Agrotóxicos afetam mais de 17 mil famílias no Brasil: saiba como denunciar as intoxicações

Canais oficiais vão do SUS ao sistema judicial, mas mobilização popular ainda tem papel essencial no cenário

Trator é usado na pulverização de agrotóxicos em lavoura no município de Belterra, região metropolitana de Santarém – João Romano 

Por Nara Lacerda para o “Brasil de Fato”

Nos últimos anos, a utilização de agrotóxicos como armas químicas vem sendo observada como um elemento que, cada vez mais, potencializa os conflitos no campo brasileiro. Segundo o mais recente relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre conflitos no campo, no ano passado mais de 17 mil famílias sofreram com intoxicações.

Embora existam mecanismos de denúncia desse tipo de crime, a subnotificação e a impunidade são realidades constantes. Do Sistema Único de Saúde (SUS) aos tribunais, a população ainda tem dificuldade de acesso e acolhimento, pontos que exigem preparo da máquina pública.

Em conversa com o Brasil de Fato durante a 5ª Feira Nacional da Reforma Agrária, que acontece até domingo (11), em São Paulo (SP), Alan Tygel, da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos, afirma que a construção desse suporte também demanda resistência e envolvimento da de movimentos populares e da sociedade civil. “É uma realidade que vamos precisar construir. Parte da nossa luta é manter essa mobilização e fazer essas denúncias chegarem, fazer essa pressão.”

Um dos primeiros passos possíveis para buscar ajuda em caso de intoxicação é procurar o SUS. No atendimento nas unidades de saúde, pacientes têm direito de registrar a situação com o preenchimento de uma ficha de notificação de intoxicação exógena. O documento deve ser disponibilizado mesmo em caso de suspeita.

Nele devem constar dados considerados essenciais, como o tipo de trabalho realizado pela pessoa intoxicada, data, hora e local da ocorrência. Além disso, deve conter informações sobre as substâncias envolvidas e do que é produzido na região onde o problema aconteceu.

Essa notificação é obrigatoriamente repassada ao Ministério da Saúde, por meio do Sistema Nacional de Agravos de Notificação Compulsória (Sinan), que tem o dever de investigar o ocorrido.

Outro caminho possível e importante é a denúncia judicial. Ela pode ser feita para o Ministério Público, para a polícia ambiental ou nas delegacias da polícia civil, com um boletim de ocorrência. É fundamental que o fato seja documentado de forma consistente e evidências como fotos e vídeos, quando possível, são muito importantes.

“Uma das ações que temos tentado fazer é justamente trazer à tona essa realidade, que já existe no Brasil há muito tempo, mas é uma realidade escondida, que fica nos subterrâneos. Uma das nossas tarefas é orientar a população para que essas denúncias sejam construídas de forma consistente” ressalta Tygel.

Para facilitar o processo e orientar a população, a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos também oferece recursos online. No site da organização é possível acessar um passo a passo sobre como denunciar. O botão para chegar ao guia está em destaque na página principal.

Problema do mundo

Iniciativas populares de luta também desempenham um papel essencial de fortalecimento das denúncias contra os agrotóxicos. Um exemplo de força vem da Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama), que desde 2021 sentiu a necessidade de atuar de maneira mais prática para auxiliar a população do estado nesse processo.

Linalva Cunha, que integra o movimento, também conversou com o BdF sobre o tema. No depoimento emocionante, ela falou sobre a situação dramática que ampliou a ação da Rama. “Em 2021, a comunidade Araçá do município de Buriti recebeu veneno por conta de uma plantação ao lado do território. Vimos ali a imagem de uma criança atingida diretamente, com o corpo ferido e a pele que derretia por causa do veneno.”

Diante do caso, segundo ela, a necessidade de abrir novas frentes no trabalho da rede em torno do combate aos venenos agrícolas se tornou urgente, “nós entendemos que não dava para só ouvir e falar sobre a importância da agroecologia. Sabíamos que era preciso combater outras outras temáticas que agridem a perpetuação dos povos, uma delas é o agrotóxico”.

A partir de então, a rede passou a discutir instrumentos e formas de levar o debate aos territórios e, ao mesmo tempo, fazer levantamentos in loco, com ajuda das comunidades. Hoje, a Rama atua na formação e informação para denúncias, em parcerias para estudos e pesquisas sobre qualidade da terra e da água e articulações políticas nacionais e internacionais, inclusive na luta por legislação sobre o tema.

“Nós queremos que o Nordeste, o Sul, o Sudeste, o Brasil compreendam que a luta contra os agrotóxicos é um problema do mundo. A crise climática e todas essas questões que temos enfrentado mexem com a nossa capacidade de produzir e se reproduzir no chão que pisamos.”

Alan Tygel e Linalva Cunha conversaram com o BdF diretamente da 5ª Feira da Reforma Agrária do MST. O evento ocorre no Parque da Água Branca, na capital paulista, até o próximo domingo (11). Ouça a entrevista completa no tocador de áudio abaixo do título desta matéria.

Editado por: Nicolau Soares


Fonte: Brasil de Fato

Governo Lula entre o agronegócio e a reforma agrária: um equilíbrio instável na Amazônia

A contradição se intensifica no atual governo Lula, que tenta conciliar o apoio à agricultura familiar com a manutenção de laços estratégicos com o agronegócio. Na balança desigual, a Amazônia é uma das mais afetadas. Na imagem acima, colheita de soja no Mato Grosso (Foto: Wenderson Araújo/CNA).

Por Ismael Machado, de Belém, para o Amazônia Real 

O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trouxe à tona uma antiga contradição de seus governos: o esforço para equilibrar o apoio ao agronegócio e o incentivo à agricultura familiar e à reforma agrária, bandeiras históricas de movimentos sociais como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e entidades como a Fetagri. Lula visitaria o Assentamento Palmares e o Acampamento Terra e Liberdade, em Parauapebas, no Pará, no dia 25 de abril. Seria um evento em compromisso com a Reforma Agrária durante o Abril Vermelho, mês que marca os 29 anos do Massacre de Eldorado do Carajás. No entanto, a agenda foi suspensa após o falecimento do Papa Francisco, já que Lula e a primeira-dama, Janja, viajaram a Roma para o funeral. O MST-PA informou que nova data seria agendada.

É um equilíbrio precário. Recentemente o governo federal editou a medida provisória (MP) 1289/25, que abriu crédito no valor de R$ 4,17 bilhões para atender ao Plano Safra 2024-2025, oferecendo aos produtores rurais de médio e grande porte juros mais baixos que os do mercado. São R$ 3,53 bilhões para as operações de custeio agropecuário, comercialização de produtos agropecuários e investimento rural e agroindustrial. Por outro lado, o governo destinou R$ 645,7 milhões a operações no âmbito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), uma linha de crédito do Plano Safra destinada a pequenos agricultores. Em seu terceiro mandato, Lula celebrou o lançamento do programa “Terra da Gente”, com a promessa de impactar 295 mil famílias até 2026, como uma retomada da política de reforma agrária. Em 2024, o Palácio do Planalto anunciou o assentamento de 71 mil famílias.

Mas as críticas não tardaram. Movimentos sociais, liderados pelo MST, contestam os números. Segundo eles, a maior parte refere-se à regularização de famílias já assentadas em anos anteriores, e não à criação de novos lotes de terra para quem ainda aguarda na fila da reforma agrária. O movimento também pressiona por medidas mais incisivas contra a violência no campo, que permanece alta, especialmente em regiões de expansão do agronegócio. A Amazônia Legal historicamente é o epicentro da violência no campo no território brasileiro.

Enquanto o agronegócio é celebrado como um dos pilares da economia brasileira, respondendo por cerca de 25% do PIB e garantindo superávits sucessivos na balança comercial, seus impactos sociais e ambientais despertam preocupações crescentes. Submetido a políticas de incentivo que incluem crédito subsidiado, isenções fiscais e programas de apoio técnico, o setor é, na prática, um dos mais beneficiados pela União, embora no Pará,  por exemplo, muitos de seus representantes (pecuaristas, sojeiros, madeireiros, costumem atacar Lula e fomentar – inclusive com patrocínio, ações golpistas).

Lula já enfatizou, em entrevistas e falas, que não vê distinção entre atores diversos do setor agrícola. Grandes ou pequenos. No ano passado, em entrevista à rádio Difusora, de Goiânia (GO), chegou a afirmar que representantes do agronegócio brasileiro têm “problema” com o governo petista por uma questão “ideológica”.

Reproduzida a fala na página oficial do governo, Lula explicou que defende o MST e não faz distinção entre grandes exportadores e pequenos produtores. “Os grandes exportadores garantem qualidade e abrem mercados internacionais. Já os pequenos produtores, que representam quase 5 milhões de propriedades de até 100 hectares, são os que colocam comida na mesa dos brasileiros. Eles criam frangos, suínos e outros alimentos essenciais. Ambos são igualmente importantes”, destacou o presidente, que ainda ressaltou os investimentos recordes que o agronegócio vem recebendo do atual governo através do Plano Safra, inclusive com uma generosa negociação das dívidas do setor.

Apesar do discurso de modernização e geração de riquezas, o agronegócio emprega menos do que se imagina. De acordo com dados do IBGE (2023), apenas cerca de 10% da força de trabalho brasileira está empregada diretamente nas atividades agrícolas, sendo que a mecanização e o modelo de grandes propriedades reduzem drasticamente a necessidade de mão de obra. Muitas áreas de monocultura, como soja e cana-de-açúcar, operam com altíssimos níveis de mecanização, empregando proporcionalmente menos do que pequenas propriedades agrícolas.

Além da fraca geração de empregos, o agronegócio também é apontado como um dos principais vetores de degradação ambiental. Relatórios do MapBiomas mostram que, entre 1985 e 2022, 90% do desmatamento registrado no Brasil ocorreu em áreas destinadas à agropecuária. O avanço da soja e da pecuária no Cerrado, na Amazônia e no Pantanal é uma das maiores pressões sobre os biomas brasileiros, contribuindo para a emissão de gases de efeito estufa e a perda de biodiversidade.

No campo político, o setor se consolidou como uma força conservadora. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), também conhecida como bancada ruralista, é hoje uma das maiores e mais influentes do Congresso Nacional, com mais de 300 membros. São 41 deputados federais da Amazônia- se incluirmos Tocantins, inserido na Amazônia Legal- e 13 senadores, se o raciocínio for o mesmo. Tradicionalmente alinhada a pautas conservadoras em costumes, contrária a demarcações de terras indígenas e às políticas de reforma agrária, a bancada atua de maneira decisiva na formulação de leis ambientais e trabalhistas que favorecem grandes proprietários rurais.

Essa influência vai além de Brasília. Governos estaduais e prefeituras de regiões agrícolas frequentemente moldam suas agendas para atender demandas do setor, muitas vezes em detrimento de comunidades tradicionais, quilombolas e assentados da reforma agrária. Nos últimos anos a Amazônia tem sentido essa força, com o avanço, por exemplo, da soja no oeste do Pará.

Commodities e exportação

O presidente Lula durante visita a Feira da Agricultura Familiar no Palácio do Planalto (Foto: Ricardo Stuckert/PR).

A contradição se intensifica no governo Lula, que tenta conciliar o apoio à agricultura familiar com a manutenção de laços estratégicos com o agronegócio. O resultado é um cenário em que a política agrícola oficial busca expandir a produção sem necessariamente enfrentar as desigualdades fundiárias e os danos socioambientais acumulados ao longo das últimas décadas. Apesar dos supostos avanços em práticas agrícolas mais sustentáveis por parte de uma minoria de grandes produtores, a lógica predominante ainda é a da expansão horizontal da fronteira agrícola, com altos custos sociais e ambientais.

