Incêndios em áreas de florestas maduras cresceram 152% na Amazônia em 2023, aponta estudo

Análises de imagens de satélite mostram que o aumento vai na contramão das quedas do desmatamento e do total de focos de calor no bioma; Ibama/Prevfogo diz que atua em conjunto com outras instituições em ações de prevenção e combate

fogo fapespIncêndio registrado em Boca do Acre no ano de 2023 (foto: Débora Dutra/Cemaden)

Luciana Constantino | Agência FAPESP 

Mesmo com a redução do desmatamento na Amazônia em 2023, o bioma vem enfrentando outro desafio: os incêndios em áreas de vegetação nativa ainda não afetadas pelo desmatamento. Estudo publicado na revista científica Global Change Biology alerta que os incêndios em áreas das chamadas “florestas maduras” cresceram 152% no ano passado em comparação a 2022, enquanto houve uma queda de 16% no total de focos no bioma e redução de 22% no desmatamento.

Ao destrinchar as imagens de satélite, os pesquisadores detectaram que os focos em áreas florestais subiram de 13.477 para 34.012 no período. A principal causa são as secas na Amazônia, cada vez mais frequentes e intensas. Além dos eventos prolongados registrados em 2010 e 2015-2016, que deixam a floresta mais inflamável e provocam a fragmentação da vegetação, o bioma passa por uma nova estiagem no biênio 2023-2024, o que agrava ainda mais a situação.

Tanto que o Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aponta que o total de focos de calor no primeiro trimestre de 2024 em toda a Amazônia foi o maior dos últimos oito anos – 7.861 registros entre janeiro e março, representando mais de 50% das notificações no país (o Cerrado vem em seguida, com 25%). O mais alto número até então havia sido no primeiro trimestre de 2016 – 8.240 para o total do bioma.

“É importante entender onde os incêndios estão ocorrendo porque cada uma dessas áreas afetadas demanda uma resposta diferente. Quando analisamos os dados, vimos que as florestas maduras queimaram mais do que nos anos anteriores. Isso é particularmente preocupante não só pela perda de vegetação e desmatamento na sequência, mas também pela emissão do carbono estocado”, afirma o especialista em sensoriamento remoto e autor correspondente do artigo Guilherme Augusto Verola Mataveli, da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Inpe.

Mataveli está atualmente no Tyndall Centre for Climate Change Research, no Reino Unido, onde desenvolve parte de seu pós-doutorado sobre emissão de gases de efeito estufa por queimadas com o apoio da FAPESP (projetos 19/25701-8 e 23/03206-0), que também financia o trabalho por meio de outros quatro projetos (20/15230-520/08916-821/04019-4 e 21/07382-2).

No ano passado, alguns pesquisadores do grupo publicaram outro trabalho já mostrando o aumento de incêndios em uma fronteira emergente de desmatamento no sudoeste do Amazonas, na região de Boca do Acre, entre 2003 e 2019 (leia mais em: agencia.fapesp.br/40757).

“Além da gravidade dos incêndios em áreas de florestas maduras atingirem, por exemplo, árvores mais antigas, com maior potencial de estoque de carbono, contribuindo para o aumento do impacto das mudanças climáticas, há o prejuízo para as populações locais. Manaus é um desses casos, que foi a segunda cidade com a pior qualidade do ar no mundo em outubro do ano passado”, completa Mataveli.

Outros Estados registraram situação semelhante, incluindo o Pará, onde a contagem de focos de calor em florestas maduras em 2023 foi de 13.804 – contra 4.217 em 2022.

Neste ano de 2024, uma das piores situações está em Roraima, que concentra mais da metade dos registros do bioma. Com a quinta maior população indígena do país – 97.320 pessoas –, o Estado viu 14 dos seus 15 municípios decretarem emergência em março por causa do fogo. A fumaça levou à suspensão de aulas e a seca severa tem afetado comunidades indígenas, deixando-as sem acesso a alimentos e expostas a doenças respiratórias, entre outros impactos.

O Ibama/Prevfogo diz que tem atuado, desde novembro do ano passado, em conjunto com outras instituições nas ações de prevenção e no combate aos incêndios, atualmente concentrados em diferentes regiões de Roraima. Segundo o órgão, desde janeiro, são mais de 300 combatentes, além de quatro aeronaves que dão apoio ao trabalho.

“As mudanças climáticas são apontadas como um fator crítico para o aumento de episódios de incêndios, tendo o El Niño como fator agregador de risco devido à sua relação com a estiagem prolongada na região. Ressaltamos a importância da atuação dos órgãos ambientais estaduais e municipais no combate aos incêndios, em colaboração com os entes federais. Essa parceria é fundamental para permitir uma ação mais estratégica e eficaz na prevenção e no combate aos incêndios florestais”, informa o Ibama/Prevfogo em resposta à Agência FAPESP.

Procurado pela reportagem, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) reforçou em nota os pontos destacados pelo Ibama.

Resiliência

A mortalidade de árvores induzida pelo fogo em áreas de floresta excede frequentemente 50% da biomassa acima do solo, ou seja, os incêndios têm potencial para reduzir significativamente os estoques de carbono principalmente no longo prazo.

Neste ano, esse efeito já foi sentido. Em fevereiro, as emissões por queimadas no Brasil bateram recorde, atingindo o mais alto índice em 20 anos – 4,1 megatoneladas (cada megatonelada equivale a 1 milhão de toneladas) de carbono, alavancadas por Roraima, segundo o observatório climático e atmosférico europeu Copernicus.

Além disso, a resiliência da floresta fica comprometida, afetando, entre outros, sua capacidade de criar um microclima úmido abaixo do dossel das árvores para conter e reciclar a umidade dentro do ecossistema.

Outro ponto destacado pelos pesquisadores é que a crescente inflamabilidade da floresta torna-se um desafio para os agricultores tradicionais – eles normalmente usam o fogo controlado como forma de manejo de áreas de subsistência. Isso demanda incentivo a cadeias de produção para que sejam livres dessa prática.

