ANVISA e sua pílula dourada para ocultar a contaminação da dieta do brasileira por agrotóxicos

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A liberação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no dia de ontem do relatório das amostras analisadas pelo “Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos” (PARA) para o período 2017-2018 estava sendo aguardada por mim com algum interesse, pois a última vez que o brasileiro teve acesso às informações sobre contaminação da sua comida fora em 2016 em referência ao triênio 2013-2015.  Restava apenas saber como a Anvisa agiria agora sob “nova administração” em um ano de liberações recordes de agrotóxicos para o mercado nacional.

O relatório, reconheçamos, é extremamente complexo e merece ser estudado com mais cuidado do que fizeram, por exemplo, os comentadores da GloboNews liderados pela jornalista Mônica Waldvogel na noite de ontem. Aliás, no caso dessa apresentação chegou a beirar o lamentável ter que ouvir as análises rasteiras de Waldvogel sendo “comentadas” por Guga Chacra e Gerson Camarotti.  Diante de tamanha desinformação sobre os resultados do PARA, ficou ainda mais evidente o papel que as Organizações Globo ocupam na defesa do modelo de agricultura envenenada que o Brasil pratica neste momento.

Mas voltando ao relatório em si, começo com a ilustração abaixo que foi disponibilizada pela própria ANVISA para, em minha opinião, começar a dourar a pílula envenenada que foi servida para dificultar o entendimento dos resultados de seu próprio estudo.

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O que o gráfico nos mostra é que as amostras analisadas vieram de apenas 77 municípios brasileiros, sem que se saiba a concentração dos mesmos pelos estados que concordaram em ceder amostras. A importante informação de que o estado do Paraná não cedeu uma mísera amostra porque se retirou do PARA em 2016 (justamente um dos estados campeões de uso de agrotóxicos no Brasil, é preciso que se diga). Como o Brasil possui 5.570 municípios, a validade da amostra teria que ser muito bem justificada, pois representa apenas 1,4% do total. Mas esse aspecto sequer mencionado no relatório, que também passa batido pela informação que somente o estado de São Paulo contribuiu com 19,4% do total amostrado.  Há que se lembrar ainda que apenas no Paraná são 399 municípios que foram deixados de fora das análises do PARA.

Mas esqueçamos por um momento a questão da representatividade da amostra para nos concentrarmos nos resultados obtidos e a forma pela qual foram sintetizados no gráfico abaixo.

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Usando seus resultados, os responsáveis pelo relatório nos informam que em 49% das amostras analisadas não foram encontrados resíduos de agrotóxicos, sendo que em 28% delas os resíduos estavam dentro do limite legal.  Entretanto, em 23% dos casos analisados, 23% estavam em “inconformidade” com a legislação.  O problema é que, na prática, em 51% dos casos foram encontrados resíduos, o que é um valor bastante preocupante, mas que passa como se não fosse nada muito importante.

Os “campeões” de uso e a União Europeia

Um detalhe que chamou a atenção nesse relatório foi a completa ausência sobre qualquer informação sobre os limites aceitáveis de resíduos que são praticados no Brasil em relação, por exemplo, à União Europeia. Como já foi demonstrado pela geógrafa Larissa Bombardi em seu Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, os limites brasileiros são muito mais “generosos” para uma série de agrotóxicos que já foram banidos na União Europeia (UE) por estarem associados a uma série de doenças graves, incluindo o câncer.

Aliás, me chamou a atenção em especial o fato que dos 20 agrotóxicos mais detectados, 6 estão banidos na UE (ver tabela abaixo, onde os agrotóxicos proibidos foram marcados com a letra “P”), com destaque para o Carbendazim e para o Acefato que são, respectivamente, o terceiro e o sétimo mais detectados na amostra utilizada pela Anvisa para produzir o relatório.

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Ainda no tocante ao status dos agrotóxicos detectados em relação ao seu status na UE, notei, utilizando o critério de estarem presentes em mais de 10% das amostras, que  dos 8 agrotóxicos “campeões” de contaminação crônica por ingestão de alimentos contaminados no Brasil, 4 estão proibidos na UE (ver figura abaixo). 

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Os destaques neste caso são o Terbufós presente em condições de exposição crônica em 28,8% das amostras e o Fipronil com 21,0%. No caso do Terbufós, o caso é particularmente preocupante porque a substância é comumente utilizada na fabricação de “Chumbinho”, um agrotóxico produzido clandestinamente a partir da mistura ilegal de várias substâncias. Na prática, pode-se dizer que o brasileiro está sendo cronicamente contaminado por “Chumbinho”. Coisa que o relatório da Anvisa parece tratar como irrelevante, e claramente não é.