“Não existe dicotomia”, afirma à Amazônia Real, Bruno Malheiro, atualmente um dos mais importantes pesquisadores sobre as grandes atividades econômicas e seu impacto na geografia amazônica. “A gente tem uma escolha clara, que na verdade vem desde o primeiro governo Lula, pela exportação de commodities como motor de inserção na economia e desenvolvimento.  Então, toda política social e todo superávit primário se assenta na exportação de soja, ferro, petróleo, que são os três principais, aí depois vem celulose, enfim, commodities. A soja e o minério de ferro são realidades presentes na Amazônia hoje e o petróleo passou a ser especulado na Foz do Amazonas”, complementa.

Malheiro afirma ainda que isso configura que todo o cabedal de políticas públicas e todas as instituições pensadas para a agricultura estão voltadas para esses setores. “Há uma escolha por esses negócios de expansão territorial e que, na verdade, é inviável pensar algum tipo de solução conjunta com a agricultura familiar, porque esses negócios se nutrem dos territórios da agricultura familiar, dos camponeses, dos territórios quilombolas, indígenas. Então, é uma escolha pela destruição, no final das contas. A Amazônia e outros biomas serão destruídos por esse tipo de escolha”, diz.

Segundo o pesquisador, o Brasil chegou num estrangulamento, principalmente com a circulação da produção de soja, de acordo com o tamanho da produção. Isso porque o país exporta soja, mas não tem capacidade de armazenamento. “O Brasil armazena só 63% da soja que produz. O resto disso precisa ser circulado rápido. E a maioria da soja que está no Mato Grosso e está vindo para a Amazônia, é exportada nos portos do Sul e isso encarece o produto.  Então, existe um projeto também de exportar pelos portos do Norte. Aí tem a Ferrogrão, tem Meritituba em Itaituba, perto de Santarém. Enfim, tem os portos e as hidrovias que querem construir  para o escoamento desses grãos. O governo não entra só como esse lado financiador, do ponto de vista financeiro, mas também com o lado da infraestrutura de circulação desses produtos”.

O resultado disso é o que alguns pesquisadores chamam de ‘engenharia do colapso’, porque os conflitos e o desmatamento acompanham as rodovias e os eixos de circulação, as chamadas ‘rotas de sacrifício’, como classifica Bruno Malheiro. “Os governos progressistas estão ampliando essas rotas de sacrifício e um dos maiores impactados é a Amazônia”.

A promessa de uma “economia verde” no campo brasileiro, por ora, continua mais como um discurso de exportação do que uma realidade para o interior do país, principalmente na Amazônia. Enquanto isso, Lula mantém interlocução constante com grandes produtores rurais e representantes do agronegócio. Apesar da retórica crítica nos anos anteriores, o governo reconhece que a pujança do setor é essencial para a balança comercial e para a estabilidade macroeconômica do país.

A aproximação, no entanto, vem sendo vista com desconfiança por setores da esquerda. Segundo algumas lideranças, existe uma clara prioridade no atendimento às demandas do grande agronegócio, enquanto a reforma agrária e a agricultura familiar continuam recebendo mais promessas do que realizações efetivas. “O MST demonstra um desconforto com isso. São valores muito simbólicos para  a agricultura familiar e muitos recursos para o agronegócio”, contesta Pablo Neri, diretor nacional do MST no estado do Pará. “O fato é que Lula não foi eleito com um programa de esquerda. A própria natureza da eleição, a frente ampla, já é uma natureza de disputas internas. Havia uma expectativa, mas se vê ele cedendo para o parlamentarismo do centrão. O que a gente entende é que tem que investir na massificação da ideia de reforma agrária e agroecologia para a construção da justiça social”, afirma. Segundo ele, os próprios bancos empurram os pequenos agricultores para a pecuarização e isso gera perdas e falências. “A fórmula bancária de financiamento coloca em xeque essa política de agricultura familiar. Temos visto isso aqui no Pará”, diz.

A tensão expõe uma escolha estratégica: para viabilizar sua agenda de governabilidade no Congresso — onde a bancada ruralista é uma das mais fortes — Lula aposta em uma política de conciliação, mesmo que isso signifique desacelerar pautas mais radicais de reforma social no campo. A promessa de fazer “as duas coisas ao mesmo tempo” — crescer e distribuir, apoiar o agronegócio e impulsionar a reforma agrária — segue como a corda bamba sobre a qual caminha o governo Lula no campo. “E essa é a escolha dos governos progressistas na América Latina inteira”, salienta Bruno Malheiro.

Durante 17 anos o pesquisador Marcos Pedlowski percorreu, como cientista, as estradas e vicinais do estado de Rondônia. Constatou a profunda mudança da cobertura vegetal e o avanço do latifúndio na Amazônia, e também, em paralelo, o aumento do uso de agrotóxicos nos territórios do agro, temas constantes de seus artigos acadêmicos. A avaliação que ele faz sobre o cenário atual não é otimista.

“Essas duas coisas estão juntas. Porque há um detalhe ainda, que o grande vendedor de venenos agrícolas do Brasil, que atualmente é a China, é também o principal comprador dos grãos. Então, para a China é um negócio muito vantajoso. E o governo Lula aposta nessa noção ainda antiquada das vantagens comparativas, segundo a mentalidade predominante, que a gente vende grãos e minérios e compra o resto que a gente não produz, que é essa face da desindustrialização”, afirmou à Amazônia Real.

Pedlowski ressalta que há também o avanço da violência sobre os territórios camponeses, sobre as populações tradicionais e as populações indígenas. “Eu tenho feito uma leitura sobre a questão dos alimentos ultraprocessados, que tem tudo a ver com o latifúndio agroexportador, porque parte dessa comida ultraprocessada são amidos, milho e soja, e aí entram as grandes corporações que controlam a produção de alimentos e que se conjugam com o latifúndio agroexportador aqui no Brasil. Na minha opinião, o governo Lula não está acendendo a vela para dois senhores, não. Ele acende a vela para um senhor e finge que vai acender a vela para o outro senhor”, avalia.

Pequenos agricultores excluídos

Agricultor retirando jenipapos de uma canoa para venda na cidade de itacoatiara, na comunidade indígena Gavião 1 (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real).

Pesquisador agrário da Universidade do Estado do Pará (UEPA), Fabiano Bringel, faz uma análise territorial que mostra como a Amazônia está distante efetivamente de uma política agrária mais inclusiva por parte da União. “Quando a gente pensa a Amazônia enquanto bioma com 60% do território nacional, a gente chega à conclusão, segundo dados do próprio IBGE, que temos na Amazônia algo em torno de um pouco mais de um milhão de produtores rurais. Desses, cerca de 90% são classificados como agricultores familiares. Ou seja, no final das contas, nós vamos ter aí uma boa parte desses produtores rurais descobertos de uma política agrária, que no final das contas não consegue chegar a essa grande maioria de produtores que estão classificados como agricultores familiares”.

Segundo Bringel, se a comparação for feita em âmbito nacional, o Brasil tem quase 4 milhões classificados como estabelecimentos rurais.  “Cerca de 80% desses 4 milhões de estabelecimentos, são da agricultura familiar. Ou seja, é uma política completamente distorcida, que só agrava no caso da Amazônia, porque na Amazônia, além dessa categoria agricultura familiar, nós temos aí uma série de pertencimentos, como por exemplo, povos tradicionais, incluindo ribeirinhos, comunidades quilombolas, sem falar nos próprios povos indígenas que também se ressentem da falta desse investimento completamente distorcido e que só ajuda, no final das contas, uma grande minoria, uma minoria de produtores rurais classificados como agronegócio no Brasil e especialmente na Amazônia. Então a distorção e desigualdade se aprofundam, no final das contas, quando se trata da Região Norte”, diz.

“Os circuitos do agronegócio também são os circuitos do clube de tiro,  os circuitos das igrejas, das festas agropecuárias. O governo vem sendo também  uma máquina de trituração de territórios camponeses, quilombolas, indígenas. É o que temos para a Amazônia do futuro se continuarmos com essas escolhas”, conclui Bruno Malheiro.

O presidente Lula durante visita ao assentamento do MST, em Pernambuco (Foto: Ricardo Stuckert/PR/2021).


Fonte: Amazônia Real

À medida que a agricultura regenerativa avança nos EUA, relatório da Amigos da Terra alerta para “Greenwashing”

Nestle, General Mills, PepsiCo and other food companies have pledged  support for regenerative agriculture. Is this a greenwashing campaign? -  Genetic Literacy Project

Por Carey Gillam para o “The New Lede” 

Anunciada como um tipo de sistema alimentar que funciona em harmonia com a natureza, a agricultura “regenerativa” está ganhando popularidade nas áreas rurais dos EUA, recebendo elogios em livros e filmes e como uma das metas do movimento Make America Healthy Again, associado ao novo Secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr.

Os defensores da agricultura regenerativa dizem que a prática pode mitigar as mudanças climáticas prejudiciais, reduzir a poluição da água e tornar os alimentos mais nutritivos, à medida que os agricultores se concentram em melhorar a saúde do solo, da água e dos ecossistemas.

Um número crescente de fazendas e ranchos nos EUA está obtendo a certificação para que os consumidores saibam que seus grãos, carne bovina, ovos e outros produtos são cultivados de forma regenerativa. Internacionalmente, a previsão é de que o mercado de agricultura regenerativa cresça dois dígitos entre 2023 e 2030.

Mas todo esse ímpeto vem com um lado negro e sujo, de acordo com um novo relatório que destaca o que está se tornando um debate cada vez mais controverso sobre os méritos da agricultura regenerativa.

O relatório divulgado na terça-feira afirma que programas regenerativos, que geralmente permitem o uso de herbicidas e outros produtos químicos, estão sendo usados ​​para praticar “greenwashing”, ou seja “maquiar de verde”, o uso rotineiro de vários agrotóxicos perigosos em campos agrícolas.

As corporações que vendem esses agrotóxicos estão ligadas ao movimento, incentivando financeiramente os agricultores a adotar práticas regenerativas, observa o relatório.

“Com bilhões de dólares — e o futuro do nosso sistema alimentar — em jogo, precisamos garantir que a prática da agricultura regenerativa seja robusta e protegida contra o greenwashing”, afirma o relatório de 29 de abril emitido pela Friends of the Earth (FOE), um grupo de defesa ambiental.

Citando dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o relatório do FOE visa especificamente a produção de milho e soja, na qual os agricultores não cultivam o solo para erradicar ervas daninhas, como tradicionalmente é prática comum. Essas práticas de “plantio direto” são uma marca registrada da agricultura regenerativa, pois o preparo do solo pode ter múltiplos impactos ambientais negativos, incluindo a desorganização de microrganismos do solo considerados essenciais para a saúde das plantas.

Os hectares de plantio direto de milho e soja somam mais de 50 milhões, de acordo com o relatório da FOE. A “grande maioria (93%)” desses hectares depende de “agrotóxicos que prejudicam a saúde do solo e ameaçam a saúde humana”, afirma o relatório da FOE.

Aproximadamente um terço do uso anual total de pesticidas nos EUA pode ser atribuído exclusivamente ao milho e à soja cultivados em sistemas de plantio direto e mínimo, de acordo com a análise da FOE com base em dados do USDA. Estima-se que 61% do uso envolva pesticidas classificados como altamente perigosos para a saúde humana e/ou o meio ambiente, afirma o relatório.