Líder do grupo e coautor do artigo, o pesquisador Luiz Aragão ressalta que, “à medida que o tempo passa sem soluções efetivas para o problema do fogo na região amazônica, o bioma se torna mais vulnerável, com impactos ambientais, sociais e econômicos”. Aragão explica que, mesmo reduzindo as taxas de desmatamento, a área impactada por esse processo continua crescendo.

“Já havíamos previsto isso em 2010 em uma publicação de nosso grupo no periódico Science. Tanto as áreas já desmatadas quanto aquelas em processo de remoção da floresta constituem fontes ativas de ignição do fogo pelo homem. Como o desmatamento fragmenta a paisagem, criando mais bordas entre as florestas e as áreas abertas, as florestas maduras ficam mais permeáveis ao fogo. Somando as secas extremas, como a atual, à configuração da paisagem fragmentada, o uso contínuo do fogo na região e a presença de áreas florestais mais degradadas, por incêndios passados, extração ilegal de madeira e efeito de borda, espera-se uma floresta cada vez mais inflamável. Medidas urgentes são necessárias para mitigar os incêndios e manter a Amazônia como o maior bem do país para alcançar o desenvolvimento nacional sustentável”, avalia Aragão.

O grupo sugere ainda o aumento de operações de comando e controle e a expansão de brigadas de incêndio, além do desenvolvimento constante de sistemas de monitoramento. “Com o uso de inteligência artificial, podemos tentar desenvolver sistemas que, além de mostrar onde ocorreram os incêndios, façam uma predição dos locais com mais propensão de ocorrer e assim ter áreas mais específicas como foco de prevenção”, complementa Mataveli.

O artigo Deforestation falls but rise of wildfires continues degrading Brazilian Amazon forests pode ser lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/gcb.17202.


Fonte: Agência Fapesp

O que a repetição do uso da metáfora do santuário revela sobre as políticas do governo Lula para a Amazônia

lula santuário

A metáfora do santuário usada à exaustão por Lula é um anteparo que esconde políticas que continuam o que Temer e Bolsonaro começaram na Amazônia

Em mais de uma ocasião, o presidente Lula tem repetido a metáfora do santuário para indicar que não pretende manter a Amazônia apartada das políticas econômicas que seu governo pretende implementar para alavancar o desenvolvimento econômico do Brasil.   Ainda que Lula continue dourando a pílula, prometendo um modelo de desenvolvimento sustentável (o que sabemos ser outra metáfora), ele fica nos devendo uma explicação clara de quem seriam os defensores da transformação da Amazônia em um santuário (ecológico, eu suponho), nem de como seriam as ações concretas do seu governo para não ampliar o processo de destruição que já ameaça a integridade e a funcionabilidade dos ecossistemas naturais amazônicos.

A realidade é que no tocante às ações concretas, o que o governo Lula tem feito e planeja fazer não tem nada de sustentável e se parece mais com uma continuidade do que foi feito nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, em uma espécie de déja vu de dias de terror.  Um exemplo concreto é a prometida pavimentação da BR-319 que segundo o ministro dos Transportes, Renan Filho, é uma das prioridades do governo Lula.  Acontece que existem estudos mostrando que a pavimentação da BR-319 terá um efeito devastador sobre o último grande bloco de floresta intacta na Amazônia, podendo acelerar o colapso ecológico de toda a bacia amazônica.

Ciência_na_BR-319

Pavimentação da BR-319 deverá acelerar colapso ambiental da Amazônia, dizem cientistas

Mas a pavimentação da BR-319 é apenas um dos muitos projetos do governo Lula que ameaçam acelerar o processo de transformação da floresta amazônica em uma imensa savana, o que terá profundos impactos não apenas para o clima regional, mas do centro sul brasileiro.  O governo Lula mira a expansão de hidrovias e portos nos rios amazônicos, bem como a construção de ferrovias. Tudo isso está sendo feito de olho na ampliação da produção e exportação de soja e carne a partir da Amazônia. Como está mais do que demonstrado em incontáveis estudos científicos, pastagens e monoculturas de soja são as principais impulsionadoras de desmatamento das florestas da Amazônia e do Cerrado.

É preciso ainda lembrar que no congresso nacional avançam propostas que visam autorizar a exploração de madeira e ouro dentro de unidades de conservação e terras indígenas, muitas vezes com o beneplácito dos votos dos chamados partidos de esquerda, começando pelo PT do presidente Lula.  Se todas essas legislações forem aprovadas, o mais provável é que sejam acompanhadas de ações do governo federal para facilitar a atuação das madeireiras e empresas de mineração, e não o contrário.

munduruku

Garimpo ilegal de ouro despeja mercúrio nos rios amazônicos e ameaça a sobrevivência das florestas e dos povos indígenas

Ainda no contexto do santuário que inexiste para quaisquer medidas práticas, há que se lembrar que o governo Lula tem feito muito pouco ou quase nada para remover garimpeiros que hoje ameaçam povos indígenas em diferentes partes da Amazônia, começando pelos Munduruku e Kayapó no Pará e Yonamami em Roraima. Apesar de um início aparentemente comprometido, hoje já se vê que não apenas os garimpeiros não foram efetivamente expulsos, mas que continuam avançando com suas formas predatórias de exploração mineral, ameaçando diretamente a sobrevivência dos povos indígenas porque os esforços de remoção são, quando muito, precários. Com isso não avançam apenas as mortes de crianças, mas também a contaminação de mercúrio que emporcalha e envenena rios importantes e os peixes que são item fundamental dos habitantes da Amazônia.

Não posso esquecer aqui de mencionar os papéis inexpressivos que são cumpridos pelas ministras do Meio Ambiente, Marina Silva, e dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara. A elas caberiam informar a Lula que inexiste fora ele próprio alguém que aborde a complexidade amazônica sob a metáfora reducionista do santuário.  Com o silêncio concordante das duas ministras, Lula desafia a lógica ao exagerar o uso de uma figura de linguagem que não tem nada a ver com o que ocorre na realidade amazônica.

