Do Nepal ao Brasil: a adaptação climática deixou de ser escolha e virou questão de sobrevivência

Em artigo publicado nesta quinta-feira (10/09), na seção Tendências/Debates da Folha de S.Paulo, os pesquisadores Paulo Artaxo, Augusto Getirana e Pedro Henrique de Christo fazem um alerta que deveria ocupar lugar central no debate público brasileiro: diante do avanço da crise climática, antecipar os impactos já não é apenas desejável; tornou-se condição para reduzir mortes, perdas econômicas e destruição de infraestrutura.

Intitulado “Do Nepal ao Brasil, antecipação é decisiva para a adaptação climática”, o texto parte do recente colapso glacial ocorrido na região de Langtang Lirung, no Nepal. O evento produziu uma violenta enxurrada associada ao derretimento de gelo, capaz de destruir estradas, pontes, instalações e comunidades em poucos minutos. O ponto importante levantado pelos autores é que tais acontecimentos deixaram de poder ser tratados simplesmente como “desastres naturais”. O aquecimento do clima está alterando rapidamente as condições que controlam geleiras, chuvas extremas, secas, enchentes e deslizamentos, enquanto boa parte das sociedades continua planejando o território com base em um clima que já não existe.

Há ainda uma dimensão de justiça climática que merece destaque. Como observam Artaxo, Getirana e de Christo, o Nepal contribuiu muito pouco para a crise climática global, mas figura entre os países mais vulneráveis aos seus efeitos. Essa assimetria recoloca no centro do debate a responsabilidade histórica das grandes economias emissoras e a necessidade de financiamento, transferência tecnológica e cooperação internacional para adaptação. Não basta reconhecer que certos países e populações são vulneráveis; é necessário criar condições materiais para que possam se proteger.

Para o Brasil, o alerta ganha uma dimensão adicional diante do Super El Niño de 2026-2027, mencionado pelos autores como potencial amplificador de extremos climáticos. Ondas de calor, secas na Amazônia e no Nordeste, enchentes, tempestades e deslizamentos no Sul e em áreas costeiras poderão testar duramente sistemas urbanos e infraestruturas que já demonstram fragilidades mesmo sob condições menos extremas. O problema torna-se particularmente grave porque nossas cidades cresceram, em grande medida, ignorando rios, encostas, áreas inundáveis e limites ambientais.

Um aspecto especialmente relevante do artigo é a defesa da antecipação. Isso significa abandonar a lógica predominante segundo a qual governos esperam o desastre ocorrer para então mobilizar Defesa Civil, decretar emergência e contabilizar prejuízos. Os autores defendem o fortalecimento de sistemas de monitoramento e alerta, modelos climáticos e hidrológicos de maior resolução, protocolos de segurança, intervenções de urbanismo climático e novas formas de governança capazes de transformar previsões científicas em medidas concretas de proteção.

Essa discussão é particularmente pertinente no Brasil, onde existe conhecimento técnico suficiente para identificar muitas das áreas que sofrerão com enchentes, deslizamentos, secas ou calor extremo, mas frequentemente falta transformar esse conhecimento em planejamento territorial, investimento público e políticas preventivas permanentes. A tragédia, portanto, muitas vezes começa bem antes da chuva, da enchente ou da onda de calor: começa quando alertas científicos são ignorados, obras de prevenção são adiadas e a ocupação de áreas vulneráveis continua sendo tolerada.

O artigo de Paulo Artaxo, Augusto Getirana e Pedro Henrique de Christo, publicado pela Folha de S.Paulo, traz assim uma mensagem simples, mas incômoda: não podemos impedir todos os eventos extremos que já foram colocados em movimento pela mudança climática, mas podemos decidir quantas pessoas estarão expostas a eles e quão devastadores serão seus efeitos. Em tempos de Super El Niño e aquecimento global acelerado, esperar o desastre para agir não constitui falta de previsão. É uma escolha política.

Não haverá desculpa para a surpresa: é hora de preparar o Brasil para o El Niño

O artigo “Emergência climática: o que o Brasil precisa fazer para enfrentar os impactos esperados do El Niño que já começou, de Regina Célia dos Santos Alvalá, diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em parceria com José Antônio Marengo e Marcelo Seluchi, publicado originalmente pelo The Conversation Brasil, traz uma contribuição particularmente oportuna: o El Niño 2026–2027 deixou de ser uma possibilidade distante e exige que previsões meteorológicas sejam transformadas imediatamente em políticas de prevenção, preparação e proteção da população.

O problema é especialmente complexo porque não existe um único “efeito El Niño” para o Brasil. Enquanto o Sul poderá enfrentar chuvas extremas, enchentes e deslizamentos, partes do Norte e Nordeste estarão mais expostas à seca, aos incêndios e à redução da disponibilidade de água. Centro-Oeste e Sudeste, por sua vez, poderão experimentar temperaturas excepcionalmente elevadas, baixa umidade e ondas de calor. Como lembra Regina Alvalá, os impactos ultrapassam a meteorologia e alcançam simultaneamente agricultura, geração de energia, abastecimento de água, logística, saúde e segurança alimentar.

A questão decisiva, portanto, é preparar as pessoas antes que os eventos extremos ocorram. Isso significa identificar populações residentes em áreas sujeitas a enchentes e deslizamentos, estabelecer e divulgar rotas de evacuação, testar sistemas de alerta e preparar abrigos. Significa também criar protocolos específicos para ondas de calor, incluindo adaptação dos horários de escolas e trabalhos realizados ao ar livre, disponibilização de água e ambientes refrigerados ou termicamente protegidos e atenção especial a crianças, idosos, trabalhadores expostos e pessoas em situação de rua.

