Agronegócio e mercado financeiro avançam, de mãos dadas

Financeirização se dá pela entrada de fundos de pensão e de investimentos nos negócios da cadeia agropecuária

joiotrigo

Montagem sobre foto de Rosilene Miliotti / FASE

Por Leonardo Furhamann para o site “O Joio e o Trigo”

Para ‘facilitar’ a compra de geladeiras, TVs e outros bens, as redes de lojas de departamentos, como as Casas Bahia e o Magazine Luiza, têm seus próprios cartões para o financiamento dos bens adquiridos. Algumas ainda ofertam os tradicionais carnês, com os juros embutidos no parcelamento do valor das compras. As montadoras de automóveis também mantêm seus bancos, assim cuidam das operações financeiras relacionadas à aquisição e troca de carros. 

Apesar de menos visível ao consumidor, o agronegócio também vive uma expansão das atividades financeiras nas mais diversas etapas de sua produção. Os negócios são amplos. Vão desde a aquisição de terras até a comercialização da safra, muitas vezes paga adiantada ao produtor, e envolvem internacionalização das propriedades, seja pela aquisição, seja pelo arrendamento. 

Os principais alvos dessa cadeia globalizada e com grande participação de agentes do mercado financeiro são as commodities, produzidas principalmente pelo agronegócio, e os minérios. Duas riquezas abundantes no Brasil de hoje e que recebem uma atenção especial de uma parcela expressiva do Congresso Nacional e do Executivo, que buscam torná-las ainda mais lucrativas para quem especula no país.

Fundos de pensão na agropecuária

Tal financeirização se dá pela entrada de fundos de pensão e de investimentos nos negócios da cadeia agropecuária, como explica o professor Sérgio Pereira Leite – do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA-UFRRJ).

Os fundos podem participar diretamente na aquisição de terras ou no arrendamento de conjuntos de propriedades. Esses investimentos também podem ser feitos em empresas de maquinários e insumos e, depois, nos mecanismos de estocagem e comercialização do produto no mercado internacional. Como cada etapa pode gerar títulos e a garantia, em última análise, seria o produto final, existe uma multiplicação dos títulos relacionados a um mesmo produto. “Uma saca de soja produzida gera uma especulação em valor equivalente a mais de dez sacas”, afirma. Assim, os negócios dos títulos se tornam mais importantes do que a produção em si, pois geram mais riqueza.

“Uma saca de soja produzida gera uma especulação em valor equivalente a mais de dez sacas.”

Tudo isso sem falar em processos de industrialização e na formação de novas cadeias. A soja, por exemplo, é produto na cadeia de plantio e se torna insumo quando entra na produção de ração para a produção de proteína animal.

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Um dos primeiros impactos da especulação no campo, segundo ele, é a valorização estratosférica do preço das terras, principalmente naquelas regiões que antes eram pouco exploradas pelo agronegócio, tratadas por eles como “novas fronteiras agrícolas”.

Um relatório feito pela ONG inglesa Planet Tracker e divulgado pelo site Mongabay, mostra que sete empresas de investimento seriam capazes de reduzir o desmatamento por conta da grande participação delas no mercado de soja. Elas são gestoras de fundos negociados em bolsas (ETFs, na sigla em inglês).

Segundo o levantamento, US$ 9,3 bilhões de ETFs são investidos em 26 empresas envolvidas com o comércio de soja e ligadas ao desmatamento. Os ETFs chegaram a um valor coletivo de US$ 6,7 trilhões de no segundo semestre de 2020. O relatório aponta que 70% do mercado de ETFs está nas mãos das empresas financeiras americanas BlackRock, State Street Global Advisors e Vanguard. 

O estudo da Planet Tracker afirma ainda que o investimento total nestes produtos em 2020 foi cinco vezes maior do que em 2010. Para além da questão ambiental, os dados mostram também o peso da financeirização no agronegócio global. Além de estarem presentes nas bolsas internacionais, esses fundos foram regulamentados no Brasil em 2002. Atualmente, são oferecidos pouco mais de 20 ETFs na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo.

Expulsão e violência no campo

A situação fica clara quando é analisado o aumento de preço das terras no Matopiba (região que inclui partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que inclui a parte oeste destes estados do Nordeste e a leste do Tocantins e é chamada pelo agronegócio de uma das novas fronteiras agrícolas do país. 

Entre 2004 e 2017, época em que a inflação foi de 120%, as terras em Imperatriz e Açailândia, ambas no Maranhão, tiveram uma valorização de 594%; em Santa Maria (BA), 483%; Gurupi (TO), 471%; e Balsas (MA), 452%.

A média na região, segundo o estudo citado por Leite, foi de 390%. “Esta busca obsessiva por novos territórios está ligada ao desmatamento, à expulsão de povos originários e tradicionais de seus territórios e a violência no campo”, afirma.

Outras áreas que são alvo da valorização confirmam a relação direta com a expulsão das comunidades e o desmatamento, como a região de Humaitá, no Amazonas, Santarém, no Pará, e o Meio-Norte do Mato Grosso. “As terras se transformaram praticamente em um ativo financeiro”, comenta Leite. 

A situação trouxe mais jogadores para próximo da roleta. A tendência é global. Nos doze anos, segundo dados da Global Advisors, o número de fundos de investimento que atuam no setor agrícola e alimentício internacionalmente subiu de 38 para 441. Em 2017, eles geriam juntos cerca de US$ 73 bilhões. Fazem parte desse grupo de investidores os fundos de pensão soberanos, instituições bancárias, seguradoras, grupos de investimento familiar e grandes corporações, por exemplo. O objetivo principal dessa atuação é o estoque de riqueza.

Sul do Piauí. Foto: Rosilene Miliotti / FASE

Baixo custo de investimento

A falta de uma legislação capaz de controlar a atuação desses fundos e o custo relativamente baixo do investimento tornam o Brasil atrativo, assim como a Ucrânia e alguns países africanos. “Hoje, estima-se que 8,5 milhões de hectares no Brasil são controlados direta ou indiretamente por empresas estrangeiras”, afirma Leite. A conta inclui empresas que são subsidiárias locais de multinacionais, subsidiárias de holdings com atuação no Brasil e subsidiárias de holdings com sede fora.

O foco dessas empresas é em commodities, produtos que são colocados no mercado internacional com preços operados em bolsa, sem distinção de qualidade ou pela forma como é produzido. Além da soja, carne bovina, algodão, cana-de-açúcar e as madeiras pinus e teca são commodities internacionais. Esses produtos também concentram os subsídios públicos. No Sistema Nacional de Crédito Rural, de 60% a 75% dos recursos agrícolas são investidos em apenas quatro produtos: soja, café, cana e milho. 

Professora visitante da Universidade Federal do ABC, de São Paulo, Yamila Goldfarb destaca que, diferentemente do discurso apresentado pelo agronegócio, o setor cria poucos recursos para as contas públicas. “Além de contar com subsídios nas operações de crédito e isenções fiscais, com a Lei Kandir, de meados dos anos 1990, a arrecadação com a exportação de commodities passou a ser pífia”, afirma. 

Ela lembra que estados como São Paulo também isentam a compra de agrotóxicos da cobrança do ICMS. Outras mudanças na legislação tornaram a exportação de commodities a partir do Brasil mais atraente para os investidores internacionais, como as seguidas facilitações da regularização fundiária, que beneficiam grileiros e colocam mais terras no mercado.

Financiamento para aquisição

Essa mudança no perfil do capitalismo faz com que o agronegócio se preocupe cada vez menos com o abastecimento do mercado interno de alimentos, principalmente em países menos ricos, como é o caso do Brasil, afirma o defensor público de São Paulo Marcelo Carneiro Novaes. “O capitalismo financeiro não precisa de mercado consumidor e, por isso, é indiferente a questões de geração de emprego e renda”, diz. 

Ele explica que “o lucro das grandes empresas de insumos está mais ligado ao financiamento para aquisição do que ao produto em si. Quando você fala de um fundo como o Blackrock, que geria US$ 8,68 trilhões em janeiro deste ano, você vê como esses valores se deslocaram completamente da base material”, afirma. Esse valor é maior, por exemplo, do que o Produto Interno Bruto (PIB) de países como Alemanha e Japão.

