Governo Lula quebra recorde de liberação de agrotóxicos: 663 novos produtos foram autorizados só em 2024

Tem mais veneno no seu prato: Brasil bate recorde de liberação de agrotóxicos em 2024. Aumento foi de 19% em relação a 2023, quando o país registrou queda no registro de novos produtos 

O Brasil é o país que mais usa agrotóxicos no mundo, com percentual maior do que a China e os Estados Unidos juntos

Por Leonardo Fernandes para o Brasil de Fato

 Brasil bateu recorde de liberação de agrotóxicos em 2024, segundo informações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Foram 663 produtos aprovados, um aumento de 19% em relação a 2023, quando foram liberados 555 produtos. Naquele ano, houve redução no número de liberações. A maioria dos novos produtos aprovados são genéricos de outros agentes já liberados (541). Quinze novas substâncias foram aprovadas, assim como 106 produtos de origem biológica, os chamados “bioinsumos”.   

Para Alan Tygel, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o acréscimo ainda não é consequência da nova lei de agrotóxicos, aprovada e sancionada em 2023 com vetos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), já que a norma não está regulamentada. Ele opina que esses dados refletem a continuidade de um modelo de produção agrícola que ignora os efeitos do uso desses produtos químicos e prioriza a garantia de suas margens de lucro.  

“A curva dos novos registros vem apresentando aumento desde 2016, ano do golpe sobre a presidenta Dilma. Os dados de 2024 mostram apenas que esta tendência não se reverteu no governo Lula, pelo contrário, a estrutura de apoio ao agronegócio e às transnacionais agroquímicas segue firme e forte dentro do Executivo federal. Não estamos vendo ainda os efeitos da nova lei, pois ela ainda não está regulamentada; é apenas a continuidade de uma política de incentivo agronegócio, às exportações de produtos primários e à desindustrialização”, disse o pesquisador e ativista. 

Pedro Vasconcelos, assessor da Fian Brasil, concorda que ainda é cedo para atestar que o recorde na liberação de agrotóxicos tenha a ver com a aprovação da nova lei, mas pondera que a aprovação e sanção da nova legislação fortaleceu o papel do Mapa e enfraqueceu as demais instituições envolvidas no processo de análise e aprovação de novos registros. “A nova lei deu uma segurança jurídica para que o Ministério da Agricultura tenha a palavra final”, critica Vasconcelos. 

A nova lei dos agrotóxicos, além de encurtar os prazos de análises dos produtos, retirou da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) o poder de veto sobre a liberação dessas substâncias, cabendo a essas instituições apenas a classificação de risco dos produtos. Desta forma, a decisão passa a estar concentrada no Ministério da Agricultura, que já se manifestou publicamente contra qualquer medida que vise a redução do uso de agrotóxicos no Brasil

Vasconcelos avalia que os dados de 2024 revelam o tamanho a contradições internas do próprio governo que, embora já tenha se posicionado contra o abuso dessas substâncias, encontra forças contrárias a qualquer movimento no sentido de restringir o uso dos agrotóxicos no Brasil. “A meu ver, esse número de registros é o registro de uma de uma dificuldade muito grande na pauta, a ponto de não assumir de verdade um posicionamento contrário.”

Os pesquisadores alertam que esse modelo de produção agroalimentar tem levado o país à perda de área cultivada de alimentos que não são de interesse do agronegócio, que priorizam commodities para exportação. A situação agrava o quadro de insegurança alimentar no país. “Uma das consequências desta escolha é a alta do preço dos alimentos, já que a soja vem tomando lugar das plantações de comida“, afirma Tygel.  

“Tudo isso faz com que a população sofra os efeitos de um sistema que está destruindo. Está destruindo nossas formas de produção, a gente está comendo comida envenenada, e o nível de produtividade cai a cada momento, graças a esse modelo. É um ciclo. O nível de produtividade cai, as questões climáticas impactam cada vez, então é um modelo muito pouco adaptável, do ponto de vista climático”, avalia Vasconcelos. 

Novos venenos 

Entre as novas substâncias liberadas para uso no Brasil, duas receberam a categoria 2 na classificação toxicológica da Anvisa, como “altamente tóxico”. O Orandis, produto a base de Clorotalonil e Oxatiapiprolim, atua como fungicida e é indicado para pequenas culturas. Já o Miravis é um composto de Clorotalonil e Pidiflumetofem. Também atua como fungicida e é usado em grandes cultivos de soja, milho, algodão e trigo. Ambos são produzidos pela Syngenta. Segundo informações dos fabricantes, a inalação dos produtos pode levar a óbito, além de provocar reações alérgicas e lesões oculares em caso de exposição indevida. 


Evolução da liberação de agrotóxicos no Brasil / Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Sua comida está envenenada  

A liberação massiva de sustâncias químicas para uso agrícola se reflete na qualidade da alimentação dos brasileiros e tem consequências graves à saúde. Os resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para) no ano de 2023, realizado pela Anvisa, revelaram que cerca de 26% dos alimentos consumidos pelos brasileiros possuem resíduos de agrotóxicos no momento do consumo. E desses resíduos, pelo menos cinco possuem restrições e proibições em outros países, incluindo o Carbendazim, que tem uso proibido no Brasil desde 2022.  

Apenas nas amostras de arroz, foram encontrados 25 agrotóxicos tipos diferentes de agrotóxicos. Já no abacaxi, foram identificadas 31 substâncias residuais, entre elas, o glifosato, ingrediente ativo proibido em diversos países da União Europeia, a partir de estudos que o relacionam com a incidência de diversos tipos de cânceres.  

Outro produto que vem sendo utilizado em larga escala e que também foi encontrado em amostras de alimentos, como a goiaba, é o clorpirifós, que está associado a distúrbios neurológicos, malformação de fetos e ocorrências de abortos espontâneos. 

Diante desse panorama, a toxicologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Karen Friedrich reconhece o trabalho técnico da Anvisa, mas aponta limitações. “Um agrotóxico pode causar um problema ou pode não causar nada ou pode causar muito pouco, mas esse coquetel, a chance de isso interagir e potencializar os danos é muito grave”, avalia.   

Edição: Thalita Pires


Fonte: Brasil de Fato

Aves canoras estão sendo dizimidas por Fipronil usado em tratamento contra pulgas em animais de estimação, mostra estudo

Exclusivo: Produto químico usado no tratamento de pulgas e carrapatos de animais de estimação é encontrado em ninhos de chapins-azuis e chapins-reais, matando filhotes 

O fipronil é proibido para uso agrícola no Reino Unido, mas ainda é amplamente usado para impedir que animais de estimação peguem pulgas, acabando nos ninhos de pássaros canoros, como os chapins-azuis. Fotografia: Geoffrey Swaine/Rex/Shutterstock

Por Helena Horton para o “The Guardian”

Um estudo descobriu que filhotes de pássaros canoros estão sendo mortos por altos níveis de pesticidas nos pelos de animais de estimação usados ​​pelos pais para forrar seus ninhos.

