Soja lidera uso de agrotóxicos no Brasil, mas apesar disso a produtividade está caindo drasticamente, mostra relatório

De acordo com um estudo realizado pelo Instituto Escolhas, o latifúndio agro-exportafor brasileiro tem intensificado o uso de agrotóxicos e fertilizantes para aumentar a produção de soja, na qual o Brasil é líder mundial.  Além disso, esse aumento se dá em um ritmo mais acelerado do que a expansão da área plantada, o que pode acarretar riscos ambientais e reduzir a rentabilidade dos produtores. Por outro lado, ao se comparar com países líderes no uso de agrotóxicos, como Estados Unidos, Argentina, China e Índia, o Brasil se destaca, conforme mostram dados oficiais.

Por outro lado, o levantamento feito pelo Instituto Escolhas aponta que mesmo com um aumento da produtividade de 2% ao ano, esse crescimento é inferior à expansão da área plantada e ao aumento do uso de insumos, que foram de 5% e 11% respectivamente.  O estudo também mostra que, em 30 anos, a área de soja saltou de 11 para 44 milhões de hectares, mas a eficiência do uso dos agrotóxicos caiu drasticamente: em 1993, eram 23 sacas de soja produzidas para cada quilo de agrotóxico aplicado; hoje, são apenas 7.

Além disso, o estudo mostra que o custo dos agrotóxicos e fertilizantes saltou de 30% para 44% sobre o valor bruto da produção. 

Livre da soja, Pantanal sofre com veneno que chega pelos rios

Segundo Jaqueline Ferreira, do Instituto Escolhas, o aumento do uso de agrotóxicos e fertilizantes é frequentemente minimizado pelos alta na produção de soja, que é essencial para o abastecimento mundial e fonte de exportação de dólares para o país. Para a safra 2024/2025, o Brasil projeta uma produção recorde de 168 milhões de toneladas de soja, 13% a mais que o ano anterior. Mas esse resultado não pode esconder que isso está acontecendo graças ao aumento do desmatamento e do uso de agrotóxicos, muitos deles banidos na Europa e até na China.

Consequências inescapáveis da chegada do Deserto Verde em Campos dos Goytacazes

Em 2004 fui um dos autores de um capítulo no livro “Conflito social e meio ambiente no estado do Rio de Janeiro” cujo título era “Transgredindo escalas e estabelecendo parcerias inusitadas na luta pela justiça ambiental: o caso da mobilização contra a monocultura de eucalipto no Rio de Janeiro”. O capítulo era essencialmente uma análise das alianças inusitadas ocorridas naquele período para impedir a chegada dos grandes plantios de eucalipto no território campista, tendo unido representantes dos ceramistas, pesquisadores das universidades locais, ambientalistas e dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).  Na conclusão daquele capítulo, colocamos uma espécie de alerta no sentido de que aquele era um conflito inconcluso e que cedo ou tarde, o espectro do deserto verde iria novamente pairar sobre nossas cabeças.

Eis que agora pouco mais de duas décadas daquela tentativa frustrada de implantar a monocultura de árvores no território de Campos dos Goytacazes, estamos assistindo a uma nova tentativa, agora com o apoio explícito do prefeito Wladimir Garotinho e do seu secretário de Agricultura, Almy Junior.  As informações que me chegam de fontes que conhecem as transações que estão ocorrendo no mercado de terras (a maioria improdutivas) é que milhares de hectares já foram adquiridos por empresários capixabas, e que efetivamente a ideia é transformar o Norte Fluminense em um imenso deserto verde. Assim, ainda que os anúncios bilionários de investimentos sejam irreais, o espectro do deserto verde está realmente mais próximo do que esteve no início do século 21.

Agora, o que não está se mostrando ( e eu irei fazê-lo com a lupa científica nos próximos anos) é que essa tentativa não for tiro com pólvora molhada, o que está se preparando trará amplas consequências sobre o meio ambiente, a saúde humana e até a capacidade de circulação em um BR-101 já sobrecarregada com a falta de duplicação no trecho entre Campos dos Goytacazes (RJ) e Anchieta (ES).

A primeira coisa é que grandes plantios de eucalipto não geram empregos, mas acabam destruindo mais do que criam.  Assim, em uma região que já possui déficit de empregos, a chegada da monocultura de árvores gerará mais desemprego e mais êxodo rural, o que contribuirá para a ampliação das favelas. 

Em segundo lugar, plantios de eucalipto demandam um grande uso de agrotóxicos, principalmente no combate às formigas que encontram nas mudas um amplo pasto. Com isso, viveremos a ampliação do uso de substâncias químicas altamente tóxicas, o que deverá causar mais adoecimento nos trabalhadores e espalhar a contaminação via os corpos hídricos. Como vivemos em um município que já possui um sistema de saúde sobrecarregado por doenças oriundas da monocultura de cana, a perspectiva é que nos próximos anos e décadas assistamos a uma piora do quadro de saúde, sem que haja a devida cobertura  de serviços de saúde.

O que são desertos verdes? | Super

Em terceiro lugar,  monoculturas de árvore em escala industrial, principalmente em ciclos de plantio/colheita altamente velozes, há um aumento na demanda hídrica.  Em especial, o eucalipto demanda muita água para cumprir um processo de crescimento rápido que possa gerar a matéria prima para a produção de celulose que certamente é o alvo da expansão do deserto verde em terras campistas.  Com isso, como já vivemos em uma região em que o fornecimento de água é altamente pressionado, o futuro se desenha como bastante desafiador.

Em quarto lugar, há que se mencionar que certamente o principal comprador das árvores plantadas em Campos dos Goytacazes e municípios vizinhos será a Suzano Papel cuja planta estabelecida em Aracruz (ES) precisa de mais de matéria prima para operar nos níveis de competição que seus acionistas demandam. Com isso, a via de transporte preferencial terá de ser a BR-101, visto que inexiste outra forma de acesso viável, tanto para Aracruz como para as unidades portuárias existentes ou em construção na região.  Com isso, imaginemos o que vai acontecer quando a produção dos eucaliptais começar a ser transportada pela via realmente existente, a BR-101.

'Agora tudo é eucalipto': trabalhadoras rurais denunciam danos ambientais  causados pela Suzano – Brasil de Fato

Um quinto e importante aspecto se refere às pressões sociais em prol da reforma agrária.  A transformação de Campos dos Goytacazes em um deserto verde é também uma forma de impedir que a reforma agrária prospere.  Os últimos anos têm mostrado que uma retomada das ações do MST e de outros movimentos sociais em prol da utilização do grande estoque de terras improdutivas em assentamentos de reforma agrária.  Ao transformar terras improdutivas em mais um deserto verde, as oligarquias agrárias que ainda dominam a política municipal e regional procuram se prevenir contra o “mau exemplo” da agricultura familiar e da produção de alimentos saudáveis.  Por mais contraditório que possa ser, vender as terras por preços aquém do que se poderia obter do governo federal via desapropriações faz sentido, pois a ordem social existente se baseia justamente na desigualdade de acesso à terra, nos campos e nas cidades.

Por isso tudo é que não se pode ignorar os esforços de implantação do deserto verde em Campos dos Goytacazes. É que aqui está se dando mais um capítulo que coloca de frente um para o outro, modelos de sociedade e de desenvolvimento econômico e social.   E uma última nota: como não comemos celulose nem casca de eucalipto,  não deve ser difícil de se estender a urgência da tomada de posição por parte daqueles que não querem ver o deserto verde instalado em Campos dos Goytacazes.

