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Doenças infecciosas e resistência antimicrobiana em um ambiente em transformação.
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Biodiversidade e a resiliência da natureza.
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Sistemas de água e alimentos seguros e sustentáveis.
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Transição socioecológica justa.
PROPAG: a nova camisa de força fiscal que ameaça a autonomia do Rio de Janeiro
Estudo de Paulo Lindesay, da Auditoria Cidadã da Dívida, aponta riscos de privatizações, congelamento de investimentos sociais e perda de autonomia federativa
Em meio ao debate sobre o endividamento dos estados brasileiros, uma análise produzida por Paulo Lindesay, coordenador do Núcleo Rio de Janeiro da Auditoria Cidadã da Dívida e diretor da ASSIBGE-SN, lança um olhar crítico sobre o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (PROPAG), instituído pela Lei Complementar nº 212/2025. Segundo Lindesay, o programa está sendo apresentado pelo governo federal como uma solução para a crise fiscal dos estados, mas seus efeitos concretos podem representar um profundo ataque à autonomia administrativa, financeira e patrimonial do Estado do Rio de Janeiro.
A principal crítica da Auditoria Cidadã da Dívida é que o PROPAG não enfrenta a origem do problema do endividamento estadual. Ao contrário, parte da aceitação integral dos valores cobrados pela União, sem qualquer auditoria prévia sobre a legalidade dos contratos, dos juros acumulados ou da prática de anatocismo — a cobrança de juros sobre juros. Para Lindesay, trata-se da consolidação de uma dívida cuja legitimidade jamais foi devidamente investigada.
O caso do Rio de Janeiro é particularmente emblemático. Dados citados no estudo indicam que a dívida consolidada do estado junto à União alcança aproximadamente R$ 205,4 bilhões, resultado da soma dos contratos vinculados à Lei 9.496/97 e ao Regime de Recuperação Fiscal. O aspecto mais impressionante é que, embora o estado tenha refinanciado cerca de R$ 15,2 bilhões em 1999 e já tenha pago mais de R$ 31,8 bilhões ao longo das últimas décadas, o saldo devedor continua crescendo, ultrapassando atualmente R$ 108 bilhões apenas no contrato original. Para Lindesay, isso se trata da demonstração cabal de um modelo que produz uma dívida virtualmente impagável.
Mas é no campo da autonomia federativa que surgem as consequências mais graves. Segundo Lindesay, o PROPAG cria mecanismos que transformam os governadores em meros administradores de um passivo permanente, submetidos às diretrizes fiscais definidas pela União. A adesão ao programa implica abrir mão de parcelas significativas do patrimônio público estadual e comprometer receitas futuras estratégicas.
Entre os ativos potencialmente colocados na mesa estão imóveis públicos, participações societárias e empresas estatais consideradas estratégicas. O estudo menciona inclusive a possibilidade de transferência de ativos ligados à CEDAE, à CEHAB e ao PRODERJ, além de imóveis valorizados localizados em áreas nobres do estado. O Complexo do Maracanã e a área da Aldeia Maracanã aparecem entre os bens citados nos levantamentos realizados pelo governo estadual.
Outra dimensão preocupante é a autorização para antecipação de receitas futuras de royalties do petróleo. Para Lindesay, utilizar recursos provenientes da exploração de petróleo e gás para amortizar dívidas antigas significa comprometer o futuro do estado e retirar verbas que poderiam financiar educação, saúde, infraestrutura e uma eventual transição energética.
Ainda mais alarmante é o comprometimento integral das futuras receitas do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR), criado pela Reforma Tributária. A análise aponta que o Rio de Janeiro poderá hipotecar 100% dos recursos que receberia desse fundo nas próximas décadas para obter condições mais favoráveis no refinanciamento da dívida. Em outras palavras, recursos concebidos para promover desenvolvimento regional poderão ser desviados para alimentar o pagamento de uma dívida cuja legitimidade permanece controversa.
O PROPAG também impõe severas restrições ao gasto público. O artigo 7º da lei estabelece um novo teto de gastos para os estados, limitando a expansão das despesas à inflação medida pelo IPCA. Mesmo quando houver crescimento da arrecadação, parte significativa do ganho será retida para assegurar os compromissos do programa. Segundo a análise da Auditoria Cidadã da Dívida, isso significa que o Rio de Janeiro poderá arrecadar mais, mas continuará impedido de transformar essa arrecadação adicional em melhores serviços públicos ou valorização dos servidores.
Os impactos para o funcionalismo público são especialmente severos. O estudo destaca que os recursos economizados com a redução dos juros não poderão ser utilizados para contratação de pessoal nem para valorização salarial. A consequência prática é a ampliação da sobrecarga de trabalho, o aumento da terceirização e a deterioração das condições de funcionamento dos serviços públicos. O caso da educação é particularmente simbólico: o PROPAG permite construir escolas e comprar equipamentos, mas impede a contratação dos profissionais necessários para fazê-las funcionar adequadamente.
Para Paulo Lindesay, o resultado final é a constituição de um sistema que combina privatização de ativos, congelamento de gastos sociais, restrições à autonomia estadual e fortalecimento dos mecanismos de financeirização da gestão pública. Em vez de resolver o problema da dívida, o PROPAG aprofundaria a dependência financeira dos estados perante a União e consolidaria uma lógica em que a prioridade absoluta é garantir o fluxo de pagamentos aos credores.
