Incêndios na Amazônia brasileira têm início recorde em 2024, com corte no orçamento de combate a incêndios

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A fumaça da queima de vegetação sobe em uma floresta tropical na Terra Indígena Yanomami, estado de Roraima, Brasil, 2 de março de 2024. REUTERS/Bruno Kelly/File Photo Purchase Licensing Rights

Por Jake Spring para a Reuters 

SÃO PAULO (Reuters) – A floresta amazônica do Brasil sofreu seus maiores incêndios já registrados nos primeiros quatro meses do ano, com o sindicato dos trabalhadores ambientais atribuindo na segunda-feira a culpa parcial aos menores gastos do governo federal no combate a incêndios.

O Ministério do Meio Ambiente e o  IBAMA não responderam imediatamente ao pedido de comentários.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, apostou sua reputação internacional na proteção da floresta amazônica e na restauração do Brasil como líder em política climática. A Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, é vital para conter o catastrófico aquecimento global devido à grande quantidade de gases com efeito de estufa que absorve.

Uma seca recorde na região da floresta amazónica, impulsionada pelo fenómeno climático El Niño e pelo aquecimento global , ajudou a contribuir para condições de seca que alimentaram os incêndios este ano.

Mais de 12.000 quilômetros quadrados da floresta amazônica brasileira foram queimados entre janeiro e abril, o maior número em mais de duas décadas de dados, de acordo com o INPE. É uma área maior que o Catar, ou quase o tamanho do estado norte-americano de Connecticut.

Os incêndios na Amazônia geralmente não ocorrem naturalmente, mas são provocados pelas pessoas, muitas vezes buscando limpar terras para a agricultura.

Os cortes no orçamento do combate a incêndios também são parcialmente culpados, disse o sindicato dos trabalhadores ambientais Ascema em um comunicado. Eles reclamaram que o orçamento deste ano do órgão ambiental Ibama para combate a incêndios é 24% inferior ao de 2023.

Agentes do Ibama suspenderam o trabalho de campo desde janeiro em meio a tensas negociações com o governo federal por melhores salários e condições de trabalho.

A Ascema rejeitou a última oferta do governo e exigiu maiores aumentos salariais depois de mais de uma década de aumentos insignificantes e redução de pessoal.

Embora a área queimada seja um recorde para os primeiros quatro meses do ano, ela é insignificante em comparação com os incêndios no pico da estação seca, de agosto a novembro, quando uma área desse tamanho pode queimar em um único mês.

“O governo precisa entender que sem o envolvimento total dos trabalhadores ambientais, a situação prevista para este ano é uma catástrofe sem precedentes”, disse o presidente da Ascema, Cleberson Zavaski.

“Os esforços de prevenção, como a sensibilização sobre as ignições, a criação de aceiros em áreas estratégicas e a realização de queimadas prescritas, dependem da contratação de pessoas com condições estáveis”, disse Manoela Machado, pesquisadora de incêndios do Woodwell Climate Research Center. “Essas medidas influenciarão a gravidade da crise de incêndio quando as condições de seca permitirem que os incêndios se espalhem”.


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Fonte: Reuters

Diário de guerra: Maria Júlia tem medo de ser queimada viva pelos homens maus

No Assentamento Dorothy Stang, em Anapu, a violência persiste 19 anos após o assassinato da missionária: uma das estratégias da grilagem é atacar a escola, que já foi incendiada duas vezes, para dificultar a permanência na terra

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O medo de ser queimada viva não vem de nenhuma história de ficção. É da vida no Projeto de Assentamento Irmã Dorothy Stang, em Anapu, na Amazônia paraense. No dia 10 de janeiro, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Paulo Anacleto foi incendiada tarde da noite. Como as casas ficam distantes da escola, não houve testemunha. Ninguém é capaz de identificar quem entrou na comunidade, sorrateiramente, e ateou o fogo. Do lugar onde Maria Júlia guarda lembranças de brincadeiras com os amigos, não sobrou quase nada. A escola, de 6 metros quadrados, foi feita de palha e talo de coco, num mutirão da comunidade, o que facilitou a propagação das chamas.

 

Ataque em dois atos: a escola municipal paulo anacleto foi queimada em 2022 e em 2024, num gesto de violência para impedir a fixação na Terra

Os desenhos das crianças, que ficavam pendurados na parede de palha, viraram cinzas. No local, restaram apenas duas carteiras de madeira e duas de ferro. Um barracão, criado no mesmo espaço da escola para brincadeiras de pega-pega e esconde-esconde, desapareceu por completo. Apenas um banheiro de madeira, construído nos fundos, foi poupado da brutalidade. Um mês após o crime ainda era possível sentir o cheiro de queimado.

“Quem tem coragem de fazer isso com crianças?”, questiona Vanessa Vitoriano, de 32 anos, mãe de Maria Júlia. Ela sabe que o uso da violência é tática constante para aterrorizar as crianças e os moradores do Lote 96, onde está localizado o assentamento que leva o nome da missionária assassinada em 12 de fevereiro de 2005 no mesmo município. É a segunda vez que queimam a escola.

A vida no Projeto de Assentamento Dorothy Stang é uma batalha diária, mas o ataque à infância é uma estratégia recente. A escola é um dos principais espaços públicos para fixar uma comunidade no lugar e fortalecer os laços entre as famílias. Destruir a escola de forma recorrente é uma tática de expulsão. Mais uma. Foi também uma ameaça a seus filhos que levou a antiga liderança do Lote 96, Erasmo Theofilo, há três anos e meio no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH), a deixar o território. “Não precisa mais se preocupar em morrer, porque não vamos te matar. Vamos só arrancar o teu coração” – foram as frases ditas num dos áudios com ameaças que Erasmo recebeu por WhatsApp. Segundo pessoas da região, “atingir o coração” é atingir os filhos.

O primeiro incêndio criminoso, que também destruiu a Escola Paulo Anacleto, ocorreu em 18 de julho de 2022. “Na primeira vez foi diferente, eles atearam fogo e deram tiros para o ar, para intimidar mesmo. Dessa vez ninguém viu, só encontramos a escola queimada”, lembra Vanessa. Ela conta que, em 2022, os moradores se reuniram e fizeram outra escola de palha e talo de coco em pouco mais de dez dias.

 

Resistência: há dois anos, quando a escola virou cinzas pela primeira vez, em dez dias a comunidade a reconstruiu com talos de coco e palha. Fotos: Erasmo Theofilo e Natalha Theofilo

Agora, após a reincidência da tragédia, a comunidade conseguiu a doação de 10 mil tijolos para reerguer outra escola, desta vez de alvenaria. Mas não bastará a força de vontade. Em reunião com a Promotoria de Justiça Agrária de Altamira, no dia 23 de janeiro, representantes do Ministério Público do Estado do Pará, em Anapu, relataram a decisão da prefeitura de não construir nem reformar a Escola Paulo Anacleto, alegando falta de recursos financeiros e número insuficiente de alunos matriculados – o mínimo deveria ser 25, e há somente 13. Os moradores fizeram um abaixo-assinado contra a decisão da prefeitura. No documento, afirmam que a Secretaria de Educação quer deslocar os alunos para a Escola Brasil Grande, que fica distante da comunidade – 15 quilômetros, segundo o Ministério Público. Até agora não tiveram nenhuma resposta do poder público.

“Como vamos mandar essas crianças tão pequenas em um carro com capacidade para dez pessoas, mas que leva 20, 25? Aceitar isso é mandar nossos filhos para morrer”, afirma Vanessa Vitoriano. Pai de Maria Júlia e de João Vitor, de 13 anos, o lavrador Agnaldo Costa Lima acrescenta que o veículo não é adequado: “Você já viu um pau de arara? Pois é, é um pau de arara que leva as crianças para a escola”.