Pesquisadores que pesquisaram ninhos em busca do produto químico nocivo encontrado em tratamentos contra pulgas de animais de estimação descobriram que ele estava presente em todos os ninhos. Os cientistas da Universidade de Sussex agora estão pedindo que o governo reavalie urgentemente o risco ambiental dos agrotóxicos usados ​​em tratamentos contra pulgas e carrapatos e considere restringir seu uso.

Cães e gatos são amplamente tratados com inseticidas para prevenir pulgas. Os veterinários geralmente recomendam tratamentos regulares contra pulgas como uma medida preventiva, mesmo quando cães e gatos não têm a praga. Mas os cientistas agora recomendam que os animais não sejam tratados contra pulgas, a menos que realmente as tenham.

Um chapim-real em um galho no invernoUm chapim-real. Nenhum ninho no estudo estava livre de inseticidas, disseram os pesquisadores, o que pode estar tendo consequências devastadoras nas populações de pássaros do Reino Unido. Fotografia: JMP/Abaca/Rex/Shutterstock

Já era amplamente conhecido que os produtos químicos nos tratamentos estavam afetando a vida em rios e córregos depois que animais de estimação nadavam neles, mas a descoberta da contaminação de ninhos de pássaros canoros aumentará a pressão.

Cannelle Tassin de Montaigu, principal autora do artigo de pesquisa, disse: “Nenhum ninho estava livre de inseticidas em nosso estudo, e essa presença significativa de produtos químicos nocivos pode estar tendo consequências devastadoras nas populações de pássaros do Reino Unido.

“Nossa pesquisa mostra que, com base nos produtos químicos detectados, os medicamentos veterinários contra pulgas e carrapatos são a fonte mais provável de contaminação. Realizamos nossa pesquisa quando era seguro fazê-lo, no final da temporada de reprodução, então o problema pode, de fato, ser muito pior. Isso levanta questões sobre o impacto ambiental dos medicamentos veterinários e exige uma avaliação abrangente do risco ambiental dos tratamentos veterinários.”

O estudo, publicado hoje na Science of the Total Environment , mostra que o pelo usado pelos pássaros para construir o revestimento interno de seus ninhos continha produtos químicos usados ​​em tratamentos contra pulgas de animais de estimação, como o fipronil.

Os pesquisadores coletaram 103 ninhos de chapim-azul e chapim-real que foram forrados com pelos, descobrindo que 100% dos ninhos continham fipronil, que é proibido no Reino Unido e na UE para uso agrícola, e 89% continham imidacloprida, que foi proibida na União Europeia como um produto de proteção vegetal em 2018. Ambos ainda são amplamente usados ​​em tratamentos contra pulgas de animais de estimação. O governo do Reino Unido está elaborando planos para uma proibição total de imidacloprida na agricultura, mas não para tratamentos de animais de estimação. Os pesquisadores também detectaram 17 dos 20 inseticidas que estavam testando.

Os cientistas encontraram um número maior de ovos não eclodidos ou filhotes mortos em ninhos onde houve maior incidência de inseticida.

Pesquisas recentes descobriram que esses tratamentos contra pulgas também entram nos rios, matando os animais selvagens, e que os donos de animais de estimação que os utilizam correm o risco de contaminar as mãos com os produtos químicos por pelo menos 28 dias após a aplicação do tratamento.

Sue Morgan, a presidente-executiva da SongBird Survival, disse: “Somos uma nação de amantes de animais de estimação e amantes de pássaros, e é extremamente preocupante ver os níveis alarmantes de agrotóxicos em ninhos de pássaros de medicamentos veterinários. Os donos de animais de estimação ficarão chateados ao saber que, ao tentar fazer a coisa certa para sustentar seus animais de estimação com pulgas e carrapatos, eles podem estar prejudicando nosso ecossistema, resultando em filhotes recém-nascidos mortos e ovos não eclodidos. Como donos de animais de estimação, precisamos ter confiança de que estamos mantendo nossos animais de estimação bem, sem impactos devastadores em nossa vida selvagem.

“Nossos pássaros canoros do Reino Unido estão em crise. Mais da metade dos nossos pássaros canoros do Reino Unido estão ameaçados ou já em declínio, e é por isso que esta última pesquisa mostra a importância de agir o mais rápido possível. Queremos que o governo realize uma avaliação de risco ambiental mais abrangente de medicamentos veterinários.”


Fonte: The Guardian

Falta conhecimento sobre o impacto dos agrotóxicos nas abelhas sem ferrão

As abelhas sem ferrão, conhecidas como meliponíneos, são polinizadores essenciais na América Latina, mas existem poucos estudos sobre como os pesticidas as afetam. Crédito da imagem: Cortesia de Ricardo Ayala para SciDev.Net

Por Daniela Hirschfeld para o SciDev 

[MONTEVÍDEO] Embora exista um número significativo de estudos toxicológicos sobre como os agrotóxicos afetam a abelha comum ( Apis mellifera ), há muito pouca pesquisa sobre seu impacto nas abelhas sem ferrão, conhecidas como meliponíneos, que são polinizadores essenciais na América Latina.

Essa é uma das conclusões de uma revisão bibliográfica realizada por pesquisadores latino-americanos, publicada na revista Science of the Total Environment , que indica que a escassa informação sobre os meliponíneos leva a omissões na regulamentação de agrotóxicos, o que poderia ter consequências significativas. para a biodiversidade e a segurança alimentar na região.

Os meliponíneos – que apresentam diferenças biológicas e comportamentais das abelhas comuns – são o maior grupo de abelhas sociais, com mais de 600 espécies registradas. São também os polinizadores fundamentais nas regiões tropicais e subtropicais e contribuem para a reprodução de muitas espécies de plantas, incluindo culturas economicamente importantes como o cacau, o café e diversas frutas.

Da mesma forma, essas abelhas possuem relevância cultural e econômica para as comunidades nativas e rurais, pois fornecem mel, pólen e própolis para fins nutricionais e de saúde.

Abelhas sem ferrão da espécie Tetragonisca fiebrigi . Crédito da imagem: Cortesia de María Sol Balbuena (Argentina) para SciDev.Net.

No entanto, trabalhos recentes revelaram que, entre 2000 e 2024, foram publicados apenas 144 artigos sobre os efeitos dos agrotóxicos nos meliponíneos. Destes, 90% foram fabricados na América Latina e 80% especificamente no Brasil. Os artigos analisaram apenas 43 espécies das mais de 600 existentes, e cinco espécies representaram quase metade dos dados coletados.

Entre os agrotóxicos, os autores identificaram estudos em 79 dos 3.400 registrados. Ao comparar com a disponibilidade de informações sobre Apis millifera , a revisão encontrou 2.054 artigos apenas sobre o impacto específico dos inseticidas. A quantidade aumenta ao adicionar outros compostos .

“A maioria desses estudos (sobre os efeitos dos agrotóxicos nas abelhas) são realizados nos EUA e na Europa, onde não existem meliponíneos, por isso eles priorizam as abelhas melíferas”, explicou Gherardo Boggo, membro, ao SciDev.Net

Além disso, “os órgãos reguladores de referência mundial, como a Agência de Proteção Ambiental dos EUA e a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, não consideram na sua legislação espécies de abelhas ausentes nos EUA ou na Europa”, acrescentou Diego Vázquez, investigador do Instituto de Investigação Biológica Clemente Estable. (IIBCE) do Uruguai e outro autor do estudo.

