O livro “A produção da fábula do agronegócio no Brasil: novas e velhas faces da dependência”, de Denise Elias, pesquisadora do Núcleo Fortaleza do INCT Observatório das Metrópoles, acaba de ser disponibilizado em nossa Biblioteca Digital. Publicada originalmente em 2025 pela Letra Capital Editora, a obra reúne décadas de pesquisa da autora sobre as transformações recentes da agropecuária brasileira e suas implicações socioespaciais.
No momento de seu lançamento, o livro esteve disponível apenas para compra, em uma iniciativa da pesquisadora de destinar integralmente os recursos arrecadados à Escola Nacional Florestan Fernandes, vinculada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A doação foi realizada em março de 2026, durante visita à escola, localizada em Guararema (SP). Com a ação concluída, a publicação passa agora a ser acessível em formato digital aberto ao público.
A obra se propõe a analisar criticamente o papel do agronegócio na reorganização do território brasileiro nas últimas décadas. Entre seus principais objetivos, destaca-se a desconstrução de mitos amplamente difundidos sobre o setor, como sua suposta capacidade de erradicar a fome ou de operar de forma ambientalmente sustentável, evidenciando as contradições entre crescimento econômico, concentração de renda e aprofundamento das desigualdades sociais.
A partir de uma abordagem ancorada na geografia crítica e fortemente influenciada pelo pensamento de Milton Santos, Denise Elias argumenta que o agronegócio globalizado atua como um dos principais vetores de reestruturação do espaço brasileiro desde os anos 1970. Esse processo, segundo a autora, ocorre de maneira seletiva e concentradora, promovendo a intensificação da urbanização, a formação de regiões produtivas especializadas e o agravamento das desigualdades socioespaciais no campo e nas cidades.
O livro também chama atenção para a dimensão ideológica do setor, ao tratar da construção de uma “fábula do agronegócio”, sustentada por discursos midiáticos e institucionais que ocultam seus impactos sociais, ambientais e territoriais. Nessa perspectiva, a análise articula economia política, urbanização e dinâmica regional, evidenciando como o avanço do agronegócio está associado tanto à financeirização da economia quanto à expansão de novas formas de controle sobre a terra e os recursos naturais.
Ao longo dos capítulos, a autora explora ainda conceitos como “regiões produtivas do agronegócio” e “cidades do agronegócio”, destacando o papel dessas formações na reconfiguração urbano-regional do país. Ao mesmo tempo, aponta para os conflitos e resistências que emergem nesses territórios, especialmente por parte de populações camponesas, povos tradicionais e movimentos sociais.
À medida que a inteligência artificial e as plataformas de nuvem avançam para os campos, uma nova aliança entre as grandes empresas de tecnologia e o agronegócio está transformando quem controla os alimentos e quem assume os riscos.
Por Monica Piccinini para “YourVoiz”
O IPES-Food, o Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis, divulgou o seu relatório
Head in the Cloudé um relatório que desafia uma das narrativas mais convincentes da agricultura contemporânea: que a digitalização oferece uma solução direta para a fome, instabilidade climática e declínio rural.
As conclusões do relatório são preocupantes. A rápida implantação de inteligência artificial, computação em nuvem e plataformas de agricultura de precisão não está focada nas prioridades dos agricultores. Em vez disso, a tecnologia agrícola está aumentando o controle corporativo sobre a produção de alimentos, aprofundando a dependência dos agricultores e acelerando os danos ambientais.
Uma nova aliança
Em várias regiões, grandes empresas de tecnologia, incluindo Amazon, Microsoft, Google e Alibaba, uniram forças com gigantes do agronegócio nas indústrias de sementes, agroquímicos e máquinas agrícolas. O resultado é uma infraestrutura digital cada vez mais integrada que alcança todas as camadas da agricultura industrial.
Esta figura ilustra algumas das principais colaborações entre empresas líderes de tecnologia e corporações agroindustriais e/ou instituições públicas importantes. A lista não é exaustiva, pois atores das grandes tecnológicas também estão atuando com uma gama mais ampla de organizações públicas, privadas e sem fins lucrativos. Imagem: IPES-Food.
Satélites escaneiam os campos, sensores remotos medem os níveis de umidade e nutrientes do solo, e tratores automáticos coletam dados à medida que se movem. Essas informações são enviadas para plataformas baseadas em nuvem onde algoritmos proprietários produzem recomendações, como qual variedade de sementes plantar, quando pulverizar as culturas e quanto fertilizante usar. Esses dados são usados para refinar produtos, influenciar mercados e gerar lucro.
Decisões sobre o que se qualifica como “inovação” e quais tecnologias recebem apoio do governo são frequentemente políticas. Essas decisões influenciam quem detém o poder no sistema alimentar.
Lim Li Ching, co-presidente da IPES-Food, descreve essa mudança em termos contundentes. Ela disse:
Estamos testemunhando uma tomada silenciosa da agricultura pelas Big Techs. Mas a agricultura por algoritmo não é o futuro que os agricultores pediram.
