Marketing acadêmico: “O mundo dos alimentos em transformação” de John Wilkinson

wilkinson

Graças ao jornalista João Anschau e seu podcast “Salve Terra”, acabo de ter contato com o livro escrito pelo professor John Wilkinson da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro que se intitula “O mundo dos alimentos em transformação” que foi publicado pela Appris Editora. 

Essa é uma obra particularmente importante para entendermos o papel do sistema agroalimentar dominante na destruição da biodiversidade e na geração de formas de produção de alimentos que são claramente insustentáveis. Desde o seu ponto de vista, Wilkinson considera que este sistema está quebrado.

Saber mais do papel das grandes empresas que controlam o sistema agroalimentar na geração de um sistema que impõe determinados padrões de consumo apenas para garantir suas altas taxas de lucro.

Por isso, não tenho dúvida em recomendar essa obra do professor Wilkinson. Na Appris Editora, o livro “O mundo dos alimentos em transformação” pode ser comprado [Aqui!].

Filme inédito explora ligação controversa entre Europa e Brasil na fabricação e uso de agrotóxicos

comida agrotóxicos

O documentário inédito Pesticidas: O Pesadelo Brasileiro”, a ser exibido no Curta!, revela a perigosa ligação entre a Europa e o Brasil na fabricação e no consumo de agrotóxicos O filme, realizado por Stenka Quillet e escrito por Anne-Vigna com Nicolas Glimois, foca em dois grandes eixos: os grandes fabricantes europeus que faturam bilhões com a exportação de agrotóxicos proibidos na Europa e o uso indiscriminado desses mesmos produtos pelos gigantes do agronegócio brasileiro. Há ainda uma consequência inesperada para os próprios europeus: como num círculo vicioso, eles importam o que é produzido nas plantações brasileiras e, consequentemente, acabam consumindo agrotóxicos proibidos em seus países.

“Pesticidas: O Pesadelo Brasileiro” mostra que, a cada ano, cerca de 80 mil toneladas dessas substâncias são vendidas ao país por empresas como a suíça Syngenta e as alemãs Basf e Bayer. Em paralelo, aqui há uma legislação permissiva ao uso de químicos já banidos em solo europeu há décadas, além de práticas também proibidas como a disseminação através de aviões de pequeno porte. 

Enquanto tais corporações lucram, cidades inteiras — sobretudo os trabalhadores rurais — sofrem com as consequências da contaminação dos alimentos, do solo e da água. Além das gigantescas áreas ocupadas pelas monoculturas de soja, milho e algodão — que tomam o lugar de matas nativas do Cerrado brasileiro —, o agronegócio brasileiro cria “zonas de sacrifício”, onde a população está mais vulnerável aos impactos dos agrotóxicos. Como num círculo vicioso, os europeus importam o que é produzido nas plantações brasileiras e, consequentemente, acabam consumindo agrotóxicos proibidos em seus próprios países.

O documentário baseia-se na pesquisa da professora da USP e geógrafa Larissa Bombardi, que revela como a indústria química europeia depende da expansão das áreas agrícolas no Brasil. Ao ser convidada a Bruxelas por eurodeputados, a professora pediu à União Europeia que revisse seus padrões de comércio e impedisse suas transnacionais de venderem ao Brasil os defensivos agrícolas proibidos pelo bloco. 

“É desumano vender substâncias que são proibidas no próprio território. A população no Brasil vale menos? Cerca de 20% da população intoxicada no Brasil é composta por crianças e jovens de 0 a 19 anos. Então, estamos diante de uma forma de infanticídio. Eu fico tranquila para usar essa palavra porque os dados mostram isso. O que são 500 bebês intoxicados com agrotóxicos? Como isso é possível?”, disse Bombardi em depoimento para o documentário. Os dados alarmantes apresentados por ela indicam que o total de bebês intoxicados pode chegar a 25 mil. 

No Brasil, o tema dos agrotóxicos parece ser um tabu devido ao grande poder político-econômico do agronegócio. No entanto, jornalistas, pesquisadores, cientistas e demais ativistas ambientais se esforçam para informar a população e pressionar os parlamentares. O documentário destaca que, a cada ano, cinquenta deles são assassinados no Brasil. A própria produção do filme foi marcada por incidentes, incluindo ameaças a membros da equipe e a necessidade de apagar partes da gravação devido a pressões locais.

O documentário traz um pouco do contexto político dos últimos anos. Após a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, os grandes donos do agronegócio — apelidados de “ruralistas” — ganharam carta branca para garantir seus interesses. Por fim, o longa deixa em aberto o que acontecerá com a política ambiental do Brasil a partir de 2023, com o início de um novo governo. O noticiário recente, porém, revela que nada mudou. No primeiro semestre deste ano, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento aprovou o registro de 231 pesticidas, mantendo um ritmo semelhante ao do primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro.

“Pesticidas – O Pesadelo Brasileiro” pode ser assistido também no Curta!On – Clube de Documentários, disponível na Claro TV+ e em CurtaOn.com.br. Novos assinantes inscritos pelo site têm sete dias de degustação gratuita de todo o conteúdo. O documentário tem produção da ARTE France. A estreia é na Sexta da Sociedade, 8 de setembro, às 23h.

Estudo publicado pela Frontiers in Public Health relaciona dieta contendo alimentos contaminados por agrotóxicos ao desenvolvimento de câncer no Brasil

agrotoxicos

A partir dos últimos dados publicados liberados em 2018 pelo “Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos” (PARA), um grupo de pesquisadores de diferentes instituições públicas de ensino superior do Paraná e de Santa Catarina, do Instituto Nacional do Câncer e da Universidade de Montréal do Canadá produziram um estudo publicado na revista científica Frontiers in Public  Health que lança luz sobre o consumo de alimentos contaminados por diferentes tipos de agrotóxicos e sobre o risco de desenvolvimento de diferentes tipos de câncer associados diretamente à dieta alimentar dos brasileiros.

