Observatório dos Agrotóxicos: novo pacote de liberações mostra que o governo Bolsonaro rejeita 5G e vacina, mas ama agrotóxicos “Made in China”

Em 2018 pelo menos 30% dos agrotóxicos consumidos no Brasil tiveram origem na China, cuja influência deve ser ainda maior por causa do uso de produtos chineses por empresas de outros países que terminam vendendo seus produtos no mercado brasileiro.

pesticides china

Workshop promovido pela China para ampliar a exportação de agrotóxicos  contou com representantes de empresas sediadas no Brasil que têm se beneficiado da  onda de aprovações de agrotóxicos realizada pelo governo Bolsonaro

As recentes manifestações do presidente Jair Bolsonaro e do seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, um sobre a “coronavac” e o outro sobre a compra da tecnologia 5G colocaram o Brasil à beira de uma séria crise diplomática com a China. Pelo menos é o que mostra uma dura resposta da Embaixada da China no sentido de que os responsáveis pelas declarações desairosas ao principal parceiro comercial brasileiro “vão arcar com as consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil“.

O curioso é que o aparente desgosto por produtos “Made in China” não alcança a compra de venenos agrícolas, visto que no novo pacote de liberações de agrotóxicos levado a cabo por meio do Ato No. 64 de 18 de Novembro, os 21 agrotóxicos que tiveram sua venda autorizada são produzidos inteiramente na China, envolvendo 12 empresas diferentes.

Neste nova rodada de liberações, a “estrela” dos produtos agora livres para comercialização no Brasil foi o “Dibrometo de Diquate”, um herbicida  que foi proibido em 2018 pela União Europeia por causar efeitos deletérios em trabalhadores que manuseiam, além de causar danos às populações de pássaros. O Dibrometo de Diquate  também tem sido relacionado a problemas de contaminação de solos e do lençol freático. 

Originalmente produzido pela Syngenta, corporação suíça que foi adquirida em 2017 pela estatal chinesa ChemChina, agora chega no Brasil pelas mãos da Dezhou Luba Fine Chemical Co., Ltd, localizada na província de Shandong.

O curioso é que em toda essas manifestações que afrontam a presença e a importância fundamental da China no funcionamento da economia brasileira nunca vi nenhuma que colocasse em questão o papel central das empresas chinesas no abastecimento de agrotóxicos para o latifúndio agro-exportador.  Enquanto isso, se sucedem ataques ao fornecimento de vacinas contra a COVID-19, especificamente a Coronavac produzida pela empresa Sinovac, e contra a entrada da tecnologia 5G produzida na China, principalmente pela Huawei. O interessante é quem ambos os casos, está ficando óbvio que os produtos chineses são de melhor qualidade em relação àqueles produzidos por empresas europeias e estadunidenses.

Também considero curioso o silêncio da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS), que, como representante dos interesses do latifúndio agro-exportador brasileiro e das empresas vendedoras de venenos agrícolas no Brasil, deve estar sendo muito pressionada por seus pares para impedir que os interesses estratégicos do setor continuem sendo colocados em xeque por declarações estapafúrdias, que hoje nem servem aos interesses do aliado Donald Trump que está lentamente preparando suas malas para sair da Casa Branca. 

ccab

Jones Yasuda, CEO da CCAB, uma das empresas que mais aprovaram agrotóxicos no governo Bolsonaro, apresenta a legislação do “Pacote do Veneno”. o famigerado PL 6299/02, em um evento de fabricantes de agrotóxicos realizado em 2019 na China

Quem desejar baixar o arquivo contendo a lista dos 21 agrotóxicos “Made in China” liberados pelo Ato No. 64, basta clicar [Aqui!]. Já quem quiser baixar a base contendo os 401 agrotóxicos liberados apenas nos primeiros onze meses de 2020, basta clicar [Aqui!].

Trump é derrotado nos EUA, e Bolsonaro perde no Brasil

soccer shirtJair Bolsonaro e Donald Trump trocaram camisas das seleções nacionais durante encontro na Casa Branca. A derrota de Trump representa uma dura perda política para Bolsonaro no Brasil

A agora confirmada derrota do presidente Donald Trump na sua tentativa de reeleição representa uma dura perda para Jair Bolsonaro no Brasil.  É que ao perder eleição, Trump remove de Bolsonaro de se manter como uma espécie de cópia malfeita no Brasil. 

Um dos elementos centrais da presidência cambaleante de Jair Bolsonaro tem sido a implementação de uma espécie de “nacionalismo de vassalagem” onde a submissão dos interesses estratégicos do Brasil aos de Donald Trump (e não necessariamente dos EUA) agora terá que se confrontar com a realidade de que o novo presidente estadunidense exigirá (isso mesmo, o verbo é exigir) uma mudança na forma com que o governo Bolsonaro se relaciona os biomas da Amazônia brasileira.

De nada adiantará qualquer simulacro de nacionalismo para dizer que o Brasil tem o direito soberano de usar os recursos naturais existentes na Amazônia como bem entender, pois o agora eleito Joe Biden já disse que exigiria uma mudança na situação de descontrole existente na proteção da Amazônia. Nessa área há ainda que se lembrar que Biden já disse que um dos seus primeiros atos como presidente será recolocar os EUA no Acordo de Paris para combater as mudanças climáticas.