Em mais um capítulo da resistência, os moradores levantaram uma escola improvisada de madeira em abril. A prefeitura disse informalmente, à comunidade, que a escola poderá voltar a funcionar em agosto. Mas, por enquanto, são apenas promessas. A prefeitura de Anapu não respondeu a questionamentos de SUMAÚMA sobre a situação da escola da comunidade.

Agnaldo chegou ao Lote 96 há 13 anos. Parou de estudar na antiga 8ª série do ensino fundamental [hoje é o 9º ano do Fundamental 2], após perder a mãe, aos 15 anos, e precisar trabalhar. “Não quero a vida que eu tive pra meus filhos. Como eu posso dar estudo para eles desse jeito? Ela quer ser doutora. Como?”, pergunta, entre lágrimas. No dia anterior, quando Maria Júlia brincava com o material escolar ainda intacto, a menina questionou Agnaldo: “Pai, eu vou ficar burra?”. Engasgado, ele só disse à filha: “De jeito nenhum”. Mas o medo é real. O ano letivo deveria ter começado no dia 5 de fevereiro, porém, até o momento, não há previsão para o início das aulas.

 

A vida sonhada: diante da violência, estudante desenha a esperança de uma criança que só quer frequentar a escola em segurança

Procuradas pela reportagem, nem a prefeitura de Anapu nem a Secretaria Municipal de Educação responderam aos questionamentos sobre a situação do ensino no assentamento. Somente quatro crianças começaram o ano letivo, em fevereiro, na Escola Brasil Grande. As demais seguem sem aulas e sem escola. As famílias optaram por aguardar uma posição da administração municipal e pressionam para que seja refeita a Escola Paulo Anacleto no assentamento. A maioria das crianças está há quatro meses sem aulas.

A Polícia Civil abriu inquéritos para apurar os dois incêndios da escola. Afirma que há investigações em curso, mas até agora nenhum responsável foi apontado. A polícia não respondeu ao e-mail de SUMAÚMA pedindo uma atualização sobre o caso.

Zona de guerra

Anapu é, de fato, uma zona de guerra, onde assentados e sem-terra à espera de reforma agrária são cotidianamente violentados e acuados, estratégica e sistematicamente privados de direitos até que desistam e abandonem o território. O município sempre será lembrado pelo assassinato da missionária Dorothy Stang, aos 73 anos, por pistoleiros, a mando dos fazendeiros Vitalmiro Bastos e Regivaldo Galvão. A mesma ganância que ceifou a vida de Dorothy faz com que se ateie fogo à escola de crianças.

Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), 29 pessoas foram assassinadas em Anapu de 2005 a 2023 em conflitos por terra. Entre 2006 e 2014, porém, não houve nenhuma morte – as execuções retornaram a partir de 2015, já no processo de crise do governo de Dilma Rousseff (PT), que levaria ao impeachment um ano depois e à Presidência de Michel Temer (MDB). Somente em 2023 foram seis assassinatos, que aparecem como conflitos pessoais porque ocorreram fora da área de assentamentos e ocupações. Mas, para a pastoral, estão ligados à luta pela terra. Matar as pessoas fora do território tem sido outra estratégia dos pistoleiros, afirmaram à reportagem integrantes da comissão. O relatório da CPT foi oficialmente divulgado em abril.

No assentamento, até fevereiro de 2024 os moradores estavam sem energia elétrica havia mais de um ano; as estradas são de chão de terra batida e, em alguns pontos, tão escorregadias no período de chuvas que parecem ser feitas de argila. Internet e luz são acessíveis somente àqueles que possuem placa de energia solar. Não há médico, e agora também existe o risco de não haver mais escola. O objetivo é explícito: impedir a permanência na terra dos que escolhem o Projeto de Assentamento Dorothy Stang como morada e seguem o legado da missionária.

 

Legado: morador acende uma vela no túmulo da missionária Dorothy Stang, assassinada com seis tiros em 2005, a mando de grileiros

Em 1º de julho de 2022, ainda no governo do extremista de direita Jair Bolsonaro (PL), a Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no oeste do Pará criou o Projeto de Assentamento Dorothy Stang. A decisão só saiu por determinação da Justiça, provocada pelo Ministério Público Federal. A portaria do Incra estabelecia a criação de 73 unidades agrícolas familiares, exatamente o número de famílias do assentamento. Cinco dias depois, no entanto, a Diretoria de Desenvolvimento e Consolidação de Projetos de Assentamento, em Brasília, tornou sem efeito a portaria. A alegação oficial apresentada, à época, foi burocrática: a necessidade de “qualificar melhor o procedimento administrativo”.

Na verdade, o que ocorreu foi a paralisação política da reforma agrária no governo de extrema direita, “com queda drástica de orçamento e redução significativa de servidores”, como reconheceu a direção atual do Incra, em nota enviada a SUMAÚMA. “A partir do início de 2023, foram adotadas ações no sentido de reorganizar todo o funcionamento do órgão”, argumentam.

Um ano e sete meses depois, em 28 de fevereiro de 2024, foi publicada nova portaria, no Diário Oficial da União, assinada pela presidência do Incra, favorável à criação do assentamento. Finalmente o atual governo reconheceu o interesse social na área do Assentamento Dorothy Stang e regularizou a situação fundiária para reforma agrária. “As famílias assentadas no local estão aptas a acessar tanto políticas federais, como estaduais e municipais”, informou a assessoria do Incra.

 
Conquista: quase 20 anos depois da morte de dorothy stang, o assentamento foi reconhecido; memorial homenageia a irmã

O caminho para ter acesso a políticas públicas, no entanto, é penoso.
Em junho de 2023, a Equatorial Pará recebeu do Incra a lista de moradores do assentamento que estão regularizados e, portanto, passíveis de ligação elétrica em suas casas. Com os dados em mãos, o projeto para instalar energia no Dorothy Stang teve licenciamento ambiental deferido apenas em janeiro de 2024. “A obra está em trâmite de execução e possui previsão de atendimento até julho de 2024”, informou a empresa por meio de nota enviada a SUMAÚMA. Desde 2020 os moradores esperam pelo Programa Luz para Todos, criado no primeiro governo Lula, em 2003, para atendimento de famílias em áreas rurais. Até o início de maio, apenas 17 famílias tinham conseguido o acesso à energia.

Mesmo com o reconhecimento legal do assentamento pelo governo federal, para as pessoas que permanecem privadas de políticas públicas não há outra escolha a não ser lutar. Os “homens maus” responsáveis pela atrocidade de atear fogo à escola já repetiram o método com dezenas de famílias nos últimos dois anos. “A primeira vez que atearam fogo aqui foi na casa de uma senhora. Depois disso, ela foi embora, passou um ano fazendo tratamento para depressão, mas agora voltou ao território”, conta uma pessoa que pediu sigilo sobre a sua identidade. “Só registramos boletim de ocorrência dos dois incêndios da escola e de quatro casas de moradores, mas já perdemos as contas [de quantos ataques ocorreram].”

O Ministério Público Federal informou a SUMAÚMA que a investigação sobre o incêndio da escola tramita sob sigilo. A instituição solicitou a presença da Delegacia de Conflitos Agrários (Deca) no local assim que soube dos fatos, o que ocorreu dias depois. Quanto às constantes violações de direitos humanos no assentamento, o MPF afirma que tem acompanhado a situação para analisar se os direitos constitucionais dos moradores estão sendo desrespeitados.

