Impactos climáticos: as lutas e conflitos para se adaptar

Lidar com os efeitos da mudança climática está se tornando uma questão cada vez mais central – e abriga um potencial infinito de conflito

267851Deslizamento de terra na Noruega após fortes tempestades. Foto: AP/Cornelius Poppe

Por Deixe Thiele para o “Neues Deutschland”

Na diplomacia climática internacional, as questões de adaptação à crise climática têm sido uma vertente central das negociações. O semáforo acaba de submeter uma lei de adaptação climática ao Bundestag. Sem surpresa, concentra-se em aspectos técnicos, por exemplo, prescrevendo a consideração de impactos climáticos na construção pública e no planejamento de infraestrutura – sem critérios rígidos. No entanto, metas mensuráveis ​​devem seguir.

Lidar com a crise climática, sem dúvida, requer genialidade da engenharia. E, de fato, a adaptação há muito é planejada silenciosamente, onde quer que as consequências das mudanças climáticas possam ser reconhecidas com sobriedade, longe de debates públicos e armadilhas políticas – em empresas, empresas de infraestrutura e administrações municipais, na agricultura, nas forças armadas.

Mas os canteiros de obras muito mais profundos serão sociais. É preciso adequar o modo de vida e de produção – para maior resiliência, diferentes ritmos de trabalho, gerenciamento de desastres como tarefa permanente . Mas como? Todo ajuste concebível significa conflito: sobre a distribuição de recursos, condições de trabalho, co-determinação, privilégios. Mas quando se trata das condições em que ocorrem os ajustes, o modo dominante continua sendo o da repressão e da destematização. Cada vez mais agressivo, como no campo liberal-conservador, ou gentil e meio envergonhado, como no espectro de centro-esquerda.

Discutidas abertamente ou não, as lutas para se conformar estão se tornando os conflitos políticos centrais deste século. Eles intervirão em todas as áreas da vida, sobreporão todas as linhas políticas de conflito, serão negociados em todos os lugares. Um abastecimento de água cada vez mais escasso é distribuído de forma justa ou apropriado pelas corporações? A sesta do meio-dia é travada para proteger a saúde nos países cada vez mais quentes da Europa Central , contra toda a tradição protestante? Como o regime europeu de fronteiras reage aos chamados refugiados climáticos? Quem paga pela proteção civil, quem paga pela reconstrução após o próximo desastre? Quem arca com os custos nos países dramaticamente afetados do Sul Global, que quase nada contribuem para a crise climática?

Graças ao desenvolvimento dinâmico da crise climática, as lutas de adaptação estão se tornando um fenômeno permanente. Se o estado da luta contra o aquecimento global pode ser lido de forma bastante objetiva a partir dos valores de CO2 e temperatura, as complexas lutas de adaptação tornam-se mais confusas e menos “perdidas” ou “ganhas” em sua totalidade.

Há muito tempo estamos no meio disso: em todas as lutas culturais contemporâneas e tendências de fascização, as questões de assimilação desempenham um papel importante – às vezes mais, às vezes menos explicitamente. Isso talvez seja mais vívido nas fronteiras externas da UE. O acordo sobre uma restrição drástica do direito de asilo também deve ser entendido como uma preparação para um mundo em que cada vez mais pessoas fugirão. A narrativa dos “refugiados climáticos” é muito simplista, ignorando os conflitos locais e as relações econômicas globais desiguais, mas: As catástrofes climáticas sem dúvida aumentam a dinâmica do deslocamento. Aqueles que agora declaram que não há alternativa à execução duma hipoteca também sabem disso.

Para a justiça climática, as lutas de adaptação são, em última análise, mais decisivas do que as de redução de emissões: um clima instável significa um caos duradouro, mas no final depende de como a sociedade lida com isso. Um mundo de dois graus pode significar realidades de vida coletiva completamente diferentes. Existe o modelo autoritário “Fortaleza Europa” – e existe um modelo solidário de segurança local de abastecimento e forte infraestrutura pública com fronteiras abertas. O drama do século 21 acontecerá entre esses pólos.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland [Aqui!].

A crise climática e o apartheid social brasileiro fazem novas vítimas na Baixada Fluminense e na Costa Verde

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Após um breve hiato desde que se viu as cenas dramáticas na cidade de Petrópolis, estes últimos dias foram marcados por tragédias semelhantes na Baixada Fluminense e na chamada Costa Verde (principalmente em Angra dos Reis e Paraty) onde chuvas torrenciais causaram a morte de dezenas de habitantes de áreas pobres. A receita que se vê é a mesma de Petrópolis: chuvas fora do normal, características do atual período de mudanças climáticas, causam desmoronamentos e inundações instantâneas de áreas habitadas por pessoas pobres.