O mesmo princípio deve valer para a saúde pública. O Ministério da Saúde já apresentou um plano para o El Niño 2026–2027 que prevê salas de situação, estoques emergenciais de medicamentos e capacidade de deslocamento de equipes da Força Nacional do SUS. Mas esses mecanismos precisam chegar efetivamente aos estados e municípios, porque é na rede local do SUS que aparecerão inicialmente os casos de desidratação, insolação, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias e outras consequências do calor, da fumaça dos incêndios, das enchentes e da deterioração das condições sanitárias.

Também será indispensável transformar informação climática em informação pública compreensível. Não basta anunciar que haverá um El Niño “muito forte”. Cada município deveria informar aos seus moradores quais são os riscos esperados naquele território, quem está mais vulnerável, onde procurar ajuda e como agir diante de cada tipo de emergência. Sistemas de alerta por celular, agentes comunitários de saúde, escolas, associações de moradores, rádios locais e redes sociais precisam integrar uma estratégia permanente de comunicação de risco. O próprio Painel El Niño recomenda que a população mantenha atualizado o cadastro para alertas da Defesa Civil e conheça previamente áreas de risco e rotas de fuga.

Há ainda uma dimensão social que não pode ser escondida. Eventos climáticos extremos atingem populações diferentes de maneira profundamente desigual. Quem possui casa climatizada, automóvel, reserva financeira e acesso regular à água enfrenta uma onda de calor de maneira muito diferente de quem vive em uma residência precária, trabalha sob o sol ou depende diariamente do transporte público. Da mesma forma, uma enchente possui consequências muito diferentes para quem dispõe de seguro e recursos para deixar rapidamente uma área ameaçada e para uma família que perderá praticamente tudo o que possui se tiver de abandonar sua casa.

Por isso, preparar o Brasil para o El Niño significa também fazer política social de adaptação climática. Os R$ 1,335 bilhão mencionados por Regina Alvalá para ações relacionadas a abastecimento, segurança alimentar, saúde, monitoramento e prevenção de incêndios são importantes, mas o teste decisivo será verificar quanto dessa preparação chegará efetivamente aos territórios e às populações mais expostas.

O El Niño oferece, paradoxalmente, uma vantagem que terremotos e outros eventos súbitos não oferecem: sabemos antecipadamente que ele está chegando e temos uma ideia razoável dos tipos de impactos que poderá produzir. Se, mesmo dispondo de meses de antecedência, sistemas de monitoramento e conhecimento científico acumulado, continuarmos esperando as enchentes, secas, incêndios e ondas de calor acontecerem para então decretar emergência e distribuir ajuda, não estaremos diante apenas de desastres climáticos. Estaremos diante de desastres anunciados cuja gravidade também refletirá nossas escolhas políticas.

 

A meta de 1,5 °C já ficou para trás: Paulo Artaxo alerta para a urgência climática

Cientista do IPCC alerta que reduzir rapidamente as emissões e iniciar medidas concretas de adaptação são tarefas simultâneas e urgentes diante de impactos climáticos que já atingem o Brasil

No debate realizado na última quinta-feira sobre o atual ciclo do El Niño, o professor Paulo Artaxo (USP), membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), fez uma série de observações importantes sobre o avanço do aquecimento da atmosfera terrestre e suas consequências cada vez mais evidentes. Artaxo participou de uma atividade organizada pela Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF), que reuniu também os pesquisadores Luciana Gatti (INPE) e  Roberto Verdum (UFRGS) para discutir as mudanças em curso no sistema climático e os desafios que elas colocam para a sociedade brasileira.

Para começo de conversa, Artaxo lembrou que, apesar de todas as conferências realizadas pela Organização das Nações Unidas para enfrentar o aquecimento provocado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, as emissões globais de gases de efeito estufa já ultrapassam 57 bilhões de toneladas por ano. Como resultado, a temperatura média global já aumentou cerca de 1,45 °C, enquanto nas áreas continentais esse aquecimento chega a aproximadamente 2,1 °C. No caso do Brasil, mantida a atual trajetória de aumento da temperatura, o aquecimento poderá atingir entre 3,5 °C e 4 °C, produzindo situações especialmente graves nas grandes cidades. Artaxo ressaltou ainda que o clima não se resume à temperatura, pois envolve também a precipitação e outros componentes do sistema climático; alterações importantes nos padrões de chuva já podem ser observadas em diferentes regiões.

Ao tratar dessas mudanças, Artaxo mencionou um estudo recente do MapBiomas que apontou uma redução de cerca de 30% no estoque de água do Pantanal, processo que já produz graves impactos ambientais, econômicos e sociais. No caso da Amazônia, ele destacou estudos que indicam que partes da floresta passaram da condição de sumidouro para a de fonte de carbono. Esse processo reforça a preocupação de que a Amazônia possa estar se aproximando do chamado ponto de não retorno, situação que produziria impactos não apenas sobre sua composição e estrutura florestal, mas também sobre sua capacidade de reciclar e transportar umidade para extensas áreas do território brasileiro.

Questionado sobre a implantação de grandes projetos econômicos na Amazônia, especialmente sobre a expansão da exploração de petróleo na região, Artaxo observou de forma enfática que esse tipo de iniciativa caminha na direção contrária aos esforços necessários para conter o aumento da temperatura global. A abertura de novas fronteiras petrolíferas amplia a oferta de combustíveis fósseis justamente quando a ciência climática indica a necessidade de reduzir rapidamente sua utilização e, consequentemente, as emissões de gases de efeito estufa.