Novo relatório mostra que plantio direto aumenta uso de agrotóxicos e prejudica os solos

História do Plantio Direto no Brasil - Sensix Blog

Por Sustainable Pulse

Um novo relatório da Friends of the Earth refuta que a agricultura industrial de plantio direto seja “regenerativa”. Com base em uma análise inédita de dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o relatório conclui que a maioria dos sistemas de plantio direto depende tanto de herbicidas para controlar ervas daninhas que um terço do uso anual total de agrotóxicos nos EUA (um termo que inclui herbicidas, inseticidas e fungicidas) pode ser atribuído apenas à produção de milho e soja transgênicos de plantio direto e mínimo.

A agricultura intensiva no uso de produtos químicos predomina nos EUA não por culpa dos agricultores, mas porque é isso que as políticas públicas e os mercados apoiam. Os agricultores adotaram amplamente o plantio direto para minimizar a erosão do solo e agora precisam de apoio para também reduzir o uso de agrotóxicos.

O relatório constata que a grande maioria (93%) da área cultivada com as duas principais culturas de plantio direto e mínimo, milho e soja, utiliza altos níveis de herbicidas, com consequências devastadoras para a vida do solo e a saúde humana. Esses produtos químicos, disseminados por quase 40 milhões de hectares em todo o país, predominantemente nas regiões do Coração da Terra e das Grandes Planícies, têm sido associados a câncer, defeitos congênitos, infertilidade, neurotoxicidade, perturbação do microbioma intestinal, desregulação endócrina e muito mais. A maioria (61%) do uso é de produtos químicos classificados como altamente perigosos. O glifosato, o principal ingrediente do herbicida Roundup, amplamente criticado e associado ao câncer, é o herbicida mais utilizado no plantio direto de milho e soja.

O custo do plantio direto com uso intensivo de agrotóxicos vai além dos impactos à nossa saúde: ele também destrói o solo onde nossos alimentos são cultivados. Os pesticidas amplamente utilizados no plantio direto industrial devastam a saúde do solo, prejudicando o microbioma e invertebrados  como minhocas e besouros, bem como polinizadores essenciais e outros animais selvagens. Solos saudáveis ​​e vivos aumentam a resiliência dos agricultores a secas e inundações, conservam água e extraem mais carbono da atmosfera. O solo devastado por agrotóxicos, por outro lado, ameaça os recursos necessários para um sistema alimentar saudável.

O relatório desmascara a falsa suposição de que o plantio direto industrial é uma solução climática, resumindo extensas pesquisas científicas que demonstram não haver uma relação clara entre o plantio direto industrial e o sequestro de carbono no solo. E as emissões de gases de efeito estufa associadas aos pesticidas e fertilizantes sintéticos à base de combustíveis fósseis usados ​​no plantio direto e mínimo de milho e soja são equivalentes às de 11,4 milhões de carros nas ruas ao longo de um ano inteiro — aproximadamente o número de carros nos 9 estados com maior índice de plantio direto combinados.

“À medida que a agricultura regenerativa ganha destaque nas discussões nacionais sobre como tornar os Estados Unidos mais saudáveis, é crucial que promovamos uma agricultura verdadeiramente regenerativa”, disse a Dra. Kendra Klein, Diretora Adjunta de Ciência da Friends of the Earth. “O plantio direto, impregnado de agrotóxicos que ameaçam a saúde de nossas crianças, destroem o solo e agravam as mudanças climáticas, está nos levando na direção errada.”

A ascensão do plantio direto industrial está ligada à tentativa da indústria química de aprofundar a dependência dos agricultores em relação aos seus produtos tóxicos. Empresas químicas como a Imperial Chemical Industries e a Chevron realizaram experimentos com plantio direto e ajudaram a disseminar o conceito de plantio direto industrial na década de 1970, reconhecendo-o como uma oportunidade para expandir o mercado para seus herbicidas.

“As grandes empresas alimentícias que investem em agricultura regenerativa precisam evitar o plantio direto industrial esverdeado e, em vez disso, apoiar a transição para uma agricultura legítima e regenerativa que protegerá e melhorará a saúde do solo, a saúde humana — e seus lucros futuros”, disse Sarah Starman, ativista sênior de alimentos e agricultura da Friends of the Earth.

A agricultura verdadeiramente regenerativa não pode ser reduzida a práticas isoladas; ela atua em todo o sistema agrícola. Um princípio fundamental da agricultura verdadeiramente regenerativa é a redução drástica de agroquímicos nocivos. Pesquisas mostram que a redução do uso de pesticidas e fertilizantes sintéticos na agricultura convencional não só é possível, como também pode aumentar a produtividade, promovendo insetos benéficos e solos saudáveis, e aumentar a lucratividade, reduzindo os custos dos insumos agrícolas.

Principais descobertas

  • Pelo menos 93% das áreas de milho e soja com plantio direto e plantio mínimo nos EUA usam herbicidas sintéticos, representando uma área do tamanho da Califórnia (99,5 milhões de acres).
  • O uso de herbicidas no plantio direto industrial de milho e soja pode estar associado a 33% do uso anual total de agrotóxicos nos EUA — 129 milhões de um total de 386 milhões de kilos de agrotóxicos.
  • A maior parte do uso (61%) é de herbicidas classificados como altamente perigosos para a saúde humana e/ou o meio ambiente — 78,5 milhões de kilos.
  • Estima-se que o glifosato seja responsável por cerca de 40% do uso total de herbicidas em milho e soja de plantio direto.
  • Pelo menos 11,8 milhões de kilos de herbicidas adicionais são usados ​​anualmente devido ao manejo de plantio direto ou mínimo em milho e soja.
  • Pelo menos 89% dos hectares industriais de milho e soja com plantio direto ou mínimo dependem de sementes geneticamente modificadas para serem tolerantes a herbicidas.
  • Revestimentos de sementes neonicotinoides são usados ​​em até 100% da área de milho convencional sem plantio direto.
  • Insumos baseados em combustíveis fósseis para cultivo industrial de milho e soja com plantio direto ou mínimo, na forma de pesticidas e fertilizantes sintéticos, podem ser associados a ~49,3 milhões de toneladas métricas de emissões equivalentes de CO2.
  • A produção industrial sem plantio direto não aumenta o carbono do solo e, em alguns casos, pode reduzi-lo.

Fonte: Sustainable Pulse

Agrotóxicos, antibióticos, medicamentos para animais: o coquetel químico que está vazando nos rios do Reino Unido

Um estudo dos rios de Yorkshire está ajudando os cientistas a entender o impacto que os poluentes diários têm nas vias navegáveis ​​– e os resultados são preocupantes

Um homem agachado na margem de um rio que corre por uma área arborizada.

O professor Alistair Boxall, às margens do Rio Foss. Ele lidera a pesquisa sobre os efeitos de produtos químicos nos rios de Yorkshire.

Por Phoebe Weston para o “The Guardian”

Os rios transportam mais do que apenas água pelas paisagens britânicas. Um coquetel oculto de substâncias químicas vaza das terras agrícolas, passa despercebido pelas estações de tratamento de esgoto e escoa das estradas para os rios do país. Normalmente, essas substâncias químicas fluem por ecossistemas não reportados, reestruturando-os silenciosamente, mas agora, cientistas britânicos estão mapeando o que está lá dentro – e os danos que pode estar causando.

Percorrendo o centro da Grã-Bretanha, há um rio cuja composição química os cientistas conhecem melhor do que qualquer outro. O Foss serpenteia pelas plantações florestais de North Yorkshire, terras aráveis ​​fragmentadas e pequenos vilarejos, antes de descer para a cidade de York , passando por estradas e estacionamentos, e jardins substituindo terras agrícolas. Ao longo de seus 32 km de extensão, as impressões digitais químicas da vida moderna se acumulam. 

Um homem está em um laboratório segurando um frasco de vidro marrom com uma tampa branca.

O professor Alistair Boxall em seu laboratório na Universidade de York, onde analisa amostras de água do Rio Foss da cidade.