Uma das novidades deste estudo é que os pesquisadores não apenas identificaram o número de agrotóxicos presentes em cada alimento analisado , mas também apontaram os tipos de câncer que estão relacionados a cada um desses agrotóxicos. Além disso, o estudo aponta para a necessidade de que se leve em conta a interação que acaba ocorrendo no organismo dos indivíduos que consomem múltiplos tipos de agrotóxicos, cada um deles sendo potencial causador de diferentes formas de câncer (ver figura abaixo).

alimentos residuos

Os autores alertam para a gravidade do problema relacionado à exposição a alimentos contaminados por agrotóxicos e lembram que “aproximadamente 80% dos agrotóxicos autorizados no Brasil não são permitidos para uso em pelo menos três países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), incluindo países que têm a agricultura como atividade econômica essencial”.   O problema é que várias das principais empresas fabricantes dessas substâncias proibidas estão sediadas em países que são fornecedores diretos de agrotóxicos utilizados em larga escala pelo latifúndio agro-exportador no Brasil e na maior parte do chamado Sul Global.

Os autores argumentam ainda que a exposição a agrotóxicos no Brasil viola muitos direitos humanos da população, na medida em que o direito à vida é potencialmente violado quando os agrotóxicos contaminam os alimentos e a água para consumo humano. 

O que mostrará o PARA após quatro anos de liberou geral do governo Bolsonaro?

Há que se lembrar que o PARA ficou paralisado durante os quatro anos de governo de Jair Bolsonaro, o mesmo período em que foram liberados 2.030 agrotóxicos, muitos deles inclusos na lista de agrotóxicos banidos na União Europeia. Como nesse período também foram afrouxados os mecanismos de comando e controle, o que inevitavelmente deve ter aumentado o uso descontrolado de agrotóxicos, inclusive naquelas culturas produzidas para abastecer o mercado interno de frutas e legumes.

A questão é que muito certamente a próxima edição do PARA deverá trazer informações que confirmarão a extrapolação dos limites considerados seguros para a presença de resíduos de agrotóxicos nos alimentos consumidos pelos brasileiros. E com isso, como mostrado neste estudo, a chance de que as relações de sinergia entre os diferentes agrotóxicos presentes nos alimentos produzidos para alimentar os brasileiros também estejam mais aceleradas não é nada desprezível.

Conselho científico alemão aponta que é necessário transformar o setor de alimentos

O conselho consultivo fornecei um inventário crítico da indústria agrícola e alimentar e as áreas de pesquisa associadas

261348

Riscos relacionados à dieta causam altos custos no sistema de saúde. Foto: dpa
Por Manfred Ronzheimer para o “Neues Deutschland”

A agricultura e a indústria alimentar são irmãs económicas: uma cultiva o que a outra transforma em comida. O Conselho Científico da Alemanha examinou mais de perto como a pesquisa está progredindo em ambos os campos e agora apresentou um documento de posição sobre as “Perspectivas das Ciências Agrícolas e Nutricionais” na Alemanha, que é algo incrível.

A votação do mais importante órgão de consultoria em política científica na Alemanha é dividida em duas partes. Um inventário surpreendentemente crítico do “registro de pecados” ecológico e médico da indústria agrícola e alimentar é seguido pela formulação de uma “imagem-alvo” positiva, para qual estado futuro deve ser almejado, e as etapas centrais de implementação no sistema de pesquisa.

Ao fazer o balanço, os especialistas não medem palavras. Apesar do desempenho enorme e cada vez maior dos sistemas agrícolas e alimentares, chegou-se a uma situação em que cerca de um décimo da população mundial sofre de fome crônica e significativamente mais de um terço não pode pagar alimentos saudáveis. Tendo em vista o crescimento da população mundial, espera-se que a situação alimentar continue a se deteriorar.

A forma como os alimentos são produzidos também causa enormes danos ao meio ambiente e é responsável por cerca de um quinto da superexploração das águas subterrâneas, por um terço da degradação do solo e pela metade da perda da biodiversidade. A criação de novas terras agrícolas é responsável por cerca de 90% do desmatamento global . Além disso, o sistema agrícola e alimentar consome atualmente cerca de um terço da energia gerada no mundo e, portanto, também produz cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa . De acordo com as previsões atuais, os custos sociais das emissões globais de gases de efeito estufa somarão mais de 1,7 trilhão de dólares americanos anualmente até 2030.

Dieta como um risco para a saúde

Depois, há as consequências médicas. Só na Alemanha, cerca de um terço de todos os custos do sistema de saúde são causados ​​por doenças direta ou indiretamente relacionadas a fatores nutricionais. Em 2017, os riscos relacionados à nutrição foram responsáveis ​​por cerca de 22% das mortes de adultos em todo o mundo, o Conselho Científico citou estudos internacionais. Na Alemanha, cerca de 14% de todas as mortes em 2019 foram associadas a uma dieta pouco saudável.

A consequência desse inventário dramático é óbvia: “Uma transformação dos sistemas agrícolas e alimentares disfuncionais em muitos aspectos é, portanto, absolutamente necessária e urgente”, adverte o Conselho Científico.

O comitê vê a reorientação das ciências agrícolas e nutricionais como uma tarefa de longo prazo. Isso não está associado apenas a “mudanças estruturais e processuais” nas 115 instituições de ciências agrícolas e nutricionais na Alemanha. Disciplinas vizinhas também são afetadas, assim como a sociedade como um todo, razão pela qual a parte das medidas também contém recomendações para transferência de tecnologia e divulgação científica.

