Salles deixa Alemanha sem obter concessões do governo Merkel

Berlim diz a ministro que só vai rever suspensão de repasse milionário para projetos na Amazônia quando tiver garantia de “que o dinheiro será bem investido”. Em agosto, Bolsonaro disse que “não precisava” do valor.

salles germanySalles disse que foi à Alemanha para “desmistificar” um “sensacionalismo” sobre a situação ambiental brasileira

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deixou a Alemanha nesta quarta-feira (02/10) sem conseguir qualquer concessão do governo da chanceler federal, Angela Merkel, na questão da suspensão de uma verba de 155 milhões de reais para projetos de conservação florestal no Brasil. 

Em agosto, em meio à crise das queimadas, Svenja Schulze, a ministra do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear da Alemanha, anunciou o congelamento da verba, argumentando que a política do governo de Jair Bolsonaro em relação à Amazônia “deixa dúvidas se ainda persegue uma redução consequente das taxas de desmatamento”.

 À época, a suspensão da verba gerou uma reação furiosa de Bolsonaro. Na ocasião, o presidente brasileiro sugeriu que Merkel “pegasse essa grana” para “reflorestar a Alemanha” e afirmou que o Brasil “não precisa disso”, referindo-se ao dinheiro.

Mas, em sua viagem à Alemanha, Salles tentou minimizar as falas de Bolsonaro com o objetivo de reaver a verba. Em entrevista publicada na terça-feira pelo jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), o ministro disse que o Brasil está, sim, interessado no financiamento alemão e que a fala do presidente foi apenas uma reação “a uma manifestação da Europa”. “Não vamos misturar política com questões técnicas”, afirmou.

No mesmo dia ele se encontrou com a ministra Schulze. A reunião não rendeu fotos ou a divulgação de uma declaração conjunta, como ocorre normalmente em reuniões com altos representantes estrangeiros. Ao final, Salles foi embora sem reaver o financiamento.

Segundo declarou um porta-voz do ministério alemão nesta quarta-feira, a pasta não pretende rever sua posição em relação à suspensão da verba até que “tenhamos uma impressão bem fundamentada de que o dinheiro será bem investido”.

De acordo com o porta-voz, o encontro entre Salles e Schulze consistiu mais em uma troca de pontos de vista do que uma reunião com efeitos práticos. “A ministra Svenja Schulze deixou sua posição muito clara e pediu a proteção da Amazônia.”

Ainda na terça-feira, Salles se reuniu com o ministro Gerd Müller, da pasta para Cooperação e Desenvolvimento da Alemanha. O governo brasileiro também vem travando uma queda de braço com esse ministério, desta vez relacionada ao futuro do Fundo Amazônia, o programa bilionário de proteção à floresta que conta com recursos da Noruega e da Alemanha.

Mas, por enquanto, a pasta de Müller vem evitando seguir o exemplo do Ministério do Meio Ambiente alemão e ainda não suspendeu qualquer repasse para o fundo. Por outro lado, os alemães e noruegueses não escondem sua insatisfação com as mudanças unilaterais promovidas por Salles na gestão do programa, como a extinção de dois comitês, que ocorreu sem qualquer acordo com os europeus.

Os dois países europeus também se posicionaram contra uma proposta do ministro brasileiro de usar recursos do fundo para indenizar fazendeiros que ocupam áreas de proteção ambiental, e rechaçaram publicamente insinuações de Salles sobre supostas fraudes na gestão do programa. Em agosto, diante das mudanças promovidas pelo Brasil, a Noruega suspendeu um novo repasse de 133 milhões de reais ao fundo.

Em sua entrevista ao jornal alemão FAZ, Salles tentou mais uma vez se apresentar de maneira conciliadora, em contraste com as críticas que fez ao Fundo Amazônia nos últimos meses. “O objetivo é que o fundo possa distribuir dinheiro novamente”, disse.