Outro ponto importante destacado por Artaxo foi a necessidade de o Brasil acelerar a implantação de medidas de adaptação a uma condição climática que deverá se tornar mais severa nas próximas décadas. Segundo ele, embora já existam recursos destinados a iniciar esse processo, o país utiliza pouco do dinheiro disponível e, em diversos casos, utiliza esses recursos de maneira inadequada. A adaptação deixou, portanto, de ser uma questão que pode ser adiada para algum momento futuro, pois parte das mudanças climáticas já está em curso e continuará produzindo consequências mesmo que o mundo consiga reduzir significativamente suas emissões nos próximos anos.

Finalmente, Artaxo observou que a comunidade científica já considera inalcançável a meta de limitar o aquecimento da atmosfera terrestre a 1,5 °C. Esse reconhecimento, longe de justificar qualquer acomodação, torna ainda mais urgente a redução rápida e consistente das emissões de gases de efeito estufa, pois cada fração adicional de grau amplia a intensidade e a frequência dos impactos climáticos. Ao mesmo tempo, governos e sociedades precisam iniciar imediatamente medidas concretas de adaptação, uma vez que os efeitos do aquecimento já começam a se manifestar nos territórios. Adiar essas duas tarefas significa aumentar deliberadamente a exposição da população a ondas de calor, secas, chuvas extremas, enchentes, perdas agrícolas, crises no abastecimento de água e outros eventos capazes de produzir graves consequências sociais e econômicas. A inação, portanto, não representa apenas um risco projetado para as próximas décadas; ela já cobra seu preço no presente e pode transformar fenômenos climáticos cujos impactos poderiam ser prevenidos ou mitigados em desastres de proporções cada vez maiores.

Quem desejar ouvir na íntegra as declarações de Paulo Artaxo e as contribuições dos demais debatedores, Luciana Gatti e Paulo Verdum, poderá acessar a gravação da atividade no canal do GENAT/UFPB [ Aqui!].

Organizações sociais alertam governo Lula para riscos de um “super El Niño” e cobram políticas de adaptação climática

Carta aponta necessidade urgente de proteção às populações vulneráveis diante do aumento de eventos extremos associados às mudanças climáticas

Em meio ao aumento das preocupações internacionais com a possível formação de um episódio muito intenso do fenômeno El Niño entre o final de 2026 e o início de 2027, organizações da sociedade civil brasileira divulgaram uma carta pública alertando o governo federal sobre a necessidade urgente de fortalecer políticas de adaptação climática e prevenção de desastres.

Segundo a reportagem publicada pelo Poder360, o documento foi elaborado pela Rede por Adaptação Antirracista em parceria com o Observatório do Clima, reunindo dezenas de entidades socioambientais e de direitos humanos. Entre os signatários estão Greenpeace Brasil, Oxfam Brasil, WWF-Brasil, SOS Mata Atlântica, Instituto Pólis, Instituto Ethos, Conectas Direitos Humanos, Coalizão Negra por Direitos e Transparência Brasil.

O alerta ocorre após estimativas divulgadas pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que apontam 82% de probabilidade de formação do El Niño ainda em 2026 e cerca de 37% de chance de que o fenômeno atinja intensidade “muito forte”.

Embora o termo “super El Niño” não seja oficialmente utilizado pela NOAA, ele costuma designar episódios excepcionalmente intensos, capazes de provocar impactos severos em diferentes regiões do planeta. No caso brasileiro, especialistas alertam para a possibilidade de secas mais severas no Norte e Nordeste, além de chuvas extremas no Sul do país.

Na carta, as organizações destacam que os impactos climáticos não atingem todos da mesma maneira. Populações negras, indígenas, quilombolas, periféricas e moradores de áreas de risco estariam entre os grupos mais expostos aos efeitos de enchentes, deslizamentos, ondas de calor, secas e incêndios florestais.

O documento também critica a postura recorrente de governos que atuam apenas após as tragédias. As entidades defendem políticas permanentes de prevenção, planejamento urbano, monitoramento climático e preparação comunitária. Entre as medidas propostas estão a instalação de sirenes e sistemas de alerta, criação de centros de monitoramento, elaboração participativa de planos de fuga e atualização do Plano Nacional de Adaptação.

As organizações lembram ainda que os desastres recentes no Brasil já evidenciam os custos humanos da emergência climática. O texto menciona as chuvas catastróficas em Petrópolis e os episódios extremos registrados no litoral norte paulista, reforçando que a combinação entre mudanças climáticas, desigualdade social e ausência de infraestrutura amplia drasticamente os riscos.

O debate também ganhou repercussão nas redes sociais, onde muitos usuários defenderam a importância dos alertas preventivos diante da repetição de tragédias climáticas no país. Em discussões online, diversos comentários criticaram a falta de preparação estrutural do poder público diante de eventos extremos cada vez mais previsíveis.

A íntegra da reportagem original pode ser acessada no Poder360.

Peixes de recifes de até 150 m de profundidade desenvolvem funções ecológicas altamente especializadas para sobreviver

Peixe Tosanoides aphroditeTosanoides aphrodite, espécie endêmica do Brasil, foi registrada nos dois arquipélagos, onde habita recifes mesofóticos. Foto: Luiz Rocha / Acervo Pesquisadores

Peixes de recifes mesofóticos, que ocorrem entre 30 e 150 metros de profundidade, desenvolvem estratégias altamente especializadas para sobreviver em arquipélagos brasileiros, aponta um novo estudo publicado na revista Neotropical Ichthyology na segunda (27). A pesquisa foi conduzida por pesquisadores do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar/USP), em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e a California Academy of Sciences.