Sob a bandeira da inovação, gigantes da tecnologia estão consolidando o controle sobre a agricultura e o patrimônio biológico, deixando de lado os agricultores que já cultivam nossos alimentos de forma sustentável e resiliente.
Podemos escolher um caminho diferente. Precisamos reinventar e governar a inovação de forma diferente. É hora de resgatar a inovação para as pessoas e para o planeta.
Desigualdade
Sistemas digitais de agricultura são caros. Tecnologias de precisão exigem máquinas especializadas, software por assinatura, internet confiável de alta velocidade, treinamento técnico e contratos contínuos de suporte técnico. Para grandes operações industriais, essas despesas podem ser absorvidas como investimento de capital, mas para pequenos e médios agricultores, isso significa novos empréstimos e dívidas.
O relatório mostra como essas tecnologias criam dependência, descrita como lock-in tecnológico. Uma vez que um agricultor investe em uma máquina específica ou sistema digital, a troca se torna complexa e cara.
Maquinários, sementes e insumos químicos são frequentemente projetados para funcionar juntos dentro de plataformas proprietárias. Os dados podem ser armazenados em formatos não transferíveis, vinculando os agricultores a um único fornecedor e pressionando por atualizações contínuas para permanecerem competitivos comercialmente.
Pat Mooney, especialista em IPES-Food, alertou que essa concentração de poder ocorre em um momento perigoso. Ele disse:
A segurança alimentar mundial está mais incerta do que em décadas, em meio a crises globais crescentes.
Ainda assim, Big Tech e Big Ag estão avançando conjuntamente IA proprietária, plataformas de dados e biotecnologias que reduzem a diversidade quandoprecisamos de mais delas, alongam cadeias de suprimentos que deveriam ser encurtadas e concentram informações que deveriam ser compartilhadas entre os agricultores.
Mas nosso estudo mostra que inovações de baixo para cima, baseadas no ecossistema e lideradas pelos agricultores já estão respondendo às crises alimentares atuais – apesar das barreiras políticas e do investimento público limitado.
Em vez de mudar os problemas de raiz da agricultura industrial, as plataformas digitais frequentemente os fortalecem. Eles aumentam o uso de produtos químicos em grandes fazendas de monocultura em vez de reduzi-los. E, em vez de apoiar os sistemas alimentares locais, eles tornam as cadeias de suprimentos globais ainda maiores.
É como ficar preso na esteira. Os agricultores podem ver melhorias de curto prazo em eficiência ou produtividade, mas os preços logo caem e eles sentem pressão para investir novamente em novas tecnologias. Aqueles que não conseguem acompanhar, muitas vezes pequenos agricultores, são expulsos, levando a menos fazendas e ao declínio das comunidades rurais.
Em vez de tornar a agricultura mais igualitária, a agricultura digital poderia aumentar ainda mais a diferença entre grandes fazendas industriais e pequenos produtores comunitários.
Dados de 2002-2023 obtidos de Strömberg, L. & Howard, P., 2023. Imagem: IPES-Food.
Controle
Se a terra foi a fonte definidora dos antigos impérios agrícolas, os dados estão rapidamente se tornando a nova fronteira.
Os agricultores não possuem os dados gerados em suas próprias terras e, em muitos casos, não conseguem acessar os algoritmos que os transformam em orientação. Eles têm supervisão limitada sobre como seus dados são usados.
Nettie Wiebe, agricultora e especialista em IPES-Food, reflete sobre o que isso significa na prática. Ele disse:
Estamos recebendo uma visão de agricultura conduzida por IA e robôs. Mas a agricultura é construída com base no julgamento desenvolvido ao longo dos anos no campo. Quando os agricultores perdem o controle sobre nossos dados e decisões, perdemos o controle sobre nossas fazendas. Esse é um caminho perigoso.
A verdadeira inovação não vem do Vale do Silício – vem de agricultores, trabalhadores rurais e povos indígenas trabalhando com a terra e entre si.
Ao redor do mundo, agricultores estão desenvolvendo ferramentas, restaurando a fertilidade do solo, melhorando culturas para um clima em mudança e gerenciando pragas de forma ecológica. Isso é inovação de verdade. Isso constrói resiliência sem nos prender a dívidas ou dependências.
As ferramentas digitais focam mais em números e dados do que em experiências vividas. Povos indígenas e comunidades locais, cujo conhecimento agrícola protege a biodiversidade há séculos, muitas vezes são deixados de fora desses sistemas.
A pegada escondida
A agricultura digital é frequentemente apresentada como ambientalmente progressista, mas a infraestrutura por trás dela é intensiva em materiais e energia.
Os data centers consomem grandes quantidades de eletricidade e água. Servidores e dispositivos dependem de minerais extraídos de paisagens já sob estresse. Tecnologias de precisão podem reduzir ligeiramente o uso de produtos químicos, mas geralmente reforçam métodos agrícolas que prejudicam o solo e a biodiversidade ao longo do tempo.