Segundo fontes do governo alemão, o ministro brasileiro queria convencer a Alemanha a mediar uma solução com os noruegueses. Mas um porta-voz da pasta de Müller indicou que Salles aparentemente não teve sucesso em seu pedido. “Estamos esperando para ver como as negociações entre o Brasil e a Noruega vão se desenrolar”, disse o porta-voz.

Na terça-feira, Angela Merkel também falou sobre a forma como seu governo vem abordando a questão das verbas para projetos ambientais no Brasil. Evitando fazer críticas aos brasileiros, ela disse que “há necessidade de discussão”. “Se uma boa solução for encontrada, certamente os fundos bilaterais poderão voltar a ser canalizados”, afirmou a chefe de governo. 

Seção alemã do Greenpeace organizou dois protestos contra Ricardo Salles em BerlimSeção alemã do Greenpeace organizou dois protestos contra Ricardo Salles em Berlim

 

Protestos

Salles passou três dias na Alemanha. Ele chegou ao país europeu no domingo, com o objetivo, segundo ele, de “desmistificar” um “sensacionalismo” de informações que “não são corretas” sobre a situação ambiental brasileira. Antes de desembarcar na Alemanha, ele também cumpriu etapas nos Estados Unidos e na França.

Na Alemanha, ele foi recebido com um protesto em seu primeiro dia de compromissos. Na segunda-feira, dezenas de ativistas do braço alemão do Greenpeace organizaram uma manifestação em frente à sede da Confederação Alemã das Câmaras de Indústria e Comércio (DIHK), no centro da capital alemã, contra a visita do brasileiro.

Inicialmente, uma agenda de Salles – que havia sido vazada na semana passada pelo Greenpeace – indicava que o ministro se reuniria no local com representantes de grandes indústrias alemãs, entre elas as gigantes do setor químico Basf e Bayer, conhecidas pela produção de agrotóxicos.

Na terça-feira, ele voltou a ser alvo de um protesto, desta vez em frente ao Ministério de Cooperação e Desenvolvimento da Alemanha.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Desmatamento na Amazônia em agosto cresce 222% em relação a 2018

Floresta perdeu 1.698 quilômetros quadrados de vegetação, segundo Inpe. Em agosto de 2018, foram 526 quilômetros quadrados. Nos oito primeiros meses de 2019, área desmatada foi 92% superior à do mesmo período de 2018.

desmatamento amazoniaFoto de satélite mostra áreas desmatadas na Amazônia: em julho, desmate cresceu 278% em relação a mesmo mês de 2018

A Amazônia perdeu em agosto deste ano 1.698 quilômetros quadrados de cobertura vegetal, área 222% maior do que a desmatada no mesmo mês de 2018, que foi de 526 quilômetros quadrados, segundo dados divulgados neste domingo pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Os números indicam que, apesar da devastação, houve redução na comparação com julho deste ano, em que houve destruição de 2.254 quilômetros quadrados.

Em comparação aos mesmos períodos de 2018, os meses de junho e julho apresentaram, respectivamente, crescimento de 90% e 278% no desmate.

Com os saltos, a área desflorestada da Amazônia nos oito primeiros meses de 2019 chegou a 6.404 quilômetros quadrados, número 92% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior (3.337 quilômetros quadrados).

Os dados foram obtidos pelo Deter, levantamento rápido de alertas de evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia, feito pelo Inpe.

Os informes podem ser usados para indicar tendências de aumento ou diminuição no desmate e servem de parâmetro para que os fiscais do Ibama atuem nas regiões mais ameaçadas.

Incêndios

Em agosto deste ano, foram registrados 30.901 focos de incêndio no bioma Amazônia, segundo dados divulgados dia 1° de setembro pelo Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Esse é o maior número registrado para o mês desde 2010, quando houve 45.018 focos.

Os dados mostraram ainda que, em relação ao mesmo mês do ano passado, os focos de incêndio triplicaram. Em agosto de 2018, foram registrados 10.421 incêndios. Entre janeiro e agosto deste ano, foram registrados ao todo 46.825 focos de incêndio na Amazônia. Esse número é mais do que o dobro observado no mesmo período do ano passado, 22.165.

