ou alguém que contratou a sondagem para ser divulgada pela empresa de comunicação, como principal plataforma de repercussão.

Rodrigo Bacellar embarcou na jogada? Claro, ninguém rejeita um “vento a favor”, porém, correndo o risco do ridículo de acreditar em uma nota de três reais.  O truque fica pior, acreditem. Quem olhar o cartão com os números, nomes e partidos verá que o partido atribuído ao Rodrigo é o PL.  PL, como assim?  Rodrigo Bacellar é do União Brasil/PP.

Por que esse “erro”?  Ora, para induzir o eleitor a acreditar que Rodrigo é o candidato dos Bolsonaro, justamente aqueles que disseram que ele não é candidato dos Bolsonaros, de acordo com Flávio Bolsonaro, que fala pelo pai nesse assunto.

Bem, um leitor ou leitora mais atenta poderá perguntar:  Uai, a pesquisa contratada e amplamente divulgada pela Globo favorecendo a Rodrigo Bacellar, será que a Globo escolheu ele como candidato?  Se ele acredita nisso, ou nos números apresentados, é desespero puro.

Qual é, então, a mão que balança o berço? O que fez essa distorção de colocar o PL como partido de Rodrigo e a supressão do seu principal rival?  Bem, eu não tenho elementos para provar que foi Eduardo Paes, mas ele é o principal beneficiado.  Como? Ora, todas as pedras portuguesas do calçadão de Copacabana sabem que Eduardo Paes quer disputar com Rodrigo Bacellar, e tem pavor de imaginar uma disputa com uma aliança Wladimir com Washington, ainda mais com apoio de Bolsonaro.

Não por outra razão, Eduardo fez gestões para ter um dos dois em sua chapa, e nunca o fez em direção ao Presidente da Alerj, ao menos não publicamente, como fez com os WW. Ao mesmo tempo, inflar Rodrigo é bagunçar o jogo no campo de Wladimir e Washington, ainda mais com o desempenho do campista na pesquisa Prefab, sendo somente a segunda vez que ele aparece em sondagens, e não tendo se declarado candidato. Com a “subida” de Rodrigo, Paes imagina empurrar os WW para seu campo.

A colheita invisível: agrotóxicos, câncer e a crise de saúde no interior do Missouri

Os condados com maior uso de agrotóxicos por quilômetro quadrado estão todos localizados em Bootheel, Missouri. Muitos desses condados têm algumas das maiores taxas de câncer do estado e suas opções de assistência médica estão diminuindo

Um agricultor pulveriza agrotóxicos, que são uma classificação de substâncias utilizadas para proteger as plantações, em 21 de maio de 2025 em Senath, Missouri. Foto de Michael Baniewicz, para o Investigate Midwest 

Unyielding é um projeto da Escola de Jornalismo da Universidade do Missouri para o Investigate Midwest.

Por Alex Cox ,  Adeleine Halsey ,  Kyla Pehr  e  Savvy Sleevar , para Investigate Midwest

KENNETT, MO — Aninhada em Bootheel, Missouri, fica a pequena cidade de Kennett, sede do Condado de Dunklin. Com pouco mais de 10.000 habitantes, é uma comunidade unida onde provocações bem-humoradas são uma demonstração comum de afeto.

Antigamente um grande pântano, hoje é uma extensão de campos planos e férteis, onde a agricultura é a espinha dorsal da economia da região.

As casas de Kennett não ultrapassam um andar e, ao passearem pela rua principal, os visitantes são recebidos por uma mistura de restaurantes, butiques e um aconchegante salão de beleza. Esses prédios são ofuscados por um hospital silencioso e fechado com tábuas, cuja ausência é uma lembrança do que a comunidade perdeu.

É o tipo de comunidade em que, se algo trágico acontece, todos descobrem.

Bobbi Bibbs descobriu isso da maneira mais difícil. Ela descobriu que tinha câncer no cólon em dezembro de 2023, que depois metastatizou para o fígado, tornando-o um diagnóstico de estágio quatro.