Este é um problema especialmente para os países latino-americanos, que seguem as recomendações destas organizações para elaborar a sua legislação. “A variabilidade que existe entre as espécies no grau de toxicidade dos pesticidas pode significar que estamos colocando em risco as abelhas nativas”, sublinhou Vázquez.

“Tal como acontece com as abelhas melíferas, os meliponíneos também enfrentam uma taxa alarmante de perda anual de colónias, como mostra outro estudo da SoLatinA, e uma das principais causas é, sem dúvida, o uso de agrotóxicos”, disse Boggo, também investigador. no Conselho de Pesquisa Agrícola e Análise da Economia Agrária (CREA) da Itália.

“A variabilidade que existe entre as espécies no grau de toxicidade dos pesticidas pode significar que estamos colocando em risco as abelhas nativas.”

Diego Vázquez, pesquisador do Instituto de Pesquisas Biológicas Clemente Estable (IIBCE) do Uruguai

A revisão recente também analisou o tema dos estudos e observou que há uma falta significativa de trabalhos focados na exposição crónica, nos ensaios de campo e nos efeitos subletais.

“Uma avaliação de risco abrangente deve incluir experimentos em nível de colônia e individual, tanto em adultos quanto em larvas, juntamente com a avaliação de efeitos subletais”, menciona o trabalho.

“Na verdade, um aspecto fundamental da biologia social nas abelhas melíferas e nas abelhas sem ferrão é a divisão do trabalho determinada pelo seu estado fisiológico e insumos externos”, acrescenta, indicando que esse aspecto não foi considerado na análise toxicológica.

Favo de mel de abelhas sem ferrão da espécie Tetragonisca angustula . Crédito: Cortesia de Aurora Xolalpa (México) para SciDev.Net

Consultado pelo SciDev.Net , Ciro Invernizzi, pesquisador da Seção de Etologia da Faculdade de Ciências da Universidade da República do Uruguai, destacou a importância deste estudo como um “alerta” sobre o papel que outros polinizadores têm na além das abelhas comuns.

Na sua opinião, durante muito tempo presumiu-se que as abelhas poderiam suplantar qualquer polinizador, mas é cada vez mais importante ter em conta outros polinizadores, tanto outros insetos sociais como solitários, sobre os quais muito pouco se sabe.

Além disso, sublinhou que o facto de o estudo ter sido realizado maioritariamente por especialistas latino-americanos e publicado numa revista de prestígio mostra a contribuição que a ciência regional pode dar. Nesse sentido, destacou também o valioso trabalho da SoLatiNa, que reúne mais de 250 pesquisadores de 16 países da América Latina e de outros países do mundo.

Entre as recomendações que emergem do trabalho, Boggo destacou a importância de aumentar a consciência e o conhecimento do público em geral, dos agricultores e das organizações políticas, fazendo-os compreender o papel vital destes polinizadores. Ele também destacou a necessidade de trabalhar na regulamentação dos agrotóxicos, incluindo os meliponinos na avaliação de risco.

“Na SoLatInA promovemos a cooperação científica multinacional focada na conservação da imensa diversidade de abelhas latino-americanas que nos rodeia e que por vezes as ignoramos”, concluiu Vázquez, que também é membro desta rede.


Fonte: SciDev.net

Embargo chinês afeta 5 empresas exportando soja brasileira por contaminação com agrotóxicos

Especialistas advertem que o uso extensivo de insumos químicos na agricultura é prejudicial à economia do Brasil

Por Leonardo Fernandes para o Brasil de Fato

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) informou, nesta quarta-feira (22), que foi notificado pela Administração-Geral de Aduanas da China (GACC) sobre a detecção de pestes e revestimento de pesticidas na soja exportada por cinco empresas brasileiras ao país asiático. As autoridades chinesas decidiram suspender o embarque do grão brasileiro ao país até que a situação seja esclarecida.

Carregamentos das empresas Cargill Agrícola SA, ADM do Brasil, Terra Roxa Comércio de Cereais, Olam Brasil e C.Vale teriam sido afetados pela medida, de acordo com a Reuters. A agência de notícias noticiou a decisão das autoridades chinesas em 8 de janeiro. O Brasil de Fato entrou em contato as cinco companhias, mas não obteve retorno.  

Para Diana Chaib, economista e pesquisadora das relações sino-brasileiras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a decisão da China de suspender as importações de parte da soja do Brasil pode ser interpretada como “um alerta ao agronegócio brasileiro, principalmente no que diz respeito à necessidade de aprimorar os controles de qualidade e rever práticas relacionadas ao uso de agrotóxicos”. 

“A manutenção e expansão do mercado e comércio chinês dependem do cumprimento rigoroso de padrões sanitários e ambientais exigidos, e isso pode acarretar a necessidade de mudanças significativas nas práticas agrícolas brasileiras”, avalia Chaib. 

Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, lembra que os movimentos de agroecologia alertam há anos sobre a qualidade dos produtos agrícolas brasileiros, baseados na utilização de insumos químicos altamente tóxicos e prejudiciais ao meio ambiente. O ativista critica o modelo do agronegócio brasileiro, baseado em uma economia dependente de países mais desenvolvidos, e de costas para a concretização de uma política nacional de produção de alimentos.  

“Casos como esse não são incomuns, e já afetaram outros produtos, como a laranja, ou a própria carne. A aposta brasileira das últimas décadas em colocar todas as fichas no agronegócio gerou este tipo de dependência, tornando nosso país vulnerável a crises catastróficas caso os grandes importadores resolvam retaliar o Brasil por algum motivo”, afirma Tygel. 

“O que estamos vendo neste caso pode ser de fato um caso de contaminação por agrotóxicos, ou alguma doença, mas também pode ser uma barreira política ou econômica às exportações brasileiras”, avalia o ativista. “Num cenário geopolítico cada vez mais desafiador, a escolha mais estratégica para o país seria adotar um modelo de agricultura soberano, com foco na produção de alimentos saudáveis para o Brasil, e no fortalecimento dos laços com a América Latina e África, diversificando o mercado externo e deixando o país menos vulnerável às crises externas”, conclui Tygel. 

Chaib afirma que o impacto dessa medida poderá ser medido de acordo com o tempo de permanência do embargo, ou mesmo de novas restrições a outros produtos brasileiros. “Isso pode afetar os preços internos da soja no Brasil e aumentar os custos de ração para gado, o que pode tornar a carne bovina do Brasil menos competitiva no mercado internacional”, analisa a economista. “Mas esse impacto no comércio de carne bovina vai depender da extensão e da duração da suspensão de soja que a China praticar”, finaliza.

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, superando China e Estados Unidos juntos. Ao invés de desincentivar o uso desses agentes químicos na produção agrícola, o Estado brasileiro oferece bilhões de reais em isenções fiscais a empresas do mercado de agrotóxicos no país, fomentando sua utilização. Desde 2012, o país conta com um Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara) que, segundo as organizações da sociedade civil, foi desmontado pelos governos anteriores. O Pronara ainda não foi retomado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por resistência do Ministério da Agricultura.