A “nuvem” não é invisível, ela deixa uma pegada ambiental real.
Enquanto isso, alternativas lideradas pelos agricultores, melhoramento participativo, agroecologia e conservação comunitária de sementes recebem pouco apoio. Esses métodos constroem resiliência por meio da diversidade, conhecimento compartilhado e gestão de ecossistemas naturais, em vez de depender de tecnologia proprietária e cara.
Yiching Song, especialista em IPES-Food, destaca sua importância. Ela disse:
Nossa pesquisa mostra que sistemas de sementes liderados pelo agricultor e melhoramento participativo estão entre as respostas mais eficazes às mudanças climáticas e à perda de biodiversidade.
Essas inovações integram o conhecimento científico e dos agricultores, fortalecendo tanto os ecossistemas quanto os meios de subsistência. Se levamos a sério a ação climática, políticas e investimentos devem reconhecer e apoiar ativamente esses sistemas, não deixá-los de lado.
Política
O debate sobre a agricultura digital é, em última análise, sobre governança e poder.
Quem decide quais tecnologias são desenvolvidas e escaladas? Quem é o dono dos dados? Quem assume os riscos e quem se beneficia?
Em um momento de múltiplas crises, incluindo colapso climático, colapso da biodiversidade e instabilidade geopolítica, a segurança alimentar já é frágil. Concentrar o controle sobre seeds, dados e tomada de decisão em um punhado de corporações só adiciona mais uma camada de vulnerabilidade.
A IPES-Food está pedindo a governos e financiadores que criem regras mais rigorosas para que novas ideias e tecnologias sejam justas e responsáveis. Eles também querem que mais recursos sejam destinados a projetos locais, liderados pela comunidade, que focam na sustentabilidade. Além disso, estão defendendo limites ao poder das grandes empresas de tecnologia e agricultura, e uma mudança na forma como as pessoas pensam e falam sobre inovação.
Como o relatório Head in the Cloud aponta, a questão não é se a agricultura deve inovar, mas se a inovação servirá às grandes empresas ou às pessoas e ecossistemas dos quais os sistemas alimentares dependem.
Daniel Cara alerta que setor pressiona editoras a substituir ‘agrotóxico’ por ‘defensivo agrícola’ e omitir impactos
Por José Bernardes e Tabitha Ramalho para “Jornal Brasil de Fato”
As salas de aula enfrentam uma nova batalha silenciosa, segundo o professor Daniel Cara, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Ele revela que editoras de livros didáticos estão sendo pressionadas por lobistas do agronegócio a substituir termos científicos consolidados, como “agrotóxico”, por eufemismos como “defensivo agrícola”. A investida, que já acontecia no Congresso Nacional, agora foca diretamente no mercado editorial.
“É uma situação alarmante. O consenso científico estabelecido — tão sólido quanto a teoria da evolução — está sendo desconstruído perante o mercado editorial brasileiro, porque o agronegócio precisa defender a absurda ideia de que agrotóxico faz bem”, denuncia Cara no Conexão BdFda rádio Brasil de Fato, que foi relator de um relatório do Ministério da Educação sobre ataques às escolas e coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.
A denúncia foi originalmente sistematizada pelas professoras Andressa Pellanda e Marcele Frossá, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, e revela uma escalada na estratégia do setor. “Esse lobby pulou o Poder Executivo e chegou diretamente à pressão empresarial. É a pressão dosempresários do agronegócio sobre os empresários das editoras”, explica.
Cara lembra que, em 2024, esteve na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, ao lado de comunidades quilombolas, doMovimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), denunciando o lançamento de agrotóxicos sobre escolas no campo. “Uma crítica como essa não vai poder estar retratada num livro de geografia, biologia ou história? Isso demonstra o espaço e o poder que a extrema direita nunca deixou de disputar”, afirmou.
O professor critica o que chama de “concessões inadequadas” do Ministério da Educação (MEC) ao agronegócio durante o atual governo Lula. “Pelo peso que o setor tem na economia brasileira, existe uma concessão que considero inadequada e precisa ser revista. Agora eles atuam diretamente nas empresas.”
Para Cara, o ataque à escola e o ataque ao conhecimento científico são faces da mesma moeda. “A escola é o principal espaço de sociabilidade dos jovens. É lá que se aprende a conviver com a diferença, a questionar, a duvidar. Por isso é o alvo preferencial.”
Ele adverte que, se a esquerda muitas vezes abandona a disputa pedagógica, a extrema direita nunca a negligencia. “O livro didático é o material curricular efetivo da maioria das escolas brasileiras, graças ao gigante Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Controlá-lo é controlar o que se ensina.”
O professor conclui com um chamado à vigilância. “Vivemos sob alto uso de agrotóxicos e baixíssima soberania alimentar. O que existe de positivo se deve aos movimentos sociais. O consenso científico não é pacífico, precisa ser disputado todos os dias. E a escola é o território central dessa disputa.”
