Observatório dos Agrotóxicos: na surdina, Ministério da Agricultura passa a controlar exclusivamente o registro de agrotóxicos

Enquanto a população brasileira está sendo distraída pelo show de horrores que está acontecendo no Congresso Nacional em meio à PECda Blindagem e a anistia para os golpistas frustrados de janeiro de 2023, o Ministério da Agricultura, segundo o que foi aprovado no Pacote do Veneno, se tornou a porta exclusiva para os pedidos de registros de novos (velhos) agrotóxicos no Brasil.

É que entrou em vigor na última segunda feira (15.set.2025), as regras apontadas no ATO Nº 40, DE 1º DE SETEMBRO DE 2025 que determinam que todos os pedidos de registro de novos agrotóxicos devem ser protocolados exclusivamente no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).   Com isso, os protocolos que tenham sido enviados diretamente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou ao Ibama  não serão mais considerados válidos, como acontecia antes da promulgação do Pacote do Veneno.

Ainda que com a análise técnica dos pedidos continuará sendo tripartite, envolvendo também a Anvisa, responsável pela área de saúde, e o Ibama, que avalia os impactos ambientais, na prática isso será apenas consultivo, já que caberá ao MAPA que serve primariamente aos interesses do latifúndio agro-exportador e dos fabricantes de venenos agrícolas.

É aquela velha história, o que é ruim sempre pode piorar. Como venho acompanhando mais de perto a questão dos registros de novos agrotóxicos desde 2019 e disponibilizando as informações via o Observatório dos Agrotóxicos, considero que essa mudança trará prejuízos consideráveis à capacidade de controle, que já era baixa, dos impactos ambientais e sobre a saúde humana de uma grande quantidade de substâncias que são sabidamente causadoras de uma série de alterações significativas nos fluxos ambientais, e que acabam atingindo a população brasileira.

A verdade é que com o Pacote do Veneno sendo aplicada na prática, o papel tanto da Anvisa como do Ibama serão meramente decorativos, já que o poder decisório estará totalmente concentrado no MAPA. Assim, poderemos esperar a ampliação do quadro de doenças que já está sendo detectado em todo o território nacional, quadro esse resultante da contaminação das fontes de abastecimento e alimentos.

Considerado particularmente preocupante a falta de dados recentes sobre a contaminação por agrotóxicos da água de abastecimento e dos alimentos que estão sendo consumidos diariamente pelos brasileiros.  Em ambos os casos, a obrigação do governo Lula seria garantir não apenas a ampliação da coleta de dados, mas também da divulgação expedita dos resultados. Mas não é o que está se vendo, e estamos basicamente em um voo cego no que se refere ao processo de contaminação.

A situação é complicada pelo baixo nível de investimento feito nas universidades públicas onde são feitas as pesquisas sobre o processo de contaminação por agrotóxicos. O pior é que as pesquisas que ainda possuem financiamento sempre trazem notícias alarmantes sobre a contaminação em ampla escala de solos, água, alimentos, e até da chuva.  

 

Observatório dos Agrotóxicos: tsunami de venenos avança no governo Lula com a liberação de 43 registros adicionais

O leitor deste blog poderá até achar que é notícia velha, mas não é.  Vinte e quatro horas depois de liberar 42 registros de agrotóxicos do tipo Produto Técnico (a forma concentrada dos produtos), eis que o Diário Oficial da União desta 3a. feira (09/09) trouxe a liberação de mais 43 agrotóxicos, agora na modalidade formulada que é aquela pronta para uso.

O Ato nº 43, de 5 de setembro de 2025 traz um museu de velhas novidades, já que a maioria dos registros liberados serão usados nas culturas de soja e cana de açúcar, que já concentram o uso de agrotóxicos na agricultura brasileira. 

Além disso, outro padrão mantida é a hegemonia das fabricantes chinesas que respondem pela maior da produção dos produtos que tiveram seus registros liberados.  Com isso, temos um aprofundamento da processo de trocas desiguais, já que o preço das commodities agrícolas, a soja por exemplo, tende a ser menor do que a dos agrotóxicos. Como a China é o principal comprador da soja brasileira, e o principal fornecedor de venenos agrícolas usados nessa cultura no Brasil, temos aí um padrão de perdas contínuas para a economia brasileira.

Quanto ao presidente Lula, a manutenção dessa enxurrada de agrotóxicos representa uma quebra do compromisso de que seu governo começaria um giro em prol de um modelo agroecológico e de eliminação da dependência de agrotóxicos para a produção agrícola.

Observatório dos Agrotóxicos: governo Lula libera mais 42 agrotóxicos e mantém marcha do envenenamento

Nesta segunda-feira (08/9), o governo Lula liberou o registro de mais 42 agrotóxicos por meio do Ato No. 41 de 05 de setembro de 2025, mantendo firme a marcha do veneno como ferramenta de primeira hora para a manutenção de um modelo de agricultora fortemente dependente de venenos agrícolas. Todos esses produtos na condição de produto técnico que são a forma concentrada que depois é transformada em produtos formulados que são os que são aplicados nos campos agrícolas.

Como já tem sido acompanhado desde janeiro de 2019, este ato mantém as características de liberar registros de produtos pertencentes a empresas chinesas, confirmando a China como principal fornecedora de agrotóxicos para o Brasil. Essa não é um característica que ocorre ao acaso, na medida em que a China é hoje a principal compradora dos principais produtos da agricultura de exportação brasileira. Além disso, fica patente o padrão de troca desigual entre os produtos brasileiros e chineses, já que os preços das commodities brasileiras estão sujeitas a momentos de queda, enquanto os preços dos agrotóxicos possuem perfil de alta constante.

Por outro lado, está confirmada a opção por agrotóxicos genéricos, muitos proibidos nos países cujas empresas possuem as patentes dos produtos originais. Com isso, aumenta a exposição ambiental e humana a produtos conhecidos por serem causadores de danos sobre a cadeia biótica, alcançando os seres humanos. Um destaque negativo é a aprovação de registros do herbicida Diquat, desenvolvido originalmente pela sino-chinesa Syngenta, que tem sido associado a problemas neurológicos por ser neurotóxico.

Mais essa rodada de aprovações de registros apenas confirmam que o governo Lula não tem feito o esforço necessário para diminuir o uso de agrotóxicos pela agricultura brasileira, o que representa um abandono das promessas eleitorais em prol de um modelo de agricultura menos dependente de venenos.

Dinamarca proibe 23 agrotóxicos fluorados causadores de poluição hídrica: como isso desafia a estrutura regulatória da União Europeia?

Por Erwin Xue para “Agropages” 

A Dinamarca retirou oficialmente a aprovação de 23 agrotóxicos contendo seis produtos químicos ligados a PFAS, enquanto outros 10 estão sob avaliação. Isso representa um desafio à intenção atual da UE de retirar certos agrotóxicos da ampla restrição de PFAS. Essa medida da Dinamarca pode servir como um forte catalisador para outros estados-membros, o que pode pressionar a Comissão Europeia a tomar medidas mais decisivas e coordenadas sobre os agrotóxicos  que contenham PFAS. Do ponto de vista científico, a justificativa por trás da regulamentação é a difusão e a persistência das contaminações por PFAS e TFA. No entanto, a regulamentação levanta preocupações sobre a produção de culturas específicas (como a batata amilácea) e os ganhos dos agricultores no curto prazo, sugerindo que a regulamentação de PFAS precisa considerar todas as questões de forma abrangente: encontrar soluções alternativas práticas; ao mesmo tempo, fornecer fortes medidas de apoio aos agricultores; mais importante ainda, adotar um método preciso de avaliação de riscos; e se esforçar para alcançar um equilíbrio entre a proteção ambiental e o desenvolvimento agrícola sustentável.

A política pioneira de pesticidas PFAS da Dinamarca

Detalhes da proibição

A Agência Dinamarquesa de Proteção Ambiental revogou oficialmente a aprovação de 23  agrotóxicos  específicos. Esses produtos contêm seis substâncias diferentes ligadas ao PFAS: fluazinam, fluopiram, diflufenican, mefentrifluconazol, tau-fluvalinato e flonicamida.

Essas substâncias ativas específicas são identificadas como contribuidores significativos que, de acordo com os dados de vendas da Agência Dinamarquesa de Proteção Ambiental, representam cerca de 5% do total de aplicações de agrotóxicos na Dinamarca, totalizando quase 160 toneladas desse tipo de composto usado na agricultura dinamarquesa. 

A Agência Dinamarquesa de Proteção Ambiental está atualmente avaliando outros 10 agrotóxicos , cuja aprovação também poderá ser revogada, com a decisão final prevista para agosto ou setembro. Caso esses agrotóxicos também sejam proibidos, um total de 33 agrotóxicos serão retirados do mercado dinamarquês devido ao seu potencial de formação de PFA.

Implementação e eliminação gradual

O cronograma para a implementação da proibição varia de acordo com a disponibilidade de alternativas. Para os sete pesticidas para os quais não há alternativas práticas disponíveis, é previsto um período transitório de eliminação gradual de até 15 meses; para os dois pesticidas restantes, para os quais há alternativas prontamente disponíveis, a retirada da aprovação será processada e concluída em um período menor, de 6 meses (2 meses para a cessação das vendas e 4 meses para a cessação do uso).

Tabela 1 Principais pesticidas PFAS proibidos na Dinamarca e cronograma de eliminação gradual

Produto

Categoria

Nome do produto

Nº de registro/tipo de arquivamento

Substância ativa

Fim da  venda

Fim de uso

Nenhuma venda

produto

Quartzo ES

1070-2

diflufenicano

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Lenvyor

19-237

mefentrifluconazol

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Saracen Delta Max

347-37

diflufenicano; florasulam

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Ohayo

352-6

fluazinam

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Diflanil 500 SC

601-1

diflufenicano

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

JURA

613-14

prosulfocarbe; diflufenicano

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Hinode

352-17

flonicamida

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

DALIMO

352-15

fluazinam

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

PURELO

613-16

prosulfocarbe; diflufenicano

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Winby

352-11

fluazinam

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Franzir a testa

352-10

fluazinam

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

LFS flonicamida

318-168

flonicamida

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Valdor Expert (antigo especialista Ronstar)

Para transferência

diflufenicano; 

iodosulfurão-metil-nátrio

Pedido recusado

Pedido recusado

Alternativa

Disponível

Revyona

19-248

mefentrifluconazol

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Otelo OD

18-520

diflufenicano; 

mesosulfurão-metil; iodosulfurão-metil-sódio

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

Nenhuma alternativa

Propulse SE 250

18-597

protioconazol; fluopiram

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Vingança

11-58

fluazinam; azoxistrobina

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Kunshi

352-9

fluazinam; cimoxanil

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Zignal 500 SC (antigo Zignal)

11-35

fluazinam

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Banjo 500 SC

396-34

fluazinam

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Vamos

396-95

fluazinam

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Shirlan Ultra

352-13

fluazinam

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Protetor

623-7

protioconazol; fluopiram

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

Fonte: Agência Dinamarquesa de Proteção Ambiental

Contexto histórico das iniciativas dinamarquesas de redução de agrotóxicos

A Dinamarca lançou seu primeiro plano de ação contra agrotóxicos em 1986, com a meta inicial de reduzir o consumo em 50% até 1997. Diante do fracasso da meta inicial (o uso de agrotóxicos aumentou, na verdade, 2% em vez da redução prevista de 25%), a Dinamarca tomou novas medidas, como a certificação obrigatória de pulverização comercial a partir de 1993 e verificações pontuais regulares de equipamentos de pulverização a partir de 1994.

Os planos de ação subsequentes continuaram a estabelecer objetivos ambiciosos, incluindo a redução do Índice de Frequência de Tratamento (ITF) e o estabelecimento de zonas de proteção livres de pesticidas ao longo de cursos d’água e lagos. Entre 2001 e 2003, o IFT caiu significativamente de 3,1 em 1990-93 para 2,1; uma pesquisa na Dinamarca mostra que o IFT pode ser reduzido ainda mais para 1,4 sem perdas econômicas significativas para os agricultores e o desenvolvimento social.

Tabela 2 Planos de Ação e Objetivos de Agrotóxicos aplicado na Dinamarca

Política/objetivos

Ano de referência/início

Alvo

Progresso atual/status atual

Primeiro Plano de Ação Dinamarquês para Pesticidas

1981-85

25% de redução até 1992; 50% até 1997 (vendas de ingredientes ativos)

Em 1992, houve um aumento de 2%, ao contrário.