Diante desse cenário, a Auditoria Cidadã da Dívida defende a realização de uma auditoria completa da dívida pública fluminense, com participação popular, antes da consolidação definitiva dos débitos. Também propõe a revisão dos mecanismos de cálculo da dívida, o combate à capitalização composta dos juros e a rejeição das restrições que impedem investimentos em pessoal e serviços públicos essenciais.
O debate sobre o PROPAG ultrapassa, portanto, a mera discussão contábil. O que está em jogo é a capacidade futura do estado do Rio de Janeiro de decidir autonomamente sobre seu patrimônio, seus investimentos e suas políticas públicas. Se a análise de Paulo Lindesay estiver correta, o programa representa não apenas uma renegociação da dívida, mas uma profunda reconfiguração das relações federativas brasileiras, com potencial para reduzir drasticamente a margem de decisão dos governos estaduais durante as próximas décadas.
Quem desejar ler a íntegra feita por Paulo Lindesay, basta clicar [Aqui!]. E quem quiser ouvir mais sobre essa contundente análise, Lindesay estará hoje falando sobre o PROPAG na Sala de Multimídia do Centro de Ciências do Homem da Uenf a partir das 14:00 horas.
2 de junho: dia de paralisação e mobilização docente na UENF
Debate reunirá especialistas para discutir como a política de endividamento do Estado do Rio de Janeiro afeta salários, previdência e o futuro das universidades estaduais
Nesta terça-feira, 2 de junho, os docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) realizam uma paralisação das atividades acadêmicas aprovada em Assembleia Docente. O objetivo é fortalecer a mobilização em defesa da recomposição salarial, da valorização da carreira docente, da implantação do Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) e da previdência pública.
Como parte da programação, será realizada, a partir das 14 horas, na sala de Multimídia do CCH, a roda de conversa “Salário, Previdência e Dívida do Estado do Rio de Janeiro”, reunindo o economista Paulo Lindesay, da Auditoria Cidadã da Dívida, e a advogada Verônica Triani, assessora jurídica da ADUENF.
A atividade ocorre em um momento particularmente importante para os servidores públicos estaduais. Após anos de perdas salariais acumuladas, do descumprimento de parcelas da recomposição prevista em lei e da retirada de direitos históricos, como o adicional por tempo de serviço para os novos ingressantes, cresce a necessidade de compreender os mecanismos que condicionam as finanças do Estado do Rio de Janeiro e afetam diretamente a vida dos trabalhadores do serviço público.
Mais do que um debate sobre números, a roda de conversa pretende contribuir para a compreensão das escolhas políticas que têm levado ao sucateamento das universidades estaduais e à desvalorização de seus profissionais. Entender a relação entre dívida pública, orçamento estadual, previdência e política salarial é condição fundamental para fortalecer a capacidade de mobilização da categoria.
A experiência recente demonstra que nenhuma conquista virá sem organização coletiva, participação e pressão política. Por isso, a presença dos docentes é fundamental.
A luta pela recomposição salarial, pela valorização da carreira e pela defesa da universidade pública exige informação, unidade e mobilização.
Chega de perder. É hora de ganhar é o lema dessa mobilização. E como docente da Uenf há quase três décadas, já estou cansado de perder!
El Niño ameaça agravar secas, enchentes e incêndios em um Brasil cada vez mais vulnerável
Com Amazônia e Cerrado sob pressão do desmatamento e das mudanças climáticas, retorno do fenômeno pode ampliar riscos ambientais, sociais e econômicos em todo o nosso país
A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência climática das Nações Unidas, acaba de emitir um alerta preocupante: existe cerca de 80% de probabilidade de que um novo episódio de El Niño se estabeleça entre junho e agosto de 2026, aumentando para 90% a chance de sua permanência até novembro. Ainda que persistam incertezas sobre sua intensidade final, os cenários atuais apontam para um evento de moderado a forte, com potencial para amplificar significativamente os impactos das mudanças climáticas já em curso.
O alerta da ONU não surge em um momento qualquer. O planeta acaba de atravessar uma sequência de anos excepcionalmente quentes. O poderoso El Niño de 2023-2024 contribuiu para que 2024 se tornasse o ano mais quente já registrado, em combinação com o aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis. Agora, a possibilidade de um novo episódio forte do fenômeno preocupa cientistas porque ele atuará sobre uma atmosfera e oceanos que já se encontram muito mais quentes do que em décadas anteriores.
Em termos simples, o El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Embora seja um fenômeno natural, suas consequências são globais. Alterações nos padrões de circulação atmosférica provocam secas severas em algumas regiões e chuvas extremas em outras. O resultado costuma ser uma combinação perigosa de quebras de safra, incêndios florestais, crises hídricas, enchentes e impactos sobre a saúde pública.
O aspecto mais preocupante da atual conjuntura é que o El Niño já não atua sozinho. Diferentemente do que ocorria algumas décadas atrás, ele agora interage com um sistema climático profundamente alterado pela ação humana. Em outras palavras, aquilo que antes era um fenômeno periódico da variabilidade natural do clima tornou-se um multiplicador dos efeitos do aquecimento global. O resultado é a amplificação de eventos extremos, com ondas de calor mais intensas, secas mais prolongadas e precipitações mais destrutivas.
Para o Brasil, os sinais de alerta são particularmente relevantes. Historicamente, episódios de El Niño costumam estar associados à redução das chuvas em partes da Amazônia e do Nordeste, ao mesmo tempo em que favorecem precipitações acima da média no Sul do país. Dependendo da intensidade do fenômeno, isso pode significar a combinação explosiva de secas severas em algumas regiões e enchentes em outras. O episódio de 2023-2024 já demonstrou essa capacidade destrutiva ao contribuir para eventos extremos de precipitação que atingiram o Sul do Brasil.
