O Pantanal, no Brasil, um paraíso de biodiversidade devastado pelas chamas

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Por Bruno Meyerfeld para o Le Monde

O Pantanal, lar de flora e fauna excepcionais, é apenas uma sombra de si mesmo. Mais de 16.000 disparos foram registrados na região desde o início do ano.

Aqui, um jacaré morreu carbonizado, seu eterno sorriso reptiliano nos lábios. Mais adiante, o crânio de um grande búfalo repousa sobre o solo rachado e cor de carvão. Em outro lugar, entrelaçados com raízes e troncos de árvores chamuscados, estão os restos sinistros de uma serpente do pântano, congelada em sua fuga desesperada das chamas.

No final da estação seca, o Pantanal brasileiro parece um cemitério. Assolada por gigantescos incêndios desde julho, essa área de excepcional biodiversidade, que abriga cerca de 650 espécies de aves, 98 de répteis e 159 de mamíferos, já perdeu, segundo especialistas, de 20% a 25% de sua área, ou 3 milhões a 4 milhões de hectares viraram fumaça. O equivalente à área da Bélgica ou Suíça.

Para compreender toda a extensão da hecatombe, é necessário seguir pela Transpantaneira, uma estrada lendária que, durante 150 km, atravessa a região de norte a sul, da cidade de Poconé à de Porto Jofre. Há alguns meses, o visitante que passava era transportado para lá em uma paisagem preservada, toda de turfa e lagoas, vasto pântano que lembra a Camargue dos trópicos, reino das onças, antas, tamanduás e sucuris gigantes, araras de plumagem azul meia-noite e limícolas tuiuiú com babados ruivos… Um paraíso do ecoturismo.

panta 1Ao longo da Transpantaneira, estrada que corta o Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil, em 22 de setembro. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

Tudo mudou neste ano com a chegada da seca. Neste mês de setembro, abaixo de 40 ° C, o Pantanal não é mais do que uma sombra de si mesmo: florestas carbonizadas, cor de carvão, sucedem-se a rios e lagos secos, listrados como pergaminho velho.

Desde o início do ano, foram registrados 16.000 incêndios na região, contra apenas 6.000 no mesmo período de 2019. Apesar da calmaria recente, graças a poucas chuvas, podemos ver aqui e ali, ainda muitos incêndios começam. Uma espessa fumaça ocre cobre constantemente o horizonte, às vezes até o céu. Durante o dia, o sol costuma ser invisível.

É impossível saber quantos milhares de animais morreram no desastre. Os sobreviventes, por sua vez, parecem pobres. Ao longo da estrada percorrem macacos exaustos, lontras e raptores, impelidos pela seca, em busca de alimentos indetectáveis. Na borda dos últimos pontos de água, muitas vezes grandes poças de lama, crocodilos e aves pernaltas se reúnem às dezenas, competindo ferozmente pelos últimos centímetros de remanso disponível. A menor carniça torna-se presa de abutres de barriga vazia.

panta 2Bombeiros combatem incêndios na ecorregião do Pantanal, dos quais mais de 2,9 milhões de hectares foram afetados pelos incêndios. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“É o caos total”

Não são apenas os animais que sofrem. Os homens estão exaustos e exaustos, a começar pelos bombeiros da região, que vieram combater as chamas. Encontramos um grupo, ao cair da noite, bem perto de Poconé, em um cara a cara com uma fogueira. Um pequeno caminhão-tanque descarregou rapidamente e uma escavadeira: os meios são irrisórios para este punhado de bombeiros, confusos sobre o que fazer a seguir, sem estratégia ou proteção adequada.

“É o caos total”, covarde, irritado, o coronel Paulo Barroso, carioca de 49 anos, carismático chefe dos bombeiros da região. “Não temos helicópteros, estou perdendo pelo menos vinte tanques e só tenho algumas dezenas de homens para lidar com centenas de incêndios. Devemos apagar o fogo cuspindo neles! Ele ficou furioso. Por falta de alternativa, os bombeiros ficam reduzidos a abrir aceiros, “corredores” cavados com retroescavadeira no mato e borrifados com água para cortar o caminho do incêndio e evitar que se alastre, na maioria das vezes por vão.

Um dos muitos incêndios que devastaram o Pantanal, uma vasta área de biodiversidade que abriga 650 espécies de pássaros.

Um dos muitos incêndios que devastaram o Pantanal, uma vasta área de biodiversidade que abriga 650 espécies de pássaros. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“Esses incêndios são incontroláveis”, resmunga o Coronel Barroso, que explica: “No Pantanal, as estradas são poucas e o acesso é muito difícil. O vento aqui muda constantemente de direção. Os lagos estão secos e você precisa viajar de 80 a 100 quilômetros para recarregar as baterias. “

As chamas são particularmente traiçoeiras: “No Pantanal, temos o que se chama de“ incêndios subterrâneos ”: com secas e enchentes sucessivas, muita matéria orgânica altamente inflamável se acumula no subsolo. O fogo pode se espalhar, se espalhar sob a superfície do solo e explodir em qualquer lugar, a qualquer hora! », Explica o bombeiro.

O esqueleto de uma cobra em uma árvore carbonizada ao longo da Transpantaneira, a estrada que corta o Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil.O esqueleto de uma cobra em uma árvore carbonizada ao longo da Transpantaneira, a estrada que corta o Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“O parque foi abandonado”

No parque regional Encontro das Águas, o maior santuário de onças pintadas do planeta, logo ao sul da Transpantaneira, próximo a Porto Jofre, a ajuda foi esperada durante semanas. Em vão. 85% dos 109.000 hectares da reserva viraram fumaça. “Ninguém, nenhum bombeiro veio nos ajudar. O parque foi abandonado. Tivemos que combater o fogo sozinhos e fazer  aceiros  ” , afirma Ailton Lara, 40, guia turístico e gerente do hotel Jaguar Camp, considerado um dos melhores conhecedores do Pantanal.