“O Foss é o rio que mais compreendemos”, afirma o professor Alistair Boxall, da Universidade de York, que lidera a pesquisa nos rios de Yorkshire. Ele lidera o projeto de pesquisa Ecomix , que estuda 10 rios da região, desenvolvendo maneiras de examinar esses produtos químicos com mais profundidade do que nunca. “Este é o pulso químico da água de Yorkshire”, afirma, e as descobertas com a água daqui provavelmente serão replicadas em todo o país. “As pessoas ficam surpresas. Geralmente pensam em plásticos e esgoto. As pessoas não fazem a conexão entre os produtos químicos que usamos e o meio ambiente.”

A história que esses rios contam é preocupante, diz Boxall. Entre os milhares de produtos químicos detectados estava o aditivo para pneus 6PPD-quinona, que tem sido associado à mortandade em massa de salmões nos EUA. Em áreas urbanas de Sheffield, Leeds e Wakefield, ele foi encontrado em cerca de três quartos das amostras. Fungicidas e herbicidas estavam entre os produtos químicos mais detectados.

Cerca de 500 agrotóxicos – incluindo inseticidas, fungicidas e herbicidas – estão aprovados para uso na Europa, e 600 receberam sinal verde para uso veterinário em gado e animais de estimação. Pesquisas mostram que os níveis de anti-histamínicos na água aumentam quando a rinite alérgica está grave – um dos muitos fármacos que acabam nos rios após serem jogados no vaso sanitário.

O monitoramento do Foss começou em Stillington Mill, no quintal de um antigo diretor de escola. Ele é um dos voluntários que tornaram esta pesquisa possível – seja coletando amostras ou permitindo que o monitoramento fosse feito em suas terras. 

Um riacho corre até uma ponte perto da qual é possível ver uma casa e um carro amarelo.

A pesquisa foi possível graças a voluntários que coletaram amostras ou permitiram o monitoramento em suas terras.

Este local fica a cerca de 16 quilômetros da nascente do Foss. Campos de trigo e colza se estendem até a água, vindos do outro lado do rio. Três mil substâncias químicas foram detectadas aqui (das quais 40% provavelmente ocorrem naturalmente). Na análise direcionada, os cientistas identificaram 40 substâncias químicas, incluindo medicamentos para gado, produtos farmacêuticos, filtros UV, fungicidas e herbicidas.

No total, eles procuraram 52 produtos químicos (excluindo metais) e encontraram 44 nos três locais de amostragem no Foss. Eles escolheram se concentrar nesses produtos químicos porque são conhecidos por sua toxicidade e potencial dano aos organismos aquáticos.

Ao chegar ao centro da cidade de York – a cerca de 16 quilômetros de distância –, 1.000 produtos químicos adicionais foram adicionados ao rio, incluindo produtos químicos domésticos, como antibióticos e cosméticos, à medida que o rio passa das áreas agrícolas para vilas e cidades. Nos arredores de York, em New Earswick, Boxall documentou o segundo nível mais alto de paracetamol na água já medido na Europa, após uma falha no sistema de esgoto. O nível era 1.000 vezes maior que o normal. 

Um rio banhado pelo sol passa por prédios e por baixo de uma ponte.

Quando o Foss chega ao centro da cidade de York, na foto, 4.000 produtos químicos foram adicionados à sua água.

No laboratório

No laboratório de Boxall, um conjunto de criaturas que ele chama de “pequenos bichinhos” vive em aquários – uma pequena coleção de animais que inclui mexilhões-pato, mexilhões-cisne, caracóis-carneiros, vermes-de-sangue e sanguessugas, coletados nos lagos ao redor do campus. Essas são espécies comumente encontradas em rios do Reino Unido. Doze culturas de cianobactérias – algas verde-azuladas – são sifonadas, cada uma com um tom de verde ligeiramente diferente. “As algas são a base da cadeia alimentar”, diz ele. Aqui, os invertebrados e as algas são expostos a diferentes substâncias químicas, e os cientistas monitoram os efeitos.

Este é o outro foco da pesquisa da Ecomix : trabalhar para entender os efeitos que os produtos químicos estão tendo na ecologia dos rios britânicos. Uma em cada 10 espécies de água doce e de zonas úmidas na Inglaterra está ameaçada de extinção. Boxall acredita que a poluição química pode ser tão prejudicial para os ecossistemas fluviais quanto os vazamentos de esgoto, que frequentemente aparecem nas manchetes.

Amostras de garrafas com água verde e amarela.

O estudo resultou na coleta de 20.000 amostras de 19 locais.

Pesquisadores descobriram que a poluição química faz uma contribuição “significativa” para o declínio de peixes e outros organismos aquáticos, algo que muitas vezes passa despercebido pelos reguladores.

Mais de 350.000 produtos químicos estão registrados para produção e uso, com cerca de 2.000 novos adicionados a cada ano. Eles provavelmente estão tendo uma série de efeitos negativos desconhecidos na ecologia de nossos rios – alterando o comportamento e a fisiologia dos organismos. Os produtos químicos demonstraram ter um impacto diverso nos peixes, incluindo sua reprodução, interações sociais e comportamento alimentar. Estudos sugerem que o ibuprofeno pode afetar a eclosão dos peixes , o anti-inflamatório diclofenaco afeta o fígado dos peixes e os antidepressivos têm sido associados a uma série de mudanças comportamentais Salmões expostos a medicamentos ansiolíticos demonstraram correr mais riscos, e alguns tratamentos contra pulgas, como o imidacloprido, são tóxicos para invertebrados como efêmeras e libélulas.

“Você tem efetivamente uma situação em que alguns produtos químicos estão atingindo a base da cadeia alimentar, outros estão atingindo os invertebrados e outros produtos químicos estão atingindo os peixes”, diz Boxall.

O estudo da Ecomix é muito mais abrangente do que a modelagem química da Agência Ambiental, que se concentra principalmente em “amostras aleatórias” ou, na melhor das hipóteses, em monitoramento mensal. O estudo da Boxall analisou 19 locais em 10 rios ao longo de um ano de monitoramento contínuo, durante o qual 20.000 amostras foram coletadas.

Um homem está em um laboratório segurando um frasco de amostra.

O estudo Ecomix da Boxall monitorou 10 rios ao longo de um ano.

“A Agência Ambiental não tem recursos suficientes para lidar com essa questão”, disse Rob Collins, do Rivers Trust, que não participou da pesquisa. Ele acrescentou que o controle desses produtos químicos na fonte era fundamental: “Enfrentar esse problema é um desafio social – todos nós estamos envolvidos. Também precisamos de uma regulamentação governamental muito mais rigorosa com produtos químicos mais perigosos.”

“Uma vez que esses produtos químicos entram no meio ambiente, é muito difícil fazer qualquer coisa a respeito. Por exemplo, os Pfas – conhecidos como ‘produtos químicos eternos’ – podem persistir no meio ambiente por mais de 1.000 anos.”

Cientistas cidadãos

Richard Hunt foi um dos doze cientistas cidadãos que tornaram esta pesquisa possível. Os resultados foram “preocupantes”, disse Hunt, que coletou uma amostra semanal no centro de York. O local onde ele estava foi um dos que apresentou o maior nível de produtos químicos – como esperado em uma área urbana. Filtros UV, retardantes de chama, vermífugos, DEET e cocaína estavam entre os elementos presentes na água. “Fiquei pasmo com a quantidade de produtos químicos”, diz Hunt. “Se as pessoas fossem instruídas sobre como poderiam ajudar, elas ajudariam.”

O Santo Graal para lidar com a poluição química é um sistema de monitoramento constante, com relatórios em tempo real, diz Boxall. Ter atualizações em tempo real alertaria as autoridades sobre possíveis problemas de poluição, permitindo que respondessem mais rapidamente, embora a equipe da Agência Ambiental tenha sido instruída a ignorar eventos de poluição de baixo impacto, pois o órgão não dispõe de recursos para investigar.