Enquanto Fernando de Noronha apresenta maior riqueza de espécies, com similaridade nos papéis ecológicos, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, mais isolado, abriga menos espécies, mas que tendem a ser mais diferenciadas e especializadas.

A equipe realizou expedições científicas a Fernando de Noronha e ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo entre 2017 e 2019. Para mapear 6.982 peixes de 95 espécies, os cientistas realizaram um Censo Visual Subaquático a até 120 metros de profundidade. Em áreas demarcadas de 40 metros quadrados, os pesquisadores anotaram visualmente a espécie, a quantidade e o tamanho de cada indivíduo. A contagem começava no fundo do oceano e continuava gradativamente enquanto eles subiam em direção à superfície.

“Estas amostragens foram realizadas com o uso de mergulho técnico utilizando rebreathers, um sistema de circuito fechado que nos permite mergulhar fundo e por mais tempo”, detalha Julia Marx, pesquisadora da USP e autora do estudo. Ela explica que a técnica exige mais de 100 horas de treinamento, pois requer o uso de misturas gasosas e protocolos rigorosos de paradas longas para descompressão.

Embora Fernando de Noronha seja muito maior e abrigue um número superior de espécies por estar associada à sua maior conectividade com áreas costeiras, foi o isolado conjunto de ilhas de São Pedro e São Paulo que apresentou uma maior riqueza funcional, ou seja, uma maior diversidade de papéis ecológicos exercidos pelas espécies em seu habitat.

A pesquisadora explica que os ambientes mesofóticos apresentam condições ambientais mais restritivas, com menor disponibilidade de luz e diferenças na estrutura do habitat em relação às áreas mais rasas. “Quando isso se soma ao isolamento extremo de São Pedro e São Paulo, apenas espécies com características muito específicas conseguem se estabelecer ali”, comenta.

Assim, as espécies desempenham papéis ecológicos mais diferenciados dentro da dinâmica dos recifes. “Se perdermos essas espécies mais especializadas, podemos perder funções inteiras do ecossistema”, alerta Marx. “Diferente de ambientes onde várias espécies têm papéis semelhantes, aqui essa similaridade parece ser menor, tornando o sistema mais sensível a mudanças na composição de espécies. Isso pode desencadear efeitos em cascata, como desequilíbrios na cadeia alimentar ou mudanças na estrutura do recife”, complementa.

Diante dessa fragilidade estrutural, os achados da pesquisa indicam que as diretrizes ambientais precisam ser atualizadas. Atualmente, a proteção de santuários ecológicos ainda foca predominantemente na biodiversidade visível das partes rasas, tratando as zonas mais profundas apenas como uma extensão do mesmo ambiente. Incorporar o gradiente de profundidade no planejamento e nas leis de Áreas Marinhas Protegidas é um passo decisivo para garantir que a resiliência dos oceanos continue funcionando frente aos desafios do futuro, apontam os autores.


Fonte: Agência Bori

Ritmo de adaptação de florestas tropicais é mais lento que o necessário para fazer frente à crise climática

Árvores de grande porte e madeira densa são as mais afetadas. Pesquisas publicadas recentemente nas revistas Science e Nature alertam para a possibilidade de empobrecimento radical dos biomas

Mata Atlântica: o Núcleo Santa Virgínia, localizado no Parque Estadual da Serra do Mar, município de São Luiz do Paraitinga (SP), é uma das áreas pesquisadas no estudo (foto: Carlos Alfredo Joly)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

A crise climática está afetando as florestas tropicais de maneira acelerada, enquanto os processos ecológicos que regem sua adaptação ocorrem em ritmo muito mais lento. Duas pesquisas recentes, publicadas nas revistas Science e Nature, investigaram como as florestas tropicais estão respondendo às mudanças climáticas e quais são as implicações disso para a biodiversidade e a ciclagem do carbono. Os estudos indicam que as florestas estão mudando, sim, mas não na velocidade necessária para acompanhar o ritmo do aquecimento global.

“O que estamos vendo é que as florestas tropicais das Américas estão tentando se adaptar às mudanças climáticas, mas de forma bem mais lenta do que esperaríamos”, diz Jesús Aguirre-Gutiérrez, professor da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e primeiro autor dos dois artigos.

Gutiérrez informa que a crise climática está levando as florestas tropicais a mudarem sua composição, com um aumento de espécies decíduas, aquelas que perdem as folhas na estação seca. “Essas espécies têm uma vantagem em períodos de menor precipitação e temperaturas elevadas, pois podem reduzir a perda de água nesse contexto. No entanto, mesmo essa adaptação não está ocorrendo com rapidez suficiente para acompanhar a transformação do clima.”

Os dados revelam que espécies de grande porte, que desempenham papel fundamental na estrutura da floresta e na captura de carbono, estão sendo substituídas por espécies menores e de menor densidade. “Observamos que as espécies que se regeneram com maior facilidade não são as de grande porte e de madeira mais densa, mas sim aquelas com maior plasticidade adaptativa. Isso reduz a capacidade de estocagem de carbono da floresta e pode afetar os modelos climáticos, já que a capacidade fotossintética será menor no futuro”, afirma Carlos Alfredo Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e coautor dos dois artigos.

Monitoramento contínuo

Os estudos foram possíveis graças a décadas de monitoramento ecológico, utilizando parcelas permanentes de um hectare cada em diferentes regiões tropicais. As informações foram complementadas por imagens de satélite. “Os dados que utilizamos no artigo da Science vêm de parcelas distribuídas do México ao sul do Brasil”, conta Aguirre-Gutiérrez. “São 415 parcelas e foram necessários muitos anos para coletar essas informações. Agora, com imagens de satélite e modelagem, podemos expandir essa análise para outras regiões tropicais, como a África e a Ásia, onde os dados de campo são mais escassos.”