A revista AMBIENTES: Revista de Geografia e Ecologia Política acaba de lançar mais uma edição. Este número reúne nove artigos, uma entrevista e uma resenha, que dialogam com temas centrais da Geografia Ambiental, da Ecologia Política e dos conflitos socioambientais contemporâneos.
Os artigos abordam, sob diferentes perspectivas teóricas e empíricas, a mercantilização da natureza, os metabolismos urbanos, os sistemas hídricos como híbridos socionaturais, as redes agroalimentares agroecológicas, a ambientalização discursiva do agronegócio e os conflitos territoriais associados à expansão de grandes empreendimentos, do agronegócio, da mineração e das infraestruturas energéticas. Destacam-se análises sobre lutas de povos indígenas, comunidades tradicionais, pescadoras artesanais e mulheres quebradeiras de coco babaçu, evidenciando territorialidades agroecológicas, estratégias de resistência e metodologias qualitativas sensíveis às dimensões de gênero, poder e justiça ambiental.
A edição inclui ainda uma entrevista com Mauricio Mercadante, que revisita a construção do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) e reflete criticamente sobre o ambientalismo e as políticas públicas ambientais no Brasil. Por fim, a resenha do livro Geografia Ambiental: Raízes, Seiva, Frutos e Sementes, de Marcelo Lopes de Souza, reafirma a relevância de uma Geografia integrada, crítica e comprometida com os desafios da problemática ambiental contemporânea.
Quem desejar baixar todos os artigos que compõe esta edição da Ambientes, basta clicar [Aqui!].
Segundo a consultoria RGF&Associados, havia 443 processos em andamento no terceiro trimestre; melhora do quadro no setor pode ficar para 2027
Por Nayara Figueiredo para “Global Rural”
O ciclo de aumento do número de pedidos derecuperação judicialentre as empresas do setor agropecuário — reflexo do alto endividamento e da diminuição da rentabilidade no campo nos últimos anos — deve persistir em 2026. Segundo economistas e especialistas em reestruturação, o quadro só deverá melhorar a partir de meados de 2027, como resposta à valorização das commodities agrícolas e à queda dos juros, que reduz o custo do crédito.
Por ora, o cenário continua turbulento. No terceiro trimestre, havia 443 empresas do agro em recuperação judicial, o que representou um aumento de 67,8% em relação ao mesmo período do ano passado, conforme dados do Monitor RGF, da consultoria RGF&Associados. Esse é o maior número para um só trimestre em toda a série histórica do levantamento.
Segundo a consultoria, o agro é hoje, proporcionalmente, o setor com mais companhias em processo de recuperação judicial. No terceiro trimestre, de cada mil empresas do agronegócio em atividade, 12,63 estavam em recuperação judicial, de acordo com o indicador IRJ. Na indústria de transformação, a segunda colocada nesse ranking, o IRJ era de 6,49. A média nacional estava em 2,04.
“Esse patamar elevado se explica por quatro características estruturais do setor: alto capital intensivo, com dívidas maiores do que as de outros setores; exposição a múltiplos choques simultâneos, como preço, clima e câmbio; estrutura de financiamento frágil, pois financia necessidades de longo prazo com dívidas curtas; e falta de profissionalização entre grupos familiares”, afirma Rodrigo Gallegos, sócio da RGF.
Com e sem falência
O Monitor RGF informa ainda que, das oito empresas do setor agropecuário que saíram de recuperação judicial no terceiro trimestre, quatro faliram. As outras quatro voltaram a operar sem necessidade de supervisão judicial.
Gallegos observa que o crescimento recente do número de recuperações judiciais começou a tomar forma ainda na década passada. Naquele momento, com margens altas e aumento de exportações, diz ele, produtores e agroindústrias ajustaram suas estruturas e dívidas para crescer.
No entanto, problemas climáticos e econômicos, além de questões cambiais, pressionaram as margens e os custos financeiros, aumentando o endividamento e a inadimplência de algumas empresas. Para Gallegos, com taxa básica de juros (Selic) em 15% e restrições de crédito, as recuperações judiciais devem continuar a crescer no setor no quarto trimestre.
“O arrefecimento pode vir no fim de 2026, mas, mais provavelmente, em 2027, com a queda do custo financeiro — que deve ser gradativa, até a Selic recuar para menos de dois dígitos — e também com o uso de ferramentas pré-recuperação judicial”, afirma.
“Dois anos para melhorar”
O economista Fábio Silveira, sócio da consultoria MacroSector, concorda que o setor agropecuário tende a levar cerca de dois anos até que tenha condições de sair do ciclo de aumento do número de recuperações judiciais.
“Esse processo de piora da rentabilidade e de aumento da inadimplência, sobretudo no Centro-Oeste, levou cerca de dois anos para acontecer, então serão necessários mais dois anos para que melhore”, estima Silveira.
