Soja “livre de desmatamento” varia conforme critérios de cada corporação, mostra estudo
Tecnologias como monitoramento por satélite certificam soja “sustentável”, mas podem ocultar outros impactos ambientais
A soja “livre de desmatamento” é uma resposta do setor agrícola às pressões por maior responsabilidade ambiental. Porém, as corporações não seguem uma definição consensual sobre qual tipo de desmatamento é ou não aceitável na produção. Além disso, o selo pode estar contribuindo para novas dinâmicas de poder, em que ciência e tecnologia legitimam uma simplificação dos problemas ambientais causados pelo setor – desconsiderando, por exemplo, o uso intensivo de agrotóxicos e o desrespeito a direitos humanos e territoriais. As conclusões foram publicadas no Dossiê Agronegócio, Ciência e Tecnologia da revista Sociologias por pesquisadoras das universidades federais do Pará (UFPA) e do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O artigo compara as experiências de soja “livre de desmatamento” ou “responsável” dos principais sistemas de compliance ambiental, analisando protocolos públicos, políticas de fornecimento e relatórios ESG (Social, Ambiental e Governança) das seis principais corporações brasileiras que agregam a produção das fazendas e negociam a safra com mercados externos, as chamadas traders de soja. As pesquisadoras investigaram o que exatamente é considerado desmatamento para cada empresa, além de qual tipo seria ou não aceitável e as áreas definidas como prioritárias para conservação ambiental.
O estudo evidencia que o surgimento de uma soja “livre de desmatamento” acaba por simplificar impactos complexos, que envolvem também outros pontos da cadeia de produção. Além disso, as pesquisadoras destacam o conceito de tecnopoder, em que ciência e tecnologia ajudam a legitimar posicionamentos de atores sociais – no caso, as corporações da cadeia de soja, que passam a, em teoria, atender às demandas do mercado. Recursos tecnológicos como imagens de satélite e classificações de risco são mensurações que podem conferir aparência de objetividade às alegações das sojicultoras, mas podem também gerar dados desprovidos de contexto, invisibilizando efeitos locais da exploração ambiental.
“Argumentamos que as métricas, critérios e formas de monitoramento de problemas ambientais não são definições e tecnologias neutras. Elas não apenas medem a conformidade ambiental, mas ajudam a defini-la de forma conveniente para o setor”, explica a pesquisadora Ângela Camana, autora principal do artigo. Um exemplo está na própria definição de desmatamento a que as corporações se referem. “Algumas interditam apenas a compra de soja oriunda de áreas de desmatamento ilegal, enquanto outras abarcam também o desmatamento legal, assim como há diferentes recortes temporais para considerar quando o desmatamento na cadeia passa a ser inaceitável. Isso significa que uma mesma soja pode ser enquadrada como ‘livre de desmatamento’ por uma trader, mas não por outra”.
Camana também destaca o crescente poder de consultorias e assessorias que executam a definição destas normas e determinam as formas adequadas de medir os fenômenos. “O estudo mostra que a disputa sobre como medir e monitorar a ocorrência de problemas ambientais tornou-se uma estratégia importante para o setor responder a críticas e demonstrar responsabilidade ambiental, apoiando-se na autoridade da ciência e no uso de dados, que resultam de critérios específicos sobre o que conta como evidência de sustentabilidade, para legitimar suas práticas”, comenta a autora.
O artigo recomenda a continuidade das pesquisas sobre o posicionamento do agronegócio brasileiro diante da demanda crescente por conformidade ambiental do setor. Segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa, quase metade das emissões brasileiras são vinculadas às mudanças de uso da terra, que envolvem desmatamento e conversão das áreas de vegetação nativa para atividades como plantio e pastagens.
Fonte: Agência Bori
Ciências Brasil – Inglaterra: Cartas entre Charles Darwin e Fritz Müller são tema de livro
A publicação da coleção completa da correspondência entre Charles Darwin, autor de A Origem das Espécies, e seu principal colaborador no Brasil, Johann Friedrich Theodor Müller (Fritz Müller), será o destaque das comemorações do aniversário de nascimento do naturalista catarinense, em 31 de março. Após oito anos de intensa pesquisa, a historiadora e escritora Ana Maria Ludwig Moraes lança a obra “Cartas entre Fritz Müller e Charles Darwin”. O material, organizado originalmente pelo Darwin Correspondence Project (DCP), da Biblioteca da Universidade de Cambridge (Inglaterra), reúne 110 cartas, muitas das quais nunca haviam sido traduzidas para o português. O projeto contou com o apoio do Instituto Histórico de Blumenau (IHB) e do Cônsul Honorário do Reino Unido em Santa Catarina, Michael Delaney.
Riqueza de detalhes e rigor científico
Com 400 páginas, o livro apresenta os textos originais em inglês e suas respectivas traduções. A troca de mensagens entre os dois naturalistas estendeu-se por 17 anos, de 1865 até a morte de Darwin, em 1882.
O prefácio, assinado pela Universidade de Cambridge, ressalta a importância de Müller entre as mais de 15 mil cartas catalogadas pelo projeto britânico em meio século de buscas. A correspondência com o brasileiro é considerada uma das mais ricas para a compreensão do pensamento evolucionista.
Um dos destaques da obra é a comprovação documental do título “Príncipe dos Observadores”, como Darwin carinhosamente se referia a Müller. Ana Maria localizou uma carta endereçada ao botânico alemão Ernst Krause, em 1880, conservada na Biblioteca Huntington, na Califórnia (EUA). Cópia dessa carta foi adquirida pelo IHB e doada ao Arquivo Histórico José Ferreira da Silva.
