Agrotóxico mais usado no mundo está ajudando a exterminar abelhas

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(FOTO: CREATIVE COMMONS / ROSTICHEAP)

Por REDAÇÃO GALILEU

Quando se fala em agrotóxico, na maior parte do tempo estamos tratando de glifosato, o herbicida mais usado no Brasil e no Mundo. Utilizado em 90% das lavouras de soja, alvo de diversas polêmicas e contestações de médicos à ambientalistas, mas fundamental para o agronegócio, está associado à morte das abelhas.

O N-(fosfonometil)glicina, princípio ativo do Roundup da Monsanto e mais uma centena de produtos agrícolas, age ao ser absorvido pela folha das plantas de crescimento rápido, também conhecidos como mato, e inibe a ação de enzimas que possibilitam sua existência.

Por não dependerem dessa enzima, o produto não afeta aos animais. Pelo menos é isso que se pensava. Um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Texas, nos EUA, mostra que o mesmo não acontece com microrganismos, muitos dos quais dependem a existência de animais, como as abelhas.

Publicado essa semana no Proceedings of National Academy of Sciences, o artigo explica que, assim como em nós, a saúde das abelhas depende de um ecossistema de bactérias que vive em seu trato digestivo. O glifosato mata algumas dessas bactérias, causando um desequilíbrio que reduz a capacidade do inseto combater infecções.

“Diretrizes atuais consideram que as abelhas não são prejudicadas pelo herbicida”, disse Erick Motta, estudante de pós-graduação que liderou a pesquisa, juntamente com a professora Nancy Moran. “Nosso estudo mostra que isso não é verdade”.

Para chegar à conclusão, os pesquisadores expuseram as abelhas a níveis normalmente encontrados em plantações e jardins (é grande a chance do jardineiro perto da sua casa usar esse agrotóxico). Pintaram suas costas para que pudessem reconhecê-las e liberaram para seguir sua vida normal.

Abelhas marcadas para morrer. (Foto: Universidade do Texas)

Abelhas marcadas para morrer (FOTO: UNIVERSIDADE DO TEXAS)

Recapturadas três dias depois, eles observaram que o herbicida reduziu significativamente a microbiota intestinal saudável. Das oito espécies dominantes de bactérias saudáveis ​​nas abelhas expostas, quatro foram consideradas menos abundantes. A espécie mais atingida, Snodgrassella alvi, ajuda as abelhas a processarem alimentos e a se defenderem contra patógenos.

Mais tarde, ao expor as abelhas a um patógeno oportunista (Serratia marcescens), morreram com mais frequência que as abelhas sem glifosato. Cerca de metade das abelhas com um microbioma saudável ainda estavam vivas oito dias após a exposição ao patógeno, enquanto apenas cerca de um décimo dos insetos cujos microbiomas haviam sido alterados pela exposição ao herbicida ainda estavam vivas.

“Estudos em humanos, abelhas e outros animais mostraram que o microbioma intestinal é uma comunidade estável que resiste à infecção por invasores oportunistas”, disse Moran. “Então, se você interromper a comunidade normal e estável, estará mais suscetível a essa invasão de patógenos”.

A descoberta entra para uma longa lista de polêmicas que envolvem o agrotóxico mais popular do mundo. “Não é a única coisa que causa todas essas mortes de abelhas, mas é definitivamente algo que as pessoas deveriam se preocupar porque o glifosato é usado em todos os lugares”, disse Motta.

São várias a críticas sobre o sistema da Monsanto, que vão da dependência e endividamento de pequenos produtores, desenvolvimento de plantas resistentes à substância, ao extermínio da biodiversidade. É considerado potencialmente cancerígeno pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar da Monsanto (e sua nova controladora Bayer) atestar a segurança do produto com 40 anos de uso no mercado, em agosto a justiça dos Estados Unidos a sentenciou a pagar US$ 289 (cerca de R$ 1,1 bilhão) ao jardineiro Dewayne Johnson que alega ter contraído câncer devido ao uso do Roundup e do RangerPro, um glifosato de segunda linha da Monsanto.

No Brasil, a juíza substituta Luciana Raquel Tolentino de Moura acatou, no dia 3 de agosto, o pedido do Ministério Público Federal, sob a alegação de demora na reavaliação toxicológica do glifosato, e proibiu o uso em todo o País. A ordem para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária era priorizar a reavaliação até o dia 31 de dezembro.

Um dos principais principais interessados no assunto é o ministro da agricultura Blairo Maggi. Um dos maiores produtores de soja do Brasil, ele afirmou que a decisão impediria o plantio de 95% da área de soja, milho e algodão, as três maiores culturas anuais do País. “É muito importante dizer: não há saída sem o glifosato; ou não planta, ou faz desobediência da ordem judicial”, disse Maggi.

No dia 3 de setembro, o presidente em exercício do Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF-1), desembargador Kássio Marques, derrubou a liminar. Uma de suas alegações foi que “nada justifica a suspensão dos registros dos produtos” sem a “análise dos graves impactos que tal medida trará à economia do país”.