A aposta da Bayer na regeneração

O novo relatório tem como alvo algumas das maiores empresas agroquímicas do mundo, incluindo a alemã Bayer, que comprou a gigante de sementes e produtos químicos Monsanto em 2018 e chama a agricultura regenerativa de sua “visão para o futuro da agricultura”.

“Produza Mais. Restaure a Natureza. Amplie a Agricultura Regenerativa ”, proclama a empresa em seu site.

O glifosato, ingrediente ativo dos herbicidas Roundup, introduzidos pela Monsanto na década de 1970, é o pesticida mais utilizado na produção de milho e soja em sistema de plantio direto. O herbicida foi classificado como um provável carcinogênico humano por especialistas em saúde mundial, e dezenas de milhares de pessoas processaram a Monsanto, alegando terem desenvolvido câncer devido ao uso dos produtos à base de glifosato da empresa.

Como parte de seu esforço pela regeneração, a Bayer oferece aos produtores recompensas pela adoção de determinadas práticas, incluindo a não lavragem do solo e o plantio de culturas de “cobertura” como forma de melhorar a saúde do solo. Os agricultores podem receber até US$ 12 por acre pela combinação de diversas “práticas de agricultura regenerativa”, promete a Bayer.

Para lidar com problemas de ervas daninhas em campos regenerativos, a Bayer recomenda uma combinação de estratégias, incluindo o “uso sustentável de herbicidas”.

Esse tipo de recomendação expõe a hipocrisia corporativa enraizada em práticas regenerativas de plantio direto, de acordo com a FOE.

“Empresas que fabricam agrotóxicos como Bayer e Syngenta capitalizaram o crescente interesse na saúde do solo promovendo o plantio direto convencional — que depende fortemente de seus pesticidas, sementes geneticamente modificadas e plataformas de agricultura digital — como regenerativo”, afirma o relatório da FOE.

Quando questionada sobre o relatório do FOE, a Bayer disse que produtos à base de glifosato, como o Roundup, são úteis para agricultores que estão implementando práticas agrícolas sustentáveis ​​e regenerativas.

“Ferramentas como o Roundup são essenciais, à medida que mais agricultores recorrem a práticas como o plantio de culturas de cobertura para reduzir a erosão, capturar umidade e sequestrar carbono no solo”, afirmou a empresa em um comunicado. “Produtos como o Roundup também permitem que os agricultores adotem medidas de plantio direto que ajudam a reduzir drasticamente a quantidade de carbono liberada pelo solo durante o preparo do solo.”

A Syngenta afirma que a agricultura regenerativa “pode sustentar a transformação dos nossos sistemas alimentares globais” e que “insumos químicos” podem ser úteis, embora em quantidades reduzidas.

Em março, a Syngenta anunciou uma parceria com a PepsiCo para “apoiar e impulsionar” os agricultores na transição para a agricultura regenerativa.

Regenerativo versus orgânico

O relatório surge em meio ao crescente rancor entre alguns na indústria orgânica estabelecida e o crescente movimento regenerativo, já que líderes de cada lado dizem que seus respectivos modelos são os melhores para fornecer alimentos saudáveis ​​e proteger a saúde ambiental e humana.

Em contraste com o movimento regenerativo relativamente jovem, a indústria orgânica opera dentro de uma estrutura estabelecida há mais de 30 anos, com supervisão por meio de um programa orgânico nacional dentro do USDA, com regras que geralmente proíbem pesticidas sintéticos e outros produtos químicos.

Os defensores dos produtos orgânicos concordam com o relatório da FOE, dizendo que certificar alguns produtos e marcas agrícolas como regenerativos é enganoso porque os agricultores que praticam a regeneração podem usar, e frequentemente usam, herbicidas químicos que são prejudiciais ao solo, às pessoas e ao meio ambiente.

Eles afirmam que descrever produtos como regenerativos se forem cultivados com produtos químicos dá aos consumidores uma falsa sensação de conforto em relação às práticas agrícolas utilizadas na produção de alimentos. E afirmam que, como a agricultura regenerativa não tem supervisão governamental nem padrões oficiais, a certificação privada pode ser facilmente corrompida.

“Os proponentes dos rótulos ‘regenerativos’ não orgânicos estão, na verdade, fazendo uma maquiagem verde na agricultura convencional e no uso de pesticidas tóxicos persistentes, bem como fertilizantes sintéticos de nitrogênio”, disse Gary Hirshberg, presidente da Organic Voices, um grupo de defesa da indústria orgânica.

“É científica e eticamente desonesto afirmar que se está regenerando o solo enquanto se usa produtos químicos sintéticos, que prejudicam os microrganismos do solo, e é ciência bem estabelecida que os sistemas de plantio direto na verdade exigem mais, e não menos, fertilizantes químicos e pesticidas”, disse Hirshberg.

Em contraste, acadêmicos e aqueles que buscam o crescimento de práticas regenerativas dizem que a saúde do solo está na raiz, literalmente, da saúde planetária e, mesmo que pesticidas sejam usados, eles podem ser usados ​​em níveis muito reduzidos em relação à agricultura convencional.

Eles dizem que os agricultores orgânicos geralmente cultivam seus campos para lidar com ervas daninhas, e essa prática é pior do que usar herbicidas.

“A ciência é muito clara sobre isso: há um benefício líquido maior em usar um herbicida para permitir o plantio direto do que evitá-lo completamente se  isso significar recorrer à lavoura”, disse Andrew Margenot, diretor associado do Centro de Sustentabilidade de Agroecossistemas da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign.

Os defensores das práticas regenerativas as veem como uma série de etapas que podem começar com plantio direto e uso de herbicidas e outros pesticidas, mas eventualmente se expandir para incluir uma série de táticas, como o uso de “culturas de cobertura” para aumentar a matéria orgânica do solo e limitar surtos de pragas, além da incorporação de gado e esterco animal em esforços de melhoria do solo.

O uso de todas as práticas regenerativas pode eventualmente eliminar a necessidade de produtos químicos ou reduzi-la drasticamente, dizem os proponentes.

A agricultura regenerativa envolve muito mais do que não cultivar o solo, disse Gabe Brown, um fazendeiro de Dakota do Norte, autor de um livro sobre os benefícios da regeneração e fundou uma empresa de certificação chamada Regenified para orientar agricultores e pecuaristas nessas práticas.

Embora Brown tenha dito que é um consumidor de alimentos orgânicos, ele acredita que os agricultores orgânicos que não usam produtos químicos, mas perturbam seus solos por meio do cultivo, também estão prejudicando o meio ambiente.

“Não se pode afirmar que o plantio direto, por si só, tornará uma fazenda regenerativa, assim como não se pode dizer que o orgânico, por si só, é regenerativo”, disse Brown. “Se um produtor orgânico arar com muita frequência, pode ser altamente degradante. Se um agricultor usa muitos sintéticos, pode ser degradante.”

Brown disse que o movimento orgânico “fracassou”, pois obter a certificação orgânica pode ser desafiador e custoso para muitos produtores. A regeneração oferece oportunidades para que mais agricultores cultivem alimentos mais saudáveis ​​e melhorem o meio ambiente, disse ele.

“O nível de interesse na agricultura regenerativa está realmente fazendo a diferença… é emocionante”, disse Brown.

Buscando mais fundos para orgânicos

Não cultivar o solo é um princípio fundamental das práticas regenerativas, mas o relatório do FOE afirma que os impactos do cultivo nem sempre são prejudiciais e que o uso rotineiro de pesticidas tem efeitos mais prejudiciais à saúde do solo do que o cultivo rotineiro.

Analisando apenas o milho e a soja convencionais de plantio direto, o relatório do FOE conclui que as “emissões equivalentes de CO2” associadas aos pesticidas e fertilizantes sintéticos usados ​​no cultivo dessas culturas são comparáveis ​​às emissões de 11,4 milhões de carros.

O relatório do FOE recomenda que, em vez de incentivar a agricultura sem plantio direto, que permite o uso de pesticidas, o Congresso aumente o financiamento para programas orgânicos, e os governos estaduais, locais e federais destinem mais recursos para pesquisas sobre tecnologias que possam erradicar ervas daninhas sem herbicidas químicos.

A FOE também pede:

  • Quaisquer definições de agricultura regenerativa promulgadas por governos federais, estaduais ou locais, certificações regenerativas públicas ou privadas, ou outras iniciativas regenerativas para centralizar e priorizar explicitamente a redução de agroquímicos se quiserem atingir seus objetivos declarados.
  • Os fabricantes e varejistas de alimentos devem definir metas mensuráveis ​​e com prazo determinado para eliminar gradualmente pesticidas tóxicos e fertilizantes sintéticos e fazer a transição para abordagens ecológicas e menos tóxicas em toda a sua cadeia de suprimentos de alimentos e bebidas.
  • O USDA aumentará os incentivos para fazendas que reduzirem drasticamente ou eliminarem o uso de pesticidas e fertilizantes sintéticos e aumentará a assistência técnica para estimular a adoção de práticas que reduzam os insumos agroquímicos.

“Dada a urgência das crises de saúde pública, biodiversidade e clima que enfrentamos, o crescente interesse na agricultura regenerativa deve ser aproveitado a serviço de abordagens robustas que realmente aumentem a saúde do solo e o sequestro de carbono, melhorem a qualidade do ar e da água, fortaleçam a resiliência dos agricultores e protejam a biodiversidade e o bem-estar humano”, afirma o relatório.


Fonte: The New Lede

Agrotóxicos contaminam toda a paisagem, e vão muito além das áreas cultivadas, mostra estudo

Por Pan Europe

Um novo estudo inovador  

Um novo estudo alemão inovador prova que agrotóxicos se espalham muito mais longe das áreas cultivadas do que se acreditava anteriormente. Uma equipe de cientistas liderada pelo Professor Dr. Carsten Brühl testou solo superficial, vegetação, riachos e poças de 78 locais em um trecho de 180 km, desde áreas remotas nas florestas da UNESCO nas cadeias de montanhas até terras agrícolas na área do Alto Reno. A equipe de pesquisa detectou um total de 63 agrotóxicos. Quase todos os locais de medição estavam contaminados. Resíduos foram encontrados em 97% das amostras de solo e vegetação, frequentemente em misturas complexas de vários ingredientes ativos. Esse coquetel de agrotóxicos é especialmente problemático porque interações podem ocorrer e os efeitos podem ser amplificados.

Os resultados preocupantes são consistentes com estudos anteriores de menor escala na área do Tirol do Sul, na Itália. O uso prolongado e em larga escala de agrotóxicos é um fator importante no declínio acentuado das populações de insetos e outros organismos essenciais para a agricultura, conforme destacado em nossa campanha de biodiversidade . Os pesquisadores veem a redução de pesticidas como a única maneira de reduzir os danos à biodiversidade.

O estudo, publicado na Communications Earth & Environment, lança uma nova luz sobre os impactos ambientais da agricultura convencional. Ele abrange o Vale do Alto Reno, na Alemanha, que se estende por cerca de 300 quilômetros entre Bingen e Basileia. Trata-se de uma paisagem agrícola tradicional, onde cereais, vegetais, vinho e frutas são cultivados devido às condições climáticas favoráveis. Agrotóxicos sintéticos têm sido amplamente utilizados na agricultura convencional há mais de 50 anos para controlar pragas, ervas daninhas e doenças fúngicas. Isso geralmente envolve uma combinação de diferentes ingredientes ativos e múltiplas aplicações por ano. Como consequência, as chamadas “áreas não-alvo” que não são pulverizadas diretamente, como sebes adjacentes, margens de campos, prados ou pastagens secas, mas também áreas muito mais distantes, estão cada vez mais sofrendo com a contaminação crônica por agrotóxicos.

