Thiago Pampolha está afinado com Rodrigo Bacelar ou vai atravessar o samba?

Castro reitera apoio a Bacellar e diz que Pampolha não é mais do seu grupo  político - blogdoarnaldoneto.com.br
Por Douglas Barreto da Mata

Um termo muito em voga em tempos de realidade líquida (Baumann) é a teoria da conspiração. Com a dificuldade em estabelecer a relação de causa e efeito, e por conseguinte, determinar os fatos por sua natureza, é comum que se criem versões fantasiosas e alternativas, impregnadas de vieses, que não raro defendem interesses inconfessáveis. Esse fenômeno não é novo, como dizem.

A mídia comercial gosta de nos fazer crer que ela é quem pode validar a verdade, com slogans tipo “fato ou fake” e outras baboseiras, e que esse tipo de conduta manipuladora é algo da internet. Tudo mentira. Mídia empresarial e redes sociais disputam entre si o monopólio da mentira, que durante muito tempo era um mercado exclusivo das mídias tradicionais. Estava tudo ali, discurso de ódio, racismo, etc, desde as produções de “entretenimento”, até às redações jornalísticas.

Os princípios que nos tornaram violentos, escravocratas modernos, misóginos estão todos ali, desde Bom Dia, Brasil, passando pela Sessão da Tarde, novelas, Jornal Nacional, e com os filmes de violência enlatada produzidos pelos EUA. A grande embalagem desse pacote tóxico sempre foi o preconceito de classe, óbvio.

Não se esqueçam das propagandas, por favor, que misturavam cigarros com esporte, álcool com corrida de carros, de material de limpeza, cama, mesa e banho só para mulheres, enquanto aos homens brancos, os produtos que simbolizavam a macheza, o sucesso. Os pobres nordestinos sempre na portaria, o “malandro” dos morros, as pretas sempre lavando, passando e cozinhando.

Então, a briga entre mídia e redes sociais é só para disputar esse legado. Mas por que eu fiz esse enorme nariz de cera? Para abordar novamente a sucessão estadual. Eu trago uma “teoria da conspiração”, que eu já apresentei neste blog prestigioso, e como uma boa teoria, ela só especula. Não é conspiratória, na verdade, não desejo tirar proveito dela, ela apenas traz hipóteses. Meu trabalho é juntar pedaços, indícios, rumores, movimentos anormais, e juntar com dados.

Dois dados recentes. Um advogado de sobrenome Travanca resolveu dizer que vai atravancar (desculpem o trocadilho) a indicação de Tiago Pampolha, atual vice-governador, para a vaga de conselheiro do TCE, que seria uma das contrapartidas oferecidas a ele, caso aceite entregar o governo do Estado ao presidente da Assembleia Legislativo do estado do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacelar. 

Eu achei que fosse uma simples chantagem.  Aí aconteceu outra coisa.  O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que as indicações aos Tribunais de Contas dos Estados  (TCEs) devem seguir, por simetria, as regras da Constituição Federal 1988 para o Tribunal de Contas da União (TCU).  Em resumo, essa imposição determina que haverá uma alternância para ocupação das vagas, com parte delas para privilégio de critérios técnicos e/ou de carreira dos órgãos, diminuindo as margem de discricionariedade dos governadores, traduzindo, estreitou o caminho para indicados políticos, como seria o Pampolha.

Muita gente boa passou a jurar aos pés da cruz do Monte do Calvário que Thiago Pampolha vai aceitar a vaga no TCE.  O problema são os detalhes.  O diabo, sabemos, mora nos detalhes.  Para o presidente da Alerj sentar na cadeira faltam muitas variáveis, que por serem muito individuais, são muito imprevisíveis.

Vejamos: o governador Cláudio Castro precisa renunciar, e para tanto ele quer ter atendido seu pleito de ser candidato ao senado. Não há garantia disso pelo clã Bolsonaro, que controla essas escolhas.  Se o governador sair, o vice-governador Thiago Pampolha tem que acreditar nas promessas que lhe foram feitas, e resistir a tentação de ser ele mesmo o candidato.  Seus dotes eleitorais medidos pelas pesquisas são tão ruins como os do presidente da Alerj, então, esse não é um balizador para afastar ele do propósito.

]Thiago Pampolha ainda tem outra qualidade, seu nome é muito mais bem aceito que o nome do presidente da Alerj, e a aprovação de seu nome evitaria uma revoada dos cardeais da política fluminense, que já disseram à boca miúda que não vão com o presidente da Alerj.  A única ressalva dos cardeais do PL, parte do PP, parte do União e do MDB a Pampolha é a pouca quilometragem.  Por fim, se Pampolha olhar para trás, e tomar como base o tratamento que recebeu do governador e do presidente da Alerj, ele tem muita chance de não confiar nas promessas.