Um espaço de luta que abriga flores

No local marcado pela impunidade, é fácil entender as razões pelas quais a pequena Ana Clara, de 6 anos, sonha em ser policial. A menina, de pele negra e cabelos encaracolados, diz que “quando for grande” quer prender bandidos que roubam e ateiam fogo à escola de crianças. “Quando eu for policial, eles vão passar meses presos”, garante.

‘Até onde for preciso’: Raimunda Silva, mãe da pequena ana Clara, plantou flores no assentamento e promete lutar pelo direito da filha à educação

A família de Ana Clara vive em uma casa de madeira, de chão de cimento queimado, rodeada por flores que, na região, são chamadas de maria-sem-vergonha. Raimunda Soares da Silva, de 42 anos, mãe de criação de Ana Clara, conta que antes de chegar ao assentamento morava na Vila Gelado, no município de Novo Repartimento, também no Pará. De lá, além da família, trouxe várias mudas de flores, que hoje dão cor a um lugar repleto de cinzas. “Meu irmão morou aqui anos antes de mim e lembro de terem queimado a casa dele. Ele saiu um dia para pegar um açaí e na volta tudo estava incendiado.” A tragédia não impediu Raimunda de sonhar com o futuro da família no assentamento. Mas no momento o que a preocupa é o futuro de Ana Clara – e ela diz que vai “até onde for preciso” para garantir a educação da menina.

A Escola Paulo Anacleto, como tudo no assentamento, foi conquistada com muita luta. Lá estudavam 13 alunos de 4 a 12 anos, da educação infantil até o 6º ano do ensino fundamental. Até dezembro de 2019, porém, a maior parte das crianças da comunidade não estudava, porque a escola mais perto fica a 15 quilômetros – um trajeto de terra batida com lama e buracos, intrafegável em muitos trechos. No dia 27 daquele mês, o morador Paulo Anacleto finalizou a primeira reunião oficial para tratar da criação da escola. Ele fez o levantamento das famílias que tinham crianças e, com esses dados, formulou um documento, levado ao Ministério Público do Estado do Pará, em Anapu, pedindo à prefeitura a criação de uma instituição de ensino.

 

Antes do Fogo: dia de aula normal no assentamento, Em 2022. Foto: Mídia Ninja

Quem lembra da história é Erasmo Theofilo, liderança aguerrida do Lote 96. “Esse foi o início do processo de criação da escola. Na sequência, ele foi assassinado”, conta. Paulo Anacleto foi morto naquele dezembro de 2019, data do início do processo de exílio de Erasmo, sua companheira, Natalha, e seus cinco filhos. Ameaçados, eles tiveram que deixar o assentamento. O nome da escola foi uma forma de homenagear o companheiro que tombou. A morte de Paulo ocorreu cinco dias depois que outro líder da comunidade, Márcio Rodrigues dos Reis, foi assassinado com uma facada na garganta para mostrar que “falava demais”.

Em 7 de dezembro de 2020, Erasmo foi colocado no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH). Hoje ele e a família vivem num exílio forçado, mas seguem na luta, pedindo ao Estado por mudanças que possam de fato proteger e assegurar uma vida íntegra a defensores. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania não respondeu a SUMAÚMA sobre a revisão do programa e as violações de direitos em Anapu.

‘Se aparecer alguém, vocês correm’

O estado de alerta no Assentamento Dorothy Stang é constante, e não é algo restrito aos adultos. João Paulo, de 5 anos, é um menino risonho e falante. Ele é uma das crianças que vão para a escola a pé, na companhia do irmão mais velho, Pedro, de 9 anos. Todos os dias os dois disputam corridas pelo caminho. A brincadeira ajuda a executar com êxito o que aprenderam na escola: “A professora disse que, se algo acontecer, é pra gente correr. Coitado do João Paulo, porque ele corre muito devagar”, lamenta o mais velho.

 

Numa folha qualquer: nos desenhos das crianças do assentamento, a Escola Paulo Anacleto continua a existir, com sol, arco-íris, pássaros, chuva e até girafa

A mãe dos meninos, a lavradora Adenise Alencar, de 46 anos, conversa sempre com eles sobre os perigos que podem surgir no caminho. Além do clássico “não falem com estranhos”, ela alerta as crianças de que não devem brincar com o gado. O avanço da pecuária na região se tornou um perigo para os pequenos. Com a presença de bois nos arredores da escola, os pais, preocupados, construíram um banheiro de madeira para as crianças não se arriscarem no mato.

A resistência e a coragem das crianças do assentamento, que mesmo diante das cinzas ainda enxergam um futuro, também são fruto da dedicação e do esforço da professora. Por razões de segurança, a comunidade protege a identidade da educadora, que está bastante abalada e evita entrevistas após o mais recente incêndio criminoso.

Hoje, a Escola Paulo Anacleto existe apenas na memória e nos desenhos das crianças. SUMAÚMA pediu aos alunos que representassem, no papel, seus sentimentos. No traçado de Maria Júlia, a escola segue intacta, e o teto está cercado por um arco-íris. Ana Clara fez questão de colocar passarinhos azuis no espaço que, na vida real, foi queimado. No desenho de João Paulo, a sala de aula ainda é um esboço, como se o menino não se lembrasse mais do que havia ali antes do fogo. A Escola Municipal de Ensino Fundamental Paulo Anacleto vive no imaginário de todas essas crianças que, mesmo diante do horror, ainda teimam em sonhar.

 

O que ninguém vê: a resiliência das crianças é o que traz a certeza de futuro no assentamento, ainda que direitos sejam constantemente violados


Reportagem e texto: Catarina Barbosa
Edição: Malu Delgado e Eliane Brum
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem:
 Plínio Lopes

Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o espanhol: Julieta Sueldo Boedo
Tradução para o inglês: Sarah J. Johnson
Montagem de página e acabamento: Natália Chagas
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Chefa de reportagem: 
Malu Delgado
Editora-chefa: 
Talita Bedinelli
Diretora de Redação: 
Eliane Brum


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Fonte: Sumaúma

Incêndios em áreas de florestas maduras cresceram 152% na Amazônia em 2023, aponta estudo

Análises de imagens de satélite mostram que o aumento vai na contramão das quedas do desmatamento e do total de focos de calor no bioma; Ibama/Prevfogo diz que atua em conjunto com outras instituições em ações de prevenção e combate

fogo fapespIncêndio registrado em Boca do Acre no ano de 2023 (foto: Débora Dutra/Cemaden)

Luciana Constantino | Agência FAPESP 

Mesmo com a redução do desmatamento na Amazônia em 2023, o bioma vem enfrentando outro desafio: os incêndios em áreas de vegetação nativa ainda não afetadas pelo desmatamento. Estudo publicado na revista científica Global Change Biology alerta que os incêndios em áreas das chamadas “florestas maduras” cresceram 152% no ano passado em comparação a 2022, enquanto houve uma queda de 16% no total de focos no bioma e redução de 22% no desmatamento.

Ao destrinchar as imagens de satélite, os pesquisadores detectaram que os focos em áreas florestais subiram de 13.477 para 34.012 no período. A principal causa são as secas na Amazônia, cada vez mais frequentes e intensas. Além dos eventos prolongados registrados em 2010 e 2015-2016, que deixam a floresta mais inflamável e provocam a fragmentação da vegetação, o bioma passa por uma nova estiagem no biênio 2023-2024, o que agrava ainda mais a situação.