E por que só agora? 

Em entrevista ao Brasil de Fato, a biomédica e pesquisadora da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), Karen Friedrich, chama a atenção para os efeitos nocivos do uso extensivo de agrotóxicos na produção agropecuária, além de todas as evidências de danos à saúde coletiva e ao meio ambiente. E isso pode ter a ver com esses “incidentes” comerciais.  

“Essas substâncias usadas há décadas, elas já vão desenvolvendo as próprias pragas, vão desenvolvendo resistência. É a mesma lógica do antibiótico hospitalar. De tanto usar indiscriminadamente, desenvolveram bactérias super-resistentes. E na agricultura a gente tem essas pragas que estão desenvolvendo resistência”, afirmou a pesquisadora.   

“Então isso não é bom para o agricultor e para o agronegócio. Isso é bom para a fábrica, para a Bayer, Basf, Monsanto, Syngenta etc, que estão querendo manter esse produto no mercado até o último segundo”, disse Friedrich, referindo-se a algumas das empresas produtoras de agentes químicos usados amplamente na agricultura brasileira, e que já são proibidos em diversos outros países por comprovada relação com a incidência de cânceres e distúrbios neurológicos em humanos, além de perigosos para o meio ambiente. A pesquisadora cita o caso da atrazina, um herbicida que há mais de 20 anos tem seu uso proibido em diversos países da União Europeia, e é um dos mais utilizados nas lavouras brasileiras.  

Em nota, o Mapa afirmou que “outras unidades das empresas notificadas seguem exportando normalmente para a China, sendo as suspensões válidas apenas para as 5 unidades oficialmente notificadas”. Portanto, segue o ministério, “os volumes negociados pelo Brasil não serão afetados em função desta suspensão temporária destas 5 unidades notificadas”. 

O ministério afirmou ainda que o monitoramento dos produtos importados é “parte da rotina de fiscalização”, adotados tanto no Brasil como na China. O ministério disse ainda que aguarda os planos de ações que devem ser adotados pelas empresas para evitar novas ocorrências, e declarou ter expectativa de que o embargo seja suspenso brevemente pelas autoridades chinesas.

O Brasil de Fato questionou o ministério sobre o motivo do embargo, ou seja, ‘a contaminação química provenientes de agrotóxicos utilizados nos cultivos de soja pelo agronegócio brasileiro’, mas não obteve resposta. O Mapa se limitou a encaminhar a nota mencionada.  

A reportagem também questionou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que possui uma secretaria dirigida à gestão do comércio exterior, e à Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja); ambos sem retorno. 

A China é o maior consumidor de soja do mundo, concentrando mais de 60% do comércio mundial do grão. Segundo a Administração Geral das Alfândegas chinesa, as importações totais de soja da China em 2024 ultrapassaram os 100 milhões de toneladas, o que representou um aumento de 6,5% em relação a 2023. E a soja brasileira foi responsável por 54% das importações chinesas, seguido dos Estados Unidos, com outros 38%. Do lado brasileiro, dois terços de toda a soja produzida no país é embarcada para o gigante asiático. 

Edição: Martina Medina


Fonte: Brasil de Fato

Uso do glifosato impacta negativamente o desenvolvimento de bebês, aponta estudo

Aumento de agricultores que pulverizam glifosato está correlacionado com queda no peso de bebês no momento do nascimento, mostra estudo

A soja Round-up Ready tolera o herbicida glifosato e levou a um aumento maciço em seu uso. Jim West/Alamy

Por Erik Stokstad para a Science

Bebês em condados rurais dos Estados Unidos que usam glifosato, um herbicida comum nascem um pouco mais cedo e abaixo do peso , segundo um grande estudo. Essas mudanças, embora pequenas em média, podem resultar em deficiências de aprendizagem e um risco aumentado de infecção, relataram pesquisadores na semana passada no Proceedings of the National Academy of Sciences , resultando em mais de US$ 1 bilhão em custos de assistência médica em todo o país a cada ano.

É um estudo “muito convincente e rigoroso”, diz Eyal Frank, um economista ambiental da Universidade de Chicago que não estava envolvido. Para as crianças mais vulneráveis, em grupos historicamente desfavorecidos, o efeito foi significativamente maior. “Essa é a descoberta mais alarmante”, ele diz. Ainda assim, Frank e outros observam que a pesquisa não pode provar que o produto químico conhecido como glifosato é o culpado. Por um lado, o estudo não mediu diretamente a exposição individual ao ingrediente ativo do herbicida.

Mais de 127.000 toneladas de glifosato são pulverizadas em campos dos EUA a cada ano, e a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e outras agências reguladoras dizem que é seguro usar com as devidas precauções. Mas algumas pesquisas sugerem que o glifosato pode interromper os hormônios reprodutivos em animais de laboratório. Em pessoas, um pequeno estudo em 2018 relacionou a exposição ao glifosato a uma gravidez ligeiramente mais curta.

Edward Rubin, economista ambiental da Universidade do Oregon, e o estudante de pós-graduação Emmett Reynier decidiram dar uma olhada ampla no efeito do glifosato. Com a introdução da soja geneticamente modificada para tolerar o glifosato em 1996, os agricultores puderam pulverizar o herbicida sem prejudicar suas plantações. Isso permitiu o controle barato e fácil de todos os tipos de ervas daninhas sem arar, o que corrói o solo. Nos anos seguintes, as plantas de milho e algodão tolerantes ao glifosato também passaram a dominar as terras agrícolas dos EUA.

Para procurar efeitos em bebês, Rubin e Reynier analisaram dados sobre tempo de gestação e peso ao nascer de mais de 10 milhões de bebês nascidos entre 1990 e 2013 em condados rurais. Eles compararam os dados de nascimento com quantidades estimadas de glifosato e outros agroquímicos pulverizados por quilômetro quadrado nos condados, publicados pelo US Geological Survey.

O baixo peso ao nascer é um importante preditor de problemas de saúde, como atraso no desenvolvimento cognitivo, e aumenta o risco de infecção e doenças não transmissíveis, como diabetes e doenças cardiovasculares.

Entre 1990 e 1996, não houve diferença no peso ao nascer ou na duração da gravidez entre os condados, descobriu a equipe. Depois que as culturas biotecnológicas chegaram ao mercado, no entanto, o peso ao nascer começou a cair em condados onde mais culturas biotecnológicas são cultivadas e pulverizadas com glifosato. Em 2005, os bebês nascidos em condados dominados por milho, soja e algodão biotecnológicos pesavam em média cerca de 30 gramas a menos do que aqueles nascidos em condados rurais que cultivam principalmente outros tipos de culturas nas quais o glifosato não é usado. Os bebês também nasceram 1,5 dias antes em lugares onde o glifosato era comum.

A quantidade de dados permitiu que os cientistas descartassem a possibilidade de que mudanças em outros herbicidas e agroquímicos estivessem em ação. Eles também consideraram outras possíveis influências no peso do bebê ao nascer, como o impacto do desemprego.

