O PT Campos e as salsichas

Por Douglas Barreto da Mata 

Uma fala atribuída ao estadista alemão Otto von Bismarck diz que “as salsichas e as leis, é melhor não saber como são feitas”. Porém, há algo pior que usar desse ou daquele artifício para obter resultados. Aqui vamos falar dos resultados da última eleição interna do PT em Campos dos Goytacazes, com a vitória de Danilo Freitas, com a resposta do perdedor Jefferson Manhães, que o acusa de práticas ilícitas.

Como veremos, a grande questão que ronda a esquerda campista  é a hipocrisia.  O debate não é se esse ou aquele meio é válido ou abusivo. A pergunta é: estou em condições de atacar o uso desse método?  Há muito tempo o PT de Campos tem como demarcação de seus campos a relação com a família Garotinho e seus oponentes. Aliás, dada a hegemonia desse grupo, por tanto tempo, com raríssimos hiatos, esse dilema de ser contra ou a favor da família Garotinho orientou a política local nos últimos 35 anos.

Já estiveram juntos PT e  Anthony Garotinho em 1989, mesmo contra a decisão partidária que determinou a candidatura própria de Luiz Antônio Magalhães, romperam com o então prefeito, voltaram e integraram o governo Arnaldo Vianna (eu incluído) na campanha de 1998, por ordem da campanha de Lula, quando foi desprezada a convenção estadual, que determinou candidatura própria, romperam de novo, se uniram a Paulo Feijó, então desafeto, a Alexandre Mocaiber, idem, e recentemente, aos Bacellar.  Não há nada demais nisso, é o jogo.

Apesar de ser uma lástima essa condição de rabo de baleia, quando era melhor ser cabeça de piaba, o fato é que com a paulistização do PT, em torno do imperador Lula e suas candidaturas, quando a disputa política pelo controle de parlamentos e municípios foi toda achatada, em nome da campanha presidencial, o PT de todo Brasil, e principalmente do Rio e de forma mais trágica, do interior do Rio, foi anulado, e (aqui) só ficou a questão de ser contra ou a favor os Garotinho nesta cidade.

Com a ascensão de Wladimir Garotinho há, como eu, pessoas que defendem uma aproximação com o prefeito, não por enxergar nele um possível novo convertido ao lulismo.  Nada disso.  É que, diferente de seu pai, o filho parece ter apreço pelo diálogo, demonstra capacidade de alterar rumos, e enfim, opera a política dentro de um campo saudável de incertezas.

Do outro lado, enxergo pessoas que, como Jefferson Manhães, Luciano D’Ângelo, José Luiz Vianna, que têm suas razões, requentando mágoas justificadas, talvez, olham o cenário por outro prisma, e defendem a manutenção de uma distância segura de Wladimir Garotinho. 

Não vou dizer que novamente Lula pode vir aí e atropelar tudo, juntando Eduardo Paes e PT (já reunidos) com Wladimir em uma chapa, o que  empurraria goela a dentro desse grupo uma decisão desfavorável.  Não, não vou fazer o papel do relógio quebrado e marcar a hora certa duas vezes no dia. 

O que me preocupa é outra coisa.  É a falta de seriedade em encarar o jogo e ver que determinados atos repercutem além das nossas idiossincrasias. Nas últimas eleições municipais, houve acusações de que Jefferson estaria a soldo do grupo que se opôs a reeleição do atual prefeito.

Não sou leviano de confirmar essa versão, e nem acho que essa posição pode ser deslegitimada, por tudo que disse aí em cima, ou seja, não sobrou muito campo para o PT de Campos operar, então, estão certos os que quiseram funcionar como linha auxiliar dos Bacellar, e os que enxergavam uma chance de diálogo com Wladimir Garotinho.

Por mais que ache estranho o silêncio dessas pessoas e das direções partidárias sobre a postura de uma parlamentar estadual que foi para o palanque de uma (suposta?) adversária no primeiro turno, tenho que respeitar essa omissão como um gesto político, uma opção.  O que não dá para entender é esse pessoal chorar a derrota, apontando o dedo para supostos abusos de poder econômico pela outra chapa.

Um interlocutor muito amigo, me disse hoje de manhã, que Jefferson Manhães é um pobre coitado, uma pessoa muito frágil.  Pode ser, mas eu lembrei a ele o que pessoas “frágeis” podem fazer, e dei como o exemplo o filme Adolescência, e o menino assassino de Itaperuna.  Tomara que esteja errado, e que Jefferson ainda tenha como ser resgatado.

Eleições do PT terminam em confusão por causa de suposto uso de transporte irregular e a direita agradece

Jefferson e Danilo disputam a presidente do PT de Campos – Opiniões

Eleições do PED 2025 acabam em confusão em Campos dos Goytacazes, e a direita agradece (nada) comovida

As eleições realizadas pelo Partido dos Trabalhadores dentro do chamado Processo de Eleição Direta (PED) acabaram em uma confusão que não tem hora para parar em Campos dos Goytacazes. É que circulam vídeos nas redes sociais de apoiadores da chamada liderada pelo Professor Jefferson Manhães alegando que a chapa vencedora encabeçada pelo sindicalista Danilo Farias Dutra, atual tesoureiro do Diretório Municipal do PT, teria se valido do uso de tranporte irregular de eleitores.

As reclamações já foram formalizadas em documento assinado por Jefferson Manhães e enviado à direção nacional do PT, onde é requerida a anulação dos votos recebidos pela chapa de Danilo Dutra (ver abaixo)

Como ex-filiado, militante e dirigente zonal do PT na Ilha do Governador, eu fico me perguntando o que realmente deu de errado com o partido, a ponto das disputas internas envolverem fatos que no meu tempo de militância só eram imagináveis em partidas de direita.

Por outro lado, não posso deixar de notar que o PT mudou muito desde que eu deixei a militância partidária há quase 35 anos.   E é realmente uma mudança lamentável já que o partido nasceu para fazer diferente, até na resolução das suas disputas internas.