Segundo Plano de Ação Dinamarquês para Pesticidas

1990-93

TFI abaixo de 2,0 em 2003

Em 2002, o TFI caiu para 2,04.

Terceiro Plano de Ação Dinamarquês para Pesticidas

2004

TFI abaixo de 1,7 em 2009

O TFI caiu de 3,1 (1990-93) para 2,1 (2001-03).

Estratégia Dinamarquesa de Pesticidas

2011

PLI não superior a 1,96 (com base em dados de vendas), ou seja, redução de 40%.

A meta foi definida, exigindo mais esforços.

Estratégia Dinamarquesa de Pesticidas

2021

PLI definido em 1,43 para 2025 (com base em dados de vendas)

A meta foi definida, exigindo mais esforços.

Acordo Verde da UE/Do Prado ao Prato

2015-2017

O uso de agrotóxicos químicos e o risco de uso diminuirão em 50% até 2030; o uso de pesticidas de alto risco diminuirá em 50%.

Progredindo lentamente, pois a implementação está sendo criticada.

Os planos de ação dinamarqueses para agrotóxicos exibiram suas atualizações políticas ao longo da história. Como seu objetivo inicial não foi alcançado, a Dinamarca introduziu novas medidas, como certificação e inspeção, enquanto a tributação de agrotóxicos passou por uma reforma significativa, que mudou de um imposto único orientado ao preço para uma tributação baseada na carga ambiental, demonstrando a disposição da Dinamarca em aprender com as deficiências políticas do passado com a adaptação de ferramentas políticas para alcançar os resultados ambientais esperados. Esse tipo de governança adaptativa revela que a atual proibição da Dinamarca de PFAS em agrotóxicos não é um caso isolado, mas faz parte de sua estratégia abrangente de gestão química de longo prazo. A experiência da Dinamarca fornece uma referência valiosa para outros estados-membros da UE, tendo enfatizado a importância da avaliação contínua, do aprimoramento de ferramentas políticas e de uma abordagem multifacetada (combinando regulamentação, incentivo econômico e serviço de consultoria), em vez de depender apenas de políticas únicas e estáticas para enfrentar desafios ambientais complexos.

Implicações para a União Europeia (UE): Um potencial catalisador da evolução

Quadro Regulatório de Agrotóxicos da UE

A UE adota um sistema duplo de regulamentação de agrotóxicos : a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) é responsável por avaliar a segurança das substâncias ativas, enquanto cada estado-membro é responsável por avaliar e autorizar a aplicação de produtos finais para proteção de cultivos em seu território; os produtos não devem ser lançados no mercado sem autorização prévia do respectivo estado-membro.

O Regulamento (CE) n.º 1107/2009 constitui a principal estrutura que rege a aplicação de agrotóxicos. Mais importante ainda, o artigo 44.º do Regulamento autoriza explicitamente os Estados-Membros a rever e retirar agrotóxicos caso se comprove que estes já não cumprem os requisitos estabelecidos, como, por exemplo, o requisito do limiar de contaminação das águas subterrâneas.

Dinamarca serve de modelo para outros Estados-Membros

A PAN Europe, uma organização de proteção ambiental, vê a decisão da Dinamarca como ″Um modelo para todos os estados-membros″ e incentiva fortemente a Comissão Europeia a lançar uma proposta rápida para proibir todas as substâncias ativas que contêm TFA em todas as regiões da UE.

A postura positiva da Dinamarca a coloca em posição de liderança na UE no enfrentamento dos riscos agrícolas relacionados aos PFAS. Essa atitude ousada envia um forte sinal a outros Estados-Membros da UE e pode se tornar um importante catalisador para ações semelhantes entre os Estados-Membros da UE. Essa tendência dinâmica indica que o avanço da política ambiental da UE não é inteiramente um processo de cima para baixo da CE, mas também pode ser impulsionado de baixo para cima por Estados-Membros motivados. A ação da Dinamarca está, sem dúvida, “testando as águas”, o que pode levar os Estados-Membros a almejarem alto na formulação de padrões ambientais. No entanto, isso pode, naturalmente, levar à fragmentação das políticas regulatórias, tornando a operação do mercado mais complexa.

Proposta atual de PFAS em toda a UE e isenção de agrotóxicos

Como componente central do Pacto Ecológico Europeu, a UE está comprometida em eliminar gradualmente os produtos químicos PFAS para alcançar um ambiente não tóxico, em linha com sua ambiciosa meta de “poluição zero”. Para cumprir esse compromisso, no início de 2023, uma proposta para a eliminação completa dos PFAS foi apresentada à ECHA.

No entantoum ponto importante de controvérsia é a proposta inesperada das agências reguladoras da UE de retirar substâncias ativas de pesticidas da iniciativa mais ampla de restrição de PFAS . A premissa subjacente à isenção é que essas substâncias já são adequadamente regulamentadas pelas leis de pesticidas existentes. 

Pelo contrário, relatórios como o Toxic Harvest, publicados por organizações ambientais como a PAN Europe, revelam que os ativos ligados aos PFAS estão “passando por brechas no sistema falho de avaliação de agrotóxicos ” para escapar da regulamentação. As organizações ambientais argumentam que a persistência de substâncias ativas e seus metabólitos, como o TFA, e outras propriedades importantes, como o potencial de desregulamentação endócrina, impactos ambientais e toxicidade crônica, não são adequadamente regulamentados ou são subavaliados.

O objetivo de “poluição zero” da UE e o compromisso de eliminar completamente os PFAS estão em contradição direta com a proposta de excluir agrotóxicos da proibição de PFAS. Essa exclusão se baseia na suposição de que os produtos são adequadamente regulamentados pelas leis de agrotóxicos existentes, sendo uma suposição que é diretamente contestada pela proibição dinamarquesa de PFAS e pelas conclusões da PAN Europe. Agrotóxicos  formadores de TFA são aprovados e amplamente utilizados, mas estudos em nível nacional descobriram que os produtos estão excedendo os limites de águas subterrâneas, o que indica a existência de deficiências sistêmicas e inconsistências regulatórias significativas ou pontos cegos em nível da UE, onde diferentes estruturas políticas (por exemplo, REACH para produtos químicos gerais versus Regulamento 1107/2009 para agrotóxicos ) não estão totalmente harmonizadas para lidar com riscos químicos emergentes. Essa situação pode ser atribuída a vários fatores: a complexidade da avaliação de metabólitos persistentes, a dificuldade inerente no monitoramento ambiental de longo prazo ou possivelmente o esforço de lobby da indústria agroquímica. A ação da Dinamarca é uma exposição efetiva da lacuna, o que pode obrigar a UE a conduzir uma reavaliação crítica das isenções de agrotóxicos  na estratégia ampla de restrição de PFAS da UE, de modo a adotar uma abordagem mais consistente e preventiva, aplicável a todos os produtos químicos.

Países da UE afetados

O TFA, como substância de decomposição persistente de agrotóxicos contendo PFAS, foi amplamente detectado em águas superficiais, subterrâneas e potável em vários países da UE, incluindo Suécia, Holanda, Alemanha e Bélgica, sem mencionar a Dinamarca. Além disso, o TFA foi encontrado em alimentos como vinho e cereais na Europa, indicando contaminação generalizada e intersetorial . 

Por exemplo, a Suécia tem reavaliado ativamente sua aprovação de agrotóxicos contendo PFAS, mostrando que as medidas positivas da Dinamarca criaram um efeito cascata direto e prático.

Outra tendência crescente na UE é que os Estados-membros votaram em março de 2025 pela proibição permanente do flufenacete, outro agrotóxicos PFAS. Essa ação, embora direcionada a substâncias específicas, ressalta o crescente impulso na UE para resistir a esses produtos químicos.

Segurança alimentar e impacto econômico

Impacto potencial na produção agrícola

Os produtores agrícolas dinamarqueses dizem que a proibição de PFAS afetará particularmente a produção de batata amilácea, que depende de parte de substâncias proibidas; a batata amilácea é essencial para a indústria alimentícia, sendo amplamente utilizada em vários produtos.

Em termos gerais, de acordo com uma análise da meta de redução de 50% no uso de pesticidas da UE, prevista no Acordo Verde, a perda de produtividade de diversas culturas é previsível, com a produção de cereais e oleaginosas diminuindo em quase 20%, a de tomate italiano e espanhol em 20%, a de azeitona italiana em 30% e o plantio de hortaliças em estufas em 20%. Se as metas do Acordo Verde forem totalmente implementadas, a produção geral diminuirá 12%, de acordo com a previsão dos departamentos de administração agrícola. 

Um declínio tão generalizado na produção pode levar a preços mais altos de alimentos e bens de consumo, resultando em maior dependência da importação de produtos agrícolas e diminuição da exportação de commodities importantes, levantando assim uma preocupação significativa sobre a segurança alimentar de longo prazo da UE.

Embora se espere um declínio geral na produção em toda a UE, estudos mostram uma previsão clara de produção fraca de batata com amido na Dinamarca, tomate na Itália e Espanha, azeitona na Itália, bem como hortaliças cultivadas em estufas. Essa estrutura de produção sugere que o efeito da redução de pesticidas não é distribuído uniformemente entre os setores agrícolas, mas sim concentrado em culturas especializadas, de alto valor ou centralizadas que historicamente dependem fortemente de insumos químicos específicos devido ao seu método de cultivo ou suscetibilidade a pragas. Isso significa que a abordagem única da UE para a redução de agrotóxicos não é muito realista, o que pode causar danos potenciais. As intervenções políticas (proibições, metas de redução) precisam ser cuidadosamente adaptadas aos tipos específicos de culturas, às condições climáticas regionais e às pragas predominantes. Em regiões que dependem fortemente das culturas afetadas, a segurança econômica e alimentar pode ser seriamente afetada, exigindo apoio específico no fornecimento de práticas alternativas, serviço de consultoria robusto e ajuste proativo do mercado para mitigar o impacto adverso.

Impacto econômico sobre os agricultores

De acordo com um relatório, a redução agressiva de agrotóxicos , especialmente em áreas protegidas, pode levar à inviabilidade econômica da agricultura convencional, do cultivo de frutas, vegetais e viticultura, o que resultará em ″perda maciça de produtividade e redução da renda dos agricultores″.

Em relação às terras agrícolas de alto rendimento, espera-se uma redução de aproximadamente 50% na receita; enquanto que, para terras agrícolas de baixa produtividade, a agricultura pode não ser mais economicamente viável a médio prazo. Culturas com alto valor econômico, como batata, colza e diversos vegetais, podem ter que ser interrompidas em muitos casos.

De acordo com dados históricos da Dinamarca, na década de 90 do século passado, o plantio sem pesticidas pode levar a uma perda média de rendimento entre 7% e 50% para diferentes culturas, onde a requeima da batata sozinha pode levar à perda de rendimento da batata em cerca de 38%, enquanto os danos causados ​​por ervas daninhas podem reduzir pela metade o rendimento de sementes de grama.

No entanto, estudos anteriores conduzidos na Dinamarca mostraram que uma redução significativa no uso de pesticidas (por exemplo, redução de 80% na frequência do tratamento) pode gerar uma produção lucrativa de culturas especiais, com menos impacto na lucratividade de fazendas economicamente otimizadas, indicando que a gravidade do impacto econômico depende da quantidade de redução e da adoção de práticas alternativas.

Tabela 3 Impacto projetado da redução de pesticidas na produtividade e na renda do agricultor 

(para as principais culturas na Europa)

Cultura/Indústria

Redução esperada do rendimento

Diminuição esperada da renda

Grãos e oleaginosas

Quase 20%

Não especificado

Tomate na Itália e na Espanha

20%

Não especificado

Azeitona na Itália

30%

Não especificado

Hortaliças em estufa

20%

Não especificado

Programa agrícola da UE (se as metas do Acordo Verde forem amplamente adotadas)

12%

Não especificado

Batata na Dinamarca (histórico)

Aproximadamente 38% (devido à requeima)

15% (Cenário economicamente otimizado)

Sementes de grama na Dinamarca (histórico)

Para ser reduzido pela metade (devido a danos causados ​​por ervas daninhas)

Não especificado

Fazendas de alto rendimento (geral)

Não especificado

Aproximadamente 50%

Fazendas de cultivo (terras agrícolas de baixo rendimento)

Não especificado

Não é mais economicamente viável a médio prazo

Disponibilidade e eficácia de alternativas

O Manejo Integrado de Pragas (MIP) é destacado como a pedra angular da política da UE, que enfatiza uma abordagem holística, incluindo prevenção, monitoramento rigoroso de pragas de insetos, alta priorização do uso de métodos biológicos, físicos e outros métodos não químicos sustentáveis, com o objetivo de reduzir o uso de pesticidas a um nível economicamente viável e ecologicamente razoável.