Com o anúncio do Travanca, a base de jurisprudência construída pelo STF, recentemente, há sinais de que Thiago Pampolha pode ser abatido em pleno voo para o “asilo TCE”, antes mesmo de assumir. Seria um crime perfeito, afinal, aparentemente, a promessa foi paga.  Mas, afinal, vocês perguntariam, por que fazer isso com o Pampolha?  Pelo mesmo motivo que Pampolha pode estar acordado com o governador para não deixar a vaga para o presidente da Alerj.

Com a chegada desse grupo político no Guanabara, se estabelecer como um político de peso tem muito mais a ver com destruição de adversários, do que com realizações ou capacidade de articulação.  Não há aqui nenhuma crítica, só uma constatação.  Por isso, enfim, eu acho que esse triângulo político Castro, Rodrigo e Tiago ainda vai dar enredo para muito “desfile”.

CPT ES/RJ emite nota sobre morte de trabalhador em área de cana da Usina Canabrava

 Nota de repúdio à morte de trabalhador em queimada criminosa na Usina Sucroalcooleira Canabrava

A Comissão Pastoral da Terra – Regional Espírito Santo/Rio de Janeiro vem a público expressar seu mais veemente repúdio à morte cruel e inaceitável de um trabalhador rural, Ivanildo da Silva Felizardo, de 60 anos, queimado vivo em meio a um canavial pertencente à Usina “Nova Cana Brava”, localizada entre os municípios de Campos dos Goytacazes e São Francisco de Itabapoana (RJ), no norte fluminense.

A tragédia ocorrida não é um acidente, mas sim consequência direta de práticas criminosas e recorrentes de queimadas adotadas pelo histórico setor canavieiro para reduzir custos de produção, em total desrespeito à vida humana, à legislação trabalhista e ambiental, e à dignidade dos trabalhadores do campo.

Esse crime expõe a face mais perversa de um modelo agroindustrial que naturaliza a violência e a morte como parte de sua lógica produtiva. A vida de um trabalhador rural, marcada por décadas de esforço, foi tratada como descartável diante da ganância e da negligência de um setor que insiste em manter práticas arcaicas, desumanas e ecocidas. Em 29 de setembro de 2010, o mesmo crime ocorreu, deixando D. Cristina Santos carbonizada em maio às práticas de queimada de canaviais. Denunciamos e cobramos ações ao Ministério Público do Trabalho (MPT).

A CPT denuncia a responsabilidade da Usina Canabrava por essa morte e cobra dos órgãos competentes:

  • A imediata investigação e responsabilização criminal, civil e trabalhista da empresa e seus gestores;
  • A fiscalização rigorosa das condições de trabalho e das práticas ambientais adotadas pela usina;
  • A proibição definitiva das queimadas nos canaviais, com políticas públicas que garantam transição agroecológica e respeito aos trabalhadores;
  • A assistência às famílias e comunidades impactadas por esse crime.

A morte desse trabalhador é símbolo de um sistema que se sustenta com sangue e fogo. Que o agro Pop, Tech, não tem nada de “moderno” em suas práticas de exploração da vida humana. Não aceitaremos que mais vidas sejam ceifadas pela lógica da exploração e do lucro acima de tudo. A vida no campo importa. Os trabalhadores rurais têm direito à proteção, ao reconhecimento e à justiça. Essa luta é do povo do campo, mas também do povo que vive nas periferias urbanas e nas cidades.

Nos solidarizamos com a família da vítima e com todos os trabalhadores e trabalhadoras rurais que, cotidianamente, enfrentam condições precárias e arriscadas em nome da sobrevivência. E reafirmamos nosso compromisso com a defesa da vida, da justiça social e da dignidade do povo do campo.

Campos dos Goytacazes – RJ, 07 de maio de 2025.

Comissão Pastoral da Terra – Regional Espírito Santo/Rio de Janeiro

O custo financeiro e social do aumento na taxa SELIC por causa do aumento da dívida pública

Selic a 14,75%? Inter projeta elevação de 0,50 p.p. nos juros — mesmo  achando que aumentar a taxa agora não seja necessário – Money Times

O Banco Central acaba de aumentar a chamada Taxa Selic para astronômicos 14,75% ao ano, o valor mais alto em duas décadas. Isso é sentido pelos brasileiros de muitas formas, a começar, por exemplo, com as dívidas contraídas com cartões de crédito e empréstimos consignados. 