Um inventário da biodiversidade brasileira
Além do valor histórico, o livro funciona como um catálogo científico. A pesquisa identificou cerca de 900 espécies citadas ou descritas nas cartas. Uma equipe de especialistas elaborou um inventário detalhado, dividido em:
- Fauna marinha: revisão de Harry Boos Júnior;
- Botânica: revisão de Juliana Paula-Souza;
- Entomologia e Aracnídeos: revisão de Isabelli Grothe Mees.
“O conteúdo das cartas é uma fonte primária fundamental para o estudo da história da ciência no século XIX. Elas mostram os caminhos, as dificuldades e os avanços que fundamentam o que conhecemos hoje”, explica a autora. Ana Maria ressalta ainda que os dados sobre a Mata Atlântica fornecem elementos preciosos para as ações contemporâneas de preservação do bioma.
Programação de Lançamento
Os lançamentos estão previstos para o mês de março em três universidades, além de eventos promovidos pela Biblioteca Municipal Fritz Müller e pelo IHB.
O início da colaboração entre Fritz e Darwin:
Em 24 de novembro de 1859, Charles Darwin publicava a primeira edição do livro “A Origem das Espécies“ (On the Origin of Species), uma obra que revolucionaria a ciência a partir do pensamento evolucionista e da teoria da seleção natural.
Um exemplar da obra foi recebido por Fritz Müller em 1861. A publicação do pensador inglês impulsionou as investigações de Fritz a partir dos crustáceos coletados na Praia de Fora, em Florianópolis (Desterro à época) resultando no seu primeiro e único livro – Für Darwin (Para Darwin) – em 1864. Historiadores afirmam que Darwin remunerou uma governanta alemã para que lesse a obra, traduzida para o inglês, já que esta estava escrita em alemão, o que teria acontecido na primavera e verão de 1865, no hemisfério norte.
Assim que terminou a leitura do livro, Darwin escreveu a primeira carta a Fritz Müller, datada de agosto de 1865, elogiando seu trabalho e iniciando um rico intercâmbio de informações científicas que durou 17 anos (1865 a 1882). A teoria, agora, tinha evidência sólida, graças às experiências de campo relatadas no livro de Fritz. Por iniciativa de Darwin, a obra foi traduzida para o inglês em 1869, com o título “Fatos e Argumentos para Darwin”. Esta obra, com a aprovação de Darwin, posicionou Fritz Müller como pesquisador no meio científico alemão, muito embora já possuísse um considerável leque de correspondentes. A discussão entre Müller e Darwin sobre os bastidores da publicação, custos e seu impacto nos meios científicos europeus, constam nas cartas e, é curiosa a observação do cientista inglês de que “essas obras de cunho científico” não despertam muito interesse no público leitor da Inglaterra, àquela época.
As 110 cartas em poder da Biblioteca da Universidade de Cambridge (Inglaterra), foram coletadas ao longo de 50 anos pelo Darwin Correspondence Project (DCP), instituição responsável pelo prefácio do livro de Ana Maria Ludwig Moraes, assinado pelos coordenadores do projeto encerrado em 2022, Shelley Innes e Alison Pearn.
Linha do Tempo: A Conexão Darwin-Müller
- 1859 (24 de novembro): Charles Darwin publica em Londres a primeira edição de A Origem das Espécies.
- 1861: O naturalista alemão Fritz Müller, vivendo em Santa Catarina, recebe um exemplar da obra e compara a teoria às suas observações de campo no litoral catarinense.
- 1864: Como resposta e defesa das teses de Darwin, Müller publica na Alemanha o livro Für Darwin (Para Darwin).
- 1865 (Junho/Julho): Darwin, que não falava alemão, contrata a governanta de seus filhos para ler e traduzir para ele, a obra de Müller. O conteúdo apresenta evidências biológicas encontradas no Brasil, o que comprova a teoria da seleção natural.
- 1865 (Agosto): Darwin escreve a primeira carta para Fritz Müller. Inicia-se um intercâmbio científico que transformaria a colaboração em uma amizade intelectual profunda.
- 1869: Por influência direta de Darwin, o livro de Fritz Müller é traduzido para o inglês como Facts and Arguments for Darwin (Fatos e Argumentos para Darwin).
- 1865 – 1882: Durante 17 anos, os dois cientistas trocam informações, amostras e observações. Müller envia dados cruciais sobre crustáceos e a flora da Mata Atlântica que validam a Seleção Natural.
- 1882 (19 de abril): Morte de Charles Darwin.
- Século XX/XXI: O Darwin Correspondence Project (Universidade de Cambridge) dedica mais de 50 anos para localizar e catalogar as mais de 15 mil cartas de Darwin ao redor do mundo.
- 2018 – 2026: A historiadora Ana Maria Ludwig Moraes dedica oito anos à pesquisa, tradução e atualização da nomenclatura científica da totalidade das 110 cartas trocadas entre os dois naturalistas, contando com uma equipe de tradutores, revisores e especialistas nas áreas de botânica, fauna marinha e entomologia, no Brasil e exterior, que resultou em importante inventário das espécies mencionadas nas cartas.
- 2026 (Março): Lançamento oficial da obra “Cartas entre Fritz Müller e Charles Darwin”, revelando segredos e detalhes inéditos desse diálogo histórico.