Finalmente, se o presidente Lula fosse minimamente comprometido com o desenvolvimento sustentável da Amazônia ele já teria criado um fundo especial para fortalecimento das universidades e institutos de pesquisa existentes nos estados da Amazônia, a começar pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e pelo Museu Paraense Emílio Goeldi que às duras penas realizam pesquisas fundamentais para o futuro da Amazônia. Mas até agora, essas duas instituições estratégicas continuam amargando com orçamentos insuficientes que as deixam sempre no limiar da inviabilização.

Composto químico de bactéria amazônica tem potencial antiviral, antitumoral e antibiótico, diz estudo

vidraria

Estudo identifica potenciais farmacêuticos em composto químico produzido por bactérias em solo de área de mineração

bori conteudo

Estudo realizado por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV), da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e de instituições parceiras descreve o potencial terapêutico de um composto químico produzido por bactérias encontradas no solo de uma área de mineração de bauxita em recuperação no Pará. O composto demonstrou propriedades viricidas, bactericidas e foi capaz de eliminar células cancerosas sem danificar células saudáveis, segundo narram os cientistas em artigo publicado na terça (12) na revista “Scientific Reports”.

A pesquisa estudou o potencial farmacêutico de uma cepa da bactéria Pseudomonas aeruginosa, isolada do solo de uma mina de bauxita em processo de recuperação ambiental da região de Paragominas, no leste do Pará. O microrganismo produz um tipo de ramnolipídeo, um glicolipídio gerado por bactérias que demonstrou, nos testes, resultados promissores contra vírus e microrganismos patogênicos.

O estudo avaliou a toxicidade do composto em relação a três tipos de vírus (herpes simples, coronavírus murino e vírus sincicial respiratório), células de adenocarcinoma de mama metastático, diversas cepas bacterianas (SalmonellaE. coli, estafilococos) e fungos (Candida). Uma solução do composto, com uma concentração de 250 μg/mL, inibiu 97% da atividade viral em todos os tipos de vírus testados. Resultados semelhantes foram observados com uma solução de 50 μg/mL, por 15, 30 e 60 minutos, sugerindo que a eficácia viricida está relacionada ao tempo de exposição.

Para José Pires Bitencourt, do ITV e um dos autores do artigo, o composto “é uma substância que ajuda a bactéria a captar algum nutriente que seja interessante e ajuda na comunicação entre bactérias da mesma espécie”. Segundo ele, durante o estudo, todas as concentrações do composto diminuíram a viabilidade das células cancerígenas para menos de 50% em 72 horas, demonstrando um potencial antitumoral comparável aos níveis alcançados pela quimioterapia padrão.

Bitencourt explica que as condições ambientais do solo amazônico são propícias para compostos de interesse farmacêutico, como o estudado pela pesquisa. “Diferentes subespécies de bactérias encontradas em várias condições de solo produzem biossurfactantes, influenciadas por fatores como clima, evolução do solo, regime hídrico, interação com outros organismos e impacto humano”.

O pesquisador relata que não é possível afirmar que o composto de P.aeruginosa encontrada em um outro local ou período terá o mesmo potencial terapêutico. “Pode ser que daqui um ano a mesma bactéria, da mesma mina, tenha um conjunto de fatores diferentes e o composto não seja mais produzido”, diz Bitencourt. Para ele, isso aumenta a importância de incentivos para projetos que estudem a biodiversidade da região amazônica. “A microbiota da Amazônia é pouco estudada e nos impede de explorar a diversidade desses grupos, não apenas para uso médico, mas também para a agricultura e para a exploração mineral”, aponta o autor.

Bitencourt explica que ainda não há previsão para a aplicação industrial do composto, mas a continuidade da pesquisa é fundamental para o desenvolvimento de produtos futuramente. “Os próximos passos serão a otimização do cultivo para termos um crescimento mais rápido do microrganismo e fomentar a maior produção do ramanolipídio. Depois faremos o genoma completo para busca de outros mecanismos de interesse industrial”, conclui.


Fonte: Agência Bori

A política ambiental do governo Lula para a Amazônia: uma agenda com pontos cegos

Ao construir estradas na Amazônia, o governo brasileiro está contribuindo para a destruição da floresta

Aerial drone view of BR 319 road in Amazon rainforest landscape in the border of Amazonas and Rondônia state, Brazil. Concept of  ecology, conservation, deforestation, environment, global warming.

A rodovia BR-319 entre os estados do Amazonas e Rondônia. Foto: iStock/Paralaxis/Fernando Martinho

Por Norman Suchanek para o “Neues Deutschland”

Pouco antes do Carnaval, o governo Lula apresentou sua “agenda ambiental abrangente”, que será aplicada até 2027 inclusive. Mas isto não é suficiente para evitar uma maior destruição da floresta tropical e impedir  aumento dos danos climáticos resultantes.

“O âmbito da agenda ambiental abrangente reflete a urgência e a complexidade dos problemas ambientais e climáticos”, diz o documento do governo. Para conter em tempo hábil danos irreversíveis aos ecossistemas e às pessoas, não só é necessário que os mais diversos setores integrem de fato a sustentabilidade ecológica em seus processos e políticas públicas, mas também que os esforços sejam coordenados e integrados.

Apesar destas palavras introdutórias que soam bem e das suas 123 páginas, a agenda não aborda as principais causas da destruição das florestas tropicais. Acima de tudo, cientistas como o pesquisador do clima e da Amazônia, Philip Martin Fearnside, criticam a intenção contínua de construir barragens para gerar electricidade e construir estradas na Amazónia. A agenda perde a oportunidade de garantir que medidas eficazes de prevenção de desastres ambientais sejam implementadas pelos estados , escreve o cientista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) no portal Amazônia Real. “O documento carece completamente de planos para abordar as causas profundas do desmatamento, como a construção de estradas na Amazônia que abrirão vastas novas áreas de floresta tropical para madeireiros invasores”, disse Fearnside.

