Embargo sanitário contra o Brasil por causa do excesso de agrotóxicos é uma questão de tempo

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A agência Publica vem publicando uma série de reportagens sobre os efeitos avassaladores que o amplo uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo, está causando na cadeia agrícola brasileira.  No  dia 07 de julho, uma reportagem assinada por Pedro Grigori mostra o extermínio de algo em torno de 0,5 bilhão de abelhas apenas em quatro estados brasileiros (RS, SC, MS e SP) por causa do contato com agrotóxicos à base de neonicotinoides e de Fipronil, produto proibido na Europa há mais de uma década

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Mas nem a mortandade de abelhas ou as crescentes evidências de que os brasileiros estão sendo paulatinamente envenenados por resíduos de agrotóxicos que estão contaminados até o lençol freático em áreas agrícolas com menor intensidade de uso destes venenos agrícolas estão servindo para conter  a sede por novos venenos por parte do latifúndio agro-exportador que tem hoje na soja a sua principal fonte de renda.

Isto fica evidente numa reportagem assinada pela jornalista Natália Cancian para a Folha de São Paulo onde são apresentados dados oficiais sobre a velocidade de aprovação para a comercialização de agrotóxicos altamente tóxicos para a saúde humana e o ambiente (ver infográfico abaixo).

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Fonte: Folha de São Paulo

Apenas para que se tenha uma ideia da amplitude do crescimento exponencial de venenos agrícolas disponíveis no mercado brasileiro, em 2012 publiquei um artigo científico na revista Crop Protection dando conta que estavam disponveis 1.079 produtos formulados registrados no Brasil, o que representaria um crescimento de 197% em apenas 7 anos.  E o pior é constatar que apenas nos primeiros dois meses de governo Bolsonaro foram aprovados 74 novos agrotóxicos, a maioria nas faixas consideradas mais perigosas para a saúde humana e o meio ambiente.

A verdade é que em vez de se buscar um maior aperfeiçoamento nos sistemas de manejo de culturas agrícolas que contemplasse a diminuição no uso de fertilizantes sintéticos e agrotóxicos, os latifundiários optaram pelo caminho aparentemente mais fácil de aumentar a quantidade do uso destes insumos altamente poluentes.

O problema é que esse modelo viciado em venenos cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde) vai ter sua compra barrada em outras partes do mundo onde a tolerância à quantidade existente de resíduos de venenos agrícolas na produção agrícola é menor, a começar pela União Europeia, mas certamente isto não ficará restrito a este bloco comercial, como ficou bem claro na ameaça feita pela Federação Russa de barrar a compra de soja brasileira em função do alto nível de resíduos de herbicidas produzidos a partir do glifosato.

Mas enquanto o inevitável não chega, há que se discutir como impedir o avanço da Tsunami de venenos que está sendo desencadeada pelo governo Bolsonaro sob pena de termos uma catástrofe humana e ambiental no Brasil. Os sinais de alerta já estão claros, e será de bom senso não desprezá-los. Simple assim!

Polinização é ameaçada por desmatamento e agrotóxicos no Brasil

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Declínio desse serviço ambiental, estimado em R$ 43 bilhões em 2018, põe em risco a produção de alimentos e a conservação da biodiversidade brasileira, alertam autores do primeiro relatório sobre o tema no país (fotos: Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP))

Por Elton Alisson | Agência FAPESP

 Das 191 plantas cultivadas ou silvestres utilizadas para a produção de alimentos no Brasil, com processo de polinização conhecido, 114 (60%) dependem da visita de polinizadores, como as abelhas, para se reproduzir. Entre esses cultivos estão alguns de grande importância para a agricultura brasileira, como a soja (Glycine max), o café (Coffea), o feijão (Phaseolus vulgaris L.) e a laranja (Citrus sinensis).

Esse serviço ambiental (ecossistêmico), estimado em R$ 43 bilhões anuais, fundamental para garantir a segurança alimentar da população e a renda dos agricultores brasileiros, tem sido ameaçado por fatores como o desmatamento, as mudanças climáticas e o uso de agrotóxicos. A fim de combater essas ameaças, que colocam em risco a produção de alimentos e a conservação da biodiversidade brasileira, são necessárias políticas públicas que integrem ações em diversas áreas, como a do meio ambiente, da agricultura e da ciência e tecnologia.

O alerta foi feito por um grupo de pesquisadores autores do 1º Relatório Temático de Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil e de seu respectivo “Sumário para Tomadores de Decisão”, lançados quarta-feira (06/02), durante evento na FAPESP.

Resultado de uma parceria entre a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, da sigla em inglês), apoiada pelo Programa BIOTA-FAPESP, e a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP), o relatório foi elaborado nos últimos dois anos por um grupo de 12 pesquisadores e revisado por 11 especialistas.

O grupo de pesquisadores fez uma revisão sistemática de mais de 400 publicações de modo a sintetizar o conhecimento atual e os fatores de risco que afetam a polinização, os polinizadores e a produção de alimentos no Brasil, e apontar medidas para preservá-los.

“O relatório aponta que o serviço ecossistêmico de polinização tem uma importância não só do ponto de vista biológico, da conservação das espécies em si, como também econômica. É essa mensagem que pretendemos fazer chegar a quem toma decisões no agronegócio, no que se refere ao uso de substâncias de controle de pragas ou de uso da terra no país”, disse Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do programa BIOTA-FAPESP e membro da coordenação da BPBES, durante o evento.

O relatório indica que a lista de “visitantes” das culturas agrícolas supera 600 animais, dos quais, no mínimo, 250 têm potencial de polinizador. Entre eles estão borboletas, vespas, morcegos, percevejos e lagartos.

As abelhas predominam, participando da polinização de 91 (80%) das 114 culturas agrícolas que dependem da visita de polinizadores e são responsáveis pela polinização exclusiva de 74 (65%) delas.

Algumas plantas cultivadas ou silvestres dependem, contudo, exclusivamente ou primordialmente de outros animais para a realização desse serviço, como é o caso da polinização de flores de bacuri (Platonia insignis) por aves. Outros exemplos são da polinização de flores de pinha (Annona squamosa) e araticum (Annona montana) por besouros, de flores de mangaba (Hancornia speciosa) por mariposas e de flores de cacau (Theobroma cacao) por moscas.