Sobre a autora:
Ana Maria Ludwig Moraes
Historiadora e Pesquisadora Membro do Instituto Histórico de Blumenau (IHB)
Pesquisadora Independente e Colaboradora Institucional: Atuação em projetos de salvaguarda e difusão para instituições tais como Arquivo Histórico José Ferreira da Silva (Blumenau SC), Museu Koenig da Universidade de Bonn (Alemanha), Universidade de São Paulo (USP), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Institutos Federais de SC, Ministério Público de SC.
Rio 40 graus, da beleza e do caos
Pesquisadores pedem ação urgente em relação ao glifosato, citando fortes ligações com o câncer

Por Carey Gillam para “The New Lede”
Reguladores dos EUA e da Europa devem tomar medidas urgentes para regulamentar mais rigorosamente o glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo, à luz de fortes evidências científicas de que o pesticida pode causar câncer e outros problemas de saúde, afirmou um grupo de cientistas internacionais na sexta-feira.
Os cientistas, que se reuniram em um “simpósio sobre glifosato” em Seattle, nos dias 25 e 26 de março, para examinar uma série de pesquisas realizadas na última década, concluíram que as evidências que demonstram que os herbicidas à base de glifosato podem prejudicar a saúde humana “são agora tão fortes que nenhum atraso adicional na regulamentação do glifosato pode ser justificado”.
O grupo confirmou descobertas anteriores que relacionam a exposição ao linfoma não Hodgkin e alertou que impactos nocivos à saúde estão sendo encontrados em níveis de exposição consistentes com os padrões de uso atuais.
“As agências devem agir sem mais demora para limitar o seu uso, ou eliminá-los se legalmente exigido, para proteger a saúde pública”, disseram os cientistas em comunicado.
Entre os cientistas participantes, estavam especialistas ligados a diversas universidades dos EUA, aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças e ao Instituto Nacional do Câncer, bem como especialistas da Europa e do Canadá.

As conclusões completas do grupo, que incluiu especialistas em epidemiologia, toxicologia, câncer e avaliação de riscos, serão detalhadas em um artigo revisado por pares que o grupo espera publicar ainda este ano.
O glifosato é amplamente utilizado por agricultores, paisagistas e outros, tendo sido introduzido há 50 anos pela Monsanto e comercializado como uma forma excepcionalmente segura de eliminar ervas daninhas.
Mas, ao longo dos anos, aumentaram as evidências que ligam o glifosato a uma série de danos à saúde e ao meio ambiente.
O trabalho apresentado no simpósio de Seattle ocorre pouco mais de uma década depois de a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) da Organização Mundial da Saúde ter realizado uma extensa revisão da literatura científica sobre o glifosato antes de 2015, determinando que o produto químico era “provavelmente” cancerígeno para os seres humanos.
A revisão de pesquisas científicas mais recentes realizada em Seattle confirma e reforça essa classificação, afirmaram os cientistas presentes no simpósio. Muitos agora estão convencidos de que não há mais espaço para dúvidas sobre a carcinogenicidade do glifosato.
“É evidente que as evidências mudaram e se fortaleceram desde 2015”, disse Christopher Portier , ex-cientista do governo dos EUA e professor adjunto da Universidade Emory, que participou do simpósio de Seattle e também da revisão do glifosato realizada pela IARC em 2015.

Além disso, os cientistas afirmaram que existem evidências, provenientes de estudos em humanos e/ou animais, de que o glifosato e os herbicidas à base de glifosato aumentam o risco de diversos problemas de saúde, incluindo doenças renais e hepáticas. As pesquisas também mostram impactos nos sistemas reprodutivo, endócrino, neurológico e em outros sistemas metabólicos. Crianças, bebês e fetos são os mais suscetíveis, disseram os cientistas.
Os cientistas se concentraram em pesquisas realizadas desde 2016, incluindo a revisão de dados sobre como e onde as pessoas são expostas, estatísticas sobre a presença generalizada de glifosato na poeira doméstica em certas áreas agrícolas e a prevalência de glifosato em amostras de urina.
Os cientistas alertaram ainda que outros pesticidas também não estão sendo adequadamente avaliados e regulamentados, e que os processos de aprovação em todo o mundo devem ser “fundamentalmente revistos” para proteger a saúde humana. Eles afirmaram que medidas preventivas para reduzir a exposição humana devem ser implementadas sem demora enquanto as pesquisas continuam.
O glifosato não é a única substância química em que os órgãos reguladores não estão seguindo e agindo com base em evidências científicas de danos, embora seja um exemplo crucial, de acordo com os cientistas presentes no simpósio.
“Existe um enorme contraste, um conflito, entre o consenso científico e a perspectiva regulatória”, disse Lianne Sheppard, organizadora do simpósio e professora de ciências da saúde pública na Universidade de Washington. “Este [glifosato] é o exemplo mais flagrante disso.”
Os cientistas propõem uma reformulação do sistema regulatório, exigindo dados científicos de laboratórios e organizações independentes, livres de conflitos de interesse, com os custos dessa pesquisa sendo arcados pela indústria de pesticidas. As agências reguladoras devem basear suas decisões de aprovação de pesticidas em dados imparciais sobre os efeitos na saúde, em vez de dependerem fortemente de dados não publicados apresentados pelas empresas que buscam aprovação para seus produtos, afirmaram os cientistas. Para os pesticidas já comercializados, as agências reguladoras “devem monitorar de perto o uso, os dados de exposição e os efeitos nocivos, especialmente para grupos suscetíveis e altamente expostos”, concluíram os cientistas.