Porta de entrada para madeireiros

A rodovia federal BR-319 e as estradas secundárias associadas, controversas há anos, são o melhor exemplo disso. No início da década de 1970, a ditadura militar brasileira já havia construído a BR-319 através da floresta tropical paralela aos rios Purus e Madeira, mas desistiu novamente em 1988 por falta de viabilidade econômica. Desde 2015, graças a um “programa de manutenção” do governo, voltou a estar parcialmente acessível durante a estação seca. Se for totalmente restaurada e pavimentada conforme exigido pelo atual Departamento de Transportes e pelos governadores dos estados da Amazônia, a BR-319 e suas estradas secundárias propostas conectariam o infame “arco de desmatamento” do já fortemente desmatado sul da Amazônia com Manaus, no coração da maior região de floresta tropiucal do mundo. Os atores da destruição florestal, como os especuladores de terras, as empresas madeireiras, os criadores de gado e a agricultura industrial, poderiam avançar ao longo da rota asfaltada.

Isto ameaçaria a preservação do último grande bloco intacto de floresta na bacia amazônica brasileira. Além disso, a rodovia federal com seu ramal planejado, a rodovia estadual AM-366, permitirá a realização da exploração de gás e petróleo na bacia do Solimões, a oeste de Manaus.

Mas a floresta tropical intacta na área chamada região Trans-Purus é crucial para manter o abastecimento de água da maior cidade do Brasil, São Paulo, e a agricultura no estado de mesmo nome. O sul do Brasil depende das imensas massas de água que são transportadas pelo vento ao longo de milhares de quilômetros desde as árvores da região central da Amazônia e por meio dos chamados rios voadores. Sem florestas intactas na Amazônia central, no entanto, grandes partes do Brasil ficariam mais quentes e secas.

O Brasil se prejudicaria

O desmatamento na região Trans-Purus também libertaria vastas reservas de carbono da biomassa e dos solos da região, alimentando ainda mais o aquecimento global e neutralizando fatalmente qualquer acção climática governamental bem-intencionada. Conclusão de Fearnside: o próprio Brasil seria uma das maiores vítimas de uma BR-319 asfaltada.

No ano passado, porém, 15 deputados dos estados do Amazonas e Rondônia, em Brasília, lançaram um projeto legislativo (PL 4994/2023) que tornaria a BR-319 de Manaus a Porto Velho, em Rondônia, “indispensável” para a infraestrutura e a segurança nacional de o país país, classificando o projeto prioritário em quaisquer planos nacionais de desenvolvimento ou aceleração económica. E mesmo o fundo Amazônia, que na verdade foi fundado para proteger a floresta tropical e é equipado com dinheiro da Alemanha, entre outras coisas, deveria ajudar a financiar o asfaltamento.


compass black

Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Estudo mostra que os investimentos em pesquisas sobre biodiversidade secundariza instituições sediadas na Amazônia

article-3_3

A Amazônia brasileira é uma das regiões de maior biodiversidade e ecologicamente importantes da Terra. No entanto, segundo um estudo que se encontra no prelo para publicação pela revista Perspectives in Ecology and Conservation, os investimentos em pesquisa para a biodiversidade nos biomas amazônicos são desproporcionalmente baixos em comparação com outras regiões do Brasil (Ver figura abaixo).

investimentos ciencia

Distribuição de recursos financeiros para projetos de pesquisa e bolsas entre macrorregiões brasileiras. As bolsas representam o número de bolsas individuais de mestrado, doutorado e pós-doutorado financiadas pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Ensino Superior) para a área de biodiversidade em 2022; O orçamento do projeto é o investimento realizado por Bolsas Universais financiadas pelo CNPq relacionadas à Botânica, Zoologia, Ecologia e Limnologia entre 2016 e 2022; O orçamento do PELD são os recursos entregues pelo CNPq em 2020 para monitoramento de locais de Pesquisa Ecológica de Longa Duração, conforme situação da instituição executora. Todos os valores foram calculados considerando a conversão monetária da moeda de 1 USD para 5,34 BRL. A coluna (A) indica os valores totais; (B) a relação entre os valores totais e a população total de cada macrorregião (IBGE, 2022); e (C) a relação entre os valores totais e a área total (km²) de cada macrorregião.

Os autores do estudo mostram que em 2022, a Amazônia recebeu 13% das bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado e abrigou 11% de todos os pesquisadores que atuam em programas de pós-graduação em biodiversidade.

Além disso, os dados levantados pelos autores do estudo mostram que as instituições amazônicas receberam aproximadamente 10% de todo o orçamento federal gasto em subsídios e bolsas de estudo e cerca de 23% de todos os recursos destinados ao apoio a sítios ecológicos de longo prazo.  Por outro lado, as cidades de Manaus e Belém concentram cerca de 90% de todas as bolsas e bolsas disponíveis para toda a região.

Um fato relevante que é mostrado no estudo é que, apesar do investimento per capita em pesquisa na Amazônia ser igual ou melhor do que o disponível para as regiões economicamente mais desenvolvidas do Brasil, a distribuição de recursos por área é altamente desigual.

Finalmente, os autores do estudo argumentam que o aumento do financiamento da pesquisa para a região amazônica requer contribuições diferenciadas das agências federais e mais colaborações transnacionais e integração entre programas amazônicos e fundos internacionais.

Seca devastadora na Amazônia é resultado da crise climática, mostra estudo

Condições climáticas extremas ameaçam o maior reservatório de carbono do mundo, pois a floresta tropical já está perto do ponto de inflexão

droughtCasas flutuantes e barcos encalhados no leito seco do lago Puraquequara, no Brasil, em meio a uma forte seca em outubro de 2023. Foto: Edmar Barros/AP

Por Damian Carrington para o “The Guardian”

A crise climática transformou a seca que atingiu a floresta amazónica em 2023 num acontecimento devastador, concluiu um estudo.

A seca foi a pior registada em muitos locais e atingiu o nível máximo “excepcional” na escala científica. Sem as emissões que aquecem o planeta provenientes da queima de petróleo, gás e carvão, a seca teria sido muito menos extrema, concluiu a análise.

Também mostrou que a probabilidade de ocorrência da seca era 30 vezes maior devido ao aquecimento global. O regresso do fenómeno climático natural El Niño está associado a condições mais secas, mas desempenhou apenas um pequeno papel, disseram os cientistas.

crise climática está a sobrecarregar condições meteorológicas extremas em todo o planeta, mas a seca extrema na Amazónia é um exemplo gritante e preocupante porque já se pensa que a floresta tropical está perto de um ponto de inflexão para um estado mais seco. Isto resultaria numa morte em massa de árvores que constituem a reserva terrestre de carbono mais importante do mundo, libertando grandes quantidades de CO2 e elevando ainda mais as temperaturas globais.