A situação da Amazônia merece atenção especial. Estudos recentes já indicam que o avanço do desmatamento e das mudanças climáticas está aproximando a maior floresta tropical do mundo de um ponto crítico de transformação ecológica. A chegada de um El Niño forte tende a agravar o déficit hídrico, aumentar a ocorrência de incêndios florestais e ampliar a mortalidade de árvores. Em um cenário em que a floresta já sofre com a perda acelerada de cobertura vegetal, especialmente nas áreas mais desmatadas, um novo período prolongado de seca pode produzir impactos duradouros sobre a biodiversidade, o regime de chuvas e a segurança hídrica de grande parte da América do Sul.
Outro aspecto frequentemente negligenciado é o impacto econômico. O El Niño afeta diretamente a produção agrícola mundial. Reduções de produtividade, perdas de safras e problemas logísticos costumam pressionar os preços dos alimentos. Em um mundo já marcado por conflitos geopolíticos, insegurança alimentar e inflação persistente, novos choques climáticos podem aprofundar desigualdades e ampliar a vulnerabilidade das populações mais pobres.
Diante desse quadro, a mensagem do secretário-geral da ONU, António Guterres, foi direta: o retorno do El Niño deve ser encarado como mais um sinal da urgência de abandonar a dependência dos combustíveis fósseis e acelerar a transição para fontes renováveis de energia. Ao mesmo tempo, a OMM reforçou a necessidade de investimentos em sistemas de alerta precoce, planejamento climático e adaptação das infraestruturas urbanas e rurais.
A questão central, portanto, não é apenas se o próximo El Niño será forte ou moderado. A verdadeira pergunta é se governos, empresas e sociedades aprenderam algo com os eventos extremos que vêm se acumulando ao redor do planeta. As evidências sugerem que não. Enquanto a ciência alerta para riscos crescentes, muitos países continuam expandindo a exploração de petróleo, flexibilizando legislações ambientais e tratando a crise climática como um problema do futuro.
O retorno do El Niño pode ser apenas mais um fenômeno natural. Mas, em um planeta profundamente alterado pela ação humana, seus efeitos dificilmente terão algo de natural.
Agrotóxicos, desmatamento e crise hídrica: como o agronegócio aprofunda as mudanças climáticas no Brasil
A destruição da Amazônia e do Cerrado para expandir monoculturas ameaça os rios, as chuvas e a segurança hídrica de todo o país, enquanto reforça a dependência de um modelo agrícola cada vez mais vulnerável à crise climática
Quando se fala em mudanças climáticas, a atenção costuma se concentrar na queima de combustíveis fósseis. No entanto, no caso brasileiro, a crise climática está intimamente ligada ao modelo agrícola dominante, baseado na expansão de monoculturas, no uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos e no avanço contínuo sobre a Amazônia e o Cerrado.
Segundo o IPCC, a agricultura, a silvicultura e as mudanças no uso da terra respondem por cerca de 22% das emissões globais de gases de efeito estufa, enquanto os sistemas agroalimentares como um todo são responsáveis por aproximadamente um terço das emissões mundiais. Nesse contexto, os agrotóxicos exercem um papel frequentemente negligenciado. Sua produção depende fortemente de combustíveis fósseis, envolve processos industriais intensivos em energia e gera emissões em todas as etapas de sua cadeia produtiva, desde a fabricação até o transporte e a aplicação nas lavouras.
Mas a principal contribuição dos agrotóxicos para a crise climática ocorre de forma indireta. O consumo crescente dessas substâncias está associado à expansão de monoculturas voltadas à exportação, como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, cuja expansão continua sendo um dos principais vetores do desmatamento da Amazônia e do Cerrado.
Na Amazônia, a remoção da cobertura florestal ameaça um dos mais importantes mecanismos reguladores do clima sul-americano. A floresta funciona como uma gigantesca bomba biótica que recicla e transporta umidade por meio dos chamados “rios voadores”, responsáveis por abastecer de chuvas extensas áreas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. À medida que a floresta é derrubada, diminui a evapotranspiração, reduzem-se as chuvas e prolongam-se os períodos de seca. Estudos recentes indicam que a combinação entre desmatamento e aquecimento global pode provocar reduções expressivas na precipitação e ampliar significativamente a duração da estação seca em partes da Amazônia.
Entretanto, se a Amazônia é essencial para a produção de chuvas, o Cerrado desempenha papel ainda mais estratégico na segurança hídrica nacional. Conhecido como o “berço das águas” ou a “caixa d’água do Brasil”, o bioma abriga as nascentes que alimentam algumas das principais bacias hidrográficas da América do Sul, incluindo os sistemas Amazônico, Tocantins-Araguaia, São Francisco e Paraná-Paraguai.
A importância do Cerrado decorre de uma característica singular: sua vegetação possui sistemas radiculares profundos, capazes de infiltrar grandes volumes de água no solo e alimentar aquíferos subterrâneos. Essa dinâmica garante a manutenção dos fluxos hídricos durante os períodos secos e sustenta rios que abastecem cidades, hidrelétricas e sistemas de irrigação em grande parte do território brasileiro.
Apesar dessa importância estratégica, o Cerrado tornou-se a principal fronteira de expansão do agronegócio brasileiro. Estima-se que cerca de metade de sua cobertura original já tenha sido destruída. A substituição da vegetação nativa por monoculturas mecanizadas reduz a infiltração de água, aumenta a erosão, diminui a recarga dos aquíferos e compromete a vazão dos rios. Como resultado, observam-se atrasos no início das chuvas, redução da precipitação média e crescente instabilidade hídrica em diversas regiões do país.