Até o momento, soluções alternativas não químicas específicas estão disponíveis para responder a diversos desafios agrícolas, incluindo alternativas para o cultivo de batata e o controle de plantas daninhas. Essas soluções alternativas incluem rotação estratégica de culturas, uso de cobertura vegetal, preparo mecânico do solo (por exemplo, capina mecânica) e seleção criteriosa de herbicidas seletivos livres de PFAS. Além disso, tecnologias emergentes, como a capina a laser, estão sendo testadas em países como a Alemanha, a fim de eliminar plantas daninhas sem o uso de produtos químicos.

Em termos de manejo da requeima da batata, existem alternativas além do tratamento químico. Entre elas, estão o uso de cepas microbianas como Bacillus e Pseudomonas como competidores contra bactérias patogênicas, o uso de fungos Trichoderma para formar uma barreira natural, a rotação de culturas, o uso de sementes sadias e devidamente tratadas (por exemplo, tratadas com pó de mostarda ou cinzas ricas em potássio) e também novos produtos biológicos.

Soluções herbicidas não químicas, como a capina a fogo, são amplamente utilizadas em países como Dinamarca e Suécia, mas têm um custo alto e também exigem retratamento frequente para atingir um efeito de controle equivalente ao tratamento químico, o que sugere que, embora existam alternativas, a viabilidade econômica e a eficiência operacional precisam ser melhoradas ainda mais.

A estratégia da UE, do prado ao prato, visa reduzir em 50% o uso de pesticidas químicos até 2030, o que reforça a necessidade de alternativas mais ecológicas. No entanto, quando as variedades e o uso de pesticidas são reduzidos, o impacto na produtividade e na renda do agricultor precisa ser avaliado caso a caso para garantir que a redução de pesticidas não cause consequências catastróficas, mas exija uma transformação fundamental do sistema agrícola. Essa transformação deve envolver a mudança da dependência de insumos químicos para o uso de processos ecológicos e o aumento da biodiversidade para manter a saúde e a produtividade das culturas. Isso requer um maior investimento da UE em MIP e estudos agroecológicos, bem como o fornecimento de treinamento, consultoria e apoio financeiro adequados aos agricultores, a fim de promover a adoção generalizada de soluções alternativas. Isso, em última análise, contribuirá para o aumento da segurança alimentar e da resiliência da agricultura a longo prazo, protegendo, ao mesmo tempo, o meio ambiente e a saúde pública. 

Consenso e controvérsia científica

Embora a comunidade científica venha há décadas alertando sobre a persistência e a potencial toxicidade dos PFAS, a controvérsia em torno da ciência e da política ainda persiste sobre se todos os PFAS devem ser ″completamente proibidos″. 

Os críticos da proibição completa argumentam que os PFAS constituem uma classe química ampla e diversificada, com cerca de 13.000 tipos de substâncias químicas com diferentes propriedades e perfis de risco. Alguns PFAS são considerados necessários para tecnologias-chave (incluindo painéis solares, implantes médicos e componentes de sistemas de energia verde, como turbinas eólicas e sistemas de veículos elétricos), sendo menos bioacumulativos (por exemplo, PFAS de cadeia curta). Os críticos alegam que uma proibição completa, sem distinção, pode levar à adoção de alternativas potencialmente inseguras ou a consequências ambientais inesperadas, como, por exemplo, a perda dos benefícios de certas substâncias PFAS (por exemplo, redução da emissão de gases de efeito estufa ou melhoria da eficiência energética).

Os defensores de uma abordagem mais refinada enfatizam que “a dosagem importa” e “a via de exposição importa”, argumentando que os PFAS devem ser diferenciados com base nas condições reais de aplicação, em parâmetros de saúde específicos e na possibilidade de danos reais, de modo que regulamentações baseadas em risco sejam formuladas, em vez de tratar indiscriminadamente todas as moléculas como inerentemente perigosas.

A proibição na Dinamarca de agrotóxicos PFAS específicos formadores de TFA é uma forte medida preventiva. No entanto, um debate científico mais amplo ressalta a complexidade da regulamentação de toda a categoria de produtos PFAS. Espera-se, eventualmente, que uma abordagem harmonizada da UE inclua uma classificação específica de PFAS baseada em risco, uma proibição priorizada da maioria das substâncias nocivas e persistentes (como substâncias formadoras de TFA) e, ao mesmo tempo, estabeleça um período de transição apropriado ou exclusões específicas para aplicações necessárias para as quais não haja alternativas disponíveis. Enquanto isso, a formulação dessas políticas deve considerar incentivos para encorajar o desenvolvimento inovador de substitutos mais seguros e livres de PFAS, o que promoverá uma transição sustentável, em vez de simplesmente impor proibições. Em conclusão, uma avaliação científica mais refinada e a diferenciação de políticas precisam ser consideradas em nível da UE.


Fonte: Agropage

Agrotóxicos: Perto de completar 30 anos, farra tributária do ICMS terá R$ 1,93 bi de isenção somente em SP 

Valor previsto na lei orçamentária para 2026 é semelhante ao repasse anunciado pelo governo Tarcísio à saúde de 645 municípios paulistas

Pulverização aérea de agrotóxicos em fazenda no interior paulista. Foto: reprodução vídeo YouTube

Cida de Oliveira 

Passou quase despercebida a prorrogação, em julho, do convênio que desde 1997 garante aos fabricantes de agrotóxicos isenção ou descontos de 60% no ICMS. Principal fonte de recursos dos estados, o imposto incide sobre operações relativas à circulação de mercadorias e prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação. A renovação garante ao setor a continuidade de lucros exorbitantes em todo o Brasil até 31 de dezembro de 2027, quando a mamata tributária completará 30 anos. É difícil calcular a perda de arrecadação dos estados brasileiros em todo esse tempo, mas dá para ter uma ideia. Um estudo do grupo de pesquisa em justiça ambiental, alimentos, saberes e sustentabilidade da Universidade do Vale do Taquari (RS), calculou soma da renúncia de todos os estado e Distrito Federal 2017. E atualizou para valores de 2023 com base no IPCA, encontrando perda de R$ 7,05 bilhões.

Em novembro do ano passado, o lobby do veneno agradeceu ao governador de São Paulo, o bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos) por se antecipar em defesa da manutenção do convênio e pedir ao legislativo paulista providências nesse sentido. Foi mais uma ação generosa do gestor aliado ao agro e defensor da manutenção dos privilégios dos seus barões.

Um dos 26 estados, incluindo o Distrito Federal, que isentaram os agrotóxicos de recolher o imposto em operações internas, além da redução de 60% na alíquota de 18% nas operações interestaduais, SP ocupa o segundo estado no ranking do consumo nacional de agrotóxicos. Faz a festa das fábricas, que venderam 98,2 milhões de toneladas desses produtos em 2023, conforme relatório do Ibama. Perdeu apenas para o Mato Grosso, com 165,6 milhões. Com tanto agrotóxico comprado para despejar sobre lavouras de cana, soja e outras, não chega a causar surpresa a presença de 14 tipos deles na chuva em cidades do interior e da capital. A constatação veio de pesquisa da Unicamp divulgada em março, em uma publicação científica estrangeira. Entre os venenos encontrados estava a atrazina, proibida em diversos países justamente devido aos seus efeitos altamente tóxicos.

Pelas contas da equipe econômica de Tarcísio, a perda paulista com agrotóxicos estará próxima dos R$ 2 bilhões no ano que vem. Mais precisamente R$ 1,93 bi, segundo a Lei de Diretrizes Orçamentárias 2026, aprovada em 1º de julho. Desse total, R$ 1,81 bi vem da redução de 60% na base de cálculo. E R$ 121,8 milhões da isenção total do imposto. O total da renúncia com os agrotóxicos está próximo dos R$ 2 bilhões que Tarcísio repassou em junho último à área da saúde dos 645 municípios paulistas desde que tomou posse, em janeiro de 2023. Entre os quais certamente muitos carentes de recursos para tratar intoxicações e doenças causadas por esses produtos à sua população.

Benefícios a perder de vista

Mas há também previsão de perdas com outros setores do agro que elegeu Tarcísio. A lei prevê mais R$ 1,13 milhão para o setor que inclui agricultura e pecuária”. E ainda R$ 902,5 milhões para “agricultura, pecuária e serviços relacionados”. Com isso o estado fica sem arrecadar R$ 3,92 bilhões. Um montante três vezes maior que o R$ 1,3 bi que o mesmo governo repassou neste ano a 145 instituições conveniadas ao SUS na região Metropolitana de São Paulo.

Enquanto fabricantes como Syngenta, Bayer, Basf e outras fazem a festa nos estados, para desespero de muitos governadores, o da Califórnia aprovou mudanças significativas nas leis que afetam essas indústrias, com aumento na alíquota sobre a venda de agrotóxicos e prazos para a reavaliação. E também reforçar a regulamentação dos produtos, programas de segurança e melhorar a eficiência e a transparência do processo de registro.

O ralo de recursos públicos não se limita a isenções e redução de alíquotas do ICMS. Os fabricantes de agrotóxicos se beneficiam também das isenções em impostos e contribuições federais, que foram sendo concedidas a partir da década de 1990: o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o Imposto de Importação (II), Contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e as Contribuição Social dos Programas de Integração Social (PIS) e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep). A alíquota zero dessas contribuições, aliás, impediram os cofres públicos de arrecadar R$ 8,9 bilhões de 2010 a 2017, conforme um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU). Segundo dados divulgados pela Receita Federal com base em informações declaradas pelas empresas sobre créditos tributários decorrentes de benefícios fiscais, de janeiro a agosto de 2024 os agrotóxicos deixaram de pagar mais de R$ 10,7 bilhões em impostos federais. A Syngenta deixou de recolher R$ 4 bilhões, a Bayer R$ 2,11 bilhões e a Basf, R$ 1,87 bi.

Introduzidos a partir da década de 1990, os incentivos fiscais a esses produtos foram sendo ampliados nos anos seguintes. Inclusive nos governos progressistas, com o mesmo argumento dos fabricantes. Ou seja, de que contribuiriam para tornar os alimentos mais baratos. A falácia, aliás, tenta endossar outra balela do setor: o princípio da seletividade e da essencialidade tributária que justificariam todas essas isenções e benefícios.

Distorções

No entanto, a assessora jurídica da organização Terra de Direitos, Jaqueline Andrade, disse ao Blog do Pedlowski que há, na verdade, uma distorção. “São classificados como produtos essenciais, apesar de serem cientificamente e comprovadamente danosos à saúde e ao meio ambiente”, afirma. “Essa classificação é política, tanto que privilegia determinadas parcelas de grupos econômicos e produtivos do país. Especialmente setores do agronegócio extensivo, com um altíssimo custo à coletividade e à população brasileira, ao patrimônio e ao erário público.”

Como exemplo, ela menciona resultado de estudo dos pesquisadores Marcelo Firpo Porto, da Fiocruz, e Wagner Soares, do IBGE, sobre os impactos negativos à economia da saúde: para cada US$ 1 gasto na compra de agrotóxicos, é gerado um custo de até US$ 1,28 com o tratamento apenas das intoxicações agudas causadas por agrotóxicos.

A organização é amicus curiae na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5.553, que tramita desde 2016 no Supremo Tribunal Federal (STF). Apresentada pelo Partido Solidariedade e Liberdade (Psol), a petição questiona a legalidade de pontos do convênio ICMS 100/97 e da legislação do IPI ao beneficiar agrotóxicos. Segundo a advogada, os argumentos para a criação e renovação do convênio já se provaram insustentáveis e falsos. “O censo agropecuário de 2017 mostra que as pequenas propriedades, de até 100 hectares, as maiores em número no Brasil, cultivadas majoritariamente pela agricultura familiar, afirmam gastar até 4,9% das despesas de produção com agrotóxicos. Por outro lado, as grandes propriedades, com mais de 500 hectares, que representam menos propriedades no Brasil, afirmam gastar mais com agrotóxicos”, ponderou.

Comida, commodities e golpismo

O fato de o Brasil ter 71,2 milhões de hectares plantados, dos quais a soja representa 42%, o milho, 21% e a cana, 13%, conforme estudos da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), é outro aspecto para o qual Jaqueline chama atenção.  “Juntos, estes três cultivos representaram 76% de toda a área plantada do Brasil e foram os que mais consumiram agrotóxicos, correspondendo a 82% de todo o consumo do país em 2015. Paralelamente são as culturas majoritariamente exportadas. Assim, o uso intensivo de agrotóxicos é direcionado para a produção de commodities, não de alimentos”, ressalta.