FONTE: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2018/09/agrotoxico-mais-usado-no-mundo-esta-ajudando-exterminar-abelhas.html?utm_campaign=agricultura&utm_content=77735133&utm_medium=social&utm_source=facebook

Cientista revela projeto para salvar abelhas e enriquecer agricultores

Especialista informará ONU que o plantio urgente de flores silvestres atrai polinizadores e estimula as plantações de alimentos dos agricultores 

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Populações de abelhas despencaram em todo o mundo. A conferência da ONU debaterá formas de reduzir o uso de pesticidas nocivos. Foto: Michael Kooren / Reuters

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” [1]

O colapso das populações de abelhas pode ser revertido se os países adotarem uma nova estratégia favorável aos agricultores, disse o arquiteto de um novo masterplan para polinizadores na conferência da biodiversidade da ONU nesta semana.

Stefanie Christmann, do Centro Internacional de Pesquisa Agrícola em Áreas Secas, apresentará os resultados de um novo estudo que mostra ganhos substanciais em renda e biodiversidade, desde a colheita de um quarto de terra cultivável até o florescimento de culturas econômicas, como especiarias, sementes oleaginosas, plantas medicinais e forrageiras.

A Conferência das Partes no âmbito do Convenção sobre a Diversidade Biológica da ONU já está debatendo novas diretrizes sobre polinizadores que recomendarão a redução gradual do uso de pesticidas existentes, mas a pesquisa de Christmann sugere que isso pode ser feito sem dor financeira ou perda de produção.

A necessidade de uma mudança é cada vez mais evidente. Mais de 80% das culturas alimentares requerem polinização, mas as populações de insetos que fazem a maior parte deste trabalho entraram em colapso. Na Alemanha, esta queda é de até 75% nos últimos 25 anos. Porto Rico tem visto um declínio ainda mais acentuado. Os números não estão disponíveis na maioria dos países, mas quase todos relatam um declínio alarmante.

As respostas dos governos nacionais variaram muito. No início deste ano, o Brasil, um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, retrocedeu quando congressistas pró-agronegócio votaram pelo levantamento das restrições aos pesticidas proibidos em outros países.

Em contraste, a União Européia proibiu os inseticidas mais amplamente usados no mundo – conhecidos como neonicotinóides, e muitos países europeus estão plantando flores silvestres para atrair insetos.

Mas essa política é cara e traz pouca ou nenhuma renda para os agricultores. Christmann passou os últimos cinco anos trabalhando em uma abordagem diferente, que ela chama de “agricultura com polinizadores alternativos”, com testes de campo no Uzbequistão e no Marrocos. 

A essência da técnica é dedicar uma em cada quatro faixas de cultivo a cultivos de flores, como sementes oleaginosas e especiarias. Além disso, ela fornece aos polinizadores apoio aninhado barato, como madeira velha e solo batido que as abelhas que nidificam no solo podem se enterrar. Girassóis também foram plantados nas proximidades como abrigos de vento. 

“Há uma barreira muito baixa para que qualquer um, mesmo no país mais pobre, possa fazer isso. Não há equipamentos, nem tecnologia e apenas um pequeno investimento em sementes. Isso é muito fácil. Você pode demonstrar como fazer isso com fotos enviadas em um celular ”. Comparado com os campos de controle de monoculturas puras, foram encontrados benefícios “surpreendentes” para os agricultores e um aumento na abundância e diversidade de polinizadores. As culturas foram polinizadas de forma mais eficiente, houve menos pragas, como pulgões e pulgões, e os rendimentos aumentaram em quantidade e qualidade.

5018Girassóis foram plantados para atuar como um pára-brisa para áreas de apoio de nidificação de abelhas. Fotografia: Alamy

Em todas as quatro regiões climáticas diferentes que ela estudou, a renda total dos agricultores aumentou, embora os benefícios tenham sido mais marcantes em terras degradadas e fazendas sem abelhas. Os maiores ganhos foram em climas semi-áridos, onde a produção de abóbora subiu 561%, beringela 364%, favas 177% e melões 56%. Em áreas com chuva adequada, as colheitas de tomate duplicaram e a beringela subiu 250%. Nos campos de montanha, a produção de courgette triplicou e as abóboras duplicaram. 

Em outro estudo, financiado pelo Ministério do Meio Ambiente da Alemanha, Christmann testará um plano de cinco anos para passar do trabalho com pequenos projetos pilotos para produtores em grande escala, inserindo tiras floridas de canola e outras culturas comercializáveis para desmembrar as monoculturas.

Ela também espera ver mudanças nas políticas nacionais de paisagem. Trabalhando com os ministérios de turismo, agricultura e comunicação, ela visa aumentar a conscientização sobre os benefícios econômicos dos polinizadores silvestres e incentivar mais o plantio de flores silvestres, arbustos de bagas e árvores floridas.

“Todo o ambiente seria mais rico, mais bonito e mais resiliente às mudanças climáticas”, disse o evangelista de abelhas. “Teríamos muito mais insetos, flores e pássaros. E seria muito mais auto-sustentável. Até mesmo os países mais pobres do mundo poderiam fazer isso”.  

À medida que mais países apreciam as vantagens, ela espera que eles estejam dispostos a se unir à coalizão de países comprometidos em reverter o declínio dos polinizadores. Atualmente, existem apenas 24 países nesta “coalizão de vontade”, principalmente da Europa. Eventualmente, ela espera que haja apoio suficiente ao acordo ambiental multilateral sobre polinizadores, semelhante à convenção internacional sobre o comércio de espécies ameaçadas de extinção. “Espero que a conferência desta semana seja o primeiro passo para criar um acordo multilateral porque é disso que precisamos”, diz ela.  