Também nunca é demais lembrar que o Fipronil também tem sido associado ao extermínio de abelhas em diversos estados brasileiros. O que surpreende aqui é a presença em frequência tão alta nos alimentos que foram analisados pela Anvisa.  Também não custa lembrar que pelo menos cinco produtos contendo Fipronil foram aprovados para comercialização no Brasil em apenas 10 meses em 2019. Em outras palavras, como os resultados analisados são referentes a 2017-2018, quem sabe quanto Fipronil será encontrado no próximo ciclo de avaliação do PARA!

Agrotóxicos e saúde humana e ambiental como elementos inconciliáveis

A análise aqui apresentada não chega nem perto do que será necessário ser feito para entendermos a gravidade da situação que está sendo criada no Brasil com o uso intensivo e indiscriminado de substâncias altamente tóxicas para o ambiente e a saúde humana. Há que se estudar melhor e mais profundamente os diferentes relatórios produzidos ao longo do tempo pela Anvisa, de forma a se construir uma crítica consistente ao que está sendo disponibilizado.

É que mesmo com toda a tentativa de “dourar a pílula” que a Anvisa fez, os resultados são fáceis de serem compreendidos, e o que se vê é muito grave. E não há como as Waldvogel ou os Camarottis e Chacras da vida ocultarem isso, mesmo com todo o tempo de tela da GloboNews nas mãos.

Por outro lado, a minha expectativa é que os parceiros comerciais do Brasil comecem a aplicar suas próprias regras de segurança no tocante aos limites toleráveis de resíduos (LMRs) de agrotóxicos nos alimentos importados do Brasil. O aviso da Rússia sobre a possibilidade de parar de comprar soja brasileira por causa do excesso de glifosato, e o boicote iniciado pelo CEO da rede de mercearias orgânicas Paradiset, Johannes Cullberg, são apenas o “canário da mina” do que pode estar vindo pela frente se o governo brasileiro não mudar sua posição irresponsável frente ao envenenamento de nossa agricultura.

Mas enquanto a ajuda de fora não chega, há que se cobrar que sejam estabelecidas medidas urgentes para rever a contaminação dos alimentos que são servidos aos brasileiros todos os dias. Do contrário, teremos no futuro uma gigantesca epidemia de doenças causadas pela ingestão de comida contaminada por agrotóxicos. Simples assim!

Sulfoxaflor,fipronil, acefato e malationa são as “estrelas” do último pacote letal do governo Bolsonaro

agrotóxicos 1Com 290 agrotóxicos aprovados apenas em 7 meses, governo Bolsonaro se torna o mais pró-veneno da história.

Por estar atarefado demorei um pouco mais para introduzir na base de dados que comecei a construir em janeiro para documentar o avanço da liberação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, mas hoje finalmente consegui concluir a tarefa de juntar os 51 agrotóxicos liberados no dia 18 de junho e publicados no Diário Oficial da União apenas no dia 22 de julho de 2019.

E os dados mostram que as abelhas que polinizam os campos brasileiros estão agora sob um risco ainda maior, pois apenas do composto Sulfoxaflor foram aprovados 6 produtos, todos produzidas pela multinacional estadunidense Dow Chemical Company. Mas se ainda sobrar abelhas depois do envenenamento por Sulfoxaflor, as sobreviventes ainda terão de se defrontar com um produto que contém outro inimigo poderoso, o Fipronil, esse fabricado pela brasileira Iharabras S.A. Indústrias Químicas.

abelhas-mortas2Uso de agrotóxicos como o Sulfoxaflor e o Fipronil estão sendo associados ao extermínio de quase 1 bilhão de abelhas no Brasil apenas em 2019.

Mas para os humanos também sobraram produtos como o Acefato que é banido pela União Europeia por suas conhecidas relações com a infertilidade, danos genéticos e, é claro, o câncer.  De quebra, ainda foram aprovadas formulações contendo a Ametrina e a Atrazina, produtos ativos também banidos pela União Europeia, e que também têm sido associados a enfermidades graves em seres humanos.

Outro produto aprovado que embora ainda seja vendido legalmente na União Europeia foi a Malationa, um inseticida e acaracida organofosforado, que é conhecida por causar danos irreversíveis na vida aquática. 