Amostragem ambiental em um trecho de 180 quilômetros

A equipe de pesquisa realizou uma extensa amostragem durante a temporada de pulverização em junho e julho de 2022. O registro e a apresentação sistemáticos de pesticidas em tão grande escala são uma nova abordagem desenvolvida no Instituto de Ciências Ambientais de Landau. Com o auxílio de técnicas analíticas de última geração que podem detectar baixas concentrações, o estudo incluiu 93 agrotóxicos comuns.

Contaminação das terras baixas para as terras altas

Em média, a vegetação estava contaminada com seis agrotóxicos e, em alguns casos, com até 21 substâncias. Em média, cinco agrotóxicos foram medidos na camada superficial do solo, com amostras individuais apresentando até 26 ingredientes ativos diferentes. Os ingredientes ativos também foram detectados a centenas de metros de terras agrícolas. Segundo os pesquisadores, é particularmente preocupante que mesmo áreas remotas não estejam livres de pesticidas. 

“Nossos resultados são claros: os agrotóxicos se espalham muito além dos campos. Isso é mais do que apenas um problema agrícola – é uma realidade que afeta a todos nós. Podemos encontrar agrotóxicos enquanto caminhamos, em playgrounds ou em nossos próprios jardins”, explica Ken Mauser, principal autor do estudo. Agricultores, suas famílias e vizinhos estão especialmente em risco, assim como grupos sensíveis, como crianças, gestantes e idosos. Só recentemente a Alemanha reconheceu o “Parkinson causado por pesticidas” como uma doença ocupacional na viticultura alemã.

Um dos agrotóxicos mais frequentemente encontrados foi o fungicida fluopiram, detectado em mais de 90% de todas as amostras. O fluopiram é classificado como um PFAS, um produto químico considerado “eterno”, e o produto de decomposição TFA pode contaminar as águas subterrâneas. De acordo com cientistas ambientais, a ampla distribuição do fungicida na paisagem parece extremamente preocupante devido ao seu potencial de contaminação dos recursos hídricos. Em fevereiro de 2025, a PAN Europe e uma coalizão de organizações da sociedade civil instaram a União Europeia a proibir imediatamente o fluopiram .

Os agrotóxicos de uso atual mais frequentemente detectados na camada superficial do solo no estudo foram os fungicidas fluopiram (94% de todas as amostras), boscalida (42%), espiroxamina (37%) e piraclostrobina (22%). Na vegetação, os fungicidas fluopiram (92%), espiroxamina (55%), ciflufenamida (PFAS, 41%) e boscalida (38%) foram os mais encontrados. Em águas superficiais, as detecções predominantes incluíram o fungicida fluopiram (77%), o inseticida pirimicarbe (67%), o herbicida metazacloro (63%) e o inseticida tebufenozida (63%). Cada um desses agrotóxicos frequentemente detectados é categorizado como ‘Alerta alto’ ou ‘Alerta moderado’ pelo Banco de Dados de Propriedades de Pesticidas em pelo menos uma das três categorias Destino ambiental, Ecotoxicidade e Saúde humana. Dos 63 pesticidas detectados atualmente em uso na agricultura, 35% são classificados como Alerta Alto em Destino Ambiental, 43% como Alerta Alto em Ecotoxicidade e 40% como Alerta Alto em Saúde Humana. Fluopiram e boscalida também são substâncias altamente persistentes, com meia-vida típica no solo de 309 dias e 484 dias, respectivamente, resultando em alto risco de acumulação.

Um estudo de menor escala realizado na Holanda mostrou coquetéis de diferentes agrotóxicos de outros tipos de culturas. Eles identificaram o prosulfocarbe volátil, a pendimetalina (tóxico 12) e o folpet (relacionado ao Parkinson) como especialmente problemáticos. Dos 65 agrotóxicos encontrados nesse estudo, 26% são neurotóxicos ou possivelmente neurotóxicos, 77% têm possíveis efeitos no desenvolvimento e/ou reprodução, 31% têm possíveis propriedades de desregulação endócrina e 42% são possivelmente cancerígenos. Todos os agentes encontrados têm propriedades potencialmente tóxicas para os seres humanos. Não há informações disponíveis sobre os efeitos dos coquetéis de agrotóxicos na biodiversidade ou na saúde de moradores e usuários. Veja “Uma névoa de pesticidas sobre a terra” abaixo.

Perigo do “efeito cocktail” para a saúde e a biodiversidade

O novo estudo alemão também encontrou misturas de múltiplos agrotóxicos. Um total de 140 combinações diferentes de pelo menos dois ingredientes ativos foram detectadas. “Coquetéis de pesticidas são particularmente problemáticos porque podem ocorrer interações e os efeitos podem ser amplificados. No procedimento de autorização atual, cada agrotóxico é avaliado individualmente. Isso não é suficiente para compreender os riscos complexos da exposição realista às misturas”, enfatiza o ecotoxicologista Carsten Brühl. 

Pesquisadores de Heidelberg conseguiram demonstrar que misturas de agrotóxicos em concentrações semelhantes às detectadas neste estudo reduzem a postura de ovos de insetos em mais de 50% em laboratório. Portanto, pode-se presumir que essas misturas definitivamente têm um impacto no meio ambiente, especialmente se também estiverem presentes cronicamente, ou seja, ao longo do ano, como pudemos demonstrar em outro estudo.

Redução de agrotóxicos é urgentemente necessária

O estudo mostra que os agrotóxicos não permanecem apenas em terras agrícolas. Eles contaminam toda a paisagem. O “efeito coquetel” e a contaminação de áreas protegidas são preocupantes, segundo os pesquisadores. Os cientistas defendem uma redução rigorosa do uso de agrotóxicos para proteger as pessoas e o meio ambiente, além do monitoramento da contaminação por pesticidas nas paisagens. Isso está em linha com os objetivos da COP 15, Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade, na qual os países concordaram em reduzir pela metade o uso global de pesticidas até 2030. “Nossa abordagem de usar modelagem de paisagem para avaliar a poluição por agrotóxicos pode servir de base para futuras avaliações dos esforços de redução”, observa Carsten Brühl.

Além disso, os pesquisadores defendem projetos-piloto em larga escala para a criação de paisagens culturais livres de agrotóxicos, em uma escala de 10 x 10 quilômetros. Eles veem essa como a única maneira de mensurar os efeitos positivos dos sistemas agrícolas sustentáveis ​​sobre a biodiversidade. Atualmente, a agricultura sem pesticidas, mesmo quando estabelecida em pequenas áreas, não tem chance de concretizar seu potencial em uma paisagem contaminada por pesticidas. “Agora cabe aos políticos desenvolver e promover abordagens livres de pesticidas em larga escala e eficazes e impulsionar resolutamente a transformação para uma agricultura sustentável.”

O estudo:Pesticidas de uso atual na vegetação, solo superficial e água revelam paisagens contaminadas do Vale do Alto Reno, Alemanha (março de 2025), Ken M. Mauser, Jakob Wolfram, Jürg Spaak, Carolina Honert e Carsten A. Brühl

Estudo adicional sobre os efeitos de agrotóxicos em insetos:  Exposição de insetos a resíduos de pesticidas de uso atual no solo e na vegetação ao longo da distribuição espacial e temporal em locais agrícolas, Carolina Honert, Ken Mauser, Ursel Jäger, Carsten A. Brühl. 2025


Fonte: Pan Europe

Pesquisa descobre DDT em trutas silvestres no Canadá, décadas após proibição de uso

Perigo potencial para humanos e vida selvagem devido a pesticidas nocivos descobertos em peixes com concentração 10 vezes maior que o limite de segurança 

Um pescador com mosca no rio Miramichi, New Brunswick, Canadá

Um pescador com mosca no Rio Miramichi, Nova Brunswick, Canadá. O DDT foi usado em áreas florestais da província de 1952 a 1968. Fotografia: Steve Bly/Alamy

Por Sinéad Campbell para o “The Guardian”

Resíduos do inseticida DDT persistem em “taxas alarmantes” em trutas, mesmo depois de quase seis décadas, o que pode representar um perigo significativo para humanos e animais selvagens que comem os peixes, segundo uma pesquisa.

O diclorodifeniltricloroetano, conhecido como DDT, foi usado em terras florestais em New Brunswick, Canadá , de 1952 a 1968. Os pesquisadores descobriram que vestígios dele permaneceram em trutas de riacho em alguns lagos, frequentemente em níveis 10 vezes mais altos do que o limite de segurança recomendado para a vida selvagem.

Josh Kurek, professor associado de mudanças ambientais e biomonitoramento aquático na Universidade Mount Allison, no Canadá, e principal autor da pesquisa, disse que o DDT era um provável agente cancerígeno que não era usado há décadas no Canadá, “mas é abundante em peixes e lama de lagos em grande parte da província, em níveis assustadoramente altos”.

A pesquisa, publicada no periódico Plos One , descobriu que a poluição por DDT cobre cerca de 50% da província de New Brunswick. A truta de riacho é o peixe selvagem mais comum capturado na região, e a pesquisa constatou que o DDT estava presente em seu tecido muscular, em alguns casos 10 vezes acima do recomendado pelas diretrizes canadenses para a vida selvagem.

Os pesquisadores disseram que o DDT, que é classificado pelas autoridades de saúde como um “provável agente cancerígeno”, pode persistir na lama do lago por décadas após o tratamento e que muitos lagos em New Brunswick retêm níveis tão altos de DDT legado que os sedimentos são uma fonte importante de poluição na cadeia alimentar.

“O público, especialmente as populações vulneráveis ​​a contaminantes, como mulheres em idade reprodutiva e crianças, precisa estar ciente do risco de exposição ao DDT legado por meio do consumo de peixes selvagens”, disse Kurek.

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, metade das florestas de coníferas da província foram pulverizadas com DDT, um inseticida sintético usado para controlar insetos transmissores de doenças como malária e tifo. O Canadá proibiu o uso da substância na década de 1980.

A convenção de Estocolmo de 2001 sobre poluentes orgânicos persistentes proibiu o DDT em todo o mundo para uso agrícola em massa, embora ele ainda seja permitido em pequenas quantidades para o controle da malária.

“Essa bagunça não tem solução”, disse Kurek. “O DDT pode persistir na lama dos lagos por décadas ou séculos e depois circular na cadeia alimentar. A melhor abordagem é gerenciar a exposição do público ao DDT legado, incentivando todos a seguir as diretrizes de consumo de peixe e a considerar a redução da exposição.”

Nossas descobertas são um claro alerta para abandonarmos nossa dependência excessiva de produtos químicos sintéticos. Lições precisam ser aprendidas para que não repitamos erros do passado. Esperamos que nosso estudo informe sobre outros contaminantes que aplicamos amplamente hoje, como sal de estrada e herbicidas como o glifosato. Precisamos absolutamente fazer as coisas de forma diferente, ou nossos ecossistemas continuarão a enfrentar uma vida inteira de poluição.


Fonte: The Guardian

Lá como cá: fabricantes de agrotóxicos pressionam por isenção de responsabilidades em meio a grande ameaça à saúde pública nos EUA

Por Sustainable Pulse 

Por meio de defesa de políticas e campanhas populares, o Center for Food Safety (CFS), o Moms Across America e muitas outras organizações dos EUA estão lutando contra uma campanha coordenada e apoiada pela indústria química que ameaça décadas de proteções duramente conquistadas contra a exposição a agrotóxicos por meio de esforços simultâneos nos níveis estadual e federal.