O problema torna-se ainda mais grave porque mudanças climáticas e uso de agrotóxicos formam um círculo vicioso. O aumento das temperaturas e das secas favorece a proliferação de pragas agrícolas, levando ao uso crescente desses produtos químicos. Ao mesmo tempo, a expansão das monoculturas dependentes agrotóxicos estimula novos desmatamentos, ampliando as emissões de gases de efeito estufa e aprofundando as alterações climáticas.
As consequências já são perceptíveis: secas mais frequentes, grande redução da vazão de rios, insegurança energética, perda de biodiversidade e crescente competição pelo acesso à água. Em outras palavras, o mesmo modelo agrícola que se apresenta como motor do crescimento econômico está contribuindo para enfraquecer os sistemas ecológicos que garantem a produção de chuvas, o armazenamento de água e a estabilidade climática dos quais depende a própria agricultura.
Por essa razão, a preservação da Amazônia e do Cerrado não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, já que se trata de uma condição indispensável para garantir segurança hídrica, estabilidade climática, produção de energia, soberania alimentar e desenvolvimento econômico de longo prazo. Continuar destruindo esses biomas para expandir monoculturas dependentes de agrotóxicos significa comprometer as bases naturais que sustentam o futuro do próprio Brasil.
Retrocessos na legislação ambiental: o paradoxo do caso brasileiro
Por Paulo Abrão para “Brazil Office ALLIANCE”
A ofensiva coordenada da bancada rural no Congresso Nacional do Brasil nesta semana representa talvez uma das mais significativas reconfigurações institucionais da política ambiental brasileira desde o governo Bolsonaro. Sob o pretexto de “modernização”, “segurança jurídica” e “desburocratização”, um conjunto de projetos aprovados ou acelerados pela Câmara dos Deputados altera profundamente os mecanismos de fiscalização ambiental, amplia o poder político do agronegócio sobre as estruturas regulatórias estaduais e reduz os instrumentos de proteção de biomas estratégicos.
Não se trata apenas de uma disputa setorial sobre licenciamento ou produção agrícola. O que está em curso é uma disputa mais ampla sobre quem controla os instrumentos do Estado brasileiro responsáveis pela regulamentação do uso da terra, dos recursos naturais, das cadeias de exportação e dos compromissos climáticos internacionais.
Entre os projetos mais controversos está a proposta que limita os chamados “embargos remotos”, dificultando o uso de imagens de satélite por órgãos ambientais para bloquear áreas desmatadas ilegalmente. Na prática, a medida enfraquece um dos principais instrumentos responsáveis pela recente redução do desmatamento na Amazônia. Outro projeto de lei amplia significativamente a influência do Ministério da Agricultura sobre decisões técnico-ambientais relacionadas a espécies de interesse econômico, alterando o equilíbrio histórico entre produção, proteção ambiental e regulamentação sanitária. Simultaneamente, avança com o relaxamento da proteção da vegetação nativa em biomas como Cerrado, Caatinga, Pantanal e Pampa, regiões cada vez mais pressionadas pela expansão da agricultura.
O simbolismo político do movimento é significativo. A chamada “Semana do Agronegócio” no Parlamento tornou-se uma demonstração pública de força da coalizão rural em um momento em que o governo Lula enfrenta crescentes dificuldades para manter uma maioria estável no Legislativo. Mais do que simples derrotas isoladas para o governo Lula da Silva, o episódio revela um processo de fragmentação do poder no sistema político brasileiro, no qual setores organizados do Congresso atuam cada vez mais como formuladores autônomos de agendas estruturais de Estado.
A reação do Ministério do Meio Ambiente foi excepcionalmente intensa. Autoridades governamentais classificaram as medidas como um “retrocesso inimaginável” e alertaram para impactos institucionais de longo prazo na governança ambiental brasileira. Organizações da sociedade civil e especialistas voltaram a usar a expressão “passar o boiado”, que significa literalmente “deixar a manada passar”, uma expressão brasileira que se refere à aprovação de projetos questionáveis do ponto de vista legal e ambiental, em benefício de interesses empresariais. Seu uso é uma referência direta à expressão popularizada durante o governo Bolsonaro, simbolizando a estratégia de flexibilização acelerada das normas ambientais em períodos de baixa atenção pública. Ao mesmo tempo, o debate ocorre enquanto os holofotes políticos e midiáticos do país permanecem voltados para o megaescândalo de corrupção envolvendo o Banco Master, desviando a atenção pública de mudanças estruturais profundas.
Mas talvez um dos elementos mais importantes desse retrocesso legislativo esteja fora do Brasil. As mudanças ocorrem justamente no momento em que o país anuncia a menor taxa de desmatamento na Amazônia nos últimos dez anos, graças à recuperação de sua capacidade de fiscalização ambiental, e quando a agenda climática se torna uma variável central na geopolítica econômica global. A União Europeia, fundos de investimento, cadeias de comércio internacional e mecanismos multilaterais caminham para exigir uma rastreabilidade ambiental cada vez mais rigorosa das commodities agrícolas. Novas legislações europeias contra o desmatamento, por exemplo, podem impor barreiras concretas a produtos associados à destruição ambiental. Tudo isso ocorre precisamente no contexto da entrada em vigor do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Ao mesmo tempo, a resolução da ONU recentemente aprovada sobre a responsabilidade dos Estados pelas mudanças climáticas aumenta a pressão internacional por mecanismos de responsabilização jurídica e política relacionados ao cumprimento dos compromissos ambientais.