Em contraposição, como lembra, a produção de alimentos é a menor dependente desses produtos. “O Censo Agropecuário de 2017 mostra que a maioria dos alimentos vem da agricultura familiar. São estes estabelecimentos da agricultura familiar que produzem 69,6% do feijão, 83% da mandioca, 45,6% do milho em grão, 21% do trigo e 38% do café, os quais permanecem no mercado brasileiro para consumo interno da população brasileira. Assim, a tributação dos agrotóxicos impacta quase que de forma insignificante na produção massiva de alimentos no país e no repasse ao consumidor. Impactará grandes proprietários rurais que destinam a produção para exportação e que já são beneficiados por outros incentivos e benefícios no sistema tributário nacional, como é o caso das desonerações para exportações e do financiamento por bancos públicos. É uma escolha que premia poucos, mas impacta muitos.”

Aplicação de agrotóxicos em lavoura de cana, principal cultura do Estado de SP. Foto: Reprodução YouTube

Para além da questão agrícola, a advogada considera os aspectos políticos e ideológicos dos beneficiados pelas isenções aos setores do agronegócio. No caso, a estreita ligação do setor com os financiadores da logística dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. “A relatora Eliziane Gama apontou, por exemplo, o sojicultor Argino Bedin e a Aprosoja — que teve R$ 20 milhões bloqueados — como financiadores de caravanas de caminhões e protestos em Brasília”, lembrou. “Delações, como a de Mauro Cid, também confirmaram que o general Braga Netto buscou recursos junto ao ‘pessoal do agro’ para viabilizar a tentativa de golpe, no custeio de transporte, alimentação e estrutura de acampamentos. Nos resta então perguntar: por que o estado brasileiro beneficiar o agronegócio, ao passo que esse recurso é o mesmo utilizado para a articulação e execução de ações antidemocráticas?”

Justiça social tributária

Advogada e membro do coletivo jurídico Zé Maria do Tomé e da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares, Geovana Patrício acompanha de perto a tramitação da ADI 5.553. Para ela trata-se de uma ação que busca efetivar o princípio da capacidade contributiva e justiça social tributária, segundo a qual quem tem maior capacidade econômica, paga mais. Ou, no caso, paga a tributação regular, tanto que o provimento da ação sequer implica em sobretaxação aos agrotóxicos.

O relator, ministro Edson Fachin, havia marcado julgamento para junho. Mas o cenário inicial não era bom, segundo Geovana Patrício. “Tinha o voto favorável do relator pela procedência, Carmen Lúcia acompanhou, o ministro Gilmar Mendes abriu divergência, pela total improcedência da ação. E foi acompanhado pelo Cristiano Zanin, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes”, lembrou. “André Mendonça abriu uma segunda divergência, reconhecendo, de maneira parcial, a inconstitucionalidade da isenção fiscal. E determinou que União e estados avaliem o benefício e apresentem estudos que justifiquem a continuidade da política. Na opinião dele, os agrotóxicos são danosos e é necessária uma taxação conforme o nível de toxicidade”.

De acordo com a advogada, os assessores jurídicos que assinam a petição do Psol solicitaram a realização de uma audiência pública para aprofundar o debate, o que ocorreu em novembro. (Clique aqui e aqui para conferir a íntegra). O Ministério da Saúde e do Meio Ambiente se manifestaram pela procedência da ação, ao contrário da Agricultura. O que falta, segundo Geovana, é o relator marcar novo julgamento, muito embora o governo federal ainda não tenha apresentado os dados solicitados.

Argumentos e reforma tributária

“A nossa expectativa é que o voto do relator Fachin seja seguido diante de todos os argumentos que foram apresentados em audiência. E que a isenção seja considerada inconstitucional, até porque vai ter um novo debate ano que vem, quando entra em vigor a reforma tributária que colocou na Constituição a redução da alíquota em 60%. A gente considera que isso não é compatível com os preceitos constitucionais. Penso que o relator está avaliando como vai ficar essa questão”.

Em janeiro de 2026 terá início a transição do sistema tributário com vistas à implementação escalonada da reforma, que deverá ser concluída em 2033. Até lá, impostos estaduais, municipais e federais (ICMS,ISS, PIS, COFINS e IPI) deverão ser substituídos pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IS (Imposto Seletivo), com incidência sobre produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. É o caso de cigarros, bebidas alcoólicas e os agrotóxicos. Entretanto, foram novamente agraciados. Vão gozar da redução de 60% na alíquota do IBS. E enquanto isso o governo sanciona, com 11 anos de atraso, o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos. Parece piada.

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Cida de Oliveira é jornalista

A colheita invisível: agrotóxicos, câncer e a crise de saúde no interior do Missouri

Os condados com maior uso de agrotóxicos por quilômetro quadrado estão todos localizados em Bootheel, Missouri. Muitos desses condados têm algumas das maiores taxas de câncer do estado e suas opções de assistência médica estão diminuindo

Um agricultor pulveriza agrotóxicos, que são uma classificação de substâncias utilizadas para proteger as plantações, em 21 de maio de 2025 em Senath, Missouri. Foto de Michael Baniewicz, para o Investigate Midwest 

Unyielding é um projeto da Escola de Jornalismo da Universidade do Missouri para o Investigate Midwest.

Por Alex Cox ,  Adeleine Halsey ,  Kyla Pehr  e  Savvy Sleevar , para Investigate Midwest

KENNETT, MO — Aninhada em Bootheel, Missouri, fica a pequena cidade de Kennett, sede do Condado de Dunklin. Com pouco mais de 10.000 habitantes, é uma comunidade unida onde provocações bem-humoradas são uma demonstração comum de afeto.

Antigamente um grande pântano, hoje é uma extensão de campos planos e férteis, onde a agricultura é a espinha dorsal da economia da região.

As casas de Kennett não ultrapassam um andar e, ao passearem pela rua principal, os visitantes são recebidos por uma mistura de restaurantes, butiques e um aconchegante salão de beleza. Esses prédios são ofuscados por um hospital silencioso e fechado com tábuas, cuja ausência é uma lembrança do que a comunidade perdeu.

É o tipo de comunidade em que, se algo trágico acontece, todos descobrem.

Bobbi Bibbs descobriu isso da maneira mais difícil. Ela descobriu que tinha câncer no cólon em dezembro de 2023, que depois metastatizou para o fígado, tornando-o um diagnóstico de estágio quatro.

Bibbs não está sozinha. O Condado de Dunklin está entre os 10 condados com as maiores taxas desse tipo de câncer no estado. Isso não é apenas uma estatística; Bibbs disse que consegue ver e quase não consegue compreender.

“Há tantos (casos) de onde viemos”, disse Bibbs. “Tipo, tem que estar vindo de algum lugar.”

Bibbs está cercada de pessoas que entendem suas dificuldades, muitas das quais trabalham na indústria agrícola. No Condado de Dunklin, existem centenas de milhares de hectares de plantações — e a maior parte dessas terras está coberta de agrotóxicos.

Estimativas sugerem que milhares de quilos de agrotóxicos são pulverizados em terras agrícolas do Missouri todos os anos. Em alguns lugares, o lodo de esgoto contendo “produtos químicos eternos” — substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas — é  aplicado em terras agrícolas como fertilizante .

Vários estudos científicos exploraram uma conexão entre o uso de agrotóxicos e o câncer, apontando para uma crise silenciosa de saúde pública que atinge particularmente as comunidades rurais.

A Universidade do Missouri (MU), em parceria com a Investigate Midwest, conduziu uma análise condado por condado das taxas de câncer e uso de agrotóxicos, usando os dados mais recentes disponíveis para pesticidas que são repetidamente citados em pesquisas como provavelmente associados ao risco de câncer.

Os seis condados com o maior uso desses agrotóxicos por quilômetro quadrado estão todos localizados em Bootheel, incluindo Dunklin. Quatro desses condados estão entre os 15 com maior índice geral de câncer no Missouri. Todos os condados com as maiores taxas de câncer são rurais.

Então, em Kennett, há altas taxas de uso de produtos químicos, altas taxas de câncer — e o  centro de trauma mais próximo no estado fica a mais de uma hora e meia de distância.

Em outras palavras, é uma típica cidade rural do Missouri.

Colinas verdes e quilos de produtos químicos

Embora o Missouri tenha sua parcela de colinas cobertas por árvores e folhagens selvagens, grande parte da terra é bem desenvolvida para atender às necessidades dos agricultores e suas plantações. Há cerca de 27 milhões de acres de terras agrícolas cultivadas no Missouri e quase 88.000 fazendas, de acordo com o  Centro de Análise de Políticas Agrícolas e Financeiras Rurais .

A maior atividade econômica do estado é a agricultura, empregando cerca de 460.000 pessoas em todo o estado, de acordo com o  Departamento de Agricultura do Missouri . Soja, milho e trigo são algumas das culturas que colorem a maior parte da paisagem do estado.

A agricultura é uma atividade perigosa que exige uma grande quantidade de equipamentos pesados ​​e ferramentas especializadas. Essas ferramentas incluem produtos químicos.

Isain Zapata é um cientista de dados que  pesquisou a relação entre agrotóxicos e a incidência de câncer . Ele analisou misturas complexas de agrotóxicos, adaptadas a culturas específicas, que são pulverizadas em diferentes regiões.

“Quando olhamos para esses agrotóxicos, não se trata apenas de um — é um coquetel”, disse Zapata. “É todo um arco-íris de cores diferentes.”

Ele descobriu que essas combinações coloridas estão fortemente ligadas a certas taxas de câncer em todo o país.

“O linfoma não-Hodgkin e as leucemias estão intimamente associados ao uso de agrotóxicos”, disse Zapata. “Mas também vimos que o uso geral de agrotóxicos tem um efeito sobre todos os outros tipos de câncer não óbvios.”

Outras pesquisas mostram uma associação entre certos pesticidas e um risco aumentado de  câncer de cérebro, próstata ,  mama ,  rins  e cólon.

Agrotóxicos são uma classificação de substâncias usadas para proteger as plantações. Isso inclui matar ervas daninhas, insetos ou até mesmo fortalecer a madeira para evitar que pragas danifiquem a planta. Os agricultores normalmente aplicam agrotóxicos nas plantações usando métodos como pulverização aérea ou equipamentos terrestres.

Os agrotóxicos representam sérios riscos, pois podem prejudicar tanto a saúde humana quanto o meio ambiente. A exposição pode levar a problemas de saúde a curto ou longo prazo, além de contaminar o solo e a água, o que pode perturbar os ecossistemas e afetar a vida selvagem.

Mas os agrotóxicos fazem o que fazem de melhor. Zapata enfatiza que, sem agrotóxicos, as economias baseadas na agricultura e as comunidades a elas vinculadas sofreriam.

“Não sou a favor nem contra agrotóxicos”, disse Zapata. “Sei que precisamos deles. Não gosto deles, mas sei por que precisam estar lá.”

Ele disse que as áreas agrícolas rurais abrigam uma combinação intensa de fatores que multiplicam o nível de risco.

Os agricultores estão sob pressão para manter ou aumentar sua produtividade, e isso tem como custo o uso de compostos que trazem riscos à saúde, disse Zapata. As áreas rurais costumam ser mal atendidas por unidades de saúde, o que significa que muitas vezes há poucos profissionais de saúde e recursos nessas áreas para monitorar e gerenciar o risco adicional do uso de pesticidas.

“É simplesmente a tempestade perfeita”, disse Zapata. “Você combina vários fatores (uso excessivo de pesticidas, regulamentação e monitoramento deficientes, disparidades socioeconômicas) e piora a situação.”

A rodovia de um milhão de acres

Mike Milam é um especialista local em aplicação de agrotóxicos. Baseado em Kennett, ele é especialista de campo em agricultura e meio ambiente na MU Extension, atendendo os condados de Dunklin, New Madrid e Pemiscot.

“Algumas pessoas me disseram, especialmente aquelas que não gostam nem um pouco de produtos químicos, que nossos corpos não foram projetados para respirar esses produtos químicos”, disse Milam. “E elas têm razão.”

O herbicida Roundup é alvo de milhares de processos judiciais alegando que causa câncer, o que o coloca em evidência. Milam listou outros produtos químicos que têm causado preocupação, incluindo paraquate, vydate e dicamba.

Agricultores e trabalhadores contratados para a colheita frequentemente interagem com produtos químicos. Da mistura ao despejo e à pulverização, eles estão presentes em todos os momentos. Eles também se deparam com produtos químicos de outros agricultores quando uma substância pulverizada em uma área se espalha para algum lugar que não deveria.