“As plantas cultivadas ou silvestres visitadas por esses animais polinizadores enriquecem a nossa dieta ao prover frutas e vegetais que fornecem uma série de nutrientes importantes”, disse Marina Wolowski, professora da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) e coordenadora do relatório. “Outras plantas cultivadas pelo vento, como o trigo e o arroz, por exemplo, estão mais na base da dieta”, comparou.

Os pesquisadores avaliaram o grau de dependência da polinização por animais de 91 plantas para a produção de frutas, hortaliças, legumes, grãos, oleaginosas e de outras partes dos cultivos usadas para consumo humano, como o palmito (Euterpe edulis) e a erva-mate (Ilex paraguariensis)

As análises revelaram que, para 76% delas (69), a ação desses polinizadores aumenta a quantidade ou a qualidade da produção agrícola. Nesse grupo de plantas, a dependência da polinização é essencial para 35% (32), alta para 24% (22), modesta para 10% (9) e pouca para 7% (6).

A partir das taxas de dependência de polinização dessas 69 plantas, os pesquisadores estimaram o valor econômico do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no Brasil. O cálculo foi feito por meio da multiplicação da taxa de dependência de polinização por animais pela produção anual do cultivo.

Os resultados indicaram que o valor do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no país girou em torno de R$ 43 bilhões em 2018. Cerca de 80% desse valor está relacionado a quatro cultivos de grande importância agrícola: a soja, o café, a laranja e a maçã (Malus domestica).

“Esse valor ainda está subestimado, uma vez que esses 69 cultivos representam apenas 30% das plantas cultivadas ou silvestres usadas para produção de alimentos no Brasil”, ressaltou Wolowski.

Fatores de risco

O relatório também destaca que o serviço ecossistêmico de polinização no Brasil tem sido ameaçado por diversos fatores, tais como desmatamento, mudanças climáticas, poluição ambiental, agrotóxicos, espécies invasoras, doenças e patógenos.

O desmatamento leva à perda e à substituição de hábitats naturais por áreas urbanas. Essas alterações diminuem a oferta de locais para a construção de ninhos e reduzem os recursos alimentares utilizados por polinizadores.

Já as mudanças climáticas podem modificar o padrão de distribuição das espécies, a época de floração e o comportamento dos polinizadores. Também são capazes de ocasionar alterações nas interações, invasões biológicas, declínio e extinção de espécies de plantas das quais os polinizadores dependem como fonte alimentar e para construção de ninhos, e o surgimento de doenças e patógenos.

Por sua vez, a aplicação de agrotóxicos para controle de pragas e patógenos, com alta toxicidade para polinizadores e sem observar seus padrões e horários de visitas, pode provocar a morte, atuar como repelente e também causar efeitos tóxicos subletais, como desorientação do voo e redução na produção de prole. Além disso, o uso de pesticidas tende a suprimir ou encolher a produção de néctar e pólen em algumas plantas, restringindo a oferta de alimentos para polinizadores, ressaltam os autores do relatório.

“Como esses fatores de risco que ameaçam os polinizadores não ocorrem de maneira isolada é difícil atribuir o peso de cada um deles separadamente na questão da redução das populações de polinizadores que tem sido observada no mundo”, disse Wolowski.

Na avaliação dos pesquisadores, apesar do cenário adverso, há diversas oportunidades disponíveis para melhorar o serviço ecossistêmico de polinização, diminuir as ameaças aos polinizadores e aumentar o valor agregado dos produtos agrícolas associados a eles no Brasil.

Entre as ações voltadas à conservação e ao manejo do serviço ecossistêmico de polinização estão a intensificação ecológica da paisagem agrícola, formas alternativas de controle e manejo integrado de pragas e doenças, redução do deslocamento de agrotóxicos para fora das plantações, produção orgânica e certificação ambiental.

Uma política pública destinada aos polinizadores, à polinização e à produção de alimentos beneficiaria a conservação desse serviço ecossistêmico e promoveria a agricultura sustentável no país, estimam os pesquisadores.

“Esperamos que o relatório ajude a estabelecer planos estratégicos e políticas públicas voltadas à polinização, polinizadores e produção de alimentos em diferentes regiões do país”, afirmou Kayna Agostini, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e também coordenadora do estudo.

Na avaliação de Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, o relatório incorpora várias atividades que o programa BIOTA tem feito ao longo dos seus 20 anos de existência. Entre elas, a de fornecer subsídios para políticas públicas.

“O BIOTA-FAPESP participa ativamente da vida do Estado de São Paulo e do país ao fornecer subsídios científicos para as decisões governamentais e, ao mesmo tempo, realizar atividade de pesquisa da maior qualidade em uma área vital”, disse Zago na abertura do evento.

Também esteve presente na abertura do evento Fernando Dias Menezes de Almeida, diretor administrativo da FAPESP. 

 

Publicado originalmente pela Revista da Fapesp [Aqui!]

Governo liberou registros de agrotóxicos altamente tóxicos

Entre eles está o Sulfoxaflor, liberado nos últimos dias do ano passado, que já foi acusado de exterminar as abelhas nos EUA

publica 0Por Pedro Grigori, Agência Pública

Quarenta novos produtos comerciais com agrotóxicos receberam permissão para chegar ao mercado nos próximos dias. O Ministério da Agricultura publicou no Diário Oficial da União de 10 de janeiro o registro de 28 agrotóxicos e princípios ativos. Entre eles um aditivo inédito, o Sulfoxaflor, que já causa polêmica nos Estados Unidos. Os outros são velhos conhecidos do agricultor brasileiro, mas que agora passam a ser produzidos por mais empresas e até utilizados em novas culturas, entre elas a de alimentos.

Na edição desta sexta-feira (18/1) do Diário Oficial, a Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins do Ministério Agricultura publicou lista com mais 131 pedidos de registro de agrotóxicos solicitados nos últimos três meses de 2018. Eles ainda passarão por avaliações técnicas de três órgãos do governo.

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam uma aceleração na permissão de novos registros, que estaria em “nível desenfreado”.