 De toda forma, como nessas disputas há sempre o direito ao contraditório, imagino que a chapa encabeçada por Danilo Freitas vá responder ao pedido de Jefferson Manhães, e não deve ser apenas com imagens de vídeos.  Mas agora, cá entre nós, dadas as mudanças internas, me parece que a essas alturas do campeonato, o simples uso de vídeos como elementos probatórios tenha muita chance de prosperar seja no PT ou fora dele.

De minha parte, o que me deixa realmente lamentoso é que com esse tipo de entrevero quem agradece é a direita e a extrema-direita em Campos dos Goytacazes. Afinal, se o maior partido da esquerda institucional é capaz de produzir esse tipo de disputa, não há muito com o que se preocupar em termos de disputar o voto dos campistas nas eleições de 2026.

Tribunal de Basileia avança com processo contra a Syngenta por causa de mortes causadas pelo agrotóxico Polo

Por Public Eye

As viúvas de dois agricultores que morreram de intoxicação por agrotóxicos, juntamente com um agricultor que sobreviveu a uma intoxicação grave, estão processando a empresa suíça Syngenta por danos. Neste caso singular, o Tribunal Cível de Basileia deu um passo significativo ao decidir iniciar uma avaliação das provas relativas ao uso do agrotóxico Polo pelas vítimas.

Os autores afirmam que os envenenamentos ocorridos em 2017 foram resultado do uso de Polo – um inseticida desenvolvido, produzido e vendido pela Syngenta. Embora a venda do Polo não seja permitida na União Europeia (UE) ou na Suíça, ele continua sendo usado na Índia (e também no Brasil, grifo meu) – com consequências, por vezes, fatais: há oito anos, dezenas de agricultores e trabalhadores agrícolas sofreram intoxicações graves relacionadas ao uso do Polo, e dois morreram. Para pequenos e marginais agricultores do hemisfério sul, confrontar uma empresa multinacional é um imenso desafio, pois muitas vezes carecem dos recursos legais, dos meios financeiros e do apoio institucional necessários para buscar a responsabilização. 

Sendo a primeira ação civil do Sul Global contra uma empresa agroquímica por envenenamento por agrotóxicos, este caso inova no campo jurídico. Ele destaca a crescente crítica internacional à duplicidade de critérios no comércio de pesticidas e à responsabilização de empresas europeias por violações de direitos humanos ao longo das cadeias de suprimentos globais. O resultado pode ter implicações que vão muito além dos autores individuais – para outras pessoas afetadas ao redor do mundo e para a forma como a Suíça lidará com a responsabilização corporativa no futuro. 

Em junho de 2021, os autores entraram com uma ação judicial perante o Tribunal Cível de Basileia, com base na lei suíça de responsabilidade pelo produto. Eles são representados pelo escritório de advocacia Schadenanwälte. O caso conta com o apoio das organizações ECCHR, Public Eye e PAN Índia. 

Embora o tribunal ainda não tenha se pronunciado sobre o mérito do caso, já enviou um sinal forte: em junho de 2022, concedeu assistência jurídica aos autores. Isso indica que o tribunal, em princípio, considera que a Syngenta pode ser responsabilizada por danos causados ​​por seus produtos perigosos no exterior, abrindo caminho para que as vítimas e suas famílias busquem justiça perante a justiça suíça.  

Mais informações aqui ou entrando em contato:


Fonte: Public Eye

Eleições RJ 2026: a guerra de movimento versus a de posições

Castro não vê perspectiva de apaziguar ânimos entre Wladimir e Bacellar  Folha1 - Política

Palanque cheio em meio a uma guerra de movimento e de posições

Por Douglas Barreto da Mata

Podemos relacionar uma série de defeitos do deputado estadual Rodrigo Bacellar, pois humano como nós, ele os tem, assim como reúne em si também qualidades. Porém, um defeito ele não tem: ele não é burro.  Comparado ao seu principal adversário regional, o prefeito Wladimir Garotinho, Rodrigo Bacellar teve uma trajetória diferente, por óbvio, e talvez um pouco mais acidentada. Não é herdeiro de um legado político como aquele do tamanho da família Garotinho, que tem no acervo várias eleições bem sucedidas, para mandatos de prefeito, deputado estadual e federal e, governador. No quesito vitórias eleitorais, não há comparação possível.

O casal Anthony e Rosinha foi o único, como de governadores eleitos a partir do interior em toda a história do Estado do Rio de Janeiro, já fundido com o da Guanabara, antigo distrito federal.  Não é pouca coisa, quando se olha a distribuição do peso do eleitorado fluminense, com 70%, ou mais, concentrado na capital, baixada e zona metropolitana (que agora se estende até Itaboraí). Então, a tarefa de Rodrigo Bacellar para se estabelecer como um vetor de poder estadual não foi fácil.

Ao mesmo tempo, ensinam os antigos que manter-se no topo é mais difícil que chegar lá. Pode ser. O fato é que a trajetória de Rodrigo Bacellar no topo da “cadeia alimentar” no Rio de Janeiro está por um fio, aliás, parece que sempre esteve. Só ele pode escolher entre cair com paraquedas ou rede de segurança, ou sem nada mesmo.

Olhando Rodrigo Bacellar e Wladimir Garotinho temos dois personagens bem distintos, e que se encontram em posições bem diferentes também. Ninguém poderá dizer quem vai ser bem sucedido em suas intenções, ou pior, os dois podem sucumbir, mas o fato é que Rodrigo Bacellar parece em situação mais desconfortável.  Não foi (só) um erro de cálculo de Rodrigo, como seus detratores irão dizer, ou excesso de impetuosidade, como dirão também.

Estes ingredientes podem fazer parte dessa história, mas não são determinantes. Havia sinais (como as caneladas do pastor Silas Malafaia, nunca desmentidas ou censuradas pelos Bolsonaros), porém para o jogador não há outro caminho senão assumir certos riscos, ou, “quem não arrisca, não petisca”. Há alguns meses, ninguém, eu incluído, diria que Washington Reis teria mais de 1% de chances de reverter sua inelegibilidade. Hoje, essa circunstância quase se inverteu, e o recado (público) já foi dado em despacho desde Gilmar Mendes para o presidente do STF, Barroso: é possível um acordo de não persecução penal depois de sentença condenatória não definitiva (não transitada). O artigo 28-A do CPP não diz quando não pode, e aí a porca torce o rabo.