Tanto que o Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aponta que o total de focos de calor no primeiro trimestre de 2024 em toda a Amazônia foi o maior dos últimos oito anos – 7.861 registros entre janeiro e março, representando mais de 50% das notificações no país (o Cerrado vem em seguida, com 25%). O mais alto número até então havia sido no primeiro trimestre de 2016 – 8.240 para o total do bioma.

“É importante entender onde os incêndios estão ocorrendo porque cada uma dessas áreas afetadas demanda uma resposta diferente. Quando analisamos os dados, vimos que as florestas maduras queimaram mais do que nos anos anteriores. Isso é particularmente preocupante não só pela perda de vegetação e desmatamento na sequência, mas também pela emissão do carbono estocado”, afirma o especialista em sensoriamento remoto e autor correspondente do artigo Guilherme Augusto Verola Mataveli, da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Inpe.

Mataveli está atualmente no Tyndall Centre for Climate Change Research, no Reino Unido, onde desenvolve parte de seu pós-doutorado sobre emissão de gases de efeito estufa por queimadas com o apoio da FAPESP (projetos 19/25701-8 e 23/03206-0), que também financia o trabalho por meio de outros quatro projetos (20/15230-5, 20/08916-8, 21/04019-4 e 21/07382-2).

No ano passado, alguns pesquisadores do grupo publicaram outro trabalho já mostrando o aumento de incêndios em uma fronteira emergente de desmatamento no sudoeste do Amazonas, na região de Boca do Acre, entre 2003 e 2019 (leia mais em: agencia.fapesp.br/40757).

“Além da gravidade dos incêndios em áreas de florestas maduras atingirem, por exemplo, árvores mais antigas, com maior potencial de estoque de carbono, contribuindo para o aumento do impacto das mudanças climáticas, há o prejuízo para as populações locais. Manaus é um desses casos, que foi a segunda cidade com a pior qualidade do ar no mundo em outubro do ano passado”, completa Mataveli.

Outros Estados registraram situação semelhante, incluindo o Pará, onde a contagem de focos de calor em florestas maduras em 2023 foi de 13.804 – contra 4.217 em 2022.

Neste ano de 2024, uma das piores situações está em Roraima, que concentra mais da metade dos registros do bioma. Com a quinta maior população indígena do país – 97.320 pessoas –, o Estado viu 14 dos seus 15 municípios decretarem emergência em março por causa do fogo. A fumaça levou à suspensão de aulas e a seca severa tem afetado comunidades indígenas, deixando-as sem acesso a alimentos e expostas a doenças respiratórias, entre outros impactos.

O Ibama/Prevfogo diz que tem atuado, desde novembro do ano passado, em conjunto com outras instituições nas ações de prevenção e no combate aos incêndios, atualmente concentrados em diferentes regiões de Roraima. Segundo o órgão, desde janeiro, são mais de 300 combatentes, além de quatro aeronaves que dão apoio ao trabalho.

“As mudanças climáticas são apontadas como um fator crítico para o aumento de episódios de incêndios, tendo o El Niño como fator agregador de risco devido à sua relação com a estiagem prolongada na região. Ressaltamos a importância da atuação dos órgãos ambientais estaduais e municipais no combate aos incêndios, em colaboração com os entes federais. Essa parceria é fundamental para permitir uma ação mais estratégica e eficaz na prevenção e no combate aos incêndios florestais”, informa o Ibama/Prevfogo em resposta à Agência FAPESP.

Procurado pela reportagem, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) reforçou em nota os pontos destacados pelo Ibama.

Resiliência

A mortalidade de árvores induzida pelo fogo em áreas de floresta excede frequentemente 50% da biomassa acima do solo, ou seja, os incêndios têm potencial para reduzir significativamente os estoques de carbono principalmente no longo prazo.

Neste ano, esse efeito já foi sentido. Em fevereiro, as emissões por queimadas no Brasil bateram recorde, atingindo o mais alto índice em 20 anos – 4,1 megatoneladas (cada megatonelada equivale a 1 milhão de toneladas) de carbono, alavancadas por Roraima, segundo o observatório climático e atmosférico europeu Copernicus.

Além disso, a resiliência da floresta fica comprometida, afetando, entre outros, sua capacidade de criar um microclima úmido abaixo do dossel das árvores para conter e reciclar a umidade dentro do ecossistema.

Outro ponto destacado pelos pesquisadores é que a crescente inflamabilidade da floresta torna-se um desafio para os agricultores tradicionais – eles normalmente usam o fogo controlado como forma de manejo de áreas de subsistência. Isso demanda incentivo a cadeias de produção para que sejam livres dessa prática.

Líder do grupo e coautor do artigo, o pesquisador Luiz Aragão ressalta que, “à medida que o tempo passa sem soluções efetivas para o problema do fogo na região amazônica, o bioma se torna mais vulnerável, com impactos ambientais, sociais e econômicos”. Aragão explica que, mesmo reduzindo as taxas de desmatamento, a área impactada por esse processo continua crescendo.

“Já havíamos previsto isso em 2010 em uma publicação de nosso grupo no periódico Science. Tanto as áreas já desmatadas quanto aquelas em processo de remoção da floresta constituem fontes ativas de ignição do fogo pelo homem. Como o desmatamento fragmenta a paisagem, criando mais bordas entre as florestas e as áreas abertas, as florestas maduras ficam mais permeáveis ao fogo. Somando as secas extremas, como a atual, à configuração da paisagem fragmentada, o uso contínuo do fogo na região e a presença de áreas florestais mais degradadas, por incêndios passados, extração ilegal de madeira e efeito de borda, espera-se uma floresta cada vez mais inflamável. Medidas urgentes são necessárias para mitigar os incêndios e manter a Amazônia como o maior bem do país para alcançar o desenvolvimento nacional sustentável”, avalia Aragão.

O grupo sugere ainda o aumento de operações de comando e controle e a expansão de brigadas de incêndio, além do desenvolvimento constante de sistemas de monitoramento. “Com o uso de inteligência artificial, podemos tentar desenvolver sistemas que, além de mostrar onde ocorreram os incêndios, façam uma predição dos locais com mais propensão de ocorrer e assim ter áreas mais específicas como foco de prevenção”, complementa Mataveli.

O artigo Deforestation falls but rise of wildfires continues degrading Brazilian Amazon forests pode ser lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/gcb.17202.


Fonte: Agência Fapesp

O que a repetição do uso da metáfora do santuário revela sobre as políticas do governo Lula para a Amazônia

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A metáfora do santuário usada à exaustão por Lula é um anteparo que esconde políticas que continuam o que Temer e Bolsonaro começaram na Amazônia

Em mais de uma ocasião, o presidente Lula tem repetido a metáfora do santuário para indicar que não pretende manter a Amazônia apartada das políticas econômicas que seu governo pretende implementar para alavancar o desenvolvimento econômico do Brasil.   Ainda que Lula continue dourando a pílula, prometendo um modelo de desenvolvimento sustentável (o que sabemos ser outra metáfora), ele fica nos devendo uma explicação clara de quem seriam os defensores da transformação da Amazônia em um santuário (ecológico, eu suponho), nem de como seriam as ações concretas do seu governo para não ampliar o processo de destruição que já ameaça a integridade e a funcionabilidade dos ecossistemas naturais amazônicos.

A realidade é que no tocante às ações concretas, o que o governo Lula tem feito e planeja fazer não tem nada de sustentável e se parece mais com uma continuidade do que foi feito nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, em uma espécie de déja vu de dias de terror.  Um exemplo concreto é a prometida pavimentação da BR-319 que segundo o ministro dos Transportes, Renan Filho, é uma das prioridades do governo Lula.  Acontece que existem estudos mostrando que a pavimentação da BR-319 terá um efeito devastador sobre o último grande bloco de floresta intacta na Amazônia, podendo acelerar o colapso ecológico de toda a bacia amazônica.