Em resposta aos incêndios na Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro anunciou um decreto proibindo queimadas em todo o Brasil, por 60 dias. Um dia depois, porém, Bolsonaro voltou atrás e autorizou a prática em regiões que estão fora da Amazônia Legal.

A recente aceleração da devastação fez com que os governos de Alemanha e Noruega suspendessem repasses de verba ao Brasil para financiar projetos de desenvolvimento sustentável.

Devido ao desmatamento e às queimadas na região, Bolsonaro se tornou alvo de pesadas críticas de políticos europeus, que ameaçaram suspender o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE). Alguns políticos alemães chegaram a pedir sanções ao Brasil em razão da maneira como o governo Bolsonaro lida com o meio ambiente.

Bolsonaro se envolveu numa proloNgada troca de farpas com o presidente da França, Emmanuel Macron, que o acusou de mentir sobre suas políticas ambientais durante o encontro do G20 em junho, no Japão, onde foi concluído o pacto comercial entre o bloco dos países sul-americanos e a UE.

MD/efe/ots

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Este artigo foi originalmente produzido pela Deutsche Welle [Aqui!].

O Brasil na imprensa alemã (28/08)

Queimadas na Amazônia continuam dominando o noticiário na Alemanha. Mídia atribui desastre à política ambiental de Bolsonaro e sua ligação com o agronegócio. Mas consumidores alemães também são responsáveis, diz revista.

queimada“Imagens de florestas tropicais queimadas e troncos de árvore carbonizados correm o mundo”

Süddeutsche Zeitung – Dias de fogo (26/08)

Em face dos devastadores incêndios na Amazônia, cresce a pressão para que o Brasil mude sua política ambiental. Também o ministro alemão do Exterior, Heiko Maas, propõe agora que o Brasil seja pressionado a adotar uma maior proteção climática por meio do acordo comercial com o Mercosul. “O fato de o acordo com o Mercosul ter sido finalmente resolvido nos dá oportunidades e meio de pressão para influenciar o que lá acontece”, disse o político social-democrata nesta segunda-feira. Ele acrescentou que existem certos valores e padrões “sem os quais nós não embarcamos”. O presidente francês, Emmanuel Macron, também fez comentários similares.

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As Forças Armadas brasileiras começaram a jogar água nas áreas de incêndio com aviões de transporte Hércules. Ao mesmo tempo, a polícia está investigando os organizadores do chamado Dia do Fogo. A mídia local relatou que fazendeiros teriam combinado de queimar grandes áreas ao mesmo tempo, para dar espaço para pastos e plantações de soja. O ministro da Justiça, Sergio Moro, tuitou: “Incêndios criminosos na Amazônia serão severamente punidos.”

Esse é um novo tom, já que o presidente Jair Bolsonaro vem incentivando os agricultores a produzir fatos. O Ministério do Meio Ambiente teria tido conhecimento do planejado “Dia do Fogo”, mas não fez nada, segundo tuitou o jornalista investigativo Glenn Greenwald, que mora no Brasil. A diretora da Fundação Heinrich Böll no Rio de Janeiro, Annette von Schönfeld, também não vê mudanças políticas. “O governo Bolsonaro realmente não tem nenhum pensamento de política ambiental”, disse.

Spiegel Online – O negócio bilionário com os recursos naturais do Brasil (23/08)

Jair Bolsonaro ainda tem grandes planos para a Amazônia. Ele queria fazer da imensa área em torno do mais poderoso rio do mundo a “alma econômica” do Brasil, como anunciou o presidente recentemente durante uma visita à cidade de Manaus. “Nossa Amazônia, a região mais rica do planeta Terra”, disse Bolsonaro, acrescentando que ela pode se tornar o ponto de partida para uma nova recuperação econômica por todo o país. Em harmonia com a proteção ambiental, é claro.

O aumento dramático no desmatamento desde que Bolsonaro assumiu em janeiro ainda era uma questão regional na Amazônia naquela época. Mas agora as imagens de florestas tropicais queimadas, troncos de árvore carbonizados, grandes clareiras estéreis e o céu cinza escuro sobre São Paulo correm o mundo. E as estatísticas do instituto de pesquisa estatal Inpe parecem dar razão a todos os críticos, que sempre alertaram que a Amazônia seria impiedosamente explorada sob a égide de Bolsonaro.