Novaes cita como exemplos desse mercado os contratos de hedge (contratos antecipados de venda com valor fixado, são garantidores para grandes quedas de preço ou mudanças no câmbio), letras de crédito (são títulos emitidos pelos bancos para financiamento da atividade agropecuária, no caso) e cédulas de produto rural (títulos emitidos por produtores ou suas cooperativas, inclusive para bancos, rastreados na produção). As letras de crédito do agronegócio (LCA) começaram a ser emitidas em 2005 e são títulos oferecidos de renda fixa oferecidos por bancos. 

Criada nos anos 1990, a cédula de produto rural é emitida pelo próprio produtor. “São negócios com pouca ou nenhuma tributação e valores que entram e saem dos países livremente”, explica. Além disso, ao se ligarem à produção de commodities, as empresas e fundos também se beneficiam de isenções e subsídios dados pelo governo. Para ele, os grandes arrendamentos feitos por investidores fazem com que latifundiários possam ter grande lucro sem risco ou preocupação nenhuma. 

Em cooperativas, condições piores

No meio desse movimento, as cooperativas de crédito também se tornaram uma opção de negócio para produtores de médio e grande porte. As cooperativas de financiamento existiam desde o início do século passado, mas ganharam força principalmente a partir de meados dos anos 1990. O negócio envolve conseguir taxas melhores de juros e outras vantagens ligadas à entrada no mercado financeiro e uma melhor margem em negociações conjuntas. 

A antropóloga Luciana Schleder Almeida, professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), pesquisou a vida dos produtores em Lucas do Rio Verde e Sorriso, ambos no Mato Grosso. “A entrada nas cooperativas é um privilégio dos grandes, os menores seguem dependendo de outras formas de financiamento, com condições piores”, afirma. 

Em municípios como esses, onde é grande a influência do agronegócio, segundo ela, a própria entrada em uma cooperativa de crédito de produtores se torna um sinal de status, parecido com a participação em outras entidades associativas locais. “Muitas vezes, os produtores menores também têm dificuldade de obter taxas menores em bancos públicos, o que faz com que eles passem a depender do financiamento das tradings”, explica.

Participação na política do agronegócio

O antropólogo Caio Pompeia, autor do livro Formação Política do Agronegócio (Editora Elefante e O Joio e O Trigo), vê uma maior participação dos agentes financeiros na atuação política do agronegócio na última década. A mudança é gradativa, mas já apresenta os primeiros sinais tanto na participação em entidades como nas pautas que defendem. “Os grandes bancos de varejo, até por uma questão de imagem, preferem atuar em grupos que têm a pauta ambiental junto”, diz.  

O Instituto Pensar Agro, ligado à Frente Parlamentar da Agropecuária, já tem entre seus sócios uma federação de seguradoras e uma cooperativa de crédito. “A bancada ruralista está defendendo mais programas de seguro rural, com uma forte participação de subsídios públicos, e deixando um pouco de lado a bandeira dos financiamentos públicos”, analisa. 

A FPA é a bancada que representa os interesses do agronegócio no Congresso Nacional. Formado por entidades representativas de diferentes setores do agronegócio, o Instituto Pensar Agro se firmou como o braço empresarial da atuação da FPA. O ex-deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), que já presidiu a FPA, foi eleito em fevereiro deste ano o presidente do instituto.

Os interesses e esforços da bancada ruralista na regularização de mais terras e no repasse de parte delas para fundos estrangeiros. No ano passado, o Senado aprovou, com relatório do atual presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), um projeto de lei para facilitar a aquisição de terras no Brasil por pessoas e empresas estrangeiras. O autor da proposta é Irajá Abreu (PSD-TO), filho da também senadora Katia Abreu (PP-TO), ministra da Agricultura no governo Dilma Rousseff e ex-presidente da Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária (CNA).

Irajá também chegou a ser um dos relatores da MP da Grilagem, como foi chamada ironicamente por organizações ambientalistas sob o pretexto que beneficiava infratores ambientais. A Medida Provisória 910, anunciada pelo governo Bolsonaro, pretendia facilitar a regularização fundiária em terras públicas que foram invadidas e desmatadas de até 2,5 mil hectares. 

Mais do que interesses corporativos, a família Abreu e seus aliados têm interesse direto nos temas. Em abril de 2018, o empresário Moises Pinto Gomes, atual marido de Katia, esteve numa feira de negócios no Qatar para oferecer oportunidade a empresários locais. A mais vistosa delas, o Fundo Matopiba, criado para aquisição de terras e produção agrícola no Brasil. O fundo teria US$ 500 milhões, a serem aplicados na aquisição de fazendas a serem preparadas e aprimoradas para a produção de grãos (arroz, soja, sementes e milho) e o objetivo de gerenciar e operar a produção antes da alienação de terras e operações agrícolas.

Gomes esteve no Qatar pela empresa Agroinvest Brasil, criada em 2015, no mesmo ano em que se casou com a então ministra da Agricultura. Na empresa, ele é sócio do advogado Arno Jerke Junior, assessor parlamentar da senadora desde julho de 2018. Jerke é um colaborador de confiança da senadora. Pelas mãos de Katia, ele ocupou a Secretaria Nacional de Desenvolvimento do Cooperativismo do Ministério da Agricultura e depois a diretoria da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Antes, havia sido advogado da CNA e coordenador técnico do instituto ligado à entidade.

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Este texto foi originalmente publicado pelo site “O Joio e o Trigo”  [Aqui!].

Suzano é elo entre Carla Zambelli e Ricardo Salles, as faces brasileiras da implosão ambiental

Movimentos de rua liderados por eles tiveram apoio da empresa de celulose; deputada indicada para a Comissão do Meio Ambiente integra a bancada ruralista e repete o discurso do ministro contra ONGs e povos tradicionais

A  deputada federal Carla Zambelli (PSL) e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Fonte: Facebook

Por Luís Indriunas para a “De olho nos ruralistas”

A lista de projetos de lei de autoria da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) é voltada para o que ela chama de combate à corrupção e para o negacionismo em relação à pandemia. No primeiro caso, uma de suas ideias é considerar crimes hediondos as práticas contra a administração pública. Em relação ao ambiente, o mais próximo que ela chegou do tema foi na coautoria de um projeto que aumenta a pena para tráfico de animais.

Suas conclusões sobre o tema se resumem ao ataque bolsonarista clássico de que as organizações não-governamentais estão acabando com a Amazônia, pela defesa intransigente ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e pela relação com a empresa de celulose Suzano. Ela recebeu doações de Jorge Feffer, dono de uma fortuna de US$ 1,6 bilhão e membro do conselho da holding, uma companhia como longa história de infrações e crimes ambientais e uma relação estreita com Salles.

Jorge Feffer, da Suzano Papel e Celulose, apoia Carla Zambelli. (Foto: Facebook)

Quando era secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Salles foi acusado pelo Ministério Público do Estado de São Paulo de tentar alterar de maneira irregular o Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) Várzea do Rio Tietê com o objetivo de favorecer uma série de indústrias, entre elas, a Suzano Papel e Celulose: “Ricardo Salles beneficiou Suzano em São Paulo; futuro ministro é acusado de fraude ambiental“. Em agosto de 2017, o então governador Geraldo Alckmin o exonerou por causa da acusação.

Segundo denúncia a que o observatório teve acesso, o conglomerado comandado pela família Feffer foi citado em pelo menos duas reuniões, convocadas por uma assessora técnica do gabinete de Ricardo Salles, Roberta Buendia Sabbagh. Nesses encontros, a assessora pressionou representantes do Núcleo de Planos de Manejo da Fundação Florestal — órgão responsável pela gestão das Unidades de Conservação no estado de São Paulo — para alterar o zoneamento da APA Várzea do Tietê, a pedido da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Segundo um dos depoentes do inquérito, a empresa “seria prejudicada caso fosse mantido o mapa original”.

Em dezembro de 2018, Salles foi condenado. Na última quarta-feira (04), Salles e Fiesp foram absolvidos em segunda instância após recurso.

Carla Zambelli foi uma das que defenderam a manutenção de Salles no ministério, quando ameaçado de queda. Seu discurso vai ao encontro do discurso do ministro. Sobre o aumento dos incêndios na Amazônia, a deputada acusa ONGs e comunidades tradicionais pelos problemas ambientais na região. Na sua lógica conspiradora, esses grupos se movimentaram para “criminalizar um governo que é novo, de direita”.