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Pavimentação da BR-319 deverá acelerar colapso ambiental da Amazônia, dizem cientistas

Mas a pavimentação da BR-319 é apenas um dos muitos projetos do governo Lula que ameaçam acelerar o processo de transformação da floresta amazônica em uma imensa savana, o que terá profundos impactos não apenas para o clima regional, mas do centro sul brasileiro.  O governo Lula mira a expansão de hidrovias e portos nos rios amazônicos, bem como a construção de ferrovias. Tudo isso está sendo feito de olho na ampliação da produção e exportação de soja e carne a partir da Amazônia. Como está mais do que demonstrado em incontáveis estudos científicos, pastagens e monoculturas de soja são as principais impulsionadoras de desmatamento das florestas da Amazônia e do Cerrado.

É preciso ainda lembrar que no congresso nacional avançam propostas que visam autorizar a exploração de madeira e ouro dentro de unidades de conservação e terras indígenas, muitas vezes com o beneplácito dos votos dos chamados partidos de esquerda, começando pelo PT do presidente Lula.  Se todas essas legislações forem aprovadas, o mais provável é que sejam acompanhadas de ações do governo federal para facilitar a atuação das madeireiras e empresas de mineração, e não o contrário.

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Garimpo ilegal de ouro despeja mercúrio nos rios amazônicos e ameaça a sobrevivência das florestas e dos povos indígenas

Ainda no contexto do santuário que inexiste para quaisquer medidas práticas, há que se lembrar que o governo Lula tem feito muito pouco ou quase nada para remover garimpeiros que hoje ameaçam povos indígenas em diferentes partes da Amazônia, começando pelos Munduruku e Kayapó no Pará e Yonamami em Roraima. Apesar de um início aparentemente comprometido, hoje já se vê que não apenas os garimpeiros não foram efetivamente expulsos, mas que continuam avançando com suas formas predatórias de exploração mineral, ameaçando diretamente a sobrevivência dos povos indígenas porque os esforços de remoção são, quando muito, precários. Com isso não avançam apenas as mortes de crianças, mas também a contaminação de mercúrio que emporcalha e envenena rios importantes e os peixes que são item fundamental dos habitantes da Amazônia.

Não posso esquecer aqui de mencionar os papéis inexpressivos que são cumpridos pelas ministras do Meio Ambiente, Marina Silva, e dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara. A elas caberiam informar a Lula que inexiste fora ele próprio alguém que aborde a complexidade amazônica sob a metáfora reducionista do santuário.  Com o silêncio concordante das duas ministras, Lula desafia a lógica ao exagerar o uso de uma figura de linguagem que não tem nada a ver com o que ocorre na realidade amazônica.

Finalmente, se o presidente Lula fosse minimamente comprometido com o desenvolvimento sustentável da Amazônia ele já teria criado um fundo especial para fortalecimento das universidades e institutos de pesquisa existentes nos estados da Amazônia, a começar pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e pelo Museu Paraense Emílio Goeldi que às duras penas realizam pesquisas fundamentais para o futuro da Amazônia. Mas até agora, essas duas instituições estratégicas continuam amargando com orçamentos insuficientes que as deixam sempre no limiar da inviabilização.

Composto químico de bactéria amazônica tem potencial antiviral, antitumoral e antibiótico, diz estudo

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Estudo identifica potenciais farmacêuticos em composto químico produzido por bactérias em solo de área de mineração

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Estudo realizado por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV), da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e de instituições parceiras descreve o potencial terapêutico de um composto químico produzido por bactérias encontradas no solo de uma área de mineração de bauxita em recuperação no Pará. O composto demonstrou propriedades viricidas, bactericidas e foi capaz de eliminar células cancerosas sem danificar células saudáveis, segundo narram os cientistas em artigo publicado na terça (12) na revista “Scientific Reports”.

A pesquisa estudou o potencial farmacêutico de uma cepa da bactéria Pseudomonas aeruginosa, isolada do solo de uma mina de bauxita em processo de recuperação ambiental da região de Paragominas, no leste do Pará. O microrganismo produz um tipo de ramnolipídeo, um glicolipídio gerado por bactérias que demonstrou, nos testes, resultados promissores contra vírus e microrganismos patogênicos.

O estudo avaliou a toxicidade do composto em relação a três tipos de vírus (herpes simples, coronavírus murino e vírus sincicial respiratório), células de adenocarcinoma de mama metastático, diversas cepas bacterianas (Salmonella, E. coli, estafilococos) e fungos (Candida). Uma solução do composto, com uma concentração de 250 μg/mL, inibiu 97% da atividade viral em todos os tipos de vírus testados. Resultados semelhantes foram observados com uma solução de 50 μg/mL, por 15, 30 e 60 minutos, sugerindo que a eficácia viricida está relacionada ao tempo de exposição.

Para José Pires Bitencourt, do ITV e um dos autores do artigo, o composto “é uma substância que ajuda a bactéria a captar algum nutriente que seja interessante e ajuda na comunicação entre bactérias da mesma espécie”. Segundo ele, durante o estudo, todas as concentrações do composto diminuíram a viabilidade das células cancerígenas para menos de 50% em 72 horas, demonstrando um potencial antitumoral comparável aos níveis alcançados pela quimioterapia padrão.

Bitencourt explica que as condições ambientais do solo amazônico são propícias para compostos de interesse farmacêutico, como o estudado pela pesquisa. “Diferentes subespécies de bactérias encontradas em várias condições de solo produzem biossurfactantes, influenciadas por fatores como clima, evolução do solo, regime hídrico, interação com outros organismos e impacto humano”.

O pesquisador relata que não é possível afirmar que o composto de P.aeruginosa encontrada em um outro local ou período terá o mesmo potencial terapêutico. “Pode ser que daqui um ano a mesma bactéria, da mesma mina, tenha um conjunto de fatores diferentes e o composto não seja mais produzido”, diz Bitencourt. Para ele, isso aumenta a importância de incentivos para projetos que estudem a biodiversidade da região amazônica. “A microbiota da Amazônia é pouco estudada e nos impede de explorar a diversidade desses grupos, não apenas para uso médico, mas também para a agricultura e para a exploração mineral”, aponta o autor.

Bitencourt explica que ainda não há previsão para a aplicação industrial do composto, mas a continuidade da pesquisa é fundamental para o desenvolvimento de produtos futuramente. “Os próximos passos serão a otimização do cultivo para termos um crescimento mais rápido do microrganismo e fomentar a maior produção do ramanolipídio. Depois faremos o genoma completo para busca de outros mecanismos de interesse industrial”, conclui.


Fonte: Agência Bori

A política ambiental do governo Lula para a Amazônia: uma agenda com pontos cegos

Ao construir estradas na Amazônia, o governo brasileiro está contribuindo para a destruição da floresta

Aerial drone view of BR 319 road in Amazon rainforest landscape in the border of Amazonas and Rondônia state, Brazil. Concept of  ecology, conservation, deforestation, environment, global warming.

A rodovia BR-319 entre os estados do Amazonas e Rondônia. Foto: iStock/Paralaxis/Fernando Martinho

Por Norman Suchanek para o “Neues Deutschland”

Pouco antes do Carnaval, o governo Lula apresentou sua “agenda ambiental abrangente”, que será aplicada até 2027 inclusive. Mas isto não é suficiente para evitar uma maior destruição da floresta tropical e impedir  aumento dos danos climáticos resultantes.