Ela espera resistência de empresas agroquímicas. “Acho que a Monsanto não vai gostar disso porque quer vender seus pesticidas e essa abordagem reduz as pragas naturalmente”, diz ela.  

Christmann está acostumada com a adversidade. Quando ela sugeriu pela primeira vez um foco em polinizadores na conferência agrícola mundial em 2010, os delegados riram dela. Por muitos anos, ela lutou para obter fundos e por dois anos ela teve que usar suas economias para financiar seu trabalho em programas de polinização.  

Agora ela tem o apoio do governo alemão e uma voz no palco mundial, o único obstáculo é o tempo. “Isso não pode esperar. As abelhas, moscas e borboletas precisam de ação urgente. Tenho agora 59 anos e quero protegê-los globalmente antes de me aposentar, por isso tenho que me apressar”, diz ela.  

O declínio dos polinizadores será destacado em um novo relatório global sobre recursos genéticos para alimentos que será lançado no próximo ano. Com base em relatórios de governos de todo o mundo, o esboço mostrará que até os ministérios da agricultura – que há muito tempo resistem à ação de conservação – estão cientes da necessidade de mudança.  

“Os países estão dizendo que estamos usando muitos pesticidas e que o número de pássaros e abelhas está diminuindo. Precisamos fazer algo sobre isso ou nossos sistemas agrícolas não vão funcionar”, disse Irene Hoffmann, que lidera o estudo da Organização para Agricultura e Alimentação (FAO). “É frustrante e, às vezes, é assustador. A situação é terrível, mas há maneiras de resolvê-la”.


Texto publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [1]

Estudo mostra que novos agrotóxicos podem prejudicar abelhas tanto quanto os já existentes

Novo agrotóxico baseado na sulfoximina pode afetar a habilidade de mamangavas de se reproduzir, bem como a taxa de crescimento das suas colônias

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O medo tem crescido globalmente nos últimos anos em relação à saúde das abelhas. Foto: Alamy Foto de stock

Por Agence France-Presse para o “The Guardian”*

 

Uma nova classe de agrotóxicos criada para substituir os neonicotinóides pode ser tão prejudicial para as abelhas polinizadoras de culturas, alertaram pesquisadores da Universidade de Londres em artigo publicado na revista Nature [1].

Nos experimentos por eles realizados, a capacidade das abelhas de se reproduzirem e a taxa de crescimento de suas colônias foram comprometidas pelos novos inseticidas a base de sulfoximina.

Colônias expostas a baixas doses do agrotóxico em laboratório renderam significativamente menos trabalhadores e metade do número de machos reprodutores depois que as abelhas foram transferidas para um ambiente de campo.

 “Nossos resultados mostram que o sulfoxaflor” – um dos novos tipos de inseticidas – “pode ​​ter um impacto negativo na produção reprodutiva de colônias de abelhas”, disse o principal autor Harry Siviter, pesquisador da Universidade de Holloway, em Londres.

Assim como os neonicotinóides, o sulfoxaflor não mata diretamente as abelhas, mas parece afetar o sistema imunológico ou a capacidade de se reproduzir.

O comportamento de forrageamento e a quantidade de pólen coletada por abelhas individuais permaneceram inalteradas no experimento.

O estudo foi publicado em meio a desafios legais e mudanças nas políticas nacionais sobre neonicotinóides, entre os inseticidas mais usados ​​no mundo.

Em abril, os países da União Européia votaram pela proibição de três produtos à base de neonicotinóides em campos abertos, restringindo o uso a estufas cobertas.

No início deste mês, o Canadá fez o mesmo, anunciando a eliminação de dois dos pesticidas amplamente aplicados nas culturas de canola, milho e soja.

Os neonicotinóides são baseados na estrutura química da nicotina e atacam os sistemas nervosos dos insetos. Inseticidas que utilizam a sulfoximina, apesar de pertencerem a uma classe diferente, agem de forma semelhante.

Ao contrário dos agrotóxicos de contato – que permanecem na superfície da folhagem – os neonicotinóides são absorvidos pela planta a partir da fase de semente e transportados para as folhas, flores, raízes e caules.

Eles têm sido amplamente utilizados nos últimos 20 anos e foram projetados para controlar insetos que se alimentam de seiva, como pulgões e larvas de alimentação de raízes.

Estudos anteriores descobriram que os neonicotinóides podem causar desorientação das abelhas, de tal modo que não conseguem encontrar o caminho de volta à colmeia e diminuem sua resistência a doenças.

Em 2013, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) aprovou dois pesticidas à base de sulfoxaflor para venda sob as marcas Transform e Closer.

O Sulfoxaflor também está registrado na Argentina, Austrália, Canadá, China, Índia, México e algumas dezenas de outros países.

Especialistas não envolvidos na pesquisa elogiaram sua metodologia e disseram que os resultados devem soar um alarme.

“Este estudo mostra uma escala inaceitável de impacto no sucesso reprodutivo dos abelhões, após níveis realistas de exposição ao sulfoxaflor”, comentou Lynn Dicks, bolsista do Natural Environmental Research Council na Universidade de East Anglia.

Para Nigel Raine, professor da Universidade de Guelph, no Canadá, que ocupa uma cadeira na conservação de polinizadores, “as descobertas sugerem que as preocupações com os riscos da exposição de abelhas a inseticidas não devem se limitar aos neonicotinóides”.