“Os bombeiros intervieram prioritariamente para salvar fazendas ao invés de parques. O governo defendeu o agronegócio em vez do turismo e da pecuária ”, lamenta o guia. Resultado: onde se cruzam os rios São Lourenço e Piquiri, quase tudo se incendiou, desde as florestas secas de palmeiras até a grama úmida na superfície da água. “O fogo foi tão forte que conseguiu pular rios  [às vezes com mais de 200 metros de largura]  ”, ainda se espanta Ailton Lara. As onças assustadas, geralmente ferozes, encontraram refúgio até nas casas e hotéis de Porto Jofre.

panta 3Um incêndio no coração do Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

Precisando de turistas, os rios do parque agora são percorridos por grupos veterinários de barco, despachados pelo estado de Mato Grosso, que vieram ver os estragos e salvar o que pode ser salvo. Sob um arbusto, eles avistam uma onça sonolenta com as patas queimadas. “Está tudo bem, cura bem!” », Tranquiliza um dos zooterapeutas em fadiga. Rio acima, um búfalo de olhar opaco e cascos carbonizados não consegue mais se levantar. Jogamos repolho, cenoura, mamão, que ele engole com dificuldade. Mais tarde, ao anoitecer, os cientistas retornarão para acabar com ele com uma arma. “Ele estava condenado. Abreviamos o seu sofrimento ”, explica um deles. 

panta 4Veterinários tratam de uma paca, um roedor endêmico do Pantanal, cujas pernas foram queimadas pelos incêndios de 22 de setembro. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

Meios muito limitados para salvar animais

É difícil ajudar os animais. Perto dos últimos pontos de água, bombeiros e veterinários estão instalando dezenas de comedouros, caixas azuis cheias de frutas e vegetais tropicais. “O problema número um agora é a fome, que pode matar ainda mais do que as chamas”, insiste Luciana Cataldi, 46, veterinária voluntária que veio de São Paulo para dar uma mão e ajudar. A operação não é isenta de riscos: “Se alimentarmos os animais em demasia, eles correm o risco de perder o instinto selvagem e de se tornarem dependentes dos humanos. É um verdadeiro dilema ”, explica ela .

panta 5Um búfalo selvagem, cujas pernas foram queimadas nas fogueiras, recebe alimento, no Parque Nacional Encontro das Águas, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

Às vezes, as equipes ainda conseguem capturar e resgatar um animal ferido. “Usamos zarabatanas e flechas embebidas em tranquilizante. Mas isso também é muito complicado ”, continua Luciana. O jaguar, nadador experiente, pode, após ser atingido por uma dessas flechas, mergulhar em um rio para fugir e se afogar, com os músculos paralisados ​​pelo sedativo.

Os poucos animais sobreviventes são conduzidos a um pequeno posto de cuidado na entrada da Transpantaneira. Aqui, novamente, os meios são muito limitados: o local só pode acomodar um pequeno número de animais, colocados em um pequeno abrigo de concreto. No dia da nossa visita, um wader tuiuiú nervoso com a asa quebrada e um pequeno roedor de paca , queimado nas pernas, dividiram o local. Os veterinários atuam ali com os meios disponíveis, à luz de uma luminária de mesa e sobre uma toalha de banho suja. “Os animais estão traumatizados, muito estressados. É comum eles morrerem depois de serem trazidos para cá ”, admite Luciana Cataldi.

panta 6Voluntários vêm em auxílio do jabiru-americano, uma grande ave pernalta às vezes chamada de tuiuiu, emblema do Pantanal. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

No entanto, há um animal que resistiu aos incêndios melhor do que os outros: a vaca da fazenda de casaco branco, cujas dezenas de milhares de cabeças ainda pastam pacificamente nas vastas planícies úmidas do Pantanal. Como se nada tivesse acontecido.

“A responsabilidade dos agricultores! “

Segundo as ONGs, isso está longe de ser uma coincidência: “Este desastre é antes de mais nada o resultado da ação humana e a responsabilidade dos agricultores é óbvia! », Denuncia Alcides Faria, biólogo e diretor da organização ambientalista Ecoa.

panta 7Quatis, pequenos mamíferos próximos a guaxinins, em busca de alimento em uma área queimada do Pantanal, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“Todos os estudos mostram que esses incêndios começaram com queimadas [apagadas] em várias fazendas próximas a Poconé”, continua, lembrando que “todos os dias, 70 km 2 a 80 km 2 de floresta pantaneira são arrasadas pelos criadores ”, ajudando a secar um pouco mais o solo.

Acusações rejeitadas em bloco pelos agricultores locais – os pantaneiros -, que apontam em primeiro lugar para uma seca histórica em curso, provável consequência do aquecimento global. Durante a última estação chuvosa, entre outubro de 2019 e março de 2020, o nível de precipitação no Pantanal caiu 40% em relação à média. Como resultado, o rio Paraguai, principal “torneira” e fornecedor de água do grande pântano, de repente secou. Em junho, atingiu seu nível mais baixo em cinco décadas: 2,1 metros de profundidade, contra pelo menos 5,6 metros usuais.

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Uma área queimada ao longo da Transpantaneira, no estado de Mato Grosso, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“Não temos nada a ver com este drama! “, Insiste Arlindo Moraes, um forte e bronzeado dirigente do sindicato rural da região, que recebe nas suas instalações em Poconé, cuidadosamente pintadas de verde. “O agricultor pantaneiro ama a natureza, ele protege. Sua maior felicidade é ouvir o canto dos pássaros no início da manhã! », Explica Ele , incriminando os defensores do meio ambiente. “A carne é um bombeiro natural, limpa o solo das ervas daninhas, evita o acúmulo de biomassa, que é usada como combustível para incêndios. Ao contrário do que dizem as ONGs, esta região precisa de mais gado! “

“Vai demorar muito para a natureza se regenerar”, explica o guia Ailton Lara

O drama parece resultar de uma série de fatores. Mas se há alguém cuja responsabilidade é quase unânime, é o presidente Jair Bolsonaro. “O governo não tomou medidas preventivas para se antecipar aos incêndios e acabou com as operações de fiscalização dos órgãos ambientais, que intimidavam os agricultores”, lembra o biólogo Alcides Faria. Cientistas também apontam para o papel do desmatamento na Amazônia, incentivado pela atual potência. Isso teria um impacto significativo no ciclo das chuvas no Brasil, em particular no centro e no sul do país.

Com um presidente Bolsonaro firmemente no poder e as mudanças climáticas continuando, as perspectivas são sombrias para o Pantanal. “Vai demorar muito para a natureza se regenerar, não apenas dois ou três anos”, explica o guia Ailton Lara. Não tenho certeza se os pantaneiros vão esperar tanto tempo. “Para sobreviver ao declínio do turismo, as pessoas provavelmente se voltarão ainda mais para a pecuária. Aumenta o risco de desmatamento e queimadas… ” Um círculo vicioso que pode acabar transformando o pântano em deserto.

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Este texto foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Na ONU, Bolsonaro mente em dizer que Brasil ajuda a alimentar o mundo

Mais de 60% das exportações do agronegócio vão para ração. A agricultura familiar, que produz comida de verdade, não tem incentivo para plantar. Muito menos para exportar

soja 1O que Bolsonaro não disse na ONU é que itens exportados pelo agro, como a soja, alimentam o gado e a indústria de alimentos ultraprocessados

Por Cida Oliveira para a Rede Brasil Atual

São Paulo – “No Brasil, apesar da crise mundial, a produção rural não parou. O homem do campo trabalhou como nunca. Produziu, como sempre, alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas. O Brasil contribuiu para que o mundo continuasse alimentado.” Esta é mais uma das mentiras contadas pelo presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento na abertura da assembleia geral da Organização das Nações Unidas (ONU) nesta terça-feira (22).