“O âmbito da agenda ambiental abrangente reflete a urgência e a complexidade dos problemas ambientais e climáticos”, diz o documento do governo. Para conter em tempo hábil danos irreversíveis aos ecossistemas e às pessoas, não só é necessário que os mais diversos setores integrem de fato a sustentabilidade ecológica em seus processos e políticas públicas, mas também que os esforços sejam coordenados e integrados.

Apesar destas palavras introdutórias que soam bem e das suas 123 páginas, a agenda não aborda as principais causas da destruição das florestas tropicais. Acima de tudo, cientistas como o pesquisador do clima e da Amazônia, Philip Martin Fearnside, criticam a intenção contínua de construir barragens para gerar electricidade e construir estradas na Amazónia. A agenda perde a oportunidade de garantir que medidas eficazes de prevenção de desastres ambientais sejam implementadas pelos estados , escreve o cientista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) no portal Amazônia Real. “O documento carece completamente de planos para abordar as causas profundas do desmatamento, como a construção de estradas na Amazônia que abrirão vastas novas áreas de floresta tropical para madeireiros invasores”, disse Fearnside.

Porta de entrada para madeireiros

A rodovia federal BR-319 e as estradas secundárias associadas, controversas há anos, são o melhor exemplo disso. No início da década de 1970, a ditadura militar brasileira já havia construído a BR-319 através da floresta tropical paralela aos rios Purus e Madeira, mas desistiu novamente em 1988 por falta de viabilidade econômica. Desde 2015, graças a um “programa de manutenção” do governo, voltou a estar parcialmente acessível durante a estação seca. Se for totalmente restaurada e pavimentada conforme exigido pelo atual Departamento de Transportes e pelos governadores dos estados da Amazônia, a BR-319 e suas estradas secundárias propostas conectariam o infame “arco de desmatamento” do já fortemente desmatado sul da Amazônia com Manaus, no coração da maior região de floresta tropiucal do mundo. Os atores da destruição florestal, como os especuladores de terras, as empresas madeireiras, os criadores de gado e a agricultura industrial, poderiam avançar ao longo da rota asfaltada.

Isto ameaçaria a preservação do último grande bloco intacto de floresta na bacia amazônica brasileira. Além disso, a rodovia federal com seu ramal planejado, a rodovia estadual AM-366, permitirá a realização da exploração de gás e petróleo na bacia do Solimões, a oeste de Manaus.

Mas a floresta tropical intacta na área chamada região Trans-Purus é crucial para manter o abastecimento de água da maior cidade do Brasil, São Paulo, e a agricultura no estado de mesmo nome. O sul do Brasil depende das imensas massas de água que são transportadas pelo vento ao longo de milhares de quilômetros desde as árvores da região central da Amazônia e por meio dos chamados rios voadores. Sem florestas intactas na Amazônia central, no entanto, grandes partes do Brasil ficariam mais quentes e secas.

O Brasil se prejudicaria

O desmatamento na região Trans-Purus também libertaria vastas reservas de carbono da biomassa e dos solos da região, alimentando ainda mais o aquecimento global e neutralizando fatalmente qualquer acção climática governamental bem-intencionada. Conclusão de Fearnside: o próprio Brasil seria uma das maiores vítimas de uma BR-319 asfaltada.

No ano passado, porém, 15 deputados dos estados do Amazonas e Rondônia, em Brasília, lançaram um projeto legislativo (PL 4994/2023) que tornaria a BR-319 de Manaus a Porto Velho, em Rondônia, “indispensável” para a infraestrutura e a segurança nacional de o país país, classificando o projeto prioritário em quaisquer planos nacionais de desenvolvimento ou aceleração económica. E mesmo o fundo Amazônia, que na verdade foi fundado para proteger a floresta tropical e é equipado com dinheiro da Alemanha, entre outras coisas, deveria ajudar a financiar o asfaltamento.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Estudo mostra que os investimentos em pesquisas sobre biodiversidade secundariza instituições sediadas na Amazônia

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A Amazônia brasileira é uma das regiões de maior biodiversidade e ecologicamente importantes da Terra. No entanto, segundo um estudo que se encontra no prelo para publicação pela revista Perspectives in Ecology and Conservation, os investimentos em pesquisa para a biodiversidade nos biomas amazônicos são desproporcionalmente baixos em comparação com outras regiões do Brasil (Ver figura abaixo).

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Distribuição de recursos financeiros para projetos de pesquisa e bolsas entre macrorregiões brasileiras. As bolsas representam o número de bolsas individuais de mestrado, doutorado e pós-doutorado financiadas pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Ensino Superior) para a área de biodiversidade em 2022; O orçamento do projeto é o investimento realizado por Bolsas Universais financiadas pelo CNPq relacionadas à Botânica, Zoologia, Ecologia e Limnologia entre 2016 e 2022; O orçamento do PELD são os recursos entregues pelo CNPq em 2020 para monitoramento de locais de Pesquisa Ecológica de Longa Duração, conforme situação da instituição executora. Todos os valores foram calculados considerando a conversão monetária da moeda de 1 USD para 5,34 BRL. A coluna (A) indica os valores totais; (B) a relação entre os valores totais e a população total de cada macrorregião (IBGE, 2022); e (C) a relação entre os valores totais e a área total (km²) de cada macrorregião.

Os autores do estudo mostram que em 2022, a Amazônia recebeu 13% das bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado e abrigou 11% de todos os pesquisadores que atuam em programas de pós-graduação em biodiversidade.

Além disso, os dados levantados pelos autores do estudo mostram que as instituições amazônicas receberam aproximadamente 10% de todo o orçamento federal gasto em subsídios e bolsas de estudo e cerca de 23% de todos os recursos destinados ao apoio a sítios ecológicos de longo prazo.  Por outro lado, as cidades de Manaus e Belém concentram cerca de 90% de todas as bolsas e bolsas disponíveis para toda a região.

Um fato relevante que é mostrado no estudo é que, apesar do investimento per capita em pesquisa na Amazônia ser igual ou melhor do que o disponível para as regiões economicamente mais desenvolvidas do Brasil, a distribuição de recursos por área é altamente desigual.

Finalmente, os autores do estudo argumentam que o aumento do financiamento da pesquisa para a região amazônica requer contribuições diferenciadas das agências federais e mais colaborações transnacionais e integração entre programas amazônicos e fundos internacionais.

Seca devastadora na Amazônia é resultado da crise climática, mostra estudo

Condições climáticas extremas ameaçam o maior reservatório de carbono do mundo, pois a floresta tropical já está perto do ponto de inflexão

droughtCasas flutuantes e barcos encalhados no leito seco do lago Puraquequara, no Brasil, em meio a uma forte seca em outubro de 2023. Foto: Edmar Barros/AP

Por Damian Carrington para o “The Guardian”

A crise climática transformou a seca que atingiu a floresta amazónica em 2023 num acontecimento devastador, concluiu um estudo.

A seca foi a pior registada em muitos locais e atingiu o nível máximo “excepcional” na escala científica. Sem as emissões que aquecem o planeta provenientes da queima de petróleo, gás e carvão, a seca teria sido muito menos extrema, concluiu a análise.

Também mostrou que a probabilidade de ocorrência da seca era 30 vezes maior devido ao aquecimento global. O regresso do fenómeno climático natural El Niño está associado a condições mais secas, mas desempenhou apenas um pequeno papel, disseram os cientistas.