Um homem agachado ao lado de um rio com uma ponte e edifícios ao fundo. Richard Hunt coleta amostras de água do Foss no Merchant Adventurers’ Hall, no centro de York. As amostras são então analisadas na Universidade de York.

“Os produtos químicos são importantes para a sociedade”, diz Boxall. “Nós nos beneficiamos deles, mas precisamos reduzir seus danos ambientais.”

Hunt ressalta que a riqueza de sua cidade vinha de seus dois rios – o Ouse e seu afluente, o Foss. Entender quais produtos químicos fluem por eles e descobrir o que podemos fazer para limpá-los seria pagar uma dívida de gratidão. “York não seria tão saudável e próspera se não fossem os rios. Precisamos ter mais respeito por eles.”


Fonte: The Guardian

Sangue, suor e agrotóxicos: relatório no Reino Unido aponta presença de agrotóxicos em produtos menstruais

Por Pesticide Action Network UK 

Agrotóxicos em produtos menstruais

Produtos menstruais podem conter agrotóxicos e outras substâncias nocivas, como metais pesados ​​e PFAS (substâncias químicas permanentes). Metade da população mundial menstrua, com mulheres, meninas usando, em média, 11.000 produtos menstruais descartáveis ​​ao longo da vida. Apesar do uso prolífico desses produtos, os potenciais impactos à saúde dos produtos químicos que eles podem conter permanecem em grande parte desconhecidos.

O Reino Unido carece de uma estrutura regulatória robusta para garantir que os produtos menstruais sejam seguros para uso. Como isso afeta os consumidores e os produtores de algodão em todo o mundo, visto que o algodão é um ingrediente principal tanto em produtos menstruais descartáveis ​​(DUOs) de uso único quanto em reutilizáveis?

Nosso relatório Sangue, Suor e Agrotóxicos , publicado em colaboração com a Wen (Rede Ambiental de Mulheres), analisa mais detalhadamente os produtos químicos tóxicos presentes em produtos menstruais.

Testando absorventes internos do Reino Unido

Em 2024, realizamos nossos próprios testes em caixas de absorventes internos de lojas e supermercados do Reino Unido. Testamos apenas 15 caixas de absorventes internos de lojas e supermercados do Reino Unido para detectar traços de agrotóxicos. Apesar dos testes em uma escala muito pequena, encontramos glifosato em absorventes internos contidos em uma das caixas em níveis 40 vezes maiores do que o permitido na água potável. O glifosato é o herbicida mais usado no mundo. Em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) o declarou um “provável carcinógeno”, o que significa que está ligado ao câncer. Há também evidências crescentes que conectam o glifosato a outras condições graves de saúde, como o Parkinson .

Dada a preocupação global com o impacto do glifosato na saúde humana, encontrá-lo em absorventes internos é particularmente alarmante. Ao contrário da ingestão por meio de alimentos ou água, os produtos químicos absorvidos pela vagina entram diretamente na corrente sanguínea, ignorando os sistemas de desintoxicação do corpo e, portanto, representando um risco significativo à saúde.

Uma amostra de tampões continha glifosato em 40 vezes o nível permitido na água potável

Outros produtos químicos em produtos menstruais

Embora relativamente pouca pesquisa tenha sido realizada, estudos anteriores demonstraram que produtos menstruais também podem conter uma variedade de outros produtos químicos. Entre eles, estão ftalatos, dioxinas, compostos orgânicos voláteis (COVs), substâncias perfluoroalquílicas e polifluoroalquílicas (conhecidas como “PFAS” ou “produtos químicos eternos”) e metais pesados, como chumbo e arsênio. Esses produtos químicos têm sido associados ao aumento do risco de doenças reprodutivas e hormonais, como endometriose, infertilidade e câncer.

O que precisa mudar?

O Governo do Reino Unido deve introduzir uma regulamentação rigorosa para produtos menstruais, com um sistema de testes em vigor para garantir que estejam livres de resíduos químicos. O Governo deve exigir que os fabricantes divulguem todos os ingredientes e aditivos presentes em produtos menstruais para que as consumidoras possam tomar decisões informadas.

Considerando que os jovens são particularmente vulneráveis ​​aos impactos dos produtos químicos na saúde, o relatório também pede que o programa gratuito de produtos menstruais do governo do Reino Unido nas escolas troque imediatamente a distribuição de absorventes internos e externos tradicionais por seus equivalentes orgânicos e reutilizáveis ​​sustentáveis, como calcinhas menstruais e coletores vaginais.

As questões relacionadas à menstruação não podem ser abordadas isoladamente: é por isso que nos juntamos a Wen em seu apelo por uma Lei de Saúde Menstrual, Dignidade e Sustentabilidade para enfrentar os desafios ambientais, sociais e de saúde relacionados ao acesso e à segurança dos produtos menstruais.

A cadeia de abastecimento do algodão

Muitos produtos menstruais, como absorventes internos e externos, começam sua vida como uma planta de algodão. A maior parte do algodão do mundo é cultivada em fazendas convencionais (com apenas cerca de 1% do algodão global sendo cultivado organicamente) e é frequentemente chamada de “a cultura mais suja” do mundo .

Aproximadamente 300 pesticidas são utilizados na produção de algodão em todo o mundo, sendo cerca de um terço deles classificados como Agrotóxicos Altamente Perigosos (PAPs) , incluindo o glifosato. Os PAPs podem ter impactos prejudiciais à saúde humana. Embora alguns sejam extremamente tóxicos, ameaçando a saúde de quem os utiliza, outros têm sido associados ao desenvolvimento de doenças crônicas, como o câncer. Muitos dos PAPs utilizados na produção de algodão representam um grande risco ao meio ambiente, prejudicando polinizadores e outros animais selvagens ou contaminando a água e o solo em regiões onde o algodão é cultivado.

Os produtores de algodão estão sendo expostos a agrotóxicos em níveis preocupantes. Os agricultores do hemisfério sul, em particular, frequentemente trabalham em ambientes com pouco ou nenhum equipamento de proteção. Muitas produtoras de algodão são mulheres, que enfrentam os riscos à saúde de trabalhar com pesticidas tanto na fazenda quanto em casa diariamente.

Tomar medidas para eliminar agrotóxicos e outros produtos químicos nocivos dos produtos menstruais seria uma grande vitória. Não apenas para nós que dependemos desses produtos, mas também para as comunidades e o ambiente natural onde o algodão é produzido.


Fonte: Pesticide Action Network UK

Nefastos à saúde reprodutiva, agrotóxicos põem em risco as futuras gerações

Revisão de estudos feitos no Brasil de 1980 a 2023 sobre os impactos desses venenos mostra aumento de casos de câncer de mama, próstata, malformações congênitas e leucemia, que afeta mais as crianças e jovens. Situação é pior em áreas dominadas pelo agronegócio

Fonte: Acervo Agência Brasil

Por Cida de Oliveira

Os agrotóxicos estão no cordão umbilical, no leite materno e na origem de boa parte dos nascimentos prematuros, malformações congênitas e abortos espontâneos. E entre as causas do crescimento da incidência de câncer de mama, próstata, testículos e os diversos tipos de leucemias, que afetam mais crianças e adolescentes. Fora outros males igualmente graves. A maioria dos casos está concentrada em áreas dominadas pelo agronegócio, onde as pessoas estão expostas às grandes quantidades de venenos durante o preparo e aplicação no trabalho no campo. Ou mesmo às chuvas de venenos com as pulverizações aéreas de coquetéis desses produtos.

Mas o perigo é real também nas cidades. Os cada vez mais onipresentes agrotóxicos estão em altas concentrações na água de consumo e, principalmente, nos alimentos. Ultrapassam os limites previstos na já frágil legislação permissiva em seu favor. O resumo da ópera é que esta e as futuras gerações estão em sério risco caso o sinal verde para a “passagem da boiada” não for revertido.