Os Feffer foram também patrocinadores do Movimento Endireita Brasil, do qual Ricardo Salles é fundador e presidente.

A Suzano Papel e Celulose tem um longo histórico de problemas ambientais. Entre os últimos, há uma investigação do Ministério Público sobre despejo de poluentes pela empresa em Americana (SP), em 2020.

De Jorge Feffer, Carla recebeu R$ 10 mil, mas sua lista de doadores tem diversos outros empresários como Tomé Adbuch, que doou R$ 60 mil, outro fundador, com ela, do movimento Nas Ruas. O dono da rede de academia Smart Fit, Edgard Gomes Corona, doou R$ 50 mil. O proprietário das lojas Riachuelo, Flávio Rocha, doou R$ 30 mil. No total a campanha da deputada arrecadou R$ 517.468,61.

Irmão da deputada representa empresas de inspeção veicular

Apesar de na sua declaração à Justiça Eleitoral não aparecer nenhuma atividade relacionada ao agronegócio, Carla Zambelli é integrante da Frente Parlamentar pela Agropecuária (FPA). Ela foi arregimentada pelo grupo logo no início do seu mandato, conforme levantamento do De Olho nos Ruralistas. Ela vota com a bancada, como no caso da MP da Grilagem.

O atual secretário de Assuntos Fundiários, Luiz Nabhan Garcia, durante a campanha de Carla. (Foto: Twitter)

Sua maior ligação com os ruralistas vem pelo secretário de Assuntos Fundiários do Ministério de Agricultura, Luiz Antônio Nabhan Garcia, que fez campanha para ela. Nabhan e Carla decidiram fazer uma troca de favores, num “nepotismo cruzado”.

Zambelli empregou em seu gabinete Maurício Nabhan Garcia, irmão do secretário, com um salário de R$ 8.722,66. Nabhan contratou Bruno Zambelli Salgado para uma vaga no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O irmão de Nabhan continuou no gabinete. O irmão de Zambelli ficou seis meses no governo e hoje é superintendente da Associação Nacional dos Organismos de Inspeção (Angis), entidade os organismos de inspeção licenciados pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran).

Bruno, assim como o pai e a cunhada de Zambelli, tentaram se eleger nas eleições municipais de 2020, mas nenhum deles se elegeu. Bruno recebeu 12 mil votos.

| Luís Indriunas integra a equipe de editores do De Olho nos Ruralistas |

Este texto foi originalmente publicado no “De olho nos ruralistas” [Aqui! ].

Agronegócio e pandemia da COVID-19: uma mistura explosiva

Já abordei anteriormente a íntima ligação entre a variante estadunidense da fazenda industrial com o aparecimento de pandemias, incluindo a da COVID-19.  Pois bem, para quem quiser saber mais sobre esta questão em geral, bem como no caso específico do Brasil, a edição brasileira do jornal Le Monde Diplomatique acaba de ser publicada é um prato cheio de conhecimento. É que boa parte da edição é dedicada a investigar e demonstrar a relação íntima entre grandes criações de animais e abatedouros industriais no espalhamento da COVID-19 no Brasil e nos EUA.

le monde pandemia

No caso brasileiro, o artigo assinado pelos professores Fernando Mendonça Heck, do Instituto Federal de São Paulo, Campus Avançado Tupã (SP),  e Lindberg Nascimento Júnior do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina, teve como foco o papel jogado pelos frigoríficos no espalhamento da COVID-19 na região Sul do Brasil, onde ficou patente uma clara sincronia entre a presença dos abatedouros e o grau de disseminação da pandemia (ver figura abaixo).

le monde covid frigorificos

Os professores Heck e Nascimento Junior mostram que ao impedir o isolamento social dos seus trabalhadores, os frigoríficos impuseram a difusão da pandemia não apenas nos municípios sede, mas também nas regiões de entorno, onde parte dos seus contratados reside.  Somado a esse padrão geográfico, os pesquisadores mostram que as condições de alta precariedade em que o trabalho dentro dos frigoríficos ocorre contribui de forma direta para o adoecimento dos seus empregados, bem como das famílias destes.

Já o artigo assinado pelos professores Larissa Bombardi do Departamento de Geografia da USP,  Immo Fiebrig, professor associado honorário da Escola de Biociências a Universidade de Nottingham na Inglaterra, e Pablo Luiz Maia Nepomuceno do Departamento de Geografia da USP.  Em seu artigo, os três pesquisadores abordaram  a possível correspondência espacial entre as áreas com criação intensiva de porcos e aquelas com altas taxas de população infectada por COVID-19 nos EUA. Essa investigação teve início com a divulgação na imprensa, a partir de abril de 2020, de diversos casos de trabalhadores da indústria da carne infectados pelo novo coronavírus, já que as plantas industriais onde ocorre o abate de animais teriam se transformado em hotspots de disseminação do SAR-Cov-2. 

Ao relacionar a presença de grandes rebanhos de suínos com as plantas de abate, Bombardi e seus colegas confirmaram a existência de uma relação inequívoca   na distribuição espacial entre as áreas com grande presença de suinocultura e/ou de frigoríficos e aquelas com alta taxa da população infectada por Covid-19 nos EUA (ver figura abaixo).

le monde covid suinocultura

Bombardi e colegas argumentam que a transformação de porcos em uma mera “massa de proteína animal” tem se mostrado deletéria não apenas para os animais, mas também para os seres humanos e para o meio ambiente.  Por causa disso eles concluem que não é de se estranhar que novas cepas tenham surgido na velocidade com que o fizeram neste século.

Outros artigos também sinalizam a incompatibilidade do modelo de fazenda industrial com a manutenção de níveis aceitáveis de segurança alimentar, de condições de vida minimamente dignas para os animais, bem como a prevalência de condições adequadas para os trabalhadores da indústria da carne animal.  Um elemento que aparece de forma eloquente, por exemplo, no artigo assinado  pelo  doutor José Raimundo Sousa Ribeiro Junior, professor visitante do Instituto de Saúde e Sociedade da Unifesp. Em seu artigo, Ribeiro Junior coloca em xeque a falácia de que o “agronegócio mata a fome do mundo”. É que segundo dados levantados por , a pandemia pode ser responsável pelo crescimento de 83 milhões a 132 milhões na quantidade de pessoas cronicamente desnutridas no mundo. em que pese os lucros fabulosos auferidos pelas corporações que controlam a produção e distribuição de alimentos no mundo.

Quem desejar acessar a íntegra da edição de janeiro de 2020 do Le Monde Diplomatique Brasil, basta clicar [Aqui!]. 

Santa ironia! Governo Bolsonaro desconstrói o legado de Lula no agronegócio

bolso chapeu

Uma das áreas em que o governo Bolsonaro tem sido para lá de eficiente na desconstrução do “legado” dos governos do PT, principalmente os comandados pelo ex-presidente Lula, é curiosamente a do agronegócio. Quando se lembra que o primeiro ministro da Agricultura do PT foi o agrônomo Roberto Rodrigues, considerado então e agora uma espécie de porta-voz do agronegócio, e que ele passou quase toda a sua gestão abrindo novos caminhos e desbloqueando outros que já existiam, o que está acontecendo agora beira um completo desastre para o setor que vive de exportar commodities agrícolas.

roberto lulaO ex-presidente Lula com o seu ministro pró-agronegócio, o agrônomo Roberto Rodrigues

Às confusões ideológicas com a China somam-se as navalhadas no sistema de proteção ambiental, cuja imagem foi lapidarmente construída por Lula e Roberto Rodrigues. A combinação dessas ações já está podendo ser sentida tanto na busca chinesa por novas frentes de fornecimento, tanto na América Latina como na África, mas também a criação de dificuldades descomunais para a ratificação do acordo de livre comércio do Mercosul com a União Europeia. Aliás, o acordo com a EU pode em breve sofrer o mesmo destino das relações bilaterais com a China, pois nada impede que o governo de Alberto Fernandez também passe a circunavegar o Mercosul para apostar em relações bilaterais com a EU ou, pelo menos, com a França e a Alemanha que são de longe as principais economias do bloco europeu.