O medo em relação à saúde das abelhas vêm crescendo globalmente nos últimos anos .

Os agrotóxicos foram responsabilizados como causa do distúrbio do colapso das colônias, juntamente com ácaros, pesticidas, vírus e fungos, ou alguma combinação desses fatores.

As Nações Unidas alertaram no ano passado que 40% dos polinizadores invertebrados – particularmente abelhas e borboletas – correm risco de extinção global.

*Artigo originalmente publicado em inglês [Aqui!]


[1] https://www.nature.com/articles/s41586-018-0430-6

Meio Ambiente União Europeia aprova proibição total de inseticidas neonicotinóides que matam abelhas

A proibição do neonicotinoides, o inseticida mais usado no mundo, deve entrar em vigor até o final deste ano.

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Por Mayra Rosa*

Em uma decisão histórica que levou anos, todas as nações membros da União Europeia aprovaram a proibição total dos neonicotinoides, o inseticida mais usado no mundo, e um perigo bem documentado para as abelhas e outros polinizadores. A proibição deve entrar em vigor até o final deste ano, embora o uso do inseticida ainda seja permitido em estufas. O rápido declínio da população de espécies de polinizadores nos últimos anos deve-se em parte ao uso disseminado de pesticidas nocivos. A proibição deve resultar em uma população de polinizadores mais saudável, o que é essencial para a produção global de alimentos.

A votação segue estudos recentes que confirmaram o perigo que os neonicotinoides representam para os polinizadores, diretamente e através da contaminação da água e do solo. “A comissão havia proposto essas medidas meses atrás, com base nos pareceres científicos dos assessores de risco científico da UE”, disse Vytenis Andriukaitis, comissário europeu para Saúde e Segurança Alimentar, em entrevista ao Guardian. “A saúde das abelhas continua a ser de extrema importância para mim, uma vez que diz respeito à biodiversidade, produção de alimentos e meio ambiente.”

Essa mudança na política agradou os ativistas. “Finalmente, nossos governos estão ouvindo seus cidadãos, as evidências científicas e os agricultores que sabem que as abelhas não podem viver com esses produtos químicos e não podemos viver sem as abelhas”, disse Antonia Staats, da Avaaz.

Indústria agro é contra

Enquanto isso, representantes da indústria desaprovaram. “A agricultura europeia sofrerá como resultado desta decisão”, disse Graeme Taylor, da Associação Europeia de Proteção de Cultivos. “Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas com o tempo os tomadores de decisão verão o claro impacto de remover uma ferramenta vital para os agricultores.” Pesquisas sugerem que as preocupações de Taylor são infundadas, enquanto o dramático declínio nas populações de polinizadores – que continuará a ocorrer sem ação – prova desastrosa para a produção de alimentos.

 

*Mayra Rosa é arquiteta e urbanista com formação em desenvolvimento sustentável pela University of New South Wales, em Sidney, Austrália. Fundou o CicloVivo em 2010 com a proposta de falar sobre sustentabilidade de forma divertida e descomplicada. Acredita que o bom exemplo é a melhor maneira de influenciar pessoas e que a simplicidade é a chave para vivermos em harmonia.

 

Para proteger abelhas, União Européia deverá banir neonicotinóides

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A prestigiosa revista “Nature” publicou ontem uma informação que deverá causar abalos na indústria dos agrotóxicos, especialmente para aquelas empresas que fabricam neonicotinóides. É que segundo a Nature,  a agência da União Européia responsável pela segurança alimentar concluiu que 3 agrotóxicos da classe dos neonicotinóides oferecem alto risco para abelhas selvagens em geral e para aquelas que produzem mel [1].

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As descobertas feitas pela European Food Safety Authority (EFSA)  aumentam as chances de que a União Européia vá brevemente banir o uso destes agrotóxicos em todas as culturas agrícolas praticadas ao ar livre no continente europeu.

A avaliação da EFSA cobriu os três neonicotinóides que apresentam maiores preocupações para a saúde das abelhas –  clothianidin, imidacloprid e thiamethoxam. Importante notar que a EFSA considerou nessa avaliação mais de 1.500 estudos, incluindo não apenas artigos e dados científicos, mas também dados de empresas produtoras desses agroquímicos, agências governamentais,  organizações não-governamentais (ONGs)  e de associações de apicultores.

Interessante notar que no Brasil, o uso dos neonicotinóides está em franca expansão, sendo que o imidacloprid se tornou uma das substâncias mais amplamente usadas na agricultura brasileira nos últimos anos.  A questão agora é se a União Européia vai ampliar a medida de banir o imidacloprid e as outras duas substâncias para produtos vindos de outros países. 

Como essa parece ser uma possibilidade bem real, vamos ver como se comportará o latifúndio agro-exportador e seu representante no governo “de facto” de Michel Temer, o dublê de ministro e latifundiário Blairo Maggi.  Mas o mais provável é que se a União Européia não ampliar o banimento para fora das fronteiras, Blairo Maggi e o resto do “agrobusiness” brasileiro vão continuar fingindo que não sabem de nada, e mandando ver nos neonicotinóides.