A mudança média no peso ao nascer — um pouco menos de 1% de declínio — é relativamente pequena. Mas Rubin observa que ela cancela o aumento do peso ao nascer visto em bebês quando suas mães recebem benefícios alimentares do governo que visam melhorar a saúde infantil, um programa que custa bilhões de dólares a cada ano.

Rubin e Reynier também estimaram os custos de saúde ao longo da vida do nascimento prematuro, incluindo cuidados pós-natais, educação especial e menores ganhos na idade adulta. Os custos gerais de saúde da redução média de 0,6% no tempo de gestação associada à exposição ao glifosato chegam a cerca de US$ 1,1 bilhão anualmente. Essa estimativa é “realmente nova e útil”, diz Carly Hyland, cientista de saúde ambiental da Universidade da Califórnia, Berkeley.  

A injustiça ambiental também está em jogo, diz Rubin. Filhos de pais negros ou solteiros tinham mais de 60 vezes mais probabilidade de ter baixo ou muito baixo peso ao nascer, com quase o dobro de redução de peso. “Isso sugere alguns efeitos realmente grandes”, diz Rubin.

Alguns estudos encontraram danos mais severos em outros países. Dois artigos publicados em 2023 encontraram taxas mais altas de mortalidade infantil e câncer infantil em áreas agrícolas no Brasil, onde as taxas de aplicação de glifosato são duas vezes maiores que nos EUA.

Cynthia Curl, cientista de saúde ambiental e epidemiologista da Boise State University, diz que “uma limitação importante” do estudo dos EUA foi sua dependência do uso de glifosato em todo o condado, em vez de dados de exposição individual. “Gosto de ver medições na mãe durante a gravidez”, acrescenta Lynn Goldman, pediatra e epidemiologista da George Washington University.

No entanto, os novos resultados devem preocupar os reguladores, diz Goldman. “A EPA definitivamente precisa analisar isso.” A segurança dos pesticidas aprovados deve ser reavaliada a cada 15 anos; a EPA atrasou sua revisão do glifosato e agora espera concluí-la no ano que vem. No entanto, a administração do presidente Donald Trump pode adiar ainda mais a revisão.

 

Fonte: Science
 

Uso intenso de agrotóxicos provoca crise silenciosa na saúde e meio ambiente no Oeste do Pará

Avanço da soja e do milho expõe populações de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos a problemas de saúde

Os municípios de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos estão entre os dez maiores produtores do estado – Vitor Shimomura/Brasil de Fato

Por Liege Costa para o Brasil de Fato 

oeste do Pará se tornou um dos grandes polos agrícolas do Brasil destacando-se na produção de soja e milho. Os municípios de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos estão entre os dez maiores produtores do estado, mas o uso intenso de agrotóxicos traz consequências.

“A chegada da soja trouxe desenvolvimento econômico para a região, mas a um alto custo”, afirma a Dra. Annelyse Figueiredo, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). “Esses cultivos dependem de agrotóxicos, como o glifosato, que não apenas eliminam ervas daninhas, mas também contaminam o meio ambiente e afetam a saúde humana”, afirmou.

Com o Brasil consolidado como o maior produtor de soja do mundo, a dependência de agrotóxicos cresce, e o glifosato, herbicida amplamente utilizado, torna-se símbolo de um problema que afeta desde o solo até as gerações futuras.

Os números da intoxicação: um alerta para a região

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinam) revelam, que desde os anos 2000, 92 casos de intoxicação aguda por agrotóxicos foram registrados em Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos ao longo de 24 anos. Belterra lidera as notificações, com 54 casos, enquanto Santarém e Mojuí dos Campos registraram 33 e 5 casos, respectivamente. No entanto, o número pode ser apenas a “ponta do iceberg.

“Esses números podem parecer baixos, mas sabemos que para cada caso registrado, outros 50 ficam fora das estatísticas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Isso significa que o problema é muito maior do que os dados mostram”, alerta Annelyse.

O aumento de casos em Belterra, que passou de 5 notificações em 2018 para 44 em 2023, é motivo de preocupação para especialistas. A situação é ainda mais grave quando se observa que mais de 60% das vítimas são jovens com menos de 19 anos, incluindo crianças e até mesmo bebês.

“Na Escola Municipal Vitalina Mota, localizada ao longo da BR-163, cercada por lavouras de soja, alunos e professores sofrem constantemente com os efeitos da pulverização de agrotóxicos. A exposição gera sintomas imediatos, como náuseas, vômitos e tontura, e frequentemente as aulas precisam ser suspensas”, detalha Annelyse.

Impactos crônicos e subagudos: um legado de doenças

Os impactos do uso de agrotóxicos vão além das intoxicações agudas. Pesquisas apontam para o aumento de casos de câncer, doenças neurológicas e malformações congênitas na região.

“Os agrotóxicos contêm substâncias químicas que podem causar mutações celulares, favorecendo o surgimento de diferentes tipos de câncer, como linfomas, leucemias e tumores de mama e próstata”, explica a Dra. Kalysta Borges, médica oncologista e hematologista do Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santarém.

Ela também alerta para os danos de longo prazo: “a exposição crônica pode levar a alterações hormonais, problemas neurológicos, danos ao fígado e rins, além de aumentar os riscos de doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Isso é especialmente perigoso para populações vulneráveis, como crianças, gestantes e idosos”.

Dados do Sistema Único de saúde (SUS) revelam um aumento de 123% nas mortes por neoplasias em Belterra entre 2000 e 2020. O aumento mais alarmante foi de 667% nas mortes por doenças do sistema nervoso no mesmo período.

“Esse aumento não é coincidência. Estamos falando de uma população exposta a agrotóxicos de forma contínua, muitas vezes sem saber. Esses números indicam um problema muito maior e com consequências que ultrapassam gerações”, reforça Annelyse Figueredo.

A visão das lideranças locais

Para Sileuza Barreto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Mojuí dos Campos, os agrotóxicos representam uma ameaça direta à saúde da população e à agricultura familiar.

“Os relatos de câncer, náuseas, dores de cabeça, alergias e problemas na gravidez são constantes. Já identificamos até glifosato na urina de moradores. Isso é muito grave”, denuncia Sileuza.

Ela também aponta para os impactos no meio ambiente: “a pulverização contamina o solo, a água e até as plantações dos pequenos agricultores. Muitas famílias perderam suas produções porque os agrotóxicos atingiram áreas de agricultura familiar. Isso afeta a alimentação, a renda e a qualidade de vida dessas pessoas”.

Apesar das dificuldades, Sileuza acredita na agroecologia como solução: “estamos fortalecendo a agroecologia nas comunidades. Ela é o caminho para uma produção sustentável e para proteger a saúde das pessoas. Nossa salvação é investir em alternativas que respeitem o meio ambiente”.

Deriva técnica e o alcance invisível dos agrotóxicos

A dispersão de agrotóxicos pelo vento ou pela água, conhecida como deriva técnica, é outro problema grave. Mesmo seguindo normas técnicas, é impossível evitar que os produtos químicos atinjam áreas próximas.

“Escolas, comunidades e corpos d’água estão constantemente expostos. A chuva pode carregar os produtos para igarapés, contaminando a água utilizada para consumo ou irrigação. Isso expõe a população a riscos invisíveis e constantes”, explica Annelyse.