(…)

Bolsonaro havia anunciado que reduziria as multas por delitos ambientais, reduziria os controles e liberaria as reservas indígenas para a mineração. Para ele, a conservação da natureza deve estar subordinada aos interesses da economia. E existem algumas empresas, corporações e indústrias que ganham muito dinheiro com a exploração da Amazônia. Em primeiro lugar está a poderosa indústria agrícola.

Focus Online – Nossa fome por carne e soja alimenta os incêndios florestais no Brasil (24/08)

As florestas tropicais do Brasil se tornaram um brinquedo das corporações do agronegócio. Onde hoje há incêndios, tem gado pastando amanhã. Os consumidores na Alemanha também são responsáveis pela ameaça à Região Amazônica. O maior apetite, no entanto, é dos chineses.

As imagens da floresta tropical em chamas no Brasil estão causando preocupação em todo o mundo. Embora os incêndios aconteçam a milhares de quilômetros da Alemanha, o desastre do outro lado do Atlântico também tem a ver com o comportamento do consumidor na Europa. Acima de tudo, o desejo por bifes suculentos e costeletas quentes alimenta o desmatamento e a queimada de grandes áreas na Amazônia.

“É claro que nossas ações na Alemanha têm muito a ver com a perda da floresta tropical”, diz o professor da economia mundial de alimentos da Universidade de Göttingen, Matin Qaim. “Por exemplo, estamos importando grandes quantidades de soja como ração para nossos bovinos e suínos, e o aumento do cultivo da soja está contribuindo para o corte de florestas tropicais no Brasil.”

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Este compêndio de notícias da imprensa alemã sobre a catástrofe ambiental na AmaZônia foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

O Brasil na imprensa alemã (21/08): boicote comercial e outras possibilidades

No debate sobre aumento do desmatamento na Amazônia e a suspensão de repasses para projetos ambientais no Brasil, publicações da Alemanha propõem sanções econômicas para pressionar Bolsonaro e frear destruição florestal.

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Queimada na Amazônia: “Futuro desse ecossistema não pode depender apenas de Bolsonaro”

Der Spiegel – Chegou a hora de impor sanções contra o Brasil (17/08)

A Amazônia diz respeito a toda a humanidade. O desenvolvimento do clima do mundo depende da preservação da floresta tropical. Portanto, não devemos deixar a decisão sobre o futuro desse ecossistema apenas para o presidente extremista de direita do Brasil, Jair Bolsonaro. A Europa não deve assistir inerte enquanto um cético da ciência, movido por preconceitos e pelo ódio, sacrifica vastas áreas de selva em favor de pecuaristas e plantações de soja.

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Chegou a hora de se pensar em sanções diplomáticas e econômicas contra o Brasil. Os produtos agrícolas brasileiros devem desaparecer dos supermercados da UE se não for possível comprovar que foram produzidos em condições ambientalmente justas. Os poderosos grandes fazendeiros, que apoiam decisivamente Bolsonaro, devem sentir que sua atitude tem um preço. Porque seu ídolo não só inflige danos imensuráveis a seu próprio país, mas ao mundo todo.

Die Zeit – Atingir onde mais dói (14/08)

Mas a questão crucial permanece: de que adianta cortar o dinheiro para a conservação da floresta de um parceiro que, de qualquer forma, não tem mesmo interesse na conservação da floresta – e ainda responde à pressão pública com ostensiva teimosia, ao invés de mostrar disposição em conversar?

Talvez seja mais promissor atingir o Brasil num ponto que mais dói: os interesses econômicos de seus exportadores, como, por exemplo, dos agricultores, que vendem soja e carne bovina em larga escala para metade do mundo. A União Europeia é um dos principais importadores e acaba de assinar um acordo de livre comércio com o Mercosul, o mercado comum sul-americano, como anunciado orgulhosamente pelos representantes dos Estados participantes na cúpula do G20 em Osaka. O Brasil é o maior membro do Mercosul.

