Flávio Bolsonaro e a República dos Amigos: quando tanta coincidência começa a pedir explicação

Viagens, apartamento e uma rede de relações que passa por Willer Tomaz, Cláudio Castro e personagens ligados ao Banco Master tornam cada vez mais relevante esclarecer onde termina a amizade privada e onde começam as relações políticas e patrimoniais

A reportagem de Patrik Camporez, de O Globo, retomada e ampliada por Luis Nassif no Jornal GGN, acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça formado pelas investigações envolvendo o Banco Master, as fraudes do INSS e personagens que circulam há anos nos ambientes político, empresarial e jurídico de Brasília e do Rio de Janeiro. No centro dessa trama aparece o advogado Willer Tomaz, cuja importância talvez esteja menos em cada relação tomada separadamente do que na extraordinária capacidade de conectar personagens, patrimônio, negócios e interesses que reaparecem em diferentes investigações.

A relação com Flávio Bolsonaro vai muito além de um encontro ocasional

A proximidade entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro é documentada há anos. Durante a CPI da Covid, em 2021, o próprio Flávio chamou Tomaz publicamente de seu “amigo”. Mais recentemente, vieram à tona viagens internacionais realizadas conjuntamente. Registros obtidos pela Polícia Federal indicam ao menos cinco viagens dos dois no primeiro semestre de 2025, incluindo um safári na África do Sul do qual também participou o senador Weverton Rocha. A piauí confirmou ainda a existência de um grupo de WhatsApp da viagem do qual participavam Flávio, Tomaz, Weverton e familiares.

Isso ganhou outra dimensão durante a atual campanha presidencial. Flávio utilizou em São Paulo um apartamento pertencente à empresa de Willer Tomaz. O imóvel havia sido comprado poucos meses antes de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e apontado pela PF como operador financeiro ligado ao ex-controlador do Banco Master. Zettel havia adquirido o apartamento por R$ 5,5 milhões e o vendeu à empresa de Tomaz por R$ 3,5 milhões. A utilização do imóvel por Flávio durante atividades de campanha foi confirmada pela piauí e pela Folha de S.Paulo.

Nada disso, isoladamente, demonstra que Flávio tenha participado das irregularidades atribuídas a terceiros. Mas modifica a natureza da questão. Já não se trata apenas de saber se duas pessoas eram amigas, mas de esclarecer como essa amizade se relacionava com imóveis, viagens, serviços e estruturas patrimoniais que posteriormente aparecem em investigações diferentes.

Cláudio Castro entra na mesma rede

A relação de Willer Tomaz com Cláudio Castro também ultrapassa uma convivência social. Tomaz atuou como advogado pessoal de Castro e, em julho de 2021, protocolou no STF uma petição sigilosa em nome do então governador para saber se existiam investigações contra ele. Naquela mesma época, Tomaz já era publicamente identificado como amigo de Flávio Bolsonaro, enquanto Castro era aliado político do senador.

A relação continuou. Em novembro de 2025, Castro, sua mulher e seus filhos viajaram para Lima para assistir à final da Libertadores em uma aeronave cuja estrutura de propriedade incluía Willer Tomaz. Também estavam no avião o próprio Tomaz, seus familiares e Weverton Rocha. Castro declarou que fora convidado pelo advogado, de quem afirmou ser amigo havia anos. A aeronave era administrada pela Prime Aviation/Prime You, grupo do qual Daniel Vorcaro havia sido acionista minoritário até setembro daquele ano.

Esse dado se torna politicamente relevante porque, durante a administração Castro, instituições vinculadas ao Estado do Rio ficaram fortemente expostas ao universo do Banco Master. Segundo dados do Tribunal de Contas citados pela Band, o Rioprevidência possuía cerca de R$ 1,6 bilhão em fundos ligados direta ou indiretamente ao Master, enquanto a Cedae havia investido R$ 200 milhões. Isso não demonstra que a amizade entre Castro e Tomaz tenha determinado essas operações, mas torna legítima a pergunta sobre a existência — ou não — de conexões entre relações privadas e decisões envolvendo estruturas públicas.

O ponto central: não são apenas amizades

É precisamente aqui que a matéria ganha importância. Willer Tomaz aparece simultaneamente como amigo de Flávio Bolsonaro, antigo advogado pessoal de Cláudio Castro, pessoa próxima de Weverton Rocha, proprietário de empresas e imóveis envolvidos em operações examinadas pelas autoridades e participante de estruturas de propriedade compartilhada administradas por uma empresa da qual Daniel Vorcaro foi acionista. A PF, no caso envolvendo Weverton, chegou a descrevê-lo como um “hub financeiro, patrimonial e logístico”, expressão que precisa ser entendida como uma caracterização dos investigadores, e não como uma conclusão judicial de culpa.

É justamente a recorrência que merece atenção. Em uma ocasião há uma viagem; em outra, uma relação advocatícia; depois aparece um imóvel; posteriormente uma aeronave; em seguida, pessoas ligadas às mesmas redes empresariais e políticas reaparecem em outras investigações. Nenhuma dessas conexões, sozinha, autoriza concluir pela existência de uma organização comum ou pela participação de todos em atividades ilícitas. Mas a repetição dos mesmos personagens em diferentes circuitos reduz a capacidade explicativa da tese de que tudo possa ser compreendido apenas como uma coleção de relações privadas independentes.

E o problema para a candidatura de Flávio Bolsonaro?

Para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, a questão objetiva é de transparência e explicação pública. A revelação do apartamento já levou a um questionamento perante o TSE sobre se seu uso durante a campanha deveria ter sido contabilizado como doação ou despesa eleitoral; isso é uma alegação apresentada por adversários e ainda não equivale a uma decisão de que houve irregularidade.

Há também uma questão política mais ampla: Willer Tomaz não aparece agora, repentinamente, na periferia das relações do candidato. A proximidade é antiga, foi reconhecida pelo próprio Flávio e inclui viagens e disponibilização de imóvel. A piauí registrou ainda que Flávio não respondeu aos seus questionamentos sobre a viagem à África do Sul, o grupo de WhatsApp e suas relações com Tomaz e os demais participantes.

Por isso, o episódio aumenta o conjunto de perguntas às quais o candidato pode ser chamado a responder: qual era exatamente a natureza de sua relação com Willer Tomaz; quem custeou e organizou cada uma das viagens; em quais circunstâncias utilizou o apartamento de São Paulo; como esse uso foi tratado contabilmente pela campanha; e até que ponto conhecia as relações empresariais e patrimoniais mantidas pelo advogado com outros personagens hoje investigados?

Responder a essas questões é particularmente relevante em uma eleição presidencial porque o problema colocado pelas reportagens não é simplesmente “com quem Flávio Bolsonaro é amigo”. O problema factual a esclarecer é onde terminam as relações pessoais e onde começam relações patrimoniais, profissionais ou políticas com possível interesse público.

É nesse ponto que a apuração de Patrik Camporez ganha força. Em vez de uma fotografia isolada, começa a aparecer uma rede. E, diante de uma rede na qual os mesmos personagens atravessam sucessivamente o INSS, o Banco Master, estruturas empresariais, patrimônio imobiliário e círculos políticos, a distinção entre coincidência, amizade e interesse passa a depender cada vez mais de documentação e esclarecimentos verificáveis — e cada vez menos de simples declarações de que todos eram apenas amigos.

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