Milhões de pessoas na Amazônia foram afetadas pela seca , com alguns rios em seus níveis mais baixos há mais de um século. Houve escassez de água potável, colheitas fracassadas e cortes de energia, à medida que as centrais hidroeléctricas secaram. A seca também agravou os incêndios florestais e as altas temperaturas da água foram associadas a uma mortalidade em massa da vida fluvial, incluindo a morte de mais de 150 botos cor-de-rosa ameaçados de extinção numa única semana.

“A Amazônia pode fazer ou quebrar a nossa luta contra as mudanças climáticas”, disse Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil, e parte da equipe da World Weather Attribution que fez a análise.

“Se protegermos a floresta, ela continuará a funcionar como o maior sumidouro de carbono terrestre do mundo”, disse ela. “Mas se permitirmos que as emissões induzidas pelo homem e a desflorestação a empurrem para o ponto de viragem, serão libertadas grandes quantidades de CO2 . Precisamos proteger a floresta tropical e abandonar os combustíveis fósseis o mais rápido possível.”

Simphiwe Stewart, pesquisadora do Centro Climático da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho na Holanda e também parte da equipe, disse: “Muitas comunidades que vivem na Amazônia simplesmente nunca viram uma seca como esta antes. As pessoas foram forçadas a fazer grandes viagens, arrastando barcos por trechos secos do rio, para ter acesso a alimentos, remédios e outros bens essenciais. É fundamental que as intervenções governamentais sejam orientadas para apoiar as comunidades a prepararem-se para a intensificação da seca à medida que o clima aquece.”

A análise utilizou métodos revistos por pares para comparar as secas no clima actual, que é 1,2ºC mais quente, com aquelas que teriam ocorrido num clima mais frio e pré-industrial. Os investigadores analisaram em particular a “seca agrícola”, que é responsável tanto pela baixa pluviosidade como pela evaporação da água dos solos e das plantas provocada pelas altas temperaturas.

Eles descobriram que o aquecimento global está diminuindo as chuvas e aumentando o calor na Amazônia, tornando a seca de junho a novembro de 2023 cerca de 30 vezes mais provável. O El Niño foi responsável por parte da redução das chuvas, mas as altas temperaturas foram quase inteiramente devidas às alterações climáticas, tornando-o o principal factor da seca.

A seca extrema de 2023 seria esperada cerca de uma vez a cada 50 anos no clima atual, estimou a análise. Mas se o aquecimento global atingir os 2ºC, seria de esperar uma seca tão severa a cada 13 anos.

Os cientistas disseram que a destruição em grande escala da floresta tropical para a produção de carne bovina e soja nas últimas décadas piorou a seca porque o desmatamento da vegetação significa que a terra retém menos água.

Dados recentes mostram que a floresta amazónica está se aproximando de um ponto de viragem, após o qual a floresta tropical seria perdida, com profundas implicações para o clima e a biodiversidade globais. Mais de 75% da floresta intocada perdeu estabilidade desde o início dos anos 2000, mostrou o estudo, o que significa que leva mais tempo para se recuperar após secas e incêndios florestais.

Gareth Redmond-King, da Unidade de Inteligência Energética e Climática do Reino Unido, disse: “A floresta amazónica é fundamental para regular o clima do nosso planeta, mas esta área da América do Sul também é crítica para o Reino Unido num sentido ainda mais imediato”.

“Cerca de metade das nossas importações de alimentos provém de pontos críticos de impacto climático, incluindo o Peru, a Colômbia e o Brasil, que são os nossos principais fornecedores de bananas, abacates, melões e outras frutas, bem como de soja para alimentação do gado britânico”, disse ele. “Portanto, os efeitos devastadores das alterações climáticas sobre os agricultores da América do Sul no ano passado podem muito bem traduzir-se em lacunas nas prateleiras dos nossos supermercados e em preços mais elevados para os nossos alimentos.”


compass black

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Perspectivas para 2024 para florestas tropicais

Tropical Rainforest Landscape, Amazon

Por Rhett A. Butler para a Mongabay

Na semana passada, a Mongabay publicou uma recapitulação das principais tendências nas florestas tropicais do mundo para 2023 . Aqui está um vislumbre de algumas das principais questões a serem monitoradas em 2024.

Brasil

taxa de desmatamento na Amazônia brasileira diminuiu significativamente durante o primeiro ano do terceiro mandato do presidente Lula, após o restabelecimento de vários programas de proteção da floresta tropical. No entanto, Lula enfrenta oposição substancial do Congresso e dos governos estaduais em relação às suas políticas ambientais. Apesar destes desafios, o apoio internacional à Amazónia está a reforçar os esforços de conservação da sua administração.

Eleições na RDC e na Indonésia

As eleições presidenciais serão iminentes em dois países com extensas florestas tropicais, a República Democrática do Congo (RDC) e a Indonésia.

Na RDC, o Presidente Felix Tshisekedi foi reeleito em Dezembro, no meio de controvérsia, com observadores e oposição a afirmarem que a votação não foi livre nem justa. Dado que a presidência de Tshisekedi coincidiu com taxas de desmatamento persistentemente elevadas e uma forte procura pelos minerais do país, a sua reeleição provavelmente indica poucas mudanças substanciais na tendência actual. Contudo, a escalada da instabilidade no Leste, potencialmente agravando a crise humanitária existente, poderá introduzir mais incerteza.

Na Indonésia, o ministro da Defesa, Prabowo Subianto, emergiu como o favorito presidencial. Prabowo, um crítico veemente do Regulamento Desmatamento Zero da UE, suscitou preocupações das ONG sobre o futuro da protecção ambiental na Indonésia. A redução consistente, embora subreconhecida, do desmatamento no país desde então levanta questões sobre sua continuação sob a liderança potencial de Prabowo.