As autorizações publicadas em 10 de janeiro foram aprovadas no ano passado, ainda durante o governo de Michel Temer (MDB). Nas duas primeiras semanas do governo Bolsonaro, mais 12 produtos receberam registro para serem comercializados, segundo apuraram a Agência Pública e a Repórter Brasil. A aprovação sairá no Diário Oficial nos próximos dias, diz o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

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Nas duas primeiras semanas do governo Bolsonaro, já foram aprovados 12 agrotóxicos e princípios ativos no Brasil

Dos 28 produtos já publicados, um é considerado extremamente tóxico, o Metomil, ingrediente ativo usado em agrotóxicos indicados para culturas como algodão, batata, soja, couve e milho. Além dele, quatro foram classificados como altamente tóxicos. Quase todos são perigosos para o meio ambiente, segundo a classificação oficial. Quatorze são “muito perigosos” ao meio ambiente, e 12, considerados “perigosos”.

Os mais tóxicos são o Metomil e o Imazetapir, o qual foi emitido registro para quatro empresas. Eles são princípios ativos, ou seja, ingredientes para a produção de agrotóxicos que serão vendidos aos produtores rurais.

Apenas três fazem parte do grupo de baixa toxicidade, o menor nível da classificação toxicológica: o Bio-Imune, Paclobutrazol 250 e o Excellence Mig-66, indicados para culturas de manga e até mesmo para a agricultura orgânica.

Segundo o Ministério da Agricultura, os produtos não trazem riscos se usados corretamente. “Desde que utilizado de acordo com as recomendações da bula, dentro das boas práticas agrícolas e com o equipamento de proteção individual, a utilização é completamente segura”, afirmou a assessoria de imprensa do órgão.

Dos 28 produtos com o registro publicado na última semana, 18 são princípios ativos e serão usados na produção de outros defensivos agrícolas. Vinte e um deles são fabricados na China, país que vem se consolidando como um dos maiores produtores, exportadores e usuários de agrotóxicos do mundo.

No ano passado, 450 agrotóxicos foram registrados no Brasil, um recorde histórico. Destes, apenas 52 são de baixa toxicidade.

 

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Total de Agrotóxicos registrados por Ano

Sulfoxaflor ligado ao extermínio de abelhas

Um produto polêmico fora do país é o Sulfoxaflor, aprovado nos últimos dias do governo Temer, em 28 de dezembro, o único novo químico entre os 40 que tiveram o registro publicado.

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Antonio Cruz/Agência Brasil

Nos últimos dias do governo Temer, foram aprovados 28 agrotóxicos e princípios ativos
O responsável pelo registro é a Dow AgroSciences, que faz parte da gigante americana Dow Chemical Company. O produto entrou em circulação nos EUA em 2013. Dois anos depois, organizações defensoras de polinizadores levaram ao Tribunal de Apelações de São Francisco a denúncia de que o uso do pesticida estaria ligado ao extermínio de abelhas. Eles solicitaram revisão da permissão de comercialização.

“O tribunal considerou que o registro não era apoiado por evidências que demonstrassem que o produto não era prejudicial às abelhas, e por isso retiraram o registro”, relata a decisão da Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA). Em setembro daquele ano, o registro de todos os produtos à base de Sulfoxaflor nos Estados Unidos foram cancelados devido ao potencial extermínio de abelhas.

No ano seguinte, a agência americana deferiu uma nova licença para o produto, mas com ressalvas. “O Sulfoxaflor terá agora menos usos e requisitos adicionais que protegerão as abelhas. A EPA tomou essa decisão após uma análise cuidadosa dos comentários do público e do apoio científico”, informou a agência. A partir daí, o produto passou a ser proibido para culturas de sementes e só pode ser utilizado em plantações que atraem abelhas após a época do florescimento. Entre elas estão uva, tomate, pimenta, batata, feijão e cranberry.

As avaliações da Anvisa e do Ibama classificaram o Sulfoxaflor como medianamente tóxico e perigoso ao Meio Ambiente. É usado como ativo para agrotóxicos eficazes contra pragas de insetos que se alimentam de seiva da planta. Foi indicado para culturas de algodão, soja, citros, nozes, uvas, batatas, legumes e morangos.

A Dow AgroSciences abriu a solicitação de registro em 28 de junho de 2013, mas a aprovação do projeto só se apressou no fim de 2018. “A Anvisa convocou consulta pública para o produto no fim de novembro, que durou curtíssimo tempo. Com isso, debateu-se pouco um ativo que nos Estados Unidos chegou a ser proibido por um tempo”, explica Karen Friedrich, membro do grupo temático de saúde e meio ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

A Anvisa abriu a consulta pública durante 30 dias em 23 de novembro de 2018. O deferimento do registro pelos três órgãos ocorreu 35 dias depois.

Proibidos fora do país

Dos 40 registros aprovados no Brasil, 11 não são permitidos na União Europeia. Um deles é o Fipronil, inseticida que age nas células nervosas dos insetos e, além de utilizado contra pragas em culturas de maçã e girassol, é usado até mesmo em coleiras antipulgas de animais domésticos. O produto é proibido em países europeus como a França, desde 2004, também acusado de dizimar enxames de abelhas. É permitido no Brasil e, segundo o registro publicado no Diário Oficial, classificado como medianamente tóxico e muito perigoso ao meio ambiente. Ele é legalizado e indicado para culturas de algodão, arroz, cevada, feijão, milho, pastagens, soja e trigo.

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Pixabay

A substância Sulfoxaflor causou polêmicas e chegou a ser proibida nos Estados Unidos
A importância da preservação das abelhas é a relação direta entre a vida dos insetos e da humanidade. Na busca por pólen, elas polinizam plantações de frutas, legumes e grãos. “Na França, os apiários registravam morte de cerca de 40% das abelhas, a partir daí países da Europa começaram a proibir o Fipronil, que continua permitido no Brasil mesmo após sofrermos impactos semelhantes”, explica Murilo Souza, professor de recursos naturais do Cerrado na Universidade Estadual de Goiás.

Produtos à base de Imazetapir, herbicida aplicado por pulverização em culturas como a da soja, também são proibidos na União Europeia desde 2004. Quatro deles tiveram registro deferido por aqui. O Diquate, que está entre os ativos aprovados no Brasil na última semana, teve registro cassado na União Europeia no fim de 2018 após comissão de avaliação ter identificado alto risco para trabalhadores e residentes de áreas próximas à aplicação do produto, além de risco para aves.