Eu fico imaginando o que determinados figurões do agronegócio (aliás, melhor chamar pelo nome certo que é latifúndio agro-exportador) estão pensando com as consequências das ações destrutivas realizadas pelo governo Bolsonaro e que impactam os latifundiários no único lugar que dói que é o bolso deles.

Há que se ressaltar que a postura anti-ambiental do governo Bolsonaro já serviu para que surgissem uma série de boicotes às commodities agrícolas brasileiras que levaram a várias cadeias importantes de supermercados na Europa a exigir que seus governos nacionais pressionem o Brasil para que o curso anti-ambiental seja revertido, sob pena de verem seus consumidores se insurgindo contra a compra de produtos brasileiros.

Como 2021 promete ser um ano marcado por um processo de retração da atividade econômica em escala global, a postura anti-chinesa e anti-ambiental do governo Bolsonaro poderá trazer uma desconstrução ainda maior do legado do ex-presidente Lula na área das exportações de commodities.  Que ninguém se surpreenda se primeiro setor importante a efetivamente desertar o governo Bolsonaro seja o do agronegócio. Se isso ocorrer seria uma daquelas supremas ironias, já que foi o barões do agronegócio estiveram desde o início com a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro e a bancada ruralista foi uma das mais eficientes em coletar votos pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Eu diria que o agronegócio está agora colhendo o que plantou quando se alinhou com Bolsonaro. Uma triste e acabada ironia que os atuais tempos tempestuosos nos trazem.

Agronegócio e pandemias mortais: uma mistura virulenta

Há pouco tempo recebi da Editora Elefante, a minha cópia do livro “Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, Capitalismo e ciência” que reúne uma série de artigos do epidemiologista evolutivo estadunidense Rob Wallace, mas só agora estou tendo a chance de começar a lê-lo.

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Sem me alongar no conteúdo, pois isso sempre desanima as pessoas de querer comprar a sua própria cópia, eu diria que a leitura de apenas dois dos trinta artigos que compõe a obra me forneceu mais informação sobre as origens, interações e caminhos percorridos pelo SARS-Cov-2, gerador da pandemia da COVID-19, do que meses de matérias e aparições de outros especialistas em programas da mídia corporativa.

É que Wallace nos apresenta uma visão muito bem conectada do papel jogado pelo grande capital e o seu forte controle sobre os meios de produção na criação das condições para a mobilização e interação de diferentes vírus e seus vetores, incluindo os seres humanos, no estabelecimento de um cenário propenso a uma ocorrência de apenas uma, mas de múltiplas pandemias que ocorrem de forma concomitante, sem que possamos sequer nos aperceber disso.

Na raiz do problema está o modelo de agricultura intensiva que reduz o campo a uma forma não natural de produção de alimentos em número de variedades cada vez mais restrito. Com isso, ocorre o aumento do desmatamento e a destruição de equilíbrios sensíveis entre vírus, seus habitats e hospedeiros.  Para Wallace entender essa combinação é mais importante do que cair na crença de que a COVID-19 tem mais a ver com “aquele famoso mercado em Wuhan” do que com a forma pela qual o capital financeiro globalizado controla o processo de produção e circulação da comida.

Mas para não estragar a surpresa, sugiro que quem quiser sair da redoma criada para nos isolar de um entendimento mais completo das causas e trajetórias da COVID-19 que se dirija ao site da Editora Elefante e adquira a sua própria cópia do livro de Rob Wallace.  Como o próprio Wallace avisa, essa é uma obra virulenta, mas essencial para que possamos entender o tamanho do buraco em estamos metidos.

O Pantanal, no Brasil, um paraíso de biodiversidade devastado pelas chamas

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Por Bruno Meyerfeld para o Le Monde

O Pantanal, lar de flora e fauna excepcionais, é apenas uma sombra de si mesmo. Mais de 16.000 disparos foram registrados na região desde o início do ano.

Aqui, um jacaré morreu carbonizado, seu eterno sorriso reptiliano nos lábios. Mais adiante, o crânio de um grande búfalo repousa sobre o solo rachado e cor de carvão. Em outro lugar, entrelaçados com raízes e troncos de árvores chamuscados, estão os restos sinistros de uma serpente do pântano, congelada em sua fuga desesperada das chamas.

No final da estação seca, o Pantanal brasileiro parece um cemitério. Assolada por gigantescos incêndios desde julho, essa área de excepcional biodiversidade, que abriga cerca de 650 espécies de aves, 98 de répteis e 159 de mamíferos, já perdeu, segundo especialistas, de 20% a 25% de sua área, ou 3 milhões a 4 milhões de hectares viraram fumaça. O equivalente à área da Bélgica ou Suíça.

Para compreender toda a extensão da hecatombe, é necessário seguir pela Transpantaneira, uma estrada lendária que, durante 150 km, atravessa a região de norte a sul, da cidade de Poconé à de Porto Jofre. Há alguns meses, o visitante que passava era transportado para lá em uma paisagem preservada, toda de turfa e lagoas, vasto pântano que lembra a Camargue dos trópicos, reino das onças, antas, tamanduás e sucuris gigantes, araras de plumagem azul meia-noite e limícolas tuiuiú com babados ruivos… Um paraíso do ecoturismo.

panta 1Ao longo da Transpantaneira, estrada que corta o Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil, em 22 de setembro. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

Tudo mudou neste ano com a chegada da seca. Neste mês de setembro, abaixo de 40 ° C, o Pantanal não é mais do que uma sombra de si mesmo: florestas carbonizadas, cor de carvão, sucedem-se a rios e lagos secos, listrados como pergaminho velho.

Desde o início do ano, foram registrados 16.000 incêndios na região, contra apenas 6.000 no mesmo período de 2019. Apesar da calmaria recente, graças a poucas chuvas, podemos ver aqui e ali, ainda muitos incêndios começam. Uma espessa fumaça ocre cobre constantemente o horizonte, às vezes até o céu. Durante o dia, o sol costuma ser invisível.

É impossível saber quantos milhares de animais morreram no desastre. Os sobreviventes, por sua vez, parecem pobres. Ao longo da estrada percorrem macacos exaustos, lontras e raptores, impelidos pela seca, em busca de alimentos indetectáveis. Na borda dos últimos pontos de água, muitas vezes grandes poças de lama, crocodilos e aves pernaltas se reúnem às dezenas, competindo ferozmente pelos últimos centímetros de remanso disponível. A menor carniça torna-se presa de abutres de barriga vazia.

panta 2Bombeiros combatem incêndios na ecorregião do Pantanal, dos quais mais de 2,9 milhões de hectares foram afetados pelos incêndios. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“É o caos total”

Não são apenas os animais que sofrem. Os homens estão exaustos e exaustos, a começar pelos bombeiros da região, que vieram combater as chamas. Encontramos um grupo, ao cair da noite, bem perto de Poconé, em um cara a cara com uma fogueira. Um pequeno caminhão-tanque descarregou rapidamente e uma escavadeira: os meios são irrisórios para este punhado de bombeiros, confusos sobre o que fazer a seguir, sem estratégia ou proteção adequada.

“É o caos total”, covarde, irritado, o coronel Paulo Barroso, carioca de 49 anos, carismático chefe dos bombeiros da região. “Não temos helicópteros, estou perdendo pelo menos vinte tanques e só tenho algumas dezenas de homens para lidar com centenas de incêndios. Devemos apagar o fogo cuspindo neles! Ele ficou furioso. Por falta de alternativa, os bombeiros ficam reduzidos a abrir aceiros, “corredores” cavados com retroescavadeira no mato e borrifados com água para cortar o caminho do incêndio e evitar que se alastre, na maioria das vezes por vão.

Um dos muitos incêndios que devastaram o Pantanal, uma vasta área de biodiversidade que abriga 650 espécies de pássaros.

Um dos muitos incêndios que devastaram o Pantanal, uma vasta área de biodiversidade que abriga 650 espécies de pássaros. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“Esses incêndios são incontroláveis”, resmunga o Coronel Barroso, que explica: “No Pantanal, as estradas são poucas e o acesso é muito difícil. O vento aqui muda constantemente de direção. Os lagos estão secos e você precisa viajar de 80 a 100 quilômetros para recarregar as baterias. “

As chamas são particularmente traiçoeiras: “No Pantanal, temos o que se chama de“ incêndios subterrâneos ”: com secas e enchentes sucessivas, muita matéria orgânica altamente inflamável se acumula no subsolo. O fogo pode se espalhar, se espalhar sob a superfície do solo e explodir em qualquer lugar, a qualquer hora! », Explica o bombeiro.