Para ele, a situação já compromete o aumento da produção de grãos no ano que vem, já que limita a expansão de áreas — e não há sinais de aumento de preços das commodities nem de barateamento dos insumos agrícolas. “Os preços ainda estão bastante enfraquecidos em termos históricos. O ano de 2026 não será de recuperação da rentabilidade”, avalia.
Silveira acredita que, para o setor conseguir atravessar a fase de turbulência, o governo precisaria ser mais ativo na liberação de subsídios, assim como fazem concorrentes do agro nacional, como os Estados Unidos. O governo brasileiro tem renegociado dívidas de produtores afetados por problemas climáticos nos últimos anos.
Debate sobre governança
Camila Crespi, advogada especialista em reestruturação empresarial, acredita que as recuperações judiciais no setor continuarão em alta em 2026. Para ela, o debate sobre insolvência rural precisa evoluir — e isso passa por discussão sobre evolução da governança. “A procura por instrumentos alternativos de resolução de conflitos, como a mediação empresarial, é uma boa saída. Mesmo assim, muitos recorrem à recuperação judicial em razão do benefício legal da blindagem patrimonial”, afirma.
Para Cybelle Guedes Campos, sócia da Moraes Junior Advogados, os devedores, sejam produtores rurais ou empresas do setor, que passarem pela recuperação judicial têm que adotar práticas de gestão mais rigorosas, incluindo controle de preços e de custos e planejamento financeiro de longo prazo. “A crise atua como um catalisador para a profissionalização da gestão rural. Ademais, a crise no setor tem levado a uma reavaliação das práticas de concessão de crédito pelos credores”, diz.
Ela afirma que, na renegociação extrajudicial, há mais rigor na análise de risco, mas também mais flexibilidade. Essa modalidade é uma opção que não tem o custo e a morosidade do processo de recuperação judicial.
A COP30 foi alvo de críticas consideráveis, inclusive por sua falha em abordar de forma significativa os perigos que a crise climática representa para a saúde
Manifestantes denunciaram a contaminação do Cerrado por agrotóxicos na entrada da Agrizone da COP30. Mais de 70% dos agrotóxicos utilizados no Brasil são usados no Cerrado, muitos dos quais são proibidos na Europa. Foto: Oliver Kornblihtt / Mídia NINJA
Por Ana Vračar para “People´s Dispatch”
A COP30 deste ano foi alvo de consideráveis críticas, inclusive por sua falha em abordar de forma significativa os perigos que a crise climática representa para a saúde. Ao mesmo tempo, grandes corporações do agronegócio – que desempenham um papel central na deterioração da saúde e do meio ambiente – estiveram presentes no fórum. Muitos ativistas e comunidades indígenas soaram o alarme, especialmente considerando que essas empresas continuam a ameaçar a saúde e os meios de subsistência das pessoas por meio da apropriação de terras, do uso de pesticidas e da comercialização de alimentos ultraprocessados.
Juntamente com as novas tentativas dos governos do Norte Global de evitar assumir a responsabilidade financeira pelas suas contribuições para a crise climática, as preocupações com a participação e a captura corporativa deixaram muitos observadores com a impressão de que a COP30 ficou muito aquém do necessário. A esperança em Belém residia, em vez disso, nas iniciativas populares.
UPF e gigantes do agronegócio na COP
Repórteres do projeto de mídia brasileiroO Joio e o Trigodocumentaram a influência exercida pelo agronegócio durante a preparação e a implementação da COP30. Eles observaram que alguns documentos-chave, que pretendiam delinear uma visão de agricultura mais sustentável, foram, na realidade, fortemente influenciados por atores da indústria. Um dos documentos, por exemplo, propôs que o modelo agroindustrial atual é capaz de acabar com a fome no mundo sem prejudicar as comunidades ou o planeta. Essas afirmações, argumentam os repórteres, são profundamente enganosas, principalmente porque ignoram os perigos mais urgentes decorrentes da agricultura industrial.
Uma das omissões mais flagrantes nesse contexto foi o impacto do uso de agrotóxicos no setor agrícola brasileiro. “Se os agrotóxicos são ignorados, os danos que causam também são ignorados; esse silêncio é ensurdecedor em um momento em que as evidências de comunidades prejudicadas pela exposição a agrotóxicos e a crescente suspeita sobre sua ligação com o aumento das taxas de câncer se acumulam rapidamente”, alertou o jornal O Joio eo Trigo .
Empresas com histórico comprovado de comprometimento da saúde humana e planetária marcaram presença na COP30. Bayer e Nestlé, por exemplo, montaram estandes chamativos. Aparentemente, a Nestlé atraiu visitantes oferecendocafée chocolate quente gratuitos. Isso coincidiu quase perfeitamente com a publicação de uma nova série na revista The Lancet , que apontou a empresa como uma das principais integrantes das redes globais da indústria alimentícia que trabalham para sabotar as regulamentações de saúde pública destinadas a mitigar as consequências do consumo de alimentos ultraprocessados. A pegada ambiental da produção desses alimentos, por si só, já seria motivo suficiente para encarar essa participação corporativa com ceticismo; no entanto, empresas semelhantes ainda conseguem se posicionar como participantes legítimos no debate sobre mudanças climáticas.