Criada pelos militares na década de 1970, essa propaganda reiterada por Bolsonaro, de que o Brasil é o celeiro do mundo, é enganosa e mal intencionada. E atende aos interesses de latifundiários que, incentivados pelo governo, passaram a se dedicar ao cultivo da soja regada a altas doses de agrotóxicos, que contaminam o solo, rios e aquíferos, em grandes extensões de terra para exportação. “Alimentar essa ideia é vender uma imagem positiva das grandes fazendas, como produtoras de alimentos para o Brasil e o mundo”, afirma o professor e pesquisador Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).

Não mata a fome

O que Bolsonaro não falou na ONU é que a soja é o principal item da pauta de exportações do agronegócio. O setor é um dos responsáveis pela sustentação de Jair Bolsonaro. No entanto, o grão não tem na alimentação humana a sua principal aplicação. Na Europa e na China, principais compradores, é usado em grande parte na produção de ração animal. Outro item é o milho, igualmente destinado em grande parte à alimentação animal e à indústria de alimentos, entrando como matéria prima para a fabricação do xarope que adoça sucos e refrigerantes, entre outros produtos. E o algodão sabidamente não mata a fome de ninguém.

“O aumento do consumo de carne bovina, suína e de aves e peixes, no entanto, nada tem a ver com fome”, diz Pedlowski. “E sim com a manutenção de um padrão de dieta criado e dominado pelas grandes corporações do setor de alimentos, baseado na grande demanda poralimentos ultraprocessados, calóricos e pouco nutritivos. “

Mapa da fome

Entre outros argumentos que desmistificam a falaciosa propaganda, o agrônomo Leonardo Melgarejo destaca uma contradição. “Como pode esse agronegócio que diz alimentar um bilhão de pessoas no mundo estar alheio ao que acontece no Brasil? Entramos, de novo, no mapa da fome!”, questiona.

O abismo entre a lucratividade do setor, que em ano de supersafra deverá arrecadar perto de meio trilhão de reais, e o custo dos alimentos que penaliza os mais pobres também desconstroi o mito, segundo Melgarejo. Outra coisa que Bolsonaro escondeu da ONU é que o arroz e o feijão estão sumindo do mercado, com preços elevados em 30% e 18%, respectivamente. Odesemprego, contando os que desistiram de procurar trabalho, atinge 30 milhões de brasileiros. “São 60 milhões os que dependem do auxílio emergencial, de pouco mais de 100 dólares, para comer. Não é evidente que estas curvas, a do crescimento da fome e miséria, e a dos ganhos cumulados por este agronegócio que define as falas do governo, crescem juntas, mas com efeitos opostos? A soja matou a fome de quem? Seu avanço, nos rastros das queimadas, vai beneficiar a quem?”

Agronegócio nefasto

Em nome dessa pseudo missão de alimentar o mundo, o agronegócio avança sobre a Amazônia, o Pantanale o Cerrado, derrubando e queimando a floresta. “Recentes estudos envolvendo a cadeia da carne demonstram que os grandes empresas brasileiras, JBS, Minerva e Marfrig estão envolvidos com fazendas desmatadas ilegalmente. E quando são encontradas evidências, dizem que não têm como controlar a cadeia da carne. E aceitam animais criados e abatidos em áreas de desmatamento ilegal muitas vezes em unidades de conservação e territórios indígenas. Então a cadeia da carne é o principal exemplo de que não tem latifundiário bom e latifundiário ruim”, aponta Marcos Pedlowski, da Uenf.

Coautor de um estudo publicado na última semana na revista científica Science, que demonstra que a área degradada na Amazônia é ainda maior que a desmatada, Pedlowski explica que o crescimento do desmatamento, para abertura de novos pasto e áreas agrícolas, nada tem a ver com o aumento da demanda internacional pela soja e pela carne. E sim pela falta de investimento no aumento dessas atividades. Pois a natureza não fez a Amazônia para esse tipo de agricultura intensiva e de grande escala.

Pantanal

“A dinâmica ecológica não suporta isso, porque a fertilidade dos solos depende da ciclagem dos materiais orgânicos da floresta. Com a sua derrubada, os solos vão se exaurir em um período de 3 a 10 anos. Por isso os produtores de soja buscam cada vez mais áreas. Nas que ficam para trás não nasce nem capim. Em Rondônia, que tem alguns dos melhores solos da Amazônia, já vi terrenos que ficaram completamente imprestáveis. Se for nos solos totalmente arenosos, o ciclo é ainda mais curto. Por isso a agrofloresta não só faz mais sentido ecológico, mas também econômico”, diz Pedlowski.

Assim, essa ação danosa do agronegócio predatório na Amazônia, que não considera os danos ecológicos, afetam até o regime de chuvas no Brasil. A questão do Pantanal é a mesma coisa. “Essas queimadas de 2019 e 2020 foram feitas por latifundiários que querem aumentar a sua área para pasto e para o plantio de soja. É a expansão da mesma lógica da Amazônia ocorrendo no bioma Pantanal.”

O problema, segundo Pedlowski, é que os latifundiários, propalados como homens do campo que ajudam a matar a fome do planeta, não se importam com nada disso. “Estão se lixando para isso porque têm o poder político e bélico para ocupar cada vez mais áreas para praticar uma agricultura ecologicamente insustentável. Latifundiário com consciência ecológica é tão inviável quanto usaragrotóxico com segurança. Não é a toa que os dois sempre andam juntos. Isso sem falar do trabalho escravo.”

Agricultura familiar

Enquanto o latifúndio que não produz alimento é supervalorizado, dotado de estruturas de financiamento, crédito subsidiado e incentivos fiscais, a agricultura familiar tem cada vez menos área, crédito e direitos. Os verdadeiros homens do campo que trabalham de sol a sol para garantir os alimentos consumidos pelos brasileiros são perseguidos por Bolsonaro.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura(FAO), em todo o mundo a agricultura familiar produz 70% dos alimentos mais consumidos.

O corte de recursos do setor, como o Programa de Cisternas e do Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), foi só o começo.

Em maio, já durante a pandemia, Bolsonaro excluiu os pequenos agricultores, silvicultores, pescadores artesanais e aquicultores do auxílio emergencial de R$ 600 por “contrariedade ao interesse público e inconstitucionalidade”.

E um Projeto de Lei apresentado ao Congresso em março para socorrer esses produtores de alimentos, o PL 735, só foi aprovado em agosto. No entanto, Bolsonaro vetou a maior parte da proposta convertida na Lei 14.048/2020. A canetada excluiu 14 dispositivos fundamentais para o atendimento emergencial, como o pagamento do próprio benefício de R$ 600, a criação de novas linhas de crédito emergencial do Pronaf, o Programa de Atendimento Emergencial à Agricultura Familiar – complemento emergencial ao PAA, a prorrogação do prazo para pagamento de dívidas e a suspensão de cobranças judiciais e execuções.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

O Pantanal em chamas

Mudanças climáticas e agronegócio brasileiro ameaçam maior área alagada do mundo

pantanalNo final de agosto de 2020, a fumaça de um incêndio florestal sobe perto do rio Cuiabá, perto do Pantanal no Brasil.  Foto: Reuters / Amanda Perobelli

Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

Este ano, o incêndio está mais forte do que nunca no Pantanal, no oeste do Brasil. O mar de chamas já devorou ​​vários milhares de quilômetros quadrados da maior zona úmida do mundo. A brigada de incêndio e as forças armadas têm lutado até agora contra o incêndio em vão. A área com status de patrimônio natural mundial da Unesco, que realmente requer proteção especial, enfrenta a pior tragédia ambiental de sua história.