O esqueleto de uma cobra em uma árvore carbonizada ao longo da Transpantaneira, a estrada que corta o Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil.O esqueleto de uma cobra em uma árvore carbonizada ao longo da Transpantaneira, a estrada que corta o Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“O parque foi abandonado”

No parque regional Encontro das Águas, o maior santuário de onças pintadas do planeta, logo ao sul da Transpantaneira, próximo a Porto Jofre, a ajuda foi esperada durante semanas. Em vão. 85% dos 109.000 hectares da reserva viraram fumaça. “Ninguém, nenhum bombeiro veio nos ajudar. O parque foi abandonado. Tivemos que combater o fogo sozinhos e fazer  aceiros  ” , afirma Ailton Lara, 40, guia turístico e gerente do hotel Jaguar Camp, considerado um dos melhores conhecedores do Pantanal.

“Os bombeiros intervieram prioritariamente para salvar fazendas ao invés de parques. O governo defendeu o agronegócio em vez do turismo e da pecuária ”, lamenta o guia. Resultado: onde se cruzam os rios São Lourenço e Piquiri, quase tudo se incendiou, desde as florestas secas de palmeiras até a grama úmida na superfície da água. “O fogo foi tão forte que conseguiu pular rios  [às vezes com mais de 200 metros de largura]  ”, ainda se espanta Ailton Lara. As onças assustadas, geralmente ferozes, encontraram refúgio até nas casas e hotéis de Porto Jofre.

panta 3Um incêndio no coração do Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

Precisando de turistas, os rios do parque agora são percorridos por grupos veterinários de barco, despachados pelo estado de Mato Grosso, que vieram ver os estragos e salvar o que pode ser salvo. Sob um arbusto, eles avistam uma onça sonolenta com as patas queimadas. “Está tudo bem, cura bem!” », Tranquiliza um dos zooterapeutas em fadiga. Rio acima, um búfalo de olhar opaco e cascos carbonizados não consegue mais se levantar. Jogamos repolho, cenoura, mamão, que ele engole com dificuldade. Mais tarde, ao anoitecer, os cientistas retornarão para acabar com ele com uma arma. “Ele estava condenado. Abreviamos o seu sofrimento ”, explica um deles. 

panta 4Veterinários tratam de uma paca, um roedor endêmico do Pantanal, cujas pernas foram queimadas pelos incêndios de 22 de setembro. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

Meios muito limitados para salvar animais

É difícil ajudar os animais. Perto dos últimos pontos de água, bombeiros e veterinários estão instalando dezenas de comedouros, caixas azuis cheias de frutas e vegetais tropicais. “O problema número um agora é a fome, que pode matar ainda mais do que as chamas”, insiste Luciana Cataldi, 46, veterinária voluntária que veio de São Paulo para dar uma mão e ajudar. A operação não é isenta de riscos: “Se alimentarmos os animais em demasia, eles correm o risco de perder o instinto selvagem e de se tornarem dependentes dos humanos. É um verdadeiro dilema ”, explica ela .

panta 5Um búfalo selvagem, cujas pernas foram queimadas nas fogueiras, recebe alimento, no Parque Nacional Encontro das Águas, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

Às vezes, as equipes ainda conseguem capturar e resgatar um animal ferido. “Usamos zarabatanas e flechas embebidas em tranquilizante. Mas isso também é muito complicado ”, continua Luciana. O jaguar, nadador experiente, pode, após ser atingido por uma dessas flechas, mergulhar em um rio para fugir e se afogar, com os músculos paralisados ​​pelo sedativo.

Os poucos animais sobreviventes são conduzidos a um pequeno posto de cuidado na entrada da Transpantaneira. Aqui, novamente, os meios são muito limitados: o local só pode acomodar um pequeno número de animais, colocados em um pequeno abrigo de concreto. No dia da nossa visita, um wader tuiuiú nervoso com a asa quebrada e um pequeno roedor de paca , queimado nas pernas, dividiram o local. Os veterinários atuam ali com os meios disponíveis, à luz de uma luminária de mesa e sobre uma toalha de banho suja. “Os animais estão traumatizados, muito estressados. É comum eles morrerem depois de serem trazidos para cá ”, admite Luciana Cataldi.

panta 6Voluntários vêm em auxílio do jabiru-americano, uma grande ave pernalta às vezes chamada de tuiuiu, emblema do Pantanal. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

No entanto, há um animal que resistiu aos incêndios melhor do que os outros: a vaca da fazenda de casaco branco, cujas dezenas de milhares de cabeças ainda pastam pacificamente nas vastas planícies úmidas do Pantanal. Como se nada tivesse acontecido.

“A responsabilidade dos agricultores! “

Segundo as ONGs, isso está longe de ser uma coincidência: “Este desastre é antes de mais nada o resultado da ação humana e a responsabilidade dos agricultores é óbvia! », Denuncia Alcides Faria, biólogo e diretor da organização ambientalista Ecoa.

panta 7Quatis, pequenos mamíferos próximos a guaxinins, em busca de alimento em uma área queimada do Pantanal, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“Todos os estudos mostram que esses incêndios começaram com queimadas [apagadas] em várias fazendas próximas a Poconé”, continua, lembrando que “todos os dias, 70 km 2 a 80 km 2 de floresta pantaneira são arrasadas pelos criadores ”, ajudando a secar um pouco mais o solo.

Acusações rejeitadas em bloco pelos agricultores locais – os pantaneiros -, que apontam em primeiro lugar para uma seca histórica em curso, provável consequência do aquecimento global. Durante a última estação chuvosa, entre outubro de 2019 e março de 2020, o nível de precipitação no Pantanal caiu 40% em relação à média. Como resultado, o rio Paraguai, principal “torneira” e fornecedor de água do grande pântano, de repente secou. Em junho, atingiu seu nível mais baixo em cinco décadas: 2,1 metros de profundidade, contra pelo menos 5,6 metros usuais.

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Uma área queimada ao longo da Transpantaneira, no estado de Mato Grosso, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“Não temos nada a ver com este drama! “, Insiste Arlindo Moraes, um forte e bronzeado dirigente do sindicato rural da região, que recebe nas suas instalações em Poconé, cuidadosamente pintadas de verde. “O agricultor pantaneiro ama a natureza, ele protege. Sua maior felicidade é ouvir o canto dos pássaros no início da manhã! », Explica Ele , incriminando os defensores do meio ambiente. “A carne é um bombeiro natural, limpa o solo das ervas daninhas, evita o acúmulo de biomassa, que é usada como combustível para incêndios. Ao contrário do que dizem as ONGs, esta região precisa de mais gado! “

“Vai demorar muito para a natureza se regenerar”, explica o guia Ailton Lara

O drama parece resultar de uma série de fatores. Mas se há alguém cuja responsabilidade é quase unânime, é o presidente Jair Bolsonaro. “O governo não tomou medidas preventivas para se antecipar aos incêndios e acabou com as operações de fiscalização dos órgãos ambientais, que intimidavam os agricultores”, lembra o biólogo Alcides Faria. Cientistas também apontam para o papel do desmatamento na Amazônia, incentivado pela atual potência. Isso teria um impacto significativo no ciclo das chuvas no Brasil, em particular no centro e no sul do país.

Com um presidente Bolsonaro firmemente no poder e as mudanças climáticas continuando, as perspectivas são sombrias para o Pantanal. “Vai demorar muito para a natureza se regenerar, não apenas dois ou três anos”, explica o guia Ailton Lara. Não tenho certeza se os pantaneiros vão esperar tanto tempo. “Para sobreviver ao declínio do turismo, as pessoas provavelmente se voltarão ainda mais para a pecuária. Aumenta o risco de desmatamento e queimadas… ” Um círculo vicioso que pode acabar transformando o pântano em deserto.