Essa abordagem permitiu mapear atributos funcionais das florestas tropicais, como a morfologia e a química das folhas, a estrutura da vegetação e a presença de espécies decíduas. “No estudo da Nature, utilizamos modelagem com dados do satélite Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia, que nos permitiu criar mapas da distribuição desses atributos nos trópicos”, destaca Aguirre-Gutiérrez. “Isso nos dá uma visão detalhada de como as florestas estão mudando e nos ajuda a projetar cenários futuros.”

As pesquisas apontaram que as mudanças nas florestas tropicais podem levar à perda de biodiversidade e a um empobrecimento estrutural desses biomas. “Espécies de grande porte, como jatobás, ipês, perobas e jequitibás, estão desaparecendo porque não conseguem acompanhar as mudanças climáticas”, alerta Joly. “Na Amazônia, árvores icônicas como a castanheira-do-pará e as copaíbas também estão em risco. Além de seu valor próprio, como fontes de alimentos e medicamentos, essas espécies são fundamentais para a captura de carbono e a manutenção da biodiversidade.”

A transição para florestas dominadas por espécies mais adaptáveis pode ter implicações profundas. “Constatamos que as florestas estão se tornando mais suscetíveis à mortalidade em larga escala”, comenta Simone Aparecida Vieira, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) da Unicamp e integrante da coordenação do Programa BIOTA-FAPESP. “Isso compromete funções ecossistêmicas essenciais, como a regulação do ciclo do carbono e da precipitação. O colapso florestal pode aumentar o carbono na atmosfera e reduzir a formação de chuvas, intensificando ainda mais a crise climática.”

Diante desse cenário, a conservação e a restauração das florestas tropicais tornam-se ainda mais urgentes. No entanto, simplesmente proteger áreas degradadas, apostando no processo de sucessão, pode não ser suficiente. “Se uma área degradada for protegida, as espécies nobres reaparecerão espontaneamente no processo natural de regeneração? A resposta curta é não”, afirma Joly. “Experimentos de restauração mostram que essas espécies apresentam uma taxa de mortalidade alta, mesmo quando plantadas. Elas crescem lentamente e são vulneráveis a eventos extremos.”

Além disso, a fragmentação das florestas dificulta a regeneração. “A perda de conectividade entre fragmentos florestais leva ao empobrecimento da biodiversidade”, explica o pesquisador. “Em áreas isoladas, a dispersão de sementes por animais como cutias, pacas e macacos fica comprometida, dificultando a regeneração de espécies vegetais importantes.”

Uma das soluções propostas é a regeneração natural assistida (assisted natural regeneration), que consiste no plantio de espécies adaptadas às novas condições climáticas. “Com os dados que temos, podemos identificar quais espécies nativas estão mais bem adaptadas ao clima atual e priorizar seu plantio”, sugere Aguirre-Gutiérrez. “Isso pode aumentar as chances de sucesso dos programas de reflorestamento.”

Apesar dos avanços tecnológicos no monitoramento das florestas, os pesquisadores enfatizam que o trabalho de campo continua sendo indispensável. “A gente tem de continuar investindo em trabalho de campo, colocando recursos para que pesquisadores no México, no Brasil e em outros países possam coletar dados”, destaca Aguirre-Gutiérrez. “Não podemos fazer tudo apenas com satélites. Precisamos de dados de campo para validar e aprimorar os modelos.”

As descobertas desses estudos reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas para a conservação das florestas tropicais, aliando ciência, tecnologia e principalmente ações concretas para mitigar os impactos das mudanças climáticas. “A ecologia tem mostrado cenários cada vez mais preocupantes”, conclui Vieira. “Se não agirmos agora, as florestas tropicais podem perder sua função ecológica antes que consigam se adaptar ao novo clima.”

Os estudos receberam apoio da FAPESP por meio de cinco projetos (03/12595-712/51509-812/51872-519/24049-5 e 22/14605-0).

O artigo Tropical forests in the Americas are changing too slowly to track climate change pode ser acessado em: www.science.org/doi/10.1126/science.adl5414.

E o estudo Canopy functional trait variation across Earth’s tropical forests está disponível em: www.nature.com/articles/s41586-025-08663-2.


Fonte: Agência Fapesp

Lerdeza e discursos vazios retardam a adaptação climática e agravarão os custos da elevação do mar no Brasil

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Com as evidências irrefutáveis de que nas próximas décadas teremos uma elevação importante no nível médio do mar seria de se esperar que os governantes brasileiros estivessem soando os alarmes de emergência.  Afinal, a previsão de que regiões inteiras estão destinadas a serem invadidas pelas águas oceânicas é algo que não se pode dar simplesmente de ombros, pois os custos econômicos e humanos prometem ser colossais.

Mas o que se vê é uma combinação de ignorância premeditada e a aplicação de fórmulas que são uma espécie de enxuga gelo debaixo de temperaturas equatoriais.  Isso, é preciso que se diga, é uma completa irresponsabilidade já que os estudos científicos estão trazendo informações que deveriam ser levados com a devida seriedade.

Agora, segundo o que foi divulgado por um veículo da mídia corporativa campista, o que teria declarado a Prefeitura Municipal de São João da Barras após a forte repercussão de um relatório da ONU que prevê que Atafona é um hotspot  no processo de intrusão de águas marinhas nas regiões costeiras do planeta:

“Dentro desse contexto, a orientação foi para a elaboração de um estudo de viabilidade técnica e econômica para que seja analisado o atual cenário para as possíveis soluções. O município já contratou a elaboração do termo de referência e está nas fases finais da elaboração do edital de licitação para a contratação deste estudo. Há um processo de aquisição de uma área em Atafona para construir casas populares para essas pessoas que foram atingidas”.