O alerta voltou a ser feito nesta semana por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz) e de diversas universidades e instituições de pesquisa sobre o tema, que integram a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). O grupo expôs a gravidade da situação brasileira nesta quinta-feira (22), durante audiência pública realizada pelas comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e de Defesa do Consumidor, na Câmara dos Deputados. Participaram também representantes de entidades, movimentos sociais e do Ministério Público do Trabalho.

Para dar uma ideia da situação no Brasil, os pesquisadores mostraram resultados alarmantes a partir de mais de 60 estudos feitos no país sobre o impacto dos agrotóxicos à saúde reprodutiva, publicados em revistas científicas de 1980 a 2023. Esses dados, aliás, estão compilados no Dossiê Danos dos Agrotóxicos na Saúde Reprodutiva, publicado pela Abrasco e a ENSP, com participação de pesquisadores de diversas universidades públicas e instituições de pesquisa em saúde.

Esses trabalhos mostram que a exposição às substâncias químicas usadas na formulação de inseticidas, herbicidas e outros venenos agrícolas prejudica sobretudo a saúde das mulheres. Isso porque a maioria desses ingredientes está associada principalmente ao desenvolvimento do câncer de mama, o segundo mais incidente no país (10,5% do total) e o mais letal nesse grupo. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), vinculado ao Ministério da Saúde, para este ano são estimados 73,6 mil novos casos da doença em todo o país, com 18 mil mortes.

Além disso, outras evidências levantadas pelos estudos incluem a relação entre os agrotóxicos e o desenvolvimento de lesões no DNA, que levam a uma mutação genética capaz de aumentar o risco para esta e outras doenças igualmente graves.

O elo entre o câncer de mama e os agrotóxicos foi identificado também de maneira indireta, em pesquisas voltadas à saúde perinatal. Ou seja, o ramo que envolve o cuidado com a mulher durante a gestação e após o parto e com o recém-nascido. Um deles encontrou inseticidas organoclorados, banidos em muitos países devido aos efeitos altamente tóxicos e persistência no meio ambiente. É o caso do DDT, HCH, lindano, heptacloro e Aldrin — todos relacionados ao câncer de mama.

Homens

Os estudos analisados mostram também relação entre a exposição aos agrotóxicos e os casos de câncer que afetam os homens. Um deles concluiu que os residentes em áreas com maior venda desses produtos tiveram maior chance de câncer de próstata, testículos e leucemia. Outro mostrou que o risco de mortalidade por mieloma múltiplo e câncer de testículos aumentou entre os trabalhadores agrícolas durante 1979 e 1988.

As pesquisas destacam um aumento significativo no dano ao DNA em indivíduos expostos, quando comparados com grupos não expostos. Segundo os pesquisadores, a relação entre a exposição aos agrotóxicos e danos genéticos é uma conclusão comum em todos os artigos, independentes dos objetivos da pesquisa. Além disso, testes envolvendo trabalhadores da agricultura mostraram composição do esperma mais pobre, com níveis mais baixos de LH (hormônio luteinizante) na produção de espermatozoides, quando comparado com jovens das áreas urbanas. O resultado está associado principalmente à exposição a agrotóxicos ao longo da vida, especialmente herbicidas e fungicidas.

Infantojuvenil

Casos de câncer pediátrico dobraram graças aos agrotóxicos. Crédito: Wikimedia Commons/ Wilfredor

Dos estudos compilados no dossiê da Abrasco, 19 associam os agrotóxicos a danos na saúde infantil, especialmente leucemia linfoide aguda (LLA) e leucemia mieloide aguda (LMA), os tipos de câncer mais comuns entre crianças e adolescentes até 19 anos. Segundo o Inca, a previsão é de 7,9 mil casos novos por ano. Mas a incidência vem aumentando. Segundo dados do DataSus, foram registrados no Brasil 17.123 casos em crianças e jovens até 19 anos em 2021. O número é 208% maior que os 5.557 registros em 2013. 

 Uma das pesquisas mostra que a exposição intraútero durante atividades agrícolas ocasionou um risco duas vezes maior de LLA e LMA em menores de dois anos. Ou seja, crianças e jovens adoecem devido à exposição de suas mães a esses produtos ainda grávidas.

Há também estudos demonstrando que variantes de genes metabolizadores de agrotóxicos influenciam o risco de desenvolver leucemia linfoblástica aguda na infância. Isso reforça que crianças geneticamente predispostas teriam maior risco de leucemias quando expostas a agrotóxicos, cigarro, álcool, solventes, entre outros.

O dossiê inclui também estudos que buscam mensurar o risco de ocorrência de malformações congênitas e as mortes devido às suas complicações. Anomalias cardiovasculares e do sistema nervoso central foram as mais avaliadas. Mas um ponto em comum em todos os estudos é a constatação do aumento do risco para estas malformações, seja na análise por região consumidora de agrotóxicos ou pela avaliação da exposição dos pais aos venenos.

Além disso, segundo a Abrasco, análises das taxas de malformações em diferentes décadas permitem constatar que o aumento da exposição populacional aos agrotóxicos está diretamente ligado ao aumento na incidência de casos, que dobraram de 2004 para cá.

Não menos grave é a contaminação do leite materno, especialmente por agrotóxicos organoclorados. Altamente tóxicos, foram os mais encontrados no alimento para os bebês, respondendo por quase 60% do total das amostras de sangue periférico e do cordão umbilical.

Ainda segundo o dossiê, a infertilidade masculina e feminina pela exposição a diversos agrotóxicos já foi estudada e comprovada. No entanto, não é devidamente observada nos serviços de saúde, ações de vigilância e na atenção básica e média complexidades. Em geral, o tema passa batido entre profissionais de saúde, que não questionam quanto a possíveis exposições das pessoas a esses produtos. Tampouco é realizada a busca ativa entre grupos vulneráveis.

Doenças e mortes em áreas do agronegócio

Oásis no deserto da pesquisa sobre impactos dos agrotóxicos no estado campeão do consumo no país, a Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) tornou-se referência. Foi parceira da Fiocruz no estudo que espantou a todos por detectar pela primeira vez os venenos no leite materno, na década de 2010. E segue pesquisando os impactos da contaminação na população e no meio ambiente regional. Professora na instituição e integrante da relatoria do dossiê Abrasco, Marcia Leopoldina Montanari Corrêa esteve na audiência e trouxe dados estarrecedores: aumento de casos e de mortes devido ao câncer infantojuvenil e de uma epidemia de abortos espontâneos em seu estado.

“Na última década a mortalidade por câncer infanto juvenil aumentou mais de 70% no estado, mas varia entre as microrregiões, como oeste, onde subiu 132%. A incidência dos casos também aumentou. Nessa mesma região, chegou a 145%; no meio-norte, a 121%”, disse.  “Em regiões agrícolas, as taxas de abortos espontâneos chegam a ser 30% superior. É muito grande a incidência. Quando a gente começa a conversar com a família a partir da vigilância popular percebe que esses casos, que nem chegam aos serviços de saúde, são frequentes e se repetem na vida reprodutiva de cada mulher”, disse.

Para a professora da UFMT, a situação é preocupante em todo o país. E resulta também do que ela chama de cenário regulatório “muito flexível”. Ou seja, a permissividade para o uso e exposição aos agrotóxicos. O Brasil permite altas concentrações de dessas substâncias nos alimentos e na água potável, muito além que os outros países. “Aqui é permitido que o feijão tenha quantidade do inseticida organofosforado malationa 400 vezes maior que o permitido na União Europeia. Na água, o fungicida tebuconazol, que tem impacto na saúde reprodutiva, aparece em quantidade 1800 vezes maior que o permitido na UE”, comparou.