Em última análise, o grupo concluiu que o uso de pesticidas deve ser reduzido de forma geral e “eliminado na medida do possível”.
“Isto é imprescindível para a saúde dos seres humanos, dos ecossistemas e das gerações futuras”, afirmou o grupo em comunicado.

“É difícil fazer o governo mudar, principalmente porque a indústria gasta muito dinheiro fazendo lobby no Congresso para garantir que as leis favoreçam seu ponto de vista”, disse Tracey Woodruff, professora da Universidade Stanford e ex-cientista sênior do Escritório de Políticas da EPA, que participou do simpósio.
“As pessoas estão realmente revoltadas porque estão ficando mais doentes, suas famílias estão ficando mais doentes e estão sendo expostas a produtos químicos tóxicos. Há um consenso geral de que as pessoas não querem ser expostas a produtos químicos tóxicos.”
A Bayer, com sede na Alemanha, que comprou a Monsanto em 2018 e herdou a marca Roundup, à base de glifosato, e outros herbicidas também à base de glifosato, está atualmente envolvida em processos judiciais nos Estados Unidos movidos por dezenas de milhares de pessoas que alegam que a exposição aos herbicidas à base de glifosato da empresa causou o desenvolvimento de linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer no sangue.
A Bayer afirma que seus produtos à base de glifosato são seguros e não causam câncer ou outros problemas de saúde, mas diversos estudos de pesquisa contestam essa posição.
Um estudo de 2022, por exemplo, descobriu que o glifosato pode ter efeitos neurotóxicos em doses inferiores aos níveis considerados seguros pelas agências reguladoras. E um estudo de 2023 associou a exposição infantil ao glifosato à inflamação do fígado e a distúrbios metabólicos.
No mês passado, uma revisão de 15 anos de estudos publicados confirmou que a exposição humana a herbicidas à base de glifosato tem sido associada a inúmeros efeitos adversos à saúde, que incluem não apenas câncer, problemas hepáticos e metabólicos, mas também efeitos nos sistemas reprodutivo e endócrino, além de disrupção do microbioma, entre outros.
A Bayer está tentando resolver o litígio e está buscando um recurso perante a Suprema Corte dos EUA, o que poderia limitar futuros processos judiciais.
Nem a Bayer nem a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) se pronunciaram de imediato sobre a declaração emitida no simpósio de Seattle.
Fonte: The New Lede
CNPq institui Política de Integridade na Atividade Cientifica, que estabelece normas e boas práticas de atuação
Política foi elaborada com base em ações de educação, prevenção, apuração e sanção e traz diretrizes para uso de IA na pesquisa científica

Imagem ilustrativa de processo de avaliação realizado ao computador. – Foto: Imagem de Freepik
O CNPq publicou uma portaria que institui a Política de Integridade na Atividade Cientifica, que tem como finalidade garantir a integridade em todas as atividades científicas apoiadas pelo Conselho e é valida para todos os usuários das bases do órgão, como servidores, proponentes, beneficiários e demais agentes vinculados ao fomento e usuários dos serviços digitais e plataformas do CNPq. A política foi elaborada com base em ações de educação, prevenção, apuração e sanção.
Assista ao vídeo de apresentação:
Os objetivos da Política de Integridade na Atividade Científica são promover a ética e a integridade na atividade científica; estabelecer regras de boa convivência acadêmica e coletiva, prevenindo conflitos éticos e de interesse nas ações do CNPq; promover a transparência e a idoneidade nas decisões institucionais e avaliações de mérito, evitando conflitos de interesses e ações e/ou omissões de cunho discriminatório; instituir código de conduta para promover ambiente mais plural, inclusivo e respeitoso na atividade científica e estimular a qualidade e a integridade das informações em todas as etapas dos projetos de pesquisa apoiados pelo CNPq, estabelecendo rígidos princípios éticos e morais, desde a concepção até a difusão dos resultados.
O Código de Conduta do CNPq – que estava em vigor desde 1º de agosto de 2024 e previa, entre outras recomendações, a extensão do prazo de avaliação da produtividade científica em 2 anos por evento de maternidade no período avaliado – , foi integrado à política e passa a ter nova redação, com base em dez princípios:
I – Honestidade intelectual, integridade, boa prática científica e responsabilidade em todas as fases da pesquisa, da concepção à publicação e divulgação dos resultados;
II – Veracidade na autoria e créditos científicos;
III – Respeito aos participantes das pesquisas, às pessoas pesquisadas e aos objetos de pesquisa;
IV – Atuação responsável na formação e supervisão na carreira científica em todas as etapas;
V – Observância às normas legais e éticas vigentes;
VI – Decoro, justiça social, racial, cognitiva e de gênero;
VII – Urbanidade e respeito nas relações interpessoais e institucionais;
VIII – Segurança e zelo pelos membros e participantes da pesquisa e pelo patrimônio e uso dos recursos materiais;
IX – Cumprimento das diretrizes de políticas científicas federais, estaduais, municipais e institucionais;
X – Respeito à diversidade e promoção da inclusão na ciência.”
O texto estabelece deveres para os membros de comitês e comissões e para bolsistas. Os dois primeiros, por exemplo, devem conduzir avaliações com rigor, objetividade, imparcialidade e presteza; observando critérios de mérito científico, tecnológico e de inovação, e respeitando as definições da ação; não discriminar áreas do conhecimento, linhas de pesquisa, grupos, pessoas ou instituições e resguardar o sigilo das informações, dados e pareceres a que tiverem acesso.