De 1º de janeiro a 31 de agosto deste ano, o instituto de pesquisas espaciais INPE, responsável pelo monitoramento ambiental por satélite no Brasil, contabilizou 10.316 focos de incêndio no Pantanal, mais de três vezes mais do que no mesmo período do ano anterior. Desde o início da vigilância por satélite, em 1998, o INPE nunca registrou tantos incêndios nessa região nos primeiros oito meses do ano. No final de abril, as chamas devoraram uma área de 3.686 quilômetros quadrados, que é mais de quatro vezes o tamanho de Berlim.

Os especialistas presumem que, como em anos anteriores, a maioria dos incêndios foi deliberadamente iniciada para dar lugar a pastagens de gado e plantações de soja. “Quem ateia fogo no Pantanal é uma pessoa”, diz André Luiz Siqueira, da organização local de proteção ambiental Ecoa. »Os incêndios naturais são gerados por raios, que estão sempre associados à estação das chuvas. Mas como não choveu no Pantanal, fica claro que o homem é a causa principal «, explica a bióloga.

O desmatamento e a queimada andam de mãos dadas. Só em abril passado, um tribunal do estado de Mato Grosso do Sul autorizou a empresa agrícola Majora Participações a derrubar 42,5 mil hectares no Pantanal Sul. Mas a extensão da conflagração deste ano sugere outra causa: a possível mudança climática permanente. A zona úmida, que depende das chuvas e das inundações periódicas de seus afluentes do planalto central brasileiro, está passando atualmente por uma das piores estações de seca. De acordo com o Instituto Brasileiro de Pesquisa Agropecuária Embrapa, a estação chuvosa de outubro a março, importante para a bacia do Pantanal, registrou 40% menos chuvas do que a média dos anos anteriores.

Além disso, o principal afluente, o Rio Paraguai, tem tão pouca água este ano como não há quase cinco décadas. No município de Ladário, no Mato Grosso do Sul, onde os níveis de água são medidos há 120 anos, o nível de água em junho era de apenas 2,1 metros – 3,5 metros abaixo da média de longo prazo e o menor valor medido em 47 anos. Um estudo da Universidade Estadual de Mato Grosso também mostra que o volume de água do Rio Paraguai está diminuindo a cada ano. Para o diretor de pesquisas Ernandes Oliveira Júnior, isso é claramente uma consequência das mudanças climáticas. Marcos Rosa, geógrafo da rede de pesquisa MapBiomas, teme que “esta seja uma nova normalidade em decorrência das mudanças climáticas provocadas pelo homem, que estão mudando o ciclo das chuvas,

Já em 2015, seu colega Aguinaldo Silva, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul em Corumbá, alertava sobre as consequências potencialmente catastróficas das mudanças climáticas para o Pantanal. Sua equipe internacional de pesquisadores tem estudado mudanças ambientais na importante zona úmida desde 2000. “Podemos dizer com alguma certeza que o clima global está mudando e as temperaturas estão ficando mais quentes”, disse Silva. »Isso pode ter consequências dramáticas para o ciclo da água do Pantanal e alterar as enchentes anuais do Rio Paraguai. Podem ocorrer longos períodos de seca que têm um impacto negativo na flora e na fauna. ”

Para ele, porém, a maior ameaça ao Pantanal vem do planalto e das mudanças no balanço hídrico que ali ocorrem devido ao desmatamento do Cerrado e à disseminação das monoculturas de soja. “Os rios que deságuam no Pantanal nascem no Cerrado”, explica o geógrafo Marcos Reis Rosa. O desmatamento faz com que o solo perca sua proteção, o que torna os rios mais planos e assoreados. Hidrelétricas e barragens agravaram a situação. De acordo com dados oficiais, havia 41 usinas hidrelétricas nos afluentes do Pantanal em 2017, e mais de 100 estão em planejamento.

Outra causa da escassez de água no Pantanal é a destruição da floresta amazônica. Com a aceleração do desmatamento por lá, mudaram as estações das chuvas no Brasil, explica Vinícius Silgueiro, da organização não governamental Instituto Centro de Vida. “A Amazônia dá vida a praticamente todos os ecossistemas do continente.” No entanto, o aumento do desmatamento está afetando o “transporte fluvial”. Esse é um dos motivos pelos quais o Pantanal vive atualmente sua maior tragédia ambiental em décadas.

Os pesquisadores concordam que, se as ameaças não cessarem, o Pantanal de 150 mil quilômetros quadrados, lar de onças, jacarés e centenas de outras espécies de animais, extremamente rico em espécies, está prestes a entrar em colapso – e em um futuro não muito distante.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

‘As maçãs podres do agronegócio’: pesquisadores defendem estudo da Science com críticas à produção brasileira

Para grupo, não há como ocultar a gravidade do desmatamento ilegal, do descumprimento explícito do Código Florestal e das invasões de terras públicas no Brasil

desmatamentoEstudo avalia que em Mato Grosso, somente 3% dos imóveis possuíam de fato uma autorização para desmatar (Marcelo Camargo/ABr)

Um grupo de cientistas do Brasil se uniu para escrever uma carta em defesa do estudo liderado pelo pesquisador Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicado em julho na revista Science. O estudo, intitulado As maçãs podres do agronegócio, na tradução em português, levantou que pelo menos 17% da carne e 20% da soja produzidas nos biomas Amazônia e Cerrado e exportadas para a União Europeia estariam “potencialmente contaminadas” com o desmatamento ilegal.

A pesquisa despertou forte polêmica, sendo questionada por vários segmentos do agronegócio, entre entidades de produtores, representantes do governo e consultores. Essa reação, entretanto é “contraproducente”, de acordo com a carta assinada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, além da Fundação Florestal do Estado de São Paulo (SMA-FF) e também pelo climatologista Carlos Afonso Nobre, que já atuou no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e colaborou com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Para eles, “não há como ocultar a gravidade do desmatamento ilegal, do descumprimento explícito do Código Florestal, das invasões de terras públicas e protegidas, da apropriação de recursos naturais, dos incêndios criminosos, entre outros problemas associados ao mau uso da terra sob a ótica equivocada de expansão crescente e contínua das fronteiras de produção agropecuária. Tais problemas demandam soluções para as quais a Ciência pode, mais uma vez, ser uma importante aliada dos produtores rurais”.