O Sulfentrazona foi banido em toda a União Europeia em 2009 e nunca chegou às mesas do continente. Já no Brasil, o registro foi deferido no fim do ano para as empresas brasileiras Tradecorp, Rotam e da Nortox – todas têm indústrias na China como endereço de fabricante. E neste ano, mais três permissões, agora para as empresas brasileiras Ihara, Allierbrasil e Helm.

Pressão para aprovar rápido

Antes de chegar ao mercado, a substância precisa passar por avaliação do Ministério da Agricultura, Ibama e da Anvisa. Os órgãos fazem diversos testes para medir, por exemplo, o grau toxicológico e o potencial de periculosidade ambiental.

O prazo de avaliação de registro pode chegar a cinco anos, mas vem se tornando mais rápido. De acordo com o Ibama, a diminuição dos períodos de avaliação ocorre “devido ao aperfeiçoamento de procedimentos e incorporação de novos recursos de tecnologia de informação”, segundo a assessoria do órgão.

Já no Ministério da Agricultura, a aprovação mais rápida se deve a uma nova política que prioriza os produtos de baixa toxicidade, que contêm organismos biológicos, microbiológicos, bioquímicos, semioquímicos ou extratos vegetais. Para estes, o tempo médio total entre o pedido de registro e a conclusão do processo varia de três a seis meses. O que explica a rápida aprovação do Bio-Imune e do Excellence Mig-66.

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Antonio Cruz/ Agência Brasil

A nova ministra da Agricultura, Tereza Cristina, recebeu o apelido de “musa do veneno”
O longo prazo de avaliação do registro é uma das principais críticas dos ruralistas, que apostam no Projeto de Lei 6.299/2002 para acelerar a liberação das substâncias. Conhecido pelos opositores como “PL do Veneno”, uma das medidas previstas pelo texto é que, caso o período de análise do químico passe de dois anos, o produto ganha o registro automaticamente.

No momento, o Ministério da Agricultura, a Anvisa e o Ibama estão avaliando o pedido de registro de mais 1.345 agrotóxicos e ingredientes ativos. Grande parte das empresas que querem vender esses produtos no Brasil é do exterior, como Estados Unidos, Alemanha e, principalmente, a China.

Como “farmácias em cada quadra”

Dos 40 produtos autorizados, 39 são ingredientes ativos ou pesticidas já permitidos no país. O pedido de registro de um produto anteriormente liberado é comum, segundo quatro especialistas consultados pela reportagem. “A partir do momento que as empresas produtoras iniciais perdem a patente, as demais começam a solicitar registro para usar esses ingredientes ativos e produzir novos produtos agrícolas”, explica Murilo Souza, da Universidade Estadual de Goiás.

Para Leonardo Melgarejo, vice-presidente da regional sul da Associação Brasileira de Agroecologia, a aprovação dos registros está em ritmo “desenfreado”. “Temos aprovadas variações sobre o mesmo item. Não precisamos de todos os produtos comerciais para uma mesma finalidade. Estamos chegando perto do lance da ‘automedicação’, com duas farmácias em cada quadra, todas vendendo variantes das mesmas drogas”, afirma.

Para o professor Murilo Souza, é surpreendente a rapidez com que as aprovações vêm ocorrendo. Ele critica também o fato de que produtos originalmente aprovados para determinada cultura sejam liberados para outras. “A maioria dos produtos são testados apenas em plantações de grande escala, como soja, algodão e cana de açúcar. Poucas pesquisas são feitas para entender os impactos nas culturas menores”, explica.

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

A reportagem foi originalmente publicada pela Agência Pública [Aqui!]

Agrotóxico mais usado no mundo está ajudando a exterminar abelhas

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(FOTO: CREATIVE COMMONS / ROSTICHEAP)

Por REDAÇÃO GALILEU

Quando se fala em agrotóxico, na maior parte do tempo estamos tratando de glifosato, o herbicida mais usado no Brasil e no Mundo. Utilizado em 90% das lavouras de soja, alvo de diversas polêmicas e contestações de médicos à ambientalistas, mas fundamental para o agronegócio, está associado à morte das abelhas.

O N-(fosfonometil)glicina, princípio ativo do Roundup da Monsanto e mais uma centena de produtos agrícolas, age ao ser absorvido pela folha das plantas de crescimento rápido, também conhecidos como mato, e inibe a ação de enzimas que possibilitam sua existência.

Por não dependerem dessa enzima, o produto não afeta aos animais. Pelo menos é isso que se pensava. Um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Texas, nos EUA, mostra que o mesmo não acontece com microrganismos, muitos dos quais dependem a existência de animais, como as abelhas.

Publicado essa semana no Proceedings of National Academy of Sciences, o artigo explica que, assim como em nós, a saúde das abelhas depende de um ecossistema de bactérias que vive em seu trato digestivo. O glifosato mata algumas dessas bactérias, causando um desequilíbrio que reduz a capacidade do inseto combater infecções.

“Diretrizes atuais consideram que as abelhas não são prejudicadas pelo herbicida”, disse Erick Motta, estudante de pós-graduação que liderou a pesquisa, juntamente com a professora Nancy Moran. “Nosso estudo mostra que isso não é verdade”.

Para chegar à conclusão, os pesquisadores expuseram as abelhas a níveis normalmente encontrados em plantações e jardins (é grande a chance do jardineiro perto da sua casa usar esse agrotóxico). Pintaram suas costas para que pudessem reconhecê-las e liberaram para seguir sua vida normal.

Abelhas marcadas para morrer. (Foto: Universidade do Texas)

Abelhas marcadas para morrer (FOTO: UNIVERSIDADE DO TEXAS)

Recapturadas três dias depois, eles observaram que o herbicida reduziu significativamente a microbiota intestinal saudável. Das oito espécies dominantes de bactérias saudáveis ​​nas abelhas expostas, quatro foram consideradas menos abundantes. A espécie mais atingida, Snodgrassella alvi, ajuda as abelhas a processarem alimentos e a se defenderem contra patógenos.

Mais tarde, ao expor as abelhas a um patógeno oportunista (Serratia marcescens), morreram com mais frequência que as abelhas sem glifosato. Cerca de metade das abelhas com um microbioma saudável ainda estavam vivas oito dias após a exposição ao patógeno, enquanto apenas cerca de um décimo dos insetos cujos microbiomas haviam sido alterados pela exposição ao herbicida ainda estavam vivas.