O paradoxo brasileiro torna-se, então, ainda mais evidente. Enquanto o país busca projetar uma imagem de liderança climática internacionalmente, especialmente após a COP30, setores decisivos do sistema político atuam internamente para reduzir a capacidade regulatória do próprio Estado ambiental.
É provável que o tema ocupe uma posição cada vez mais central nas eleições de 2026. Não apenas por sua relevância ambiental intrínseca, mas também por ter se tornado um ponto de convergência entre disputas sobre modelos econômicos, o papel do Estado, a inserção internacional e o lugar estratégico que o Brasil pretende ocupar na reorganização em curso da ordem global.
Paulo Abrão é o Diretor Executivo do Escritório de Washington, Brasil (WBO). Foi Secretário Nacional de Justiça do Brasil. Também atuou como Secretário Executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos e como Diretor do Instituto de Direitos Humanos do Mercosul. Foi pesquisador visitante no Instituto Watson de Assuntos Internacionais e Públicos da Universidade Brown.
Fonte: Brazil Office Alliance
Dos guardanapos em Paris ao bife de ouro em Nova York: a persistência da elite fluminense desconectada dos pobres
Guardanapos na cabeça em Paris, bifes cobertos de ouro em Nova York: mudam os personagens e os cenários, mas permanece a mesma cultura política de ostentação e intimidade entre poder econômico e poder estatal
O contraste entre a chamada “farra dos guardanapos”, eternizada nas imagens de Sérgio Cabral e sua corte política em um restaurante de luxo em Paris, e as recentes revelações sobre os jantares milionários de Daniel Vorcaro com Cláudio Castro não é apenas uma coincidência histórica. Trata-se, na verdade, da manifestação contínua de uma mesma cultura política que parece atravessar diferentes governos e personagens do Rio de Janeiro: a naturalização do luxo obsceno em meio à deterioração das condições de vida da maioria da população fluminense.
Quando as fotografias da “farra dos guardanapos” vieram a público, elas causaram indignação porque simbolizavam algo maior do que uma simples festa. O episódio expunha um grupo de autoridades, empresários e operadores políticos celebrando em Paris enquanto o Rio de Janeiro já acumulava problemas estruturais em áreas fundamentais como saúde, educação, segurança pública e saneamento. Aquelas imagens acabaram se tornando um símbolo da distância que separava os ocupantes do poder da população que sofria os efeitos de uma gestão pública marcada por desperdícios, corrupção e prioridades invertidas.
Mais de uma década depois, o roteiro parece se repetir. Agora, o cenário não é um restaurante parisiense, mas encontros realizados em Nova York, marcados por degustações de uísque avaliadas em milhões de reais, vinhos que custam milhares de reais a garrafa e refeições que incluem os famosos bifes cobertos por folhas de ouro. Segundo as investigações em curso, esses encontros ocorreram em um contexto marcado por negociações envolvendo aportes do Rioprevidência no Banco Master, instituição ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro. As mensagens obtidas pelos investigadores indicam uma relação de proximidade que ultrapassava em muito os limites esperados entre um governador e um empresário beneficiado por decisões do poder público.
Há ainda um aspecto simbólico que torna a comparação entre os dois episódios ainda mais contundente. Assim como a famosa “farra dos guardanapos” ocorreu em Paris, as revelações envolvendo Cláudio Castro e Daniel Vorcaro apontam para encontros cercados por luxo extravagante em Nova York. Não se trata de um detalhe irrelevante. Em ambos os casos, membros das elites políticas e econômicas fluminenses demonstram uma particular predileção por celebrar seus privilégios em cenários internacionais de altíssimo padrão, longe da realidade cotidiana da população que vive no Brasil. Enquanto servidores públicos enfrentam perdas salariais acumuladas, aposentados e pensionistas convivem com a insegurança quanto ao futuro do Rioprevidência e milhões de fluminenses lidam diariamente com problemas de transporte, saúde, educação e segurança pública, seus governantes e aliados empresariais brindam em mesas sofisticadas de Paris ou Nova York. O recado transmitido por essas imagens é devastador: para uma parcela da elite dirigente, o Rio de Janeiro parece ser apenas o território de onde se extraem recursos e poder, enquanto os prazeres da vida são desfrutados em destinos exclusivos do exterior.
O aspecto mais perturbador não é apenas o valor extravagante dessas experiências de luxo. É a circunstância em que elas ocorrem. O Rio de Janeiro vive há anos uma situação de crise permanente. O estado acumula déficits fiscais, convive com hospitais sucateados, escolas sem infraestrutura adequada, servidores públicos submetidos a perdas salariais históricas e uma previdência social constantemente apresentada como ameaçada por desequilíbrios financeiros. Ao mesmo tempo, diversas regiões fluminenses enfrentam graves problemas ambientais, desde a contaminação industrial até a degradação de ecossistemas costeiros e urbanos.
Nesse contexto, a imagem de governantes degustando uísques milionários ou participando de banquetes extravagantes assume um significado político devastador. Não se trata apenas de ostentação. Trata-se da demonstração pública de que existe uma elite dirigente que parece acreditar estar completamente protegida das consequências de suas próprias decisões.