De acordo com os cientistas signatários do documento, a reação do agronegócio ao estudo “despreza as contribuições científicas passadas e atuais para a eficiência e a sustentabilidade da agropecuária”. Além disso, assinalam que “vale lembrar que o Brasil só é uma potência agropecuária hoje, em grande parte, devido aos avanços científicos e tecnológicos”. Ainda segundo o documento, todos os avanços no setor agropecuário – inclusive os ligados à sustentabilidade – foram conquistados com “ciência robusta e ancorada em pesquisas sérias e auditadas”.

Desta forma, reafirmem, a pesquisa liderada pelo professor Rajão e publicada na Science seguiu os mesmos e sérios preceitos. “Como é a prática nessa revista, o estudo passou por um rigoroso escrutínio de vários editores e revisores”, lembram os cientistas, que continuam: “Eles auditaram a metodologia usada, os resultados obtidos e avaliaram se as afirmações contidas no artigo estavam sustentadas na ciência, na realidade de campo e nas análises feitas pelos pesquisadores”.

Ainda de acordo com a carta, as conclusões do estudo publicado na Science “convergem com as de muitos artigos científicos e de levantamentos regulares de dados oficiais feitos no Brasil”. E ainda “são conservadores” em relação à área de fato ilegalmente desmatada no País para a expansão do agronegócio. Segundo os cientistas, o estudo do professor Rajão olha para desmatamentos “comprovadamente ilegais”, e “qualifica provavelmente menos propriedades ilegais do que uma análise mais direcionada apontaria”.

Neste ponto, os pesquisadores discordam de críticas de consultorias do agronegócio, que argumentaram, ao rebater o estudo, que a ilegalidade de áreas desmatadas está “superestimada”, ao deixar de incluir nas análises algumas premissas, “como as autorizações de supressão (florestal) concedidas pelos Estados”. “É importante esclarecer que os números mostrados por este estudo na Science são conservadores”, reafirma a carta. “Por exemplo, visto a ausência de dados de autorizações de supressão de vegetação para todos os Estados, o estudo considerou todos os desmatamentos que respeitam as regras da reserva legal como ‘potencialmente legais’.”

Sob este aspecto, a carta menciona que o estudo avalia que em Mato Grosso – um dos poucos Estados que dispõem de dados -, por exemplo, somente 3% dos imóveis possuíam de fato uma autorização para desmatar, o que tornaria legal a retirada da floresta. “Ou seja, muito do desmatamento que o estudo considerou como ‘potencialmente legal’ na verdade tende a ser ilegal por não ter autorização, como mostra este exemplo do Mato Grosso”, dizem os pesquisadores.

Outro argumento utilizado pelos consultores do agronegócio e que não é factível, conforme a carta agora publicada pelos cientistas, é o de que as propriedades qualificadas no estudo do professor Rajão como “ilegais” poderiam estar compensando passivos florestais em suas propriedades em outras áreas, dentro do mesmo bioma. “Não poderiam, pois, de acordo com o Código Florestal a compensação não pode ser usada para viabilizar novos desmatamentos em propriedades que já tenham passivos”, dizem os pesquisadores.

Um dos signatários da carta, o pesquisador em Sustentabilidade de Cadeias Produtivas na Universidade Católica de Louvain, Tiago N. P. Dos Reis, lembra ainda que o mecanismo de compensação ambiental só pode ser feito em propriedades que desmataram antes do marco temporal definido pelo Código Florestal, de julho de 2008.

“Depois desta data o Código não permite o uso do mecanismo de compensação”, diz. Daí o argumento dos consultores não ser fundamentado, opina ele, reforçando o “conservadorismo” do estudo do professor Rajão. “O estudo publicado na Science foi conservador porque considerou de fato ilegais apenas aqueles produtores que já tinham passivo ambiental (antes de julho de 2008) e mesmo assim continuaram desmatando, ou seja, continuaram atuando na ilegalidade”, explica Reis. “Já para aqueles que tinham ativo florestal e excedente de reserva legal e desmataram depois de julho de 2008, o estudo não considerou como ‘ilegais’, embora eles possam ter desmatado ilegalmente caso o tenham feito sem autorização, o que é muito provável, mas que o estudo desconsiderou.”

Assim, na carta, os pesquisadores são enfáticos (apesar de repetirem que os números de propriedades ilegais do estudo de Rajão serem subestimados): “Logo, as propriedades que o estudo classifica como ‘ilegais’ são indiscutivelmente ilegais, e muitos desmatamentos que o estudo considera como ‘legais’ são potencialmente ilegais. O argumento da superestimativa, portanto está equivocado”.

A carta defende, ainda, que a crítica honesta ao estudo “é essencial para o progresso do conhecimento científico” e que Raoni Rajão e equipe usaram “dados públicos, metodologia aberta, transparente e replicável”. “Todos os resultados do artigo estão disponíveis e acessíveis para avaliação na própria revista Science e no site do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG”, dizem. “Dessa forma, é possível checar as premissas e auditar os dados e cálculos realizados.”

Adicionalmente, os cientistas lembram que “as críticas feitas à boa ciência por parte minoritária do agronegócio, sem argumentos robustos e embasamento, representam uma tentativa de usar o conhecimento científico somente quando for conveniente ou quando esses conhecimentos confirmam suas percepções e visões de mundo” dizem. “No entanto, cabe esclarecer que a Ciência não funciona assim.” E acrescentam: “Confrontar achados científicos com especulações e inverdades pode parecer uma resposta fácil, mas só nos mantém mais afastados das soluções reais e necessárias”.

Por fim, sentenciam que “não há trilha viável” para o agronegócio brasileiro se não forem equacionados seus equívocos e inconsistências legais, ambientais e sociais”. E dizem ainda que “uma grande parte do agronegócio está buscando se adequar de forma responsável às demandas da sociedade por sustentabilidade. Esta parte encontrará apoio no bom conhecimento científico”.

Os pesquisadores que assinam o documento são a professora titular da UnB em Ecologia de Ecossistemas, Mercedes Bustamante; o pesquisador em sustentabilidade de cadeias produtivas na Universidade Católica de Louvain, Bélgica, Tiago N. P. Dos Reis; o pesquisador Gerd Sparovek, coordenador do Laboratório de Geoprocessamento e Inteligência Estratégica e Espacial da USP e presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo; o professor de Sistemática e Ecologia da Esalq/USP, Ricardo Ribeiro Rodrigues; o pesquisador e climatologista Carlos Afonso Nobre, que teve atuação no Inpe e no IPCC;.

A íntegra da carta pode ser lida [Aqui!

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Este texto foi inicialmente publicado no “Portal Dom Total” [Aqui!]

Calote do agronegócio e grandes empresas com União penaliza servidores públicos e toda a sociedade

sijaFoto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

As mil maiores dívidas empresariais ativas com a União somam R$ 754,7 bilhões, valor suficiente para pagar 14 meses de auxílio emergencial. O montante é similar ao que o governo Bolsonaro alega ter “economizado” com a “reforma da previdência” aprovada pelo Congresso em 2019, que coloca em risco a aposentadoria de milhões de trabalhadores e pode inviabilizar até a existência de uma previdência pública.