É possível interpretar a omissão da lei (interpretação extensiva) em benefício do réu, assim como fazer analogias (usar casos parecidos para suprir omissões legais).  Até os dias atuais, é verdade, ninguém tinha pensado nisso, ou proposto isso (muita gente boa poderia ter se livrado, ou poderá se livrar da cadeia e de inelegibilidades, é certo). Como vemos, “bons advogados” são matéria valiosa nesse habitat hostil.

Bem, voltando a Rodrigo Bacellar, Wladimir Garotinho e etc., temos um mundo de alternativas, mas todas partem de pontos comuns:  Washington Reis vai definir parte do jogo, a depender da decisão de sua elegibilidade.  Mesmo inelegível ele já era peça crucial no desfecho.

Há uma parte que será definida pela montagem da chapa presidencial e as repercussões dessa arrumação nos palanques estaduais.  Outra variável é: a importância do prefeito Wladimir Garotinho perde força com a saída de Rodrigo Bacellar de cena, por mais estranho e paradoxal que pareça.  Sem Rodrigo no páreo, a necessidade da chapa de Eduardo Paes de um contraponto no quintal dele (Rodrigo) diminui muito.

Por outro lado, suas chances de ocupar um espaço nesta mesa estadual crescem, não pelo antagonismo, mas pela solidariedade política entre os dois clãs, os Reis e os Garotinho.  Alguns mais reticentes dizem que essas chances diminuem, justamente porque o peso político do sobrenome, e suas próprias qualidades (de Wladimir) deixariam desconfortáveis tanto Paes como Reis em ter um vice como ele.

Um cálculo pragmático e correto, afinal, a gente sabe que o time só tem um camisa dez. Desse modo, a presença de Wladimir Garotinho na chapa como vice de Washington Reis ou Eduardo Paes será consagrada como uma exigência de uma conjuntura, não apenas de promessas e afagos. Há os que defendem que Washington Reis será o candidato a governador de um grande bloco de centro e direita, com Paes senador, sobrando outra vaga a ser definida, de acordo com os movimentos da corrida ao Planalto.

Não creio nesse caminho, embora o reconheça possível.  Tudo indica que a chapa bolsonarista ao Planalto tenha na cabeça de chapa o governador de SP, Tarcísio. Até aí tudo bem, não haveria grandes problemas em acomodar Eduardo Paes e Washington Reis, e isolar o palanque petista. O nó górdio é o Senado Federal.

A questão é ajustar a estratégia bolsonarista àquela casa, já que a premissa para concorrer com as bênçãos do ex-presidente e de seu filho senador seria a fidelidade expressa e irredutível à missão de combater o Supremo Tribunal Federal (STF), o que é prerrogativa dos senadores.  Nesse ponto, nem Cláudio Castro, nem Washington Reis, nem Eduardo Paes, nem Rodrigo Bacellar, enfim, muito pouca gente além do atual senador Carlos Portinho aceitaria fazer esse compromisso, ainda mais quando boa parte dos nomes citados têm interesse em causas em julgamento, que definem suas próprias sobrevivências políticas.

Querem um aperitivo do pavor que reina no STF   com essa estratégia? Bastou o presidente do Senado mandar o recado sobre a questão do julgamento da inconstitucionalidade do decreto legislativo que derrubou o IOF, sugerindo o desengavetamento dos pedidos de impeachment de Alexandre de Moraes, que o mesmo decidiu fazer o impensável: ao invés de dizer que é ou não constitucional, decidiu “conciliar” antes governo e Congresso.  Não existe “conciliação” em matéria constitucional, ou é ou não é.  No entanto, o STF, além de todo o protagonismo já arrecadado na história recente desse país, para nossa infelicidade, agora se auto proclamou (não sem a omissão de outros poderes) em uma instância de moderação, um quarto poder.

No caso das terras indígenas e o marco temporal, o STF deve ter sofrido a mesma chantagem do impeachment, e assim devem ser entendidas todas as “conciliações”. Então, os Bolsonaro parecem loucos, mas não são, quem controlar o Senado, controla esse quarto poder, e claro, os demais.

Sendo assim, para termos uma chapa do tipo todo mundo junto, as duas vagas para o senado têm que ter adeptos radicais dessa tese do bolsonarismo anti STF. Essa hipótese só tem chance com Washington Reis correndo contra Paes, com uma chapa que contemple, ao mesmo, parte esfacelada do que restar do governo Castro (e o próprio), do PP, de Luizinho, e outros que não me vem à mente agora, além do próprio Wladimir Garotinho.  É gente demais, para vaga de menos.

Rodrigo Bacellar sabe que seu espaço encurtou, não só pelos seus arroubos ou atos precoces de hostilidade com esse ou aquele adversário.  Foram as circunstâncias que alteraram o jogo, circunstâncias estas que ele não poderia incluir muito, ou nada. Quem olhar mais de perto verá que esses gestos mais extremos de Rodrigo, principalmente os mais recentes, podem ter sido calculados, como forma de apontar uma saída honrosa, já que o deputado já sabia que sua trajetória nessa corrida seria curta, ou percebeu isso com o balançar da carruagem.

A única chance que resta para que ele seja candidato a governador é como uma candidatura tipo Ramagem (na última campanha de 2024, para prefeito do Rio).  Ou seja, funcionar para ancorar as candidaturas ao senado.  Não acho que ele aceitaria esse papel coadjuvante.  O certo é que nenhuma etapa dessa caminhada de Rodrigo Bacellar se deu sem muito atrito e ruído.

Como mencionei em outro texto, sua pré candidatura parece uma luta de doze assaltos com Evander Holyfield, no auge da forma, enquanto lhe espera outra luta, logo depois, com George Foreman, aos 25 anos.  O que Bacellar parece fazer é dar aquela famosa mordida na orelha de Mike Tyson.  Como anteviu a derrota, decidiu acabar a luta, perder por desclassificação, e não por knock out, e tendo arrancado um pedaço do outro.