A “farra dos guardanapos” acabou se tornando um dos símbolos da derrocada política e judicial de Sérgio Cabral. O que as investigações posteriores mostraram foi que aquela celebração não representava um desvio isolado de comportamento, mas fazia parte de um ambiente onde a promiscuidade entre interesses públicos e privados havia se tornado regra. O episódio passou a ser visto como uma metáfora visual de um sistema de corrupção que drenava recursos públicos enquanto exibia riqueza e poder sem qualquer constrangimento.
As revelações envolvendo Cláudio Castro e Daniel Vorcaro produzem sensação semelhante porque reativam a memória coletiva de um estado que já experimentou os custos sociais dessa mistura entre luxo privado e gestão pública. A repetição dos símbolos (jantares exclusivos, bebidas raríssimas, encontros reservados entre governantes e grandes empresários) sugere que, apesar das sucessivas operações policiais, prisões e escândalos, a cultura da impunidade continua profundamente enraizada.
Talvez o elemento mais grave seja justamente o contraste moral que emerge dessas situações. Enquanto aposentados e pensionistas convivem com incertezas sobre a sustentabilidade do Rioprevidência, enquanto servidores acumulam perdas inflacionárias e comunidades inteiras enfrentam carências básicas, parte das elites políticas e econômicas fluminenses parece viver em um universo paralelo, marcado por um consumo ostensivo que funciona quase como uma celebração da desigualdade.
O guardanapo amarrado na cabeça em Paris e o bife coberto de ouro servido em Nova York pertencem a épocas diferentes, mas expressam a mesma lógica política. Ambos se transformaram em símbolos de uma elite que parece incapaz de compreender os limites éticos entre a gestão da coisa pública e a busca incessante por privilégios privados. Mais do que demonstrações de riqueza, são retratos de um poder que se sente suficientemente protegido para ostentar luxo extremo enquanto grande parte da população enfrenta dificuldades crescentes.
A repetição desse padrão sugere não apenas uma cultura de impunidade, mas também um profundo desprezo pelas condições concretas de vida da maioria dos cidadãos que sustentam, com seus impostos e trabalho, as estruturas do Estado. Em vez de aprender com os escândalos do passado, parte das elites fluminenses parece apenas trocar Paris por Nova York, os guardanapos pelos bifes de ouro e os personagens principais, preservando intacta a convicção de que os excessos continuarão sem consequências.
O caso torna-se ainda mais grave quando se observa que os episódios não envolvem apenas extravagâncias privadas. Eles aparecem associados a decisões que podem ter provocado impactos concretos sobre os cofres públicos e sobre o futuro de instituições fundamentais para milhares de famílias fluminenses. Quando governantes responsáveis pela gestão de recursos públicos aparecem desfrutando de luxos incompatíveis com a realidade da população que representam, em companhia de empresários potencialmente beneficiados por decisões estatais, o problema deixa de ser apenas moral e passa a ser político. Afinal, a mensagem transmitida é a de que há uma elite que governa para si mesma, protegida por relações de influência e convencida de que jamais precisará prestar contas de seus atos.
Enquanto isso, o Rio de Janeiro segue convivendo com hospitais precários, escolas carentes de investimentos, servidores desvalorizados, aposentados inseguros e uma crise ambiental que avança sobre diferentes regiões do estado. O contraste entre essas dificuldades e os banquetes de Paris ou Nova York é tão chocante quanto revelador. Ele expõe um modelo de poder profundamente dissociado das necessidades coletivas e ajuda a explicar por que tantos cidadãos enxergam as instituições públicas com crescente desconfiança. Afinal, para quem observa de fora, parece difícil acreditar que aqueles que brindam com uísques milionários e bifes cobertos de ouro estejam verdadeiramente preocupados com os problemas enfrentados pela população comum.
Colonialismo químico: a Europa proíbe, mas vende ao Brasil
Dados revelam que dezenas de agrotóxicos considerados perigosos demais para uso na União Europeia seguem sendo comercializados livremente no Brasil, num modelo que transfere riscos ambientais e sanitários para os países periféricos
O debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil ganhou novos contornos a partir da divulgação de dados que revelam uma realidade alarmante: o país continua permitindo e consumindo em larga escala substâncias que já foram consideradas perigosas demais para serem utilizadas na União Europeia. O problema não é apenas ambiental ou sanitário. Trata-se também de uma questão ética e geopolítica que expõe a profunda desigualdade existente na governança global dos riscos químicos.
Levantamento realizado pelo Campo Grande News, com base em dados do Ibama, mostrou que seis dos dez ingredientes ativos mais comercializados em Mato Grosso do Sul são proibidos na União Europeia. Entre eles estão o acefato, o clorotalonil, a atrazina, o mancozebe, o metomil e o glufosinato de amônio, substâncias associadas a diferentes riscos ambientais e à saúde humana.
O mais grave é que esse não parece ser um fenômeno isolado. Um levantamento técnico feito por técnicos do próprio Ministério da Agricultura identificou que o Brasil autoriza atualmente o uso de 147 ingredientes ativos proibidos na União Europeia. O mesmo estudo apontou ainda 306 casos em que resíduos de agrotóxicos presentes em produtos brasileiros exportados superavam os níveis de detecção aceitos pelas autoridades sanitárias europeias. O próprio governo brasileiro reconheceu que essa situação representa uma vulnerabilidade para as exportações nacionais.
Mas o aspecto mais perturbador dessa história vai muito além das possíveis barreiras comerciais. A pergunta central deveria ser outra: se essas substâncias são consideradas perigosas demais para serem utilizadas em países europeus, por que sua aplicação continua sendo amplamente permitida sobre trabalhadores rurais, comunidades do campo e consumidores brasileiros?