No entanto, existem custos sociais gravíssimos que decorrem dos gastos trilionários que o governo federal precisa realizar para fazer os pagamentos da dívida pública. É esse aspecto que na maioria do tempo, a mídia corporativa se engana a cobrir, já que a maioria dos veículos são controlados por detentores de grandes fortunas formadas justamente com o saque feito diretamente nos cofres públicos.

Vejam abaixo um vídeo super didático no qual o professor e cientista político Juarez Guimarães da Universidade Federal de Minas Gerais, em entrevista para o podcast ‘Enfim, sexta!’ do Brasil de Fato MG, comenta os efeitos desvastadores do aumento da Taxa Selic sobre a qualidade dos serviços públicos, principalmente saúde e educação.

Anunciando a Conferência internacional de educação transformadora para e com catadores e catadoras de materiais recicláveis

As ações realizadas diariamente de forma praticamente invisível e desassistida pelo Estado por milhares de catadores e catadoras oferecem uma forma de serviço extraordinariamente valiosa para a sociedade brasileira.  Entender esse processo de forma a valorizar e empoderar politicamente os trabalhadores que realizam essa atividade é fundamental, pois como vimos recentemente no decreto que autorizava a importação lixo (que terminou sendo revogado), só a ação organizada é capaz de impedir este tipo de retrocesso.

Eis que hoje me chegou a notícia de que ocorrerá na Câmara Municipal de São Paulo, nos dias 16 e 17 de maio, a Conferência internacional de educação transformadora para e com catadores e catadoras de materiais recicláveis que é produto de um longo processo de cooperação entre universidades canadenses e sul americanas, e ainda a organização não-governamental “Pimp my Carroça”.

O evento é voltado para catadores(as) de materiais recicláveis, movimentos Sociais, organizações
comunitárias, gestores públicos, comunidade acadêmica, e público em geral.

Para quem estiver interessado, a programação completa da conferência pode ser baixado [Aqui!].

Estudo sugere que 2/3 do aquecimento desde 1990 se deve aos mais ricos

Autores do estudo defendem ações como a taxação de super-ricos para frear concretamente as emissões

aquecimento mais ricos

Por ClimaInfo 

Um novo estudo expõe o papel decisivo dos mais ricos no agravamento de eventos climáticos extremos, afirmando que eles seriam responsáveis por aproximadamente dois terços do aquecimento global. Publicada pela Nature Climate Change, a pesquisa indica que cerca de 65% do aumento observado de 0,61oC na temperatura média global entre 1990 e 2020 pode ser atribuído às emissões dos 10% mais ricos do mundo, aqueles com renda anual superior a 42.980 euros por ano (cerca de R$ 280 mil).

A desproporção aumenta ainda mais quando se analisa o impacto do 1% mais rico, aqueles com rendimentos anuais acima de 147,2 mil euros (mais de R$ 955 mil). Esse grupo foi responsável por 20% do aquecimento global nos últimos 30 anos. Já os ultra-abastados, que ganham mais de 537 mil euros por ano (R$ 3,424 milhões) e somam cerca de 800 mil pessoas, foram responsáveis por 8% do aumento da temperatura global.

Os resultados destacam como o consumo e os investimentos das elites amplificam desastres que afetam principalmente regiões vulneráveis, como Amazônia, Sudeste Asiático e sul da África – justamente as que menos contribuíram para o problema.

De acordo com a autora principal, Sarah Schöngart, da ETH Zurich, a crise climática não é um fenômeno abstrato, mas está diretamente ligada aos estilos de vida e às aplicações financeiras dos mais ricos. Foram cruzados dados econômicos com simulações climáticas revelando que apenas os 10% mais abastados dos EUA e da China foram responsáveis por dobrar ou triplicar ondas de calor em áreas já fragilizadas.

“Se todos emitissem como os 50% mais pobres, o aquecimento global teria sido mínimo desde 1990”, afirma Carl-Friedrich Schleussner, coautor do estudo. Os dados também alertam para as emissões ocultas em investimentos financeiros, que superam o consumo individual.

Os pesquisadores defendem que regular os fluxos de capital das grandes fortunas pode ser mais eficaz do que medidas genéricas. “Não é teoria, são impactos reais hoje”, reforça Schleussner. “Ignorar o peso dos super-ricos na crise climática é desperdiçar a chance de evitar catástrofes piores”, completa.