Troca com a sociedade

Os especialistas veem quatro grandes complexos de mudança chegando às ciências agrícolas e nutricionais. Por um lado, há um aumento dos “esforços de integração” nas disciplinas individuais, desde a pesquisa ao ensino, transferência para infraestruturas de dados e digitalização, de modo que a informação e o conhecimento possam ser reunidos e comunicados através das fronteiras disciplinares. Trata-se também de novas oportunidades de participação, que permitem aos cientistas trocar ideias desde o início e de forma consistente sobre as necessidades de pesquisa com parceiros de outras áreas da sociedade e »desenvolver em conjunto opções de solução e caminhos de transformação e ser capaz de concordar sobre metas e sinergias conflitantes« .

Um importante campo de ação dentro da ciência é um novo ajuste de »reputação e reconhecimento«, que até agora ocorreu por meio de pesquisa. Essa apreciação, que também afeta as oportunidades de carreira, deve no futuro também ser mostrada aos cientistas “pelas realizações transformadoras desafiadoras, intensivas em recursos e socialmente urgentes dentro e fora do sistema acadêmico”. Por último, mas não menos importante, de acordo com a recomendação do Science Council, é importante dar às ciências agrícolas e nutricionais »visibilidade e voz no contexto nacional, europeu e global«. Isto com o intuito não só de poder “aconselhar de forma fundamentada a vertente política”,

Novo conselho consultivo pediu

Sob certas circunstâncias, novas instituições podem ser criadas para fornecer melhor assessoria aos políticos. “Não existe um órgão consultivo em nível nacional que supervisione as relações sistêmicas, inicie novas pesquisas (também envolvendo grupos de atores não acadêmicos) e desenvolva metas de curto, médio e longo prazos e os correspondentes caminhos de transformação para a política entre departamentos e países”, diz o documento do Conselho.

O conceito de reforma do Conselho Científico é bem pensado, mas inicialmente quer ser apenas um prelúdio dessa forma. Um relatório abrangente de recomendações está planejado para 2024.


compass black

Este escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui! ].

Sensor de papel detecta agrotóxico em alimentos de modo rápido e barato

maça agroDispositivo criado na USP se assemelha a um medidor de glicose usado por diabéticos; ao entrar em contato com a superfície de frutas e legumes, ele identifica e mensura a quantidade do fungicida carbendazim – amplamente empregado no Brasil, apesar de proibido (foto: acervo dos pesquisadores)

Por Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um sensor eletroquímico de papel kraft capaz de detectar em tempo real a presença de pesticida em frutas e verduras. Ao entrar em contato com maçãs ou repolhos, por exemplo, o sensor, ligado a um dispositivo eletrônico, identifica a presença e mensura a quantidade do fungicida carbendazim – amplamente utilizado no Brasil, apesar de proibido.

O trabalho, apoiado pela FAPESP por meio de três projetos (18/22214-619/13514-9 e 22/03758-0), envolveu grupos dos institutos de Física (IFSC-USP) e de Química (IQSC-USP) do campus de São Carlos. Os resultados foram divulgados na revista Food Chemistry.

“Para verificar a presença de pesticidas em alimentos por meio de abordagens convencionais é preciso triturar uma amostra, submetê-la a processos químicos demorados para só então detectar a substância. Os sensores vestíveis, como o que desenvolvemos para o monitoramento contínuo da concentração de pesticidas na agricultura e na indústria de alimentos, eliminam a necessidade desses procedimentos complexos. Fica muito mais fácil, barato, além de ser muito mais confiável para um supermercado, restaurante ou importador fazer a verificação”, afirma Osvaldo Novais de Oliveira Junior, professor do IFSC-USP.

O novo dispositivo tem grande sensibilidade e se assemelha aos medidores de glicose [glicosímetro] utilizados por diabéticos. Para medir a quantidade de agrotóxico em alimentos, o sensor eletroquímico capta a presença do fungicida e o resultado pode ser acessado, em questão de minutos, por meio de um aplicativo de celular.

“Nos testes que realizamos, o dispositivo teve sensibilidade semelhante à do método convencional. Tudo de uma forma mais rápida e barata”, conta José Luiz Bott Neto, pós-doutorando e autor correspondente do artigo que descreve o desenvolvimento da ferramenta.

Como funciona

Como explica Bott Neto, o dispositivo é basicamente um substrato de papel modificado com tinta de carbono e submetido a um tratamento eletroquímico em meio ácido para a ativação de grupos carboxílicos – o que permite fazer a detecção.

“Utilizamos o mesmo sistema empregado na serigrafia [estamparia de roupas] para fazer a transferência da tinta condutora de carbono para a tira de papel kraft, criando assim um dispositivo baseado em eletroquímica. O dispositivo é confeccionado com três eletrodos de carbono e mergulhado em uma solução ácida para a ativação dos grupos carboxílicos. Em outras palavras, átomos de oxigênio são adicionados na estrutura do eletrodo de carbono. Ao entrar em contato com uma amostra contaminada com carbendazim, o sensor induz uma reação de oxidação eletroquímica que permite a detecção do fungicida. Assim, a quantidade de carbendazim é medida via corrente elétrica”, explica Bott Neto à Agência FAPESP.

Para desenvolver o dispositivo, os pesquisadores avaliaram a estabilidade e o impacto da estrutura do papel na construção dos sensores. “Além do desenvolvimento do dispositivo, o trabalho teve uma parte voltada para entender a questão das propriedades do papel na fabricação do dispositivo”, conta o pós-doutorando Thiago Serafim Martins.