A crise climática está a sobrecarregar condições meteorológicas extremas em todo o planeta, mas a seca extrema na Amazónia é um exemplo gritante e preocupante porque já se pensa que a floresta tropical está perto de um ponto de inflexão para um estado mais seco. Isto resultaria numa morte em massa de árvores que constituem a reserva terrestre de carbono mais importante do mundo, libertando grandes quantidades de CO2 e elevando ainda mais as temperaturas globais.

Milhões de pessoas na Amazônia foram afetadas pela seca , com alguns rios em seus níveis mais baixos há mais de um século. Houve escassez de água potável, colheitas fracassadas e cortes de energia, à medida que as centrais hidroeléctricas secaram. A seca também agravou os incêndios florestais e as altas temperaturas da água foram associadas a uma mortalidade em massa da vida fluvial, incluindo a morte de mais de 150 botos cor-de-rosa ameaçados de extinção numa única semana.

“A Amazônia pode fazer ou quebrar a nossa luta contra as mudanças climáticas”, disse Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil, e parte da equipe da World Weather Attribution que fez a análise.

“Se protegermos a floresta, ela continuará a funcionar como o maior sumidouro de carbono terrestre do mundo”, disse ela. “Mas se permitirmos que as emissões induzidas pelo homem e a desflorestação a empurrem para o ponto de viragem, serão libertadas grandes quantidades de CO2 . Precisamos proteger a floresta tropical e abandonar os combustíveis fósseis o mais rápido possível.”

Simphiwe Stewart, pesquisadora do Centro Climático da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho na Holanda e também parte da equipe, disse: “Muitas comunidades que vivem na Amazônia simplesmente nunca viram uma seca como esta antes. As pessoas foram forçadas a fazer grandes viagens, arrastando barcos por trechos secos do rio, para ter acesso a alimentos, remédios e outros bens essenciais. É fundamental que as intervenções governamentais sejam orientadas para apoiar as comunidades a prepararem-se para a intensificação da seca à medida que o clima aquece.”

A análise utilizou métodos revistos por pares para comparar as secas no clima actual, que é 1,2ºC mais quente, com aquelas que teriam ocorrido num clima mais frio e pré-industrial. Os investigadores analisaram em particular a “seca agrícola”, que é responsável tanto pela baixa pluviosidade como pela evaporação da água dos solos e das plantas provocada pelas altas temperaturas.

Eles descobriram que o aquecimento global está diminuindo as chuvas e aumentando o calor na Amazônia, tornando a seca de junho a novembro de 2023 cerca de 30 vezes mais provável. O El Niño foi responsável por parte da redução das chuvas, mas as altas temperaturas foram quase inteiramente devidas às alterações climáticas, tornando-o o principal factor da seca.

A seca extrema de 2023 seria esperada cerca de uma vez a cada 50 anos no clima atual, estimou a análise. Mas se o aquecimento global atingir os 2ºC, seria de esperar uma seca tão severa a cada 13 anos.

Os cientistas disseram que a destruição em grande escala da floresta tropical para a produção de carne bovina e soja nas últimas décadas piorou a seca porque o desmatamento da vegetação significa que a terra retém menos água.

Dados recentes mostram que a floresta amazónica está se aproximando de um ponto de viragem, após o qual a floresta tropical seria perdida, com profundas implicações para o clima e a biodiversidade globais. Mais de 75% da floresta intocada perdeu estabilidade desde o início dos anos 2000, mostrou o estudo, o que significa que leva mais tempo para se recuperar após secas e incêndios florestais.

Gareth Redmond-King, da Unidade de Inteligência Energética e Climática do Reino Unido, disse: “A floresta amazónica é fundamental para regular o clima do nosso planeta, mas esta área da América do Sul também é crítica para o Reino Unido num sentido ainda mais imediato”.

“Cerca de metade das nossas importações de alimentos provém de pontos críticos de impacto climático, incluindo o Peru, a Colômbia e o Brasil, que são os nossos principais fornecedores de bananas, abacates, melões e outras frutas, bem como de soja para alimentação do gado britânico”, disse ele. “Portanto, os efeitos devastadores das alterações climáticas sobre os agricultores da América do Sul no ano passado podem muito bem traduzir-se em lacunas nas prateleiras dos nossos supermercados e em preços mais elevados para os nossos alimentos.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Perspectivas para 2024 para florestas tropicais

Tropical Rainforest Landscape, Amazon

Por Rhett A. Butler para a Mongabay

Na semana passada, a Mongabay publicou uma recapitulação das principais tendências nas florestas tropicais do mundo para 2023 . Aqui está um vislumbre de algumas das principais questões a serem monitoradas em 2024.

Brasil

A taxa de desmatamento na Amazônia brasileira diminuiu significativamente durante o primeiro ano do terceiro mandato do presidente Lula, após o restabelecimento de vários programas de proteção da floresta tropical. No entanto, Lula enfrenta oposição substancial do Congresso e dos governos estaduais em relação às suas políticas ambientais. Apesar destes desafios, o apoio internacional à Amazónia está a reforçar os esforços de conservação da sua administração.

Eleições na RDC e na Indonésia

As eleições presidenciais serão iminentes em dois países com extensas florestas tropicais, a República Democrática do Congo (RDC) e a Indonésia.

Na RDC, o Presidente Felix Tshisekedi foi reeleito em Dezembro, no meio de controvérsia, com observadores e oposição a afirmarem que a votação não foi livre nem justa. Dado que a presidência de Tshisekedi coincidiu com taxas de desmatamento persistentemente elevadas e uma forte procura pelos minerais do país, a sua reeleição provavelmente indica poucas mudanças substanciais na tendência actual. Contudo, a escalada da instabilidade no Leste, potencialmente agravando a crise humanitária existente, poderá introduzir mais incerteza.

Na Indonésia, o ministro da Defesa, Prabowo Subianto, emergiu como o favorito presidencial. Prabowo, um crítico veemente do Regulamento Desmatamento Zero da UE, suscitou preocupações das ONG sobre o futuro da protecção ambiental na Indonésia. A redução consistente, embora subreconhecida, do desmatamento no país desde então levanta questões sobre sua continuação sob a liderança potencial de Prabowo.

Passagem de Wallace na Papua Ocidental da Indonésia.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Passagem de Wallace na Papua Ocidental da Indonésia. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Mercados de Carbono

Depois de um ano desafiante, marcado por controvérsias e pela descida dos preços das compensações baseadas na natureza, os defensores dos créditos de carbono florestais têm esperança de que os padrões recentemente mais rigorosos nos mercados voluntários de carbono possam revitalizar o sector.

O estado brasileiro do Tocantins está preparado para verificar e vender créditos jurisdicionais de REDD+ (JREDD), que os proponentes argumentam serem mais confiáveis ​​do que os créditos convencionais de REDD+ no mercado voluntário. Um lançamento bem-sucedido poderia catalisar o mercado para esses créditos.

FUTUROS DE COMPENSAÇÃO DE EMISSÕES GLOBAIS BASEADAS NA NATUREZA DA CBL: contratos de fevereiro de 2024 e maio de 2024.  Cortesia do CME.
Futuros de compensações de emissões globais baseadas na natureza da CBL: contratos de fevereiro de 2024 e maio de 2024. Cortesia do CME

El Nino

A NASA e a Organização Meteorológica Mundial prevêem que o atual evento El Niño terminará este ano. Este desenvolvimento traria um certo alívio às florestas tropicais da Indonésia e da Amazónia, que sofreram secas em 2023.