“Conheci uma situação em que pessoas nos campos foram pulverizadas, ou pulverizaram perto delas, e depois a substância transbordou. E coisas assim”, disse Milam. “Aliás, quando eu estava na pós-graduação, eu estava em um campo na Louisiana, e eles estavam pulverizando bem ao nosso lado. Tivemos que sair do campo.”

A deriva direta ocorre quando um aplicador aplica umagrotóxico e o vento o sopra para outro lugar, tornando o monitoramento das condições climáticas parte integrante do processo. Quanto mais forte o vento, maior o potencial de deriva.

Dito isso, os agricultores têm um prazo limitado para semear e fertilizar seus campos durante a temporada de plantio. As condições climáticas flutuantes podem tornar isso ainda mais difícil. Só nesta primavera, o Bootheel enfrentou tornados,  tempestades de areia  e  inundações históricas , todos com potencial para atrapalhar o trabalho de campo.

“Saímos aqui, plantamos uma safra, ela parece linda, uma enchente a destrói e temos que começar tudo de novo”, disse o senador Jason Bean, republicano de Holcomb, agricultor de Bootheel de quinta geração.

Milam disse que alguns agricultores acabam pulverizando suas plantações quando as condições não são ideais.

“Os agricultores não estão prestando atenção ou simplesmente decidem ir em frente e (se candidatar) de qualquer jeito porque precisam fazer o trabalho”, disse Milam. “Eles estão sob muito estresse, tentando colher as colheitas.”

Jason Mayer, agricultor de quarta geração da Bootheel e um dos diretores da Associação de Soja do Missouri, acredita que, nove em cada dez agricultores estão fazendo a coisa certa. Para ele, são os “maus atores” que vão contra as melhores práticas. Bean compara isso ao excesso de velocidade na rodovia.

Em sua analogia, assim como os motoristas que respeitam o limite de velocidade na estrada, a maioria dos agricultores segue as regras. Assim como sempre haverá aquele motorista ultrapassando todos os outros na faixa da esquerda, haverá agricultores que infringem as regras.

Reguladores agrícolas — como o Departamento de Agricultura do Missouri ou a EPA — atuam como policiais na beira da estrada na metáfora. Eles intervêm quando há suspeita de uso indevido. Os inspetores da Agência de Proteção Ambiental (EPA) podem aparecer a qualquer momento e pedir para ver os registros de um agricultor, disse Milam.

Com milhões de hectares de terras agrícolas no Missouri, essa é uma grande rodovia a ser observada. Portanto, se as agências não flagrarem alguém infringindo as regras, cabe aos fazendeiros locais denunciar seus vizinhos ao órgão estadual de controle de pesticidas.

Bean enfatizou que a aplicação adequada de agrotóxicos não se resume apenas à conformidade, mas também ao melhor interesse do agricultor. O uso indevido desperdiça produtos químicos caros, reduz a eficácia das culturas e diminui a confiança do consumidor nos produtos cultivados localmente.

“Eu diria que somos grandes administradores da terra”, disse Bean. “Vamos continuar assim, porque, no geral, os agricultores querem produzir para o mundo o produto mais seguro e abundante.”

Milam afirmou que a chave é usar os produtos químicos adequadamente para minimizar a exposição. Ele afirmou que usar equipamentos de proteção individual durante a aplicação é uma prática recomendada. Portanto, medidas como usar calças compridas, camisas de manga comprida, máscaras e óculos de proteção são essenciais para o uso seguro.

Bean não acredita que agrotóxicos causem ou aumentem o risco de câncer. Mayer compartilha esse sentimento, enfatizando sua experiência de vida com cultivos e aplicações químicas.

“Hoje, faço 42 anos — graças a Deus —”, disse Mayer. “Ainda sou relativamente jovem, perfeitamente saudável e estou na fazenda desde os 14 anos.”

Esperando em uma sala de espera

Iniciar uma conversa sobre assistência médica em Kennett certamente levará a um tópico: o hospital.

Kennett não tem mais um; o Twin Rivers Regional Medical Center fechou suas portas em 2018.

Para suturas rápidas ou tratamento de infecção, o Pronto-Socorro St. Bernards está aberto todos os dias. Fecha às 19h30, o que significa que os moradores de Kennett precisam ir a outro lugar para receber atendimento noturno.

Há várias opções em condados próximos, ou até mesmo em estados vizinhos, mas se alguém precisar de atendimento de emergência, por exemplo, é preciso caminhar bastante.

Embora haja um Mercy Hospital localizado nas proximidades de Dexter, com um rodízio de médicos especialistas, o centro de trauma mais próximo de Kennett no Missouri fica em Cape Girardeau, a cerca de uma hora e meia de distância.

“(Se) eu tiver um ataque cardíaco às oito horas da noite, ou um derrame, e se (o pronto-socorro) ainda estiver aberto, eles podem me dar aquele pequeno comprimido sofisticado e me ajudar a chegar ao hospital para receber ajuda”, disse Cheryl Bruce, diretora executiva do Dunklin/Stoddard Caring Council, uma organização sediada em Kennett que oferece um programa de serviços de assistência a moradores do Condado de Dunklin com câncer.

O antigo prédio do hospital de Kennett ainda está de pé na rua principal da cidade. As janelas estão fechadas com tábuas, e andar pelos corredores exige desviar de fios e andar na ponta dos pés sobre cacos de vidro.

O atual proprietário está em uma batalha de zoneamento para transformar o hospital em algo. Eles ainda não conseguiram encontrar compradores, pois precisam de várias aprovações da prefeitura para realizar qualquer obra que torne o prédio vendável.

Kennett não é o único a enfrentar o acesso limitado a cuidados de saúde. Desde 2014, 21 hospitais fecharam em todo o estado, incluindo 12 em áreas rurais, de acordo com a Associação de Hospitais do Missouri.

Além disso, o relatório de 2023-2024 do Centro de Qualidade em Assistência Médica e Reforma de Pagamento   descobriu que 26 hospitais rurais no Missouri correm risco de fechamento devido a dificuldades financeiras — nove deles estão em “risco imediato”.

O CEO da Twin Rivers disse em uma declaração de 2018 que o fechamento do hospital foi parte de um esforço para consolidar as operações com o Poplar Bluff Regional Medical Center,  “à medida que a prestação de cuidados de saúde evolui e a inovação médica torna os serviços de internação menos necessários”,   informou a KFVS12 TV na época.

Foi uma perda palpável para Kennett — as pessoas sentem falta do hospital, disse Bruce.

“Quando o hospital fechou, tudo o que todos falavam era: ‘Vamos ter outro?’”, disse Bruce.

De 2020 a 2024, o programa de serviços de assistência ao câncer do Caring Council gastou US$ 22.650 ajudando mais de 400 pessoas com transporte. Para tratamento do câncer, os moradores de Kennett costumam viajar uma hora até Jonesboro, Arkansas, ou uma hora e meia até Cape Girardeau, Missouri. “Seja qual for o tipo de tratamento oncológico que você precisar”, disse Bruce, “você precisa dirigir para obtê-lo”.

A falta de profissionais de saúde também significa que a detecção precoce de problemas médicos, incluindo câncer, pode ser mais difícil.

Alguns programas de transporte para assistência médica estão disponíveis em áreas rurais, mas Bruce disse que vê necessidade em sua comunidade por serviços mais robustos.

“Não estou pedindo um sistema de ônibus como em St. Louis, Kansas City ou Jeff City”, disse Bruce. “Estou apenas pedindo acesso à assistência médica, seja lá o que isso signifique.”

Pulverizado por todos os lados

Aonde quer que você vá em Kennett, sempre haverá alguém que viveu ali a vida toda. Jan McElwrath, secretária municipal de Kennett, é uma dessas pessoas. Além de uma breve passagem pela Universidade do Missouri, ela passou quase todos os seus 68 anos na cidade.

Ela voltou por um motivo clássico: amor. Casou-se, constituiu família e construiu uma vida enraizada nas mesmas ruas onde cresceu.

Ao longo das décadas, ela viu empresas abrirem e fecharem, comemorou inúmeros marcos comunitários e enfrentou desastres naturais. Em meio a tudo isso, McElwrath observou uma constante: apesar das diferentes crenças e opiniões, o povo de Kennett sempre encontra uma maneira de se unir.

“Nossa força é o nosso povo, sem dúvida”, disse ela.

Isto é especialmente importante quando consideramos os desafios únicos da vida rural.

Um índice criado pelo CDC mostra que Dunklin é o condado do Missouri menos preparado para lidar com desafios econômicos ou ambientais. De acordo com a Feeding America,  mais de 20% do Condado de Dunklin sofre de insegurança alimentar , apesar de a região ser coberta por terras agrícolas. Milam afirmou que isso se deve, em grande parte, ao fato de as fazendas em Dunklin serem agronômicas, ou seja, as lavouras nem sempre são cultivadas para consumo humano direto.

“Ajudaria muitas pessoas se tivessem vegetais frescos”, explicou ele.

Com a saída de empregos na indústria de muitas áreas de Bootheel, Kennett sentiu o impacto econômico. Embora a chegada da Cim-Tek Filtration há dois anos tenha trazido de volta alguns empregos na indústria, Kennett perdeu sua fábrica da Emerson Motor Company em 2006.

Uma indústria que permanece é a agricultura.

A terra é pontilhada por plantações de algodão, soja e arroz em fileiras. McElwrath chama as fileiras de algodão prontas para a colheita de “neve do sul”, mas para obter essa neve, os agricultores geralmente precisam dar um empurrãozinho nas plantas com desfolhantes.

A desfolha é um processo natural, embora possa ser induzido artificialmente quando produtos químicos são aplicados às plantas para fazê-las abrir, facilitando a colheita do algodão branco.

McElwrath disse que é difícil notar os agricultores desfolhando no início. Mas então, de repente, seus seios nasais ardem, seus olhos ardem, talvez uma dor de cabeça apareça. Parece sempre acontecer na mesma época todos os anos, bem quando a feira do condado está acontecendo — com a poeira, o solo seco, a corrida de demolição — tudo se misturando.

Os desfolhantes não só aceleram o processo; eles também contribuem para uma qualidade superior do algodão — o que significa que há menos resíduos afetando o produto final. A qualidade determina o valor.

Muitos moradores de Kennett reconhecem a necessidade de desfolhantes e outros produtos químicos agrícolas. Para alguns, é isso que coloca comida na mesa. Mas então chega a época do ano novamente, e todos experimentam aquela sensação familiar.

“Estamos cercados pela agricultura”, disse McElwrath. “Reconhecemos (os produtos químicos) como um risco, mas nossa economia aqui é muito dependente da agricultura.”

(Este artigo faz parte de uma série produzida por alunos da Escola de Jornalismo da Universidade do Missouri.)


Fonte: Investigate Midwest

Infâncias sitiadas na América Latina: comer, respirar e viver com agrotóxicos

infâncias de pesticidas 1

El Mentidero, Autlán. Aqui, como em muitas áreas rurais da América Latina, crianças e adolescentes são expostos diariamente a agrotóxicos, incluindo alguns altamente perigosos. Crédito da imagem: Aleida Rueda.

Por Aleida Rueda para o “SciDev” 

[AUTLÁN, CIDADE DO MÉXICO, SciDev.Net] Muitas mulheres nas áreas agrícolas do Vale do Autlán, em Jalisco, México, viram seus filhos voltarem do campo com irritação, dores de cabeça, náuseas e vômitos devido ao uso de agrotóxicos, um “costume” que ocorre em toda a América Latina sem nenhuma medida para preveni-lo.

“Depois de pulverizar, meu filho [de 16 anos] chegou em casa com dor de cabeça e vomitando quando ele pulveriza, ele só usa uma bandana [uma máscara de pano feita em casa] sobre o nariz e a boca”, diz Lidia Morales, uma mulher indígena de Guerrero que se mudou para a cidade agrícola de El Mentidero, em Autlán, há quase uma década para que sua família pudesse ganhar mais trabalhando no campo.

Jalisco é promovido como o “gigante agroalimentar do México” por sua produção líder de culturas como abacate, cana-de-açúcar, framboesas e amoras. Mas também lidera em outra área: intoxicações por pesticidas. Segundo dados do Ministério da Saúde, houve 72 casos em 2024 e, em abril deste ano, foram 62.

Rodolfo González Figueroa, agroecologista e promotor de processos agroecológicos na região, afirma que há muitos outros casos. Ele estima que mais de 70% dos casos nunca chegam a um médico. “Se fossem registrados, o número seria avassalador”, observa.