Iniquidade na pesquisa

Pesquisadora da Abrasco e coordenadora adjunta do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos para a saúde reprodutiva, a médica Lia Giraldo da Silva Augusto reforçou o alerta sobre a invisibilidade da questão. “Um tema que continua ocultado da ciência brasileira e das políticas em termos de vigilância e monitoramento na saúde reprodutiva”, disse, durante a audiência pública.

“Muitos desses agrotóxicos, proibidos em outros países, estão entre a maioria dos mais utilizados no Brasil, mesmo causando danos na saúde reprodutiva, como infertilidade, dificuldades na concepção, gestação e desenvolvimento infantojuvenil. E também casos de câncer e alterações hormonais”, disse.

Segundo ela, a revisão dos estudos brasileiros mostrou outro dado muito grave: a iniquidade na pesquisa científica. Ou seja, diferenças na distribuição de laboratórios e falta de incentivos para o conhecimento da situação em todo o país. A maioria da pesquisa, segundo ela, é feita na área urbana. E muitas delas sobre a deriva das pulverizações e contaminação na água.

“A produção científica se concentra no Sudeste, principalmente na Fiocruz, no Rio de Janeiro. Há um vazio de pesquisa, principalmente nas regiões em que os agrotóxicos são mais utilizados, onde faltam também laboratórios. O estado de São Paulo, que concentra estrutura de ciência e tem grande uso de agrotóxicos, publicou apenas 5 estudos em 43 anos sobre os impactos na saúde reprodutiva. A população com mais exposição é negligenciada”.

Lia Giraldo defendeu que o governo federal, por meio do Ministério da Ciência e Tecnologia, incentive pesquisas nesse setor e nessas regiões, proporcionando a estrutura necessária. E que o Ministério da Saúde reformule e coloque em prática uma ferramenta de vigilância das populações expostas, o VSPEA. “Trata-se de um software para receber notificações passivamente. Se tiver notificação, vai para o ministério. Mas não tem investigação. É um modelo que não serve para fazer vigilância no país que é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e a saúde reprodutiva é zero”, disse.

A íntegra da audiência está disponível aqui.

Relatório do governo Trump relaciona produtos químicos, incluindo glifosato e atrazina, com prejuízos à saúde humana nos EUA

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Relatório da MAHA aponta o dedo para os agrotóxicos como causadores de riscos à saúde dos americanos

Por Sutainable Pulse 

O Relatório MAHA – Tornando Nossas Crianças Saudáveis ​​Novamente, foi publicado na quinta-feira (22/05), com foco específico em como produtos químicos tóxicos e alimentos ultraprocessados ​​estão prejudicando a saúde dos americanos. O foco do relatório nos impactos cumulativos das exposições ambientais recebeu amplos elogios de especialistas independentes, muitos dos quais trabalham para proteger a saúde das crianças há décadas.

O Relatório MAHA apoiou a ciência independente padrão-ouro e é o primeiro relatório desse tipo do governo dos EUA a vincular fortemente os produtos químicos tóxicos à “crise de doenças crônicas enfrentada pelas crianças americanas”.

Nenhum país do mundo levou em conta integralmente o fato de que crianças são frequentemente expostas a misturas complexas de substâncias químicas. O rápido avanço da tecnologia de Inteligência Artificial cria novas oportunidades para desenvolver ferramentas que permitam avaliar melhor as exposições ambientais a doenças crônicas em crianças.

O governo dos EUA está comprometido em promover transparência radical e ciência de padrão ouro para melhor compreender os potenciais impactos cumulativos das exposições ambientais. Precisamos compreender e amenizar quaisquer possíveis vínculos entre a exposição química cumulativa e doenças crônicas na infância.

Crianças não são “pequenos adultos” quando se trata de substâncias químicas ambientais. A exposição a essas substâncias pode começar na concepção e continuar ao longo da infância, adolescência e vida adulta, acumulando-se ao longo do tempo. A placenta e o cordão umbilical não funcionam como barreiras impenetráveis; eles podem permitir que centenas de produtos químicos industriais e poluentes cheguem ao feto em desenvolvimento. Uma vez expostas a essas substâncias, diversas características únicas tornam recém-nascidos, crianças e adolescentes particularmente vulneráveis.

Alguns estudos levantaram preocupações sobre possíveis ligações entre alguns desses produtos (agrotóxicos, por exemplo) e efeitos adversos à saúde, especialmente em crianças, mas os estudos em humanos são limitados. Por exemplo, uma seleção de estudos de pesquisa sobre um herbicida (glifosato) observou uma série de possíveis efeitos à saúde, desde distúrbios reprodutivos e de desenvolvimento até cânceres, inflamação hepática e distúrbios metabólicos. Em estudos experimentais com animais e animais selvagens, a exposição a outro herbicida (atrazina) pode causar desregulação endócrina e defeitos congênitos.

O relatório também aborda outros produtos químicos tóxicos, incluindo PFAS, ftalatos e bisfenóis, bem como metais pesados. “O cérebro passa por uma segunda fase de remodelação durante a adolescência, particularmente nas regiões responsáveis ​​pelo controle dos impulsos e pelas emoções. Substâncias neurotóxicas — como solventes e metais pesados ​​— podem ter efeitos duradouros que se estendem muito além da adolescência.”

O Dr. Philip Landrigan, Diretor do Programa de Saúde Pública Global e Bem Comum do Boston College, disse ao E&E News que a “seção do relatório sobre exposições químicas ambientais” apresenta um diagnóstico brilhante do problema.

“O atual arcabouço regulatório deve ser continuamente avaliado para garantir que produtos químicos e outras exposições não interajam e representem uma ameaça à saúde de nossas crianças”, afirma o Relatório da MAHA, ecoando um sentimento que o Dr. Landrigan e outros especialistas em saúde pública vêm repetindo há décadas. Os detalhes sobre como o governo dos EUA planeja atingir essas metas serão divulgados em um relatório posterior, previsto para agosto.

“Este é o primeiro relatório do governo dos EUA a lançar luz sobre os danos à nossa saúde causados ​​pelo herbicida mais utilizado no mundo, o glifosato. Herbicidas à base de glifosato, como o Roundup, já estavam sob os holofotes devido aos bilhões de dólares que a Bayer/Monsanto teve que pagar a vítimas de câncer, e este relatório é mais um prego no caixão dessas empresas que estão conscientemente envenenando nossas crianças”, declarou Henry Rowlands, diretor do The Detox Project e proprietário do programa de certificação Glyphosate Residue Free.

George Kimbrell, Diretor Jurídico do Centro de Segurança Alimentar, continuou: “A necessidade de reformar nosso falido sistema de agricultura industrial para construir um futuro melhor para nossos alimentos é primordial. A comissão MAHA reconhece que o uso excessivo de agrotóxicos no sistema alimentar industrial dos Estados Unidos é uma parte crítica da crise de saúde do país e reconhece as evidências científicas já consolidadas dos danos terríveis que essas toxinas estão causando às crianças, à saúde pública e ao meio ambiente. No entanto, o relatório lamentavelmente não fornece os próximos passos sobre como o governo irá impedir que essa epidemia de saúde continue.

“Muito mais é necessário – e urgentemente – para abordar de forma significativa as crises gêmeas de saúde pública e ambiental que enfrentamos. Proteger a saúde das crianças e construir um sistema alimentar saudável deve superar os lucros das empresas de pesticidas. As políticas e a governança devem ser baseadas em ciência sólida e rejeitar a influência alarmista e de lobby que alega que essas toxinas são necessárias para um sistema alimentar ou economia agrícola saudável. Nossa organização continuará a fiscalizar as agências federais para proteger o interesse público e garantir que os reguladores cumpram seus deveres de proteger a saúde pública e o meio ambiente dessas toxinas perigosas. Para serem significativas, as conclusões do relatório devem se traduzir em ações concretas que realmente promovam um sistema alimentar mais saudável e sustentável para os agricultores e consumidores dos Estados Unidos”, concluiu Kimbrell.