Bibbs não está sozinha. O Condado de Dunklin está entre os 10 condados com as maiores taxas desse tipo de câncer no estado. Isso não é apenas uma estatística; Bibbs disse que consegue ver e quase não consegue compreender.

“Há tantos (casos) de onde viemos”, disse Bibbs. “Tipo, tem que estar vindo de algum lugar.”

Bibbs está cercada de pessoas que entendem suas dificuldades, muitas das quais trabalham na indústria agrícola. No Condado de Dunklin, existem centenas de milhares de hectares de plantações — e a maior parte dessas terras está coberta de agrotóxicos.

Estimativas sugerem que milhares de quilos de agrotóxicos são pulverizados em terras agrícolas do Missouri todos os anos. Em alguns lugares, o lodo de esgoto contendo “produtos químicos eternos” — substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas — é  aplicado em terras agrícolas como fertilizante .

Vários estudos científicos exploraram uma conexão entre o uso de agrotóxicos e o câncer, apontando para uma crise silenciosa de saúde pública que atinge particularmente as comunidades rurais.

A Universidade do Missouri (MU), em parceria com a Investigate Midwest, conduziu uma análise condado por condado das taxas de câncer e uso de agrotóxicos, usando os dados mais recentes disponíveis para pesticidas que são repetidamente citados em pesquisas como provavelmente associados ao risco de câncer.

Os seis condados com o maior uso desses agrotóxicos por quilômetro quadrado estão todos localizados em Bootheel, incluindo Dunklin. Quatro desses condados estão entre os 15 com maior índice geral de câncer no Missouri. Todos os condados com as maiores taxas de câncer são rurais.

Então, em Kennett, há altas taxas de uso de produtos químicos, altas taxas de câncer — e o  centro de trauma mais próximo no estado fica a mais de uma hora e meia de distância.

Em outras palavras, é uma típica cidade rural do Missouri.

Colinas verdes e quilos de produtos químicos

Embora o Missouri tenha sua parcela de colinas cobertas por árvores e folhagens selvagens, grande parte da terra é bem desenvolvida para atender às necessidades dos agricultores e suas plantações. Há cerca de 27 milhões de acres de terras agrícolas cultivadas no Missouri e quase 88.000 fazendas, de acordo com o  Centro de Análise de Políticas Agrícolas e Financeiras Rurais .

A maior atividade econômica do estado é a agricultura, empregando cerca de 460.000 pessoas em todo o estado, de acordo com o  Departamento de Agricultura do Missouri . Soja, milho e trigo são algumas das culturas que colorem a maior parte da paisagem do estado.

A agricultura é uma atividade perigosa que exige uma grande quantidade de equipamentos pesados ​​e ferramentas especializadas. Essas ferramentas incluem produtos químicos.

Isain Zapata é um cientista de dados que  pesquisou a relação entre agrotóxicos e a incidência de câncer . Ele analisou misturas complexas de agrotóxicos, adaptadas a culturas específicas, que são pulverizadas em diferentes regiões.

“Quando olhamos para esses agrotóxicos, não se trata apenas de um — é um coquetel”, disse Zapata. “É todo um arco-íris de cores diferentes.”

Ele descobriu que essas combinações coloridas estão fortemente ligadas a certas taxas de câncer em todo o país.

“O linfoma não-Hodgkin e as leucemias estão intimamente associados ao uso de agrotóxicos”, disse Zapata. “Mas também vimos que o uso geral de agrotóxicos tem um efeito sobre todos os outros tipos de câncer não óbvios.”

Outras pesquisas mostram uma associação entre certos pesticidas e um risco aumentado de  câncer de cérebro, próstata ,  mama ,  rins  e cólon.

Agrotóxicos são uma classificação de substâncias usadas para proteger as plantações. Isso inclui matar ervas daninhas, insetos ou até mesmo fortalecer a madeira para evitar que pragas danifiquem a planta. Os agricultores normalmente aplicam agrotóxicos nas plantações usando métodos como pulverização aérea ou equipamentos terrestres.