Melhor opção

Os pesquisadores analisaram dois tipos de papel: o kraft e o pergaminho. Ambos se mostraram estáveis o suficiente para a construção dos sensores. Porém, segundo Martins, a natureza porosa do papel kraft conferiu maior sensibilidade ao sensor e aos grupos carboxílicos formados durante a ativação eletroquímica.

Ele explica que a fabricação dos eletrodos em papel abre a possibilidade para diversas aplicações. “Existem eletrodos comerciais feitos com plástico ou cerâmica. No nosso trabalho, conseguimos desenvolver sensores eletroquímicos com papel, um material muito mais maleável, o que amplia o seu uso em vários campos, não apenas na agricultura ou no setor alimentício, mas em outras áreas como a da saúde, por exemplo”, diz.

O artigo Optimized paper-based electrochemical sensors treated in acidic media to detect carbendazim on the skin of apple and cabbage pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0308814623000456?via%3Dihub.


compass black

Este texto foi originalmente publicado pela Agência FAPESP [Aqui!].

Planos de empresas de alimentos para meta climática de 1,5°C ficam aquém do necessário, dizem ativistas

Grandes produtores de soja e carne bovina acusados ​​de não cumprir promessas de parar o desmatamento

grazing burning

O gado pasta perto de uma área queimada da floresta amazônica perto de Novo Progresso, estado do Pará, Brasil. Fotografia: João Laet/AFP/Getty

Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”

As maiores empresas de alimentos do mundo, cujos produtos estão ligados à destruição generalizada de florestas tropicais, não conseguiram criar uma estratégia adequada para alinhar suas práticas de negócios com a meta climática de 1,5°C, de acordo com ativistas.

Os principais produtores de soja, óleo de palma, cacau e gado publicaram seu roteiro para se alinhar com 1,5°C no início desta semana, prometendo desenvolver e publicar metas específicas de commodities e com prazo determinado para interromper o desmatamento, que serão apoiadas pela ciência e verificadas a cada ano. As empresas incluem a empresa brasileira de carne bovina JBS, a empresa agrícola americana Cargill e a empresa de processamento de alimentos de Cingapura Wilmar International.

A mudança no uso da terra é o segundo maior fator de aquecimento global atrás da queima de combustíveis fósseis e a maior causa de perda de biodiversidade, enquanto deter a destruição de florestas tropicais é uma parte fundamental do combate às crises climáticas e de biodiversidade. Para cumprir o 1.5C, toda a conversão do uso da terra deve parar até 2030, com progressos significativos feitos até meados da década, segundo os cientistas .

Embora os ativistas reconheçam que algum progresso foi feito, especialmente com o óleo de palma, eles argumentam que as empresas falharam em grande parte em cumprir a ambição que prometeram em soja e carne bovina.

O desacordo entre ativistas e empresas é sobre a data em que as empresas devem parar o desmatamento. Cristiane Mazzetti, uma ativista florestal sênior do Greenpeace Brasil, disse que algumas das empresas haviam prometido eliminar o desmatamento de suas cadeias de suprimentos até 2020 e falharam.

“Não podemos permitir mais lavagem verde ou comportamento imprudente dessas empresas que lucram com a destruição de ecossistemas e apresentam mais atrasos e planos inadequados para deter e reverter a destruição que causam e que continuará a fritar o planeta”, disse ela.

A Malásia e a Indonésia, que abrigam a maior parte do setor mundial de óleo de palma, tiveram sucesso na redução do desmatamento nos últimos anos, em parte por causa de uma melhor regulamentação.

Nico Muzi, diretor-gerente do grupo ambientalista Madre Brava, disse que o plano anunciado na Cop27 representa algum progresso, mas disse que o compromisso ficou aquém do que era necessário, especialmente no setor de carnes. “Há duas omissões flagrantes: uma data limite para parar o desmatamento causado pela soja agora e a exclusão da conversão pela pecuária e expansão da soja da maior região de savana da América do Sul, o Cerrado brasileiro”, disse ela.

André Vasconcelos, da Global Canopy, disse que o plano é encorajador, pois as empresas envolvidas representaram mais de 60% das exportações de soja brasileira, 50% da carne bovina brasileira e 45% das exportações de óleo de palma da Indonésia em 2020, embora alguns dos principais produtores estejam faltando . Mas ele acrescentou que as empresas precisam ir mais longe para que o plano tenha credibilidade.

“Combater o desmatamento é essencial para ficar abaixo de 1,5°C”, disse ele. “Os comerciantes precisam ir mais longe, mais rápido. O roteiro precisa de uma postura proativa para evitar desmatamento e conversão futuros, incluindo um compromisso concreto de não investir em mais desenvolvimento de infraestrutura nas principais fronteiras de desmatamento. É preciso haver um compromisso com uma data de corte comum entre commodities que inclua todos os tipos de ecossistemas”.

Jack Hurd, diretor executivo da Tropical Forest Alliance que ajuda a supervisionar o roteiro através do Fórum Econômico Mundial, disse discordar de que não houve progresso suficiente e disse estar particularmente satisfeito com o movimento na indústria pecuária.

compass black

Este artigo escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Disparada da inflação no preço dos alimentos é a maior desde o início do Plano Real

Inflação dos alimentos é a maior até setembro desde o início do Plano Real. Carestia da comida reflete uma série de fatores em 2022 

carestia alimentosConsumidor tem sentido a elevação dos preços a cada vez que vai às compras(foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

Por Leonardo Vieceli para a FolhaPress

Apesar dos recentes sinais de trégua dos preços no Brasil, o grupo alimentação e bebidas ainda acumula inflação de 9,54% no ano, de janeiro a setembro.