É verdade que o acordo contém cláusulas sobre proteção climática e florestal. Mas, segundo se sabe até agora – por enquanto só existe uma versão preliminar do texto –, elas permanecem bastante gerais. Elas não estabelecem referências claras para medir se as partes cumprem suas promessas, nem definem sanções. E, para Bolsonaro, o papel tem paciência. De qualquer forma, desde a assinatura do acordo de livre comércio, nada indica que o governo brasileiro realmente esteja se esforçando em prol de políticas climáticas eficazes ou da proteção da Floresta Amazônica.

Se a UE deixasse claro que só importa produtos de soja e carne bovina que foram comprovadamente produzidos respeitando a proteção das florestas tropicais e que, de outra forma, paralisará as importações, isso seria um meio de pressão poderoso. Os agricultores brasileiros são – juntamente com os evangélicos e os militares – importantes apoiadores de seu presidente. Jair Bolsonaro dificilmente pode se dar ao luxo de irritá-los.

Frankfurter Allgemeine Zeitung – Briga de poder pela floresta tropical (20/08)

Para o presidente brasileiro, a Amazônia é uma “virgem”. Que agora está ameaçada. “Pervertidos” querem atacá-la, disse recentemente Jair Bolsonaro, se referindo à Europa. Os europeus, segundo ele, fingem proteger a Amazônia para explorá-la no futuro. “Eles acham que a Amazônia não pertence aos brasileiros.”

Bolsonaro recusa conselhos e avisos sobre como ele deve lidar com os cerca de 5,5 milhões de quilômetros quadrados de área florestal em seu país. Ele quer promover o desenvolvimento econômico da Amazônia sem ser perturbado. Suas palavras caem em terreno fértil no país, revivendo um velho medo dos brasileiros de que a floresta tropical possa cair em mãos de uma potência estrangeira ou ser colocada sob administração internacional. Isso vem do tempo da ditadura militar. Sob o medo de se perder o controle da Amazônia, na época, estradas foram cortadas através da floresta, e colonos foram enviados para a região. Massacres da população indígena se seguiram.

(…)

Em Berlim, impera um sentimento de insegurança. É difícil se saber com quais meios Bolsonaro pode ser convencido a mudar de atitude em relação ao tema Amazônia – se é que isso é possível. A mesma questão surge com relação ao acordo de livre comércio entre a UE e a cooperação sul-americana Mercosul. As negociações foram concluídas no início de julho, e o governo em Brasília celebrou o acordo como um sucesso revolucionário. No pacto, o país se compromete a implementar o Acordo de Paris sobre Mudança do Clima e combater o desmatamento. Os europeus podem tornar a conservação da floresta tropical uma condição para diminuir tarifas? Ou será que isso teria o efeito exatamente oposto sobre Bolsonaro? Naturalmente, existe também a preocupação de que o acordo crie um incentivo para desmatar mais terras florestais, a fim de aumentar a cota de exportação de soja, por exemplo. A França já anunciou que não ratificará o acordo se o Brasil não combater o desmatamento na Amazônia.

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Este material foi originalmente compilado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Desmatamento na Amazônia: a sombra do boicote às commodities brasileiras aponta no horizonte

bolso boicotePolíticas anti-ambientais e declarações provocadores do presidente Jair Bolsonaro devem resultar em um amplo comercial às commodities agrícolas brasileiras

O Brasil, muito em parte graças à postura diplomática desastrosa do presidente Jair Bolsonaro, está semeando muitos ventos e poderá acabar colhendo fortes tempestades  em função do que está acontecendo na Amazônia neste momento.  É que pode se denotar pela informação que dois dos principais veículos da mídia a Alemanha  (a revista a Der Spiegel e o jornal Die Zeit) começaram a falar abertamente na realização de um boicote aos produtos agrícolas brasileiros por causa da forma irresponsável com que o governo brasileiro vem tratando a explosiva expansão da franja de desmatamento para dentro das regiões mais interiores da Amazônia.