Como solução, os autores propõem políticas direcionadas aos mais ricos, como taxação progressiva e regulação de investimentos poluentes. Além de reduzir emissões, essas medidas poderiam financiar adaptação em países pobres e incrementar a Justiça Climática. Nesta perspectiva, o combate às desigualdades para além da questão social, é indicado também como chave para frear o colapso ambiental.


Fonte: ClimaInfo

Brasil: Peixes introduzidos por transposição de água apresentam parasitas

peixes parasitas introduzidosPesca de tilápia, um peixe invasor altamente explorado comercialmente e consumido popularmente. Crédito da imagem: Prefectura del Guayas/Flickr , sob licença Creative Commons BY-NC-SA 2.0 Deed .

As espécies com maior número de parasitas foram a piaba Astyanax bimaculatus) também chamada (tetra-fortuna ou lambari), a tilápia do Nilo ( Oreochromis niloticus ), o tucunaré ( Cichla Monoculus ) e a traíra (pertencente ao gênero hoplia), segundo estudo publicado no Journal of Helminthology.

No total, 42% dos peixes analisados ​​apresentavam algum tipo de parasita.

Entre as espécies de parasitas encontradas, os pesquisadores identificaram três tipos associados à anisaquíase humana, uma parasitose gastrointestinal causada pela ingestão de peixe cru ou malpassado.

“Sempre ouvimos que a traíra tem parasitas. Houve um tempo em que era difícil vender esse peixe porque as pessoas diziam que tinha parasitas. Agora, as pessoas esqueceram. Estamos preocupados, mas não temos outra maneira de sobreviver”, disse Antonio Valdivino Muniz, 54 anos, um dos 300 pescadores que tiram seu sustento da barragem de Acauã, na Paraíba, nordeste do Brasil, ao SciDev.Net .

Esta barragem é um dos 27 reservatórios vinculados ao PISF, um projeto de megatransferência que leva água do caudaloso Rio São Francisco até o Catinga, bioma predominante no semiárido brasileiro.

O projeto de 477 quilômetros visa fornecer água para 12 milhões de pessoas.

“A transferência de água é uma ação humana que pode causar um desequilíbrio ecológico porque altera o ambiente natural”, explicou ao SciDev.Net a bióloga Vitória Maria Moreira de Lima, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e principal autora do estudo.

“Hoje, não temos essas zoonoses no Rio Paraíba, mas imagine o que aconteceria se, no futuro, tivéssemos doenças parasitárias associadas a peixes que não existiam aqui antes. Como eles as relacionariam com a transferência se ninguém soubesse delas? É por isso que o monitoramento é tão importante”, acrescentou.

A bióloga Ana Carolina Lacerda, do Departamento de Sistemática e Ecologia da UFPB e uma das coautoras do estudo, ressalta que o país ainda carece de dados sobre doenças parasitárias em peixes que tenham potencial de causar doenças em humanos.

“Se as espécies de parasitas que encontramos têm potencial zoonótico, então sim, elas podem causar doenças em humanos. Mas precisamos registrá-las no sistema público e garantir que o parasita se originou do peixe que foi ingerido”, observou.

“No Brasil, embora exista um sistema nacional de registro de zoonoses, é provável que haja subnotificação devido à falta de diagnóstico”, acrescentou.

Entre os grupos de parasitas mais abundantes encontrados, dois deles eram hospedados por espécies invasoras não nativas da região: a tilápia do Nilo e o tucunaré.

O Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, responsável pelo PISF, afirma que não há certeza se o deslocamento de peixes hospedeiros é responsável pela introdução desses parasitas com potencial zoonótico, ou se [os parasitas] já estavam presentes na área e infectaram as populações de peixes quando chegaram aos reservatórios locais.

“Existem vários cenários possíveis para a introdução de peixes e seus parasitas, pois os peixes podem estar parasitados em seu ambiente original e podem ou não perder seus parasitas durante o processo de transferência, ou podem não ter sido originalmente parasitados e se tornarem colonizados por parasitas de peixes no novo ambiente”, explicou o ministério em uma resposta ao SciDev.Net .

O ministério afirma que o surgimento de espécies invasoras de peixes estava entre os impactos previstos e que, desde 2012 — fase de instalação do projeto —, monitora 73 pontos nos dois eixos (leste e norte) em 10 bacias hidrográficas do Nordeste.

Em relação aos parasitas, a agência afirma que “somente com estudos prévios sobre a presença das águas do PISF nesses ambientes é possível vincular qualquer impacto dessa natureza ao Projeto”.