Já bolsistas devem, entre outros deveres, ter conhecimento e respeitar as especificidades normativas do CNPq quanto à concessão de bolsas e auxílio, em especial sobre as vedações ao acúmulo de bolsas; à necessidade de informar ao CNPq sobre afastamentos e intercorrências durante o período de vigência do fomento concedido e a dificuldades encontradas para realizar a pesquisa e os devidos relatórios.
Inteligência artificial
Em relação às diretrizes de integridade na pesquisa, o texto traz abordagem específica sobre o uso de inteligência artificial gerativa (IAG), cujo uso não é proibido, mas é preciso que seja declarado, qualquer que seja o tipo de IAG e a fase do desenvolvimento da pesquisa, especificando a ferramenta utilizada e a finalidade. Também é vedada a submissão de conteúdo gerado por IAG como se fosse de autoria humana, sendo os/as autores/as integralmente responsáveis pelo conteúdo final, inclusive por eventuais plágios ou imprecisões geradas pela ferramenta utilizada. O uso da inteligência artificial na elaboração de pareceres científicos não é recomendado pela política publicada.
O texto traz uma preocupação em relação ao padrão ético de tratamento de produtos de pesquisa, com orientações como creditar de forma adequada todas as fontes que fundamentam o trabalho desenvolvido, de modo a assegurar veracidade à autoria e créditos científicos, bem como fidelidade ao significado das ideias ou fatos apresentados, ao resumir texto de terceiros, com a devida citação.
De acordo com a política, será competência da Comissão de Integridade na Atividade Científica (CIAC) decidir sobre casos de desvio da integridade na atividade científica submetidos a essa instância, bem como examinar suspeitas em relação à integridade de informações no Currículo Lattes, deliberar sobre a aplicação de sanções nos casos concretos de infrações graves e gravíssimas, entre outras.
Denúncias de supostas infrações à Política de Integridade Científica devem ser encaminhadas via Ouvidoria do CNPq.
Responsabilidades
A nova política define que o CNPq e as Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) apoiadas são responsáveis pela apuração adequada das denúncias de má conduta científica. As ICTs que se apresentem como sede de atividades apoiadas pelo CNPq compartilham com os pesquisadores a responsabilidade pela integridade da pesquisa, cabendo-lhes primariamente promover a cultura institucional de integridade científica, e também prevenir e tratar más condutas ocorridas sob sua governança.
Nos casos em que ocorram alegações e denúncias de má conduta em pesquisas apoiadas pelo CNPq, a ICT será solicitada a cooperar com auditorias e ações corretivas entre as instituições, informando sobre o resultado da apuração e as medidas implementadas.
Sanções
De acordo com o texto, as infrações, resultantes de ação ou omissão, que contrariem princípios, deveres e práticas previstas nos Art. 5º, 6º e 7º da política estão sujeitas a sanções, que variam dependendo do tipo de infração: leve, grave ou gravíssima.
Entre as sanções previstas estão advertência formal; suspensão, por período determinado, de bolsas, auxílios; interrupção de benefício, com possibilidade de ressarcimento ao erário; impedimento para participação em ações de fomento ou processos seletivos do CNPq, por prazo determinado; devolução de recursos concedidos pelo CNPq aos projetos relacionados à conduta irregular com ressarcimento proporcional ao pagamento realizado; revogação da outorga de fomento, aplicável quando obtida por meio de apresentação de requisitos infundados para seleção e classificação dos projetos de pesquisa, podendo ser adotadas medidas cautelares no decorrer da apuração das denúncias.
Para a dosimetria da sanção, serão considerados a natureza e a gravidade da infração; a extensão dos danos causados ao CNPq e à comunidade científica; a existência de dolo, fraude ou reincidência; circunstâncias agravantes ou atenuantes; os antecedentes do(a) infrator(a). Neste caso, não serão considerados grau acadêmico, premiações, cargos ou funções de relevo científico ou acadêmico, atuais ou passados, ou quaisquer reconhecimentos profissionais prévios.
Fonte: CNPq
O Blog como ferramenta de defesa da integridade científica no Brasil
Da divulgação acadêmica à denúncia de fraudes, a trajetória do Blog do Pedlowski revela a ausência de mecanismos institucionais eficazes no combate à “fake science” nas universidades públicas brasileiras
Quando criei este blog em 2011, eu o fiz instigado por muitas questões que me pareciam não poder ser tratadas de forma ampla apenas por meio de publicações científicas. Uma das minhas intenções era muito modesta e se relacionava basicamente com a divulgação das pesquisas realizadas pelo meu grupo de pesquisa na Universidade Estadual do Norte Fluminense.
Quinze anos depois da criação do Blog do Pedlowski, verifico agora que, curiosamente, este espaço se tornou uma espécie de referência para debates em torno da integridade científica no Brasil, já que tenho, modestamente, tentado monitorar e denunciar práticas que comprometem a qualidade e a ética na produção de conhecimento.
E o curioso é que o material publicado no blog, muitas vezes resultado de garimpos que faço na internet, está sendo usado até na apuração de denúncias sobre o cometimento de diferentes tipos de fraudes por reputados pesquisadores brasileiros. E aqui uma constatação triste: se o Blog do Pedlowski está tendo esse tipo de uso, o que podemos pensar sobre a inexistência de espaços institucionais de combate à fraude científica que grassa de forma galopante inclusive em nossas melhores universidades?