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Este texto foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Na ONU, Bolsonaro mente em dizer que Brasil ajuda a alimentar o mundo

Mais de 60% das exportações do agronegócio vão para ração. A agricultura familiar, que produz comida de verdade, não tem incentivo para plantar. Muito menos para exportar

soja 1O que Bolsonaro não disse na ONU é que itens exportados pelo agro, como a soja, alimentam o gado e a indústria de alimentos ultraprocessados

Por Cida Oliveira para a Rede Brasil Atual

São Paulo – “No Brasil, apesar da crise mundial, a produção rural não parou. O homem do campo trabalhou como nunca. Produziu, como sempre, alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas. O Brasil contribuiu para que o mundo continuasse alimentado.” Esta é mais uma das mentiras contadas pelo presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento na abertura da assembleia geral da Organização das Nações Unidas (ONU) nesta terça-feira (22).

Criada pelos militares na década de 1970, essa propaganda reiterada por Bolsonaro, de que o Brasil é o celeiro do mundo, é enganosa e mal intencionada. E atende aos interesses de latifundiários que, incentivados pelo governo, passaram a se dedicar ao cultivo da soja regada a altas doses de agrotóxicos, que contaminam o solo, rios e aquíferos, em grandes extensões de terra para exportação. “Alimentar essa ideia é vender uma imagem positiva das grandes fazendas, como produtoras de alimentos para o Brasil e o mundo”, afirma o professor e pesquisador Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).

Não mata a fome

O que Bolsonaro não falou na ONU é que a soja é o principal item da pauta de exportações do agronegócio. O setor é um dos responsáveis pela sustentação de Jair Bolsonaro. No entanto, o grão não tem na alimentação humana a sua principal aplicação. Na Europa e na China, principais compradores, é usado em grande parte na produção de ração animal. Outro item é o milho, igualmente destinado em grande parte à alimentação animal e à indústria de alimentos, entrando como matéria prima para a fabricação do xarope que adoça sucos e refrigerantes, entre outros produtos. E o algodão sabidamente não mata a fome de ninguém.

“O aumento do consumo de carne bovina, suína e de aves e peixes, no entanto, nada tem a ver com fome”, diz Pedlowski. “E sim com a manutenção de um padrão de dieta criado e dominado pelas grandes corporações do setor de alimentos, baseado na grande demanda poralimentos ultraprocessados, calóricos e pouco nutritivos. “

Mapa da fome

Entre outros argumentos que desmistificam a falaciosa propaganda, o agrônomo Leonardo Melgarejo destaca uma contradição. “Como pode esse agronegócio que diz alimentar um bilhão de pessoas no mundo estar alheio ao que acontece no Brasil? Entramos, de novo, no mapa da fome!”, questiona.

O abismo entre a lucratividade do setor, que em ano de supersafra deverá arrecadar perto de meio trilhão de reais, e o custo dos alimentos que penaliza os mais pobres também desconstroi o mito, segundo Melgarejo. Outra coisa que Bolsonaro escondeu da ONU é que o arroz e o feijão estão sumindo do mercado, com preços elevados em 30% e 18%, respectivamente. Odesemprego, contando os que desistiram de procurar trabalho, atinge 30 milhões de brasileiros. “São 60 milhões os que dependem do auxílio emergencial, de pouco mais de 100 dólares, para comer. Não é evidente que estas curvas, a do crescimento da fome e miséria, e a dos ganhos cumulados por este agronegócio que define as falas do governo, crescem juntas, mas com efeitos opostos? A soja matou a fome de quem? Seu avanço, nos rastros das queimadas, vai beneficiar a quem?”

Agronegócio nefasto

Em nome dessa pseudo missão de alimentar o mundo, o agronegócio avança sobre a Amazônia, o Pantanale o Cerrado, derrubando e queimando a floresta. “Recentes estudos envolvendo a cadeia da carne demonstram que os grandes empresas brasileiras, JBS, Minerva e Marfrig estão envolvidos com fazendas desmatadas ilegalmente. E quando são encontradas evidências, dizem que não têm como controlar a cadeia da carne. E aceitam animais criados e abatidos em áreas de desmatamento ilegal muitas vezes em unidades de conservação e territórios indígenas. Então a cadeia da carne é o principal exemplo de que não tem latifundiário bom e latifundiário ruim”, aponta Marcos Pedlowski, da Uenf.

Coautor de um estudo publicado na última semana na revista científica Science, que demonstra que a área degradada na Amazônia é ainda maior que a desmatada, Pedlowski explica que o crescimento do desmatamento, para abertura de novos pasto e áreas agrícolas, nada tem a ver com o aumento da demanda internacional pela soja e pela carne. E sim pela falta de investimento no aumento dessas atividades. Pois a natureza não fez a Amazônia para esse tipo de agricultura intensiva e de grande escala.

Pantanal

“A dinâmica ecológica não suporta isso, porque a fertilidade dos solos depende da ciclagem dos materiais orgânicos da floresta. Com a sua derrubada, os solos vão se exaurir em um período de 3 a 10 anos. Por isso os produtores de soja buscam cada vez mais áreas. Nas que ficam para trás não nasce nem capim. Em Rondônia, que tem alguns dos melhores solos da Amazônia, já vi terrenos que ficaram completamente imprestáveis. Se for nos solos totalmente arenosos, o ciclo é ainda mais curto. Por isso a agrofloresta não só faz mais sentido ecológico, mas também econômico”, diz Pedlowski.

Assim, essa ação danosa do agronegócio predatório na Amazônia, que não considera os danos ecológicos, afetam até o regime de chuvas no Brasil. A questão do Pantanal é a mesma coisa. “Essas queimadas de 2019 e 2020 foram feitas por latifundiários que querem aumentar a sua área para pasto e para o plantio de soja. É a expansão da mesma lógica da Amazônia ocorrendo no bioma Pantanal.”

O problema, segundo Pedlowski, é que os latifundiários, propalados como homens do campo que ajudam a matar a fome do planeta, não se importam com nada disso. “Estão se lixando para isso porque têm o poder político e bélico para ocupar cada vez mais áreas para praticar uma agricultura ecologicamente insustentável. Latifundiário com consciência ecológica é tão inviável quanto usaragrotóxico com segurança. Não é a toa que os dois sempre andam juntos. Isso sem falar do trabalho escravo.”

Agricultura familiar

Enquanto o latifúndio que não produz alimento é supervalorizado, dotado de estruturas de financiamento, crédito subsidiado e incentivos fiscais, a agricultura familiar tem cada vez menos área, crédito e direitos. Os verdadeiros homens do campo que trabalham de sol a sol para garantir os alimentos consumidos pelos brasileiros são perseguidos por Bolsonaro.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura(FAO), em todo o mundo a agricultura familiar produz 70% dos alimentos mais consumidos.

O corte de recursos do setor, como o Programa de Cisternas e do Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), foi só o começo.

Em maio, já durante a pandemia, Bolsonaro excluiu os pequenos agricultores, silvicultores, pescadores artesanais e aquicultores do auxílio emergencial de R$ 600 por “contrariedade ao interesse público e inconstitucionalidade”.

E um Projeto de Lei apresentado ao Congresso em março para socorrer esses produtores de alimentos, o PL 735, só foi aprovado em agosto. No entanto, Bolsonaro vetou a maior parte da proposta convertida na Lei 14.048/2020. A canetada excluiu 14 dispositivos fundamentais para o atendimento emergencial, como o pagamento do próprio benefício de R$ 600, a criação de novas linhas de crédito emergencial do Pronaf, o Programa de Atendimento Emergencial à Agricultura Familiar – complemento emergencial ao PAA, a prorrogação do prazo para pagamento de dívidas e a suspensão de cobranças judiciais e execuções.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

O Pantanal em chamas

Mudanças climáticas e agronegócio brasileiro ameaçam maior área alagada do mundo

pantanalNo final de agosto de 2020, a fumaça de um incêndio florestal sobe perto do rio Cuiabá, perto do Pantanal no Brasil.  Foto: Reuters / Amanda Perobelli

Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

Este ano, o incêndio está mais forte do que nunca no Pantanal, no oeste do Brasil. O mar de chamas já devorou ​​vários milhares de quilômetros quadrados da maior zona úmida do mundo. A brigada de incêndio e as forças armadas têm lutado até agora contra o incêndio em vão. A área com status de patrimônio natural mundial da Unesco, que realmente requer proteção especial, enfrenta a pior tragédia ambiental de sua história.