Para ler o Relatório MAHA completo, faça o download aqui .


Fonte: Sustainable Pulse

Observatório dos Agrotóxicos: em um só ato, governo Lula libera mais 74 agrotóxicos e acelera chuva de venenos

Com a publicação nesta 3a feira do Ato nº 17, de 16 de  maio de 2025, o governo Lula liberou mais 74 agrotóxicos em um mercado já repleto de venenos agrícolas.  Com isso, apenas no mês de maio já foram adicionados 94 agrotóxicos, muitos deles velhos conhecidos dos estudos de impactos sobre a saúde humana como o Glifosato, o 2,4-D e o Dicamba. É verdade que nesse ato em específico também foram liberados vários agrotóxicos biológicos, mas este fato não altera qualitativamente o balanço das liberações que continua sendo caracterizada pela liberação de substâncias altamente tóxicas para o ambiente e a saúde humana.

Com essa opção pelo veneno agrícola e os investimentos bilionários na produção de commodities de exportação, enquanto deixa dormente qualquer programa sério de reforma agrária, o governo presidido pelo presidente Lula rasga mais um dos seus compromissos de campanha que era o de iniciar um processo de transição para um modelo agrícola de base ecológica. 

É até provável que na próxima campanha eleitoral,  Lula retorne com suas promessas em prol da transição ecológica e da diminuição da dependência de agrotóxicos da agricultura brasileira. Ele fará isso não porque tenha um compromisso real com essa transição, mas porque a maioria dos brasileiros deseja. Esse desejo coletivo decorre do conhecimento já existente das consequências alarmantes da transformação do Brasil em uma zona de sacrifício ambiental onde são despejados venenos agrícolas banidos em outras partes do mundo, a começar pela Europa de estão vindo parte significativa dos produtos liberados pelo governo Lula.

O que precisa ficar claro com essa opção pelo veneno do governo Lula é que, mais do que nunca, a luta por um modelo agroecológico tem que se tornar uma das principais bandeiras de luta dos que lutam por uma sociedade mais justa no Brasil.  É que a continuidade do modelo agro-exportador, ancorado em agrotóxicos altamente tóxicos, significa adoecimento e morte para a maioria dos brasileiros. 

Coração do algodão no Brasil pulsa sob efeito de agrotóxicos

País se tornou maior exportador das plumas brancas. No Mato Grosso, indígenas relatam os efeitos dos venenos. Rastreabilidade da cadeia é desafio

Coração do algodão no Brasil pulsa sob efeito de agrotóxicos – DW –  15/05/2025

O cultivo de algodão é o segundo que mais consome agrotóxicos por hectare no Brasil, atrás apenas do tabaco, elevando risco de contaminaçãoFoto: jensotte/Pond5/IMAGO 

Por Heloísa Traiano para a Deutsche Welle Brasil

No cerrado mato-grossense, os povos indígenas no município de Sapezal ainda se lembram de quando eram abundantes as águas e as roças. Mas hoje eles contam que o caju do mato, o pequi e as plantas medicinais diminuíram. Chegaram novas pragas às plantações. Vários tipos de abelhas sumiram e, com elas, a diversidade de méis.

Os rios viraram cemitérios de ovos de peixe, e quem bebe arrisca sentir dor de barriga ou diarreia. As aldeias relatam que a piracema, época da reprodução natural dos peixes, sofre quando se pulverizam os agrotóxicos nas crescentes lavouras de algodão ao redor da terra indígena. E afirmam que os abortos espontâneos aumentaram entre as mulheres.

A região da Bacia do Juruena é o coração da ascendente produção brasileira de algodão. As plumas brancas são a segunda commodity que mais consome agrotóxicos por hectare de lavoura no Brasil, atrás apenas do tabaco. Substâncias tóxicas viajam longas distâncias pelos ventos, e a alta concentração exacerba os riscos de intoxicação humana e contaminação de ecossistemas.

“A gente vê vários aviões passando. Eu observo agora que, quando plantamos, as plantas não ficam legais, porque acabam sendo afetadas,” diz Cleide Terena, presidente da associação de mulheres da Terra Indígena Tirecatinga, lar de nove povos indígenas. “A gente deixou de tomar água do rio e passou a comprar da cidade, por medo de beber água envenenada.”

Produto global, efeito local

No município do Sapezal, onde vivem os indígenas que relataram à organização Operação Amazônia Nativa (Opan) sua percepção dos efeitos dos pesticidas, o consumo de agrotóxicos dividido pelo número de habitantes é de 364 litros por ano, e em dois municípios algodoeiros vizinhos ultrapassa os 600 litros anuais, segundo cálculo pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). No Brasil, essa conta dá cerca de 7 litros anuais.

“Os agrotóxicos usados no algodão são potencialmente mais tóxicos à saúde e ao ambiente. Além disso, são utilizados volumes elevados por hectare, e geralmente por pulverização aérea ou terrestre. Portanto, as comunidades em torno estão expostas a riscos maiores de adoecimento”, afirma Marcia Montanari, professora do Instituto de Saúde Coletiva da universidade.

No ano passado, o Brasil foi pela primeira vez o maior exportador de algodão do mundo, e é o terceiro produtor global. Cerca de 70% do algodão brasileiro vai para o mercado externo, e a estimativa é que o país produza 9 milhões de toneladas na safra 2024/2025, das quais 6,2 milhões do Mato Grosso.

Reduzir o uso de agrotóxicos com “vacinas para plantas”?

Num marco zero da cadeia produtiva global, Sapezal tem a maior área algodoeira do estado e está entre os campeões do consumo de agrotóxicos no Brasil. Desde 2017, ano com os dados mais antigos disponíveis no site do Instituto de Defesa Agropecuária do Mato Grosso (Indea), o município ganhou o equivalente a 60 mil campos de futebol em plantações declaradas de algodão.

“Antes, quando a gente passava (pelos arredores da TI Tirecatinga) tinha árvores. Hoje está tudo derrubado, e só tem plantio”, continua Cleide, que viveu seus 42 anos na aldeia Serra Azul. “Só tem mato dentro do território mesmo.”

Quase sempre, o algodão é alternado com produções de soja e milho ou cercado por essas lavouras, que também estão entre as maiores consumidoras de agrotóxicos no Brasil. Cada hectare algodoeiro (ou campo de futebol) consome em média 28 litros de agrotóxicos ao ano, em comparação a 17 para a soja e 7 para o milho.

O uso exacerbado se explica pela alta suscetibilidade do algodão a pragas, inflada pela monocultura intensiva que caracteriza a produção massiva de commodities para exportação. No Brasil, o grande inimigo é o bicudo do algodoeiro, que historicamente devasta plantações e hoje registra um período de surto, tendo atingido em 2024 a maior incidência para o Mato Grosso em 12 anos.

Substâncias proibidas no Brasil

Os mais vulneráveis aos efeitos dos agrotóxicos são os trabalhadores rurais e as comunidades indígenas, que entram em contato direto com os agrotóxicos ou vivem em ecossistemas envenenados ao longo de anos. Segundo Montanari, mesmo baixas quantidades de resíduos tóxicos podem gerar danos reprodutivos, oncológicos, neurológicos e psiquiátricos em casos de exposição prolongada.

Na Bacia do Juruena, os indígenas encontram até as embalagens de agrotóxicos vazias nos rios, segundo os relatos reunidos pela Opan entre 2020 e 2021. À mesma época, oito de nove amostras de plantas medicinais e frutas, colhidas na Terra Indígena Tirecatinga e analisadas no âmbito de um projeto entre a UFMT e a Opan, tinham resíduos de onze agrotóxicos.