E essa dívida é quase seis vezes superior ao que o governo federal pretende “economizar” – R$ 130 bilhões – ao proibir reajustes dos salários dos servidores públicos, medida aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente, apesar do seu caráter flagrantemente inconstitucional.

Quem trouxe esses números da dívida ativa foi o portal Brasil de Fato, em reportagem que mostra também o domínio do agronegócio e da mineração na lista dos dez maiores devedores. A mineradora Vale, com R$ 39,8 bilhões em dívidas, só fica atrás da Petrobras, cujo débito com a União alcança R$ 40,5 bilhões.

Responsável pelo desastre de Mariana, em novembro de 2015, no qual morreram 19 pessoas, a Samarco figura em 10º lugar na lista, devendo R$ 5,37 bilhões.

Agronegócio

O grupo Parmalat, pertencente à francesa Lactalis desde 2011, tem duas empresas entre as dez maiores devedoras: a Carital Brasil Ltda, em terceiro, com dívidas acumuladas de R$ 29 bilhões, e a PPL Participações Ltda, em sexto, que deve R$ 8,8 bilhões aos cofres públicos.

O Brasil de Fato mostrou ainda que outras três empresas do conglomerado estão entre as mil maiores dívidas: a Zirconia Participações Ltda (34ª), que deve R$ 2,6 bilhões; a Padma Indústria de Alimentos S/A (154ª), com débito de R$ 932 milhões; e a Isii Empreendimentos e Participações Ltda (173ª), que tem R$ 852 milhões em dívidas. Ao todo, o grupo soma R$ 42,3 bilhões de passivo com a União.

Na oitava posição entre as maiores devedoras está a Duagro SA Administração e Participações, com dívida de R$ 7,6 bilhões. A empresa pertence à Indústria JB Duarte S.A., que também é devedora de tributos e mantém uma dívida de R$ 288 milhões com a União, o que a coloca na posição de 706ª maior devedora do país.

Violência no campo e devastação ambiental

Como se fosse pouco o prejuízo econômico destes setores, o Brasil ainda sofre com a violência no campo, o trabalho escravo contemporâneo e a devastação ambiental de todos os seus grandes biomas, especialmente a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica e o Pantanal.

São atores que fazem parte das cadeias econômicas do agronegócio e da mineração, que muitas vezes convergem e atuam juntas na exploração dos mesmos territórios, os responsáveis diretos por dezenas de assassinatos – que acontecem a cada ano – de ativistas, líderes sindicais, ambientalistas, camponeses e outras referências de populações exploradas no campo.

Apenas em 2019 foram 32 assassinatos desse tipo, aponta o relatório “Conflitos no campo”, material produzido anualmente, desde 1985, pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Em junho, reportagem da Folha de São Paulo, com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostrou que o desmatamento na Amazônia completa 13 meses seguidos de crescimento, um fenômeno que, além dos danos socioambientais gravíssimos, pode causar muitos prejuízos ao Brasil no seu comércio exterior.

Apesar de tudo isso, nenhuma medida que reforce a cobrança dos devedores ou que imponha uma taxação maior do “andar de cima” da sociedade consegue avançar no Congresso e muito menos no governo. A conta sempre pesa sobre trabalhadores e trabalhadoras.

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Este texto foi inicialmente publicado no site da Federação Nacional dos Trabalhadores do Judiciário nos Estados (Fenajud) [Aqui!].

Carta denuncia “farsa das doações” das corporações que controlam plantio de árvores, commodities agrícolas, petróleo e mineração no Brasil

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Uma rede de organizações da sociedade civil e de movimentos sociais lança a carta “A farsa das doações no combate à COVID-19 nos setores de plantações de monoculturas de árvores, agronegócio, petróleo e mineração no Brasil”, em que denuncia a falsa solidariedade das empresas no contexto de crise sanitária em que o país está imerso. 

A carta expõe ações das empresas que aproveitam o momento de crise com a pandemia de Coronavírus para fortalecer a imagem de suas marcas com doações a populações em situação de vulnerabilidade, ao passo que seguem operando em meio a pandemia expondo os próprios trabalhadores ao risco de contaminação, como ocorre em vários municípios ladeados pelas empresas onde se verificou explosão de casos. A análise feita pelo grupo denuncia que o contexto de crise sanitária e, principalmente, as ações do Governo Federal levam a um fortalecimento das grandes empresas sobre os territórios.

As organizações e os movimentos sociais questionam a campanha de marketing empresarial beneficente veiculada pela rede Globo no jornal Nacional, a chamada “Solidariedade S.A.”, em que cita o caso da CMPC, empresa de produção de celulose no estado do Rio Grande do Sul, que doou R$ 70 milhões, o que representa meros 7% do faturamento de 2019. Denuncia, ainda, ação do Governo Federal que permitiu que as empresas de celulose renegociassem suas dívidas e lhes fosse concedido novos empréstimos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o que representa um ganho financeiro para as empresas que não aparece para a opinião pública. Verbas que, por outro lado, não foram empregadas para auxílio da população em um momento crucial.

A carta ressalta, ainda, o papel desempenhado pelos movimentos sociais e ONGs que — sem receber o mesmo papel de destaque na imprensa — prestam solidariedade a populações carentes das zonas urbana e rural doando alimentos, produtos de consumo não duráveis e material de limpeza com diversos casos em uma rede de apoio construída de Norte a Sul no país.

Quem desejar ler a carta em Português basta clicar [Aqui!], Espanhol [Aqui!], e Inglês [Aqui!].

Enquanto a boiada passa, governo Bolsonaro apresenta versão “para inglês ver” do agronegócio predatório

Ricardo-Salles-e-Tereza-Cristina-1024x585Dupla bem azeitada: enquanto Ricardo Salles deixa a porteira escancarada, Tereza Cristina continua passando a boiada.

Diga o que se disser da ministra Tereza Cristina, também conhecida como a musa do Veneno, ninguém pode dizer que ela não é uma pessoa que comanda o ministério da Agricultura do governo Bolsonaro com o devido grau de criatividade, no melhor estilo do mascate que vende gelo para esquimó.

Vejam abaixo, por exemplo, o vídeo produzido pelo Ministério da Agricultura em língua inglesa para vender uma imagem de responsabilidade ambiental e de alta inovação tecnológica da setor agropecuário brasileiro.

Se não soubéssemos do números recordes de desmatamento que estão ocorrendo em todos os biomas florestais brasileiros e da enxurrada de agrotóxicos altamente venenosos que foram liberados sob a batuta de Tereza Cristina, as imagens lúdicas e potencialmente inebriantes que são mostrados no vídeo fariam até os mais aguerridos dos críticos vacilarem por um momento.