No final de março, a CFS enviou comentários de especialistas sobre políticas,  juntamente com mais de 10.000 comentários de seus membros, solicitando à Agência de Proteção Ambiental (EPA) que negasse uma  petição de regulamentação  com implicações desastrosas para as regulamentações de agrotóxicos nos EUA.

O CFS e outras organizações estão se opondo a esses esforços para restringir severamente a autoridade de longa data dos estados para implementar advertências de agrotóxicos s mais fortes do que o permitido pelos padrões federais, protegendo assim os seus fabricantes de responsabilidade quando as pessoas são prejudicadas por seus produtos.

“Este ataque multifacetado representa uma das ameaças mais sérias à proteção da saúde pública contra agrotóxicos que vimos em décadas”, disse Amy van Saun, Advogada Sênior da CFS. “Se bem-sucedidos, esses esforços não só impediriam os estados de alertar os moradores sobre os perigos dos venenos agrícolas, como também impediriam as vítimas de exposição a essas substâncias químicas de buscar justiça.”

Dezenas de milhares de mães e apoiadores têm telefonado e enviado e-mails para impedir esses projetos de lei de imunidade a agrotóxicos do tipo Make America $ick Again . É inconcebível que nossos representantes eleitos se deixem enganar, acreditando que estão protegendo agricultores. A única coisa que estão protegendo são os fundos da Bayer e do executivo da ChemChina para uma terceira casa de praia. Se a Bayer realmente quisesse evitar mais processos judiciais por toxicidade de seus produtos, seria de se esperar que, em vez de gastar milhões com advogados e lobistas, eles gastassem esse dinheiro reformulando seus produtos para garantir a segurança”, acrescentou Zen Honeycutt, Diretora Executiva da Moms Across America.

A campanha da indústria de agrotóxicos está operando em duas frentes:

Em nível estadual, a legislação introduzida em pelo menos dez estados — incluindo Iowa, Missouri, Oklahoma e Geórgia — tornaria os rótulos federais de agrotóxicos da EPA a única autoridade em relação aos riscos à saúde. Isso significa que, se um dano não estiver especificamente listado no rótulo da EPA, os indivíduos afetados não poderão buscar indenização, protegendo efetivamente os fabricantes de ações judiciais movidas por indivíduos e comunidades prejudicadas por seus produtos. Tais ações judiciais estão disponíveis para todas as outras indústrias que fabricam produtos que prejudicam as pessoas.

Simultaneamente, procuradores-gerais de onze estados solicitaram à EPA que alterasse a Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Raticidas (FIFRA) com uma redação que impediria os estados de impor advertências mais rigorosas sobre agrotóxicos e protegeria os fabricantes de responsabilidade sob as leis estaduais de proteção ao consumidor em todo o país. A supressão das advertências sobre a saúde humana não apenas bloquearia a indenização para vítimas anteriores de doenças induzidas por pesticidas, alega a CFS, mas também resultaria em sofrimento e morte contínuos.

Usuários de venenos agrícolas  são muito mais propensos a usar equipamentos de proteção que reduzem a exposição e salvam vidas, como luvas de borracha, se forem avisados ​​de que um dado produto pode causar câncer, mas a divisão de agrotóxicos da EPA raramente, ou nunca, exige tais avisos, mesmo para aquelas substâncias que classifica como provavelmente ou possivelmente carcinógenos para seres humanos. Em outros casos descritos nos comentários do CFS, os reguladores de  agrotóxicos  da EPA se recusam a reconhecer os danos causados pelo contato com estas substâncias,  tais como impactos reprodutivos, que órgãos competentes como os Institutos Nacionais de Saúde ou mesmo outras divisões da EPA reconhecem. Em outros casos, agrotóxicos aprovados pela EPA, que podem ser seguros em condições ideais de uso, são prejudiciais quando ocorrem acidentes como mau funcionamento do pulverizador e os usuários são expostos a quantidades excessivas.

“A EPA demonstrou repetidamente que sempre encontrará uma maneira de aprovar um agrotóxico, não importa quão prejudicial à saúde humana ou ao meio ambiente”, disse Bill Freese, Diretor Científico da CFS. “Os estados devem manter o direito de proteger seus cidadãos alertando sobre os danos causados ​​por agrotóxicos , como o câncer, mesmo que a EPA tenha receio de fazê-lo”, acrescentou.

A parcialidade da EPA é demonstrada por uma decisão judicial federal de 2022 que tomou a medida extraordinária de anular a avaliação de saúde humana da EPA sobre o glifosato, o herbicida implicado em causar linfoma não-Hodgkin, em ações judiciais bem-sucedidas movidas por usuários de produtos à base de glifosato. O tribunal concluiu que a EPA, ao negar a ameaça cancerígena do glifosato, rejeitou ilegitimamente uma montanha de evidências que demonstravam que o glifosato causa câncer, violando suas diretrizes de avaliação de carcinógenos.

“Todos merecem o direito de se proteger de agrotóxicos perigosos”, disse van Saun. “Não podemos permitir que interesses corporativos multinacionais bilionários revertam décadas de proteções vitais e deixem os americanos sem recurso quando prejudicados por esses produtos.”


Fonte: Sustainable Pulse

No Norte Fluminense,a soja é sonho para poucos, mas poderá ser pesadelo para muitos

Tenho acompanhado anúncios publicitários disfarçados de matérias jornalísticas dando conta do que se pode chamar de chegada da soja no Norte Fluminense. A produção é ainda residual, mas existe o incentivo para dar algum tipo de uso para as estruturas subutilizadas do Porto do Açu. Além disso, em face das pressões por reforma agrária em terras improdutivas, que são maioria por estas bandas, a ideia de plantar soja acaba sendo uma espécie de saída de oportunidade.  

Por essas e outras é que a soja se tornou uma espécie de sonho para latifundiários e autoridades municipais. Mas o que é um sonho para poucos poderá se tornar um pesadelo para a maioria. É que quem vende a ideia de que a soja pode prosperar por aqui, esquece oportunamente de dizer que esta monocultura só é viável com muito agrotóxico sendo aplicado ao longo de todo o processo, desde antes do plantio até a estocagem dos grãos.

Não é à toa que a soja sozinha é responsável pelo consumo de mais de 50% de todos os agrotóxicos consumidos no Brasil, incluindo produtos altamente tóxicos e perigosos para o meio ambiente, a começar pelos herbicidas Glifosato e Diquat. Como esta região já tem uma alta memória em seus solos e recursos aquáticos de agrotóxicos utilizados em outra monocultura, a da cana de açúçar, a expansão da soja significará ainda mais resíduos de produtos altamente venenosos na água que chega na torneira dos campistas, bem como na poeira que invade as casas quando venta forte na região.

Uma pesquisa publicada recentemente com os resultados de coletas feitas em residências na Europa encontrou resíduos de nada menos do que 197 agrotóxicos diferentes, a maioria deles oriunda de campos cultivados com esses venenos agrícolas. O estudo mostrou que esses resíduos chegaram na forma de poeira trazida pelos ventos ou até por animais domésticos que retornavam de seus passeios em áreas públicas.

De minha parte, considero que diferente dos anúncios publicitários em prol da soja e da monocultura de árvores, o que se precisa por aqui é de uma ampla reforma agrária que impulsione a produção de alimentos saudáveis, especialmente em um momento de altas incertezas sobre o comércio mundial que está causando a elevação contínua da cesta básica.

Além disso, é preciso que se cobra a imediata imposição de um mecanismo de licenciamento ambiental que estabeleça limites claros para as distâncias permitidas dos cultivos de soja em relação à áreas residênciais e corpos hídricos.  Do contrário, o que teremos pela frente será um cenário de ampliação do processo de contaminação ambiental e de adoecimento da população em fase da exposição às dezenas de agrotóxicos que são utilizados nos plantios de soja.

‘Coquetel tóxico’: estudo encontra quase 200 agrotóxicos em casas europeias

Mais de 40% dos agrotóxicos encontrados na poeira estão associados a efeitos tóxicos, incluindo câncer e distúrbios hormonais

Uma rua estreita e sinuosa com edifícios amarelos em Florença.

O número de agrotóxicos em cada casa variou de 25 a 121. Fotografia: Roland Barat/Alamy

Por Helena Horton para o “The Guardian”

Quase 200 agrotóxicos foram encontrados por um estudo que examina a poeira em casas por toda a Europa , enquanto os cientistas dizem que os reguladores precisam levar em conta os “coquetéis tóxicos” de produtos químicos ao proibir ou restringir o uso destes insumos agrícolas.

Cientistas afirmam que suas pesquisas corroboram a ideia de que os órgãos reguladores devem avaliar os riscos representados pelos agrotóxicos quando reagem com outros produtos químicos, bem como individualmente. Eles afirmam que isso deve se aplicar tanto às substâncias já em uso quanto às que ainda não foram aprovadas.

Em descobertas preliminares do maior estudo desse tipo, cientistas que examinaram a poeira doméstica de casas em 10 países europeus em 2021 detectaram 197 agrotóxicos no total.

Mais de 40% dos agrotóxicos encontrados na poeira foram associados a efeitos altamente tóxicos, incluindo câncer e distúrbios do sistema hormonal em humanos.

O número de agrotóxicos em cada casa variou entre 25 e 121, e os níveis desses produtos tendiam a ser maiores nas casas dos agricultores.

O professor Paul Scheepers, do Instituto Radboud de Ciências Biológicas e Ambientais, disse: “Temos muitos estudos epidemiológicos mostrando que doenças estão associadas a misturas de agrotóxicos”.

Ele disse que os agrotóxicos presentes na poeira chegaram às casas das pessoas por meio dos sapatos, além de cães e gatos. “Se não tirarmos os sapatos na porta de casa, absorvemos muita sujeira de fora. Animais de estimação também são uma fonte”, disse Scheepers.

Há muitos estudos que indicam que os animais coletam certas contaminações, incluindo agrotóxicos, de ambientes externos. Outro grupo são os produtos de consumo que trazemos para casa, quaisquer agrotóxicos que compramos em lojas por determinados motivos, e uma fonte importante são os tratamentos contra pulgas e carrapatos para animais de estimação.

Embora as concentrações de cada agrotóxico na poeira fossem pequenas, as misturas de dezenas de produtos químicos poderiam ter um impacto na saúde, além de aumentar a exposição aos que também eram frequentemente encontrados em concentrações mais altas em frutas, vegetais e flores.

O estudo descobriu que o DDT permaneceu no meio ambiente apesar do produto ter sido proibido em alguns países em 1972.

Scheepers disse que aqueles que autorizam o uso de produtos devem levar em conta a persistência ambiental e que, mesmo que produtos como Pfas fossem proibidos agora, eles provavelmente permaneceriam no meio ambiente.

Os PFAs são conhecidos como “produtos químicos eternos” porque não se decompõem no meio ambiente. OS PFAs são usados ​​em uma ampla gama de produtos de consumo e processos industriais, e alguns têm sido associados a doenças graves em humanos e animais, incluindo câncer.

Scheepers disse: “Produtos como o DDT, que foram proibidos por muito tempo, são tão persistentes que se acumulam no meio ambiente, então estão constantemente circulando. Agora temos também o problema com o Pfas, que é exatamente uma repetição disso.

“Talvez os reguladores possam considerar a persistência dos produtos químicos – digamos que estabilidade química significa persistência no ambiente e também acumulação na cadeia alimentar; é provável que no futuro descubramos problemas semelhantes com outros produtos químicos persistentes.”