Brasilien Baumwollfeld

Brasil é o maior exportador de algodão, com mais de dois terços da produção nacional saindo do Mato Grosso e rodando por cadeias globaisFoto: EVARISTO SA/AFP

“A soberania alimentar e o modelo de sociedade do povo indígena são também afetados”, diz a indigenista Adriana Werneck Regina, co-pesquisadora do projeto. Ela há três décadas registra os relatos de indígenas sobre os impactos do agronegócio na região.

Os cientistas ainda encontraram amostras de algodão, material hospitalar, ataduras, gases, fraldas, absorventes íntimos, tecido de algodão cru e coadores de café contaminados por 28 tipos de agrotóxicos. Dezessete são proibidos na União Europeia (UE), e dois no Brasil – o carbofurano e o carbendazim, associados aos riscos de câncer, problemas neurológicos e má formação de fetos.

Entre 2019 e 2024, houve quase 1,5 mil intoxicações registradas no estado pelo Ministério da Saúde, das quais 45% por agrotóxicos de uso agrícola – entre elas, 3% ligadas à lavoura de algodão.

No entanto, especialistas avaliam que há grande subnotificação dos efeitos adversos à saúde, para a qual contribuem o medo de represálias, legislações frouxas e falta de controle sobre pulverizações aéreas.

“Há grande insuficiência na fiscalização”, diz o procurador Gabriel Martins, do Ministério Público Federal no Mato Grosso (MPF-MT), que recebeu os dados de intoxicações fornecidos pelo Ministério da Saúde. “Vemos uma preocupação quase nula dos produtores e muito baixa da União, do governo estadual e dos municípios, que querem mais produção.”

Soluções da lavoura à vitrine

Outra deficiência está na rastreabilidade de uma cadeia produtiva global e fragmentada. O algodão brasileiro encontra seus principais mercados em China, Vietnã, Bangladesh, Turquia e Paquistão, onde se confeccionam tecidos para lojas de moda no mundo todo, desde o fast fashion até lojas de luxo.

São necessários maiores esforços por varejistas e iniciativas de certificação de produtores algodoeiros, segundo especialistas em sustentabilidade, para rastrear e evitar o uso de substâncias nocivas na ponta inicial da jornada da commodity, mapear riscos a trabalhadores nas lavouras e garantir maior transparência com o consumidor.

“O algodão sustentável é aquele plantado sem uso de veneno e junto com alimentos, o que garante a segurança alimentar de quem planta algodão”, diz Yamê Reis, coordenadora de Design de Moda no Instituto Europeu de Design no Rio de Janeiro, que faz parte da campanha Moda Sem Veneno. “Precisamos de política pública, incentivo fiscal para pequenos produtores e restringir a importação de agrotóxicos.”

Para os defensores da moda sustentável, as soluções para o setor passam ainda pela disseminação entre os consumidores da importância do consumo consciente, o maior uso de fibras recicladas na indústria têxtil e o fortalecimento da agroecologia, que privilegia pequenos produtores e perspectivas de proteção ao meio ambiente.

“Ao contrário da agricultura convencional, algodão agroecológico significa usar fertilizantes orgânicos, não usar inseticidas e fungicidas, diminuir operações mecanizadas e rotacionar culturas”, diz Larissa Roviezzo, consultora em economia circular e sustentabilidade. “Existe uma ideia de que a agricultura familiar é pequena e não pode ser produzida em larga escala, mas isso não é verdade.”

Discussão internacional

Hoje, 82% da produção brasileira é de algodão certificado pela organização Better Cotton Initiative (BCI). O selo é internacionalmente reconhecido por supostamente identificar, para varejistas e consumidores, a produção em conformidade com 28 critérios econômicos, sociais e ambientais.

No Brasil, principal origem do algodão licenciado pela organização, a BCI elabora seu selo com base na certificação Algodão Brasileiro Responsável (ABR), da Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa), e inclui alguns critérios adicionais próprios.

Essa metodologia é alvo de críticos dentro e fora do Brasil, que reclamam da falta de auditoria externa contratada pela BCI e advogam por maior controle quanto ao uso de agrotóxicos.

Em entrevista à DW, a BCI afirmou que o algodão por ela certificado não pode ser chamado de “sustentável”. “O que a gente acredita é que a sustentabilidade não é um destino a que se chega, é algo que a gente almeja”, disse Álvaro Moreira, gerente sênior de parcerias e programas de grandes fazendas. Ele reconhece que o uso de pesticidas segue muito alto no Brasil e é o principal desafio para o setor.

Dentre os critérios da BCI para pesticidas, estão a não utilização de agrotóxicos listados como altamente perigosos e a existência de um plano dos produtores para eliminar até 2028 substâncias definidas como carcinogênicas, mutagênicas ou tóxicas para a reprodução.

Mas, desde 2023, a BCI tem um procedimento para produtores solicitarem o uso, por até três anos, de pesticidas de alto risco ao meio ambiente e à saúde humana. Esse mecanismo vale no Brasil e pode ser pedido na ausência de “alternativas viáveis”, desde que o produtor apresente um plano para a descontinuação gradual.

Em abril do ano passado, a produção de algodão com o selo da BCI foi associada a abusos de direitos à terra e ambientais na Bahia por uma investigação da organização Earthsight. Nos meses seguintes, a BCI relatou que revisões independentes não detectaram infração dos seus parâmetros nas fazendas citadas e que colocou em prática um plano de ação para endereçar desafios na região.

A BCI diz que a certificação também se baseia em dados disponibilizados por produtores e autodeclarações dos pesticidas usados. Por sua vez, a Abrapa afirmou em nota que fazendas certificadas passam por auditorias de terceira parte anualmente e que tem investido em maior rastreabilidade da cadeia produtiva, inclusive com um projeto-piloto que permite ao consumidor acessar com um QR Code as informações sobre as etapas percorridas pelo algodão.


Fonte: Deutsche Welle Brasil

Área que recebeu aplicação de agrotóxicos no Brasil cresceu 1,8% no 1º trimestre de 2025

Entre janeiro e março de 2025, a área impactada pelo uso de agrotóxicos no Brasil cresceu 1,8% em relação ao mesmo período de 2024, totalizando mais de 831 milhões de hectares. Os dados são do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal (Sindiveg), com levantamento realizado pela Kynetec Brasil. A métrica utilizada foi o PAT (Potencial de Área Tratada), que considera tanto o número de aplicações quanto os produtos utilizados simultaneamente no manejo.

O volume de agrotóxicos aplicados avançou 3,4% no trimestre, com os herbicidas representando 42% do total, seguidos por inseticidas (28%), fungicidas (22%), tratamento de sementes (1%) e outras categorias (7%), como adjuvantes, reguladores de crescimento e inoculantes. As culturas mais tratadas foram milho (36%), soja (35%) e algodão (13%), cana-de-açúcar representou apenas 3%.

Apesar da expansão em área e volume, o faturamento do setor dos agrotóxicos caiu 11,1%, somando US$ 6,6 bilhões frente aos US$ 7,4 bilhões do mesmo período em 2024. A retração é atribuída à queda dos preços e à desvalorização do real. 

As regiões com maior participação no mercado foram Mato Grosso e Rondônia (37%), seguidas por BAMATOPIPA (16%), São Paulo e Minas Gerais (14%), Paraná (10%), Mato Grosso do Sul (8%), Goiás e Distrito Federal (8%) e Sul do país (5%).

Em 2024, o Brasil registrou crescimento anual de 12,2% na área tratada com agrotóxicos, superando 2,5 bilhões de hectares. O volume aplicado subiu 13,6%, com destaque para herbicidas (45%). Mesmo assim, o faturamento do ano foi de US\$ 19,9 bilhões, queda de 6,6% em relação a 2023.


Fonte: Agrolink