A resposta remete a uma das maiores contradições do sistema agroalimentar global. Muitas das empresas que produzem esses agrotóxicos têm sede justamente em países europeus. Em outras palavras, substâncias consideradas inadequadas para aplicação nos territórios da União Europeia continuam sendo fabricadas por empresas do próprio continente e exportadas para países do Sul Global, incluindo o Brasil. Trata-se de uma forma contemporânea de colonialismo químico, na qual os riscos são deslocados para regiões periféricas enquanto os países centrais preservam padrões mais elevados de proteção ambiental e sanitária para suas próprias populações.
A hipocrisia torna-se ainda mais evidente quando a União Europeia endurece os controles sobre resíduos químicos em alimentos importados. O bloco restringe a entrada de produtos agrícolas contaminados por substâncias que ele mesmo proibiu, mas fecha os olhos para o fato de que muitas dessas moléculas continuam sendo produzidas por corporações europeias e vendidas agressivamente para mercados como o brasileiro.
O resultado é um modelo perverso. De um lado, agricultores brasileiros são induzidos a utilizar substâncias altamente perigosas disponibilizadas por multinacionais químicas. De outro, quando os resíduos desses produtos aparecem nos alimentos exportados, a responsabilidade recai exclusivamente sobre os produtores e sobre o país exportador. Os lucros permanecem concentrados nas empresas fabricantes, enquanto os riscos ambientais, sanitários e econômicos são socializados entre trabalhadores rurais, consumidores e ecossistemas do Sul Global.
A permanência desse quadro também ajuda a explicar o crescimento das preocupações relacionadas à contaminação de solos, águas superficiais e subterrâneas, além dos potenciais impactos sobre polinizadores e biodiversidade. Diversas das substâncias que aparecem nas listas de restrição europeia acumulam histórico de controvérsias científicas relacionadas à toxicidade ambiental e aos possíveis efeitos sobre a saúde humana.
Por isso, a discussão não pode ficar limitada ao risco de perda de mercados internacionais. O verdadeiro escândalo é que milhões de brasileiros continuem expostos diariamente a compostos que já foram considerados incompatíveis com os padrões de segurança adotados em países centrais. Ao mesmo tempo, é necessário denunciar a dupla moral da União Europeia, que se apresenta como referência mundial em sustentabilidade enquanto permite que suas empresas transformem o Sul Global em destino preferencial para substâncias que ela própria rejeitou.
Enquanto a lógica da exportação de riscos prevalecer sobre a proteção da saúde pública e do meio ambiente, o Brasil continuará ocupando a desconfortável posição de grande consumidor de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo — uma situação que revela tanto a força do lobby químico quanto as profundas assimetrias que marcam o comércio internacional contemporâneo
Docentes da UENF realizam paralisação em 2 de junho e reforçam mobilização em defesa da universidade pública
Movimento denuncia perdas salariais, ataques à previdência e falta de valorização das universidades estaduais fluminenses
No próximo dia 2 de junho, os docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) realizarão uma paralisação de 24 horas como forma de protesto contra a contínua desvalorização salarial, os ataques à previdência pública e a falta de investimentos adequados nas universidades estaduais do Rio de Janeiro. A mobilização foi aprovada pela categoria em meio ao crescente descontentamento com a ausência de respostas concretas do governo estadual para demandas históricas dos servidores públicos.
A paralisação ocorre em um contexto marcado pela corrosão do poder de compra dos salários, pelo agravamento das condições de trabalho e pelas incertezas em torno do futuro da previdência dos servidores. Além disso, há que se lembrar que a proposta do novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) está tramitando e sem resolução desde maio de 2021, o que agrava o quadro de perdas salariais que já alcança mais de 60%. Para os docentes, a defesa da universidade pública passa necessariamente pela valorização de seus trabalhadores e pela garantia de financiamento adequado para as instituições de ensino superior.
A Uenf, reconhecida nacionalmente pela qualidade de sua produção científica, pela formação de recursos humanos e pela contribuição ao desenvolvimento regional, enfrenta desafios cada vez maiores para manter suas atividades acadêmicas, de pesquisa e extensão. Enquanto cresce a cobrança por resultados e inovação, persistem problemas relacionados à insuficiência de recursos e à falta de políticas efetivas de valorização dos profissionais que sustentam a universidade pública.
Como parte da programação do dia de mobilização, será realizada uma roda de conversa com o tema “Salário, Previdência e Dívida do Estado do Rio de Janeiro”, que contará com a participação de Paulo Lindesay, coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida – Núcleo RJ. O debate ocorrerá a partir das 14 horas, na Sala de Multimídia do CCH, e buscará discutir os impactos da política de endividamento estadual sobre o financiamento das universidades públicas e dos serviços essenciais.
A atividade pretende contribuir para ampliar a compreensão sobre as escolhas econômicas e políticas que afetam diretamente a educação superior pública, ao mesmo tempo em que fortalece a construção coletiva de alternativas para a defesa dos direitos dos servidores e da população.
Mais do que uma reivindicação corporativa, a paralisação do dia 2 de junho representa um chamado à reflexão sobre o papel estratégico das universidades públicas para o desenvolvimento científico, tecnológico e social do estado do Rio de Janeiro. Em um momento de crescentes desafios para a educação pública brasileira, a mobilização dos docentes da Uenf reafirma a necessidade de fortalecer instituições que produzem conhecimento, formam profissionais qualificados e contribuem para a construção de uma sociedade mais justa e democrática.