O problema é que nós e o resto do mundo sabemos que essa vídeo pago pelo dinheiro público apresenta uma versão para lá de fantasiosa da realidade, e que brevemente os rolos de fumaça que subirão na Amazônia brasileira tratarão de mostrar a distância entre a propaganda e a realidade.

Mas vá lá. se algum incauto caia na conversa e resolva investir em uma agricultura que só existe nos estúdios que produziram a miragem acima, Tereza Cristina e sua equipe poderão continuar passando a boiada pela porteira que Ricardo Salles deixou aberta.

Multinacionais são financiadoras ocultas da Frente Parlamentar da Agropecuária

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Empresas como Bayer, Basf, BRF, JBS, Bunge, Syngenta e Cargill compõem as associações do agronegócio cujos recursos custeiam o Instituto Pensar Agro (IPA), por sua vez o motor logístico da FPA, o principal braço da bancada ruralista

Por Priscilla Arroyo para o “De olho nos ruralistas”

O Instituto Pensar Agropecuária (IPA) é praticamente invisível. Não tem site oficial e há poucas informações públicas sobre as atividades que mantém. O IPA se apresenta como uma instituição que presta suporte técnico à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), grupo de associações e empresas do setor que reúne 257 deputados e senadores. É o braço institucional mais conhecido da bancada ruralista, a maior do Congresso.

Na presidência da FPA está o deputado Alceu Moreira (MDB-RS). Ele assumiu o cargo em fevereiro, sucedendo Tereza Cristina, atual ministra da Agricultura. Na prática, o IPA e a FPA se confundem: as instituições têm o mesmo e-mail para contato e o mesmo endereço – uma casa no Lago Sul, em Brasília, onde os parlamentares se reúnem todas as terças-feiras.
As verbas do IPA são direcionadas para a FPA. Até aí, fato conhecido – e relatado pelos próprios congressistas. Fato menos conhecido: esses recursos são oriundos da contribuição de 38 associações mantenedoras do IPA, que pagam uma mensalidade de pelo menos R$ 20 mil cada uma. Isso significa R$ 760 mil no caixa por mês. E quem mantém as associações? Multinacionais. Grandes empresas brasileiras do setor. Bancos.

De Olho nos Ruralistas identificou as empresas ligadas a doze dessas associações e listou as que têm mais relevância na economia. Dessa lista, fazem parte 22 das 50 maiores companhias do agronegócio no Brasil, de acordo com a revista Forbes. Bayer, Basf, BRF, JBS, Syngenta, Bunge e Cargill são algumas delas.

Confira a lista:

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Líder mundial em sementes e pesticidas, a alemã Bayer lidera também o levantamento ao apoiar cinco entidades que financiam o Instituto Pensar Agropecuária. Entre elas estão a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan). A Monsanto, que pertence à Bayer desde o ano passado, contribui com três mantenedoras do IPA. A empresa produz o Roundup, um dos pesticidas mais usados no mundo e alvo de milhares de processos judiciais nos Estados Unidos por conta das suspeitas de causar câncer.

A produtora de químicos Basf dá suporte a quatro entidades, entre as quais o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg). A Cargill, que processa e exporta grãos e está presente em 17 estados e em 191 municípios do Brasil, está entre as empresas que compõem a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) – ambos apoiadores do IPA.

A lista de mantenedores indiretos da bancada ruralista inclui duas grandes multinacionais do tabaco, a Souza Cruz e a Philip Morris, ambas fiadoras da Associação Brasileira da Indústria do Fumo. Corporações como Nestlé, Aurora e Danone, da Viva Lácteos. Ou o grupo André Maggi, capitaneado pelo ministro da Agricultura do governo Temer, Blairo Maggi. A empresa ajuda a bancar a Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (Aprass) – uma das associações que têm mais influência na FPA, ao lado da Aprosoja.

“Tem dinheiro da Cargill? Tem”, diz o principal executivo 

O IPA, ou Instituto Pensar Agro, como também é conhecido, foi criado em 2011 e se apresenta como uma entidade representativa do setor que “debate estratégias para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro”. Possui cerca de dez funcionários, a maioria técnicos, que produzem material de apoio para a formulação de projetos de lei e discussões protagonizadas pelos 225 deputados da Frente Parlamentar da Agropecuária, ou 44% do total de votos da Casa. No Senado, o grupo ocupa 32 das 81 cadeiras.

 

mourão terezaTereza Cristina, Hamilton Mourão, Bolsonaro e Alceu Moreira: aliança. (Foto: Reprodução)

Os votos da FPA mostraram-se decisivos para a derrubada da presidente Dilma Rousseff, em 2016, com 50% dos votos, e manutenção do presidente Temer no poder, em 2017, com 55% dos votos. Esse braço da bancada ruralista – que se reúne também em organizações temáticas mais específicas, como o setor sucroalcooleiro e a silvicultura – foi também um dos fiadores da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República.

A relação entre os técnicos do IPA e os parlamentares da FPA é cultivada por meio de almoços semanais, nos quais são definidas as pautas a serem discutidas no Congresso. A imprensa é convidada a participar desses almoços, no saguão, à espera dos deputados e senadores que se reúnem em local fechado.

Na reunião desta terça-feira (21/05), por exemplo, foi convidado o secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Luiz Antônio Nabhan Garcia, a face remanescente da União Democrática Ruralista (UDR). Entre as pautas estão o Código Florestal e o licenciamento ambiental – a bancada ruralista defende um licenciamento mais “flexível”.

Foi em um desses encontros semanais no Lago Sul, em 2016, que a equipe do De Olho nos Ruralistas foi expulsa pelo principal executivo do IPA, João Henrique Hummel. Intitulando-se “dono da casa“, ele disse que os repórteres – que haviam acabado de entrevistar Alceu Moreira e o gaúcho Luís Carlos Heinze (PP-RS) – não podiam estar ali, por se tratar de lugar privado. Após o episódio, a assessoria de imprensa da FPA confirmou que o acesso era público, sem restrições a este ou aquele veículo.

Notem no vídeo que Hummel carregava uma pasta da Aprosoja, uma das associações que mantêm o IPA:

Em “Uma análise sobre a Frente Parlamentar da Agropecuária”, trabalho de graduação de Andressa Gonçalves Ferreira na Universidade de Brasília, a pesquisadora diz que “cabe também ao IPA, em conjunto com as entidades mantenedoras, custear as ações e estudos fornecidos à FPA”. Ela dedicou a monografia a colegas de trabalho nas duas instituições.

O próprio João Henrique Hummel explicou em junho, em entrevista que a Agência Pública definiu como “conversa com um lobista”, a origem dos recursos do Instituto Pensar Agro. “Tem dinheiro da Cargill? Tem”, disse ele ao repórter Vasconcelo Quadros. “Ela contribui com as associações, e as associações pagam aqui”.

Múltis e bancos se apresentam como sustentáveis

Além das gigantes do agronegócio, há importantes representantes do setor financeiro entre os integrantes da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), como Banco do Brasil, Santander e Itaú BBA –  divisão de atacado da maior instituição financeira do país. Fazem parte ainda dessa lista o Sicredi, a B3 (antiga Bovespa, bolsa de valores do Brasil) e o banco holandês Rabobank.