A chave é entender o nível de estabelecimento dessas novas populações de parasitas e seu potencial para infectar espécies nativas. Isso pode levar a extinções locais, afetando muitas comunidades ribeirinhas associadas a reservatórios e dependentes desses peixes.

Vitória Maria Moreira de Lima, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba, Brasil

Ana Carolina Lacerda explica que essas organizações não são vilãs. “Eles fazem parte da preservação e do equilíbrio dos ecossistemas”, ressalta. Entretanto, quando chegam de outros ambientes, tornam-se uma ameaça a esse equilíbrio.

Das mais de 50 espécies de parasitas identificadas no estudo, realizado no eixo leste do projeto, 32 não haviam sido identificadas anteriormente na bacia do Rio Paraíba do Norte.

“A chave é entender o nível de estabelecimento dessas novas populações de parasitas e seu potencial para infectar espécies nativas. Isso pode causar extinções locais, afetando muitas comunidades ribeirinhas associadas a reservatórios e dependentes desses peixes”, enfatiza Moreira de Lima.

Isso afetaria o trabalho de pessoas como Antonio Valdivino Muniz, o pescador mencionado no início desta reportagem: pescar 150 quilos de peixe por semana lhe garante uma renda de R$ 450 (cerca de US$ 80). “Não temos nenhum incentivo da prefeitura, nem o pessoal da transferência de água vem aqui, se reúne e vai embora”, reclamou.

Preocupados com sua sobrevivência, os pescadores locais desconhecem a ameaça representada pela introdução de peixes invasores, como o tucunaré e a tilápia. O primeiro acaba dominando o ambiente por ser predador, e o segundo, pela facilidade de reprodução.

A tilápia do Nilo, apesar de ser um peixe invasor, é altamente explorada comercialmente no Brasil. Crédito da imagem: Bernard Dupont/Flickr , licenciado sob Creative Commons CC BY-SA 2.0 Deed .

“Quem vive da pesca prefere espécies nativas pela qualidade de muitas delas. Economicamente, é melhor. Mas elas estão desaparecendo”, enfatizou o biólogo Ricardo Takemoto, pesquisador da Universidade Estadual de Maringá, que não participou do estudo.

“O tucunaré é bom para a pesca esportiva, mas não tem importância comercial devido à sua baixa qualidade. A tilápia, em termos de produção, tem sido bastante explorada economicamente. Ela já está se adaptando à água do mar, como uma praga”, explicou ele ao SciDev.Net .

Introduzido no Brasil na década de 1960, esse peixe hoje domina o mercado: segundo o Anuário Peixe BR 2024 , o país produziu quase 900 mil toneladas de peixes, dos quais 65,3% eram tilápias, 29,7% peixes nativos e 5% outras espécies.

“Qualquer mudança ambiental causa desequilíbrio, então estudos desse tipo são importantes porque abordam o problema dessas introduções”, acrescentou Takemoto.


Fonte: SciDev.Net

Vidas seguem sendo queimadas nos campos de cana para alimentar o lucro de poucos

Há alguns anos atrás fui contactado por um advogado que cuidava dos interesses da família da trabalhadora rural Cristina Fernandes dos Santos Dutra que havia morrido em queimada de cana na Fazenda Tocaia, enquanto coordenava uma equipe de 30 trabalhadores que ali trabalhava no perigoso e doloroso trabalho do corte da cana.  O contato, se eu me lembro bem, se deu por causa do atraso no pagamento do ressarcimento decidido pela 3a. Vara do Trabalho da Comarca de Campos dos Goytacazes. Depois de tantos anos, esqueci o nome do advogado que contactou há mais de uma década, e fiquei sem saber se a família da trabalhadora morta recebeu algum tipo de ressarcimento por sua perda.

Eis que agora quase 16 anos depois (afinal, Cristina Fernandes dos Santos Dutra pereceu em uma queimada ocorrida no dia 29/9/2009), eis que outro trabalhador morreu trabalhando em uma área em que uma ocorria na presença de trabalhadores que iriam executar o corte da cana ali plantada.  O nome deste trabalhador era Ivanildo da Silva Felizardo que, apesar dos seus 60 anos, continuava a exercer uma forma de trabalho que é exaustiva, penosa e, de tempos em tempos, mortal.

O mais lamentável é que existe uma lei,  a Lei estadual nº 5.990, de 20 de junho de 2011, que prevê a eliminação gradativa das queimadas em áreas cultivadas com cana de açúcar, cujo limite temporal máximo era o ano de 2024.  Em outras palavras, a queimada que ceifou a vida de Ivanildo Felizardo ocorreu ao arrepio do que termina uma lei vigente.