A vaga a governador poderia ser oferecida a Wladimir Garotinho, em uma chapa que significaria um suposto racha na direita, com Washington Reis e Wladimir em palanques separados. Isso poderia diminuir as chances de o pleito ser definido em primeiro turno.  A questão é Wladimir Garotinho aceitar embarcar nessa, tendo como certos o cumprimento de seu mandato de prefeito ou o de deputado federal eleito.

É preciso dizer novamente, 2026 será dos sobreviventes, e nenhuma força política é tamanha que pode desprezar as demais. Vai prevalecer quem souber poupar munição e estiver melhor localizado no campo de batalha. Por derradeiro, a IA nos informa:

“A diferença principal entre guerra de movimento e guerra de posições reside na mobilidade e no foco estratégico. A guerra de movimento envolve movimentos rápidos e ofensivos de tropas, buscando a conquista de território e a derrota decisiva do inimigo. Já a guerra de posições é caracterizada por uma estabilização das linhas de frente, com exércitos entrincheirados e pouca movimentação, onde a principal estratégia é a defesa e a manutenção de posições conquistadas.”

Diquat pode danificar órgãos e bactérias intestinais, mostra nova pesquisa

O diquat é proibido no Reino Unido, na UE, na China e em outros países. Os EUA (e o Brasil) têm resistido aos apelos para regulá-lo

Agrisel® Diquat | Agrisel USA, Inc

“Outros países proibiram o diquat, mas nos EUA ainda estamos travando as batalhas que a Europa venceu há 20 anos. 

Por Tom Perkins para o “The Guardian”

O herbicida Diquat, usado para substituir o glifosato no Roundup e outros produtos herbicidas pode matar bactérias intestinais e danificar órgãos de várias maneiras, mostra uma nova pesquisa .

O ingrediente, diquat, é amplamente utilizado nos EUA como herbicida em vinhedos e pomares, e é cada vez mais pulverizado em outros lugares do país, com o uso de substâncias herbicidas controversas, como glifosato e paraquat,

Mas os novos dados sugerem que o diquat é mais tóxico que o glifosato, e a substância é proibida devido aos seus riscos no Reino Unido, na UE, na China e em muitos outros países. Ainda assim, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) resistiu aos apelos por uma proibição, e as fórmulas do Roundup com o ingrediente chegaram às prateleiras no ano passado.

“Do ponto de vista da saúde humana, esse produto é bem mais nocivo que o glifosato, então estamos presenciando uma substituição lamentável, e a estrutura regulatória ineficaz está permitindo isso”, disse Nathan Donley, diretor científico do Centro para a Diversidade Biológica, que defende regulamentações mais rigorosas para pesticidas, mas não participou da nova pesquisa. “Substituição lamentável” é um termo científico usado para descrever a substituição de uma substância tóxica em um produto de consumo por um ingrediente que também é tóxico.

Acredita-se também que o diquat seja uma neurotoxina, cancerígeno e esteja ligado à doença de Parkinson. Uma análise de dados da EPA realizada em outubro pela organização sem fins lucrativos Amigos da Terra descobriu que ele é cerca de 200 vezes mais tóxico que o glifosato em termos de exposição crônica.

A Bayer, fabricante do Roundup, enfrentou quase 175.000 processos judiciais alegando que os usuários do produto foram prejudicados. A Bayer, que comprou a Monsanto em 2018, reformulou o Roundup depois que a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer classificou o glifosato como um possível carcinógeno.

A nova revisão da literatura científica concentra-se, em parte, nas múltiplas maneiras pelas quais o diquat danifica órgãos e bactérias intestinais, incluindo a redução do nível de proteínas que são peças-chave do revestimento intestinal. Esse enfraquecimento pode permitir que toxinas e patógenos passem do estômago para a corrente sanguínea, desencadeando inflamação nos intestinos e em todo o corpo. Ao mesmo tempo, o diquat pode inibir a produção de bactérias benéficas que mantêm o revestimento intestinal.

Danos ao revestimento também inibem a absorção de nutrientes e o metabolismo energético, disseram os autores.

A pesquisa analisa ainda mais detalhadamente como a substância prejudica os rins, os pulmões e o fígado. O diquat “causa danos estruturais e funcionais irreversíveis aos rins”, pois pode destruir as membranas das células renais e interferir nos sinais celulares. Os efeitos no fígado são semelhantes, e o ingrediente causa a produção de proteínas que inflamam o órgão.

Enquanto isso, parece atacar os pulmões, desencadeando uma inflamação que danifica o tecido do órgão. De forma mais ampla, a inflamação causada pelo diquat pode causar a síndrome da disfunção de múltiplos órgãos, um cenário em que os sistemas orgânicos começam a falhar.

Os autores observam que muitos dos estudos são com roedores e que mais pesquisas sobre exposição de baixo e longo prazo são necessárias. A Bayer não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Apesar dos riscos em meio ao aumento do uso de diquat, a EPA não está revisando o produto químico, e até mesmo organizações sem fins lucrativos que pressionam por regulamentações mais rigorosas de pesticidas têm concentrado sua atenção em outras áreas.

Donley disse que isso se deve, em parte, ao fato de as regulamentações de agrotóxicos nos EUA serem tão frágeis que os defensores estão envolvidos em batalhas por ingredientes como glifosato, paraquate e clorpirifós – substâncias proibidas em outros lugares, mas ainda amplamente utilizadas aqui. O diquate é “ofuscado” por esses ingredientes.

“Outros países proibiram o diquat, mas nos EUA ainda estamos travando as batalhas que a Europa venceu há 20 anos”, disse Donley. “Isso ainda não chegou ao radar da maioria dos grupos, e isso realmente diz muito sobre o triste e lamentável estado dos pesticidas nos EUA.”

Alguns defensores acusaram a EPA de ser controlada pela indústria, e Donley disse que as leis de pesticidas dos EUA eram tão fracas que era difícil para a agência proibir ingredientes, mesmo que existisse a vontade da agência. Por exemplo, a agência proibiu o clorpirifós em 2022, mas um tribunal anulou a decisão após a indústria entrar com uma ação judicial.

Além disso, o escritório de pesticidas da EPA parece ter uma filosofia que afirma que pesticidas tóxicos são um “mal necessário”, disse Donley.