Os pesquisadores disseram que seu estudo revelou quais misturas de agrotóxicos foram encontradas no ambiente, para que os reguladores pudessem testá-las, bem como as combinações produzidas para uso comercial que eles já testaram.

A descoberta do DDT também significa que avaliações de risco de produtos mais novos podem precisar considerar interações com os mais antigos, eles disseram.


Fonte: The Guardian

Água da chuva no estado de São Paul está contaminada por agrotóxicos, mostra estudo da Unicamp

Atrazina, 2,4-D e Fipronil são alguns dos agrotóxicos encontrados na água da chuva em diferentes partes do estado de São Paulo

Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Campinas (Unicamp) detectou a presença de agrotóxicos nas chuvas em Brotas, em Campinas e até na cidade de São Paulo.  O estudo foi publicado na revista científica Chemosphere e alerta para os riscos ambientais da intervenção humana no meio ambiente.

A pesquisa encontrou 14 agrotóxicos e cinco compostos derivados. Os destaques são o herbicida atrazina, presente em 100% das amostras, e o fungicida carbendazin, proibido no Brasil, mas presente em 88% das amostras. O herbicida tebuthiuron foi encontrado em 3 de cada 4 amostras. 

Conforme o estudo, as concentrações dos agrotóxicos não ultrapassam o limite permitido em água potável no país, mas, parte das substâncias sequer têm padrão de segurança que são considerados aceitáveis. A exposição crônica a eles, mesmo em baixas concentrações, pode causar danos à saúde e à vida aquática.

Esses compostos são usados nas lavouras e se dissipam na atmosfera. Com o vento, a temperatura e umidade se distribuem e acabam se condensando nas gotas de chuva e retornando à superfície terrestre.

Em Brotas, por exemplo, o herbicida 2,4-D foi o de maior concentração na água da chuva. O produto não está proibido no Brasil, mas seu uso deveria ser controlado por danos comprovados para a fertilidade humana.  O fipronil, liberado no Brasil, mas já proibido na Europa e nos EUA, estava em 67% das amostras. O composto é potencialmente tóxico para abelhas e tem meia vida longa, de 220 dias, em ambientes aquáticos, por exemplo.

A principal fonte de preocupação dos pesquisadores da Unicamp se refere ao aumento do consumo de água da chuva pelas populações humanas devido às restrições hídricas.  Os pesquisadores da Unicamp sugerem estratégias de monitoramento e tratamento, com base no conhecimento científico já adquirido sobre o assunto.


Fonte:  Pesquisa FAPESP

Conheça a máquina de lobby contra projetos de lei que proíbem pulverização de agrotóxicos

Com fundo de R$ 1,3 milhão para atuar nas casas legislativas, Sindicato das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) tem virado o jogo em votações já concluídas; empresas associadas à entidade acumulam pelo menos R$34 milhões em multas ambientais

Por Julia Dolce, de O Joio e o Trigo para o especial Brasil Sem Veneno 

O município maranhense de Lago do Junco, localizado na transição entre o Cerrado e a Floresta Amazônica, tem um longo histórico de luta pela terra. Nos anos 1970, movimentos locais conquistaram a criação de assentamentos. Em 1997,  a aprovação da Lei Municipal do Babaçu Livre garantiu que as quebradeiras de coco – que tiram sua subsistência do extrativismo da palmeira – tivessem acesso às árvores, mesmo que estivessem dentro de propriedades privadas. A inovação serviu de inspiração para legislações semelhantes no Maranhão e em outros estados.

Algumas décadas depois, os cerca de 10 mil habitantes da cidade se depararam com uma nova ameaça: a contaminação desses mesmos territórios por agrotóxicos pulverizados por aviões e drones.

O município integra o Matopiba, região formada por porções do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia sobre as quais a fronteira agrícola do Brasil espicha desde meados dos anos 1980. Com o avanço de monoculturas, como a soja, cresceu também o uso de venenos. Em 2024, dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) indicaram que o Maranhão foi campeão em registros de contaminação por agrotóxicos.

A soja chegou ao município por volta de 2019. Desde então, a Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais de Lago do Junco e Lago dos Rodrigues se organizou para estabelecer na região uma “zona livre de agrotóxicos”.

Ariana Gomes, da Rama, destaca a participação do Sindag no naufrágio do PL de Lago do Junco. (Foto: Johelton Gomes/CCOM-MPMA)

A luta foi materializada em um projeto de lei  (PL) apresentado no início de 2024 pela vereadora de Lago do Junco Elidevan Ferreira de Sousa (PT). O plano era proibir a pulverização aérea de agrotóxicos por drones e aviões no município, além de estabelecer metas de redução da aplicação desses venenos no longo prazo.

O projeto já conquistava a maioria dos votos quando, em setembro de 2024, aconteceu uma audiência pública na Câmara Municipal. Após o debate, parte dos vereadores mudou de ideia. E o PL naufragou.

“Passou-se um ano inteiro fazendo reuniões”, conta Ariana Gomes, secretária-executiva da Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama) – uma das organizações que articularam a apresentação do projeto de lei. “No fim, não foi aprovado. Entendemos que teve uma força grande do Sindag e de empresas de drone”.

Sindag é a sigla para Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola. A entidade enviou um representante à audiência de Lago do Junco, seu assessor de relações institucionais Divaldo Custódio Maciel.

“Nós estamos aqui pra fazer com que vocês mudem a mentalidade”, resumiu ele. “A proibição é mais fácil, mas e aqueles que utilizam a ferramenta de maneira correta? Aqueles que são beneficiados pela ferramenta? Eles vão ser prejudicados por uma atitude que é extrema”. A “ferramenta”, leia-se, é a chuva de veneno.

Lobby da pulverização áerea avança no interior do Maranhão 

Em sua fala na audiência pública, o representante do Sindag também tentou convencer os agricultores familiares que se mobilizaram contra os agrotóxicos de que poderiam se beneficiar da pulverização aérea.

“Lago do Junco está crescendo e vai crescer ainda mais. É uma terra de progresso – e é isso que a gente quer que seja”, continuou Divaldo. “No Maranhão, cada vez mais pequenos produtores utilizam a aplicação aérea no sentido de duplicar até mesmo a própria produtividade. Aquela dona Maria que tem a produção no fundo do quintal dela, que utiliza, às vezes, a ferramenta para aumentar essa produção e, automaticamente, aumentar a renda”.

Na sua passagem por Lago do Junco, o assessor de relações institucionais distribuiu panfletos, trocou contatos com vereadores e se colocou à disposição para enviar mais “informações”.

A Rama acredita que o Sindag esteja a postos em todo o território maranhense para fazer lobby junto às câmaras municipais. “É um sindicato muito forte, as empresas são muito fortes”, afirma Ariana.

Atualmente, já foram aprovados projetos de lei que visam proibir a pulverização aérea em nove municípios maranhenses. E em outros 12 tramitam projetos do tipo.

Sindicato possui fundo de 1,3 milhões para brecar projetos

Única representação sindical da aviação agrícola no país, o Sindag reúne 260 empresas associadas. Fundado em 1992 em São Paulo, o sindicato fez o seu début na cena política nacional a partir da aprovação de outra legislação histórica no Brasil, que proibiu a pulverização aérea de agrotóxicos no Ceará em 2019.

Página do site do Sindag com informações para a cota de “projetos de proibição”. (Imagem: Reprodução/Sindag)

Lei Zé Maria do Tomé homenageia o agricultor que lutava contra a ocupação irregular por empresas de um perímetro de irrigação público na Chapada do Apodi. No bojo dessa luta, Zé Maria também denunciou o uso massivo de agrotóxicos na produção de frutas. Ele foi assassinado em 2010 com mais de 20 tiros.

Foi a primeira (e, até agora, única vez) que um estado brasileiro restringiu dessa forma os venenos. Autor da lei, o deputado estadual Renato Roseno (PSOL) conta que, após a aprovação, a “bateria” do agronegócio se voltou contra o Ceará: “A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil [CNA] tinha medo de que outros estados adotassem a medida que nós adotamos”. O Sindag integrou a ofensiva, tentando derrubar a lei nos tribunais.

No Supremo Tribunal Federal (STF), o sindicato entrou como amicus curiae da CNA em uma ação que contestava a constitucionalidade da lei. O Sindag também entrou com dois mandados de segurança na Justiça do Ceará. Um contra a Agência de Defesa Agropecuária do estado, tentando barrar a fiscalização da lei. E outro contra o então governador Camilo Santana (PT), defendendo que a legislação feria a Constituição e pedindo a sua suspensão até que fosse julgado o mérito do pedido.

Todas as investidas fracassaram. Mas o Sindag aprendeu a lição: passou a atuar no nascedouro desse tipo de projeto de lei. “Há uma preocupação muito grande que os projetos que queiram proibir a atividade se espalhem pelo Brasil”, afirmou à reportagem o diretor-executivo da entidade, Gabriel Colle.

Essa atuação, é claro, custa dinheiro. Para montar a sua máquina de lobby, o Sindag criou um “Fundo de Defesa da Aviação Agrícola” que, até julho de 2024, já havia arrecadado mais de R$ 1,3 milhão.

O fundo tem diferentes cotas de doações, entre elas uma de R$10 mil para financiamento de ações contra os projetos de lei que visam proibir a pulverização aérea.

Organização ataca memória de Zé Maria do Tomé 

O Fundo de Defesa da Aviação Agrícola também financia uma campanha que recebeu um nome sugestivo: “Chega de Preconceitos”. A iniciativa é focada na defesa do que o sindicato chama de “mitos” sobre o setor.

Um deles seria o “enredo em torno do assassinato” de Zé Maria do Tomé. Em seu site, o Sindag caracteriza o episódio como emblemático na promoção de “equívocos” e “preconceito” contra a aviação agrícola e o agronegócio, “potencializados pelo tempero político e pela polarização da sociedade”. Em notícias também publicadas em seu site, o sindicato atribui aos projetos de lei que tentam proibir a pulverização aérea uma “ideologia” que propaga desinformação contra o setor.

Renato Roseno: “Não há nada mais ideológico do que dizer que o argumento dos outros é ruim por ser ideológico”. (Foto: Junior Pio/Alece)

“Não há nada mais ideológico do que dizer que o argumento dos outros é ruim por ser ideológico”, contrapõe o deputado Renato Roseno. “Quem é muito ideológico é o agronegócio que quer desrespeitar argumentos técnicos com base na falácia de que seriam ideológicos”.

Já segundo Gabriel Colle, o papel do sindicato se resume a preparar materiais para “levar informações” para parlamentares. O Sindag tem marcado presença nos trâmites de projetos de lei em diferentes cantos do país. Um levantamento exclusivo do Joio mostra que a entidade atuou ao menos 14 vezes em audiências de diferentes casas legislativas para barrar propostas que proíbam a pulverização aérea de agrotóxicos nos últimos cinco anos.

Nesse período, além de Lago do Junco, o Sindag esteve presente em audiências públicas que trataram do tema nas câmaras municipais de Nova Esperança (PR), Tabapuã (SP), Piracicaba (SP), São Carlos (SP), bem como nas assembleias legislativas de Bahia, Ceará, Mato Grosso do Sul, Pará, Pernambuco e Rio Grande do Sul.

Além da incidência legislativa, o sindicato tem representação em câmaras, comissões, comitês e conselhos de órgãos federais e regionais, como a Comissão Especial para Assuntos da Aviação Agrícola no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

A reportagem mapeou 24 reuniões de representantes do Sindag com autoridades do poder executivo, principalmente membros do Mapa e da Agência Nacional da Aviação Civil (Anac), entre 2020 e 2025.