Penso que é urgente e necessária a instalação de comitês de integridade da pesquisa em todas as universidades públicas brasileiras. É que todo esse arcabouço de “fake science” que está sendo produzido para a obtenção de promoções, premiações e financiamentos representa um desserviço aos esforços legítimos que são realizados em prol do avanço da ciência brasileira. Evitar ou negar o debate sobre a proliferação de diferentes tipos de mecanismos de falsificação científica é, acima de tudo, um grande desserviço aos interesses estratégicos da ciência brasileira.
De São João da Barra ao Brasil: a denúncia sobre a captura do CMMADS pelo Porto do Açu ganha escala nacional
Empresas teriam ocupado cadeiras destinadas à sociedade civil no Conselho Municipal de Meio Ambiente, levantando questionamentos sobre conflito de interesses

Por Redação Fórum
Uma carta aberta divulgada por entidades da sociedade civil levanta questionamentos sobre a composição e a condução de conselhos ambientais no país, a partir de um caso ocorrido em São João da Barra, no Rio de Janeiro – região estratégica para o setor de óleo, gás e transição energética.
A denúncia cita a participação do Porto do Açu Operações S.A. e de sua subsidiária, Reserva Ambiental Fazenda Caruara S.A., que passaram a ocupar assentos no colegiado. Para as entidades, o fato de ambas integrarem o mesmo grupo econômico levanta dúvidas sobre a pluralidade de representação – princípio central de conselhos participativos.
Outro ponto destacado é a eleição da Reserva Caruara S.A. para a presidência do conselho, em janeiro de 2026. Os autores da carta apontam possível conflito de interesses, uma vez que o colegiado tem entre suas atribuições a fiscalização e o acompanhamento de atividades com impacto ambiental – incluindo empreendimentos ligados ao próprio grupo empresarial.
O caso ocorre em um momento em que o Brasil discute a ampliação de projetos energéticos e industriais, especialmente em regiões costeiras, o que aumenta a importância de mecanismos de controle social independentes e representativos.
As entidades defendem a anulação do processo eleitoral realizado em 18 de dezembro de 2025, o afastamento da atual presidência e a realização de novas eleições, restritas a organizações da sociedade civil, conforme previsto nas normas do conselho.
Procuradas, as instituições citadas não se manifestaram até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para posicionamento.
Fonte: Fórum
A crise da integridade na pesquisa: incentivos, omissões institucionais e novos desafios tecnológicos
A disseminação de diferentes formas de fraude científica não tem sido enfrentada com instrumentos institucionais proporcionais à crescente sofisticação dos mecanismos de falsificação. Em países como o Brasil, onde a escassez de recursos torna ainda mais relevante a alocação eficiente de financiamento, a ausência de sistemas robustos de controle e responsabilização agrava o problema. Observa-se que poucas universidades dispõem de estruturas consolidadas para garantir a integridade da pesquisa.
Esse cenário reduz o risco percebido por agentes envolvidos em práticas fraudulentas, ao mesmo tempo em que dificulta a responsabilização. Em muitos casos, a identificação de irregularidades é rara e, quando ocorre, o ônus da prova recai sobre quem denuncia, desestimulando a exposição de desvios. Como consequência, cria-se um ambiente permissivo à proliferação de fraudes e à circulação de produção científica de baixa qualidade. Adicionalmente, os critérios de avaliação acadêmica ainda privilegiam a quantidade de publicações em detrimento de sua qualidade ou contribuição efetiva ao avanço do conhecimento. A crescente valorização de pesquisas com aplicação imediata no setor produtivo pode, em alguns casos, reduzir o espaço para análises críticas sobre a relevância científica dos resultados.
O avanço de ferramentas de inteligência artificial introduz novos desafios. A ausência de diretrizes claras sobre seu uso em atividades acadêmicas amplia zonas de incerteza quanto à autoria, originalidade e confiabilidade dos dados. Sem parâmetros bem definidos, há o risco de ampliação de práticas que comprometam a qualidade da produção científica. Além disso, também se observa uma limitada disposição institucional para uma reflexão crítica sobre os padrões de produção científica vigentes. Esse contexto pode gerar tensões, especialmente quando questionamentos sobre qualidade são interpretados como disputas pessoais ou mera inveja, em vez de contribuições ao aprimoramento do sistema.
Diante desse quadro, torna-se necessária a adoção de políticas institucionais mais consistentes, incluindo a criação e o fortalecimento de comitês de integridade da pesquisa, com atribuições claras de prevenção, monitoramento e responsabilização. Tais medidas são essenciais para assegurar a confiabilidade da produção científica e a credibilidade das instituições de pesquisa.
Iowa registra alta de câncer e coloca agroquímicos sob suspeita
Por Brian Bienkowski para “The New Lede”
Os habitantes de Iowa estão sofrendo com taxas mais altas de mais de uma dúzia de tipos de câncer ligados a agrotóxicos e poluentes do que o resto do país, e pesquisadores afirmam que o risco da exposição a pesticidas por si só pode rivalizar com o do tabagismo, de acordo com um novo relatório.
Iowa tem a segunda maior taxa de câncer do país e é um dos três únicos estados onde a incidência de câncer está aumentando , de acordo com os Institutos Nacionais de Saúde (NIH). Para muitos tipos de câncer, os números do estado superam em muito as médias nacionais. Por exemplo, a taxa de câncer de próstata em Iowa é de 129 pessoas por 100.000 habitantes, em comparação com a média dos EUA de 116 pessoas. A taxa de câncer de mama no estado é de 137 pessoas por 100.000 habitantes, em comparação com a média dos EUA de 131 pessoas.