“Estudos em humanos, abelhas e outros animais mostraram que o microbioma intestinal é uma comunidade estável que resiste à infecção por invasores oportunistas”, disse Moran. “Então, se você interromper a comunidade normal e estável, estará mais suscetível a essa invasão de patógenos”.

A descoberta entra para uma longa lista de polêmicas que envolvem o agrotóxico mais popular do mundo. “Não é a única coisa que causa todas essas mortes de abelhas, mas é definitivamente algo que as pessoas deveriam se preocupar porque o glifosato é usado em todos os lugares”, disse Motta.

São várias a críticas sobre o sistema da Monsanto, que vão da dependência e endividamento de pequenos produtores, desenvolvimento de plantas resistentes à substância, ao extermínio da biodiversidade. É considerado potencialmente cancerígeno pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar da Monsanto (e sua nova controladora Bayer) atestar a segurança do produto com 40 anos de uso no mercado, em agosto a justiça dos Estados Unidos a sentenciou a pagar US$ 289 (cerca de R$ 1,1 bilhão) ao jardineiro Dewayne Johnson que alega ter contraído câncer devido ao uso do Roundup e do RangerPro, um glifosato de segunda linha da Monsanto.

No Brasil, a juíza substituta Luciana Raquel Tolentino de Moura acatou, no dia 3 de agosto, o pedido do Ministério Público Federal, sob a alegação de demora na reavaliação toxicológica do glifosato, e proibiu o uso em todo o País. A ordem para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária era priorizar a reavaliação até o dia 31 de dezembro.

Um dos principais principais interessados no assunto é o ministro da agricultura Blairo Maggi. Um dos maiores produtores de soja do Brasil, ele afirmou que a decisão impediria o plantio de 95% da área de soja, milho e algodão, as três maiores culturas anuais do País. “É muito importante dizer: não há saída sem o glifosato; ou não planta, ou faz desobediência da ordem judicial”, disse Maggi.

No dia 3 de setembro, o presidente em exercício do Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF-1), desembargador Kássio Marques, derrubou a liminar. Uma de suas alegações foi que “nada justifica a suspensão dos registros dos produtos” sem a “análise dos graves impactos que tal medida trará à economia do país”.

FONTE: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2018/09/agrotoxico-mais-usado-no-mundo-esta-ajudando-exterminar-abelhas.html?utm_campaign=agricultura&utm_content=77735133&utm_medium=social&utm_source=facebook

Cientista revela projeto para salvar abelhas e enriquecer agricultores

Especialista informará ONU que o plantio urgente de flores silvestres atrai polinizadores e estimula as plantações de alimentos dos agricultores 

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Populações de abelhas despencaram em todo o mundo. A conferência da ONU debaterá formas de reduzir o uso de pesticidas nocivos. Foto: Michael Kooren / Reuters

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” [1]

O colapso das populações de abelhas pode ser revertido se os países adotarem uma nova estratégia favorável aos agricultores, disse o arquiteto de um novo masterplan para polinizadores na conferência da biodiversidade da ONU nesta semana.

Stefanie Christmann, do Centro Internacional de Pesquisa Agrícola em Áreas Secas, apresentará os resultados de um novo estudo que mostra ganhos substanciais em renda e biodiversidade, desde a colheita de um quarto de terra cultivável até o florescimento de culturas econômicas, como especiarias, sementes oleaginosas, plantas medicinais e forrageiras.

A Conferência das Partes no âmbito do Convenção sobre a Diversidade Biológica da ONU já está debatendo novas diretrizes sobre polinizadores que recomendarão a redução gradual do uso de pesticidas existentes, mas a pesquisa de Christmann sugere que isso pode ser feito sem dor financeira ou perda de produção.

A necessidade de uma mudança é cada vez mais evidente. Mais de 80% das culturas alimentares requerem polinização, mas as populações de insetos que fazem a maior parte deste trabalho entraram em colapso. Na Alemanha, esta queda é de até 75% nos últimos 25 anos. Porto Rico tem visto um declínio ainda mais acentuado. Os números não estão disponíveis na maioria dos países, mas quase todos relatam um declínio alarmante.

As respostas dos governos nacionais variaram muito. No início deste ano, o Brasil, um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, retrocedeu quando congressistas pró-agronegócio votaram pelo levantamento das restrições aos pesticidas proibidos em outros países.

Em contraste, a União Européia proibiu os inseticidas mais amplamente usados no mundo – conhecidos como neonicotinóides, e muitos países europeus estão plantando flores silvestres para atrair insetos.

Mas essa política é cara e traz pouca ou nenhuma renda para os agricultores. Christmann passou os últimos cinco anos trabalhando em uma abordagem diferente, que ela chama de “agricultura com polinizadores alternativos”, com testes de campo no Uzbequistão e no Marrocos. 

A essência da técnica é dedicar uma em cada quatro faixas de cultivo a cultivos de flores, como sementes oleaginosas e especiarias. Além disso, ela fornece aos polinizadores apoio aninhado barato, como madeira velha e solo batido que as abelhas que nidificam no solo podem se enterrar. Girassóis também foram plantados nas proximidades como abrigos de vento. 

“Há uma barreira muito baixa para que qualquer um, mesmo no país mais pobre, possa fazer isso. Não há equipamentos, nem tecnologia e apenas um pequeno investimento em sementes. Isso é muito fácil. Você pode demonstrar como fazer isso com fotos enviadas em um celular ”. Comparado com os campos de controle de monoculturas puras, foram encontrados benefícios “surpreendentes” para os agricultores e um aumento na abundância e diversidade de polinizadores. As culturas foram polinizadas de forma mais eficiente, houve menos pragas, como pulgões e pulgões, e os rendimentos aumentaram em quantidade e qualidade.

5018Girassóis foram plantados para atuar como um pára-brisa para áreas de apoio de nidificação de abelhas. Fotografia: Alamy

Em todas as quatro regiões climáticas diferentes que ela estudou, a renda total dos agricultores aumentou, embora os benefícios tenham sido mais marcantes em terras degradadas e fazendas sem abelhas. Os maiores ganhos foram em climas semi-áridos, onde a produção de abóbora subiu 561%, beringela 364%, favas 177% e melões 56%. Em áreas com chuva adequada, as colheitas de tomate duplicaram e a beringela subiu 250%. Nos campos de montanha, a produção de courgette triplicou e as abóboras duplicaram. 