Mas em El Mentidero, como em muitas outras áreas agrícolas, os trabalhadores informais vivem sem seguridade social, então os envenenamentos são tratados em casa. As mulheres já estão acostumadas a usar leite ou limão para aliviar os sintomas.

“A intoxicação diminui e, no dia seguinte, eles estão de volta ao campo, trabalhando e pulverizando”, diz Alma Cisneros, outra mãe de El Mentidero. Seu marido morreu há algumas semanas de envenenamento relacionado ao uso de Lannate, um inseticida potente que mata larvas e insetos sugadores de plantações.

O que acontece em El Mentidero também acontece em muitas áreas rurais da região, onde adolescentes, meninos e meninas, estão expostos diariamente a agrotóxicos, mesmo os altamente perigosos, seja porque trabalham, vivem ou estudam perto do local de pulverização, seja porque entram em contato com esses resíduos em suas próprias casas, quando comem, bebem ou brincam.

Os agrotóxicos fazem parte do cotidiano das crianças rurais desde muito pequenas, pois convivem com eles em casa ou perto do local de pulverização. Crédito da imagem: Aleida Rueda.

“Não há para onde escapar; estudos mostram vestígios de agrotóxicos por toda parte”, diz Cecilia Gargano, especialista em conflitos socioambientais e pesquisadora da Universidade Nacional de San Martín, na Argentina, ao SciDev.Net .

Embora não haja números oficiais sobre o número de menores expostos a agrotóxicos, estima-se que possa haver milhões devido à quantidade de crianças e adolescentes que trabalham no campo.

“Não há nem mesmo equipamentos de proteção projetados para crianças, porque elas não deveriam estar trabalhando. Então, se elas usam, não é do tamanho certo, é desconfortável e não as protege. Isso também aumenta a exposição delas a esses pesticidas.”

Paulina Farías, pesquisadora do Departamento de Saúde Ambiental do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP) no México.

Em seu relatório de 2024 , a Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que na América Latina e no Caribe há 7,3 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos que trabalham, e destes, 46% atuam em atividades agrícolas, que a própria OIT classifica como perigosas, em parte, devido ao uso de substâncias tóxicas.

O envolvimento de crianças e jovens no trabalho agrícola não é novidade. Mas o que alguns especialistas consideram revelador, e preocupante, é que os riscos que as crianças enfrentam com agrotóxicos e herbicidas constituem uma crise de saúde pública que “estamos ignorando coletivamente”.

É assim que um grupo de pesquisadores do Brasil, Costa Rica, Chile e México descreve em um artigo de discussão publicado em 15 de agosto na edição impressa da revista Science of the Total Environment .

No artigo, o grupo alerta que dezenas de estudos na região mostram associações entre a exposição de crianças a agrotóxico e efeitos adversos que vão desde danos neurológicos e cognitivos a problemas respiratórios, alergias, leucemia e distúrbios hormonais e sexuais, entre outros.

Entretanto, apesar das evidências científicas, os autores afirmam que se trata de uma questão negligenciada nas agendas de saúde ocupacional e saúde materno-infantil, e que essa invisibilidade atrasa as respostas políticas e prejudica as avaliações de risco, intervenções eficazes, cuidados de saúde e vigilância.

“Nenhum ator sozinho vai resolver isso”, disse Rafael Buralli, pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, no Brasil, e principal autor do artigo, ao SciDev.N .

“É por isso que pedimos ações para que todos (governos, academia, empresas, trabalhadores e profissionais de saúde) assumam sua responsabilidade e evitem que mais crianças sejam expostas a substâncias tóxicas”, diz Buralli.

Lidia Morales mora em um abrigo em El Mentidero, Autlán, e viu seu filho ser envenenado durante a pulverização. Crédito da imagem: Aleida Rueda.

Associações

De acordo com relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS), as crianças correm um risco particular quando expostas a agrotóxicos altamente perigosos, em parte devido ao seu próprio comportamento (como levar a mão à boca) e à sua maior ingestão em relação ao seu peso corporal.

“Uma criança respira mais vezes do que um adulto, consome mais água e mais alimentos em proporção ao seu peso do que um adulto”, diz Humberto González, pesquisador do Centro de Pesquisa e Estudos Avançados em Antropologia Social (CIESAS Occidente) em Jalisco, ao SciDev.Net .

Por estarem em fase de desenvolvimento, seus tecidos e órgãos podem sofrer danos estruturais, às vezes permanentes. Além disso, seus corpos são menos capazes de metabolizar e eliminar toxinas, resultando em uma dose interna proporcionalmente maior do que em adultos.

Entretanto, em termos de evidências científicas, um dos maiores desafios na avaliação dos riscos dos agrotóxicos é a complexidade de estabelecer relações causais.

“Nós que fazemos epidemiologia falamos sobre associações, não causalidade, porque não há um único fator de risco e porque não podemos testar em humanos, fazemos observações”, disse a Dra. Paulina Farías, pesquisadora do Departamento de Saúde Ambiental do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP) no México, ao SciDev.Net .

Algumas associações são mais bem compreendidas do que outras. Farías descreve as evidências da exposição de gestantes a inseticidas organoclorados (com ligações de fósforo e carbono) e alterações na forma e motilidade dos espermatozoides em bebês do sexo masculino como “convincentes”. Ele também descreve os efeitos antiandrogênicos em seus genitais.

Julia Blanco, também pesquisadora do INSP, apresentou evidências sobre os efeitos da exposição a agrotóxicos (permetrina, metamidofós, metilparation, atrazina, 2,4-D, clorpirifós, mancozeb, picloram, entre outros) em pais e mães três meses antes e um mês depois da gestação.

E descobriu uma associação com um risco maior de seus filhos nascerem com defeitos congênitos, como anencefalia, que é basicamente a ausência de cérebro.

Blanco explica que as evidências mais convincentes são sobre agrotóxicos altamente tóxicos a curto prazo, que produzem intoxicação aguda em poucas horas e podem até levar à morte. “Quanto menor a quantidade necessária para produzir um efeito tóxico, mais perigoso ele é”, afirma.

Farías insiste que, embora haja vários graus de evidência, “é geralmente sabido que os agrotóxicos são altamente neurotóxicos; eles danificam o sistema nervoso central”.

E há um aspecto central sobre a infância: quanto mais exposição as crianças têm em estágios iniciais de desenvolvimento, mais efeitos elas terão em estágios posteriores.

É o que explica María Teresa Muñoz Quezada, professora associada do programa de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade do Chile, a respeito de estudos que analisaram a exposição de crianças ao pesticida clorpirifós em diferentes momentos de suas vidas.

“Crianças expostas antes do nascimento não só apresentaram desempenho neurocognitivo inferior ao daquelas que não foram expostas, como também apresentaram menor espessura da substância branca cerebral”, explica ele. Isso significa menor densidade de mielina, substância essencial para o bom funcionamento do sistema nervoso.

Estudos longitudinais também foram conduzidos na Costa Rica , desde o momento em que as mulheres estão grávidas até o nascimento e crescimento dos filhos. Berna van Wendel, professora do Instituto Regional de Substâncias Tóxicas e Estudos da Universidade Nacional da Costa Rica, relatou sintomas de hipotireoidismo em gestantes expostas ao clorpirifós.

Além disso, “os meninos e meninas nasceram menores, mais leves e com perímetro cefálico menor em comparação com as crianças não expostas. Ao completarem um ano de idade, também observamos mudanças em seu desenvolvimento motor, cognitivo e socioemocional”, afirma a pesquisadora.

Julia Blanco alerta que, embora não haja evidências epidemiológicas de causa e efeito, uma coisa é clara: “Se houver suspeitas bem fundamentadas de que um agrotóxico pode ser tóxico, reprodutivo ou potencialmente cancerígeno, devemos nos guiar pelo princípio da precaução, parar de usá-lo e buscar alternativas”.

Muitas crianças e adolescentes que trabalham no campo usam pesticidas sem o equipamento adequado, pois não há equipamentos projetados para eles. Crédito da imagem: Abdul Batin / Pexels .

Em todos os lugares

Em diferentes países, crianças em áreas rurais são frequentemente expostas a agrotóxicos constantemente e por diversos meios. Um dos motivos é que elas começam a trabalhar no campo muito jovens, porque seus pais não têm com quem deixá-las ou porque precisam contribuir para o sustento da família.

Mariana Butinof, médica, especialista em saúde comunitária e professora da Universidade de Córdoba, na Argentina, afirma que, de uma perspectiva ocidental, o trabalho infantil pode ser repreensível, “mas a lógica de muitas comunidades é educar as crianças em uma cultura de trabalho. Desde cedo, elas aprendem a trabalhar e a ajudar suas famílias”.

Estando dentro ou perto dos campos, as crianças ficam expostas à pulverização por aeronaves individuais autopropulsadas, pequenos aviões ou drones, sem qualquer proteção.

“Não há nem equipamento de proteção projetado para crianças, porque elas não deveriam estar trabalhando. Então, se elas o usam, não é do tamanho certo, causa desconforto e não as protege. Isso também contribui para que elas recebam mais dessas doses de agrotóxicos”, diz a pesquisadora Paula Farías.

Mas eles não precisam estar nas áreas pulverizadas para entrar em contato com os agroquímicos; eles podem ser expostos por deriva, que é quando o pesticida é transportado pela chuva, vento ou poeira em suspensão, para longe do local onde foi aplicado.

Vários estudos relatam resíduos de partículas na água ou em alimentos colhidos. Um livro sobre os efeitos do glifosato, publicado no México há algumas semanas, menciona um risco quatro vezes maior em estudos envolvendo crianças que comeram maçãs e pepinos com mais frequência do que aquelas que não comeram.

Além de alimentos, resíduos foram encontrados nas roupas que seus pais usam para trabalhar. “Não há divisão entre o espaço de trabalho e o espaço de convivência. Agrotóxicos entram e saem constantemente da casa através de botas, roupas e dos alimentos que colhemos”, diz Butinof.

“Às vezes, as roupas de trabalho são lavadas junto com o resto das roupas da família, e tudo isso leva à exposição do grupo familiar”, acrescenta o pesquisador.

Em algumas casas em El Mentidero, há recipientes de glifosato e outros inseticidas pela metade. Rodolfo González diz que não é incomum que as pessoas armazenem agrotóxicos em suas casas ou usem os recipientes vazios como garrafas de água.

Essa disponibilidade não só aumenta a vulnerabilidade das crianças, mas também aumenta a possibilidade de que pessoas, incluindo menores, as utilizem para se envenenarem voluntariamente.

“Estima-se que 15 a 20 por cento de todos os suicídios no mundo sejam causados por envenenamento autoimposto por agrotóxicos, e esse número provavelmente está subestimado devido ao estigma associado ao suicídio”, afirmou a OMS em um relatório de 2024 . 

Herbicidas como o Faena (glifosato) estão disponíveis em casas e ao alcance das crianças. Crédito da imagem: Aleida Rueda.

Colonialismo químico

Uma solução para reduzir os riscos à saúde de crianças e adultos causados por pesticidas parece simples: proibir o uso de Pesticidas Altamente Perigosos (PAPs), mas conseguir isso é complexo devido, em parte, a um problema que alguns especialistas descrevem como colonialismo químico.

“Isso significa que os países pobres usam produtos químicos que são proibidos nos países ricos . Por exemplo, há produtos químicos produzidos na Suíça, mas que não podem ser consumidos lá, então eles os enviam para o Brasil, e nós os consumimos em massa”, diz Buralli.

Há relatos desse colonialismo. Segundo a Rede de Ação contra Pesticidas (PAN) da Alemanha, empresas europeias estão envolvidas na exportação anual de milhares de toneladas de pesticidas classificados como proibidos ou não autorizados na União Europeia, como atrazina, diafentiuron, metidationa, paraquate e profenofós.

Eles são proibidos, mas “as empresas são livres para produzir esses agrotóxicos perigosos na União Europeia e exportá-los para outros países com regulamentações mais fracas, colocando a saúde das pessoas e o meio ambiente em risco “, diz a PAN Alemanha.

Como resultado, existem centenas dessas substâncias tóxicas na América Latina. Só no México, há alguns dias, a Rede de Ação sobre Pesticidas e Alternativas (RAPAM) publicou um relatório revelando que, dos 210 POPs autorizados no país, 171 são proibidos em outros países, com efeitos tóxicos de curto e longo prazo para a saúde e o meio ambiente.