A Dra. Kalysta reforça que a deriva amplia os danos: “Os sintomas de intoxicação crônica podem surgir anos depois, como fadiga constante, doenças autoimunes e, em casos graves, câncer. O consumo de água contaminada ou alimentos expostos ao agrotóxico intensifica esses riscos”.

Caminhos para um futuro sustentável

Especialistas e lideranças destacam a necessidade de ações integradas para enfrentar os impactos dos agrotóxicos: 

– Criação de zonas livres de agrotóxicos: Proteger áreas sensíveis, como escolas, comunidades e corpos d’água; 

– Fiscalização rigorosa: Monitorar o uso de agrotóxicos e proibir pulverizações em locais próximos a populações; 

– Incentivo à agroecologia: Promover práticas agrícolas sustentáveis e fomentar a agricultura orgânica; 

– Conscientização da população: Educar sobre os riscos dos agrotóxicos e os direitos de saúde e proteção ambiental; 

– Melhoria no registro e monitoramento: Criar sistemas públicos para rastrear o uso de agrotóxicos na região.

“Precisamos de políticas públicas eficazes e de um esforço coletivo para proteger a saúde das pessoas e o meio ambiente. Sem isso, as consequências serão devastadoras”, alerta Annelyse.

Sileuza conclui com um apelo: “A agroecologia é a nossa esperança. Não é só sobre produzir alimentos, é sobre garantir que as próximas gerações tenham um futuro”.

Um legado para as futuras gerações

Este é um chamado urgente para que políticas públicas, conscientização coletiva e práticas sustentáveis sejam adotadas em defesa da vida e do meio ambiente no oeste do Pará.

A situação na região reflete os desafios de um modelo agrícola centrado na produção de commodities à custa do meio ambiente e da saúde pública.

“Sem uma mudança estrutural, os impactos do uso de agrotóxicos continuarão a se manifestar por gerações, comprometendo o futuro das crianças, das comunidades e do ecossistema da região”, conclui Annelyse.

* Liege Costa é jornalista da Rede de Notícias da Amazônia.


Fonte: Brasil de Fatos

Anvisa alerta: abacaxi e laranja têm agrotóxicos em excesso

 

Imagem: Getty Images/iStockphoto

Por Rudinei Sbalchiero

No dia 11 de dezembro de 2024, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) divulgou os resultados do Para (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos) referente a 2023. Foram avaliadas 3.294 amostras de alimentos, coletadas em 76 cidades brasileiras.

O objetivo do programa é verificar a presença de resíduos de agrotóxicos nos alimentos e identificar possíveis riscos à saúde humana. As amostras são retiradas diretamente das prateleiras de supermercados e submetidas a análises em laboratórios, que utilizam métodos científicos reconhecidos a nível global.

Ao todo, 14 tipos de alimentos foram examinados, representando 31% do consumo de produtos de origem vegetal no Brasil.

  • Abacaxi
  • Alface
  • Alho
  • Arroz
  • Batata-doce
  • Beterraba
  • Cenoura
  • Chuchu
  • Goiaba
  • Laranja
  • Manga
  • Pimentão
  • Tomate
  • Uva

As análises buscaram resíduos de 338 agrotóxicos diferentes, incluindo substâncias nunca autorizadas e aquelas já proibidas no país.

Risco agudo (em 24h após o consumo)

Foram encontradas 22 amostras, representando 0,67% do total, com possível risco à saúde do consumidor. O abacaxi e a laranja se destacaram como as frutas com o maior número de amostras apresentando risco agudo: o abacaxi tinha sete amostras e a laranja, seis.

Risco crônico (ao longo de toda a vida)

Nas avaliações, não foi identificado risco crônico. Para esse tipo de risco, a Anvisa considera tanto os dados atuais quanto os dos últimos dez anos do programa. A análise leva em conta o consumo diário dos alimentos ao longo da vida, incluindo os que contêm agrotóxicos autorizados, mas não monitorados, como a cana-de-açúcar, consumida principalmente como açúcar processado.

Recomendações para minimizar riscos

Não é preciso parar de consumir o que vem do campo. A ingestão das vitaminas e minerais pode ser compensada variando a alimentação por sazonalidade e optando por produtos orgânicos, o que reduz o risco de ingestão de agrotóxicos. Estas substâncias também podem ter seu teor reduzido com a higienização correta dos vegetais, principalmente dos que serão consumidos crus e com a casca.

Lave os alimentos com água corrente para retirar as sujidades e excesso de compostos químicos. Depois faça uma imersão com 1 litro de água e 1 colher (sopa) de água sanitária, deixe por 15 minutos e em seguida enxague bem. Apesar de só ter efeito na parte externa dos vegetais, essa higienização reduz a níveis seguros os microrganismos e formas parasitárias neles encontrados.

O cozimento também ajuda a reduzir os níveis de agrotóxicos, mas não os elimina. O ideal é cozinhar no vapor e com a casca, método que mantém mais minerais do que a cocção por ebulição dos vegetais descascados.

Atualmente já conhecemos quais são os vegetais que sofrem maior ataque de pragas durante o cultivo e por isso recebem maior quantidade de agrotóxico. Já apareceram no topo do ranking em pesquisas anteriores do Para: morango, pepino, mamão, pimentão, goiaba, cenoura, tomate, alface e uva.


Fonte: Floresta Notícias

Drones do veneno: equipamento responde por 94% das contaminações por agrotóxicos no Maranhão

Comunidades rurais afirmam que os drones são usados como ferramenta de perseguição e ataques contra pequenos produtores; especialistas alertam para aumento de casos e falta de fiscalização

drones do veneno

Por Hélen Freitas/ Edição Diego Junqueira para a Repórter Brasil 

“Tanto o drone quanto o avião, toda a volta que faz, passa por cima do lote e da plantação, para você perder a produção e seus animais morrerem”, conta uma agricultora de Açailândia, polo de produção de soja no Maranhão. “Fazem isso para nos forçar a deixar a terra.” 

Comunidades rurais do Maranhão afirmam que drones estão sendo utilizados como instrumento de intimidação e de expulsão de agricultores familiares. As denúncias, porém, não são investigadas, segundo advogados que acompanham os casos.

Dados inéditos obtidos pela Repórter Brasil mostram que 228 comunidades em 35 municípios do estado denunciaram contaminação por agrotóxicos entre janeiro e outubro de 2024. Do total, 214 casos (94%) correspondem a ataques por drones. 

Os dados foram coletados pela Fetaema (Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão), pela Rama (Rede de Agroecologia do Maranhão) e pelo Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia da Universidade Federal do Maranhão. 

As queixas vão desde intoxicações humanas até prejuízos ambientais, como o envenenamento de rios e a morte de animais.

“Se você não estiver prestando atenção, às vezes você nem percebe, a não ser pelo cheiro, que é mais forte porque o drone voa mais baixo [do que os aviões agrícolas]”, afirma a trabalhadora rural de Açailândia, que pede para não ser identificada por temer represálias. 