Passagem de Wallace na Papua Ocidental da Indonésia.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Passagem de Wallace na Papua Ocidental da Indonésia. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Mercados de Carbono

Depois de um ano desafiante, marcado por controvérsias e pela descida dos preços das compensações baseadas na natureza, os defensores dos créditos de carbono florestais têm esperança de que os padrões recentemente mais rigorosos nos mercados voluntários de carbono possam revitalizar o sector.

O estado brasileiro do Tocantins está preparado para verificar e vender créditos jurisdicionais de REDD+ (JREDD), que os proponentes argumentam serem mais confiáveis ​​do que os créditos convencionais de REDD+ no mercado voluntário. Um lançamento bem-sucedido poderia catalisar o mercado para esses créditos.

FUTUROS DE COMPENSAÇÃO DE EMISSÕES GLOBAIS BASEADAS NA NATUREZA DA CBL: contratos de fevereiro de 2024 e maio de 2024.  Cortesia do CME.
Futuros de compensações de emissões globais baseadas na natureza da CBL: contratos de fevereiro de 2024 e maio de 2024. Cortesia do CME

El Nino

A NASA e a Organização Meteorológica Mundial prevêem que o atual evento El Niño terminará este ano. Este desenvolvimento traria um certo alívio às florestas tropicais da Indonésia e da Amazónia, que sofreram secas em 2023.

Floresta e dendê em Jambi, Indonésia.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Floresta e dendê em Jambi, Indonésia. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Inflação global e preços de commodities

Embora a inflação global pareça estar a diminuir, os analistas estão divididos quanto às previsões dos preços das matérias-primas. Por exemplo, a S&P Global prevê preços elevados do óleo de palma devido à estagnação da produção em grandes produtores como a Indonésia e a Malásia, juntamente com o aumento da procura de biodiesel, potencialmente sobrecarregando a oferta. Por outro lado, a Fitch prevê preços significativamente mais baixos, atribuindo isso às condições climáticas favoráveis.

Avanços em dados florestais

Espera-se que as melhorias na recolha de dados florestais continuem em 2024, impulsionadas pela crescente prevalência de satélites e pelos avanços na inteligência artificial e outras tecnologias. Por exemplo, a empresa de satélites Planet deverá introduzir uma ferramenta de mapeamento de carbono florestal e lançar a sua próxima geração de satélites ainda este ano.

Espera-se que a Universidade de Maryland divulgue sua avaliação anual da cobertura florestal global na primavera, enquanto uma parceria entre a Iniciativa Internacional para o Clima e Florestas da Noruega (NICFI) e o Bezos Earth Fund expandirá o acesso gratuito e universal ao monitoramento de alta resolução por satélite do trópicos.

Floresta tropical no Equador.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Floresta tropical no Equador. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Progresso em compromissos de alto nível?

Na COP26, em Glasgow, mais de 140 países comprometeram-se a travar e reverter a desflorestação até 2030. Este compromisso foi reafirmado na COP28, no Dubai, no mês passado. Contudo, progressos significativos na garantia do financiamento necessário para atingir este objetivo continuam a ser ilusórios. O mundo está alarmantemente fora do rumo , como evidenciado pelo aumento do desmatamento em 2022. A questão premente agora é: estarão os líderes mundiais, abrangendo as esferas política e empresarial, à altura do desafio de travar o desmatamento?


compass black

Este escrito originalmente em inglês foi publicado pela Mongabay [Aqui!].

Estudo mostra que a cor dos rios é uma pista confiável na luta contra a Malária

rios-malaria-996x567

Um estudo no Brasil constatou que perto de rios de águas escuras há maior incidência de malária que em zonas que lindan com rios de águas claras. Crédito da imagem: Alexandre Amorim/Panoramio , sob licença Creative Commons CC BY-SA 3.0 Deed 

Por Pablo Corso para a SciDev

As populações que vivem próximas de rios de águas escuras têm maior incidência de malária do querios de águas claras, é o que mostra um estudo pesquisadores brasileiros no Malaria Journal .

Esta informação deveria facilitar a identificação de zonas com alto risco de transmissão de doenças e contribuir para o planejamento de ações preventivas.

A malária é transmitida pelo mosquito Anopheles , com casos sendo impulsionados pela combinação de más instalações sanitárias, degradação ambiental , mudanças de temperatura e condições hidrológicas.

No Brasil, a doença se concentra nos estados da Amazônia, e em alguns rios se reproduzem os mosquitos que atuam como vetores.

Na Amazônia, que abriga uma das maiores bacias  hidrográficas do mundo, sedimentos como areia, silte e argila afetam a coloração dos rios, o que deriva em pistas confiáveis ​​sobre a presença —ou não— do mosquito que transmite a malaria. Os rios classificados como brancos, segundo dados do estudo, transportam grande quantidade de sedimentos.  Os “negros” levam grandes quantidades de nutrientes orgânicos.

Os casos de malária são mais frequentes nestes últimos, concluiu o estudo que se estendeu durante 17 anos (2003-2019) em 50 municípios do estado do Amazonas.

“É possível que estes achados ajudem a melhorar as estratégias de controle, ampliando o conhecimento sobre a identificação de zonas com maior risco de transmissão (…) e que ser extrapoladas para regiões com características semelhantes”.

Jesem Yamall Orellana, coautor do estudo

Os sedimentos em suspensão, em mudança, baixam a temperatura e aumentam a velocidade das águas, um obstáculo para a reprodução do vetor.

Para realizar essas observações, o pesquisador recorreu a imagens de satélite, informações de estações pluviométricas e bases de dados oficiais sobre a doença.

“Ao comparar os valores mais altos de incidência de malária, a probabilidade de que fosse menor nos rios de água branca era cerca de 96%”, precisou SciDev.Net Jesem Yamall Orellana, um dos autores do trabalho.

“É possível que esses achados ajudem a melhorar as estratégias de controle, ampliando o conhecimento sobre a identificação de zonas com maior risco de transmissão”, acrescenta. “Pode-se extrapolar para regiões com características semelhantes”.