Exemplos incluem os herbicidas 2,4-D, diuron, fluazifop, glufosinato de amônio, glifosato e paraquate; os inseticidas clorpirifós, cipermetrina, fipronil, imidacloprido, malation, metomil e tiametoxam; e os fungicidas clorotalonil, compostos de cobre, mancozeb, metalaxil, tebuconazol e tiofanato-metil.

“Por que ainda são usados?”, pergunta Fernando Bejarano, diretor do RAPAM, durante a apresentação do relatório. “Tudo isso é um legado da Revolução Verde, onde o modelo a ser seguido era a agricultura americana, e se pensava que era impossível produzir pesticidas sem venenos.”

Segundo Rodolfo González, o uso extensivo de agrotóxicos responde a um modelo que prioriza a produtividade e a comercialização, e no qual governos e ejidatários veem o sucesso baseado na quantidade que vendem.

“É essa ideia decrépita do campo de vanguarda, da infraestrutura, da tecnologia e da monocultura, que torna invisíveis a diversidade, as sementes nativas, a saúde e a agricultura original”, ressalta.

Mas Bejarano é enfático: “Agora sabemos que depender de agrotóxicos altamente perigosos não é sustentável e que pagamos os custos com sofrimento, problemas de saúde e danos ambientais.”

Proibir os agrotóxicos altamente tóxicos é necessário, mas não é suficiente. O Chile é um dos países mais regulamentados , mas muitosagrotóxicos proibidos continuam sendo usados. “Um agrotóxico é proibido, mas as empresas começam a vendê-lo mais barato até esgotarem o estoque, então as pessoas consomem mais desses do que de outros”, explica Muñoz Quezada.

Gatilhos para mudança

Saraí Cisneros, dona de casa, lembra-se do momento em que os envenenamentos por agrotóxicos se tornaram coisa do passado em El Mentidero. “Lá, ao lado da escola de telesecundária, havia uma plantação de tomates e pepinos, e eles pulverizavam herbicidas fortes bem na hora em que as crianças estavam em aula”, conta ela.

Em 2019, crianças em idade escolar começaram a reclamar de odores fortes, seguidos de dores de cabeça, náuseas e tonturas. Então, as mães se mobilizaram, registraram uma queixa junto às autoridades municipais e começaram a colaborar com Humberto González e outros pesquisadores do CIESAS para que a urina de seus filhos fosse analisada.

“As mulheres têm desempenhado um papel de liderança nos conflitos socioambientais, na conscientização sobre a situação nas famílias e, em particular, sobre os danos causados às crianças. Não apenas as mães, mas também as professoras rurais.”

Cecilia Gargano, especialista em conflitos socioambientais e pesquisadora da Universidade Nacional de San Martín, Argentina

González já havia analisado amostras de mais de 200 crianças do jardim de infância e do ensino fundamental em El Mentidero e encontrado até oito agrotóxicos em suas urinas. Nesta nova amostra, de 81 alunos do ensino médio, ele relatou que 100% das crianças continham glifosato e 2,4-D.

A partir daquele momento, uma mudança ocorreu. Em 2021, foi obtido um contrato de empréstimo de três anos para realizar um projeto de reconfiguração agroecológica e converter o terreno em um espaço educacional demonstrativo.

Durante três anos (de 2022 a 2024), a área foi pulverizada, a abordagem de produção foi abandonada e as crianças começaram a produzir alimentos sem agrotóxicos, aprendendo sobre hortaliças orgânicas e biofertilizantes. “As crianças se tornaram um fator de mudança”, diz Rodolfo González, entusiasmado. 

Crianças de El Mentidero, Jalisco, aprendem agroecologia em seu terreno escolar. Crédito da imagem: Projeto RAAS.

Este não é um caso isolado. Gargano documentou um ponto em comum em muitos conflitos socioambientais na região: quando a saúde das crianças está em jogo, as mulheres e as escolas promovem mudanças, aprendizado e transformação.

“As mulheres têm desempenhado um papel de destaque nos conflitos socioambientais, na conscientização sobre a situação nas famílias e, principalmente, sobre os danos causados às crianças. Não só as mães, mas também as professoras rurais”, afirma a pesquisadora.

Em áreas rurais da província de Buenos Aires, por exemplo, a pulverização perto de escolas levou dezenas de professores a criar a Rede Federal de Professores pela Vida para impedir a pulverização perto de escolas.

Quando ocorre uma fumigação perto de uma escola, os professores interrompem as aulas, ligam para os pais para buscarem seus filhos e tiram fotos para relatar o ocorrido.

Mas “no dia seguinte temos que voltar para a escola, e temos que enfrentar a respiração daquele ar poluído e estar naquele parquinho”, diz a professora Marcela Murguía, da Escola nº 10 da cidade de Alta Vista, na província de Buenos Aires, em um vídeo online.

E praticamente nenhum país na região tem leis rígidas que proíbem ou estabelecem limites de distância para pulverização perto de escolas.

“É possível encontrar regulamentações e portarias provinciais e municipais, mas elas não são uniformes. Elas podem variar de 50 a 1.500 metros, mas não há consequências para quem não as cumpre”, diz Gargano. 

Desenho de uma criança sobre os riscos da pulverização perto de sua escola. Crédito da imagem: Rede Federal de Professores pela Vida (Argentina)/Facebook .

No Chile, Muñoz Quezada conduziu intervenções educacionais com pais e filhos em escolas rurais para avaliar até que ponto uma maior percepção de risco pode levar a uma redução de pesticidas em seus corpos.

A conclusão deles é que essas intervenções não funcionam se as crianças continuarem expostas a um ambiente repleto de agrotóxicos. “Percebemos que a mudança não é responsabilidade da família, da escola ou da criança, mas do Estado; precisamos ter políticas de justiça ambiental para evitar zonas rurais de sacrifício.”

Rodolfo González acredita que a agroecologia é um caminho para isso, desde que as mulheres sejam as que tomam as decisões sobre a terra. “Precisamos feminizar o campo. Onde há uma mulher trabalhando, há uma agricultura diferente, diversa, focada na saúde e não nos negócios.”

Ele diz isso enquanto olha para o que resta do terreno da escola que ajudou a construir. O projeto terminou há alguns meses e, em poucas semanas, estará “produtivo” novamente e, consequentemente, será dedetizado perto da escola.

Ele não consegue evitar a frustração. “Enquanto continuarmos focados na produção máxima e no rendimento máximo, em vez de focar na saúde das crianças, na conservação , na diversidade e na família, isso está fadado ao fracasso.”


Fonte: SciDev.Net

O agro é bom para quem? Estudo mostra que para o Brasil, o agro é mau

Enquanto a bancada ruralista pressiona para interferir no conteúdo de livros didáticos para limpar a sua barra para lá de suja, um estudo realizado por Yamila Goldfarb e Marco Antonio Mitidiero Junior e publicado   pela Fundação Friedrich Ebert analisou a questão tributária e dos subsídios dados ao latifúndio agro-exportador (também conhecido como “agronegócio”) e verificou com base em dados oficiais, a  existência de uma distribuição bastante desigual de crédito para os latifundiários e para os agricultores familiares (ver figura abaixo).

Além disso, apenas no caso da soja, que o estudo denomina de “a menina dos olhos do agronegócio brasileiro”, A totalidade do circuito da cadeia produtiva da soja, desde a aquisição de insumos, adubo, agrotóxicos, sementes, passando pelo óleo alimentar, farelo e biodiesel e exportações são desonerados em 100% das alíquotas de PIS/  Pasep e da COFINS e do IPI. Além de não arrecadar nada com estes tributos, o setor industrial tem direito a créditos presumidos, que podem ser utilizados no pagamento de outros tributos federais, ou, ainda, permitir que seja solicitado o ressarcimento pelo Governo Federal. Conforme estimado neste estudo, o cashback da indústria de soja é bilionário. Com isso, apenas no caso da soja, o total da desoneração na cadeia produtiva, incluindo o crédito presumido, chega a estratosféricos R$ 56,81 bilhões.

O estudo aborda ainda os impactos negativos para a saúde humana, meio ambiente, e custo da cesta básica que derivam da isenção tributária para agrotóxicos. Apesar disso, o estudo mostra que  dados do censo agropecuário mostram que entre 2006 e 2017, para um valor de produção de um real, os gastos com agrotóxicos saltaram cerca de 1200% para o algodão (R$ 0,01 para R$ 0,15), 588% para a soja (R$ 0,02 para R$ 0,14), e 102% para a cana-deaçúcar (R$ 0,04 para R$ 0,08).  Além dessa carestia, um problema bastante agudo é que 98% dos agrotóxicos consumidos no Brasil são classificados como perigoso, muito perigoso ou altamente perigoso ao meio ambiente, mas que também trazem sérias repercussões para a saúde humana e para a biodiversidade.

Um aspecto bastante interessante do estudo é a discussão sobre o papel do agronegócio no processo de desenvolvimento econômico. A partir de uma base empírica robusta, o estudo coloca em xeque a noção de que o agronegócio conduz a uma melhoria dos padrões socio-econômicos nas regiões em que suas práticas se tornam hegemônicas. Com isso, os autores do estudo afirmam que a relação entre  desenvolvimento e presença do agronegócio não pode ser diretamente relacionada ao avanço de indicadores sociais e tampouco de dinamismo econômico com distribuição de riqueza.  Com isso, eles concluem que “não à toa o “agro” precisa, portanto, de tanto marketing para moldar sua imagem“.

A conclusão do estudo é que existe, de fato, uma relação parasitária entre Estado brasileiro e agronegócio, a qual resulta em concentração fundiária, altos preços dos alimentos e conflitos territoriais socioambientais, além de beneficiar grandes corporações multinacionais.  Os autores apontam ainda que “por todos os dados e argumentos apresentados no relatório, não dá para separar a maçã podre da cesta.
Não existe “agro do bem”, pois toda a estrutura é um mau negócio para a sociedade brasileira“.

Quem desejar baixar o relatório “Agro, um bom negócio para o Brasil?”, basta clicar [Aqui!].

O espectro do Deserto Verde ronda o Rio de Janeiro: essa é a hora e a vez de fortalecer a resistência a mais um projeto de devastação

Neste final de semana tive a oportunidade de encontrar com uma liderança histórica da luta contra a transformação do Rio de Janeiro em uma extensão do deserto verde instalado em diferentes partes do território nacional, mas em especial no vizinho estado do Espirito Santo. Segundo essa liderança, os planos de ampliação dos monocultivos industriais de eucalipto estão cada vez mais na ordem do dia, especialmente a partir das ações organizativas da Federação de Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

Primeiro, não posso de abrir uma pequena digressão para comentar a ironia que é se ter uma federação de indústrias se ocupando da expansão da monoculturas de árvores que efetivamente deveria caber melhor nos planos de organizações sindicais vinculadas ao latifúndio agro-exportador. Mas, dada o processo de desindustrialização que se acomete sobre o território fluminense, sou obrigado a reconhecer que é isso ou nada para a Firjan.

Eu comentei com essa liderança que estou ciente de que milhares de hectares de terras improdutivas estão sendo negociadas em Campos dos Goytacazes para, entre outras coisas, escapar da possibilidade de expropriação para fins de reforma agrária, visto que muitos dos latifundiários possuem dívidas históricas com a União, e não querem correr o mesmo destino de terras pertencentes às usinas Sapucaia e Cambahyba que foram recentemente tomadas pelo governo federal para a crise de assentamentos de reforma agrária.

De toda sorte,  os planos e ações concretas indicam que, desta vez, a instalação de um grande deserto verde em partes já com grandes deficits de biodiversidade e de água, como é o caso das regiões Norte e Noroeste Fluminense, podem avançar mais do que em tentativas anteriores.  A promulgação da Lei 14.876 de 31 de maio de 2024 e a provação do PL da Devastação vão facilitar enormemente a ocupação de terras para fins de plantios de árvores, a despeito dos problemas ambientais já existentes. Como o governo Lula não tem hesitado em financiar esses plantios a partir de generosas linhas de crédito de bancos públicos, os interessados em avançar o deserto verde já devem estar esfregando as mãos e preparando as bombas costais.

Diante de um cenário que considero bastante hostil para o estabelecimento de alternativas ambiental e socialmente melhores do que o monocultivo de árvores que consomem quantidades cavalares de água, fertilizantes químicos e agrotóxicos, considero que é necessário que o combate ao deserto verde se torne uma pauta primária dos movimentos sociais do campo ambiental e da luta pela reforma agrária.  É que um dos alvos desse projeto de desertificação verde é justamente conter um modelo de reforma agrária que produza alimentos de qualidade e livres de contaminação por agrotóxicos.

deserto verde |

Por isso, o fortalecimento do mecanismo que ficou conhecido como “Rede Alerta contra o Deserto Verde Fluminense” é algo tão urgente quanto necessário. Eu diria até que é para ontem.  Para refrescar memórias, sugiro a leitura de uma matéria escrita pela Sucural do Rio do jornal Folha de São Paulo no distante dia 20 de março de 2002. Pode até parecer notícia velha, mas está longe de ser, ela é atualíssima. 

