Relatório da Comissão Europeia expõe o risco de agrotóxicos proibidos no bloco europeu se transformarem em uma nova barreira às exportações agrícolas brasileiras
Um novo relatório produzido pelo Joint Research Centre (JRC) da Comissão Europeia deveria ser lido com atenção em Brasília e pelos setores do agronegócio brasileiro. O documento mostra que continuar utilizando substâncias consideradas perigosas demais para uso na União Europeia pode se transformar em uma ameaça concreta ao acesso dos produtos agrícolas brasileiros a um dos mercados mais importantes do mundo.
O estudo, assinado por Jesus Barreiro-Hurle, Caetano Beber, Estefania Vázquez-Torres, Daniele Bertolozzi-Caredio, Francisco J. Areal e Thomas Fellmann, analisa os efeitos potenciais de reduzir ao limite de quantificação os resíduos permitidos de 18 ingredientes ativos considerados entre os mais perigosos e já proibidos no bloco. Essas substâncias aparecem associadas a 235 produtos agrícolas exportados por 86 países. O princípio europeu é simples: agrotóxicos proibidos por razões ambientais ou sanitárias não deveriam retornar ao continente por meio de alimentos importados.
Para o Brasil, o alerta é importante já que o relatório identifica cinco ingredientes ativos — mancozebe, tiofanato-metílico, glufosinato, benomil e carbendazim — associados a conjuntos de produtos cujas vendas brasileiras ao mercado europeu variam entre aproximadamente US$ 634 milhões e US$ 1,21 bilhão. Dependendo da substância, entre 51% e 66% das exportações brasileiras desses produtos têm como destino a União Europeia. O caso do ciproconazol torna o problema ainda mais concreto. Esse fungicida, proibido na União Europeia e classificado como tóxico para a reprodução, apareceu no monitoramento de importações procedentes do Brasil. O JRC encontrou resíduos em 13% das amostras de café brasileiro e em 6% das de soja analisadas, e o Brasil aparece como fornecedor dominante desses dois produtos entre os países considerados.
Não se trata, portanto, apenas de uma discussão toxicológica, mas de uma possível barreira comercial produzida pelo próprio modelo agrícola brasileiro. Se a União Europeia endurecer os limites, exportadores poderão ter de substituir agrotóxicos, segregar cadeias produtivas destinadas ao mercado europeu ou redirecionar mercadorias para outros compradores. O próprio JRC trabalha com custos adicionais de adaptação entre 5% e 20% e considera que, para café e soja brasileiros, a substituição do ciproconazol pode apresentar custos acima da média.
A cadeia da soja também pode sentir os efeitos. Em um dos cenários intermediários, as exportações brasileiras de farelo de soja para a União Europeia caem 14%. O aumento das vendas de soja em grão não compensa totalmente essa perda, o que mostra como uma mudança nos limites de resíduos pode repercutir sobre toda uma cadeia produtiva.
A contradição europeia, porém, é difícil de ignorar. Enquanto o bloco se prepara para restringir a entrada de alimentos contendo resíduos de determinados agrotóxicos, empresas sediadas na própria Europa continuam participando do comércio internacional dessas substâncias. Investigações recentes mostraram que países europeus continuam autorizando a exportação de agrotóxicos proibidos para uso interno, e o Brasil figura entre os principais destinos. O glufosinato sintetiza bem essa contradição. A União Europeia proibiu seu uso por razões toxicológicas, mas empresas europeias continuaram produzindo a substância para exportação. Agora o relatório do JRC identifica justamente o glufosinato entre os ingredientes ativos capazes de expor centenas de milhões de dólares das exportações brasileiras ao mercado europeu.
Uma cadeia bastante peculiar é formada: a Europa considera determinada substância perigosa demais para seus agricultores, empresas europeias continuam podendo vendê-la para outros países, agricultores brasileiros utilizam esses produtos e, depois, a própria Europa pode recusar os alimentos que retornem contendo seus resíduos. O custo sanitário, ambiental e potencialmente econômico fica concentrado principalmente nos países que recebem esses produtos.
Entretanto, seria um erro usar essa contradição como justificativa para manter o atual padrão brasileiro de uso de agrotóxicos. O relatório aponta justamente na direção oposta. Se substâncias como mancozebe, glufosinato, carbendazim, benomil e ciproconazol já enfrentam restrições severas em mercados importantes, persistir nessa dependência pode significar produzir hoje uma barreira comercial para amanhã.
Durante décadas, parte do discurso do agronegócio brasileiro sustentou que restringir agrotóxicos reduziria nossa competitividade. O relatório do JRC sugere o contrário: a dependência de agrotóxicos altamente tóxicos pode se tornar uma ameaça à competitividade futura da agricultura brasileira. O Brasil corre o risco de descobrir pela via comercial aquilo que deveria ter aprendido pela via da saúde pública e da proteção ambiental.

