Gabriel Zorello Laporta, autor de outro trabalho sobre a incidência da Malária no Brasil , sinalizou que a pesquisa “estabelece em termos formais uma relação empírica muito conhecida pelos entomólogos que trabalham na região amazônica”. Coincide que os resultados poderiam extrapolar para países como o Peru, onde vive o mesmo vetor ( Nyssorhynchus darlingi ), mas não poderia acontecer o mesmo em países com vetores diferentes.

O caminho da prevenção

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o planeta registrou 247 milhões de casos de malária em 2021. Isso representa dois milhões a mais que em 2020, embora se atribua a suba à interrupção dos serviços sanitários durante a pandemia.

Nas últimas décadas, iniciativas governamentais avançadas para prevenir a doença levaram à redução global do ritmo de contágios e mortes .

Em países onde a doença é endêmica, a incidência foi reduzida de 82 casos por cada 1.000 habitantes em 2000 para 57 em 2019, destaca o Relatório Mundial sobre Malária de 2022.

Enquanto a África relatava 95 % dos casos de malária no mundo, nas Américas o número baixou de 1,5 milhão em 2000 para 600.000 em 2021. Países como Argentina, Paraguai e El Salvador conseguiram eliminar a doença.

O Brasil também mostra uma tendência decrescente, com ações de prevenção, controle e vigilância. Entre eles, Yamall Orellana destaca o “apoio técnico, maior acesso a mosquitos e inseticidas de longa duração, testes de diagnóstico rápido, melhorias em redes de laboratórios, educação sanitária e formação de profissionais”.

Então, fique muito por fazer. “Dos 29 municípios classificados como de alto risco pelo Ministério da Saúde do Brasil em 2021, 14 foram estabelecidos no Amazonas ”, precisa. “Esses estados são muito grandes e heterogêneos e —em geral— compreendem territórios de difícil acesso, o que torna muito desafiador o controle da doença”, disse Zorello Laporta.

Isso dificultou zonas de abarca como Roraima, o estado onde habitam os indígenas yanomami, vítimas de uma catástrofe social e sanitária que complica ainda mais a abordagem.

Junto ao Pará, neste estado também avançou o garimpo ilegal. “Os portadores assintomáticos perpetuam a transmissão, especialmente se eles fizerem parte de uma atividade econômica ilícita, que implica uma dinâmica de mobilidade entre diversas localidades”, explica.

O contexto nacional, de Zorello Laporta, motiva um grande otimismo, porque o governo de Lula da Silva respalda “a conservação das florestas, dos direitos indígenas e das disparidades na saúde”, elogia. “O compromisso político e económico é fundamental para sustentar a luta contra a malária”.

Esta luta, advertiu Yamall Orellana, deve se estender a países como Venezuela e Colômbia, que junto com o Brasil concentram cerca de 80% dos casos na América do Sul

“A situação epidemiológica ainda é preocupante” nessas nações, alerta, porque se enfrenta desafios persistentes em torno da disposição de dados confiáveis ​​e estratégias para melhorar o diagnóstico e o acesso ao tratamento.


compass black

Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do SciDev.Net e publicado Aqui!

Expansão do agronegócio está afetando os ribeirinhos na Amazônia

Avanço da fronteira agropecuária compromete a economia e as práticas de subsistência de comunidades que vivem às margens dos rios Purus e Madeira, no sul amazonense

região-portuária-de-Lábrea-1

Região portuária de Lábrea (AM). Foto: João Maciel de Araújo 

Por Rodrigo de Oliveira Andrade

A expansão da fronteira agropecuária nos municípios de Boca do Acre, Lábrea e Humaitá, no interior do estado do Amazonas, tem colocado em risco a economia e as práticas de subsistência das populações ribeirinhas que vivem às margens dos rios Purus e Madeira, como a pesca artesanal, a agricultura de várzea (praticada à beira dos rios) e o extrativismo de açaí, cacau e castanha.

A conclusão é de um grupo de pesquisadores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), em Humaitá. Sob coordenação do sociólogo João Maciel de Araújo, eles têm empreendido uma série de entrevistas e reuniões com ribeirinhos de seis comunidades nessas regiões para identificar seus problemas e suas principais demandas. Os especialistas também querem entender como eles têm se articulado com gestores públicos, proprietários de terras, lideranças sindicais e comunitárias, e instituições de pesquisa e ambientais.

O objetivo é fazer um diagnóstico socioeconômico e produtivo dessas comunidades e criar um plano de desenvolvimento comunitário, “com diretrizes que os orientem a superar seus problemas e garantir seus direitos”, explica Araújo.

As entrevistas e reuniões têm lançado luz sobre como a expansão do agronegócio — baseado na monocultura de grãos e de pasto para a pecuária bovina de corte — tem impactado os modos de vida e a economia dessas populações nos últimos anos. “Uma das coisas que temos observado é que essas comunidades parecem ser invisíveis aos olhos do poder público, que tende a considerar a agropecuária o motor do desenvolvimento econômico da região”, diz.

Manejo de Pirarucu em Jucuruá. Foto: Jelsenir Barbosa de Souza

Segundo ele, os incentivos ao desenvolvimento econômico local estão majoritariamente voltados à promoção da agropecuária, em detrimento de atividades ribeirinhas ligadas à pesca artesanal, à agricultura de várzea e à extração de frutos da natureza para consumo próprio e comercialização. “Isso contribui para ampliar a vulnerabilidade dessas populações”, comenta Araújo, acrescentando que a forte seca ocorrida na região agravou esse cenário.

Outro aspecto importante observado pelos pesquisadores diz respeito à falta de segurança fundiária para o desenvolvimento de atividades extrativistas. Araújo explica que a estrutura produtiva das populações ribeirinhas ao longo do ano baseia-se ora nas áreas de várzea, ora em terra firme. “Eles vivem a maior parte do tempo às margens dos rios, pescando e desenvolvendo sua agricultura de várzea”, diz o sociólogo. “Em determinado momento do ano, entram na floresta, onde passam semanas coletando frutos como açaí, cacau e castanha.”

Produção ribeirinha em Boca do Acre. Foto: João Maciel de Araújo

O problema é que esses indivíduos não são donos dessas terras, que tampouco estão protegidas como áreas de conservação, de modo que eles ficam à mercê das regras impostas por aqueles que se dizem proprietários. “Muitos deles, com incentivo do poder público, optam por vender ou transformar suas terras em áreas de produção agropecuária”, afirma o pesquisador. “De uma hora para outra, muitos ribeirinhos deixam de ter autorização para circular por essas áreas e colher seus frutos.”