Uma visão radicalmente diferente surgiu das dezenas de milhares de pessoas que participaram de eventos e marchas alternativas fora dos espaços oficiais da COP30. Muitos, incluindo ativistas do Movimento Popular pela Saúde (PHM), reuniram-se por meio daCúpula dos Povos. Adeclaraçãodo encontro identifica atores como as grandes empresas alimentícias como os principais responsáveis pela crise climática. “As corporações transnacionais, em conluio com governos do Norte Global, estão no centro do poder no sistema capitalista, racista e patriarcal, sendo os atores que mais causam e se beneficiam das múltiplas crises que enfrentamos”, afirma o documento.
Ativistas argumentam que uma mudança genuína no enfrentamento da crise climática só pode ser alcançada colocando os movimentos populares no centro das atenções. “Se hoje, aqui em Belém do Pará, a política internacional, o meio ambiente e as mudanças climáticas estão em debate, aqueles que são mais afetados por essas mudanças climáticas devem estar na linha de frente”, disse a fisioterapeuta e parlamentar Vivi Reisà Outra Saúde .
“Já está claro que, na prática, as COPs tiveram pouca influência na luta contra as mudanças climáticas e que as verdadeiras respostas e alternativas são construídas por quem está no terreno”, disse Reis.
Ao contrário das corporações, cujas chamadas soluções se baseiam em combustíveis fósseis, devastação de terras e extrativismo, os movimentos populares estão promovendo modelos enraizados na justiça social e noconhecimento ancestral. “Os povos produzem alimentos saudáveis para alimentar o povo, a fim de eliminar a fome no mundo, com base na cooperação e no acesso a técnicas e tecnologias sob controle popular”, afirma a declaração da Cúpula dos Povos. “Este é um exemplo de uma solução real para enfrentar a crise climática”, acrescenta, enfatizando a necessidade de reforma agrária popular e agroecologia.
A declaração também menciona conexões entre outras tendências em curso no Norte Global, nomeadamente o militarismo, e a crise climática, enfatizando novamente que uma transição significativa deve ser abrangente e abordar todas as fontes de injustiça. “Exigimos o fim das guerras, exigimos a desmilitarização”, afirma o texto. “Que todos os recursos financeiros alocados às guerras e à indústria bélica sejam redirecionados para a transformação deste mundo. [Exigimos] que os gastos militares sejam direcionados para a reparação e recuperação das regiões afetadas por desastres climáticos.”
O Boletim Informativo de Saúde Popular é uma publicação quinzenal do Movimento Popular de Saúde e do jornal People’s Dispatch . Para ler mais artigos e assinar o Boletim Informativo de Saúde Popular, clique aqui.
O Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado no Piauí denunciou violações de direitos por empresas do agronegócio e demanda medidas urgentes por parte dos órgãos públicos
A Secretaria do Meio Ambiente do Piauí concedeu licença para o agronegócio se apropriar da água no brejo da comunidade Grinalda do Ouro. Esse é um ataque direto aos territórios tradicionais e significa a morte dos rios no Cerrado.
Na mesma região, a empresa do agronegócio Insolo destruiu a estrada de acesso às comunidades rurais no município de Santa Filomena. Essas comunidades tradicionais habitam a região há gerações e sofrem violência por parte do agronegócio.
Apoie as comunidades
Escreva para os órgãos estaduais abaixo para apoiar os direitos das comunidades tradicionais do Cerrado e denunciar a destruição do agronegócio:
As expectativas para a COP no Brasil são altas após duas cúpulas sediadas por empresas petrolíferas, mas o agronegócio pode novamente comprometer o progresso climático
O agronegócio exerce forte influência sobre o Estado brasileiro, seja ele governado pela esquerda ou pela direita, por Lula ou por Bolsonaro. – Yasuyoshi Chiba / AFP
Por Larissa Parker
O agronegócio abriu caminho a passos largos nas últimas décadas, tornando o Brasil o maior exportador de carnes e rações para animais. Todas as maiores corporações agroalimentares do mundo colheram lucros enormes com esse boom, incluindo algumas empresas nacionais, como a gigante da carne JBS, com uma pegada climática que rivaliza com a de Bangladesh ou Espanha. A combinação de desmatamento, grilagem de terras, pecuária intensiva ecampos encharcados de agrotóxicos e fertilizantestornou o Brasil notório pela destruição climática. No entanto, embora o setor seja responsável por três quartos das emissões de gases de efeito estufa do Brasil, ele está excluído da lei nacional de carbono do país.