A nova lista de aprovações traz 14 produtos que são totalmente ou parcialmente compostas por princípios ativos banidos pela União Europeia, elevando o total dentro das 290 substâncias liberadas pelo governo Bolsonaro com essa “peculiaridade” para 95 (o equivalente 33% do total). Tal fato quando conhecido pelos importadores europeus tenderá a aumentar a pressão sobre as commodities agrícolas brasileiras, dado o exemplo já conhecido da rede sueca Paradiset que baniu todos os produtos não orgânicos brasileiros quando o total de agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro era ainda menor. 

De toda forma, essa marcha do veneno que não perdoa nem abelhas ou humanos é um sinal de completo atraso de mentalidade dos ruralistas que hoje efetivamente controlam o Ministério da Agricultura sob o comando da “princesa do veneno” Tereza Cristina (DEM/ES). Reagir a essa tsunami de venenos agrícolas está se tornando cada vez mais um das questões centrais da democracia brasileira. Afinal, a maioria dos brasileiros e de nossos ecossistemas naturais não podem ser sacrificados em nome do aumento da taxa de lucros de uma minoria que está pouco se lixando para as consequências de um modelo agrícola totalmente ancorado no veneno e no desmatamento.

Quem tiver interesse em conhecer todos os agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!].

Dados de toxicidade desmontam falácia sobre segurança do pacote de venenos aprovado nos primeiros 100 dias do governo Bolsonaro

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Governo Bolsonaro acelerou a liberação de agrotóxicos com alto poder destrutivo da saúde humana e do meio ambiente em seus primeiros 100 dias.

Um dos vários argumentos falaciosos apresentados pela ministra  da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/ES) e de vários deputados federais  que a acudiram durante a audiência realizada na última 4a. feira (09/04) é de que a velocidade espantosa de novos agrotóxicos para o mercado brasileiro serviria para substituir substâncias mais antigas e com maior toxicidade para seres humanos e para o meio ambiente.

Pois bem, ao examinar os dados específicos sobre toxicidade humana e ambiental dos 152 produtos liberados nos primeiros 100 dias do governo Bolsonaro encontrei fatos que desmontam essa falácia, visto uma forte incidência de compostos classificados como  sendo extremamente ou altamente tóxicos para a saúde humana (44% do total) ou extremamente ou altamente perigosos para o meio ambiente (54% do total). Já os de suposto menor impacto têm uma participação de apenas 12% para a toxicidade humana e de 6% para o ambiente (ver figura abaixo).

Toxicidade humana e ambiental

Classificação por toxicidade humana e ambiental dos 152 agrotóxicos liberados nos primeiros 100 dias do governo Bolsonaro. Fonte: Atos de Concessão de Registro do MAPA.

E ao contrário do que afirmou a ministra Tereza Cristina, os trabalhadores envolvidos no manuseio e aplicação destes compostos não se contaminarão por causa do tabagismo, mas sim por causa do nível de toxicidade das substâncias liberadas por ela e pelo governo que ela representa.

Ainda estou por realizar a análise de quantas dessas substâncias está banida em outras partes do mundo, mas pelo menos uma delas, o Acefato, está banida na União Europeia por ser considerado cancerígena.

Como se vê, há muito caroço dentro do angu preparado pela ministra Tereza Cristina, a mesma que nos mandou comer mangas para não passarmos fome.  Aliás, dois dos agrotóxicos liberados pela ministra são em tese exclusivos para cultivos de manga.

Banido na União Européia, acefato continuará com venda liberada no Brasil

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O anúncio pelo Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia  de que estabeleceu uma espécie de período de moratória para a soja brasileira se adaptar aos padrões vigentes para os limites máximos de glifosato  parece ter caído em ouvidos mocos no governo Bolsonaro.

É que a  Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou no último dia 23 a atualização anual dos temas que fazem parte da lista de prioridades da agência para definição de regras até 2020.  E para este anor etirado da lista de prioridades, o processo de “revisão do regulamento técnico para o ingrediente ativo acefato em decorrência de sua reavaliação toxicológica”.

Como informou a “Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, o “acefato é um componente altamente tóxico usado em agrotóxicos e que pode causar câncer”, segundo a própria Anvisa.  Além disso, na nota técnica publicada por ocasião da reavaliação do acefato, a Anvisa estabeleceu que “o potencial carcinogênico do acefato foi avaliado em vários estudos em roedores (ratos e camundongos) e em um estudo em cães” e que “há uma preocupação em relação à exposição crônica à doses baixas aos possíveis efeitos sobre a saúde humana”.