O sindicato também promove encontros com veículos da imprensa, já tendo visitado as redações da TV Globo, Band e Canal Rural.

Em 2023, passou a integrar o Instituto Pensar Agropecuária (IPA), organização que reúne dezenas de entidades do agronegócio e organiza a agenda da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Congresso. As entidades que compõem o IPA se reúnem semanalmente na sede do instituto em Brasília com os parlamentares da bancada para apresentar suas pautas.

Assessor parlamentar é ameaçado após dossiê contra agrotóxicos

Em setembro de 2023, o geógrafo e mestre em ciências ambientais Vitor Camacho atendeu uma ligação de um DDD desconhecido. Do outro lado da linha, uma voz grave e distorcida o ameaçou: “A gente sabe onde vocês estão, a gente sabe quem vocês são. É melhor vocês pararem com isso”.

Documento de mais de 300 páginas do Sindag circulou entre vereadores de São Carlos. (Foto: Vitor Camacho)

Camacho é assessor do vereador Djalma Nery (PSOL), do município paulista de São Carlos. A ameaça, por sua vez, foi endereçada a um celular que pertencia ao gabinete do parlamentar e ocorreu durante o trâmite de um projeto de lei de autoria de Nery que pretendia proibir a pulverização de agrotóxicos por aviões na cidade.

Camacho é assessor do vereador Djalma Nery (PSOL), do município paulista de São Carlos. A ameaça, por sua vez, foi endereçada a um celular que pertencia ao gabinete do parlamentar e ocorreu durante o trâmite de um projeto de lei de autoria de Nery que pretendia proibir a pulverização de agrotóxicos por aviões na cidade.

“Fiquei tão nervoso, porque eu  já estava vivendo sob pressão e ansiedade”, lembra Camacho. O projeto de lei foi baseado em um dossiê elaborado por ele com relatos de contaminação por pulverização aérea no loteamento de pequenos agricultores Aporá de São Fernando, que fica no município. “Tem fotos e vídeos que mostram que os aviões passavam em cima das casas, muitas vezes com os aspersores ligados”, relata.

“Como uma das pessoas envolvidas diretamente tanto na elaboração da denúncia, quanto da lei, a todo momento a gente se sente muito observado, principalmente pelos interessados do agro que estão sempre marcando presença”, desabafa o assessor parlamentar.

São Carlos é um município de médio porte, com mais de 260 mil habitantes, localizado na região central de São Paulo, a cerca de três horas da capital. O agronegócio é forte e a produção de usinas sucroalcooleiras domina a paisagem local. Segundo o Censo Agropecuário de 2017 (último com dados disponíveis), à época, a área colhida de cana-de-açúcar ocupava quase 28 mil hectares.

Em 23 de agosto de 2023, os vereadores da Câmara Municipal de São Carlos aprovaram o projeto de Djalma Nery com folga: por 13 votos a 1.

Em São Carlos, volta atrás no último minuto

O resultado soou o alerta. A partir daí, representantes do setor sucroalcooleiro, de pilotos agrícolas e da empresa de comercialização de drones Xmobots (que tem sede no município) começaram a se mobilizar.

No mês que se seguiu à aprovação, período em que o então prefeito Airton Garcia Ferreira (Progressistas) decidiria por sua sanção ou veto, esses representantes passaram a visitar a Prefeitura, segundo Camacho. “Nesse meio tempo, a gente presenciou esse lobby sendo feito. Eu vi eles frequentando o Paço Municipal”. A pressão surtiu efeito: o prefeito vetou o projeto.

Funcionários da Xmobots (de uniforme) lotam Câmara Municipal de São Carlos na votação do veto do prefeito. (Foto: Reprodução/Sindag)

Nas semanas seguintes, o lobby se voltou para a Câmara Municipal, que poderia derrubar o veto do prefeito. “Fizeram reuniões, encontros com os vereadores. Entregaram um documento imenso”, lembra o assessor parlamentar. O documento em questão, um calhamaço de cerca de 300 páginas de artigos defendendo o setor aeroagrícola e a pulverização aérea, foi entregue por um representante do Sindag ao presidente da Câmara.

Entre os estudos presentes no documento está um que trata dos “impactos econômicos e sociais” do banimento da aplicação aérea de “defensivos agrícolas”, produzido pelo escritório Mendonça & Nogueira Advogados Associados a pedido do próprio Sindag, da multinacional Syngenta e de outras associações do agronegócio. Um dos autores do estudo, Elvino de Carvalho Mendonça, é colunista do site do Sindag.

O veto do prefeito foi votado no dia 26 de setembro de 2023. Segundo um dos diretores do Sindag, praticamente 90% das empresas paulistas associadas ao sindicato estavam representadas na Câmara Municipal de São Carlos.

Na ocasião também estiveram presentes diversos funcionários da Xmobots, a fabricante de drones. A empresa deu ponto facultativo aos trabalhadores no dia da votação e eles lotaram as galerias. Segundo Camacho, ainda houve uma “manobra” com a mesa diretora da Câmara. “Permitiram que eles entrassem antes do combinado e lotassem a sessão, e nenhuma pessoa afetada pelo tema pudesse estar presente”.

Os funcionários da empresa, junto a representantes das usinas e pilotos, também fecharam a entrada da casa legislativa, dificultando a passagem dos vereadores. “Fizeram um corredor polonês para, literalmente, linchar ele [Djalma Nery]. Quem partiu para cima foi o pessoal dos drones. Teve um que partiu para cima com contato físico mesmo, mas a Guarda Municipal impediu”, relata Camacho.

A Xmobots não é associada ao Sindag, mas participou do Congresso da Aviação Agrícola do Brasil, promovido pelo sindicato em agosto de 2024. Contatada, a empresa confirmou que autorizou ponto facultativo, mas afirmou “repudiar veementemente qualquer conduta que viole o respeito e o diálogo construtivo”.

O resultado da história não é difícil de adivinhar: os vereadores mudaram de ideia e enterraram o projeto por 15 votos a cinco.

“Nossas ovelhas estão abortando, diz agricultora 

Segundo Joelson Carvalho, professor de economia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que tem se dedicado a registrar casos de contaminação pela pulverização aérea, a mobilização do agronegócio contra projetos do tipo é rápida e certeira. “O agronegócio tem uma capacidade muito grande de se unir ao redor de pautas quentes. Isso aconteceu em São Carlos. Setores pouco presentes no cotidiano do município acompanharam o debate da lei”.

Entre os principais impactados pela pulverização aérea no município estão os assentamentos rurais Santa Helena e Nova São Carlos. Os assentados relatam a perda da produção orgânica de hortaliças e mel, além da morte de animais e problemas de saúde.

A agricultora Lindamira Ribeiro, assentada do Santa Helena, participou de uma audiência pública organizada pelo vereador Djalma Nery que antecedeu a proposição do projeto. Na ocasião, ela denunciou os efeitos da contaminação.

“A nossa área, que a gente ainda planta orgânico, ainda tem bastante árvore pra não ter tanto estrago nas nossas verduras, porque é delas que nós vive. Mas nas outras áreas, que a gente não planta mais, a gente deixou para o pasto. E agora nossas ovelhas estão abortando – e eu acho que pode ser disso, porque é a área onde o avião mais passa”, afirmou. A agricultora também relatou que crianças e jovens do assentamento têm sofrido sintomas de intoxicação, como dores de cabeça.

Segundo Carvalho, as empresas alegam que, para manobrar os aviões, é necessário passar em cima dos assentamentos. “Há um desrespeito aos limites mínimos estabelecidos [por legislação para a pulverização aérea] e que já são bastante perigosos. Do ponto de vista político, essa é uma ação extremamente coercitiva que visa obter o silenciamento e expulsão”.

O diretor-executivo do Sindag afirma que o sindicato não ignora as denúncias que embasam as propostas de lei. “Uma política do Sindag é estar sempre disponível e levar pra frente, eventualmente, qualquer denúncia. Sendo feito respeitando os parâmetros, não vai ter problemas”, garante Gabriel Colle.

A entidade tem uma narrativa sustentada na separação entre o joio e o trigo. Há aqueles que “fazem errado” e os que cumprem as normas. O diretor afirmou também que a posição do sindicato é pelo respeito às leis. “Se alguém desrespeitar a legislação conscientemente, com certeza não vai estar no nosso quadro de associados”.

Associadas acumulam R$ 34,6 milhões em autuações ambientais 

Apesar da tentativa de distanciamento em relação aos que “fazem errado”, um levantamento exclusivo de O Joio e o Trigo mostra que as empresas associadas ao Sindag e seus sócios acumulam R$ 34,6 milhões em multas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Ambientais Renováveis (Ibama).

Entre 1996 e 2023, foram lavradas 123 autuações ambientais. As infrações envolvem principalmente o descumprimento da regulação da pulverização de agrotóxicos.

Outros casos envolvem a contaminação direta de cursos hídricos, como documenta uma autuação lavrada em 2018 contra Geraldo Loeff, sócio da LL Aviação Agrícola Ltda. Ou mesmo a contaminação de unidades de conservação, como indica uma autuação de 2001 contra a empresa Aerosafra Aviação Agrícola, que dá conta de danos diretos ao Parque Nacional das Emas, localizado em Goiás.

Há também obstrução à fiscalização do poder público, conforme autuação de 2018 contra a Lusa Aviação Agrícola Ltda, bem como casos de declaração de informações falsas ao cadastro técnico do Ibama, segundo autuação de 2017 contra a Rondon Aviação Agrícola Ltda.

Pátio da Rondon Aviação Agrícola, autuada por apresentar declarações falsas ao Ibama. (Foto: Defesa Civil/MT)

Das 123 autuações, 65 foram lavradas contra os sócios ou diretores das empresas associadas ao Sindag. Entre elas, há 28 autuações relativas a desmatamento ilegal, queimada ou impedimento de regeneração da mata nativa, referentes à destruição de mais de 5,5 mil hectares de vegetação – em sua maioria no Mato Grosso.

Questionado sobre as autuações de associados do Sindag, Gabriel Colle disse que o sindicato “não passa a mão na cabeça de ninguém”. “A gente não defende nenhuma empresa, nenhum produtor rural, ninguém que faça nenhum crime ambiental”.

Sobre o valor das autuações, o diretor-executivo do Sindag afirmou que as multas do Ibama costumam ser altas, “e têm que ser mesmo porque são questões ambientais”. Colle destacou também que as multas lavradas não são o fim do processo, uma vez que os autuados têm direito à defesa.

O sindicato defende que a pulverização aérea é segura para o meio ambiente, as pessoas e seus cultivos. Bastaria seguir à risca a norma federal que regula a prática. O sindicato destaca também que a modalidade é mais regulamentada do que a aplicação de agrotóxicos por via terrestre.

Para Sindag, problema da deriva de agrotóxicos é “Mito”

A pulverização terrestre de agrotóxicos pode ser feita por tratores ou equipamentos como mochilas. Sua regulação é assunto dos estados —  apenas cinco têm regras do tipo. Já a aplicação aérea de venenos tem regulamentação federal pelo Ministério da Agricultura e pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Nesse sentido, existem algumas obrigações a mais quando o assunto são os aviões e drones. No caso dos primeiros, por exemplo, devem ser enviados ao Mapa relatórios mensais de cada operação de aplicação, incluindo o arquivo do DGPS, espécie de GPS detalhado da aeronave que mostra tanto a região sobrevoada, quanto os locais onde o sistema de pulverização esteve aberto ou fechado.