Os agrotóxicos representam sérios riscos, pois podem prejudicar tanto a saúde humana quanto o meio ambiente. A exposição pode levar a problemas de saúde a curto ou longo prazo, além de contaminar o solo e a água, o que pode perturbar os ecossistemas e afetar a vida selvagem.

Mas os agrotóxicos fazem o que fazem de melhor. Zapata enfatiza que, sem agrotóxicos, as economias baseadas na agricultura e as comunidades a elas vinculadas sofreriam.

“Não sou a favor nem contra agrotóxicos”, disse Zapata. “Sei que precisamos deles. Não gosto deles, mas sei por que precisam estar lá.”

Ele disse que as áreas agrícolas rurais abrigam uma combinação intensa de fatores que multiplicam o nível de risco.

Os agricultores estão sob pressão para manter ou aumentar sua produtividade, e isso tem como custo o uso de compostos que trazem riscos à saúde, disse Zapata. As áreas rurais costumam ser mal atendidas por unidades de saúde, o que significa que muitas vezes há poucos profissionais de saúde e recursos nessas áreas para monitorar e gerenciar o risco adicional do uso de pesticidas.

“É simplesmente a tempestade perfeita”, disse Zapata. “Você combina vários fatores (uso excessivo de pesticidas, regulamentação e monitoramento deficientes, disparidades socioeconômicas) e piora a situação.”

A rodovia de um milhão de acres

Mike Milam é um especialista local em aplicação de agrotóxicos. Baseado em Kennett, ele é especialista de campo em agricultura e meio ambiente na MU Extension, atendendo os condados de Dunklin, New Madrid e Pemiscot.

“Algumas pessoas me disseram, especialmente aquelas que não gostam nem um pouco de produtos químicos, que nossos corpos não foram projetados para respirar esses produtos químicos”, disse Milam. “E elas têm razão.”

O herbicida Roundup é alvo de milhares de processos judiciais alegando que causa câncer, o que o coloca em evidência. Milam listou outros produtos químicos que têm causado preocupação, incluindo paraquate, vydate e dicamba.

Agricultores e trabalhadores contratados para a colheita frequentemente interagem com produtos químicos. Da mistura ao despejo e à pulverização, eles estão presentes em todos os momentos. Eles também se deparam com produtos químicos de outros agricultores quando uma substância pulverizada em uma área se espalha para algum lugar que não deveria.

“Conheci uma situação em que pessoas nos campos foram pulverizadas, ou pulverizaram perto delas, e depois a substância transbordou. E coisas assim”, disse Milam. “Aliás, quando eu estava na pós-graduação, eu estava em um campo na Louisiana, e eles estavam pulverizando bem ao nosso lado. Tivemos que sair do campo.”

A deriva direta ocorre quando um aplicador aplica umagrotóxico e o vento o sopra para outro lugar, tornando o monitoramento das condições climáticas parte integrante do processo. Quanto mais forte o vento, maior o potencial de deriva.

Dito isso, os agricultores têm um prazo limitado para semear e fertilizar seus campos durante a temporada de plantio. As condições climáticas flutuantes podem tornar isso ainda mais difícil. Só nesta primavera, o Bootheel enfrentou tornados,  tempestades de areia  e  inundações históricas , todos com potencial para atrapalhar o trabalho de campo.

“Saímos aqui, plantamos uma safra, ela parece linda, uma enchente a destrói e temos que começar tudo de novo”, disse o senador Jason Bean, republicano de Holcomb, agricultor de Bootheel de quinta geração.

Milam disse que alguns agricultores acabam pulverizando suas plantações quando as condições não são ideais.

“Os agricultores não estão prestando atenção ou simplesmente decidem ir em frente e (se candidatar) de qualquer jeito porque precisam fazer o trabalho”, disse Milam. “Eles estão sob muito estresse, tentando colher as colheitas.”

Jason Mayer, agricultor de quarta geração da Bootheel e um dos diretores da Associação de Soja do Missouri, acredita que, nove em cada dez agricultores estão fazendo a coisa certa. Para ele, são os “maus atores” que vão contra as melhores práticas. Bean compara isso ao excesso de velocidade na rodovia.