Há ainda que se lembrar que Jair Bolsonaro será compulsoriamente obrigado a mudar os ocupantes dos ministérios do Meio Ambiente e das Relações Exteriores, o primeiro por ser visto como anti-ambiente e o segundo por ser umbilicalmente alinhado com o ideário de Donald Trump. O que Bolsonaro fará com Ricardo Salles e Ernesto Araújo ainda não se sabe, mas está óbvio que eles não ficarão nos postos que ocupam depois de do 01 janeiro de 2021.

Agora, há que se dizer que em outros aspectos ainda mais cruciais como o da tecnologia 5G e das relações comerciais com a China, a eleição de Joe Biden representa uma péssima notícia não apenas para Jair Bolsonaro, mas principalmente para o Brasil. É que os democratas já indicaram que nesses dois itens, eles deverão adotar uma postura ainda mais agressiva do que a adotada por Donald Trump. Como a economia brasileira hoje respira em função do que a China compra do Brasil,  a situação que se abre não será nada fácil. Por isso mesmo, se alguém tem que estar feliz com a vitória de Trump são as corporações estadunidenses e não os brasileiros.

Houve analista de TV brasileira que afirmasse que uma eventual vitória de Donald Trump repercutiria positivamente para os candidatos apoiados por Jair Bolsonaro nas eleições municipais que se aproximam no Brasil. Agora, como temos o resultado oposto, há que se ver qual será a performance dos candidatos apoiados pelo presidente brasileiro.  Eu continuo achando que o elemento mais importante da derrota de Donald Trump que foi a sua postura irresponsável frente à pandemia da COVID-19 ainda não foi colada em Jair Bolsonaro no Brasil, o que pode fazer com que ele saia ileso da derrota de Donald Trump. 

 

5G e soja: o nada a ver que tem tudo a ver

5g

O presidente Jair Bolsonaro recebeu uma delegação de segundo escalão do governo dos EUA e deu as declarações que alegraram os visitantes do norte em um momento em que as chances eleitorais do chefe deles parecem se esmaecer. A mais forte e problemática tem a ver com a não aquisição de tecnologia e equipamentos que sejam produzidos por empresas chinesas, mais destacadamente a Huawei.

A primeira questão que cerca esse problema é o fato de que se isso for levado a sério em termos práticos, o Brasil vai encarecer sobremaneira (e sem necessidade) a transição do 4G para o 5G, atrasando ainda o processo de colocação dessa tecnologia mais avançada no sistema telefônico brasileiro, apenas para se submeter às determinações de cunho imperial dos EUA. E, pior, sem qualquer consideração técnica, mas simplesmente por capricho ideológico. Justamente o contrário do que prometia em campanha o presidente brasileiro.

A segunda e importante questão dessa situação é que, enquanto os EUA são concorrentes em áreas em que o Brasil alcançou grande relevância como é o caso da produção da soja e do etanol, a China é a principal compradora das commodities agrícolas e minerais produzidas aqui.  Fui duas vezes na China e tive contato apenas com membros da comunidade científica chinesa, sem nunca ter encontrado pessoalmente com qualquer dirigente do governo chinês. Entretanto, pelo pouco que pude aprender nesse contato, um eventual banimento da tecnologia 5G da China será respondido de forma contundente pelos chineses, de forma a atingir o Brasil no que mais dói que é justamente a capacidade de gerar renda em dólar.

A postura do governo Bolsonaro e do presidente que o encabeça tem sido de repetidas agressões verbais e gestos de descortesia aos parceiros chineses, seja para atender a pequena franja radicalizada que retransmite as posições ideológicas extremadas de Jair Bolsonaro ou para mostrar obediência às vontades e necessidades dos EUA.  Essa postura é provavelmente amparada na certeza não declarada de que os chineses não vão abrir mão de comprar nossas commodities baratas. Essa avaliação parece desconhecer a ação diligente da liderança chinesa para alcançar auto sustentação em determinadas áreas e de garantir outras áreas de fornecimento de commodities, principalmente na África.  

O desmanche da diplomacia profissional por Ernesto Araújo está provavelmente impedindo que as embaixadas brasileiras realizem a devida prospecção de inteligência, especialmente na África onde aparentemente várias delas foram fechadas por simples capricho.  Com isso, se fortalece a certeza de que os chineses estão na mão do Brasil no tocante, por exemplo, ao fornecimento de soja. Esse é um engano básico e decorre da falta de “olhos” no exterior. A mesma coisa se dá para o minério de ferro onde a Austrália está se posicionando para se tornar uma parceira ainda mais intensa, e sem os malabarismos discursivos do presidente e do chanceler brasileiros. 

Fico apenas curioso para saber quando finalmente os membros do latifúndio agro-exportador vão parar de serem tolerantes com o governo que ameaça matar a sua galinha de ovos de ouro sem o menor pudor ou desejo de ocultar que está fazendo isso.  É que, apesar da parecer o contrário, a disputa pelo mercado brasileiro na área da tecnologia 5G tem tudo ver a com a exportação da soja que justifica o desmatamento da Amazônia. E, sim, não confundam o pragmatismo chinês com a falta de sangue na veia dos dirigentes chineses. É que Xi Jinping já mostrou que de descerebrado ele nada tem.