Floresta e dendê em Jambi, Indonésia.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Floresta e dendê em Jambi, Indonésia. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Inflação global e preços de commodities

Embora a inflação global pareça estar a diminuir, os analistas estão divididos quanto às previsões dos preços das matérias-primas. Por exemplo, a S&P Global prevê preços elevados do óleo de palma devido à estagnação da produção em grandes produtores como a Indonésia e a Malásia, juntamente com o aumento da procura de biodiesel, potencialmente sobrecarregando a oferta. Por outro lado, a Fitch prevê preços significativamente mais baixos, atribuindo isso às condições climáticas favoráveis.

Avanços em dados florestais

Espera-se que as melhorias na recolha de dados florestais continuem em 2024, impulsionadas pela crescente prevalência de satélites e pelos avanços na inteligência artificial e outras tecnologias. Por exemplo, a empresa de satélites Planet deverá introduzir uma ferramenta de mapeamento de carbono florestal e lançar a sua próxima geração de satélites ainda este ano.

Espera-se que a Universidade de Maryland divulgue sua avaliação anual da cobertura florestal global na primavera, enquanto uma parceria entre a Iniciativa Internacional para o Clima e Florestas da Noruega (NICFI) e o Bezos Earth Fund expandirá o acesso gratuito e universal ao monitoramento de alta resolução por satélite do trópicos.

Floresta tropical no Equador.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Floresta tropical no Equador. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Progresso em compromissos de alto nível?

Na COP26, em Glasgow, mais de 140 países comprometeram-se a travar e reverter a desflorestação até 2030. Este compromisso foi reafirmado na COP28, no Dubai, no mês passado. Contudo, progressos significativos na garantia do financiamento necessário para atingir este objetivo continuam a ser ilusórios. O mundo está alarmantemente fora do rumo , como evidenciado pelo aumento do desmatamento em 2022. A questão premente agora é: estarão os líderes mundiais, abrangendo as esferas política e empresarial, à altura do desafio de travar o desmatamento?


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pela Mongabay [Aqui!].

Estudo mostra que a cor dos rios é uma pista confiável na luta contra a Malária

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Um estudo no Brasil constatou que perto de rios de águas escuras há maior incidência de malária que em zonas que lindan com rios de águas claras. Crédito da imagem: Alexandre Amorim/Panoramio , sob licença Creative Commons CC BY-SA 3.0 Deed 

Por Pablo Corso para a SciDev

As populações que vivem próximas de rios de águas escuras têm maior incidência de malária do querios de águas claras, é o que mostra um estudo pesquisadores brasileiros no Malaria Journal .

Esta informação deveria facilitar a identificação de zonas com alto risco de transmissão de doenças e contribuir para o planejamento de ações preventivas.

A malária é transmitida pelo mosquito Anopheles , com casos sendo impulsionados pela combinação de más instalações sanitárias, degradação ambiental , mudanças de temperatura e condições hidrológicas.

No Brasil, a doença se concentra nos estados da Amazônia, e em alguns rios se reproduzem os mosquitos que atuam como vetores.

Na Amazônia, que abriga uma das maiores bacias  hidrográficas do mundo, sedimentos como areia, silte e argila afetam a coloração dos rios, o que deriva em pistas confiáveis ​​sobre a presença —ou não— do mosquito que transmite a malaria. Os rios classificados como brancos, segundo dados do estudo, transportam grande quantidade de sedimentos.  Os “negros” levam grandes quantidades de nutrientes orgânicos.

Os casos de malária são mais frequentes nestes últimos, concluiu o estudo que se estendeu durante 17 anos (2003-2019) em 50 municípios do estado do Amazonas.

“É possível que estes achados ajudem a melhorar as estratégias de controle, ampliando o conhecimento sobre a identificação de zonas com maior risco de transmissão (…) e que ser extrapoladas para regiões com características semelhantes”.

Jesem Yamall Orellana, coautor do estudo

Os sedimentos em suspensão, em mudança, baixam a temperatura e aumentam a velocidade das águas, um obstáculo para a reprodução do vetor.

Para realizar essas observações, o pesquisador recorreu a imagens de satélite, informações de estações pluviométricas e bases de dados oficiais sobre a doença.

“Ao comparar os valores mais altos de incidência de malária, a probabilidade de que fosse menor nos rios de água branca era cerca de 96%”, precisou SciDev.Net Jesem Yamall Orellana, um dos autores do trabalho.

“É possível que esses achados ajudem a melhorar as estratégias de controle, ampliando o conhecimento sobre a identificação de zonas com maior risco de transmissão”, acrescenta. “Pode-se extrapolar para regiões com características semelhantes”.

Gabriel Zorello Laporta, autor de outro trabalho sobre a incidência da Malária no Brasil , sinalizou que a pesquisa “estabelece em termos formais uma relação empírica muito conhecida pelos entomólogos que trabalham na região amazônica”. Coincide que os resultados poderiam extrapolar para países como o Peru, onde vive o mesmo vetor ( Nyssorhynchus darlingi ), mas não poderia acontecer o mesmo em países com vetores diferentes.

O caminho da prevenção

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o planeta registrou 247 milhões de casos de malária em 2021. Isso representa dois milhões a mais que em 2020, embora se atribua a suba à interrupção dos serviços sanitários durante a pandemia.

Nas últimas décadas, iniciativas governamentais avançadas para prevenir a doença levaram à redução global do ritmo de contágios e mortes .

Em países onde a doença é endêmica, a incidência foi reduzida de 82 casos por cada 1.000 habitantes em 2000 para 57 em 2019, destaca o Relatório Mundial sobre Malária de 2022.

Enquanto a África relatava 95 % dos casos de malária no mundo, nas Américas o número baixou de 1,5 milhão em 2000 para 600.000 em 2021. Países como Argentina, Paraguai e El Salvador conseguiram eliminar a doença.

O Brasil também mostra uma tendência decrescente, com ações de prevenção, controle e vigilância. Entre eles, Yamall Orellana destaca o “apoio técnico, maior acesso a mosquitos e inseticidas de longa duração, testes de diagnóstico rápido, melhorias em redes de laboratórios, educação sanitária e formação de profissionais”.

Então, fique muito por fazer. “Dos 29 municípios classificados como de alto risco pelo Ministério da Saúde do Brasil em 2021, 14 foram estabelecidos no Amazonas ”, precisa. “Esses estados são muito grandes e heterogêneos e —em geral— compreendem territórios de difícil acesso, o que torna muito desafiador o controle da doença”, disse Zorello Laporta.

Isso dificultou zonas de abarca como Roraima, o estado onde habitam os indígenas yanomami, vítimas de uma catástrofe social e sanitária que complica ainda mais a abordagem.

Junto ao Pará, neste estado também avançou o garimpo ilegal. “Os portadores assintomáticos perpetuam a transmissão, especialmente se eles fizerem parte de uma atividade econômica ilícita, que implica uma dinâmica de mobilidade entre diversas localidades”, explica.

O contexto nacional, de Zorello Laporta, motiva um grande otimismo, porque o governo de Lula da Silva respalda “a conservação das florestas, dos direitos indígenas e das disparidades na saúde”, elogia. “O compromisso político e económico é fundamental para sustentar a luta contra a malária”.

Esta luta, advertiu Yamall Orellana, deve se estender a países como Venezuela e Colômbia, que junto com o Brasil concentram cerca de 80% dos casos na América do Sul

“A situação epidemiológica ainda é preocupante” nessas nações, alerta, porque se enfrenta desafios persistentes em torno da disposição de dados confiáveis ​​e estratégias para melhorar o diagnóstico e o acesso ao tratamento.


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do SciDev.Net e publicado Aqui!