Agrotóxicos sem fronteiras: o avanço silencioso dos agrotóxicos ilegais no Brasil

Produtos proibidos e sem registro atravessam o Brasil impulsionados por redes criminosas e pela dependência química do agronegócio.

A apreensão de 55 pacotes de agrotóxicos estrangeiros sem registro legal realizada pela Polícia Rodoviária Federal em Altamira, no Pará, é mais um episódio de um problema que há anos avança silenciosamente pelo território brasileiro: o comércio ilegal e o contrabando de agrotóxicos. Produtos como os inseticidas  “Porselen Xtra” e “Rockot Extra” (cujo princípio é o Tiametoxam que se encontra banido no Brasil), foram encontrados em um veículo na BR-230 com rótulos inteiramente em língua estrangeira e sem autorização do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) ou da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), representam uma grave ameaça à saúde pública, ao meio ambiente e à própria segurança alimentar do país. 

O Brasil já ocupa há décadas posição de destaque entre os maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. Em paralelo ao crescimento do agronegócio e da dependência química na produção agrícola, consolidou-se também um mercado clandestino alimentado por contrabando, falsificação e adulteração de agrotóxicos. Esses produtos entram principalmente pelas fronteiras com Paraguai, Uruguai e Bolívia, muitas vezes oriundos da China, e circulam sem qualquer controle técnico ou sanitário. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada mostram que milhares de cargas ilegais foram apreendidas no país entre 2008 e 2018, revelando uma cadeia criminosa complexa e altamente lucrativa.

O problema vai muito além da evasão fiscal ou do comércio irregular. Agrotóxicos sem registro frequentemente possuem composição desconhecida, concentração adulterada ou substâncias já proibidas no Brasil devido à elevada toxicidade. Em operações recentes, fiscais encontraram produtos contendo Paraquat , um herbicida banido no Brasil desde 2020 em razão de seus impactos neurológicos e associação com doenças degenerativas, além de compostos sem qualquer rastreabilidade.

Os riscos ambientais também são enormes. Produtos clandestinos podem contaminar rios, aquíferos e solos, provocar mortandade de peixes, insetos polinizadores e outros organismos essenciais aos ecossistemas. O Ibama alerta que substâncias sem autorização oficial possuem potencial de causar danos severos à fauna e à flora, justamente porque escapam dos protocolos mínimos de avaliação toxicológica e ambiental.

Outro aspecto preocupante é o vínculo crescente entre o comércio ilegal de agrotóxicos e organizações criminosas. O alto valor agregado desses produtos transformou o setor em alvo de quadrilhas especializadas em contrabando, roubo de cargas e falsificação. Investigações policiais apontam inclusive a participação de facções criminosas na logística de distribuição clandestina, especialmente em regiões de fronteira agrícola.

A situação torna-se ainda mais grave porque o combate ao problema ocorre em meio a um contexto de flexibilização regulatória e expansão acelerada do uso de agrotóxicos no Brasil. Nos últimos anos, houve sucessivos recordes de aprovação de novos registros de agrotóxicos, inclusive de substâncias consideradas altamente perigosas em outros países. Isso contribui para ampliar a normalização do uso intensivo dessas substâncias e dificulta o enfrentamento político e social da contaminação química no campo.

As operações realizadas pela Polícia Rodoviária Federal, pela Polícia Federal, pelo MAPA e pelo Ibama mostram que o Estado brasileiro reconhece a gravidade da situação. Em 2023, uma operação conjunta apreendeu cerca de 152 toneladas de agrotóxicos irregulares em São Paulo, com multas superiores a R$ 10 milhões. Ainda assim, especialistas alertam que as apreensões representam apenas uma fração do mercado clandestino que efetivamente circula pelo país.

O episódio ocorrido em Altamira revela, portanto, muito mais do que uma ocorrência policial isolada. Ele expõe as fragilidades do controle sanitário brasileiro, a força econômica das redes ilegais de agrotóxicos e a permanência de um modelo agrícola profundamente dependente de químicos altamente perigosos. Enquanto o combate ao contrabando continuar dissociado de uma discussão mais ampla sobre a redução do uso de agrotóxicos, fortalecimento da fiscalização e incentivo à agroecologia, o Brasil seguirá convivendo com uma combinação explosiva de crime ambiental, intoxicação humana e degradação ecológica.