Para agravar o quadro, o presidente Jair Bolsonaro foi pego divulgando um vídeo de uma caçada à baleias nas Ilhas Faroe (que é parte da Dinamarca) como se representasse uma ação realizada pela Noruega que recentemente descontinuou o financiamento do chamado Fundo Amazônia justamente por causa do avanço descontrolado do desmatamento na Amazônia. 

Enquanto isso a campanha de boicote iniciada pelo CEO da rede Paradiset , Johannes Cullberg, continua ganhando corpo na Suécia, tendo sido criada uma página oficial na rede social Facebook para ampliar a comunicação dentro e fora do país escandinavo.

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Um dado curioso sobre o avanço da ideia de boicote a produtos brasileiros por causa do avanço do desmatamento e do uso de agrotóxicos proibidos na União Europeia está ganhando versões similares em outros países além da Suécia que pode aumentar exponencialmente a pressão contra a ratificação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia.

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Esse cenário já fazendo com que diversas vozes do interior dos setores que hoje se beneficiam da exportação de commodities agrícolas a emitirem alertas sobre os riscos que estão sendo postos na mesa por causa das políticas anti-ambientais, destacando-se entre essas vozes as dos ex-ministros da Agricultura e latifundiários Blairo Maggi e Kátia Abreu. Entretanto, na última edição dominical do jornal “Folha de São Paulo” também foi dado amplo espaço ao pecuarista Mauro Lúcio Costa que possui opera com pecuária bovina no município paraense de Paragominas onde o mesmo alerta para os riscos trazidos pelas visões ambientalmente regressivas do governo Bolsonaro.

Eu particularmente tenho uma forte desconfiança que o presidente Jair Bolsonaro e seus ministros anti-ambiente (Tereza Cristina, Ricardo Salles e Ernesto Araújo) não irão dar ouvidos às preocupações de setores mais pragmáticos do latifúndio agro-exportador, visto que as alianças estabelecidas durante a campanha eleitoral foram com setores que são extremistas em suas posições anti-ambiente e anti-povos indígenas. E estes setores estão extremamente com a piromania que emana do interior do governo Bolsonaro. Aliás, se alguma crítica existe a mesma se dá no sentido de que toda as regressões já cometidas nas políticas anti-ambientais ainda são insuficientes. Essa é a verdade.

O mais interessante é que em meio à guerra comercial que está em pleno curso entre EUA e China, uma das peças que serão movidas no tabuleiro será justamente a do comércio de commodities agrícolas. O problema é que se União Europeia decidir migrar suas comprar para os fazendeiros dos EUA, não há nenhuma garantia de que os chineses se moverão em igual direção aos latifundiários brasileiros. A razão para isso é simples: nos últimos anos, a China formou gigantescos estoques de commodities, o que possibilita aos chineses adotar uma posição mais pragmática e orientada sobre e quanto comprar. Em outras palavras, os EUA estão muito mais para competidores do que aliados do Brasil na questão das commodities, um fator que parece estar sendo francamente desprezado pelo presidente Jair Bolsonaro e seus ministros pró-EUA.

E se o pior acontecer e o Brasil for reduzido a uma posição de pária internacional por causa das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro, os latifundiários que fizeram campanha para Jair Bolsonaro só terão a si mesmos para culpar.

 

A devastação da Amazônia e os riscos crescentes do isolamento internacional do Brasil

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Múltiplas evidências apontam no sentido de que a porção brasileira da bacia Amazônica está experimentando uma retomada dos ritmos explosivos de desmatamento que marcaram a região durante os anos de 1970. Mas ao contrário do que aconteceu cinco décadas atrás, existem ferramentas de mensuração e publicização de formas predatórias de uso dos recursos naturais existentes na Amazônia.

As primeiras consequências da constatação do avanço explosivo da franja de desmatamento foram a demissão do físico Ricardo Galvão da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) por ter cometido o “pecado” de não ter escondido os números do desmatamento. Depois e provavelmente como consequência disso, os governos da Alemanha e da Noruega resolveram suspender o envio de cerca de R$ 300 milhões que seriam investidos em projetos de conservação.