Trata-se do avanço mais intenso para o acumulado de janeiro a setembro desde 1994 (915,08%), quando o Brasil ainda vivia o reflexo da hiperinflação.

O IPCA, calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), é o índice oficial de preços do país.

De acordo com analistas, a carestia da comida reflete uma série de fatores em 2022. No começo do ano, fortes chuvas prejudicaram plantações em regiões como o Sudeste. O Sul, por outro lado, amargou período de seca.

Os extremos climáticos reduziram a oferta de mercadorias diversas, como verduras e legumes, o que afetou os preços.

Também houve pressão de custos. Insumos usados no campo ficaram mais caros durante a pandemia, elevando os gastos para a produção de alimentos.

A situação foi intensificada pela Guerra da Ucrânia. Commodities agrícolas tiveram alta nas cotações após o início do conflito, em fevereiro. A guerra ainda gerou pressão adicional sobre os preços de insumos no mercado internacional.

“O diagnóstico ainda é de uma inflação alta”, diz o economista Luca Mercadante, da Rio Bravo Investimentos.

“É uma inflação que tem impacto importante, que pesa na vida das pessoas. Elas percebem isso”, completa.

Em setembro, o grupo alimentação e bebidas até recuou 0,51% no IPCA. Foi a maior baixa desde maio de 2019 (-0,56%) e a primeira desde novembro de 2021 (-0,04%).

Com o resultado, a inflação acumulada no ano desacelerou de 10,10% até agosto para 9,54% até setembro. No acumulado de 12 meses, a alta passou de 13,43% para 11,71%.

A trégua em setembro foi puxada pelo leite longa vida, que havia disparado anteriormente, em meio a período de entressafra.

“Temos uma desaceleração. Setembro foi um sinal disso, muito em razão do leite”, diz o economista Raphael Rodrigues, do banco BV.

Analistas avaliam que os alimentos tendem a ficar em um patamar elevado de preços até dezembro, mas com avanços mais moderados do que no começo do ano. Por ora, as projeções não sinalizam novas deflações para o grupo até o final de 2022.

“Tende a desacelerar, mas deve continuar pressionado, inclusive em 2023”, indica Rodrigues.

Ele acrescenta que, antes da pandemia, os preços de alimentos como as carnes já vinham em alta, devido a descompassos entre oferta e procura.

A carestia afeta sobretudo a população mais pobre, porque a compra de alimentos consome uma fatia maior do orçamento dessas famílias na comparação com faixas de renda mais elevadas.

Nesse sentido, o governo federal anunciou a ampliação do Auxílio Brasil para R$ 600 a partir de agosto. O benefício pretende aumentar o poder de compra dos mais pobres no ano eleitoral, enquanto a inflação dos alimentos ainda pesa no bolso dos brasileiros.

No acumulado do ano, o melão foi o alimento que mais subiu dentro do IPCA. A alta dos preços alcançou 74,37% até setembro.

Cebola (63,68%) e leite longa vida (50,73%) vieram em seguida. O tomate, por outro lado, teve a maior queda (-28,01%).

Auxílio só compra cesta em cinco capitais Em setembro, o preço médio da cesta básica diminuiu em 12 das 17 capitais que integram levantamento mensal do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

Mesmo assim, apenas 5 das 17 metrópoles pesquisadas tinham cesta básica abaixo de R$ 600, o valor do Auxílio Brasil.

São Paulo, por outro lado, seguiu com a cesta básica mais cara em setembro: R$ 750,74. Florianópolis (R$ 746,55), Porto Alegre (R$ 743,94) e Rio de Janeiro (R$ 714,14) vieram na sequência.

Além de ampliar o Auxílio Brasil, Bolsonaro também apostou no corte de tributos para aliviar a inflação, o que atingiu itens como combustíveis e energia elétrica.

Em setembro, o IPCA, de modo geral, caiu 0,29%. A deflação foi a terceira consecutiva, movimento puxado pela baixa da gasolina.

O petróleo, contudo, voltou a subir nos últimos dias, o que pressiona os preços dos combustíveis no Brasil. A Petrobras vem evitando repasses nas refinarias às vésperas do segundo turno das eleições.

Mesmo assim, após 15 semanas de queda, o valor médio da gasolina passou a avançar nos postos brasileiros, conforme pesquisa semanal da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis). O combustível foi vendido a R$ 4,86 por litro, em média, na semana passada.


compass black

Este texto foi publicado pelo jornal “Estado de Minas” [Aqui!].

Entidades se articulam e grupo de senadores assina requerimento para que o PL que enfraquece fiscalização sanitária dos alimentos seja votado em plenária

Organizações alertam que se aprovado, este PL do Autocontrole poderá trazer enormes prejuízos para a saúde pública, para o bem-estar dos animais, terá impacto ambiental, comprometerá a renda de pequenos produtores, além de ir contra o direito do consumidor.

aurtocontrole

São Paulo, 01 de julho de 2022 – ONGs de proteção animal, ambiental, de defesa do consumidor, direitos dos trabalhadores da indústria de alimentos, direito dos pequenos produtores rurais, organizações de saúde humana e os próprios fiscais agropecuários se uniram contra o Projeto de Lei (PL) Nº 1.293/2021, também conhecido por PL do Autocontrole. As organizações estão preocupadas com os riscos que esse PL pode trazer para a sociedade, pois ele visa transferir para o setor privado a responsabilidade da fiscalização sanitária, que de acordo com a Constituição Federal, é responsabilidade do Estado.