O problema é que tais cenas vão se tornar cada vez mais corriqueiras em um país afetado por mudanças climáticas causadas pelo funcionamento do sistema capitalista que, por um lado, gera altos níveis de poluição atmosférica e, por outro, empurra milhões de seus cidadãos para ocuparem áreas ecologicamente frágeis e desprovidas de infraestrutura compatível para enfrentar a situação que se abre.

De forma objetiva é forçoso reconhecer que os efeitos das mudanças climáticas tenderão a recair sobre os ombros daqueles segmentos que são politica e economicamente mais frágeis, já que os ricos não só evitam se instalar em locais propensos à quedas de encostas e serem inundados, mas quando o fazem possuem toda a condição de se retirar para outros lugares mais seguros, seja temporária ou definitivamente.

O fato é que não se pode separar os efeitos das mudanças climáticas do padrão de urbanização segregado que predomina no Brasil. Quem tenta separar essa conexão está claramente a serviço da perpetuação de um modelo de urbanização que aposta na perpetuação de um forma muito específica de apartheid social, o qual foi construído no período colonial e cuidadosamente mantido desde que se deu a independência em 1822.

Por isso é que no caso de países como o Brasil o chamado processo de adaptação climática das cidades terá que ser antecedido (ou pelo menos ocorrer simultaneamente) pelo desmantelamento do apartheid social que predomina na maioria das nossas cidades.

Um mês da tragédia em Petrópolis: ação do Greenpeace Brasil homenageia as vítimas e cobra medidas do Estado para evitar novas catástrofes

Ato simbólico com 233 sinalizadores e coroas de flores simbolizam a urgência de ações para o enfrentamento da crise climática

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Ativistas do Greenpeace Brasil homenageiam as vítimas de Petrópolis no Palácio Guanabara, na cidade do Rio de Janeiro, e pressionam para que seja decretado emergência climática | Foto: Gabrielle Souza / Greenpeace

Rio de Janeiro, 15 de março de 2022 – Hoje (15) completa um mês das chuvas intensas que culminaram em uma grande tragédia na cidade de Petrópolis (RJ). Nesta manhã, o Greenpeace Brasil levou para a frente do Palácio Guanabara, sede do governo do Rio de Janeiro, 233 sinalizadores e coroas de flores representando as 233 vidas perdidas e contabilizadas até o momento. A ação teve como objetivo prestar homenagem às vítimas das enchentes e deslizamentos que atingiram o município no mês passado, além de pressionar o governador Cláudio Castro para que decrete Emergência Climática e execute imediatamente o plano de adaptação.

Apesar do Rio de Janeiro possuir este plano, não existem estratégias de implementação, prazos ou etapas de execução, e tampouco orçamento. Aliás, o governo do estado não usou nem metade do orçamento previsto para o ano passado do Programa de Prevenção de Catástrofes do Rio de Janeiro. Em 2021, foram utilizados R$165 milhões dos R$402 milhões disponíveis – dinheiro que poderia ter sido destinado a obras de infraestrutura.

Para o porta-voz de Clima e Justiça do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, a ação da organização em frente ao Palácio Guanabara é uma forma de pressionar o poder público para que mais tragédias como essa não ocorram: “As fortes chuvas no mês de fevereiro levaram 233 vidas em Petrópolis, mas o que ocorreu na região é um exemplo da falta de implementação de direitos básicos e execução de um plano de adaptação climática no Estado. O Rio de Janeiro precisa decretar Emergência Climática e implementar efetivamente o seu plano de adaptação, elaborando-o junto às populações mais impactadas. Essas são ações fundamentais para que o Estado se antecipe às próximas catástrofes”.

Além de ações como essa em frente ao Palácio Guanabara, o Greenpeace Brasil também tem trabalhado para fortalecer iniciativas que já estão sendo desenvolvidas nos territórios. No caso de Petrópolis, a organização destinou recursos por meio de parceiros locais para a compra de mantimentos, roupas e necessidades urgentes para as famílias atingidas pela catástrofe, além de iniciar uma petição para que os estados decretem Emergência Climática e executem planos de adaptação, evitando que novas tragédias ocorram e que mais vidas sejam perdidas.

Confira as principais imagens da ação