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[1] https://www.nature.com/articles/d41586-018-02639-1?utm_source=briefing-dy&utm_medium=email&utm_campaign=20180301

Estudo britânico liga sumiço de abelhas ao uso de pesticida

Analisando dados sobre 62 espécies ao longo de 18 anos, cientistas concluem que os insetos que se alimentam em plantações tratadas com substância têm mais chances de sofrer declínio populacional

File photo of a bee leaving a Cirsium Trevors "Blue Wonder" thistle in the Well Child fresh garden at the Chelsea Flower Show in London

Por Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

Abelhas selvagens têm mais chance de sofrer declínio populacional quando buscam alimentos em plantações cujas sementes foram tratadas com inseticidas neonicotinoides, os mais utilizados no mercado mundial. A conclusão é de um estudo britânico publicado nesta terça-feira, 16, na revista científica Nature Communications.

O estudo utilizou dados de levantamentos sobre 62 espécies de abelhas em plantações de colza do Reino Unido, realizados ao longo de 18 anos, e ligou o declínio das populações de abelhas no país à escalada do uso de pesticidas neonitocinoides nesse período. 

Segundo os autores, o estudo reforça as conclusões das pesquisas de pequena escala feitas até agora e que identificaram os efeitos negativos dos neonicotinoides nas abelhas. Para cinco espécies, a pesquisa concluiu que os neonitocinoides foram responsáveis por pelo menos 20% das extinções locais.

O autor principal do estudo, Ben Wookcock, do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, afirmou, no entanto, que o uso desses pesticidas provavelmente não é a única explicação para o declínio global das populações de abelhas. 

“Embora tenhamos descoberto evidências de que o uso de neonitocinoides é um fator fundamental para o declínio das populações de abelhas, é improvável que eles estejam agindo de forma isolada em relação a outras pressões ambientais. Abelhas selvagens têm sofrido declínio em escala global, que pode estar ligado também à perda e fragmentação de hábitats, a doenças, às mudanças climáticas e outros inseticidas”, disse Wookcock.

Diversos estudos já apontavam que o uso desse tipo de inseticida pode ser nocivo para as abelhas, mas a maior parte deles havia testado apenas os efeitos a curto prazo. O uso da dos neonicotinoides foi parcialmente banido pela Comissão Europeia em 2013, com o apoio da maior parte dos países da União Europeia. O Reino Unido votou contra a proibição.

Foto: Heather Lowther / Centre for Ecology & Hydrology – UK
Estudo britânico liga sumiço de abelhas ao uso de pesticidaDeclínio das populações de abelhas foi três vezes maior entre as espécies que se alimentam regularmente da colza

Os neonicotinoides foram licenciados para uso como pesticidas no Reino Unido em 2002. Em 2011, o uso dessa classe de pesticidas havia crescido 83% nas plantações britânicas de colza. O grupo de cientistas examinou as mudanças na ocorrência das 62 espécies de abelhas em plantações de colza da Inglaterra entre 1994 e 2011, período que permitiu comparar a situação dos insetos antes e depois da introdução do uso comercial do pesticida em larga escala.

Três vezes mais impacto

Segundo o estudo, o declínio das populações de abelhas foi três vezes maior entre as espécies que se alimentam regularmente da colza – como a Bombus terrestris, conhecida no Brasil como mamangaba – em comparação com as espécies que buscam alimento em plantas florestais. De acordo com os autores, isso indica que a colza tem um papel importante para a exposição das abelhas aos neonicotinoides.

Os pesticidas neonicotinoides podem ser aplicados diretamente às sementes antes da plantação. O composto ativo se expressa de forma sistêmica ao longo do crescimento da planta, o que faz com que ele possa ser ingerido pelos insetos quando eles se alimentam do néctar e do pólen das plantas que receberam o pesticida.

“Por produzir flores, a colza é uma planta benéfica para insetos polinizadores. Esse benefício no entanto, parece se mais que anulado pelo efeito das sementes tratadas com neonicotinoides para uma ampla gama de abelhas selvagens”, afirmou Wookcock.

FONTE: http://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,estudo-britanico-liga-sumico-de-abelhas-ao-uso-de-pesticida,10000069958

Apocalipse das abelhas: estudo de pesquisadores poloneses encontra 57 tipos de agrotóxicos em abelhas européias

A ideia de que o uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos está tendo um efeito devastador sobre a população de abelhas em todo o mundo não é nova.  Agora, a partir da publicação de um artigo cientifico na revista “Journal of Chomotography A” um grupo de pesquisadores poloneses do “National Veterinary Research Institute” (Aqui!) está demonstrado que o problema é muito maior do que havia sido demonstrado até agora pela ciência.

É que graças a um novo método analítico desenvolvido pela equipe liderada por Tomasz Kilijanek se tornou possível analisar de forma simultânea uma ampla gama de substâncias presentes numa única amostra (no caso mais de 200 agrotóxicos).  Para validar esse método, a equipe de pesquisadores utilizou 74 espécimes das abelhas européias que haviam morrido por envenenamento por agrotóxicos (Apis Mellifera) e chegou a um resultado impressionante: em 73 dos indivíduos analisados foi possível detectar pelo menos um agrotóxico estudado ou um derivado dele, totalizando 57 tipos de substâncias diferentes!

Ainda que o estudo não tenha sido desenvolvido para determinar as relações existentes entre o uso de agrotóxicos e o extermínio das abelhas, os pesquisadores poloneses apontam que novos estudos serão possíveis a partir deste novo método, os quais poderão contribuir para que se saiba melhor como ocorrem as intrincadas relações entre exposição a agrotóxicos e morte das abelhas.