O PL foi aprovado pela Comissão de Agricultura e Reforma Agrária e seguiria para sanção do presidente Bolsonaro, mas após intensa mobilização das organizações em questão, elas conseguiram que o PL passe por votação plenária, ou seja, todos os demais senadores também deverão avaliar e votar o PL. De acordo com o regimento da Casa, a votação plenária pode ser solicitada, mesmo após a aprovação de uma comissão, caso seja apresentado um recurso assinado por ao menos 9 senadores (10% do total de parlamentares). Por meio da articulação das organizações, já houve a adesão de 16 senadores (veja a lista abaixo) e a expectativa agora é que o Senado barre definitivamente o PL do Autocontrole. “Consideramos imoral aprovar um projeto que visa transferir do poder público a responsabilidade de supervisionar a saúde pública e a dignidade animal”, destacam as organizações em carta aberta.

As organizações alertam que os prejuízos que podem ser causados pelo PL são inúmeros. Entre eles: dificuldade de identificar e punir fraudadores em caso de adulteração e contaminação de produtos como leite, carne, azeite, bebidas em geral e outros alimentos; registro automático de medicamentos para animais, que podem gerar resíduos nos alimentos e colocar a saúde do consumidor em risco, por exemplo ingerir carne ou leite com resíduos de antibióticos; aumento de doenças e infecções por causa da ingestão de produtos impróprios para consumo humano; pequenos produtores e agricultura familiar poderão ser severamente prejudicados por não conseguirem arcar com os custos da fiscalização privada.

Para o presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais (ANFFA Sindical), Janus Pablo, o PL além de desastroso, possui muitas lacunas e ambiguidades que podem favorecer as grandes empresas agropecuárias em detrimento da sociedade. “Os auditores agropecuários atuam em todas as áreas de produção de alimentos, incluindo a supervisão dos agrotóxicos utilizados na produção agrícola. Sem a fiscalização agropecuária governamental, na prática, as empresas ficarão livres para reportar se elas estão cumprindo as normas sanitárias, sem que seja necessário o auditor conferir as informações in loco“, diz.

Além de riscos para a saúde pública, o PL também representa um grave risco para o bem-estar dos animais. Sem a fiscalização governamental, os animais serão ainda mais expostos ao extremo sofrimento nos abatedouros, a exemplo de cenas documentadas por organizações de defesa dos animais como a Animal Equality e a Mercy For Animals, que mostram as péssimas condições que os animais são submetidos quando os fiscais agropecuários não estão presentes e o não cumprimento das normas higiênico-sanitárias.

Algumas das organizações que estão fazendo parte dessa articulação são: ACT Promoção da Saúde, Alianima, Animal Equality, Associação dos Fiscais Agropecuários do Rio Grande do Sul (AFAGRO), Associação dos Municípios da Microrregião do Vale do Paranaíba (AMVAP), Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação e Afins (CNTA), Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Greenpeace, Instituto Akatu, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), Instituto Protecionista S.O.S. Animais e Plantas, Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Instituto Socioambiental (ISA), Mercy for Animals, Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Núcleo de Justiça Animal da Universidade Federal da Paraíba, Observatório do Clima, Organização pelo Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequadas (FIAN), Proteção Animal Mundial (World Animal Protection), Slow Food Brasil, Sinergia Animal, Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais (ANFFA Sindical) e TJCC – Movimento Todos Juntos Contra o Câncer.

Várias outras organizações têm apoiado diretamente os Auditores Fiscais Federais, como pode ser visto neste comunicado recém lançado. É importante destacar que se os próprios auditores fiscais, que são quem mais entende de fiscalização, são contra o PL do Autocontrole, obviamente o PL representa uma ameaça se for aprovado da forma que está redigido.

Senadores que assinaram o requerimento para votação plenária:

  1. Senador Paulo Rocha (PT/PA)
  2. Senador Jean Paul Prates (PT/RN)
  3. Senador Fabiano Contarato (PT/ES)
  4. Senador Paulo Paim (PT/RS)
  5. Senador Jaques Wagner (PT/BA)
  6. Senadora Eliziane Gama (CIDADANIA/MA)
  7. Senador Rogério Carvalho (PT/SE)
  8. Senadora Mara Gabrilli (PSDB/SP)
  9. Senadora Leila Barros (PDT/DF)
  10. Senadora Zenaide Maia (PROS/RN)
  11. Senador Alessandro Vieira (PSDB/SE)
  12. Senador Randolfe Rodrigues (REDE/AP)
  13. Senador Reguffe (UNIÃO/DF)
  14. Senador Telmário Mota (PROS/RR)
  15. Senador Jorge Kajuru (PODEMOS/GO)
  16. Senador Humberto Costa (PT/PE)

Agro é pop? Devastação ambiental, fome e inflação: entenda porque o modelo é insustentável

Brasil troca cada vez mais áreas de plantio de alimentos pela produção de commodities para exportação

BRAZIL-AGRICULTURE-HARVEST-SOY

As exportações do agronegócio brasileiro tiveram um saldo positivo de US$ 43,7 bilhões no acumulado do ano – SILVIO AVILA / AFP

Por Gabriela Moncau para o jornal “Brasil de Fato”

 trabalhador rural alegre, operando um trator no meio da plantação. Uma família sorridente passando manteiga no pão ao sol da manhã. A cana de açúcar e uma narração dizendo como ela possibilita que os carros andem pelas ruas. A criação de ovelhas e depois vistosas roupas na vitrine do shopping.  

“Agro é pop, agro é tech, agro é tudo”: o slogan das propagandas transmitidas desde 2016 pela rede Globo trazem a ideia de que o modelo do agronegócio fornece, basicamente, todas as coisas boas e necessárias da vida.  

A “indústria” que, segundo o bordão da peça publicitária, é a “riqueza do Brasil” e que tem como base a produção e exportação de commodities  (produtos em estado bruto, de origem agropecuária ou de extração mineral, usados como matéria prima para a fabricação de outros produtos), em especial a soja transgênica, só cresce em um país que vê sua população empobrecer. 