Em sua analogia, assim como os motoristas que respeitam o limite de velocidade na estrada, a maioria dos agricultores segue as regras. Assim como sempre haverá aquele motorista ultrapassando todos os outros na faixa da esquerda, haverá agricultores que infringem as regras.

Reguladores agrícolas — como o Departamento de Agricultura do Missouri ou a EPA — atuam como policiais na beira da estrada na metáfora. Eles intervêm quando há suspeita de uso indevido. Os inspetores da Agência de Proteção Ambiental (EPA) podem aparecer a qualquer momento e pedir para ver os registros de um agricultor, disse Milam.

Com milhões de hectares de terras agrícolas no Missouri, essa é uma grande rodovia a ser observada. Portanto, se as agências não flagrarem alguém infringindo as regras, cabe aos fazendeiros locais denunciar seus vizinhos ao órgão estadual de controle de pesticidas.

Bean enfatizou que a aplicação adequada de agrotóxicos não se resume apenas à conformidade, mas também ao melhor interesse do agricultor. O uso indevido desperdiça produtos químicos caros, reduz a eficácia das culturas e diminui a confiança do consumidor nos produtos cultivados localmente.

“Eu diria que somos grandes administradores da terra”, disse Bean. “Vamos continuar assim, porque, no geral, os agricultores querem produzir para o mundo o produto mais seguro e abundante.”

Milam afirmou que a chave é usar os produtos químicos adequadamente para minimizar a exposição. Ele afirmou que usar equipamentos de proteção individual durante a aplicação é uma prática recomendada. Portanto, medidas como usar calças compridas, camisas de manga comprida, máscaras e óculos de proteção são essenciais para o uso seguro.

Bean não acredita que agrotóxicos causem ou aumentem o risco de câncer. Mayer compartilha esse sentimento, enfatizando sua experiência de vida com cultivos e aplicações químicas.

“Hoje, faço 42 anos — graças a Deus —”, disse Mayer. “Ainda sou relativamente jovem, perfeitamente saudável e estou na fazenda desde os 14 anos.”

Esperando em uma sala de espera

Iniciar uma conversa sobre assistência médica em Kennett certamente levará a um tópico: o hospital.

Kennett não tem mais um; o Twin Rivers Regional Medical Center fechou suas portas em 2018.

Para suturas rápidas ou tratamento de infecção, o Pronto-Socorro St. Bernards está aberto todos os dias. Fecha às 19h30, o que significa que os moradores de Kennett precisam ir a outro lugar para receber atendimento noturno.

Há várias opções em condados próximos, ou até mesmo em estados vizinhos, mas se alguém precisar de atendimento de emergência, por exemplo, é preciso caminhar bastante.

Embora haja um Mercy Hospital localizado nas proximidades de Dexter, com um rodízio de médicos especialistas, o centro de trauma mais próximo de Kennett no Missouri fica em Cape Girardeau, a cerca de uma hora e meia de distância.

“(Se) eu tiver um ataque cardíaco às oito horas da noite, ou um derrame, e se (o pronto-socorro) ainda estiver aberto, eles podem me dar aquele pequeno comprimido sofisticado e me ajudar a chegar ao hospital para receber ajuda”, disse Cheryl Bruce, diretora executiva do Dunklin/Stoddard Caring Council, uma organização sediada em Kennett que oferece um programa de serviços de assistência a moradores do Condado de Dunklin com câncer.

O antigo prédio do hospital de Kennett ainda está de pé na rua principal da cidade. As janelas estão fechadas com tábuas, e andar pelos corredores exige desviar de fios e andar na ponta dos pés sobre cacos de vidro.

O atual proprietário está em uma batalha de zoneamento para transformar o hospital em algo. Eles ainda não conseguiram encontrar compradores, pois precisam de várias aprovações da prefeitura para realizar qualquer obra que torne o prédio vendável.

Kennett não é o único a enfrentar o acesso limitado a cuidados de saúde. Desde 2014, 21 hospitais fecharam em todo o estado, incluindo 12 em áreas rurais, de acordo com a Associação de Hospitais do Missouri.