Em outro estudo, financiado pelo Ministério do Meio Ambiente da Alemanha, Christmann testará um plano de cinco anos para passar do trabalho com pequenos projetos pilotos para produtores em grande escala, inserindo tiras floridas de canola e outras culturas comercializáveis para desmembrar as monoculturas.

Ela também espera ver mudanças nas políticas nacionais de paisagem. Trabalhando com os ministérios de turismo, agricultura e comunicação, ela visa aumentar a conscientização sobre os benefícios econômicos dos polinizadores silvestres e incentivar mais o plantio de flores silvestres, arbustos de bagas e árvores floridas.

“Todo o ambiente seria mais rico, mais bonito e mais resiliente às mudanças climáticas”, disse o evangelista de abelhas. “Teríamos muito mais insetos, flores e pássaros. E seria muito mais auto-sustentável. Até mesmo os países mais pobres do mundo poderiam fazer isso”.  

À medida que mais países apreciam as vantagens, ela espera que eles estejam dispostos a se unir à coalizão de países comprometidos em reverter o declínio dos polinizadores. Atualmente, existem apenas 24 países nesta “coalizão de vontade”, principalmente da Europa. Eventualmente, ela espera que haja apoio suficiente ao acordo ambiental multilateral sobre polinizadores, semelhante à convenção internacional sobre o comércio de espécies ameaçadas de extinção. “Espero que a conferência desta semana seja o primeiro passo para criar um acordo multilateral porque é disso que precisamos”, diz ela.  

Ela espera resistência de empresas agroquímicas. “Acho que a Monsanto não vai gostar disso porque quer vender seus pesticidas e essa abordagem reduz as pragas naturalmente”, diz ela.  

Christmann está acostumada com a adversidade. Quando ela sugeriu pela primeira vez um foco em polinizadores na conferência agrícola mundial em 2010, os delegados riram dela. Por muitos anos, ela lutou para obter fundos e por dois anos ela teve que usar suas economias para financiar seu trabalho em programas de polinização.  

Agora ela tem o apoio do governo alemão e uma voz no palco mundial, o único obstáculo é o tempo. “Isso não pode esperar. As abelhas, moscas e borboletas precisam de ação urgente. Tenho agora 59 anos e quero protegê-los globalmente antes de me aposentar, por isso tenho que me apressar”, diz ela.  

O declínio dos polinizadores será destacado em um novo relatório global sobre recursos genéticos para alimentos que será lançado no próximo ano. Com base em relatórios de governos de todo o mundo, o esboço mostrará que até os ministérios da agricultura – que há muito tempo resistem à ação de conservação – estão cientes da necessidade de mudança.  

“Os países estão dizendo que estamos usando muitos pesticidas e que o número de pássaros e abelhas está diminuindo. Precisamos fazer algo sobre isso ou nossos sistemas agrícolas não vão funcionar”, disse Irene Hoffmann, que lidera o estudo da Organização para Agricultura e Alimentação (FAO). “É frustrante e, às vezes, é assustador. A situação é terrível, mas há maneiras de resolvê-la”.


Texto publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [1]

Estudo mostra que novos agrotóxicos podem prejudicar abelhas tanto quanto os já existentes

Novo agrotóxico baseado na sulfoximina pode afetar a habilidade de mamangavas de se reproduzir, bem como a taxa de crescimento das suas colônias

mamangava

O medo tem crescido globalmente nos últimos anos em relação à saúde das abelhas. Foto: Alamy Foto de stock

Por Agence France-Presse para o “The Guardian”*

 

Uma nova classe de agrotóxicos criada para substituir os neonicotinóides pode ser tão prejudicial para as abelhas polinizadoras de culturas, alertaram pesquisadores da Universidade de Londres em artigo publicado na revista Nature [1].

Nos experimentos por eles realizados, a capacidade das abelhas de se reproduzirem e a taxa de crescimento de suas colônias foram comprometidas pelos novos inseticidas a base de sulfoximina.

Colônias expostas a baixas doses do agrotóxico em laboratório renderam significativamente menos trabalhadores e metade do número de machos reprodutores depois que as abelhas foram transferidas para um ambiente de campo.

 “Nossos resultados mostram que o sulfoxaflor” – um dos novos tipos de inseticidas – “pode ​​ter um impacto negativo na produção reprodutiva de colônias de abelhas”, disse o principal autor Harry Siviter, pesquisador da Universidade de Holloway, em Londres.

Assim como os neonicotinóides, o sulfoxaflor não mata diretamente as abelhas, mas parece afetar o sistema imunológico ou a capacidade de se reproduzir.

O comportamento de forrageamento e a quantidade de pólen coletada por abelhas individuais permaneceram inalteradas no experimento.

O estudo foi publicado em meio a desafios legais e mudanças nas políticas nacionais sobre neonicotinóides, entre os inseticidas mais usados ​​no mundo.

Em abril, os países da União Européia votaram pela proibição de três produtos à base de neonicotinóides em campos abertos, restringindo o uso a estufas cobertas.

No início deste mês, o Canadá fez o mesmo, anunciando a eliminação de dois dos pesticidas amplamente aplicados nas culturas de canola, milho e soja.

Os neonicotinóides são baseados na estrutura química da nicotina e atacam os sistemas nervosos dos insetos. Inseticidas que utilizam a sulfoximina, apesar de pertencerem a uma classe diferente, agem de forma semelhante.

Ao contrário dos agrotóxicos de contato – que permanecem na superfície da folhagem – os neonicotinóides são absorvidos pela planta a partir da fase de semente e transportados para as folhas, flores, raízes e caules.

Eles têm sido amplamente utilizados nos últimos 20 anos e foram projetados para controlar insetos que se alimentam de seiva, como pulgões e larvas de alimentação de raízes.

Estudos anteriores descobriram que os neonicotinóides podem causar desorientação das abelhas, de tal modo que não conseguem encontrar o caminho de volta à colmeia e diminuem sua resistência a doenças.