Atafona, distrito do RJ que vem sendo engolido pelo mar, serve de alerta  para erosão costeira - 13/11/2021 - Ambiente - Folha

O Distrito de Atafona vem sendo engolido pelo mar,  mas até agora nada foi feito para conter o processo

Essa resposta parece ser uma mistura da tática do enxugar gelo com a ideia tosca de que vai bastar mover casas de um ponto para outro para que os impactos da chegada das águas marinhas seja resolvido.  Além disso, falar a estas alturas na contratação de um estudo de viabilidade técnica e econômica para definir possíveis soluções é como aquele sujeito que fala em em comprar detectores de fumaça logo após a sua casa ser totalmente consumida por um incêndio.

Sem ter lido os programas de governo dos candidatos a prefeito de São João da Barra, a começar pelo da atual prefeita, Carla Caputi, eu sou capaz de prever que não há nenhuma menção de que será adotada a adoção de uma política pública voltada para preparar o município para a necessária adaptação ao irreversível processo de mudança climática que está ocorrendo na Terra neste momento, mas cujos efeitos mais drásticos serão sentidos nos próximos anos e décadas.

O mais lamentável é essa lerdeza em adotar medidas urgentes ainda custará muito dinheiro e vidas com o tipo de postura que se verifica nos governantes dos estados e municípios costeiros do Brasil.

Mas como não quero dizer que não dei dicas propositivas e apenas critiquei, republico abaixo os mapas contendo as previsões para as áreas que serão inundadas em São João da Barra com diferentes cenários de elevação do nível médio do mar. Como se pode inferir a partir desses mapas,  o problema da intrusão das águas marinhas está longe de estar restrito a Atafona.

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Acordo da COP28 ignora o financiamento para uma adaptação justa

fossil freeMembros de um movimento de ação climática protestam contra os combustíveis fósseis em Pittsburgh, EUA, em 2022. Durante as negociações da COP28, os países comprometeram menos de 200 milhões de dólares para o Fundo de Adaptação da ONU. Direitos autorais: Mark Dixon, (CC BY-ND 2.0 DEED).

[DUBAI] O pacto final nas negociações climáticas da COP28 da ONU, que apela a uma mudança global dos combustíveis fósseis, não consegue fornecer o financiamento necessário para permitir que os países mais pobres façam a transição para uma energia mais verde e se adaptem às alterações climáticas, dizem os observadores.

O texto acabou acordado nas negociações, conhecidas como COP28, na quarta-feira (13 de dezembro), fechando a cortina de duas semanas de negociações em Dubai, instando os países a “fazerem a transição para longe dos combustíveis fósseis” – uma novidade nas negociações climáticas da ONU.

No entanto, não chegou a um apelo há muito exigido pela “eliminação progressiva” do petróleo, do carvão e do gás, apoiado por mais de 100 nações.

“Não é suficiente fazermos referência à ciência e depois fazermos acordos que ignoram o que a ciência nos diz que precisamos de fazer.”

Anne Rasmussen, negociadora principal, Samoa

“É uma direção para o nosso objetivo, mas não é suficiente”, disse Fatima Yamin, conselheira sobre adaptação climática e desastres climáticos no Paquistão.

“Infelizmente, as decisões críticas sobre o financiamento da adaptação e a elevação do nível do fundo para perdas e danos não foram alcançadas.

“Sim, a ‘transição dos combustíveis fósseis’ é crítica, mas os países em desenvolvimento precisam de tecnologia e de fundos para se adaptarem, o que não será tão eficaz se as decisões sobre os fundos de adaptação não forem aceleradas.”

O acordo diz que os países precisam de apresentar um plano nacional de adaptação até 2030, mas não diz de onde deverá vir o dinheiro.

Um relatório da ONU divulgado em novembro descobriu que os países em desenvolvimento precisarão de até 18 vezes mais financiamento do que recebem atualmente para suportar os impactos da mudanças climáticas.

Durante as conversações, os países comprometeram menos de 200 milhões de dólares para o Fundo de Adaptação das Nações Unidas, que ajudará as comunidades vulneráveis ​​a modificar práticas face às alterações climáticas.

Rascunho do texto deslocado

Um projecto de texto divulgado na segunda-feira foi amplamente criticado pela sua linguagem fraca sobre a redução dos combustíveis fósseis. A Aliança dos Pequenos Estados Insulares descreveu-o como uma “certidão de óbito” para os seus habitantes.

O presidente da COP28, Sultan Al Jaber, que também é chefe da Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi, foi aplaudido de pé quando bateu o martelo sobre um acordo final na manhã de quarta-feira, apesar de evitar as palavras controversas “eliminação gradual”, contestadas por a Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

“Pela primeira vez temos linguagem sobre combustíveis fósseis”, anunciou Al Jaber, sob aplausos.

Jauad El Kharraz, diretor executivo do Centro Regional de Energia Renovável e Eficiência Energética, disse que o acordo final foi uma “formulação de compromisso” entre aqueles que apoiam o fim total dos combustíveis fósseis e “as partes que se recusam a cortar os combustíveis fósseis em dos quais as suas economias dependem”.

“Isto pode ser considerado um passo que pode ser construído sobre uma assinatura do fim da era dos combustíveis fósseis”, disse ele.

Falta financiamento

Referindo-se à meta acordada nas conversações COP21 de 2015 em Paris para limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, Kenzie Azmi, ativista do Greenpeace no Médio Oriente e Norte de África, disse: “É um passo mais próximo, mas não irá cumprir a ambição exigida pelo objetivo  de limitar o aquecimento a 1,5 Celsisus.