Gabriel Colle, do Sindag, defende que o sindicato apenas leva “informações” para parlamentares. (Foto: Reprodução/Linkedin)

Já no caso dos drones, são exigidos registro da aeronave no ministério, certificado de curso de aplicação aeroagrícola e relatórios mensais de atividades.

O problema mora nas distâncias mínimas estabelecidas para a aplicação dos venenos, consideradas insuficientes para impedir que os agrotóxicos sejam levados pelo vento — um fenômeno conhecido como deriva. No caso dos aviões, essa pulverização pode acontecer a 250 metros de distância de mananciais de água, moradias isoladas e agrupamentos de animais. No caso de povoações, cidades, vilas, bairros e mananciais de captação de água para abastecimento da população, a distância aumenta para 500 metros. Já para os drones, essa distância é de apenas 20 metros em qualquer situação.

Embora represente uma economia de tempo e dinheiro ao agronegócio, por proporcionar uma aplicação mais veloz e que não envolve a perda de plantas pelo amassamento causado por tratores, a pulverização aérea é responsável por maiores distâncias de deriva, o que intensifica a contaminação de vizinhos e áreas de proteção ambiental.

A mitigação da deriva depende tanto de fatores controláveis, como o bico do pulverizador utilizado e a velocidade da aeronave, quanto de fatores instáveis, como a direção do vento, a temperatura e a umidade do ar. Condições inadequadas podem fazer a deriva alcançar quilômetros de distância.

De acordo com o diretor-executivo do Sindag, ligar o problema da deriva à pulverização aérea é mais um “mito” sobre o setor.  Ele afirma que toda ferramenta de aplicação mal utilizada pode causar deriva. “Nosso posicionamento sempre é no sentido de orientação e de defender as boas práticas agronômicas”. Segundo Colle, a aviação agrícola no Brasil é altamente regulada. “A gente quer manter assim, cada vez mais regulado, porque isso nos dá segurança”.

Baseada em estudos que comprovaram a maior distância da deriva na pulverização aérea, entretanto, a União Europeia proíbe a modalidade em seu território desde 2009. Por aqui, além do Ceará, pelo menos 19 municípios já seguiram esse exemplo.

“O drone é infiscalizável”

Um dos fatores que têm elevado as ocorrências de contaminação no Brasil é a popularização da pulverização por drones agrícolas. Os equipamentos baratearam o custo operacional da atividade. Enquanto o preço médio de um avião agrícola está na casa de alguns milhões de reais, é possível comprar um drone a partir de R$ 60 mil.

A capacidade dos drones também avança. Em janeiro de 2025, foi anunciado que o maior drone autorizado pelos Estados Unidos para operações comerciais está pronto para atuar no Brasil, tendo obtido licença da Anac. A aeronave pode transportar até 300 litros de veneno – o mesmo que um avião pequeno.

A obtenção da qualificação técnica para o manuseio de drone também é bem mais fácil. Cursos inteiramente virtuais possibilitam a certificação de operador da aeronave.

O Sindag também tem empresas de drones agrícolas no seu quadro de associados, e comemorou em suas redes sociais a decisão da Assembleia Legislativa do Ceará que flexibilizou a Lei Zé Maria do Tomé. Sancionada no apagar das luzes de 2024 pelo governador Elmano de Freitas (PT), a nova lei permite a pulverização aérea por drones.

“Nós perdemos em dezembro de 2024. Lamento muito que um governador do PT, traindo sua história, se preste a isso”, comenta o deputado Renato Roseno. Ele destaca que as pesquisas sobre os impactos da pulverização por drones, incluindo sua deriva, ainda são incipientes. Vê o boom da aplicação por drones como uma tendência: “Vai ser tudo com as aeronaves não pilotadas”. E se preocupa com a fiscalização da norma que dita que as aplicações de venenos devem ser feitas a 20 metros de casas, animais e mananciais de água. “O drone é infiscalizável. O que fazem com um drone à noite, de madrugada, ninguém vai saber”.

No Maranhão, drones são usados para atacar líderes comunitários 

Operações clandestinas, algumas em horários noturnos, têm sido registradas no Maranhão. Em 2024, a Federação dos Trabalhadores Rurais do estado (Fetaema) identificou 14 comunidades vítimas da prática, todas residentes do município de São Mateus, que fica a duas horas e meia de carro de Lago do Junco. Segundo a entidade, numa reunião com lideranças locais, representantes das secretarias de Meio Ambiente e de Agricultura do estado informaram que não há nenhum licenciamento para operação de drones na cidade.

Em Duque Bacelar, mais perto da divisa com o Piauí, as denúncias são ainda mais graves. Os drones estariam sendo utilizados para ameaçar a comunidade de Roça do Meio. Formada por 14 famílias que há gerações ocupam o território, a comunidade denuncia ameaças de expulsão por parte do pecuarista Paulo André Cardoso, que afirma ser dono das terras.  Ele estaria pulverizando agrotóxicos sobre a casa de familiares do líder local – Marcelo Barbosa dos Santos – que levou o caso à polícia.

Um boletim de ocorrência foi registrado pela primeira vez no dia 10 de fevereiro de 2025. No dia 19 de fevereiro, data em que Marcelo deu entrevista à reportagem, o fato se repetiu. “Hoje de manhã ele colocou de novo, passou por cima da casa da minha mãe soltando veneno. O cheiro era muito forte, minha mãe passou mal com falta de ar. Meu pai, que tem 87 anos, fica com coceira no corpo e tontura”, contou.

Não é a primeira vez que o pecuarista contamina a comunidade, segundo Marcelo. Em 2021, um avião pulverizou a escola rural, que atende 300 estudantes. “As aulas foram suspensas por cerca de quatro dias”, disse. “A gente vive de plantio de arroz, mandioca, feijão, milho. O veneno afeta tudo, acabou que matou foi tudo. E a gente não conseguiu aproveitar nada, passou um bocado de dificuldades”.

Na ocasião, o Ministério Público do Maranhão instaurou um procedimento que nunca foi concluído, e encontra-se paralisado desde 2022. Também em 2022, em resposta à contaminação da comunidade Roça do Meio,  a Câmara de Vereadores de Duque Bacelar aprovou um projeto de lei que proibia a pulverização aérea em território municipal. O projeto foi sancionado e a lei entrou em vigor.

No último 27 de fevereiro, porém, o prefeito Flávio Furtado (PDT) enviou um projeto à Câmara pedindo a revogação da lei. Conseguiu. A votação aconteceu em 14 de março de 2025 e contou com a presença de representantes da Aprosoja Maranhão.

A reportagem tentou contatar Paulo André Cardoso por meio de duas empresas das quais ele é sócio-administrador, mas não obteve resposta.

Intimidação via notificação extrajudicial 

A mesma Federação dos Trabalhadores Rurais do Estado do Maranhão que acompanha esses conflitos entrou para a mira do Sindag. Em 2024, sindicato enviou uma notificação extrajudicial ao advogado popular Diogo Cabral, que representa a Fetaema. Há quatro anos na linha de frente da denúncia de violações de direitos envolvendo a pulverização aérea no estado, Cabral recebeu o documento após dar uma entrevista ao jornal JMTV mencionando contaminações no estado.

Primeira página da notificação extrajudicial do Sindag contra o advogado popular Diogo Cabral. (Imagem: Reprodução/Sindag)

Na entrevista, concedida em 24 de abril de 2023, o advogado afirmou que a Fetaema já havia registrado 60 ocorrências de contaminação no Maranhão só naquele ano. “Pessoas tiveram queimaduras, crianças, idosos e gestantes acabaram adoecendo, com graves problemas gastrointestinais, e parte da produção agrícola destas comunidades foi inteiramente perdida”, afirmou.

Quase um mês depois, em 23 de maio, ele recebeu a notificação do Sindag demandando provas sobre as “graves informações prestadas” ou esclarecimentos “se o suposto dado foi de fato provocado pela pulverização”.

Para Cabral, a ação do Sindag se insere em um contexto de “criminalização, intimidação e limitação do trabalho de defensores de direitos humanos”. Ele afirma não ter ficado surpreso, e sim preocupado. “Não só por mim, mas por todas as organizações e pessoas que estão nessa luta”. O advogado não respondeu à notificação e até hoje não foi citado judicialmente.

Cabral destaca que o avanço da fronteira agrícola, principalmente para cultivo de soja, tem impulsionado o mercado de agrotóxicos no Maranhão. Dados do Ibama revelam um crescimento de 200% no comércio dessas substâncias no estado na última década.

O advogado ressalta que, em 2024, a Fetaema registrou 234 comunidades atingidas por pulverização aérea. Em 2025, já eram 18 comunidades até a publicação desta reportagem. Cabral destaca também que todas as contaminações registradas foram causadas pela pulverização aérea. “Não tem nada de agricultura de precisão, é uma agricultura de imprecisão, na verdade, porque tem muita gente sendo contaminada”.

Lobby da pulverização área está dentro das universidadesO

Além de entrar na Justiça, fazer lobby em casas legislativas e intimidar críticos, mais recentemente o Sindag tem fechado parcerias para o desenvolvimento de pesquisas que sustentam a segurança da pulverização aérea de agrotóxicos.

Além de uma parceria de anos com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o sindicato deu início a um programa de financiamento de bolsas de pesquisa em universidades públicas. Segundo o Gabriel Colle, atualmente, já são cerca de 40 convênios com universidades em trâmite, entre eles a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Brasília (UnB).

Em março de 2024, a UnB sediou o 1º Fórum Nacional de Aviação Agrícola no Planalto Central, em parceria com o Sindag, com o Instituto Brasileiro da Aviação Agrícola — braço do sindicato  — com a CNA, com a Aprosoja e com a CropLife Brasil, associação que reúne as multinacionais produtoras de agrotóxicos. O evento culminou no lançamento de um Núcleo de Estudos em Atividades Aeroagrícolas.

O núcleo recebeu a primeira bolsa financiada pelo sindicato. O financiamento resultou na publicação, em novembro de 2024, de um estudo sobre controle de deriva que, segundo Colle, chegou a resultados “extremamente importantes”. O estudo consistiu em uma revisão bibliográfica de pesquisas sobre o tema, com o objetivo de descrever uma equação para descrição da deriva.

O estudo argumenta que, nos testes realizados em diferentes pesquisas analisadas, foi identificado um valor máximo de 100 metros de deriva, e argumenta pela abertura de “novas discussões da faixa de segurança”, uma vez que as distâncias mínimas estabelecidas pelo Mapa são maiores.

O financiamento de pesquisas pelo sindicato parece ter um vício de origem: a arrecadação é realizada pelo mesmo Fundo de Defesa da Aviação Agrícola que recruta doações para promover o lobby nas câmaras municipais. Colle destaca que a pesquisa é o objetivo mais importante do fundo.

“A gente pretende utilizar mais recursos na produção de divulgação e promoção do setor, principalmente de esclarecimento de mitos e fatos. A origem disso deverá ser as pesquisas. Temos realmente um desejo, um sonho que possamos ter alunos de diferentes universidades com bolsas pagas pelo fundo incentivando a fazer pesquisa”, afirmou.

O diretor do Sindag foi questionado sobre o comprometimento dos resultados das pesquisas pelo interesse econômico do setor, mas não respondeu a pergunta.

| Julia Dolce é repórter de O Joio e o Trigo. |

Imagem principal (Denise Matsumoto): lobby da pulverização aérea consegue reverter projetos de lei que limitam uso de agrotóxicos.


Fonte: De Olho nos Ruralistas