“Quando você aborda uma questão dessa perspectiva, há um limite para o que você pode fazer”, disse ele.


Fonte: The Guardian

México: Raio-X sem precedentes de microplásticos expõe pontos cegos

A Grande Mancha de Lixo do Pacífico (https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Pacific_garbage_patch) faz com que grandes quantidades de lixo sejam levadas para a costa no extremo sul do Havaí. É muito triste ver um litoral tão pitoresco arruinado por tantos detritos. Veja também: http://www.atlasobscura.com/places/kamilo-beachNo Oceano Pacífico, existem vastas áreas de acúmulo de lixo eletrônico e microplásticos, conhecidas como Garbage Patches, como visto na foto. Crédito da imagem: Justin Dolske/Flickr , sob licença Creative Commons CC BY-SA 2.0 Deed. 

Esta é a conclusão de um novo estudo a ser publicado na edição de agosto da revista Science of the Total Environment , que analisa pela primeira vez o conhecimento disponível sobre a presença ambiental dessas partículas sintéticas no país.

“Não houve uma revisão sistemática que integrasse as informações e pudesse orientar pesquisas futuras ou políticas públicas”, disse Diana Marcela Caro-Martínez, doutoranda em Desenvolvimento Sustentável na Universidade de Quintana Roo e principal autora do artigo, em entrevista ao SciDev.Net .

Para descobrir o panorama nacional, a equipe acompanhou estudos sobre microplásticos em sedimentos, solos, organismos vivos, água (doce e marinha) e ar.

Eles localizaram 80 estudos publicados entre 2014 e 2024 em 20 dos 32 estados do México. Analisando-os, identificaram padrões de distribuição, polímeros predominantes, concentrações relatadas e desafios a serem enfrentados, especialmente a falta de métodos padronizados para monitorar e comparar a abundância de microplásticos.

Eles encontraram relatos de até 586.400 partículas por quilo em sedimentos e um recorde de 936.000 por metro cúbico em água doce.

Esses números indicam poluição extrema e colocam o México entre os países mais afetados.

No entanto, María Belén Alfonso — professora do Centro de Estudos de Plástico Oceânico da Universidade de Kyushu, no Japão, que não esteve envolvida no estudo — sugere interpretá-los com cautela.

“Em alguns lugares haverá concentrações muito altas e em outros muito baixas, mas às vezes isso não está tanto relacionado ao fato de um lugar estar mais contaminado do que outro, mas sim à forma como as amostras foram coletadas”, comentou ele em entrevista ao SciDev.Net .

Ele alertou que “900.000 partículas por metro cúbico é superabundante, mas eu me arriscaria a dizer que se trata de uma amostra retirada de um pequeno volume de água”. Como os microplásticos são capazes de formar manchas, o número pode ser uma superestimativa devido a uma dessas agregações.

“Se eu coletar uma amostra de água com uma garrafa de 1 litro, ela não será tão representativa daquele ambiente quanto se eu arrastasse uma rede por pelo menos 100 metros e coletasse uma quantidade considerável de água filtrada”, acrescentou.

Da lacuna à ação

As observações de Alfonso coincidem com um desafio fundamental identificado pela revisão: a falta de padrões metodológicos, um problema global agora confirmado no México.

Os autores, incluindo Lorena Rios Mendoza — professora da Universidade de Wisconsin-Superior e pioneira no estudo de microplásticos — descobriram que a maioria dos estudos usa análise visual com sensibilidades variadas, unidades não comparáveis ​​e protocolos não harmonizados.

“Vinte anos se passaram desde que comecei a estudá-los”, disse Rios Mendoza ao SciDev.Net , “e ainda não conseguimos concordar sobre como inspecioná-los, como relatá-los, como quantificá-los, como identificá-los”.

Os estudos se concentram em estados costeiros industrializados, especialmente Campeche e Sinaloa, enquanto regiões do interior — como o planalto central, o norte semiárido e o sudeste continental — permanecem praticamente inexploradas.

Segundo Rios Mendoza, isso ocorre porque “os primeiros estudos sobre microplásticos foram realizados no oceano, principalmente no Pacífico, onde encontramos a Garbage Patch ” [grandes áreas de mar onde se acumulam lixo e outros resíduos, incluindo equipamentos de pesca] e é preocupante porque a verdadeira magnitude nos ecossistemas continentais pode estar subestimada.

Há também um viés nos tipos e tamanhos das amostras, visto que mais de 75% dos estudos são realizados em sedimentos e biota, e apenas um foi encontrado no ar. Além disso, a maioria relata partículas maiores que um milímetro, ignorando os menores microplásticos e nanoplásticos, que representam um risco ecotoxicológico maior.

“Essa lacuna se deve à necessidade de protocolos mais especializados e instrumentação extremamente cara que nem todos podem pagar”, explica Rios Mendoza.

“É muito fácil culpar a má gestão de resíduos, mas há duas fontes que não foram levadas em conta e que precisamos abordar primeiro: a superprodução da indústria petroquímica e o consumo excessivo.”

Diana Marcela Caro-Martínez, doutoranda em Desenvolvimento Sustentável na Universidade de Quintana Roo, México

Outra descoberta importante foi a predominância do polietileno (PE) e do polipropileno (PP), dois polímeros comuns usados ​​em embalagens, roupas e itens descartáveis. Sua onipresença revela pontos cegos tanto nas normas mexicanas quanto nas recomendações internacionais.

“É muito fácil culpar a má gestão de resíduos, mas há duas fontes que não foram levadas em conta e que devemos abordar primeiro: a superprodução da indústria petroquímica e o consumo excessivo”, reclama Caro-Martínez.

Para corrigir a situação, os pesquisadores delineiam uma série de diretrizes que começam com a padronização de metodologias de amostragem de campo, análises laboratoriais, unidades usadas para relatar microplásticos e sua identificação inequívoca.

Eles propõem então a criação de um banco de dados nacional para coletar, organizar e armazenar informações: “onde o comportamento e a abundância dos microplásticos no país possam ser vistos a cada três ou seis meses, durante a estação seca ou chuvosa”, enfatiza Caro-Martínez.