Muitos poderão se perguntar sobre qual é efetivamente o problema em se ter esse nível de contaminação por agrotóxicos em abelhas. Afora o fato de que estes insetos são polinizadores essenciais para a agricultura, eles representam apenas a face mais óbvia do estrago feito por agrotóxicos sobre a biodiversidade de insetos que garante um sensível balanço entre presas e predadores que se for alterada de forma de forma irreversível poderá ter efeitos totalmente devastadores para a produção de alimentos em todo o mundo.

Nunca é demais lembrar que, em que pesem as crescentes evidências de que o uso de agrotóxicos está causando este tipo de estrago, há uma forte lobby no Congresso Nacional e dentro do Ministério da Agricultura, agora liderado por Blairo Maggi, para que o Brasil passe a utilizar agrotóxicos que foram banidos em outras partes do mundo.  Em outras palavras, o risco aqui é de que o Apocalipse das abelhas seja apenas a ponta de um longo iceberg envenenado.

 

A cracolândia dos polinizadores?

Estudos internacionais apontam que os neonicotinoides, inseticidas muito usados na agricultura, podem viciar abelhas e reduzir o crescimento de suas colônias. O tema é discutido por Jean Remy Guimarães em sua coluna de maio.

Por: Jean Remy Davée Guimarães

A cracolândia dos polinizadores?

Estudo publicado na ‘Nature’ indica que inseticidas neonicotinoides têm efeito viciante sobre as abelhas. (foto: Kim Seng/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)

A vida anda mesmo dura para os fabricantes de pesticidas. Não bastasse a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter recentemente classificado o glifosato, herbicida mais vendido no Brasil e no mundo, como possivelmente cancerígeno – o que foi tema da coluna de março –, dois trabalhos publicados este mês na prestigiosa Natureevidenciam os impactos negativos dos inseticidas neonicotinoides, largamente utilizados na agricultura, sobre as abelhas.

Em coluna anterior, eu já havia descrito estudos de campo ingleses e franceses que demonstravam que a exposição a concentrações realistas de neonicotinoides deixava abelhas e zangões desorientados, fazendo com que 30% do efetivo da colmeia não retornasse à mesma no fim do dia, reduzindo a produção de rainhas e o tamanho da colônia.

Desta vez, os neonicotinoides são suspeitos de deixar as abelhas viciadas… em neonicotinoides. O nome dessa classe de inseticidas não é coincidência; eles têm de fato estrutura química semelhante à da nicotina e podem estimular os centros de recompensa das abelhas da mesma forma que a nicotina em humanos. O efeito viciante de neonicotinoides em ratos já havia sido demonstrado em 2012 por pesquisadores japoneses.

Esses inseticidas têm de fato estrutura química semelhante à da nicotina e podem estimular os centros de recompensa das abelhas da mesma forma que a nicotina em humanos

Agora os autores de um artigo publicado na Nature verificaram que abelhas não só não evitam alimentos com neonicotinoides como preferem estes em relação aos que não contêm o pesticida, o que reduz sua ingestão total de alimento.

Os resultados desmontam o argumento – não comprovado – usado pelos fabricantes para contrapor os estudos anteriores que já apontavam a nocividade dessa classe de inseticidas para abelhas e outros generosos polinizadores. Segundo eles, as abelhas seriam espertas e evitariam os cultivos tratados, reduzindo assim sua exposição (ao custo de deixar de polinizá-los, supõe-se). Mas, infelizmente, se alguns dos sensores das abelhas não detectam a presença dos neonicotinoides, outros percebem muito bem seu canto mavioso e a promessa de prazer, ou fugaz alívio da dor da abstinência. (Alô, fumantes e outros dependentes químicos, isso soa familiar?)

Que mania a indústria tem de inventar produtos viciantes! O fast-food é nocivo e viciante. Os psicotrópicos, idem. Agora temos pesticidas que viciam suas vítimas pretendidas e as outras também. Aguardo ansioso por estudos que investiguem se os neonicotinoides provocam adição em humanos, assim como provocam em abelhas e ratos.

Não duvido que depois de estrilarem como de costume, os fabricantes acabem revertendo essas evidências a seu favor. Já posso imaginar os slogans explorando a atração irresistível das pragas pela toxina que vai matá-las. Pelo menos até desenvolverem resistência ao produto. Que beleza, inventamos a zoocracolândia rural! Nada detém o progresso.

Extermínio de populações

Enquanto isso, um segundo estudo da Nature mostrou que o tratamento de sementes de plantas com flores com o inseticida Elado, que contém uma combinação de um neonicotinoide (clothianidin) e um piretroide (β-cyfluthrin), teve sérias consequências para abelhas selvagens, reduzindo a densidade das colônias, bem como seu crescimento, tudo isso nas chamadas condições de campo, em que a intensidade da exposição e suas vias são semelhantes àquelas vigentes rotineiramente em cultivos reais.

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O tratamento de sementes de plantas com flores com um inseticida que contém um neonicotinoide reduziu a densidade e o crescimento de colônias de abelhas selvagens. (foto: Jordan Schwartz/ Flickr – CC BY 2.0)

Os estudos em questão ganharam razoável destaque na imprensa estrangeira (esqueça a local, incorrigível), porque a Comunidade Econômica Europeia aprovou uma moratória sobre o uso de certos neonicotinoides na agricultura. A moratória foi pesadamente criticada pelo governo inglês, que a acusa de não ser baseada em evidências científicas suficientes e prefere ir na onda de um relatório da Fera (Food and Environment Research Agency), agência inglesa para pesquisa sobre alimentos e meio ambiente.