“As comunidades que estão na linha da frente da catástrofe climática precisam de mais do que isto.

“Eles precisam de ver um compromisso inabalável e resoluto com uma eliminação rápida, equitativa e bem financiada de todos os combustíveis fósseis, juntamente com um pacote financeiro abrangente para os países em desenvolvimento fazerem a transição para as energias renováveis ​​e lidarem com os crescentes impactos climáticos.”

Ela disse que o acordo carecia de meios suficientes para alcançar uma transição para a energia verde “de forma justa e rápida”.

“O novo texto não proporciona qualquer financiamento adicional sustentado para adaptação ou mitigação, o que é muito necessário para que possam fazer uma transição justa para longe dos combustíveis fósseis para lhes permitir lidar com os impactos climáticos, adaptar-se a eles e fazer a transição para longe dos combustíveis fósseis. combustíveis”, acrescentou ela.

Mohamed Adow, diretor da organização climática Power Shift Africa, sediada no Quênia, afirmou: “A transição pode ser rápida – o texto apela a uma transição para longe dos combustíveis fósseis nesta década crítica. Mas [isso] não é financiado nem justo.

“Ainda falta financiamento suficiente para ajudar os países em desenvolvimento a descarbonizarem-se.

“É preciso haver maior expectativa por parte dos produtores ricos de combustíveis fósseis de eliminarem gradualmente primeiro.”

“Também precisamos de muito mais apoio financeiro para ajudar as pessoas vulneráveis ​​a adaptarem-se aos impactos do colapso climático”, acrescentou.

A Aliança dos Pequenos Estados Insulares queixou-se de que a sua delegação não estava presente quando a decisão foi tomada. Afirmou que o texto não respondeu adequadamente à ciência climática.

“Não é suficiente fazermos referência à ciência e depois fazermos acordos que ignoram o que a ciência nos diz que precisamos de fazer”, disse a negociadora principal Anne Rasmussen, de Samoa.

“Esta não é uma abordagem que devamos ser solicitados a defender.”

Perdas e danos

A conferência começou com uma votação histórica para dar início ao Fundo para Perdas e Danos, acordado na COP27 do ano passado no Egipto. O fundo foi criado para pagar a destruição provocada pelas alterações climáticas em países vulneráveis.

No entanto, os países ricos comprometeram apenas 700 milhões de dólares – uma fracção dos 100 mil milhões de dólares ou mais pretendidos pelos países em desenvolvimento para responder às catástrofes climáticas.

“Embora tenhamos prometido 700 milhões de dólares para o Fundo de Perdas e Danos operacionalizado, não é suficiente para satisfazer o financiamento necessário para ajudar as comunidades vulneráveis ​​em todo o Sul global a financiar as catástrofes incorridas pelo impacto climático”, disse Azmi do Greepeace.

El Kharraz disse que outros resultados positivos para os países em desenvolvimento incluem compromissos para triplicar as energias renováveis, melhorar a resiliência dos sistemas alimentares e reduzir as emissões de metano.


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Este artigo foi produzido e escrito originalmente em inglês e publicado pela edição Global do SciDev.Net [Aqui!].

Porto do Açu: tese de doutorado defendida na Uenf revela que as promessas mirabolantes de um “futuro glorioso” não foram cumpridas

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Estou finalmente podendo disponibilizar para conhecimento e leitura a tese de doutoramento do meu ex-orientando e agora Doutor em Ecologia e Rccursos Naturais, José Luiz Pontes Silva Junior, que foi defendida no âmbito do Programa Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais (PGERN) da Universidade Estadual do Norte Fluminense.

O estudo intitulado “Megaestruturas portuárias e ausência de governança costeira na ruptura da resiliência socioecológica: o caso do Porto do Açu” representa um esforço de analisar de forma compreensiva os efeitos socioecológicos resultantes da implantação de um megaempreendimento portuário em uma região de alto interesse ecológico e habitado secularmente por agricultores familiares que ali estabeleceram sistemas agrícolas bastante adptados às condições ambientais existentes.

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Como orientador deste trabalho de doutoramento, considero que o mesmo produziu uma quantidade impressionante de dados, os quais foram analisados de forma objetiva com o uso de teorias científicas consolidadas e aceitas pela comunidade científica. Noto ainda que o agora doutor José Luiz Pontes Silva Junior realizou um exaustivo trabalho de campo no V Distrito de São João da Barra onde levantou uma gama impressionante de informações que agora estão sendo disponibilizadas na forma de uma tese de doutorado.

Dentre os resultados mais importantes deste trabalho, destaco que de forma bastante objetiva se chegou a diversas conclusões. A primeira delas é que como outros megaempreendimentos, o Porto do Açu tem prós e contras para a sua área hóspede (no caso o V Distrito de São João da Barra.. Entretanto, os resultados da pesquisa mostram benefícios propagados pelos gestores do Porto do Açu não condizem com a realidade. Na verdade, a pesquisa constatou que  uma amplitude dos impactos negativos socioambientais e  econômicos ocasionados no decorrer da construção e operação portuária é superior aos benefícios trazidos para o município e seus cidadãos, especialmente os agricultores familiares.

Há que  destacar ainda que  a perda de terras devido às desapropriações, a salinização das águas, a diminuição de renda e o aumento no arrendamento de terras foram identificadas como sendo as principais transformações socioecológicas dos agricultores familiares no período posterior ao Porto do Açu.