Ele acrescenta que é necessária uma abordagem coordenada, baseada em redes de monitoramento, compartilhamento de dados e acordos políticos, juntamente com responsabilidade individual.

Como ressalta María Belén Alfonso, a longo prazo, essas iniciativas favorecem a regulamentação ambiental: “Para desenvolver leis, é preciso baseá-las em dados científicos comparáveis ​​que determinem se essa concentração é muito alta ou muito baixa”.


Fonte: SciDev

No oeste do Texas, mudanças climáticas colocam em xeque o negacionismo climático de Donald Trump

Se existe um estado nos EUA em que o negacionismo climático é muito forte é o Texas e é justamente na sua porção oeste que surge uma mensagem forte e clara de que vivenciamos algo próximo de um colapso do que nos acostumamos a vivenciar em termos de eventos meteorológicos.  É que após chuvas particularmente intensas, um dos rios que cruza a porção oeste do território texano, o Guadalupe, saiu do seu leito causando inundações devastadoras. O saldo de mortos até agora é de 24, mas há a chance clara de que esse número aumente rapidamente nas próximas horas, visto que em só em um acampamento de jovens existem 25 desaparecidos.

Esse acontecimento e suas consequências parecem dignos de um país de terceiro mundo, na medida em que a rápida elevação do Rio Guadalupe aconteceu de noite enquanto muitas pessoas dormiam. Além disso, não foram acionados alarmes para avisar das inundações que iriam inevitavelmente acontecer,  o que aumentou o número de mortos e feridos.

A inundação do Rio Guadalupe deixou árvores caídas e detritos em seu rastro, em Kerrville, Texas, na sexta-feira.

A inundação do Rio Guadalupe deixou árvores caídas e detritos em seu rastro, em Kerrville, Texas, na sexta-feira. Eric Gay/AP

É preciso que se diga que as consequências devastadoras desse evento meteorológico extremo e a clara falta de preparação para antecipar suas consequências encontram explicação no que está fazendo não apenas o governo estadual do Texas comandado por um cético climático, o republicano Greg Abbott, que tem agido para desestimular respostas para as mudanças climáticas em prol dos interesses da interesse de petróleo, mas principalmente o governo federal comandado por Donald Trump.  Trump não apenas nega a existência das mudanças climáticas, mas como também tem agido em seu segundo mandato para desmantelar as agências governamentais que pesquisam o fenômeno, além de ter ordenado a retirada de páginas oficiais que abordavam o problema.

No caso das agências, uma das mais atingidas foi a Administração Ocêanica e Atmosférica Nacional (NOAA) que sofreu sofreu cortes significativos em seu orçamento e equipe, impactando sua capacidade de conduzir pesquisas, monitorar mudanças climáticas e fornecer previsões meteorológicas cruciais. Outra agência federal que foi muito impactada foi justamente a  Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA),  responsável a grandes desastres climáticos, que também demitiu cerca de 1.000 funcionários,  o que certamente afetará a sua capacidade de resposta em eventos extremos como o que acaba de acontecer no Texas.

Mas essa tragédia texana acontece justamente em meio à aprovação de um orçamento federal que deverá encurtar ainda mais o orçamento das agências ambientais, além de manter os subsídios para indústrias poluidoras. Essa combinação deverá resultar em um quadro em que as condições de agravamento da crise climática pelo aumento de gases de efeito estufa irá se encontrar com uma estrutura governamental incapaz de responder a eventos meteorológicos extremos. Se chegou até aqui e pensou que os EUA estão muito parecidos com países da periferia capitalista em termos de resposta ao colapso climático, você está mais do que correto. E que ninguém se surpreenda se lá, como aqui, os governantes surgirem no meio do caos usando os coletes da Defesa Civil. É que esse fetiche dos coletes não parece conhecer fronteiras, nem vergonha na cara.

A questão para os habitantes do planeta, estadunidenses ou não, é que o negacionismo climático de governos controlados por grandes poluidores, como as petroleiras, tem um custo alto e que não irá parar de aumentar com o avanço da crise climática e suas manifestações extremas.  Por isso, mais do que qualquer outro momento na história do Capitalismo, a questão climática não poderá ser deixada apenas nas mãos dos governos.

Eleições 2026: as placas tectônicas da política fluminense se agitam, talvez um pouco cedo demais

Por Douglas Barreto da Mata

Animado pelo aperitivo oferecido pelo editor deste blog, professor Marcos Pedlowski, vou colocar minha colher nessa sopa de eventos.  Há algum tempo atrás eu mantenho a opinião de que a pré campanha para o cargo de Estado do Rio de Janeiro, e demais posições vinculadas, como a composição de chapas (vice), senadores e deputados federais e estaduais, não serão definidas por uma afirmação de supremacia completa de uma facção sobre outra. Ao contrário, vai ser uma luta renhida, onde vão sobressair sobreviventes, e a depender da conjuntura a ser desenhada, os candidatos e os vencedores terão tantas cicatrizes que a vitória poderá ser comparada a de Pirro.

Além das questões próprias de todas as campanhas eleitorais em todos os níveis e lugares, o Estado do Rio de Janeiro carrega questões bem específicas, ou como dizem os gaiatos, “o Rio não é para amadores”. Nesse pleito de 2026, esse Estado estará em péssimo estado, me perdoem o trocadilho, e as representações políticas tendem a refletir esse ambiente de fragmentação e atritos. Não é fácil construir consensos no meio na penúria e caos, pois “onde falta pão, todos gritam e ninguém tem razão”.

Uma olhada rápida para um dos concorrentes, o deputado estadual Rodrigo Bacellar e sua trajetória, até aqui, acidentada e truncada, são um exemplo dessa hipótese que defendo.  Claro, nenhum processo de construção de uma posição é isento de conflitos, rusgas, cotoveladas e dedos nos olhos.  Porém, olhando o adversário, Eduardo Paes, o único declarado até agora, observa-se que mesmo expostos ao mesmo tempo de especulação, pois os dois (Rodrigo e Paes) já revelaram seus planos desde 2022, parece que o caminho de Rodrigo pode ser comparado a escalada do Everest, enquanto Eduardo Paes, no máximo, sobe o morro da Pedra da Gávea.