A resposta do governo brasileiro a partir do que vem dizendo o presidente Jair Bolsonaro é um misto de incompreensão e afronta. Uma das pérolas foi sugerir ao governo de Angela Merkel que utilize os recursos retidos na conservação de suas próprias florestas, aparentemente sem saber que a Alemanha é um dos países mais florestados do continente europeu. A resposta alemã veio na forma de um vídeo sarcástico publicado pela Embaixada da Alemanha em Brasília onde somos convidados a visitar os parques nacionais alemães onde a beleza natural se mistura com a eficiência de sua proteção.

O problema é que, por falta de um ministro de Relações Exteriores com um mínimo de capacidade de representar bem os interesses brasileiros,  não se está entendendo o real significado da suspensão do envio de, convenhamos, uma quantia que é pequena em relação ao montante da balança comercial que o Brasil possui com a União Europeia da qual a Alemanha é um dos principais membros.  Como já escrevi aqui, o que Alemanha e Noruega estão fazendo é iniciar um alerta não ao presidente Jair Bolsonaro, mas aos líderes do latifúndio agro-exportador para que contenham o ímpeto do governo federal no sentido de permitir o desmatamento desenfreado da Amazônia e do Cerrado.  E os pontos do relógio para que os donos do “agronegócio” ajam já começaram a girar.

E os pontos tenderão a girar mais rápido se aos grileiros, madeireiros e garimpeiros que continuem sua marcha de devastação sem serem incomodados. Não entender os motivos da diplomacia europeia para exigir a contenção do desmatamento na Amazônia levará em um primeiro momento ao que o ex-ministro e latifundiário da soja Blairo Maggi vaticinou como uma volta à estaca zero do agronegócio brasileiro. Depois disso virão outras consequências duras e que deverão em um amplo isolamento do Brasil no cenário internacional.  O caminho da transformação do Brasil em um pária internacional está sendo aberto nas florestas amazônicas.

Criticada por Bolsonaro, Alemanha divulga vídeo em resposta

Após presidente dizer que chanceler deveria ‘reflorestar’ o país, embaixada no Brasil diz que Alemanha ‘é um dos países mais florestados da Europa’

Por André Borges

A Embaixada da Alemanha publicou um vídeo nesta quinta-feira, 15, para divulgar seus principais parques florestais no País e convidar as pessoas a conhecerem a natureza preservada pelo país europeu. O vídeo, com mensagens em português, foi divulgado na conta do Facebook da embaixada.

A divulgação ocorre um dia depois de o presidente Jair Bolsonaro dizer que a chanceler alemã, Angela Merkel, deve “pegar a grana” bloqueada para preservação ambiental no Brasil e reflorestar a Alemanha. “Eu queria até mandar um recado para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu US$ 80 milhões para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui”, disse Bolsonaro.

“Você sabia que a Alemanha é um dos países mais florestados da Europa? As florestas alemãs são destinos turísticos imperdíveis”, afirma a embaixada no vídeo, que contém imagens de diversas florestas protegidas do país. As mensagens afirmam que a área das florestas alemãs cresceu em mais de 1 milhão de hectares nas últimas cinco décadas e que cobrem um terço do território nacional.

“Hoje a Alemanha é um dos países mais densamente florestados Europa. Partiu visitar a natureza alemã?”, convida a embaixada.

Em 3 de julho, reportagem do Estado revelou que a Alemanha havia decidido reter uma nova doação de 35 milhões de euros, o equivalente a mais de R$ 155 milhões, para o Fundo Amazônia. O bloqueio foi confirmado pelo governo alemão no último sábado, 10. O país já repassou R$ 193 milhões para o programa.

Nesta quinta-feira, 15, foi a vez de a Noruega anunciar a suspensão de um repasse de R$ 133 milhões ao fundo. Juntos, os dois países já doaram R$ 3,4 bilhões para o programa.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Portal Terra [Aqui!].