A taxa geral de câncer no estado é de 498 pessoas por 100.000 habitantes — 10% maior que a taxa nacional.
“Isso está afetando todos os cantos do estado. Não há limites… Democratas, Republicanos, áreas urbanas e rurais”, disse Sarah Green, diretora executiva do Conselho Ambiental de Iowa (IEC), que publicou o novo relatório em conjunto com o Instituto Harkin, um instituto de pesquisa de políticas públicas localizado na Universidade Drake, em Iowa.
Os pesquisadores analisaram dados sobre câncer e poluição, bem como pesquisas científicas existentes, realizaram sessões de escuta com moradores de Iowa ao longo do último ano e restringiram o relatório a quatro riscos ambientais: agrotóxicos, substâncias per e polifluoroalquiladas (PFAS), nitratos e radônio, devido à sua presença generalizada no estado.
O relatório constatou que 13 dos 16 tipos de câncer — incluindo câncer de mama, câncer cerebral, linfoma não Hodgkin e câncer de próstata — que estão ligados à exposição a pesticidas, substâncias per e polifluoroalquiladas (PFAS), nitrato e radônio, afetam os habitantes de Iowa em taxas muito mais altas do que a população dos EUA, de acordo com os dados mais recentes.
“Iowa se destaca como um caso atípico em comparação com a maioria dos outros estados em termos de exposição a esses fatores de risco ambiental”, afirma o relatório.
Os resultados surgem num momento em que políticos estaduais e autoridades de saúde pública expressam crescente preocupação com o aumento das taxas de câncer no estado e buscam respostas. Enquanto alguns moradores e defensores da saúde e do meio ambiente apontam para os agrotóxicos, grupos do setor agrícola e seus aliados políticos defendem o uso de pesticidas e fertilizantes como seguro.
“Iowa se destaca como um caso atípico em comparação com a maioria dos outros estados em termos de exposição a esses fatores de risco ambiental.”
Os autores do relatório enfatizaram que o câncer é complexo e não pode ser atribuído a um único fator, mas afirmaram que suas pesquisas sugerem que a grande quantidade de pesticidas, fertilizantes, esterco e outros poluentes provavelmente está causando doenças nos habitantes de Iowa.
“Temos um dos maiores índices de uso de agrotóxicos em todo o país e também alguns dos níveis mais altos de nitrato em nossos cursos d’água”, disse Adam Shriver, coautor do relatório e diretor de políticas de bem-estar e nutrição do Instituto Harkin. “Esses produtos químicos provavelmente estão desempenhando um papel bastante significativo na crise de Iowa.”
Produtos químicos agrícolas e câncer
Iowa possui quase 87.000 fazendas , sendo o primeiro estado produtor de milho, carne suína e ovos. Também está entre os cinco principais estados produtores de soja e pecuária. Dos 35,7 milhões de acres de terra de Iowa, aproximadamente 31 milhões são dedicados à agricultura , e o estado sofre há muito tempo com o excesso de pesticidas, fertilizantes e esterco que contaminam seus cursos d’água.
O novo relatório focou nos três agrotóxicos mais usados em Iowa: glifosato, acetoclor e atrazina. O estado está rotineiramente entre os cinco principais estados no uso desses três agrotóxicos, e o relatório constatou que eles estão ligados a vários tipos de câncer que estão aumentando em Iowa, incluindo câncer de pâncreas, oral, renal e de mama.
“O impacto do uso de pesticidas na incidência de câncer pode ser semelhante ao do tabagismo”, escreveram os autores. Eles alertaram que muitos outros agrotóxicos são usados no estado, e que muitos deles provavelmente também contribuem para as taxas de câncer, além de haver um efeito “combinado” devido à exposição das pessoas a diversos tipos de pesticidas.
O relatório também abordou um dos contaminantes mais frequentes em Iowa: o nitrato, uma forma de nitrogênio usada como fertilizante e também associada a alguns tipos de câncer. Pesquisas científicas mostram que a exposição ao nitrato está ligada a vários tipos de câncer, incluindo o câncer de rim, cuja incidência está aumentando em Iowa. O contaminante também está associado a cânceres de bexiga e de ovário que, embora não estejam aumentando em Iowa, estão presentes no estado em níveis muito mais altos do que nos Estados Unidos em geral.
Fertilizantes agrícolas e esterco provenientes de grandes operações pecuárias são as principais fontes de nitratos . Iowa é o estado com o maior número de operações concentradas de alimentação animal (CAFOs, na sigla em inglês) nos Estados Unidos. Além disso, bilhões de quilos de fertilizantes sintéticos são aplicados em plantações todos os anos, causando problemas generalizados de poluição da água. Por exemplo, os rios Des Moines e Raccoon, em Iowa, estão entre o 1% dos rios com maior concentração de nitratos no país, segundo o relatório, sendo que 80% da contaminação provém da agricultura.
No entanto, alguns agricultores do estado veem a redução da poluição agrícola como uma vitória econômica e para a saúde pública. Matthew Bormann, que cultiva em Iowa há mais de um quarto de século, começou a aplicar nitrogênio apenas na época certa (quando as plantas o absorvem), a fazer rotação de culturas de cobertura para melhorar o solo e a reduzir a quantidade de aração que realiza em suas plantações de milho e soja há cerca de 15 anos.
“Isso facilitou muito o nosso trabalho na agricultura”, disse ele, acrescentando que as mudanças melhoraram a saúde do solo, reduziram a erosão e diminuíram a quantidade de fertilizantes que escoam para os cursos d’água.