Por certo, alguns dirão, principalmente os correligionários de Rodrigo, que isso pode fortalecer seu capital político e seu ânimo em vencer a tudo e a todos, e que uma queda de 50 metros é tão letal quanto uma de 500 metros.  Sim, o jogo só acaba quando termina. Não duvido, e a derrota do próprio Eduardo Paes para Wilson Witzel seria uma comprovação dessa teoria, que precisa ser ponderada àquela que ensina que as coisas só se repetiriam em condições exatamente iguais, e isso é impossível, porque o tempo sempre será outro. Em resumo, Rodrigo não é Witzel, Paes não é o mesmo daquele tempo, e o tempo é outro.

A experiência nos mostra que campanhas iniciadas com esse nível de esforço raramente conseguem manter o ritmo até o fim. É diferente ser um azarão desacreditado, sem máquina, sem apoios de peso, ser uma “zebra”, e estar na condição de governador em exercício, presidente da assembléia estadual e controlador de orçamentos, e ainda assim não conseguir pacificar nem seu próprio quintal, nem na sua cidade natal.

Olhemos as circunstâncias. O governo Cláudio Castro padece de um sintoma antigo, que incide sobre a maioria das administrações que o chefe não concorrerá à reeleição, que é o fim antecipado do governo e de sua força. Aqui adicionamos os problemas da estratégia eleitoral em si, que exige que o governador atual “troque o pneu com o carro andando”, ou seja, “deixe de ser” o centro das atenções para dar impulso ao concorrente que ele diz apadrinhar (outros juram que foi obrigado a fazê-lo). Tudo isso em um governo que não reúne boas condições administrativas (para ser bem gentil), acossado por questões jurídicas pendentes, e com baixíssimo apoio do eleitor.

“Ah, mas Eduardo Paes” também viverá esse problema da transição e enfraquecimento. Sim, mas quem olha esse processo na prefeitura carioca observa que o prefeito Paes parece muito mais confortável que o pessoal do governo do Estado. A cidade carioca firmou-se como destino de eventos importantes, e o prefeito conseguiu angariar toda a atenção, enquanto o governo do Estado parece um coadjuvante distante.  No debate sobre a segurança pública, Paes ganhou de lavada, e inverte uma lógica conhecida: mesmo alguns problemas sendo estaduais, como a segurança, o povo cobra do prefeito.

Eduardo Paes, nesse quesito, deu um nó tático no pessoal do governo do Estado.  Nesse sentido, talvez o silêncio da família Bolsonaro não seja apenas uma reticência pessoal do primeiro filho Flávio com o deputado Bacellar, como todos os bastidores da política comentam, mas um cálculo político, ou seja, os Bolsonaro aguardam para anunciar apoio, caso o deputado Bacellar sobreviva a essa primeira etapa.

É um recado importante, que mesmo não verbalizado, precisa ser ouvido.  Na política, às vezes, mais relevante é o que não é dito, arrisco a dizer que na maioria das vezes.  Os Bolsonaro devem saber que não hipotecar apoio antecipado e público ao deputado enfraquece sua posição de partida, pois pouparia o concorrente de vários embates e definiria aos agentes envolvidos quem é quem.

Ainda que lá na frente os Bolsonaro, como todo grupo político, refizessem cálculo e substituíssem o deputado, com outra estratégia ou uma improvável, porém não impossível aliança com Paes, mesmo assim o deputado estaria em condições de negociação muito melhores, inclusive em relação a caminhos eleitorais alternativos, ou até, como dizem, uma opção por uma vaga ao Tribunal de Contas do Estado (TCE).

Então, sabedores de tudo isso, por que fazem desse jeito?  Bem, não ouso adivinhar, mas sei dizer porque não o fazem, não o apoiam de antemão porque não o julgam merecedor desse apoio, não agora, e adotam o critério da oportunidade (ou oportunista), isto é, se ele emplacar, vamos com ele mesmo.

Um outro método de observação que aprendi, com o passar dos tempos, é olhar com atenção às aparições e gestos públicos em torno do candidato.  Com exceção de seus deputados da chamada tropa de choque, e dos prefeitos que precisam de dinheiro, e por isso nunca ousariam fazer o que o fez o prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho, as visitas do governador em exercício em atos oficiais (e pré eleitorais) carecem de densidade (gente) e de repercussão, para além das bolhas de mídias já conhecidas.

Eu não posso afirmar com 100% de certeza, mas nessas agendas cruciais para o governador em exercício, pois são a largada de seu projeto, não vi nenhum nome “peso”, nenhum senador, como o próprio Flávio ou Portinho, que poderiam aproveitar para cerrar fileiras e, de quebra, começar as tratativas da campanha que vem por aí.  Pode ser zelo para impedir interpretações de campanha antecipada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE)? Pode ser reflexo das incertezas em relação a quem caberá qual vaga na chapa? Pode.

O estranho é que esse suposto cuidado não combina com tantas outras aparições descuidadas, ao mesmo tempo que seria normal a um pretendente a ser candidato a senador, como Portinho, e que não tem vaga certa, estivesse ali,  justamente, para demarcar seu território, disputar espaço, conquistar o apoio, ou ao menos, não ter o futuro governador e candidato contra si.  Enfim, o que parece é que Rodrigo Bacellar foi deixado no meio da arena, com leões como os Reis, os Garotinho, sem apoio explícito dos Bolsonaro, com a total indiferença de outro quadro relevante, como Dr Luizinho do PP.

Se ele conseguir sobreviver e sair debaixo dos escombros do terremoto causado pelo choque de tamanhas placas tectônicas, vai ter outra tarefa:  se conseguir construir uma campanha, ele já estará bem ferido, enfrentando alguém que não sofreu tanto, como Eduardo Paes.

Para não fugir a metáfora esportiva, é como se ele tivesse lutado e ganho uma luta de doze duríssimos assaltos contra Evander Holyfield, e duas horas depois voltasse ao ringue para enfrentar um George Foreman totalmente descansado. A vitória é possível, porém, improvável.