O acefato é um agrotóxico do grupo dos Organofosforados cuja utilização tem sido associado a várias consequências negativas sobre a saúde humana. Em função disso, os organofosforados vem sendo paulatinamente proibidas em várias partes do mundo.   O uso acefato já se encontra completamente banido na União Europeia, um dos principais parceiros comerciais do Brasil, onde é fabricado pela Nortox S/A.

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Um detalhe a mais é que uma das culturas onde o acefato é mais largamente usAado é justamente a soja, a mesma que está sob o efeito de uma “bandeira vermelha” na Rússia por causa do glifosato. Além disso, como já mostrado pela professora Larissa Bombardi na obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, o limite brasileiro para resíduos de acefato na soja é três vezes maior do que o aplicado pela União Européia (ver figura abaixo).acefato soja

Assim, que nenhum grande produtor de soja venha reclamar se barreiras fitossanitárias foram levantadas por causa do amplo uso de agrotóxicos que, como o acefato e glifosato, estão sendo cada vez mais vistos como detrimentais à saúde dos consumidores.  É que eles estão sendo repetidamente avisados sobre os riscos de continuarem com seu modelo de agricultura viciada em agrotóxicos perigosos, vários deles banidos no exterior.

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Veneno invisível: Brasil exporta agrotóxicos proibidos de volta para países-sede das indústrias produtoras

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No dia 10 de Dezembro de 2018 dei conta do lançamento da extensiva reportagem assinada pelo jornalista José Brito que nos informava que os agrotóxicos campeões de venda no Brasil incluem vários produtos que foram proibidos em outras partes do mundo, a começar pela União Européia [1].

Entre os produtos mais problemáticos que proibidos na Europa continuam sendo líderes de venda no Brasil estão o Paraquate, o Acefato e a Atrazina. Entre os problemas já detectados apenas para esses dois produtos altamente tóxicos estão a ocorrência de câncer, danos genéticos e suicídios.  Resíduos destes produtos podem ser encontrados em alimentos como café, arroz, feijão, batata, maçã, banana e até no caldo de cana.

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Esta situação deve ser aprofundada no governo Bolsonaro na medida em que forem cumpridas as sinalizações já dadas pela nova ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/PPS), de que serão afrouxadas as regras para renovação de autorizações já existentes e de autorização de novos produtos [2]. 

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Tereza Cristina, também conhecida como “Musa do Veneno” por sua atuação parlamentar em prol dos interesses da indústria de venenos agrícolas, quer “liberar geral” a produção e venda de agrotóxicos no Brasil.

Com isso, o Brasil e, por extensão, os brasileiros que trabalham na agricultura ou consomem produtos contaminados por estes venenos agrícolas poderão sofrer ainda mais com os efeitos colaterais já documentados de forma extensiva pela comunidade científica [3] .

Mas até aqui “morreu o Neves”, pois o que acontece no Brasil não interessa necessariamente aos governos dos países-sede que se beneficiam na nossa transformação em uma zona de sacrifício das empresas que vendem venenos agrícolas.

O que me parece importante é que cedo ou tarde os países importadores irão começar a aplicar suas regras em termos dos níveis aceitáveis de resíduos de venenos agrícolas nas exportações que chegam do Brasil. Ai teremos diante de nós a possibilidade do estabelecimento de regras sanitárias de um tipo ainda inédito, que se referirão à exposição dos nossos produtos agrícolas ao uso de agrotóxicos. 

Para acelerar essa compreensão será necessário que se adicione ao conceito de “água invisível” [4] se adicione o de “veneno invisível” (que reflete a quantidade excessiva de resíduos de venenos num dado produto que é importado). É que até aqui, os países importadores reconheceram apenas de forma limitada os impactos das monoculturas sobre florestas e recursos hídricos nos países produtores de commodities. Mas certamente se preocuparão mais se esse fator ainda relativamente desconhecido for levado ao conhecimento dos consumidores dos países-sede (um bom exemplo disso foi o relatório sobre a produção de soja que foi publicado pela Rainforest Allianc Foundation da Noruega [5]).


[1] https://apublica.org/2018/12/agrotoxicos-proibidos-na-europa-sao-campeoes-de-vendas-no-brasil/

[2] https://diariodocomercio.com.br/sitenovo/tereza-cristina-defende-novas-regras-para-agrotoxicos/

[3] http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/39772/9241561394.pdf?sequence=1&isAllowed=y

[4] https://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/a-agua-invisivel-de-15-alimentos-e-bebidas-do-dia-a-dia/

[5]  http://historier.regnskog.no/den-norske-laksens-grumsete-farvann/index.html