Os resultados apresentados no relatório dizem basicamente o contrário das conclusões do mesmo, um caso inédito de bipolaridade bibliográfica

O problema é que a Fera não só é mansa como também míope. O tal relatório não passou pelo crivo anônimo dos pares, como acontece com um artigo científico que se preze, já que é apenas um relatório, e vale tanto quanto a agência governamental que o escreveu e os políticos que o sancionaram (aaaaai, que medo!).

Mas cientista é bicho chato. Dave Goulson, professor de biologia na Universidade de Sussex, Inglaterra, também teve medo e resolveu ir à fonte e passar o pente fino no texto. Ele concluiu (está sentado?) que os resultados apresentados no relatório dizem basicamente o contrário das conclusões do mesmo, um caso inédito de bipolaridade bibliográfica que só passou desapercebido pelos atribulados legisladores ingleses devido ao efeito aditivo (com trocadilho, por favor) das generosas contribuições de campanha, sejam de que origem forem.

Não sei não, mas deve ser terrível viver num país onde coisas assim acontecem.

Jean Remy Davée Guimarães é professor do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho

FONTE: http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/a-cracolandia-dos-polinizadores

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA decidiu restringir fabricação e uso de neonicotinóides

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Após uma longa espera, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos EUA finalmente concordou em restringir a fabricação e uso de agrotóxicos neonicotinóides, e impôs uma moratória na aprovação de novos produtos dessa classe de inseticidas (Aqui! e Aqui!). Os neonicotinóides têm sido associados a mortes de abelhas, e restrições  ao  seu uso já tinham sido estabelecidas anteriormente pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem (FWS) , embora o FWS ainda tenha que fazer valer o seu novo conjunto de regras.

O estado do Oregon proibiu o uso de neonicotinóides em terras públicas, e em 2013 a União Europeia emitiu uma moratória temporária sobre o uso desses produtos até que mais pesquisas sobre os efeitos ambientais dos agrotóxicos possam ser realizados. 

Essa decisão da EPA ocorre após a publicação de um artigo por pesquisadores da Harvard University que demonstrou que o uso dos neonicotinóides é o principal fator responsável pela ocorrência cada vez mais comum do conhecido “Distúrbio do Colapso das Colônias” (CCD) (Aqui!). De acordo com o Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, CCD é uma síndrome misteriosa em que uma colmeia de abelhas é encontrada sem abelhas adultas ou corpos de abelhas adultas, mas com as abelhas jovens, uma rainha viva e mel ainda em seu interior.

Enquanto isso no Brasil, o uso de neonicotinóides continua em evolução, sem que medidas cautelares como as sendo adotadas pela EPA estadunidense estejam sendo sequer cogitadas. Esse é mais um caso do algo que não é bom para os agricultores estadunidense, acaba sendo empurrado para dentro do Brasil. 

Primavera silenciosa versão 2.0

Por: Jean Remy Davée Guimarães

Nos anos 1960, foi disparado alerta contra o DDT, que controlava pragas, mas matava insetos que não eram seu alvo e também aves. O problema está de volta – agora com o uso dos neonics, como mostra Jean Remy Guimarães em sua coluna de julho.

Primavera silenciosa versão 2.0

Análise de cientistas filiados à União Internacional para a Conservação da Natureza revela que os inseticidas neonics ameaçam polinizadores como as abelhas, além de outros grupos animais. (foto: William Droops/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Uma análise da literatura das últimas duas décadas sobre os inseticidas neonicotinoides e fipronil confirma que eles são um fator significativo de declínio das abelhas e outros invertebrados úteis, comprometendo serviços ambientais como a polinização e o controle de pragas.

Apesar das eloquentes evidências, estas parecem nunca ser suficientes para deflagrar uma ação regulatória mais enérgica – ou menos anêmica, dependendo do ponto de vista –, visando à limitação do uso dos neonicotinoides.

Mas um pequeno grupo de irredutíveis guerreiros empreendeu uma profunda análise da literatura disponível nos últimos 20 anos e concluiu que já há evidências de sobra para acionar o alarme e ações regulatórias enérgicas para limitar ou suspender o uso de neonicotinoides e fipronil, apelidados de neonics para não enrolar a língua.

O Grupo de Trabalho sobre Pesticidas Sistêmicos, que reúne cientistas independentes filiados à União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), se debruçou sobre 800 trabalhos revisados por pares e publicados em revistas indexadas.

Os resultados da iniciativa, batizada Worldwide Integrated Assessment (algo como Avaliação Global Integrada), serão publicados na revista Environment Science and Pollution Research.

Testemunhamos uma ameaça à produtividade de nosso ambiente natural e agrícola tão grave quanto aquela causada no passado pelos organofosforados e pelo DDT

A meta-análise concluiu que esses compostos são uma séria ameaça às abelhas e a outros polinizadores, como borboletas e zangões, e também a uma vasta gama de invertebrados, como as minhocas, além de vertebrados, inclusive aves. Estamos na fila – e as filas andam.

Segundo Jean-Marc Bonmatin, do Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França, um dos autores do estudo, as evidências são claras: testemunhamos uma ameaça à produtividade de nosso ambiente natural e agrícola tão grave quanto aquela causada no passado pelos organofosforados e pelo DDT.