Além disso, o relatório de 2023-2024 do Centro de Qualidade em Assistência Médica e Reforma de Pagamento   descobriu que 26 hospitais rurais no Missouri correm risco de fechamento devido a dificuldades financeiras — nove deles estão em “risco imediato”.

O CEO da Twin Rivers disse em uma declaração de 2018 que o fechamento do hospital foi parte de um esforço para consolidar as operações com o Poplar Bluff Regional Medical Center,  “à medida que a prestação de cuidados de saúde evolui e a inovação médica torna os serviços de internação menos necessários”,   informou a KFVS12 TV na época.

Foi uma perda palpável para Kennett — as pessoas sentem falta do hospital, disse Bruce.

“Quando o hospital fechou, tudo o que todos falavam era: ‘Vamos ter outro?’”, disse Bruce.

De 2020 a 2024, o programa de serviços de assistência ao câncer do Caring Council gastou US$ 22.650 ajudando mais de 400 pessoas com transporte. Para tratamento do câncer, os moradores de Kennett costumam viajar uma hora até Jonesboro, Arkansas, ou uma hora e meia até Cape Girardeau, Missouri. “Seja qual for o tipo de tratamento oncológico que você precisar”, disse Bruce, “você precisa dirigir para obtê-lo”.

A falta de profissionais de saúde também significa que a detecção precoce de problemas médicos, incluindo câncer, pode ser mais difícil.

Alguns programas de transporte para assistência médica estão disponíveis em áreas rurais, mas Bruce disse que vê necessidade em sua comunidade por serviços mais robustos.

“Não estou pedindo um sistema de ônibus como em St. Louis, Kansas City ou Jeff City”, disse Bruce. “Estou apenas pedindo acesso à assistência médica, seja lá o que isso signifique.”

Pulverizado por todos os lados

Aonde quer que você vá em Kennett, sempre haverá alguém que viveu ali a vida toda. Jan McElwrath, secretária municipal de Kennett, é uma dessas pessoas. Além de uma breve passagem pela Universidade do Missouri, ela passou quase todos os seus 68 anos na cidade.

Ela voltou por um motivo clássico: amor. Casou-se, constituiu família e construiu uma vida enraizada nas mesmas ruas onde cresceu.

Ao longo das décadas, ela viu empresas abrirem e fecharem, comemorou inúmeros marcos comunitários e enfrentou desastres naturais. Em meio a tudo isso, McElwrath observou uma constante: apesar das diferentes crenças e opiniões, o povo de Kennett sempre encontra uma maneira de se unir.

“Nossa força é o nosso povo, sem dúvida”, disse ela.

Isto é especialmente importante quando consideramos os desafios únicos da vida rural.

Um índice criado pelo CDC mostra que Dunklin é o condado do Missouri menos preparado para lidar com desafios econômicos ou ambientais. De acordo com a Feeding America,  mais de 20% do Condado de Dunklin sofre de insegurança alimentar , apesar de a região ser coberta por terras agrícolas. Milam afirmou que isso se deve, em grande parte, ao fato de as fazendas em Dunklin serem agronômicas, ou seja, as lavouras nem sempre são cultivadas para consumo humano direto.

“Ajudaria muitas pessoas se tivessem vegetais frescos”, explicou ele.

Com a saída de empregos na indústria de muitas áreas de Bootheel, Kennett sentiu o impacto econômico. Embora a chegada da Cim-Tek Filtration há dois anos tenha trazido de volta alguns empregos na indústria, Kennett perdeu sua fábrica da Emerson Motor Company em 2006.

Uma indústria que permanece é a agricultura.

A terra é pontilhada por plantações de algodão, soja e arroz em fileiras. McElwrath chama as fileiras de algodão prontas para a colheita de “neve do sul”, mas para obter essa neve, os agricultores geralmente precisam dar um empurrãozinho nas plantas com desfolhantes.

A desfolha é um processo natural, embora possa ser induzido artificialmente quando produtos químicos são aplicados às plantas para fazê-las abrir, facilitando a colheita do algodão branco.