De 1º de janeiro a 31 de agosto deste ano, o instituto de pesquisas espaciais INPE, responsável pelo monitoramento ambiental por satélite no Brasil, contabilizou 10.316 focos de incêndio no Pantanal, mais de três vezes mais do que no mesmo período do ano anterior. Desde o início da vigilância por satélite, em 1998, o INPE nunca registrou tantos incêndios nessa região nos primeiros oito meses do ano. No final de abril, as chamas devoraram uma área de 3.686 quilômetros quadrados, que é mais de quatro vezes o tamanho de Berlim.

Os especialistas presumem que, como em anos anteriores, a maioria dos incêndios foi deliberadamente iniciada para dar lugar a pastagens de gado e plantações de soja. “Quem ateia fogo no Pantanal é uma pessoa”, diz André Luiz Siqueira, da organização local de proteção ambiental Ecoa. »Os incêndios naturais são gerados por raios, que estão sempre associados à estação das chuvas. Mas como não choveu no Pantanal, fica claro que o homem é a causa principal «, explica a bióloga.

O desmatamento e a queimada andam de mãos dadas. Só em abril passado, um tribunal do estado de Mato Grosso do Sul autorizou a empresa agrícola Majora Participações a derrubar 42,5 mil hectares no Pantanal Sul. Mas a extensão da conflagração deste ano sugere outra causa: a possível mudança climática permanente. A zona úmida, que depende das chuvas e das inundações periódicas de seus afluentes do planalto central brasileiro, está passando atualmente por uma das piores estações de seca. De acordo com o Instituto Brasileiro de Pesquisa Agropecuária Embrapa, a estação chuvosa de outubro a março, importante para a bacia do Pantanal, registrou 40% menos chuvas do que a média dos anos anteriores.

Além disso, o principal afluente, o Rio Paraguai, tem tão pouca água este ano como não há quase cinco décadas. No município de Ladário, no Mato Grosso do Sul, onde os níveis de água são medidos há 120 anos, o nível de água em junho era de apenas 2,1 metros – 3,5 metros abaixo da média de longo prazo e o menor valor medido em 47 anos. Um estudo da Universidade Estadual de Mato Grosso também mostra que o volume de água do Rio Paraguai está diminuindo a cada ano. Para o diretor de pesquisas Ernandes Oliveira Júnior, isso é claramente uma consequência das mudanças climáticas. Marcos Rosa, geógrafo da rede de pesquisa MapBiomas, teme que “esta seja uma nova normalidade em decorrência das mudanças climáticas provocadas pelo homem, que estão mudando o ciclo das chuvas,

Já em 2015, seu colega Aguinaldo Silva, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul em Corumbá, alertava sobre as consequências potencialmente catastróficas das mudanças climáticas para o Pantanal. Sua equipe internacional de pesquisadores tem estudado mudanças ambientais na importante zona úmida desde 2000. “Podemos dizer com alguma certeza que o clima global está mudando e as temperaturas estão ficando mais quentes”, disse Silva. »Isso pode ter consequências dramáticas para o ciclo da água do Pantanal e alterar as enchentes anuais do Rio Paraguai. Podem ocorrer longos períodos de seca que têm um impacto negativo na flora e na fauna. ”

Para ele, porém, a maior ameaça ao Pantanal vem do planalto e das mudanças no balanço hídrico que ali ocorrem devido ao desmatamento do Cerrado e à disseminação das monoculturas de soja. “Os rios que deságuam no Pantanal nascem no Cerrado”, explica o geógrafo Marcos Reis Rosa. O desmatamento faz com que o solo perca sua proteção, o que torna os rios mais planos e assoreados. Hidrelétricas e barragens agravaram a situação. De acordo com dados oficiais, havia 41 usinas hidrelétricas nos afluentes do Pantanal em 2017, e mais de 100 estão em planejamento.

Outra causa da escassez de água no Pantanal é a destruição da floresta amazônica. Com a aceleração do desmatamento por lá, mudaram as estações das chuvas no Brasil, explica Vinícius Silgueiro, da organização não governamental Instituto Centro de Vida. “A Amazônia dá vida a praticamente todos os ecossistemas do continente.” No entanto, o aumento do desmatamento está afetando o “transporte fluvial”. Esse é um dos motivos pelos quais o Pantanal vive atualmente sua maior tragédia ambiental em décadas.

Os pesquisadores concordam que, se as ameaças não cessarem, o Pantanal de 150 mil quilômetros quadrados, lar de onças, jacarés e centenas de outras espécies de animais, extremamente rico em espécies, está prestes a entrar em colapso – e em um futuro não muito distante.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

‘As maçãs podres do agronegócio’: pesquisadores defendem estudo da Science com críticas à produção brasileira

Para grupo, não há como ocultar a gravidade do desmatamento ilegal, do descumprimento explícito do Código Florestal e das invasões de terras públicas no Brasil

desmatamentoEstudo avalia que em Mato Grosso, somente 3% dos imóveis possuíam de fato uma autorização para desmatar (Marcelo Camargo/ABr)

Um grupo de cientistas do Brasil se uniu para escrever uma carta em defesa do estudo liderado pelo pesquisador Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicado em julho na revista Science. O estudo, intitulado As maçãs podres do agronegócio, na tradução em português, levantou que pelo menos 17% da carne e 20% da soja produzidas nos biomas Amazônia e Cerrado e exportadas para a União Europeia estariam “potencialmente contaminadas” com o desmatamento ilegal.

A pesquisa despertou forte polêmica, sendo questionada por vários segmentos do agronegócio, entre entidades de produtores, representantes do governo e consultores. Essa reação, entretanto é “contraproducente”, de acordo com a carta assinada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, além da Fundação Florestal do Estado de São Paulo (SMA-FF) e também pelo climatologista Carlos Afonso Nobre, que já atuou no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e colaborou com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Para eles, “não há como ocultar a gravidade do desmatamento ilegal, do descumprimento explícito do Código Florestal, das invasões de terras públicas e protegidas, da apropriação de recursos naturais, dos incêndios criminosos, entre outros problemas associados ao mau uso da terra sob a ótica equivocada de expansão crescente e contínua das fronteiras de produção agropecuária. Tais problemas demandam soluções para as quais a Ciência pode, mais uma vez, ser uma importante aliada dos produtores rurais”.

De acordo com os cientistas signatários do documento, a reação do agronegócio ao estudo “despreza as contribuições científicas passadas e atuais para a eficiência e a sustentabilidade da agropecuária”. Além disso, assinalam que “vale lembrar que o Brasil só é uma potência agropecuária hoje, em grande parte, devido aos avanços científicos e tecnológicos”. Ainda segundo o documento, todos os avanços no setor agropecuário – inclusive os ligados à sustentabilidade – foram conquistados com “ciência robusta e ancorada em pesquisas sérias e auditadas”.

Desta forma, reafirmem, a pesquisa liderada pelo professor Rajão e publicada na Science seguiu os mesmos e sérios preceitos. “Como é a prática nessa revista, o estudo passou por um rigoroso escrutínio de vários editores e revisores”, lembram os cientistas, que continuam: “Eles auditaram a metodologia usada, os resultados obtidos e avaliaram se as afirmações contidas no artigo estavam sustentadas na ciência, na realidade de campo e nas análises feitas pelos pesquisadores”.

Ainda de acordo com a carta, as conclusões do estudo publicado na Science “convergem com as de muitos artigos científicos e de levantamentos regulares de dados oficiais feitos no Brasil”. E ainda “são conservadores” em relação à área de fato ilegalmente desmatada no País para a expansão do agronegócio. Segundo os cientistas, o estudo do professor Rajão olha para desmatamentos “comprovadamente ilegais”, e “qualifica provavelmente menos propriedades ilegais do que uma análise mais direcionada apontaria”.

Neste ponto, os pesquisadores discordam de críticas de consultorias do agronegócio, que argumentaram, ao rebater o estudo, que a ilegalidade de áreas desmatadas está “superestimada”, ao deixar de incluir nas análises algumas premissas, “como as autorizações de supressão (florestal) concedidas pelos Estados”. “É importante esclarecer que os números mostrados por este estudo na Science são conservadores”, reafirma a carta. “Por exemplo, visto a ausência de dados de autorizações de supressão de vegetação para todos os Estados, o estudo considerou todos os desmatamentos que respeitam as regras da reserva legal como ‘potencialmente legais’.”