Ciência a serviço dos poderosos: associação de sojeiros do MT colheu amostras para estudo na Unicamp sobre agrotóxicos

Segundo processo disciplinar ainda em curso na universidade, Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso selecionou trabalhadores rurais, indicou laboratórios responsáveis pela coleta de amostras de urina de pessoas expostas a agrotóxicos e cuidou até do envio do material à Unicamp

Por Hélen Freitas/ Edição de Juliano Barros para a “Repórter Brasil” 

Um processo disciplinar aberto para investigar a conduta de um professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revela como uma importante entidade do agronegócio do Mato Grosso, principal polo produtor de grãos do país, atuou na realização de estudos científicos sobre os impactos causados pelo próprio setor. 

Documentos obtidos com exclusividade pela Repórter Brasil detalham como a Aprosoja-MT (Associação dos Produtores de Soja e Milho) participou diretamente de etapas cruciais de pesquisas sobre a exposição de trabalhadores rurais a dois agrotóxicos bastante populares: o glifosato e o paraquate.

Os estudos foram iniciados em 2016, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reavaliava a venda no mercado brasileiro dos dois herbicidas, amplamente usados no controle de plantas daninhas em lavouras. Na época, ambos figuravam entre os dez agrotóxicos mais utilizados no país.  

Além de financiar o projeto, a Aprosoja-MT acompanhou de perto todas as etapas das pesquisas. Depoimentos e documentos consultados pela reportagem revelam como a associação selecionou trabalhadores rurais para o estudo, indicou laboratórios responsáveis pela coleta de amostras de urina em campo e cuidou até da logística para envio do material à Unicamp.

Em 2019, a Anvisa decidiu manter o glifosato em circulação, mas impôs mudanças na rotulagem e na classificação toxicológica, além de exigir novas medidas de segurança para o manuseio do herbicida.

Um ano antes, a Iarc (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer), órgão da Organização Mundial da Saúde, já havia classificado o glifosato como “provavelmente cancerígeno” para humanos. A substância também é associada ao desenvolvimento de doenças como depressão, Alzheimer e Parkinson.

Já o paraquate teve destino diferente. Em 2017, a Anvisa deu início ao processo de banimento do herbicida devido a riscos à saúde, incluindo possível relação com doenças neurodegenerativas, como o Parkinson. A decisão previa um período de transição, em que o agrotóxico ainda poderia ser utilizado, até a proibição definitiva a partir de 22 de setembro de 2020. Desde então, o registro do paraquate está cancelado no Brasil.

Foi durante o período de transição que associações do agronegócio organizaram uma força-tarefa para tentar reverter a decisão da Anvisa, argumentando que novas pesquisas poderiam comprovar a segurança do paraquate.

O principal estudo utilizado para embasar esse movimento era justamente o conduzido na Unicamp. No entanto, após denúncia da Repórter Brasilsobre conflito de interesses, a pesquisa foi suspensa pelo Comitê de Ética da universidade, em julho de 2020.

Cinco anos depois, a Repórter Brasil enfim teve acesso aos documentos do processo disciplinar, ainda em curso na universidade, sobre a conduta do professor Paulo César Pires Rosa. Atual coordenador da graduação em Farmácia, ele participou das pesquisas orientando uma aluna sobre os impactos do glifosato e do paraquate na saúde de trabalhadores rurais. 

Os arquivos revelam também como a Aprosoja-MT atuou de cabo a rabo nos estudos, encomendados na tentativa de manter a comercialização dos agrotóxicos no país. Uma das principais representantes do agro nacional, a entidade já foi dirigida por produtores investigados por envolvimento com os atos golpistas de 08 de janeiro de 2023

Procurada, a assessoria de imprensa da Aprosoja-MT não se posicionou até o fechamento desta reportagem.

Antônio Galvan (à esq.), ex-presidente da Aprosoja-MT, foi investigado por envolvimento na tentativa de golpe em 8 janeiro de 2023 (Foto: Divulgação/Aprosoja)

Unicamp analisa se atuação de professor em instituto de pesquisa foi irregular

A rigor, o processo disciplinar tem como objetivo avaliar se o professor Paulo César Pires Rosa teria quebrado seu contrato de dedicação exclusiva à Unicamp, ao prestar serviços ao Inpes (Instituto de Pesquisas e Educação em Saúde), entidade criada por um docente aposentado da universidade. O Inpes foi o responsável por angariar os recursos para o estudo sobre a presença de paraquate no organismo de trabalhadores rurais do Mato Grosso.       

Em 2023, após três anos de investigação, uma comissão da Unicamp concluiu que Rosa teria atuado sem autorização como diretor científico do Inpes, entre 2018 e 2020. Além de uma suspensão de 15 dias, o parecer do órgão recomendou a devolução aos cofres da universidade de parte do salário recebido pelo docente no período. Segundo cálculos feito pela reportagem, o valor pode chegar a R$ 200 mil.

Ainda de acordo com o relatório da comissão, a Faculdade de Ciências Farmacêuticas recebeu uma proposta de convênio para realização dos estudos, com financiamento da Aprosoja-MT e intermediação do Inpes. O projeto chegou a ser aprovado pela Comissão de Pesquisa e Extensão, mas acabou vetado pela Comissão de Governança. Por essa razão, nunca foi efetivamente formalizado. Mesmo assim, a pesquisa seguiu em frente, até ser barrada em julho de 2020, após matéria da Repórter Brasil.

Durante a apuração, Rosa também foi investigado por uma possível utilização indevida da infraestrutura da universidade para as pesquisas sobre os agrotóxicos. A comissão, no entanto, concluiu que não havia provas de uso irregular dos laboratórios, nem de pagamentos diretos da Aprosoja-MT ao professor.

As amostras de urina coletadas dos trabalhadores rurais do Mato Grosso permanecem lacradas e armazenadas nas dependências da universidade, de acordo com a assessoria de imprensa da Unicamp. “Não há nenhuma possibilidade de retomada da pesquisa”, informou por telefone um coordenador de comunicação da universidade.

Atualmente, o caso está sob análise do Conselho Universitário, instância máxima da instituição. Durante reunião do órgão realizada em abril deste ano e disponível no Youtube, Fernanda Silvado, procuradora-chefe da Unicamp, disse haver “um claro conflito de interesses na pesquisa”. Em sua avaliação, a Aprosoja-MT era “financiadora e interessada na pesquisa, e ela também escolhia os trabalhadores, os laboratórios que faziam as análises clínicas das amostras”. 

Ao longo do processo disciplinar, Rosa sempre negou quaisquer irregularidades. Por Whatsapp, o professor afirmou à reportagem que não era o responsável pelos estudos, embora tenha atuado para captar com entidades públicas de fomento à pesquisa cerca de R$ 67 mil em bolsas de mestrado e doutorado, dentre outros recursos, segundo relatório de atividades encaminhado por ele próprio à universidade. 

“As pesquisas não foram sobre [sic] minha coordenação, era do prof Ângelo”, informou Rosa na troca de mensagens por Whatsapp, em referência a Ângelo Trapé, médico, ex-professor da Unicamp e fundador do Inpes — o instituto responsável pela intermediação da pesquisa sobre o paraquate, em 2018.  

Pesquisa com trabalhadores rurais que aplicam paraquate na soja foi suspensa pela Unicamp após revelações de conflito de interesse (Foto: Pedro Biondi/Repórter Brasil)

Procurada, a assessoria de imprensa da reitoria da Unicamp afirmou que “o ex-professor Ângelo Trapé se aposentou em 2017 e, desde então, não possui vínculo formal com a universidade”. Trapé não respondeu ao pedido de entrevista.   

Rosa inicialmente respondeu à reportagem por Whatsapp, mas depois preferiu não conceder entrevistaSeus advogados, no entanto, enviaram uma nota. 

“Como o processo disciplinar ainda está em andamento, entendemos que não é o momento adequado para manifestação em matéria jornalística, a fim de não comprometer a imparcialidade dos julgadores e publicizar uma situação que está sendo devidamente apurada pelos órgãos competentes, a Universidade”, diz o texto. 
Os advogados ainda afirmaram que vão solicitar apuração pelos órgãos competentes sobre os documentos obtidos pela Repórter Brasil. “Entendemos que houve o vazamento de informações que são consideradas sigilosas, e protegidas pela Lei Geral de Proteção de Dados”, prossegue o texto. Leia a resposta na íntegra.

Aprosoja-MT escolheu laboratórios; amostras já haviam sido coletadas

Em um dos depoimentos que aparecem nos autos do processo acessado pela reportagem, uma estudante de doutorado, orientanda do professor Rosa, afirma que os trabalhadores rurais participantes da pesquisa teriam sido selecionados pela Aprosoja e pelo Inpes. 

“Quando a depoente e o indiciado [Rosa] chegaram ao Mato Grosso, os laboratórios já estavam definidos e já havia amostras coletadas previamente”, diz um trecho do relatório final da comissão responsável pela apuração do caso.

Durante audiência no Comitê de Ética da Unicamp, Ângelo Trapé confirmou que a escolha dos trabalhadores partiu, de fato, da Aprosoja-MT. Segundo o fundador do Inpes, a associação dos produtores rurais também indicou fazendas e participou diretamente do recrutamento dos participantes. 

“No projeto submetido ao CEP [Comitê de Ética em Pesquisa] da Pós-Graduação constava que seria o indiciado e a aluna quem selecionariam os participantes, mas que, posteriormente, constatou-se uma participação da Aprosoja nessa seleção”, diz um trecho da ata do depoimento de Trapé. Ele também relatou que o envio das análises à Unicamp foi feito pela própria associação. A conclusão do comitê foi a de que as práticas configuravam “conflito de interesses”.

Os autos do processo disciplinar também trazem a defesa de Rosa. “Embora a Aprosoja tenha participado da escolha dos trabalhadores e laboratórios envolvidos nos estudos, não houve sequer uma ingerência sobre o trabalho realizado, e isso não restou comprovado nos autos deste procedimento”, afirmou o professor em recurso apresentado à universidade.

Estudo aponta o glifosato, agrotóxico mais vendido no Brasil, como uma das substâncias mais frequentemente associadas a abortos espontâneos (Foto: Vitor Dutra Kaosnoff/Pixabay)
Autos do processo disciplinar revelam que os trabalhadores rurais participantes da pesquisa teriam sido selecionados pela Aprosoja e pelo Inpes (Foto: Vitor Dutra Kaosnoff/Pixabay)

Segundo Rosa, os trabalhadores teriam sido indicados com base em critérios técnicos, como o contato efetivo com o herbicida paraquate. Já os laboratórios teriam sido selecionados levando em conta os locais onde as coletas foram realizadas.

Em fevereiro de 2018, no mestrado sobre impactos do glifosato defendido por uma aluna do professor Rosa, a estudante demonstra gratidão não só a seu orientador, mas também ao fundador do Inpes e à própria entidade do agronegócio. 

“Agradeço à Associação dos Produtores Rurais de Soja e Milho (Aprosoja) do estado do Mato Grosso, pela parceria, apoio financeiro e contribuição na seleção e na realização das coletas das amostras dos voluntários incluídos neste estudo”, escreveu.

Em agosto de 2018, Rosa detalhou em um evento da Aprosoja como se deu a participação da associação dos produtores. “A Aprosoja arcou com os custos de reagentes e materiais para analisar essas amostras. E o sindicato rural indicou os trabalhadores, segundo os nossos critérios de inclusão e exclusão”, relatou o professor. 

Na época, o processo de reavaliação do glifosato pela Anvisa estava na reta final. Uma decisão judicial chegou a suspender o registro de produtos à base da substância no país. Dois meses depois, a medida foi derrubada e o uso do herbicida voltou a ser permitido.

Em nota, a Anvisa nega que pesquisas financiadas pela entidade ruralista tenham influenciado no resultado do processo. “Nenhum resultado de reavaliação de ingredientes ativos de agrotóxicos pode ser atribuído a um único estudo ou uma única fonte de dados. Trata-se de uma análise complexa e sistematizada”, afirma o texto. Leia a resposta completa.


Fonte: Repórter Brasil