A cerca de 600 km da capital São Luís, Açailândia tem se consolidado como grande produtor de soja. Em 2024, sediou a “Abertura Nacional do Plantio da Soja 2024/2025”, que ocorreu pela primeira vez no estado, reunindo produtores e autoridades, como o governador Carlos Brandão (PSB). “Queremos informar aos produtores rurais de outros estados que, no Maranhão, eles têm como plantar e colher com apoio do governo”, afirmou o mandatário no evento.

Para a trabalhadora, contudo, a expansão da soja não é sinônimo de progresso. A cada ano que passa, ela diz que mais lotes da reforma agrária são repassados para a monocultura. Quem fica é vigiado e ameaçado de morte e expulsão, principalmente com o uso dos drones, ela diz.

Governador Carlos Brandão (PSD) comemora a abertura da safra da soja em Açailândia, município que vem denunciando ataques pela pulverização de agrotóxicos (Foto: Brunno Carvalho/Divulgação
Governador Carlos Brandão (PSD) comemora a abertura da safra da soja em Açailândia, município que vem denunciando ataques pela pulverização de agrotóxicos (Foto: Brunno Carvalho/Divulgação)

Em São Mateus (MA), município conhecido como a “capital do arroz”, relatos apontam que aviões e drones despejam agrotóxicos nas proximidades de moradias e pequenas plantações. “Eles usam essa estratégia justamente para expulsar as pessoas”, conta outra agricultora, que também não será identificada. “Lá onde eu moro era um lugar de muito peixe, mas com essa pulverização hoje não existe mais“, continua.

Com o crescimento das denúncias, movimentos populares e legisladores locais têm se mobilizado para criar mecanismos de proteção. Nove municípios maranhenses já aprovaram leis que proíbem a pulverização aérea. Além disso, a Rama e organizações ligadas à igreja católica iniciaram uma campanha em abril passado para a criação de um projeto de lei estadual de iniciativa popular contra a prática. 

A reação foi rápida. Um mês depois, um projeto de lei para permitir a pulverização aérea no estado foi protocolado na assembleia legislativa do Maranhão. “Não foi coincidência, foi reação às denúncias”, afirma Diogo Cabral, advogado da Fetaema.

Porém, mesmo que o projeto estadual seja aprovado, continuarão valendo as leis municipais, que são mais restritivas, afirma Cabral. Ele explica que essas normas locais seguem o entendimento do STF de que estados e municípios têm competência legislativa para estabelecer diretrizes de proteção à saúde e ao meio ambiente, como é o caso da aplicação de agrotóxicos.

Falta de fiscalização e punição

As denúncias, porém, não foram comprovadas pelas autoridades. As duas agricultoras ouvidas pela reportagem contam que vídeos e fotos não têm sido suficientes para apontar os responsáveis. “A gente vai buscar ajuda em todos os lugares, mas parece que as portas se fecham, porque ninguém dá importância”, diz uma delas.

Marcos Orellana, relator especial da ONU para tóxicos e direitos humanos, já manifestou preocupação com o uso indiscriminado de agrotóxicos no Brasil. Em 2022, ele enviou uma carta ao governo brasileiro alertando sobre os impactos da pulverização aérea e criticou a ausência de respostas efetivas. Segundo ele, há um padrão de intimidação contra comunidades que denunciam essas práticas, o que amplia a vulnerabilidade dos grupos mais atingidos.

“Essas pulverizações não eram ocorrências isoladas, mas parte de um padrão de ataques repetidos e perseguições contra essas comunidades, que são submetidas a um medo constante e a sofrimento psicológico contínuo”, afirma Orellana.

Em maio do ano passado, a Repórter Brasil publicou uma denúncia de tentativa de intimidação a Diogo Cabral. O advogado da Fetaema havia recebido uma notificação extrajudicial do Sindag (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola) para se retratar ou comprovar, em até 48h, que a pulverização aérea de agrotóxicos no Maranhão prejudica comunidades. A notificação ocorreu após entrevista de Cabral sobre a proibição da pulverização aérea no município de Caxias (MA). 

À Repórter Brasil, o Sindag afirmou na época que buscou esclarecimentos tanto com o advogado popular quanto com a rede de televisão que veiculou a reportagem a fim de buscar a “transparência sobre as informações divulgadas e a verdade sobre os fatos”.

Para Cabral, a falta de uma fiscalização efetiva cria um cenário de impunidade. “O agronegócio quer um Estado máximo para investir e garantir a produção, e um Estado mínimo para fiscalizar e punir quem comete crime ambiental.”

Angela Silva, presidenta da Fetaema, afirma que as análises de amostras para verificar a contaminação de agrotóxicos não acontecem de forma rápida no estado, o que interfere nas denúncias que a organização têm feito. 

“O sentimento das comunidades, assim como o nosso, é de tristeza, de impunidade, de não valorização. A gente denuncia, mas, às vezes, o caso não é levado a sério como deveria”, diz ela, ressaltando que as autoridades desconfiam se as denúncias são verdadeiras.

À Repórter Brasil, o pesquisador da Fiocruz no Ceará Fernando Carneiro afirmou que o aumento de casos no Maranhão mostra que “há pessoas não qualificadas operando os drones e causando contaminações”.

Estudos realizados em outros países mostram que há uma dificuldade em se obter precisão na aplicação. Pesquisa da Chinese Society of Agricultural Engineering revelou que até 55% do volume aplicado pelo drone se espalhou pelo entorno.

Procurado, o governo do Maranhão informou que “atua de forma ativa na mediação de conflitos agrários e na proteção das comunidades rurais” e que encaminha as denúncias sobre uso incorreto de agrotóxicos para órgãos de fiscalização, como a Aged (Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Maranhão), Sema (Secretaria de Estado do Meio Ambiente) e a Superintendência do Ministério da Agricultura no Maranhão.

A Sema declarou que lidera a “fiscalização compartilhada do uso de agrotóxicos, em todas as etapas, desde a aquisição até o descarte adequado das embalagens” e que “tem adotado medidas mais rigorosas e preventivas para assegurar a preservação dos recursos naturais e a qualidade de vida das comunidades”. Jà a Aged declarou que monitora o comércio, uso, armazenamento e transporte das substâncias, assim como realiza atividades de educação quanto ao uso seguro dos agrotóxicos. 

Para o Sindag , os conflitos agrários devem ser investigados e resolvidos pelas autoridades “na melhor forma da lei e do bem-estar das pessoas”. O grupo afirma que, por ser uma  “ferramenta” visível em campo, a aviação agrícola sofre com os estereótipos. 

“A exemplo do que ocorre no Maranhão, onde ela está no centro de uma campanha da Igreja para que seja proibida nos Municípios”, afirma a organização, em referência à campanha da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em torno de um projeto de lei estadual contra a pulverização.

O Sindag diz ainda ser necessária uma fiscalização ampla e constante para que “inocentes não paguem por culpados”. Leia as manifestações na íntegra.

“Eu estou ficando sem condições de contar essa história, porque dói muito, mas ficar calada é pior”, conta, emocionada, a agricultora de Açailândia.