Chega de perder, é hora de ganhar. Em defesa da Uenf, dos direitos dos servidores e da educação pública.
A universidade do adoecimento: quando a produção do conhecimento passa a consumir seus próprios trabalhadores
A enquete do ANDES-SN revela a face humana da crise estrutural da educação pública brasileira
Durante muito tempo, consolidou-se no imaginário social a ideia de que a carreira docente no ensino superior público representaria uma posição privilegiada, marcada por autonomia intelectual, estabilidade e condições favoráveis para a produção do conhecimento. A Enquete Nacional sobre Condições de Trabalho e Saúde Docente realizada pelo ANDES-SN desmonta essa narrativa ao revelar um cenário marcado pela intensificação do trabalho, pelo adoecimento crescente e pela deterioração das condições materiais de exercício da docência.
Inspirada metodologicamente na tradição da Enquete Operária de Karl Marx, a pesquisa busca não apenas levantar dados, mas compreender a experiência concreta dos trabalhadores da educação superior e transformá-la em instrumento de organização política e sindical. Trata-se de uma iniciativa particularmente relevante em um período em que a universidade pública brasileira vem sendo submetida a sucessivos processos de desfinanciamento e reestruturação gerencial. A própria apresentação da pesquisa destaca a intenção de combinar rigor científico e intervenção política, recolocando a produção de conhecimento a serviço da compreensão crítica das condições de trabalho.
Os resultados preliminares da primeira etapa, realizada com 1.874 docentes de 11 instituições públicas, já indicavam tendências preocupantes. A pesquisa identificou jornadas extensas, múltiplas exigências administrativas, sobrecarga de atividades e elevado índice de relatos de assédio moral. Mais da metade dos participantes declarou ter sofrido algum tipo de assédio ao longo de sua trajetória profissional, ainda que em diferentes intensidades. O dado é particularmente grave porque evidencia que a violência organizacional deixou de ser um fenômeno excepcional para se tornar parte constitutiva da vida universitária contemporânea.
Mas talvez o aspecto mais revelador da enquete seja a conexão estabelecida entre as transformações recentes do trabalho docente e o crescimento dos problemas de saúde física e mental. Os relatórios produzidos a partir das etapas subsequentes da pesquisa apontam para o avanço de quadros de ansiedade, transtornos de humor, doenças cardiovasculares, enxaquecas e outros problemas associados ao estresse ocupacional. O que aparece nesses números não é um conjunto de casos isolados, mas a manifestação de uma lógica institucional que transforma permanentemente professores em gestores de indicadores, produtores de relatórios, captadores de recursos e operadores de plataformas digitais.
A pandemia de COVID-19 acelerou esse processo. O ensino remoto emergencial foi frequentemente apresentado como demonstração de resiliência e capacidade de adaptação das universidades. Entretanto, a enquete mostra que o legado deixado por esse período inclui a ampliação das fronteiras do trabalho, a invasão permanente do espaço doméstico pelas demandas profissionais e a naturalização de mecanismos de controle mediados por tecnologias digitais. O resultado é uma jornada que não termina quando a aula acaba, mas se estende indefinidamente por aplicativos, plataformas, reuniões virtuais e sistemas de avaliação.
A pesquisa também evidencia um fenômeno frequentemente negligenciado nos debates sobre ensino superior: o endividamento crescente dos docentes. Os dados divulgados em algumas instituições, como a UERJ, revelam percentuais expressivos de professores convivendo com financiamentos, empréstimos e dívidas. A combinação entre perdas salariais acumuladas, aumento do custo de vida e deterioração das carreiras públicas ajuda a explicar por que um setor historicamente associado à estabilidade econômica passou a enfrentar inseguranças típicas de segmentos cada vez mais precarizados da classe trabalhadora.
O caso brasileiro não pode ser analisado isoladamente. Em diversas partes do mundo observa-se a expansão de modelos de gestão universitária inspirados em práticas empresariais. Métricas de produtividade, competição por financiamentos, ranqueamentos institucionais e sistemas permanentes de avaliação passaram a orientar a vida acadêmica. Nesse ambiente, o conhecimento tende a ser tratado como mercadoria, enquanto docentes são pressionados a ampliar continuamente sua produção sob condições cada vez mais adversas.
A grande contribuição da enquete do ANDES-SN está justamente em demonstrar que a crise da universidade pública não se manifesta apenas nos cortes orçamentários ou na precarização da infraestrutura. Ela se expressa também nos corpos e nas mentes daqueles que sustentam cotidianamente o funcionamento dessas instituições. O adoecimento docente não é um problema individual. É um sintoma social de um modelo que busca ampliar produtividade sem garantir condições dignas de trabalho.
Por isso, os resultados da pesquisa deveriam ultrapassar os limites do debate sindical e acadêmico. Eles dizem respeito ao futuro da própria universidade pública brasileira. Afinal, quando a produção do conhecimento passa a depender da exaustão física e mental de seus trabalhadores, não é apenas a saúde dos docentes que está em risco. Está em risco a capacidade da universidade de cumprir sua função social, científica e democrática.
A enquete do ANDES-SN oferece um alerta necessário: defender a saúde docente não é uma pauta corporativa. É uma condição indispensável para defender a educação pública em um momento histórico marcado pela expansão da precarização, pela mercantilização do ensino e pela crescente subordinação do conhecimento às exigências do mercado.
O relatório completo e as informações sobre a enquete podem ser consultados junto ao ANDES-SN e aos materiais da pesquisa divulgados pela entidade.