Em 2013, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) aprovou dois pesticidas à base de sulfoxaflor para venda sob as marcas Transform e Closer.

O Sulfoxaflor também está registrado na Argentina, Austrália, Canadá, China, Índia, México e algumas dezenas de outros países.

Especialistas não envolvidos na pesquisa elogiaram sua metodologia e disseram que os resultados devem soar um alarme.

“Este estudo mostra uma escala inaceitável de impacto no sucesso reprodutivo dos abelhões, após níveis realistas de exposição ao sulfoxaflor”, comentou Lynn Dicks, bolsista do Natural Environmental Research Council na Universidade de East Anglia.

Para Nigel Raine, professor da Universidade de Guelph, no Canadá, que ocupa uma cadeira na conservação de polinizadores, “as descobertas sugerem que as preocupações com os riscos da exposição de abelhas a inseticidas não devem se limitar aos neonicotinóides”.

O medo em relação à saúde das abelhas vêm crescendo globalmente nos últimos anos .

Os agrotóxicos foram responsabilizados como causa do distúrbio do colapso das colônias, juntamente com ácaros, pesticidas, vírus e fungos, ou alguma combinação desses fatores.

As Nações Unidas alertaram no ano passado que 40% dos polinizadores invertebrados – particularmente abelhas e borboletas – correm risco de extinção global.

*Artigo originalmente publicado em inglês [Aqui!]


[1] https://www.nature.com/articles/s41586-018-0430-6

Meio Ambiente União Europeia aprova proibição total de inseticidas neonicotinóides que matam abelhas

A proibição do neonicotinoides, o inseticida mais usado no mundo, deve entrar em vigor até o final deste ano.

abelhas

Por Mayra Rosa*

Em uma decisão histórica que levou anos, todas as nações membros da União Europeia aprovaram a proibição total dos neonicotinoides, o inseticida mais usado no mundo, e um perigo bem documentado para as abelhas e outros polinizadores. A proibição deve entrar em vigor até o final deste ano, embora o uso do inseticida ainda seja permitido em estufas. O rápido declínio da população de espécies de polinizadores nos últimos anos deve-se em parte ao uso disseminado de pesticidas nocivos. A proibição deve resultar em uma população de polinizadores mais saudável, o que é essencial para a produção global de alimentos.

A votação segue estudos recentes que confirmaram o perigo que os neonicotinoides representam para os polinizadores, diretamente e através da contaminação da água e do solo. “A comissão havia proposto essas medidas meses atrás, com base nos pareceres científicos dos assessores de risco científico da UE”, disse Vytenis Andriukaitis, comissário europeu para Saúde e Segurança Alimentar, em entrevista ao Guardian. “A saúde das abelhas continua a ser de extrema importância para mim, uma vez que diz respeito à biodiversidade, produção de alimentos e meio ambiente.”

Essa mudança na política agradou os ativistas. “Finalmente, nossos governos estão ouvindo seus cidadãos, as evidências científicas e os agricultores que sabem que as abelhas não podem viver com esses produtos químicos e não podemos viver sem as abelhas”, disse Antonia Staats, da Avaaz.

Indústria agro é contra

Enquanto isso, representantes da indústria desaprovaram. “A agricultura europeia sofrerá como resultado desta decisão”, disse Graeme Taylor, da Associação Europeia de Proteção de Cultivos. “Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas com o tempo os tomadores de decisão verão o claro impacto de remover uma ferramenta vital para os agricultores.” Pesquisas sugerem que as preocupações de Taylor são infundadas, enquanto o dramático declínio nas populações de polinizadores – que continuará a ocorrer sem ação – prova desastrosa para a produção de alimentos.

 

*Mayra Rosa é arquiteta e urbanista com formação em desenvolvimento sustentável pela University of New South Wales, em Sidney, Austrália. Fundou o CicloVivo em 2010 com a proposta de falar sobre sustentabilidade de forma divertida e descomplicada. Acredita que o bom exemplo é a melhor maneira de influenciar pessoas e que a simplicidade é a chave para vivermos em harmonia.

 

Para proteger abelhas, União Européia deverá banir neonicotinóides

bee

A prestigiosa revista “Nature” publicou ontem uma informação que deverá causar abalos na indústria dos agrotóxicos, especialmente para aquelas empresas que fabricam neonicotinóides. É que segundo a Nature,  a agência da União Européia responsável pela segurança alimentar concluiu que 3 agrotóxicos da classe dos neonicotinóides oferecem alto risco para abelhas selvagens em geral e para aquelas que produzem mel [1].

nature bees

As descobertas feitas pela European Food Safety Authority (EFSA)  aumentam as chances de que a União Européia vá brevemente banir o uso destes agrotóxicos em todas as culturas agrícolas praticadas ao ar livre no continente europeu.

A avaliação da EFSA cobriu os três neonicotinóides que apresentam maiores preocupações para a saúde das abelhas –  clothianidin, imidacloprid e thiamethoxam. Importante notar que a EFSA considerou nessa avaliação mais de 1.500 estudos, incluindo não apenas artigos e dados científicos, mas também dados de empresas produtoras desses agroquímicos, agências governamentais,  organizações não-governamentais (ONGs)  e de associações de apicultores.

Interessante notar que no Brasil, o uso dos neonicotinóides está em franca expansão, sendo que o imidacloprid se tornou uma das substâncias mais amplamente usadas na agricultura brasileira nos últimos anos.  A questão agora é se a União Européia vai ampliar a medida de banir o imidacloprid e as outras duas substâncias para produtos vindos de outros países. 

Como essa parece ser uma possibilidade bem real, vamos ver como se comportará o latifúndio agro-exportador e seu representante no governo “de facto” de Michel Temer, o dublê de ministro e latifundiário Blairo Maggi.  Mas o mais provável é que se a União Européia não ampliar o banimento para fora das fronteiras, Blairo Maggi e o resto do “agrobusiness” brasileiro vão continuar fingindo que não sabem de nada, e mandando ver nos neonicotinóides.