Com um saldo de US$ 43,7 bilhões (cerca de R$ 210 bi) no acumulado do ano, as exportações do agronegócio brasileiro em abril de 2022, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), foram 81,6% maiores que o mesmo mês de 2019, 52,3% maiores que em 2020 e 14,9% que 2021. 

Contraditoriamente, nesse mesmo período, entre 2019 e o fim de 2021, a população vivendo abaixo da linha da pobreza no Brasil saltou, segundo a FGV Social, de 23 para 28 milhões de pessoas.  

Pior: enquanto o agronegócio infla em lucro e em área ocupada, sobem também os números da inflação, da fome, e da devastação ambiental no país. Segundo pesquisadores e ativistas ouvidos pelo Brasil de Fato, não é coincidência que tudo isso cresça junto. 

Commodity não enche barriga 

“O agronegócio não produz comida. Produz commodities”, sintetiza Kelli Maffort, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).  

Citando o último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), feito em 2017, Maffort ressalta que quem produz alimentos é a agricultura familiar e camponesa. No Brasil, no entanto, a área de plantio de alimentos vem perdendo significativo espaço para as commodities.  

“Na região sudoeste do estado de São Paulo houve um avanço significativo da soja sobre áreas que antigamente se dedicavam à produção de feijão. Então obviamente que isso vai representar uma diminuição de oferta de alimentos”, ilustra Kelli. 

Tendo como base os dados do IBGE, o artigo Expropriação, violência e R-existência: uma geografia dos conflitos por terra no Brasil (2021) mostra que em 1988 o país dedicava 24,7% da sua área cultivada para arroz, feijão e mandioca. Em 2018, essa proporção despenca para 7,7%.  

Em contrapartida, salientam os autores Carlos Walter Porto-Gonçalves, Luiz Jardim Wanderley, Amanda Guarniere, Pedro Catanzaro da Rocha e Vinícius Martins, nesse período de 30 anos, as culturas voltadas para a exportação, que representavam 49,8% da área de cultivo do país, passaram a ocupar 78,3% dela. 


Arte: Brasil de Fato / Arte: Brasil de Fato

“Mais de 3/4 do total da área das lavouras temporárias e permanentes são de apenas três produtos: soja, cana e milho”, expõe o artigo, ao explicar que esses cultivos são voltados, primordialmente, para alimentar gado e produzir combustíveis fora do Brasil. “Se a função primeira da agricultura é a alimentação”, avaliam os autores, “o padrão da agricultura brasileira vem ignorando sua própria população”. 

Para Sílvio Isoppo Porto, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), “é incontestável a redução de área na produção de alimentos para o mercado interno”.  

“Em decorrência da desestruturação de políticas e de sistemas de produção vinculados à agricultura familiar e camponesa, de cultivos diversificados, há uma transferência de área, principalmente para a soja”, aponta Isoppo, que é também diretor de Sistemas Alimentares e Agroecologia do Instituto Fome Zero.  

A venda e o arrendamento de terras para o agronegócio se explicam, reflete Sílvio, pela falta de políticas que estimulem a produção de alimentos básicos e possivelmente também pelo envelhecimento da população rural. “Isso afeta diretamente a disponibilidade, o que por consequência agrava a situação de abastecimento do país”, salienta.  

Escolha política 

E a rota, pelo visto, segue nesse sentido. Até 2030 o Ministério da Agricultura prevê, por um lado, a redução de dois milhões de hectares para arroz, feijão e mandioca e, por outro, o avanço em 27% da área voltada para soja e milho, com a projeção de que até lá esses cultivos ocupem 70,8 milhões de hectares.  

Mas nem é preciso consultar as projeções do Ministério da Agricultura para confirmar que esse processo faz parte de uma política estatal. “A produção de alimentos no Brasil está completamente abandonada”, avalia Maffort.   

“Não tem programa melhor para enfrentar a fome do que o PAA [Programa de Aquisição de Alimentos], porque o governo compra a preço justo o alimento do agricultor e o direciona para quem está ligado a entidades sociais, nas periferias, quem está precisando de comida. No governo Bolsonaro o seu orçamento foi reduzido”, explica a dirigente do MST. 

“Também o PNAE [Programa Nacional de Alimentação Escolar], a lei obriga os municípios a destinarem 30% do investimento em alimentos da agricultura familiar, camponesa, indígena”, diz Kelli, “mas o governo federal faz de tudo para desidratar essa política e a obrigatoriedade. Há verdadeiras máfias por trás das merendas”. 

Sílvio Isoppo argumenta que a redução das áreas de plantio de banana, batata, cebola e tomate na última década não se explica só pelo avanço da soja, mas por uma falta de estímulo estatal – como um consistente seguro agrícola em caso de perdas – que, em sua visão, vem desde 2005. 

“De lá para cá, o crédito para o agronegócio cresce sistematicamente, assim como o volume de recursos aplicados pelo tesouro para fazer a equalização de juros”, diz Isoppo, ex-diretor da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). 

Na lista de exemplos da opção política do governo em fomentar o modelo do agronegócio em detrimento da produção de alimentos saudáveis, Sílvio cita a alíquota zero para exportação; o desmantelamento das normas e fiscalizações ambientais que tem feito avançar o fogo, o desmatamento e a grilagem de terras; e a liberação de 1.529 novos agrotóxicos durante o governo Bolsonaro.  

O professor também menciona a Lei Assis Carvalho (14.274/2021), que prevê um auxílio financeiro para agricultores familiares prejudicados pela pandemia de covid-19. “Até agora o governo não aportou nem um centavo”, critica.  