O agronegócio exerce forte influência sobre o Estado brasileiro, seja ele governado pela esquerda ou pela direita, por Lula ou Bolsonaro. Portanto, não é surpresa que aCOP deste ano esteja se configurando como um exercício monumental de greenwashing do agronegócio.
O destaque principal é uma “Zona Agrícola” próxima às sessões oficiais da COP. Enquanto todos os outros disputam espaço na superlotada “Zona Verde”, gigantes do setor de alimentos ultraprocessados como Nestlé e PepsiCo, e as grandes empresas agroquímicas Bayer e Yara, ganham um espaço exclusivo para impressionar os delegados da COP. Os principais grupos de lobby do setor, como a CropLife e o Conselho de Exportação de Lácteos dos EUA, realizarão sessões, assim como Bill Gates, cuja fundação, como uma das principais patrocinadoras da Zona Agrícola, apresentará a África como a próxima fronteira do agronegócio. A Netafim, empresa israelense de irrigação apontada pelo Relator Especial da ONU por seu envolvimento na ocupação ilegal de terras palestinas, também realizará uma sessão.
O povo brasileiro talvez não saiba, mas está arcando com a maior parte dos custos desse espetáculo corporativo. O evento está sendo organizado pela Embrapa, a agência nacional de pesquisa agropecuária do Brasil, que já está em parceria com grandes empresas para reformular a imagem do agronegócio brasileiro por meio de programas como “pecuária leiteira com emissão zero” com a Nestlé e “soja de baixo carbono” com a Bayer. Até mesmo o Ministério da Agricultura e Pecuária, que não implementa a reforma agrária devido a uma suposta falta de verbas, é um dos patrocinadores. Outros governos também participarão, como os da Austrália, Canadá, França, Alemanha, Japão, Holanda e Reino Unido.
O objetivo aqui não é apenas promover o agronegócio como empresa verde. As COPs do clima se tornaram palcos de negociações, comparáveis a Davos, e este ano o gigante brasileiro do agronegócio tem um grande acordo em jogo.
Na COP28 em Dubai, com o Brasil já escolhido para sediar a COP30, o governo brasileiro anunciou seus planos para uma parceria público-privada de US$ 100 bilhões para converter 40 milhões de hectares de pastagens degradadas em monoculturas de soja e outras culturas de exportação. Alega-se que o cultivo dessas culturas irá repor o carbono no solo e que as empresas podem investir como forma de compensar suas emissões de combustíveis fósseis.
Desde então, o governo brasileiro e o lobby do agronegócio têm enviado missões ao redor do mundo – incluindo Riad, Pequim e Nova York – para atrair investidores estrangeiros para o projeto, agora chamado Caminho Verde Brasil. O fundo soberano da Arábia Saudita, que detém participação majoritária na gigante brasileira de carnes Minerva, manifestou interesse e já está adquirindo créditos de carbono. O mesmo ocorre com o fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, Mubadala, por meio de uma subsidiária brasileira que está plantando 180 mil hectares do Cerrado com macaúba para produzir biocombustíveis para aviões a jato, como parte do programa. Grandes instituições financeiras do agronegócio também aderiram – como o Rabobank, da Holanda, e o BTG, do Brasil, ambos comprando terras para plantações de árvores e, assim, gerar créditos de carbono para a Microsoft.
O governo está agora tentando atrair investidores estrangeiros com participações acionárias em fazendas, utilizando um novo instrumento financeiro, chamado Fiagros, que lhes permitiria contornar as restrições à propriedade estrangeira de terras. Acordos de fornecimento também estão sendo elaborados com empresas chinesas, nos quais investimentos iniciais em dinheiro seriam pagos com soja, açúcar e carne.
Essa nova “forma verde” nada mais é do que uma expansão da antiga forma de fazer agronegócio no Brasil. A venda de pastagens desmatadas para conversão em fazendas intensivas de soja, cana-de-açúcar, eucalipto ou gado incentivará ainda mais o desmatamento e a grilagem de terras com o deslocamento do gado, além de aumentar o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos, com impactos drásticosna saúde pública, especialmente em comunidades camponesas e indígenas. Toda a produção será destinada à exportação, e todos os lucros continuarão sendo embolsados por banqueiros, latifundiários e acionistas de multinacionais. As emissões reais aumentarão mais rápido, mais longe e por mais tempo do que qualquer carbono que o programa consiga sequestrar temporariamente no solo.
Se houver alguma esperança de que a COP deste ano seja diferente, ela estará a poucos quilômetros da Zona Agrícola, na Cúpula dos Povos, onde comunidades que há muito sofrem com o boom do agronegócio brasileiro estão organizando seu próprio espaço. Ali, organizações e movimentos sociais trabalharão juntos para construir sistemas alimentares que possam realmente responder à emergência climática e às demais crises ambientais, sanitárias e sociais alimentadas pelo agronegócio.