Mapas feitos pelas próprias comunidades — com auxílio dos pesquisadores e por meio de metodologias de cartografia social, baseadas em relatos orais ou antigas descrições —, indicam que houve uma diminuição do território pelos quais os ribeirinhos daquela região podiam circular e fazer o manejo tradicional de recursos naturais, além de um crescimento acentuado das áreas de produção agropecuária.

Muitos ribeirinhos e populações tradicionais precisam se deslocar para outras áreas. Chegando lá, no entanto, têm de disputar espaço e recursos locais com outras comunidades, o que, não raro, gera atritos e conflitos. Nas entrevistas feitas com moradores da comunidade Jurucuá, na Reserva Extrativista do Médio Purus, os pesquisadores ouviram relatos recorrentes sobre um aumento da quantidade de pessoas de outras localidades, que tentam pescar em determinados lagos da região e coletar castanha em áreas antes disponíveis exclusivamente aos moradores da reserva. 

Os pesquisadores agora estão trabalhando na sistematização dos dados coletados por meio das entrevistas e trabalhando com os membros das comunidades na concepção de seus planos de desenvolvimento. “A ideia é ajudá-los a se organizar para melhorar suas condições de vida a médio e longo prazo, orientando suas associações comunitárias sobre os tipos de pressões que elas precisam fazer junto ao poder público para conseguirem resolver esses e outros problemas a que estão sendo submetidos”, afirma o sociólogo.

Segundo ele, a pesquisa evidencia o contraste de visões de mundo e de relação com a natureza e os recursos naturais. “Para os ribeirinhos, essas regiões são fonte de elementos que estruturam sua organização, baseada em relações de reciprocidade com a natureza, enquanto que para os agentes da frente de expansão agropecuária são meras fontes de obtenção de lucro”, conclui.


color compass

Este texto foi originalmente publicado pela Humanamente – Divulgação Científica em Humanidades [Aqui!].

Pecuária na Amazônia pode ser responsável por 3 milhões de hectares de desmatamento até 2025

Estudo publicado nesta quarta calculou risco de destruição da floresta em áreas de compra de frigoríficos instalados no bioma. JBS é a empresa com maior risco

Gado na região de Marapá, sudeste da Amazônia paraense 

Se não adotar práticas mais eficientes de controle da cadeia, como a rastreabilidade individual, a pecuária na Amazônia pode ser responsável pela destruição de 3 milhões de hectares de floresta nos próximos dois anos, uma área equivalente ao território da Bélgica. Os dados são de um estudo realizado pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado nesta quarta-feira (22).

Para chegar a esse número, o Imazon calculou o grau de exposição ao desmatamento dentro das áreas de compra dos frigoríficos, considerando diferentes critérios.

O que encontraram foi que a exposição dos frigoríficos à destruição da floresta passou de 6,8 milhões de hectares em 2016, para 14,2 milhões de hectares em 2022. Isto é, a quantidade de áreas expostas ao desmatamento cresceu 108% em seis anos, mesmo sob forte pressão para o setor desvincular-se do problema.

Destes 14,2 milhões de hectares, 8,7 milhões de hectares já foram de fato desmatados em alguma medida, de forma legal ou ilegalmente. Outros 2,3 milhões são áreas embargadas pelo Ibama. 

Os 3,2 milhões de hectares restantes são justamente as porções de floresta em pé existentes nas áreas de compra dos frigoríficos que correm o risco de virem ao chão.

Segundo a pesquisa, a ameaça de destruição futura foi estimada levando em conta variáveis importantes para o desmatamento, como a inclinação do terreno, distância para rios, estradas e frigoríficos, classe territorial (terras indígenas, unidades de conservação, etc) e proximidade de derrubadas recentes e antigas.

“Já temos literatura científica e projetos de campo suficientes para mostrar que não precisamos mais desmatar nenhum hectare na Amazônia para aumentar a produção de carne. O que precisamos é melhorar a produtividade, que pode passar de um a pelo menos três bois por hectare com as tecnologias e as ofertas de crédito existentes”, defende a pesquisadora do Imazon Ritaumaria Pereira, uma das responsáveis pelo relatório.

Gigantes expostasO estudo também ranqueou os frigoríficos em relação à exposição deles às ameaças de destruição da floresta. A empresa mais crítica é a JBS, com quase 10 milhões de hectares desmatados, embargados ou sob risco de derrubada em suas zonas de compras. Em seguida está a Vale Grande, com pouco mais de 4 milhões de hectares. Masterboi, Minerva e Mercúrio completam o top 5, todas com mais de 2 milhões de hectares. 

O trabalho chama atenção para o fato de que nem as empresas que firmaram compromissos com Ministério Público Federal para controle da cadeia conseguem garantir que seus produtos estejam isentos da devastação ilegal.

Isso acontece porque os fornecedores indiretos ainda estão fora da equação. Ou seja: os frigoríficos prestam contas ao MPF apenas dos fornecedores diretos, que, apesar de estarem legalizados, podem ter adquirido animais de fazendas irregulares. 

A prática, conhecida como “lavagem de gado”, poderia ser resolvida com a exigência da rastreabilidade de todos os bovinos desde o nascimento, defende o Imazon. Algumas empresas têm anunciado medidas nesse sentido, mas apenas para depois de 2025.

“É inviável aceitar esse prazo para um problema que se arrasta há décadas, ainda mais quando ele pode representar o desmatamento de uma área do tamanho de Alagoas. Isso aumentará significativamente as emissões brasileiras de gases de efeito estufa em um momento de emergência climática que traz consequências como as secas no Norte e as chuvaradas no Sul. Se forem tomadas medidas urgentes focadas nas principais zonas de compra, já será possível evitar grande parte da derrubada prevista”, explica o pesquisador do Imazon Paulo Barreto, que também assina o trabalho.


compass black

Este texto foi inicialmente publicado pelo OECO [Aqui!].