A agricultora de São Mateus afirma ter medo de dar depoimentos sobre a atuação do agronegócio na sua região. Assim como ela, outros vivem com medo de falar e sofrerem mais represálias. “Enquanto eu puder e tiver condição de lutar junto com os demais, eu vou lutar para que chegue o fim da pulverização aérea”, finaliza.


Fonte: Repórter Brasil

SUS gasta R$ 12 bilhões por ano para tratar doenças causadas por agrotóxicos

Estudo revelou que exposição à substância encontrada em centenas de produtos vendidos no país pode desencadear doenças neurodegenerativas

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Por Camila Bezerra para o Jornal GGN

Um estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) apontou que o Sistema Único de Saúde (SUS) gasta, aproximadamente, R$ 12 bilhões por ano para tratar doenças causadas pela exposição a agrotóxicos. 

Em contrapartida, o governo federal torna o prejuízo aos cofres públicos ainda maior ao conceder R$ 10 bilhões em isenções fiscais anualmente para tais indústrias.  

“Estamos discutindo a reforma tributária. Os agrotóxicos têm bilhões de reais em isenção todos os anos. Quando olhamos a relação do que é isento e dos gastos para tratar essas pessoas, podemos até questionar a história de que o agronegócio é líder do Produto Interno Bruto [PIB]. Sabemos que, se botarmos na conta os problemas, eles vão ficar devendo”, afirma  Karen Friedrich,  servidora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrante da Abrasco.

A exposição ao glifosato, usada em centenas de produtos vendidos no país, mesmo em curto prazo, pode causar danos permanentes, como o acúmulo no cérebro. Consequentemente, o usada em centenas de produtos vendidos glifosato pode desencadear processos inflamatórios associados a doenças neurodegenerativas. 

Pesquisadores chamam atenção ainda para o risco que a pulverização aérea, tendo em vista que se trata da prática mais nociva em diversos fatores, pois requer controle da quantidade de agrotóxico dispensada, do vento e temperatura. 

“As condições climáticas do país são muito diversas e mais ainda com o momento de crise e de colapso climático. Então, garantir a segurança é algo antiético. Não é possível dizer que é 100% seguro quando não é. Os mais atingidos são os trabalhadores da agricultura, suas famílias, quem mora nas áreas do entorno e povos e comunidades tradicionais, inclusive de maneira proposital. Além de tudo, o agrotóxico no Brasil também é usado como arma química”, continua a servidora. 

Além da reforma tributária, que assegurou 60% de redução de impostos para agrotóxicos registrados no Ministério da Agricultura, Karen Friedrich também observou o atraso no Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara)

Ainda que o Pronara estivesse previsto para 2014, o programa foi adiado e não saiu do papel até hoje. Há a expectativa de que o programa seja anunciado ainda no primeiro semestre do próximo ano.


Fonte: Jornal GGN

‘Todos os rios do Brasil estão contaminados’, alerta pesquisador sobre uso de agrotóxicos

Estudo divulgado nesta semana pelo governo federal mostra que rio Tocantins contém substância proibida na Europa

tractor sprayAtualmente, mais de 100 agrotóxicos diferentes usam o glifosato em sua composição – PABLO AHARONIAN / AFP

Por Lucas Weber para o Brasil de Fato

Neste final de semana, o governo  federal divulgou o resultado da análise sobre a qualidade do rio Tocantins, após a ameaça de contaminação da água por agrotóxicos, por causa da queda de caminhões que transportavam herbicidas e ácido sulfúrico.

O estudo trouxe alívio ao revelar que os tonéis onde as substâncias estavam armazenadas não se romperam. A tragédia da queda da ponte Juscelino Kubitschek, que ligava Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), em 22 de agosto, portanto, não contaminou o rio.

Mas os dados do governo mostram que já havia a presença na água de agrotóxicos proibido em diversos países do mundo, incluindo a União Europeia. Foi detectado uma concentração de 0,2 microgramas por litro (µg/L) do herbicida 2,4-D, apontado como cancerígeno por agências internacionais, mas amplamente utilizado no Brasil.

“Com as doses, frequências e diversidade de agrotóxicos usados no Brasil, dá para afirmar que todos os rios estão contaminados. Sem nenhuma dúvida. O grau de contaminação é que pode variar”, denuncia Danilo Rheinheimer dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e referência na análise de agrotóxicos em água.

A presença de agrotóxicos na água não é novidade no Brasil. Estudo do ano passado realizado pela Repórter Brasil mostrou que 27 tipos de agrotóxicos foram encontrados na água consumida por parte da população de 210 municípios brasileiros, como São Paulo (SP), Fortaleza (CE) e Campinas (SP).

Os dados surgiram a partir de informações do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde, com testes feitos em 2022.

O agrotóxico 2,4-D, encontrado no rio Tocantins e considerado “normal” pelo estudo do governo federal, é o mesmo usado como componente do chamado “agente laranja”, um desfolhante químico altamente tóxico, usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. A arma química era utilizada pelas tropas estadunidenses para desmatar florestas e impedir que soldados vietnamitas se escondessem na vegetação.

A análise do rio Tocantins, divulgado nesta sexta-feira (27), aconteceu dias após a queda da ponte que matou 10 pessoas, com outras sete ainda desaparecidas. 


Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, sobre o Rio Tocantins, que caiu com grande quantidade de agrotóxicos / AFP

No comunicado com os dados, o governo reconhece que “essa concentração de 2,4-D é considerada normal em rios que atravessam áreas agrícolas, como o rio Tocantins, e, por isso, não foram encontrados indícios de contaminação da água por defensivos agrícolas decorrente do acidente na Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira”.

Mas o professor Rheinheimer contesta a conclusão oficial: “A gente só faz, sempre, um questionamento: se fosse os europeus, a água seria imprópria para consumo pois está acima de 0,1 ug/L. Mas somos brasileiros e daí tudo bem”.

“Valemos menos”

O fato de o Brasil ser mais flexível no uso de agrotóxicos que países da União Europeia (UE) é investigado pela pesquisadora Larissa Bombardi, que já recebeu ameaças por após a publicação de estudos que denunciam a situação. Foi ela quem constatou que, dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil, cinco são proibidos na UE.

“Quando eu olho o fato de que no Brasil o resíduo de glifosato autorizado na água potável é cinco mil vezes maior do que aquele autorizado na União Europeia. Quando eu vejo que o resíduo de malationa no Brasil é 400 vezes maior do que o autorizado na União Europeia, sou obrigada a pensar que, no conjunto das relações internacionais, a população brasileira, latino-americana e africana é tida como sub-humana. Nós valemos menos”, disse ao Brasil de Fato quando lançou o livrAgrotóxicos e Colonialismo Químico, em julho esse ano

“Quando a gente vê por exemplo, casos criminosos de uso de agrotóxicos, vai ver que a substância utilizada foi produzida por justamente por uma dessas empresas sediadas na União Europeia. Fica claro um mecanismo que remete ao período colonial, ou seja, um deslocamento dessa agricultura capitalista, dessa monocultura, que avança sobre áreas de camponeses, de povos originários, utilizando como arma nessa violência dos conflitos fundiários, uma substância que é proibida no território em que ela foi produzida.”

Edição: Rodrigo Durão Coelho


Fonte: Brasil de Fato