O que isso tem a ver com a inflação 


Um dos resultados imediatos da alta inflação é o aumento no custo médio da cesta básica / Foto: Annelize Tozetto

alta no preço dos alimentos, que vem esvaziando o carrinho de supermercado de boa parte da população brasileira, se explica por uma combinação de fatores – que não são apenas, como vem bradando Jair Bolsonaro (PL), decorrentes da guerra na Ucrânia e da pandemia. A hegemonia do agronegócio é um deles.  

Engenheiro agrônomo especializado em economia rural e engenharia de produção, Leonardo Melgarejo estabelece conexões entre o destino do que é produzido no Brasil, a desvalorização da moeda, a escassez de alimentos, a fome e a alta de preços no mercado interno.  

“A terra é escassa. Se vier a ser utilizada com um tipo de lavoura, as outras opções serão descartadas. A redução na oferta de produtos como feijão, arroz e mandioca faz com que seus preços aumentem”, apresenta Melgarejo.  

“O real se desvalorizando em relação ao dólar faz com que as exportações de soja e minérios sejam mais rentáveis e atraentes. Isso aumenta a busca por novas áreas de plantio e de mineração. Resulta no que estamos vendo”, constata Leonardo, que faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos.  

“Questão agrária e ambiental estão intrinsecamente ligadas”   

Enquanto isso, no primeiro semestre de 2022, as queimadas no Pantanal, na Amazônia e no Cerrado não só continuaram, como já superam as de 2021. Conforme dados do Instituo Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), só no Pantanal os focos de incêndio cresceram 18,2% em relação ao ano passado. No Cerrado, subiram 20%.   

dossiê Agro é Fogo, lançado no fim do ano passado por uma rede de cerca de 30 movimentos e pastorais sociais, traz evidências de que boa parte dos grandes incêndios recentes no Brasil foram provocados por ações humanas e beneficiaram o agronegócio.  

Imagens de satélite e cruzamento de dados como focos de calor e mapeamento de áreas atingidas mostram que, em 2020, o fogo no Mato Grosso começou em cinco fazendas de gado e, no Mato Grosso do Sul, em outros quatro latifúndios. 

Para Diana Aguiar, pesquisadora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o desmatamento e a grilagem de terras tem conexão intrínseca.  

“Como sabemos, grilagem é um tipo de roubo de terras que do ponto de vista jurídico são públicas, as chamadas terras devolutas. Essas terras, em sua imensa maioria, ainda não foram regularmente destinadas para os regimes fundiários prioritários, que seriam, a titulação de territórios tradicionais, os assentamentos de reforma agrária e a regularização de pequenos agricultores posseiros ou a proteção ambiental”, explica Aguiar. 

“Grileiros se aproveitam da leniência e inação do Estado, invadem terras públicas, desmatam e fraudam os registros de propriedade”, expõe Diana.  

“É nessas terras – com frequência ocupadas por povos tradicionais, com a vegetação nativa e ricas em biodiversidade – onde se dá a maior parte dos conflitos no campo, em razão da pressão da expansão da fronteira agrícola para a produção de commodities”, resume. 

“Titular os territórios e fazer a reforma agrária é, ao mesmo tempo, uma questão de direitos dos povos do campo e também é o melhor caminho para conter o desmatamento”, defende Diana Aguiar.  

Em sua opinião, esse “problema estrutural mostra que a questão agrária e a questão ambiental estão intrinsecamente conectadas no Brasil”.


compass black

Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato”  [Aqui! ].

Preços mundiais de alimentos sobem em ritmo recorde em meio ao conflito Rússia-Ucrânia

bélgicaUma cliente escolhe óleo de cozinha no supermercado Colruyt em Bruxelas, Bélgica, 29 de março de 2022. Devido ao aumento dos altos preços da energia, os mercados da Bélgica testemunharam o aumento dos preços da gasolina, diesel, óleo de cozinha, farinha, etc. [Foto/Xinhua]

ROMA – Os preços mundiais das commodities alimentares deram um salto significativo em março para atingir seus níveis mais altos, à medida que o conflito entre a Rússia e a Ucrânia continua aumentando os custos de energia e causando desacelerações na cadeia de suprimentos.

O índice mensal de preços dos alimentos, divulgado sexta-feira pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), subiu 12,6%, atingindo 159,3 pontos em março, em comparação com uma linha de base de 100 pontos para a média de 2014-2016 (ajustada pela inflação).

Este é de longe o maior total da história do índice, que foi lançado em sua forma atual em 1990.

Todas as cinco subcategorias do índice subiram, com os preços de grãos e cereais – o maior componente do índice – subindo impressionantes 17,1%.

A FAO disse que o principal fator por trás desse aumento é que a Rússia e a Ucrânia são grandes produtores de trigo e grãos grossos, e os preços deles dispararam devido ao conflito.

Preocupações com as condições das colheitas nos Estados Unidos também foram um fator, disse a FAO. Os preços do arroz, por sua vez, ficaram praticamente inalterados em relação a fevereiro.

Enquanto isso, os preços dos óleos vegetais subiram 23,2% devido ao aumento dos custos de transporte e à redução das exportações, novamente devido ao conflito Rússia-Ucrânia.

Os outros subíndices foram todos mais altos, mas subiram menos dramaticamente. Os preços dos lácteos foram 2,6% mais altos, os preços da carne subiram 4,8% e os preços do açúcar 6,7%. O conflito e questões relacionadas também foram fatores por trás desses aumentos de preços, disse a FAO.

O Índice de Preços de Alimentos da FAO é baseado nos preços mundiais de 23 categorias de produtos alimentícios, abrangendo os preços de 73 produtos diferentes em comparação com um ano de referência.


color compass

Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “China Daily” [Aqui!].