Sob este aspecto, a carta menciona que o estudo avalia que em Mato Grosso – um dos poucos Estados que dispõem de dados -, por exemplo, somente 3% dos imóveis possuíam de fato uma autorização para desmatar, o que tornaria legal a retirada da floresta. “Ou seja, muito do desmatamento que o estudo considerou como ‘potencialmente legal’ na verdade tende a ser ilegal por não ter autorização, como mostra este exemplo do Mato Grosso”, dizem os pesquisadores.

Outro argumento utilizado pelos consultores do agronegócio e que não é factível, conforme a carta agora publicada pelos cientistas, é o de que as propriedades qualificadas no estudo do professor Rajão como “ilegais” poderiam estar compensando passivos florestais em suas propriedades em outras áreas, dentro do mesmo bioma. “Não poderiam, pois, de acordo com o Código Florestal a compensação não pode ser usada para viabilizar novos desmatamentos em propriedades que já tenham passivos”, dizem os pesquisadores.

Um dos signatários da carta, o pesquisador em Sustentabilidade de Cadeias Produtivas na Universidade Católica de Louvain, Tiago N. P. Dos Reis, lembra ainda que o mecanismo de compensação ambiental só pode ser feito em propriedades que desmataram antes do marco temporal definido pelo Código Florestal, de julho de 2008.

“Depois desta data o Código não permite o uso do mecanismo de compensação”, diz. Daí o argumento dos consultores não ser fundamentado, opina ele, reforçando o “conservadorismo” do estudo do professor Rajão. “O estudo publicado na Science foi conservador porque considerou de fato ilegais apenas aqueles produtores que já tinham passivo ambiental (antes de julho de 2008) e mesmo assim continuaram desmatando, ou seja, continuaram atuando na ilegalidade”, explica Reis. “Já para aqueles que tinham ativo florestal e excedente de reserva legal e desmataram depois de julho de 2008, o estudo não considerou como ‘ilegais’, embora eles possam ter desmatado ilegalmente caso o tenham feito sem autorização, o que é muito provável, mas que o estudo desconsiderou.”

Assim, na carta, os pesquisadores são enfáticos (apesar de repetirem que os números de propriedades ilegais do estudo de Rajão serem subestimados): “Logo, as propriedades que o estudo classifica como ‘ilegais’ são indiscutivelmente ilegais, e muitos desmatamentos que o estudo considera como ‘legais’ são potencialmente ilegais. O argumento da superestimativa, portanto está equivocado”.

A carta defende, ainda, que a crítica honesta ao estudo “é essencial para o progresso do conhecimento científico” e que Raoni Rajão e equipe usaram “dados públicos, metodologia aberta, transparente e replicável”. “Todos os resultados do artigo estão disponíveis e acessíveis para avaliação na própria revista Science e no site do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG”, dizem. “Dessa forma, é possível checar as premissas e auditar os dados e cálculos realizados.”

Adicionalmente, os cientistas lembram que “as críticas feitas à boa ciência por parte minoritária do agronegócio, sem argumentos robustos e embasamento, representam uma tentativa de usar o conhecimento científico somente quando for conveniente ou quando esses conhecimentos confirmam suas percepções e visões de mundo” dizem. “No entanto, cabe esclarecer que a Ciência não funciona assim.” E acrescentam: “Confrontar achados científicos com especulações e inverdades pode parecer uma resposta fácil, mas só nos mantém mais afastados das soluções reais e necessárias”.

Por fim, sentenciam que “não há trilha viável” para o agronegócio brasileiro se não forem equacionados seus equívocos e inconsistências legais, ambientais e sociais”. E dizem ainda que “uma grande parte do agronegócio está buscando se adequar de forma responsável às demandas da sociedade por sustentabilidade. Esta parte encontrará apoio no bom conhecimento científico”.

Os pesquisadores que assinam o documento são a professora titular da UnB em Ecologia de Ecossistemas, Mercedes Bustamante; o pesquisador em sustentabilidade de cadeias produtivas na Universidade Católica de Louvain, Bélgica, Tiago N. P. Dos Reis; o pesquisador Gerd Sparovek, coordenador do Laboratório de Geoprocessamento e Inteligência Estratégica e Espacial da USP e presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo; o professor de Sistemática e Ecologia da Esalq/USP, Ricardo Ribeiro Rodrigues; o pesquisador e climatologista Carlos Afonso Nobre, que teve atuação no Inpe e no IPCC;.

A íntegra da carta pode ser lida [Aqui!

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Este texto foi inicialmente publicado no “Portal Dom Total” [Aqui!]

Calote do agronegócio e grandes empresas com União penaliza servidores públicos e toda a sociedade

sijaFoto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

As mil maiores dívidas empresariais ativas com a União somam R$ 754,7 bilhões, valor suficiente para pagar 14 meses de auxílio emergencial. O montante é similar ao que o governo Bolsonaro alega ter “economizado” com a “reforma da previdência” aprovada pelo Congresso em 2019, que coloca em risco a aposentadoria de milhões de trabalhadores e pode inviabilizar até a existência de uma previdência pública.

E essa dívida é quase seis vezes superior ao que o governo federal pretende “economizar” – R$ 130 bilhões – ao proibir reajustes dos salários dos servidores públicos, medida aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente, apesar do seu caráter flagrantemente inconstitucional.

Quem trouxe esses números da dívida ativa foi o portal Brasil de Fato, em reportagem que mostra também o domínio do agronegócio e da mineração na lista dos dez maiores devedores. A mineradora Vale, com R$ 39,8 bilhões em dívidas, só fica atrás da Petrobras, cujo débito com a União alcança R$ 40,5 bilhões.

Responsável pelo desastre de Mariana, em novembro de 2015, no qual morreram 19 pessoas, a Samarco figura em 10º lugar na lista, devendo R$ 5,37 bilhões.

Agronegócio

O grupo Parmalat, pertencente à francesa Lactalis desde 2011, tem duas empresas entre as dez maiores devedoras: a Carital Brasil Ltda, em terceiro, com dívidas acumuladas de R$ 29 bilhões, e a PPL Participações Ltda, em sexto, que deve R$ 8,8 bilhões aos cofres públicos.

O Brasil de Fato mostrou ainda que outras três empresas do conglomerado estão entre as mil maiores dívidas: a Zirconia Participações Ltda (34ª), que deve R$ 2,6 bilhões; a Padma Indústria de Alimentos S/A (154ª), com débito de R$ 932 milhões; e a Isii Empreendimentos e Participações Ltda (173ª), que tem R$ 852 milhões em dívidas. Ao todo, o grupo soma R$ 42,3 bilhões de passivo com a União.

Na oitava posição entre as maiores devedoras está a Duagro SA Administração e Participações, com dívida de R$ 7,6 bilhões. A empresa pertence à Indústria JB Duarte S.A., que também é devedora de tributos e mantém uma dívida de R$ 288 milhões com a União, o que a coloca na posição de 706ª maior devedora do país.

Violência no campo e devastação ambiental

Como se fosse pouco o prejuízo econômico destes setores, o Brasil ainda sofre com a violência no campo, o trabalho escravo contemporâneo e a devastação ambiental de todos os seus grandes biomas, especialmente a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica e o Pantanal.

São atores que fazem parte das cadeias econômicas do agronegócio e da mineração, que muitas vezes convergem e atuam juntas na exploração dos mesmos territórios, os responsáveis diretos por dezenas de assassinatos – que acontecem a cada ano – de ativistas, líderes sindicais, ambientalistas, camponeses e outras referências de populações exploradas no campo.

Apenas em 2019 foram 32 assassinatos desse tipo, aponta o relatório “Conflitos no campo”, material produzido anualmente, desde 1985, pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Em junho, reportagem da Folha de São Paulo, com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostrou que o desmatamento na Amazônia completa 13 meses seguidos de crescimento, um fenômeno que, além dos danos socioambientais gravíssimos, pode causar muitos prejuízos ao Brasil no seu comércio exterior.

Apesar de tudo isso, nenhuma medida que reforce a cobrança dos devedores ou que imponha uma taxação maior do “andar de cima” da sociedade consegue avançar no Congresso e muito menos no governo. A conta sempre pesa sobre trabalhadores e trabalhadoras.

fecho

Este texto foi inicialmente publicado no site da Federação Nacional dos Trabalhadores do Judiciário nos Estados (Fenajud) [Aqui!].