Não custa lembrar que em 1962 a pesquisadora norte-americana Rachel Carson publicou o seminal Primavera silenciosa, em que descrevia os efeitos imprevistos da aplicação indiscriminada de DDT em cultivos. O pesticida de fato controlava diversas pragas, mas não havia como evitar que pássaros comessem sementes contaminadas e morressem, o que explica o título do livro, considerado fundador da moderna consciência ambiental.

Moderna? Há controvérsias. A espécie humana se destaca por sua capacidade não só de memória, mas também de esquecimento. Tanto que estamos repetindo exatamente o mesmo roteiro de meio século atrás. Os insetos, polinizadores ou não, estão de novo desaparecendo. Desaparecendo os insetos, somem seus predadores, entre os quais as aves são os mais visíveis. E audíveis. Ou ao menos eram, até aqui.

Não é para menos. Os chamados neonics são neurotoxinas com efeitos imediatos e crônicos. Exposições crônicas a baixas doses podem também ser prejudiciais, com efeitos que incluem comprometimento do olfato e da memória, redução da fecundidade, alteração no padrão de voo, maior susceptibilidade a doenças, alteração no padrão de alimentação e forrageio, alteração (em minhocas) no padrão de construção de tocas.

Minhoca
Invertebrados como minhocas e até vertebrados também estão ameaçados quando expostos cronicamente a doses, mesmo baixas, dos neonics. Em minhocas, viu-se mudança no padrão de construção de tocas. (foto: Daniel Kinpara/ Flickr – CC BY-NC 2.0)

Esses são alguns dos efeitos investigados e quantificados. Aguardamos trabalhos sobre os efeitos que ainda não foram investigados ou que ainda não são mensuráveis de forma confiável.

Estamos cercados

Os neonics contaminam espécies não-alvo de forma direta, como é o caso dos insetos que consomem o néctar de plantas tratadas, e atingem áreas anexas às áreas intencionalmente tratadas, o que alguns técnicos chamam pudicamente de “deriva técnica”.

Talvez eles dessem nomes menos pudicos se fossem vítimas desse infortúnio. Mas, mesmo que não frequentemos áreas tratadas com esses prodígios da revolução verde, sua solubilidade garante ampla dispersão para zonas ribeirinhas, estuarinas e costeiras.

Os neonics representam cerca de 40% do mercado global de pesticidas e movimentaram 2,62 bilhões de dólares em 2011

Que chato, pois eles representam cerca de 40% do mercado global de pesticidas e movimentaram 2,62 bilhões de dólares em 2011. Bem, mas isso é problema de quem vive no campo, não meu. Ledo engano, pois os mesmos produtos são usados em fórmulas para combater pulgas em cães e gatos, e cupins em estruturas de madeira. Você está cercado.

Mas convém resistir. Segundo Maarten Bijleveld van Lexmond, que preside o grupo de trabalho da IUCN, os resultados do levantamento são preocupantes, uma vez que evidenciam ameaças graves ao funcionamento dos ecossistemas e ao fornecimento de serviços ambientais como polinização e controle natural de pragas.

Resta explicar por que as entidades que regulam o setor não perceberam o que estava fartamente disponível na literatura. O grupo da IUCN chegou às suas preocupantes conclusões sem sequer levantar da cadeira; bastaram alguns cliques e muitos homens-hora e mulheres-hora de leitura.

As abelhas e seu sumiço são, já há algum tempo, a parte mais visível (sem trocadilho) do problema. Mas nem assim se tomaram medidas para limitar o uso dos neonics, à exceção de tímidas ações da Comissão Europeia.

Ativista do Greenpeace
Ativista do Greenpeace descansa após fixar cartaz em Basileia, na Suíça, pedindo o banimento de neonicotinoides. (foto: Greenpeace Switzerland/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)

Enquanto isso, os fabricantes dos neonics juram que estes não têm culpa no colapso das abelhas e que alegações em contrário são obra da concorrência (qual?) e do poderoso lobby ambientalista internacional, que quer nos levar de volta a uma era de fome e doença.

Aluguel de polinizadores

Para as abelhas, tal era chegou faz algum tempo. Concentrações ambientalmente realistas de neonics afetam seriamente sua capacidade de orientação, aprendizado, coleta de alimento, resistência a doenças, fecundidade e longevidade.

Mesmo quando transferidas para um campo não tratado, cerca de metade das abelhas antes expostas a um campo tratado não consegue retornar à colmeia e acaba morrendo.

Cerca de metade das abelhas expostas a um campo tratado com neonics não consegue retornar à colmeia e acaba morrendo

Mas pare de sofrer. Seus problemas acabaram. A iniciativa privada, sempre atenta às demandas do mercado, já tem solução para os problemas que ela própria causou: o aluguel de polinizadores, com colmeias volantes que são alugadas a agricultores.

Naturalmente, elas são criadas em áreas não tratadas antes de ir para o sacrifício. O serviço é caro, porque há poucas áreas não tratadas à disposição dos apicultores e porque as perdas de abelhas são elevadas, já que boa parte delas perde o rumo de casa após o trabalho – e não é porque pararam nalgum bar…

Não há dúvida, o mercado tem solução para tudo. Mas não para todos. Reserve já sua colmeia para a safra 2015: a demanda é maior que a oferta.

Jean Remy Davée Guimarães, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro

FONTE: http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/primavera-silenciosa-versao-2.0