Agrotóxicos fora da lei: MPSP identifica entrada do PCC no bilionário mercado dos agrotóxicos ilegais

Investigação no interior paulista mostra como a facção atua na falsificação e distribuição de defensivos agrícolas. Impacto financeiro é estimado em R$ 20 bilhões por ano pelo setor

Por Leonardo Zvarick para “CBN”

Foram trocas de mensagens entre membros do PCC que acenderam o alerta no Ministério Público de Franca, no interior de São Paulo, sobre o envolvimento de membros da facção na venda de agrotóxicos ilegais. A região, segundo o promotor de Justiça Adriano Mellega, é o principal polo de falsificação desses produtos no Brasil, com distribuição para todo o território nacional e até para o exterior.

A rede criminosa é composta por ao menos nove núcleos autônomos, especializados, por exemplo, em produzir embalagens, fraudar notas fiscais e negociar os produtos pela internet. Mais de uma década de investigação demonstrou que o mercado atrai desde quadrilhas pequenas a organizações criminosas mais estruturadas – o que faz crescer a preocupação das autoridades.

‘Quando o PCC e outras organizações começam a penetrar na logística e na cadeia lícita por meio de empresas ilícitas, eles não fazem de uma vez. Eles começam a atuar justamente em paralelo, eles começam a fazer uma transição e, quando a gente vê, eles dominaram aquele determinado nicho. Então é uma situação que causa preocupação porque a gente percebe agora esse tipo de atuação integrada em paralelo dessa organização’.

Os laboratórios clandestinos têm características semi-industriais, com esteiras e máquinas para preencher galões em larga escala. Rótulos e selos idênticos aos originais dão aparência de legitimidade aos produtos, que, em geral, são uma mistura química de água, solventes, corantes e uma parte menor de princípios ativos.

Em uma operação recente, os agentes do Ministério Público de Franca encontraram, em uma única instalação, embalagens suficientes para falsificar 155 mil litros de agrotóxicos- o que poderia levar a um prejuízo superior a R$ 30 milhões para o setor formal.

O mercado ilegal representa de 20% a 25% dos agrotóxicos vendidos no Brasil, conforme estimativas da indústria. As principais modalidades são o contrabando, seguido pela falsificação ou adulteração. Fabricados à margem do sistema regulatório brasileiro, esses produtos não têm eficácia e podem prejudicar a plantação.

O gerente de combate a produtos ilegais da CropLife, Nilto Mendes, explica que além dos impactos sociais, ambientais e de saúde, um dos maiores riscos é a perda de credibilidade nas exportações agrícolas.

‘A gente corre riscos, e isso já aconteceu, de sofrer embargos a commodities agrícolas exportadas para o mundo inteiro, se forem identificados contaminantes naquela produção agrícola. Aqui na região do interior de São Paulo, onde se falsifica bastante, tem relato de que há pelo menos 25 contaminantes diferentes naquela mistura química que deveria ser um defensivo agrícola legítimo’.

Diferentes órgãos do governo atuam no combate aos agrotóxicos ilegais, como Ministério da Agricultura, Ibama e Receita Federal. A Polícia Rodoviária Federal também monitora rotas estratégicas para distribuição desses produtos.

De acordo com Thiago de Castro, chefe do setor de enfrentamento aos crimes transfronteiriços da PRF, as fronteiras secas com o Paraguai, Argentina e o Uruguai – onde  agrotóxicos proibidos no Brasil são legalizados – são as principais portas de entrada. O volume de contrabando também tem crescido nos portos, em meio a mercadorias legais vindas da China e Índia.

Recentemente, a PRF observou crescimento nas apreensões em estados do Norte, em especial Pará e Roraima. Para Thiago de Castro, isso pode indicar que os criminosos estão buscando caminhos menos fiscalizados, utilizando inclusive modais alternativos, como rios, e compartilhando rotas utilizadas pelo garimpo e tráfico de drogas. Segundo ele, o transporte tem se tornado mais difícil de rastrear.

‘Quando a gente pega o transporte dessa mercadoria, ele se dá de forma fragmentada, é aquele contrabando formiguinha. Nem sempre vai ser um membro da organização criminosa fazendo o transporte do agrotóxico. Geralmente eles fazem a cooptação de pessoas vulneráveis para que possam levar esse material, seja num veículo, seja no compartimento de carga de um ônibus’.

Tanto o contrabando quanto a falsificação de agrotóxicos afetam toda a cadeia produtiva, gerando um impacto financeiro estimado em R$ 20 bilhões por ano pelo setor.


Fonte: CBN