Entre as companhias que têm capital aberto e figuram na lista de apoiadoras das associações mantenedoras do IPA, algumas  fazem parte também do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, uma relação das empresas que têm alto nível de eficiência econômica, equilíbrio ambiental e justiça social de acordo com métricas da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Nessa lista, além de Banco do Brasil e Santander, estão a Duratex, uma das maiores produtoras de painéis de madeira do Brasil, e a Klabin, uma das mais relevantes produtoras e exportadoras de papéis. Ambas estão associadas à Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), uma das mantenedoras do Instituto Pensar Agro.

A lista de empresas que financiam indiretamente a Frente Parlamentar da Agropecuária é maior do que a reunida pelo De Olho nos Ruralistas – que não conseguiu identificar os financiadores de 26 das 38 associações que compõem o IPA. Entre elas está uma das principais, a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja).

Mas há pistas. Em setembro, a Aprosoja-MT  aprovou em assembleia a criação de um fundo para construir a Ferrogrão, ferrovia entre Sinop (MT) e Miritituba (PA). A obra orçada em R$ 12,7 bilhões foi uma ideia de cinco grandes multinacionais: Amaggi, ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company.

A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) – uma associação sem fins lucrativos – apoia 74 entidades filantrópicas no estado, entre elas a Santa Casa de Cuiabá e o Hospital do Câncer.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pelo site do Observatório do Agronegócio no Brasil, o “De olho nos ruralistas” [Aqui!].

Hegemonia chinesa e alta presença de agrotóxicos banidos caracterizam primeira rodada de liberações de 2020

agrotóxicos

Já comentei anteriormente a liberação de 16 agrotóxicos por meio do Ato No 13 de 2020 da Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento/Secretaria de Defesa Agropecuária (Mapa).  Mas como houve no mesmo dia, a promulgação do  Ato No 12, resolvi analisar a lista de 32 produtos que tiveram sua comercialização liberada por essa publicação.

Pois bem, a primeira coisa notável é que todos os 32 produtos (dos quais 2 são hormônios vegetais) são produtos técnicos, os quais passarão por outras etapas de preparo até serem colocadas no mercado.   Acrescido a isso, está o fato de que empresas localizadas na China respondem a 87,5% dos fabricantes primários, e basicamente os únicos, de todos os produtos técnicos liberados pelo Ato No 12 (ver gráfico abaixo).

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Não bastasse essa clara predominância chinesa, pude notar que apenas três empresas chinesas fornecem 65% dos produtos aprovados, o que configura uma clara concentração nos fornecedores, o que poderá ter implicações sérias para os importadores brasileiros, tanto em termos de oferta como de preço dessas substâncias.

Além disso, no tocante ao status na União Europeia, 37,5% dos produtos aprovados contém ingredientes ativos que estão proibidos pelo bloco (ver figura abaixo).

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Há ainda que destacar que o famigerado Fipronil, apontado como um dos agrotóxicos responsáveis pelo extermínio de abelhas no Brasil, teve 8 produtos liberados pelo Ato No 12, e curiosamente 6 deles com submissão realizada pela mesma empresa, a AllierBrasil Agro Ltda., sediada na cidade de São Paulo, e que tem como única fornecedora a empresa chinesa Lianyungang Avilive Chemical Co., Ltd.

Trocando em miúdos, a se considerar as características apontadas acima, o que vemos é um aprofundamento da influência da indústria chinesa no fornecimento de agrotóxicos (muitos deles banidos em outras partes do mundo) para saciar as necessidades de consumo do latifúndio agroexportador. Por outro lado, a China é a principal parceira comercial brasileira na aquisição de commodities agrícolas como a soja (que curiosamente responde por mais de 50% do consumo de agrotóxicos no Brasil. Resta saber quem está ganhando mais dinheiro com essa parceria envenenada. De cara, me parece que não é o Brasil que, na prática, acaba ficando com um enorme passivo ambiental e social por causa da parceria.

Quem desejar a conhecer a lista completa dos 32 agrotóxicos liberados pelo Ato No 12 de 2020, basta clicar [Aqui!]

O Risco Salles causará perdas bilionárias ao Brasil

salles desastreGestão ambiental desastrosa no MMA está criando o “Risco Salles”, o que deverá causar perdas bilionárias para o Brasil. © Tomaz Silva/Agência Brasil

O jornal alemão Frankfurter Allgemeine publicou uma entrevista com o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, Ricardo Salles, que deverá causar uma piora ainda mais acentuada na imagem já desgastada do Brasil não apenas na Alemanha, mas em todo o mundo (ver imagem abaixo).

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A entrevista traz várias das conhecidas “visões” que Ricardo Salles propaga sobre a atual situação ambiental no Brasil, misturando fantasias e horrores ao misturar a negativa de fatos objetivos da realidade com negação do conhecimento científico já firmado sobre a importância das florestas na mitigação das mudanças climáticas que estão em curso (e das quais o ministro de Bolsonaro é um conhecido cético).

Se a visão (vamos chamá-la assim) de Salles satisfazem a parcela do público interno que apoia o saque desenfreado das riquezas naturais existentes na Amazônia, o tour fracassado que o ministro está realizando na Europa deverá agravar ainda mais o isolamento político do Brasil, o que trará fortes consequências econômicas em um momento em que a economia nacional atravessa uma grave recessão.

Apenas para lembrar alguns fatos que reforçariam a necessidade do governo Bolsonaro ter uma atitude mais pragmática em relação às preocupações que estão emergindo em função das políticas anti-ambientais que estão sendo aplicadas desde o início de janeiro, eu citaria a suspensão dos desembolsos do chamado “Fundo Amazônia” pela Alemanha e pela Noruega, a interrupção definitiva da compra de soja brasileira por parte de uma cooperativa especializada na criação de salmão em cativeiro na Noruega, e o a suspensão temporária pela Nestlé da compra de café brasileiro por causa do excesso de glifosato. 

Todos esses fatos apontam para uma rejeição das anti-políticas ambientais que estão criando o que eu rotularia de “Risco Salles” para o Brasil.  A grande possibilidade é que a permanência de Ricardo Salles à frente do ministério do Meio Ambiente vá aumentar ainda mais os casos em que grandes fundos de investimento e corporações do porte da Nestlé decidam fazer seus negócios com outros países. E aqui não se trata como aventou o presidente Jair Bolsonaro de um interesse subliminar pelas reservas minerais existentes no subsolo amazônico. O problema é que nos países do capitalismo central (incluindo até os EUA) já é pacífico que estamos passando por um período de ajuste climático significativo, o que deixará pouco espaço para negócios com países governados por negacionistas do calibre de Ricardo Salles et caterva.  E com isso virão mais boicotes e banimentos de commodities agrícolas e minerais produzidas no Brasil. Simples assim!