Como estamos chegando ao período de intensificação das queimadas quando o céu do município de Campos dos Goytacazes é tomado diariamente por imensas colunas de fumaça que despejam fuligem e todo tipo de contaminante ambiental (incluindo compostos mercuriais), a morte de Ivanildo Felizardo é uma espécie de lembrete macabro de uma prática ambiental e socialmente ultrapassada, e que se continua ocorrendo porque os direitos da maioria continuam sendo sacrificados em nome dos interesses de uma ínfima minoria.

O que se espera é que, finalmente, se cumpra a lei, e que se proíba, de uma vez por todas, a  realização de queimadas para a limpeza de campos de cana em nossa região.

A verdade sobre a Vale S.A. em Minas Gerais: compromissos e abusos

VALE | Mudança de nome de mina e barragem visa combate ao racismo | Brasil  Mineral

Por EarthWorks

Minas Gerais no Brasil tem convivido com duas tragédias em projetos operados pela empresa Vale S.A. O rompimento da barragem de rejeitos Fundão em 2015 matou 19 pessoas e atingiu outras milhares ao longo da bacia do Rio Doce. O rompimento da barragem de rejeitos em Brumadinho em 2019 causou 272 mortes e uma enorme devastação ao Rio Paraopeba. As operações da Vale na região seguem provocando sérios riscos e violações de direitos humanos. Investidores têm a responsabilidade de monitorar as ações da Vale e demandar responsabilidade corporativa com o meio ambiente e as comunidades atingidas ou sob ameaça. 

Direitos Humanos, Comunidades Atingidas, Danos Ambientais

A Vale S.A. é responsável por sérias violações de direitos humanos no Brasil. 

Mesmo depois de saber que suas barragens de rejeitos poderiam entrar em colapso, a Vale não tomou medidas para evitar as tragédias de  2015 e 2019. Depois dessas catástrofes, a empresa segue expulsando comunidades de suas terras de diversas maneiras  prejudiciais e traumáticas.  Isso inclui evacuações no meio da noite, sem aviso ou chance de retorno. 

Doenças relacionadas à atividade laboral e condições de trabalho inseguras são comuns nas operações da Vale em Minas Gerais. Comunidades do entorno  reclamam sobre problemas de saúde devido à poeira e à poluição da água. A atividade minerária da empresa causa desmatamento da Mata Atlântica em Minas Gerais, prejudica a biodiversidade e impacta os recursos hídricos. Apesar de todas essas violações, a Vale segue propondo novos projetos onde estão previstas graves consequências, entre elas a retirada de direitos de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais, destruição irreversível de aquíferos e aumento da prostitucao infantil nos territórios.

Atualmente, 20 barragens de rejeitos da Vale encontram-se em risco de rompimento. Comunidades  exigem que a Vale trate desses riscos, cumpra acordos de reparação, e desista de planos de expansão em áreas sensíveis.

Soluções e Responsabilidade Corporativa 

Earthworks recomenda que investidores e acionistas tomem as seguintes medidas

  • Estabeleçam uma Comissão Internacional Independente para monitorar e auditar os impactos ambientais e sociais da Vale. 
  • Criem um canal permanente com para receber e processar denúncias sobre as operações da Vale.
  • Solicitem à Vale a suspensão nos processos de licenciamento dos temerários projetos Apolo e Serra da Serpentina, que ameaçam severamente as bacias hidrográficas, responsáveis pelo abastecimento de água de milhões de pessoas.
  • Retirem seus investimentos da Vale no caso de continuidade das violações. 

Os investidores e acionistas da Vale devem responsabilizar a mineradora por suas ações em Minas Gerais. Devem priorizar a comunicação ativa e direta com as comunidades atingidas, os povos indígenas e tradicionais, os trabalhadores e a sociedade civil. Devem demandar que a empresa atue de forma ética e siga rigorosamente as melhores práticas internacionais.

Para conhecer mais, leia o dossiê completo, A Verdade Sobre a Vale S.A. em Minas Gerais: Compromissos e Abusos

A comunicação da Vale em resposta ao relatório está disponível aqui.

O comunicado de imprensa da Earthworks pode ser encontrado aqui.


Fonte: EarthWorks

Sigma Lithium tenta intimidar e censurar o Observatório da Mineração

Foto: operação da Sigma no Vale do Jequitinhonha / Rebeca Binda

Por Maurício Ângelo para o Observatório da Mineração 

A mineradora Sigma Lithium, empresa sediada no Canadá, enviou uma notificação extrajudicial ao Observatório da Mineração em 30 de abril após um pedido de posicionamento da nossa reportagem sobre uma nota técnica produzida por pesquisadores de universidades brasileiras e da Inglaterra.