Freio de arrumação põe fim na paz tensa: Rodrigo Bacellar exonera Washington Reis

Fim do armstício e guerra declarada: governador em exercício, Rodrigo Bacellar, exonera o secretário estadual de Transportes, Washington Reis (MDB)

Fim dos sorrisos de fachada:  com a caneta na mão, Rodrigo Bacellar exonera Washington Reis

Em uma mais uma demonstração de que as eleições de 2026 já estão afetando a geopolítica fluminense, o Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro traz hoje a exoneração do ex-prefeito e ex-deputado Washington Reis (MDB) do cargo de secretário estadual de Transporte e Mobilidade Urbana (ver extrato abaixo).

Como até as pedras do Rio Saracuruna sabem das pretensões de Washington Reis de se candidatar ao cargo de governador no ano que vem, essa exoneração tem claramente a intenção de não deixar que ele continue usando o cargo de secretário para mostrar sabe-se lá qual tipo de serviço.

Mas como na política do Rio de Janeiro, pau que bate em Chico sempre acaba batendo em Francisco, aguardemos os próximos capítulos dessa novela trágica agora que o armísticio tenso entre Bacellar e Reis chegou ao fim. 

Agrotóxicos usados na cultura de fumo contaminam água e agricultores em SC, aponta estudo

Agricultor aplica agrotóxico sem uso adequado de equipamentos de proteção individual em lavoura de tabaco

Um estudo realizado em Chapadão do Lageado, no interior de Santa Catarina, revela que o cultivo do tabaco expõe agricultores e recursos hídricos à contaminação por pesticidas. O artigo, publicado na revista Desenvolvimento e Meio Ambiente, investigou a presença de resíduos de agroquímicos usados na fumicultura em rios e poços da região, além da ocorrência da doença da folha verde do tabaco (DFVT) e de sintomas de intoxicação por agrotóxicos entre os produtores.

Com a autoria de pesquisadoras da Universidade Regional de Blumenau (Furb), da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas da Argentina (Conicet), o trabalho foi motivado após uma das autoras, Giane Carla Kopper Müller, doutora em engenharia ambiental pela Furb e proprietária de áreas rurais em Chapadão do Lageado, identificar a presença de agroquímicos em águas de suas terras. “Fiquei intrigada , pois as fontes são protegidas, rodeadas por vegetação e distantes, cerca de 500 metros, de lavouras. Quis entender qual seria a origem dessa contaminação.”

A metodologia combinou entrevistas com 107 pessoas, representando 42% dos fumicultores da região (258). Já a análise da água foi feita a partir de 36 amostras coletadas em seis pontos dos três principais rios do município — Rio do Meio, Rio Figueiredo e Rio Lageado — sendo três pontos a montante (antes das áreas de cultivo, no sentido contrário ao fluxo do rio) e três a jusante (depois das áreas de cultivo, acompanhando o fluxo da água). Também foram analisadas seis amostras de poços, localizados próximos aos pontos de coleta dos rios e utilizados para consumo humano, durante três fases da safra de 2019. As amostras passaram por filtragem e análise em laboratório com uso de cromatografia líquida e espectrometria de massa, e foram testadas para 14 dos pesticidas mais citados pelos fumicultores.

As entrevistas revelaram um cenário de intensa exposição ocupacional. A maioria dos fumicultores trabalha em pequenas propriedades, com o tabaco como principal fonte de renda (85%), e dedica mais de 75% do tempo familiar à atividade. Crianças e idosos também participam da colheita. Dos produtores entrevistados, 91,6% relataram sintomas relacionados à DFV e 19,6% relataram sintomas relacionados ao manuseio de pesticidas. 

Segundo o artigo, os riscos de exposição dos agricultores são potencializados por uso incorreto ou parcial dos equipamentos de proteção individual (EPI), falhas no descarte e descontaminação de vestuários, embalagens e equipamentos utilizados no preparo e aplicação dos agroquímicos. Apesar de 99% dos entrevistados reconhecerem a importância dos EPI, apenas metade afirma sempre usá-los ao manusear agrotóxicos o que aumenta os riscos de intoxicação. Apenas 13% afirmam ser necessário usar EPIs para evitar a intoxicação, DFVT ou popular “porre do fumo”, devido à exposição à nicotina.

“Não se pode restringir o risco de contaminação apenas ao momento da aplicação direta do agrotóxico na lavoura. É preciso considerar também as embalagens usadas, as roupas de proteção, os utensílios e os resíduos presentes no ambiente agrícola. Mesmo após o uso, esses materiais ainda retêm partículas tóxicas, que podem ser dispersas pela água da chuva ou pelo manuseio inadequado, ampliando a exposição de trabalhadores e o risco de contaminação ambiental”, explica Lorena Benathar Ballod Tavares, professora do programa de pós-graduação em engenharia ambiental da Furb e coautora do artigo. Além disso, a proximidade entre as plantações comerciais e os alimentos cultivados para o consumo da própria família, como aipim, feijão e frutas, aumenta a exposição.

A análise da água detectou resíduos de agrotóxicos em 18 das 36 amostras, sendo a maioria em rios próximos às lavouras. Princípios ativos como sulfentrazone, imidacloprid e thiamethoxam foram identificados em concentrações que superam o limite individual máximo de 100 nanogramas por litro, estabelecido pela União Europeia para água potável. No Brasil, não há parâmetros de potabilidade definidos para os ingredientes ativos testados. Quatro de seis poços analisados estavam contaminados; as fontes de água testadas são usadas para consumo humano, irrigação e piscicultura.

Para as autoras do estudo, os resultados reforçam a urgência de políticas públicas voltadas à educação sobre riscos ocupacionais e ambientais no cultivo de tabaco.  Para a pesquisadora Maria Pilar Serbent, do Conicet, são necessários  investimentos em soluções que reduzam essa exposição dos agricultores, como modelos de produção orgânica. “Eles plantam tabaco e usam agrotóxicos porque é a única forma de garantir a subsistência da família”, defende Müller. “São dependentes dessa forma de produção e não têm os recursos, subsídios, investimentos e nem acesso à expertise para buscar meios menos prejudiciais ao meio ambiente e à própria saúde.” O estudo também sugere que a fiscalização ambiental e o monitoramento da qualidade da água sejam intensificados em regiões de monocultura.


Fonte: Agência Bori