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[1] https://www.nature.com/articles/d41586-018-02639-1?utm_source=briefing-dy&utm_medium=email&utm_campaign=20180301

Estudo britânico liga sumiço de abelhas ao uso de pesticida

Analisando dados sobre 62 espécies ao longo de 18 anos, cientistas concluem que os insetos que se alimentam em plantações tratadas com substância têm mais chances de sofrer declínio populacional

File photo of a bee leaving a Cirsium Trevors "Blue Wonder" thistle in the Well Child fresh garden at the Chelsea Flower Show in London

Por Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

Abelhas selvagens têm mais chance de sofrer declínio populacional quando buscam alimentos em plantações cujas sementes foram tratadas com inseticidas neonicotinoides, os mais utilizados no mercado mundial. A conclusão é de um estudo britânico publicado nesta terça-feira, 16, na revista científica Nature Communications.

O estudo utilizou dados de levantamentos sobre 62 espécies de abelhas em plantações de colza do Reino Unido, realizados ao longo de 18 anos, e ligou o declínio das populações de abelhas no país à escalada do uso de pesticidas neonitocinoides nesse período. 

Segundo os autores, o estudo reforça as conclusões das pesquisas de pequena escala feitas até agora e que identificaram os efeitos negativos dos neonicotinoides nas abelhas. Para cinco espécies, a pesquisa concluiu que os neonitocinoides foram responsáveis por pelo menos 20% das extinções locais.

O autor principal do estudo, Ben Wookcock, do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, afirmou, no entanto, que o uso desses pesticidas provavelmente não é a única explicação para o declínio global das populações de abelhas. 

“Embora tenhamos descoberto evidências de que o uso de neonitocinoides é um fator fundamental para o declínio das populações de abelhas, é improvável que eles estejam agindo de forma isolada em relação a outras pressões ambientais. Abelhas selvagens têm sofrido declínio em escala global, que pode estar ligado também à perda e fragmentação de hábitats, a doenças, às mudanças climáticas e outros inseticidas”, disse Wookcock.

Diversos estudos já apontavam que o uso desse tipo de inseticida pode ser nocivo para as abelhas, mas a maior parte deles havia testado apenas os efeitos a curto prazo. O uso da dos neonicotinoides foi parcialmente banido pela Comissão Europeia em 2013, com o apoio da maior parte dos países da União Europeia. O Reino Unido votou contra a proibição.

Foto: Heather Lowther / Centre for Ecology & Hydrology – UK
Estudo britânico liga sumiço de abelhas ao uso de pesticidaDeclínio das populações de abelhas foi três vezes maior entre as espécies que se alimentam regularmente da colza

Os neonicotinoides foram licenciados para uso como pesticidas no Reino Unido em 2002. Em 2011, o uso dessa classe de pesticidas havia crescido 83% nas plantações britânicas de colza. O grupo de cientistas examinou as mudanças na ocorrência das 62 espécies de abelhas em plantações de colza da Inglaterra entre 1994 e 2011, período que permitiu comparar a situação dos insetos antes e depois da introdução do uso comercial do pesticida em larga escala.

Três vezes mais impacto

Segundo o estudo, o declínio das populações de abelhas foi três vezes maior entre as espécies que se alimentam regularmente da colza – como a Bombus terrestris, conhecida no Brasil como mamangaba – em comparação com as espécies que buscam alimento em plantas florestais. De acordo com os autores, isso indica que a colza tem um papel importante para a exposição das abelhas aos neonicotinoides.

Os pesticidas neonicotinoides podem ser aplicados diretamente às sementes antes da plantação. O composto ativo se expressa de forma sistêmica ao longo do crescimento da planta, o que faz com que ele possa ser ingerido pelos insetos quando eles se alimentam do néctar e do pólen das plantas que receberam o pesticida.

“Por produzir flores, a colza é uma planta benéfica para insetos polinizadores. Esse benefício no entanto, parece se mais que anulado pelo efeito das sementes tratadas com neonicotinoides para uma ampla gama de abelhas selvagens”, afirmou Wookcock.

FONTE: http://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,estudo-britanico-liga-sumico-de-abelhas-ao-uso-de-pesticida,10000069958

Apocalipse das abelhas: estudo de pesquisadores poloneses encontra 57 tipos de agrotóxicos em abelhas européias

A ideia de que o uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos está tendo um efeito devastador sobre a população de abelhas em todo o mundo não é nova.  Agora, a partir da publicação de um artigo cientifico na revista “Journal of Chomotography A” um grupo de pesquisadores poloneses do “National Veterinary Research Institute” (Aqui!) está demonstrado que o problema é muito maior do que havia sido demonstrado até agora pela ciência.

É que graças a um novo método analítico desenvolvido pela equipe liderada por Tomasz Kilijanek se tornou possível analisar de forma simultânea uma ampla gama de substâncias presentes numa única amostra (no caso mais de 200 agrotóxicos).  Para validar esse método, a equipe de pesquisadores utilizou 74 espécimes das abelhas européias que haviam morrido por envenenamento por agrotóxicos (Apis Mellifera) e chegou a um resultado impressionante: em 73 dos indivíduos analisados foi possível detectar pelo menos um agrotóxico estudado ou um derivado dele, totalizando 57 tipos de substâncias diferentes!

Ainda que o estudo não tenha sido desenvolvido para determinar as relações existentes entre o uso de agrotóxicos e o extermínio das abelhas, os pesquisadores poloneses apontam que novos estudos serão possíveis a partir deste novo método, os quais poderão contribuir para que se saiba melhor como ocorrem as intrincadas relações entre exposição a agrotóxicos e morte das abelhas.

Muitos poderão se perguntar sobre qual é efetivamente o problema em se ter esse nível de contaminação por agrotóxicos em abelhas. Afora o fato de que estes insetos são polinizadores essenciais para a agricultura, eles representam apenas a face mais óbvia do estrago feito por agrotóxicos sobre a biodiversidade de insetos que garante um sensível balanço entre presas e predadores que se for alterada de forma de forma irreversível poderá ter efeitos totalmente devastadores para a produção de alimentos em todo o mundo.

Nunca é demais lembrar que, em que pesem as crescentes evidências de que o uso de agrotóxicos está causando este tipo de estrago, há uma forte lobby no Congresso Nacional e dentro do Ministério da Agricultura, agora liderado por Blairo Maggi, para que o Brasil passe a utilizar agrotóxicos que foram banidos em outras partes do mundo.  Em outras palavras, o risco aqui é de que o Apocalipse das abelhas seja apenas a ponta de um longo iceberg envenenado.