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Diante deste cenário, o estudo concluiu que o problema não é o Porto do Açu em si, mas a forma célere e sem o devido planejamento com que este megaempreendimento foi projetado, licenciado, autorizado e inserido no território sanjoanense. Além disso, a ausência de Governança Costeira neste recorte territorial teria influenciado negativamente no ordenamento territorial, na proteção dos recursos naturais e na qualidade de vida da população local.

Em outras palavras, nem todo o “Greenwashing” ou o “Corporate Washing” que tem sido executado para dar uma imagem positiva ao Porto do Açu consegue anular as evidências de que o empreendimento tem tido efeitos desastrosos para a população do V Distrito e para os ecossistemas naturais com as quais ela havia estabelecido mecanismos de co-existência.

Quem visualizar o arquivo contendo a tese de doutorado de José Luiz Pontes Silva Junior, basta clicar [Aqui!]. Quem desejar o arquivo completo, basta enviar uma mensagem para o endereço eletrônico do “Blog do Pedlowski” que eu farei o envio do mesmo.

Fêmeas de sabiás com ninhos em prédios são mais destemidas do que as que permanecem nas árvores

Indivíduos têm personalidades diferentes que podem interferir na adaptação ao ambiente urbano

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(Foto: Augusto Batisteli)

Fêmeas “destemidas” de uma espécie de sabiá – sabiá-barranco (Turdus leucomelas) – estão melhor preparadas para adaptação ao ambiente urbano que suas colegas medrosas, mostrou estudo desenvolvido no campus da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em São Carlos (SP). A pesquisa, conduzida por Augusto Florisvaldo Batisteli, hoje doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais (PPGERN) da UFSCar, investigou a personalidade das fêmeas por meio da diferença de comportamentos entre elas na escolha de locais para a construção de ninhos.

O experimento realizado, com orientação de Hugo Sarmento, docente no Departamento de Hidrobiologia (DHb), mostrou que as fêmeas com ninhos em árvores têm mais medo de situações desconhecidas do que aquelas com ninhos em construções humanas, como prédios, que se mostram mais destemidas.

Em etapa anterior da pesquisa, Batisteli havia identificado vantagens para o animal em fazer ninho em prédios, relacionadas, por exemplo, ao tempo de incubação, conforme divulgado no Portal da UFSCar. O pesquisador quis então entender se os indivíduos da espécie apresentavam diferenças de personalidade e se elas poderiam ter relação com a escolha do local para o ninho. Estudos de outros pesquisadores já indicavam, neste sentido, a predominância de certas personalidades animais em ambientes modificados pela ação humana, mas sem testar se isso interferia na sua habilidade de exploração dos recursos oferecidos por esses locais.

Para a análise da personalidade, o pesquisador fez testes de neofobia – que avaliam a aversão a situações desconhecidas. 

Quando o animal saía do ninho, Batisteli inseria um objeto desconhecido (cubo mágico ou uma pequena bolinha) próximo ao local. Depois, media o tempo que a fêmea demorava para voltar a incubar os ovos durante os testes.

Apenas as fêmeas de ninhos em árvores foram inibidas pela presença do objeto, demorando mais tempo para voltar ao ninho, na comparação com o momento no qual não havia nenhum objeto. “Elas demoravam 4 min e 42 segundos para voltar a incubar os ovos em uma situação neutra, e 8 minutos e 45 segundos para voltar quando havia um objeto estranho ao lado do ninho – uma diferença de 86%”, analisa o pesquisador. As fêmeas com ninhos em construções não foram inibidas pelos objetos estranhos próximos ao ninho – voltaram no tempo habitual, sendo indiferentes à intervenção.

Os achados mostram a espécie se adaptando ao ambiente urbano, mas é preciso olhar crítico para esta conclusão.

“Podemos ficar com a impressão de que, um dia, todas as espécies vão se adaptar facilmente às cidades, mas não é isso o que acontece. Algumas jamais conseguirão habitá-las, por necessitarem de locais estritamente florestais, sombreados, úmidos e brejosos”, exemplifica o biólogo. Para as que toleram as cidades, também há outro processo: desenvolver as adaptações. “Além disso, não sabemos onde essa adaptação vai parar e, principalmente, o que vai acontecer com o resto da espécie que não está adaptado. Outra questão envolve conflito com os humanos, caso a ave passe a explorar muito intensamente o ambiente, entrando nos prédios, por exemplo.” 

Para o pesquisador, a tese tem caráter inovador por dois principais fatores: estudar reprodução de aves que não usam apenas as florestas para o processo; e analisar a personalidade desses indivíduos. 

“Os biólogos passaram a olhar melhor as diferenças entre os indivíduos recentemente. O enfoque mais comum ainda é olhar para as populações, os grupos de indivíduos, como se fossem clones uns dos outros, mas não são”, situa. 

Segundo Batisteli, a Ciência evidencia padrões na Natureza, mas o mecanismo pelo qual os indivíduos levam ao surgimento desses padrões na espécie ainda é uma incógnita. “A população não decide; quem toma decisões é cada um dos indivíduos. Por isso, ainda estamos tentando entender como as decisões individuais levam a esses padrões populacionais”, conta.

Os estudos não param nestas descobertas. Agora, em seu pós-doutorado, realizado na Universidade Estadual Paulista (Unesp), com supervisão de Marco Aurélio Pizo Ferreira – docente no Departamento de Biodiversidade da Unesp – e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estão de São Paulo (Fapesp), Batisteli investiga se os indivíduos já nascem com personalidade diferente ou se a adquirem mais tarde, após interação com o ambiente. 

Dados detalhados sobre a pesquisa de personalidade em sabiás-barrancos foram publicados em artigo, na revista científica Animal Behavior, que pode ser acessado neste link.