Ao invés de responder aos argumentos dos pesquisadores, a Sigma optou, ao que parece, por manifestar conduta com fim de intimidar, ameaçar e tentar, inclusive, censurar previamente o Observatório da Mineração. A notificação enviada pelos advogados da mineradora pedia que a matéria publicada na quarta, 07 de maio, não fosse ao ar

“Caso a nota alegadamente técnica venha a ser tornada pública, a SIGMA adotará todas as medidas legais cabíveis com vistas à responsabilização dos envolvidos, incluindo-se a apuração de responsabilidade penal e o pagamento de indenização por danos morais e materiais eventualmente constatados”, afirma a notificação da mineradora.

A mineradora, por seus advogados, alega que o relatório dos pesquisadores, que pedem a suspensão das atividades da empresa no Jequitinhonha, seria “texto difamatório, que simula ser documento de natureza técnica, mas que é desprovido de subsídio científico e legal, e que visa unicamente a macular a imagem e a reputação da SIGMA”.

A referida nota técnica produzida por pesquisadores de renomadas instituições foi enviada para diversos veículos de mídia no Brasil e no exterior. Ao cumprir o dever de ouvir o outro lado, porém, o Observatório da Mineração acabou sendo alvo de intimidação e tentativa de censura por parte da Sigma.

Os advogados concluem reforçando que a mineradora “serve-se da presente para notificar V. Sas. para que se abstenham de divulgar o documento ou trechos de seu conteúdo, sob pena de serem adotadas as medidas legais cabíveis, incluindo-se o requerimento para apuração de responsabilidade penal e a condenação ao pagamento de indenização pelos danos causados”.

Chama a atenção que, até o momento, apenas o Observatório da Mineração foi alvo da mineradora, mesmo tratando-se de nota técnica destinada à divulgação pública e cuja autoria não contou com a participação da nossa equipe. O Brasil de Fato publicou na segunda, 05 de maio, uma matéria sobre a nota técnica e não foi alvo de intimidação por parte da Sigma, o que revela um direcionamento do ataque ao trabalho deste Observatório.

A notificação extrajudicial da Sigma ataca o direito à liberdade de expressão do Observatório da Mineração, que há 10 anos atua de forma independente e se tornou referência internacional na cobertura investigativa do setor mineral. 

A Sigma ataca ainda todos os veículos que produzem jornalismo sério, independente, crítico e rigoroso. 

A postura da mineradora também ataca a ciência brasileira e internacional, tentando desqualificar o trabalho de pesquisadores respeitados em suas áreas. 

Em resposta, o Observatório da Mineração enviou uma contranotificação para a Sigma preparada por nossa assessoria jurídica, publicou a matéria alvo de censura prévia, comunica à sociedade a intimidação feita pela Sigma e está acionando as entidades representativas de classe do jornalismo sobre o ocorrido.

Desde 2023 a atuação da Sigma no Vale do Jequitinhonha tem sido objeto de interesse pela mídia brasileira e internacional, incluindo o Observatório da Mineração, que foi um dos primeiros a reportar os impactos socioambientais causados pela atuação da empresa, ainda em julho de 2023.

Outras matérias se seguiram, incluindo a revelação, em outubro de 2024, de que a verba limite do Fundo Clima foi alterada para permitir um empréstimo de quase R$ 500 milhões do BNDES para a Sigma. 

Em todas as oportunidades, mesmo procurada por email, ligações, mensagens e até pessoalmente por nossa reportagem, os representantes da Sigma nunca responderam aos pedidos de comentário feitos pelo Observatório da Mineração.

Ao tentar agora, ao que parece, causar intimidação, e inclusive indicar forma que emula censura à atuação do Observatório da Mineração, a Sigma revela que opta pelo caminho evasivo e não por se posicionar diante dos legítimos questionamentos feitos por pesquisadores, por indígenas, quilombolas, a população das cidades afetadas em Minas Gerais e mesmo pelo Ministério Público.

O Observatório da Mineração está tomando e tomará todas as providências que se mostrem necessárias para assegurar o seu direito a um jornalismo investigativo independente que sempre visou e sempre visará o interesse público.