Bormann, que faz parte do grupo agrícola The Lobe Rangers (nomeado em homenagem à região de Des Moines Lobe, onde cultiva), deixa claro que não é um ativista, mas sim um agricultor que deseja ajudar a liderar mudanças no estado.
“Precisamos que os agricultores adotem práticas para melhorar a qualidade da água, e não estamos vendo isso na escala necessária”, disse ele.
Grupos do setor agrícola de Iowa têm resistido a regulamentações mais rigorosas sobre o esterco animal, o uso de pesticidas ou fertilizantes, alegando que são ferramentas essenciais para o cultivo e que sua segurança já foi comprovada. O Iowa Farm Bureau e a Iowa Corn Growers Association não responderam aos pedidos de comentários sobre a possível ligação entre produtos químicos agrícolas e o câncer.
“Os agricultores muitas vezes se sentem tão presos a esse sistema quanto o resto de nós”, disse Colleen Fowle, diretora do programa de água do IEC e coautora do relatório. “Os agricultores nem sempre sentem que têm a capacidade de tomar as decisões que desejam para suas próprias terras.”
Inação política
A prevalência do câncer em Iowa está influenciando a política estadual, com legisladores de ambos os partidos debatendo a crise. A agricultura contribui com cerca de US$ 159,5 bilhões para a economia do estado – aproximadamente um terço da produção econômica total de Iowa, segundo o Iowa Farm Bureau.

Durante seu discurso sobre o Estado da União em janeiro, a governadora Kim Reynolds, republicana, afirmou: “Todos os anos, mais de 20.000 habitantes de Iowa são diagnosticados com essa doença terrível. Todos nesta sala foram afetados por ela de alguma forma”. Ela prosseguiu enfatizando a importância dos exames de detecção precoce na luta contra o câncer e promovendo a iniciativa “Cidades Saudáveis” do estado, que fortalecerá os centros de tratamento do câncer e “financiará os oncologistas, os equipamentos e a tecnologia médica avançada necessários para fornecer esse tratamento especializado”.
Os legisladores democratas do estado têm se mostrado mais dispostos a apontar os pesticidas e a poluição agrícola como prováveis causas das taxas de câncer no estado.
“Este relatório corroborará o que a maioria dos habitantes de Iowa já sabe instintivamente: um dos principais fatores que impulsionam nossa crise de câncer está em nosso meio ambiente”, disse o médico e representante estadual Austin Baeth.
Baeth afirmou que a única iniciativa legislativa estadual recente sobre substâncias cancerígenas ambientais foi relacionada à mitigação do radônio.
“Neste momento, minha tarefa é fazer com que meus colegas do lado republicano admitam que existe, de fato, um problema de poluição da água”, disse ele. O jornal The New Lede entrou em contato com o deputado estadual republicano Dean Fisher, que preside a comissão de proteção ambiental do estado, mas não obteve resposta.
O Instituto Harkin e o IEC não são os únicos grupos no estado que investigam as causas do câncer. No início deste mês, pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Iowa apresentaram informações preliminares de uma parceria de um ano com o Departamento de Saúde e Serviços Humanos do estado para entender melhor a alta taxa de câncer em Iowa. Os pesquisadores enfatizaram que o estudo, que ainda está em andamento, sugere que não há uma única razão para o aumento das taxas. No entanto, eles disseram aos legisladores estaduais que regulamentações mais rigorosas sobre pesticidas provavelmente ajudariam a reduzir as taxas de câncer no estado.
“Neste momento, minha tarefa é fazer com que meus colegas do lado republicano admitam que existe, de fato, um problema de poluição da água.” – Austin Baeth, representante estadual de Iowa
Além disso, na semana passada, uma nova análise da Food & Water Watch associou o uso intensivo do herbicida glifosato a taxas elevadas de linfoma não Hodgkin (LNH), particularmente no Centro-Oeste dos Estados Unidos. Um mapa dos pontos críticos mostra aglomerados de taxas de LNH especialmente altas em muitas partes de Iowa.
Apelos por monitoramento e controle da poluição
O novo relatório oferece diversas sugestões para ajudar a aliviar o fardo do câncer no estado, incluindo limites mais rigorosos para a poluição da água, monitoramento reforçado da água e mais pesquisas sobre câncer e riscos ambientais.
“Deveríamos estar financiando a rede de monitoramento da água e medindo os níveis de nitratos e agrotóxicos em nossos cursos d’água”, disse Shriver. “A legislatura estadual basicamente cortou esse financiamento há dois anos… então é meio absurdo dizer ‘não temos informações suficientes’ ao mesmo tempo em que se corta o fluxo de mais informações.”
O relatório também apresenta recomendações políticas específicas para reduzir o nível máximo atual de contaminante nitrato de 10 mg/L (miligramas por litro) na água potável e para adotar as diretrizes federais implementadas há mais de uma década — que Iowa nunca adotou — que limitam os agentes cancerígenos na água e nos tecidos dos peixes.
Bormann afirmou que as medidas voluntárias atuais voltadas para os agricultores — como a estratégia estadual de redução de nutrientes — não estão funcionando.
“A agricultura é um negócio onde as pessoas se acomodam e não precisam mudar porque estão confortáveis com a situação atual”, disse ele. “Se os agricultores tivessem que mudar suas práticas para se qualificarem para o seguro agrícola ou para os pagamentos de programas agrícolas, veríamos uma mudança no cenário da noite para o dia.”
Imagem em destaque: Getty Images/Unsplash +
Fonte: The New Lede