Larissa Packer concentra-se nas tendências do agronegócio na América Latina, especialmente em relação à digitalização, reforma agrária, greenwashing climático e grilagem de terras. Ultimamente, ela tem se envolvido em trabalhos sobre leis de sementes e lutas mais amplas pela soberania alimentar na região. Ela representa a GRAIN na Alianza Biodiversidad (Aliança para a Biodiversidade), uma coalizão de 10 organizações/movimentos que lutam pela soberania alimentar em toda a América Latina.
Um estudo publicado hoje pela revista científica “Communications Earth & Environment”, do grupo Nature, traz informações inéditas sobre o impacto das cadeias produtivas da carne bovina e da soja sobre o uso de água no Brasil, e eles não são nada desprezíveis segundo os autores do trabalho.
Os autores quantificaram o volume e a fonte de água doce utilizados para a produção e exportação de soja e carne bovina brasileiras para a China e a União Europeia (UE) juntamente com o desmatamento e as emissões de gases de efeito estufa para o período de 2015 a 2017.
Os resultados obtidos demonstram que ambos os setores dependem principalmente de sistemas de abastecidos pelas águas das chuvas, mas também de soja produzida a partir de sistemas irrigados, e de uma combinação de abeberamento do gado e reservatórios que servem como fonte de água potável.
Um dado particularmente preocupante é que entre 20% e 50% da água doce necessária para exportações para a China e a UE, respectivamente, dependem de bacias hidrográficas que apresentam escassez hídrica alta ou crítica.
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Enquanto a bancada ruralista pressiona para interferir no conteúdo de livros didáticos para limpar a sua barra para lá de suja, um estudo realizado por Yamila Goldfarb e Marco Antonio Mitidiero Junior e publicado pela Fundação Friedrich Ebert analisou a questão tributária e dos subsídios dados ao latifúndio agro-exportador (também conhecido como “agronegócio”) e verificou com base em dados oficiais, a existência de uma distribuição bastante desigual de crédito para os latifundiários e para os agricultores familiares (ver figura abaixo).
Além disso, apenas no caso da soja, que o estudo denomina de “a menina dos olhos do agronegócio brasileiro”, A totalidade do circuito da cadeia produtiva da soja, desde a aquisição de insumos, adubo, agrotóxicos, sementes, passando pelo óleo alimentar, farelo e biodiesel e exportações são desonerados em 100% das alíquotas de PIS/ Pasep e da COFINS e do IPI. Além de não arrecadar nada com estes tributos, o setor industrial tem direito a créditos presumidos, que podem ser utilizados no pagamento de outros tributos federais, ou, ainda, permitir que seja solicitado o ressarcimento pelo Governo Federal. Conforme estimado neste estudo, o cashback da indústria de soja é bilionário. Com isso, apenas no caso da soja, o total da desoneração na cadeia produtiva, incluindo o crédito presumido, chega a estratosféricos R$ 56,81 bilhões.
O estudo aborda ainda os impactos negativos para a saúde humana, meio ambiente, e custo da cesta básica que derivam da isenção tributária para agrotóxicos. Apesar disso, o estudo mostra que dados do censo agropecuário mostram que entre 2006 e 2017, para um valor de produção de um real, os gastos com agrotóxicos saltaram cerca de 1200% para o algodão (R$ 0,01 para R$ 0,15), 588% para a soja (R$ 0,02 para R$ 0,14), e 102% para a cana-deaçúcar (R$ 0,04 para R$ 0,08). Além dessa carestia, um problema bastante agudo é que 98% dos agrotóxicos consumidos no Brasil são classificados como perigoso, muito perigoso ou altamente perigoso ao meio ambiente, mas que também trazem sérias repercussões para a saúde humana e para a biodiversidade.
Um aspecto bastante interessante do estudo é a discussão sobre o papel do agronegócio no processo de desenvolvimento econômico. A partir de uma base empírica robusta, o estudo coloca em xeque a noção de que o agronegócio conduz a uma melhoria dos padrões socio-econômicos nas regiões em que suas práticas se tornam hegemônicas. Com isso, os autores do estudo afirmam que a relação entre desenvolvimento e presença do agronegócio não pode ser diretamente relacionada ao avanço de indicadores sociais e tampouco de dinamismo econômico com distribuição de riqueza. Com isso, eles concluem que “não à toa o “agro” precisa, portanto, de tanto marketing para moldar sua imagem“.
A conclusão do estudo é que existe, de fato, uma relação parasitária entre Estado brasileiro e agronegócio, a qual resulta em concentração fundiária, altos preços dos alimentos e conflitos territoriais socioambientais, além de beneficiar grandes corporações multinacionais. Os autores apontam ainda que “por todos os dados e argumentos apresentados no relatório, não dá para separar a maçã podre da cesta. Não existe “agro do bem”, pois toda a estrutura é um mau negócio para a sociedade brasileira“.
Quem desejar baixar o relatório “Agro, um bom negócio para o Brasil?”, basta clicar [Aqui!].