McElwrath disse que é difícil notar os agricultores desfolhando no início. Mas então, de repente, seus seios nasais ardem, seus olhos ardem, talvez uma dor de cabeça apareça. Parece sempre acontecer na mesma época todos os anos, bem quando a feira do condado está acontecendo — com a poeira, o solo seco, a corrida de demolição — tudo se misturando.

Os desfolhantes não só aceleram o processo; eles também contribuem para uma qualidade superior do algodão — o que significa que há menos resíduos afetando o produto final. A qualidade determina o valor.

Muitos moradores de Kennett reconhecem a necessidade de desfolhantes e outros produtos químicos agrícolas. Para alguns, é isso que coloca comida na mesa. Mas então chega a época do ano novamente, e todos experimentam aquela sensação familiar.

“Estamos cercados pela agricultura”, disse McElwrath. “Reconhecemos (os produtos químicos) como um risco, mas nossa economia aqui é muito dependente da agricultura.”

(Este artigo faz parte de uma série produzida por alunos da Escola de Jornalismo da Universidade do Missouri.)


Fonte: Investigate Midwest

Presidente da Comissão de Servidores da Alerj, Flávio Serafini visitará Uenf para encontros com servidores

Em meio a uma série de ataques promovidos contra todos os servidores públicos estaduais pelo governo de Cláudio Castro (PL), o presidente da Comissão de Servidores da Alerj, deputado Flávio Serafini (PSOL), vai visitar o campus Leonel Brizola da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) na próxima 3a. feira (26/8) onde deverá manter encontros com professores e servidores (ver imagem abaixo).

O primeiro encontro envolverá uma reunião específica com a diretoria da Aduenf e professores e uma que envolverá outras categorias de servidores, da Uenf e fora dela.

Além da questão do novo Plano de Cargos e Vencimentos dos servidores da Uenf que está engavetado há mais de dois anos e as parcelas não pagas de reposição das perdas inflacionárias, Serafini deverá abordar os recentes ataques promovidos pelo governo de Claúdio Castro contra o caixa do RioPrevidência.

Por outro lado, uma questão que está preocupando os servidores estaduais é a militarização das corregedorias de órgãos públicos, as quais têm acarretado uma série de punições indevidas. No caso da Uenf, a ocupação do posto de corregedor a um policial civil tem gerado bastante preocupação.

Esse encontro é de suma importância não apenas para os servidores da Uenf, mas de outras categorias do serviço público estadual, em especial da área da Educação.

Para beneficiar monocultura de árvores, governo Lula prorroga uso do Imidacloprid que é mortal para as abelhas

O Imidacloprid é um inseticida da classe dos Neonicotinóides que se encontra banido na União Europeia por ser um “bee killer” (ou em bom português, assassino de abelhas).  Pois bem, nesta sexta-feira (22/8), o governo Lula fez publicar o Ato nº 38, de 21 de Agosto de 2025 que oficializa a prorrogação da “autorização de uso do imidacloprid na cultura do pinus, nas modalidades “imersão/rega das bandejas de mudas” ou para aplicação através da rega das mudas após o transplante, conforme definido no Ato nº 71 de 29 de junho de 2022, até o dia 31 de agosto de 2027″.  A razão para tal extensão é o combate à Cinara Atlântica, também conhecida como “pulgão-gigante-do pinus”.

Eu não me surpreenderia nem um pouco se essa extensão de prazo fosse prorrogada novamente em 2027, na medida em que avançam as monoculturas de árvores em todo o território nacional, incluindo espaços generosos para diferentes tipos de pinus.

Há que se lembrar que, por causa da proibição no continente europeu em 2018, o Brasil se tornou um dos principais desitnos desse agrotóxico que é mortal para polinizadores, especialmente as abelhas. Quem agradece a disposição brasileira de consumir Imidacloprid com toda a sede tropical é a multinacional alemã Bayer que fabrica este agrotóxico neonicotinóide. Há que se lembrar que das 13,2 mil toneladas de Imidacloprid exportadas pela Europa em 2021, o Brasil consumiu 6,272 toneladas (ou seja, quase a metade!).