Fonte: Observatório da Mineração

Wladimir está sob fogo cerrado, mais por suas qualidades do que por seus defeitos

Por Douglas Barreto da Mata 

“Onde todos vêem coincidências, eu vejo consequências…”

Essa frase aí em cima é dita por uma personagem de nome Merovingian, de um filme bem famoso, A Matrix.   É auto explicativa. Não há acaso, há relação de causa e efeito. Concordo. 

Olhando a situação do prefeito Wladimir Garotinho pelas mídias e redes sociais temos a impressão de que o mundo desaba sobre Campos dos Goytacazes. Problemas? Muitos, e nem o prefeito ou qualquer outro integrante de sua administração escondem as dificuldades orçamentárias atuais e as iminentes.

A imagem do prefeito “caixeiro viajante” já foi incorporada no imaginário político local, com as frequentes idas de Wladimir Garotinho a Brasília em busca de emendas e leis, como a do semiárido, que tragam algum recurso ou que viabilizem determinadas atividades econômicas. 

Concordando ou não (eu, por exemplo, não sou entusiasta dos subsídios e facilidades para o setor sucroalcooleiro), o fato é que o alcaide não hesita em pedir mais e mais verbas para a cidade. 

Ele só não bateu mais a porta do governo do Estado, como me disseram em segredo alguns integrantes da administração, porque depois que o palácio Guanabara virou comitê de campanha do presidente da Alerj, ninguém mais tem recursos do Estado se não hipotecar apoio ao presidente da Alerj.

É nessa toada que volto ao título. 

O aparente “inferno astral” da administração, com servidores, donos de hospitais, permissionários de transporte complementar (Van) e etc berrando para ganharem mais um pouco não é coincidência, é consequência.

Tudo indica um esforço concentrado de sabotagem e pressão política para dobrar o prefeito em direção ao “Castelo da Guanabara”, onde se pratica aos amigos tudo, aos adversários, a lei (do cão).

Nesse momento em que o prefeito é cortejado por Eduardo Paes parece estranho que movimentos sincronizados se levantem contra o prefeito.  Há de se pensar, se tudo estivesse tão ruim, quem ia insistir em ter o prefeito como parceiro de chapa? Pois é.

Por exemplo, essa série de eventos tem como um de seus destaques as intermináveis obras da Rodovia dos Ceramistas, que empurram o tráfego pesado de carretas para dentro da cidade.  Digo e repito, eu nunca vi, em toda a minha vida, uma obra de recuperação de pavimento sem a possibilidade de pare-e-siga.  Mas, faço a ressalva para os limites de meu conhecimento empírico frente a engenharia contratada pelo DER/RJ.

Servidores têm todo direito a reivindicações salariais, mas quem olhasse os gatos pingados em frente a prefeitura não pode deixar de pensar que foi uma “manifestação encomendada”, algo feito para fazer conteúdo para redes sociais.  Quem faz uma reivindicação com 20, 40 pessoas em nome de 30 mil servidores? 

Ao mesmo tempo, temos os hospitais privados de Campos dos Goytacazes batendo tambor.  Mais de 1 bilhão em 4 anos!  Reclamam valores de 100 milhões, que uns dizem que não há documentos, outros dizem que foi ajuizada.  Funcionários amigos da saúde me dizem que a dívida real, que remonta a gestão Rafael Diniz seria de cerca de 40 milhões, e segue sendo discutida na justiça.  Sendo ou não verdadeiras as versões, então que se resolva na justiça.  Agora, parece muito estranho que uma cidade pague 1 bilhão de reais ou mais em quatro anos, e se negue a pagar ou negociar 100 milhões.

Cadê o bom senso da mídia?  A questão que não foi perguntada é :  o prefeito e seu secretário de saúde, o presidente da FMS têm direito a mudar a gestão do atendimento e contratualização?  Claro, eles foram eleitos para isso, e se eles entenderem que deverá diminuir ou acabar a contratualização de hospitais privados, é direito deles, desde que se ofereça alternativa.

E mais, eles têm o dever de informar as irregularidades do setor, como a cobrança duplicada de consultas e procedimentos (cobra do paciente “social” e cobra do SUS), caso constatem tais desvios de conduta.  Há fundadas suspeitas de que administradores dos hospitais não resistiriam a um exame detalhado de seu patrimônio, que contrasta com a penúria das instituições.  Essas instituições, diga-se, não podem ser confundidas com os seus péssimos administradores.

Quem vai julgar é o eleitor.  Enfim, tudo indica que as raposas da terra estão a dizer que as uvas estão verdes.  Querem abater o prefeito porque parecem ter escolhido um lado na corrida eleitoral de 2026.  Wladimir está sob ataque por suas qualidades, e não pelos defeitos.