Monitor do Fogo: Amazônia e Cerrado foram os biomas mais queimados em agosto

Amazônia teve 1,7 milhões de hectares atingidos pelo fogo no mês e Cerrado 1,2 milhões; o Monitor do Fogo faz o mapeamento mensal das cicatrizes de fogo no Brasil. Dados de agosto para todos os biomas foram lançados nesta terça (20)

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Amazônia teve 1,7 milhões de hectares atingidos pelo fogo no mês e Cerrado 1,2 milhões; o Monitor do Fogo faz o mapeamento mensal das cicatrizes de fogo no Brasil. Dados de agosto para todos os biomas foram lançados nesta terça (20)

A Amazônia e o Cerrado foram os biomas mais atingidos pelo fogo em agosto. É o que mostra o Monitor do Fogo, produto da iniciativa MapBiomas em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), com os novos dados divulgados nesta terça-feira (20). O Monitor do Fogo divulga, mês a mês, um mapeamento das cicatrizes de fogo no Brasil.

Foram 1.699.993 hectares queimados na Amazônia em agosto. No Cerrado, foram 1.190.352 hectares no mesmo mês. Outros biomas também foram mapeados: Mata Atlântica (47.401 hectares), Caatinga (31.554 hectares), Pantanal (19.867 hectares) e Pampa (58 hectares).

Os estados mais afetados pelo fogo em agosto e as respectivas áreas queimadas foram: Pará (869.462 hectares); Mato Grosso (657.342 hectares); Tocantins (421.997 hectares); Amazonas (303.088 hectares); e Maranhão (246. 325 hectares), todos contemplando os biomas da Amazônia e Cerrado.

Aumento do fogo no Pará

O estado do Pará teve aumento de 110% nas queimadas em relação ao mês de agosto do ano anterior. Os municípios paraenses mais afetados em agosto deste ano foram: São Félix do Xingu, com 202.828 hectares queimados; Altamira, com 197.292 hectares queimados; e Novo Progresso, com 130.787 hectares queimados.

Pesquisador no IPAM e no Monitor no Fogo, o cidadão altamirense Felipe Martenexen compartilha como as queimadas afetam a vida de quem mora na cidade. “A gente acaba sentindo na pele todo o efeito dessas áreas queimadas, a gente sente a fumaça. Quando eu acordo, a área de casa está cheia de cinzas. Imagine o ar que a gente está respirando! É algo que compromete a nossa saúde e assusta bastante a população. Nosso papel aqui é produzir os dados para que a comunidade possa usar e aproveitar da melhor maneira possível”, comenta.

Desmatamento e queima de pastagens

De janeiro a agosto de 2022, o Brasil teve uma área total queimada de 5.924.418 hectares, e os principais tipos de vegetação nativa e uso da terra atingidos pelo fogo foram: formações campestres (26,8%); pastagens (24,4%); formações savânicas (16%); formações florestais (14,5%); campos alagados e áreas pantanosas (10,3%).

“O período seco ainda está muito forte, com ondas de calor atingindo regiões onde a chuva não cai há muito tempo. Isso, de fato, gera a possibilidade de incêndios. Quando a gente fala de fogo na Amazônia, a gente está falando, principalmente, de fogo de desmatamento, em um processo que finaliza o desmatamento. Tem também o fogo que é para queima de pastagem, as pessoas usam o fogo para manejar a pastagem que está com arbustos, por exemplo, que não são plantas para o gado comer. O interessante é que o Monitor do Fogo traz esse dado, mostrando que grande parte do que queimou no Brasil de janeiro a agosto é pastagem. A gente vê que, de fato, há um investimento”, diz Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM e coordenadora do Monitor do Fogo.

O que está por vir em setembro

Agosto e setembro são os meses em que ocorre o auge da estação seca em algumas regiões do país. Pesquisadores antecipam que os números do próximo mês podem ser ainda maiores para os biomas Amazônia e Cerrado.

“Apesar da área queimada de janeiro a agosto no Brasil ter sido menor que a área queimada em 2021 no mesmo período, infelizmente, estamos esperando uma área ainda maior atingida pelo fogo no país para o mês de setembro, novamente na Amazônia e no Cerrado. Confirmaremos essa projeção nas próximas semanas com o mapeamento do Monitor do Fogo para o mês de setembro”, indica Vera Laísa Arruda, pesquisadora no IPAM e no Monitor do Fogo.

Sobre o Monitor do Fogo

Monitor do Fogo é a primeira versão do mapeamento mensal de cicatrizes de fogo para o Brasil, abrangendo o período a partir de 2019, baseado em mosaicos mensais de imagens multiespectrais do satélite Sentinel 2 com resolução espacial de 10 a 20 metros. Todo o processo foi realizado de forma colaborativa entre as instituições da rede MapBiomas e utilizando algoritmos de aprendizado de máquina (deep learning) por meio da plataforma Google Earth Engine e Google Cloud Storage que oferecem imensa capacidade de processamento computacional e em nuvem.

O MapBiomas é uma rede de instituições que envolve ONGs, universidades e empresas de tecnologia dedicadas a mapear e entender a dinâmica do uso da terra no Brasil. Para o Monitor do Fogo, o IPAM realizou o desenvolvimento tecnológico e operacional. Equipes de especialistas em cada bioma realizaram amostragem, avaliação e refinamento do mapeamento: IPAM para os biomas Amazônia e Cerrado; SOS Pantanal/ArcPlan para o bioma Pantanal; Geodatim para o bioma Caatinga; SOS Mata Atlântica/ArcPlan para o bioma Mata Atlântica; e Geokarten para o bioma Pampa.

Queimadas em 2022 na Amazônia já superam todo o ano de 2021

Em apenas oito meses, o bioma registrou 75.592 focos de calor, contra 75.090 no ano anterior

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Sobrevoo em Porto Velho, na região da Amacro (Amazonas, Acre e Rondônia), em uma área com cerca de 8.000 hectares de desmatamento – a maior em 2022 – Foto: Nilmar Lage / Greenpeace Brasil

São Paulo, 19 de setembro No último domingo (18), o número de queimadas na Amazônia, desde o início de 2022, superou os focos registrados no ano anterior. Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram registrados 75.592 focos de incêndio em apenas oito meses, enquanto em 2021 houve 75.090 focos de calor. Pará segue sendo o Estado recordista de queimadas, com 24.304 focos de calor registrados, representando 32,2% do total, seguido por Mato Grosso (17.480), Amazonas (15.772), Rondônia (8.232) e Acre (7.875).

Infelizmente essa escalada destrutiva já era prevista, considerando que no início de setembro, o número de queimadas, em apenas quatro dias, foi o maior do ano, com o Inpe registrando, em um único dia, 3.393 focos de incêndio, superando, inclusive, o Dia do Fogo, ocorrido em 11 de agosto de 2019, em que na ocasião agropecuaristas do Pará combinaram a data para colocar fogo em áreas de pasto e recém-desmatadas, chegando a 2.366 focos.

Em uma época conhecida no Brasil como “verão amazônico”, pelo período seco na região, a Amazônia vem registrando desde 2018 recordes de áreas queimadas entre os meses de agosto a outubro. Para o porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, André Freitas, o aumento de queimadas na floresta amazônica está claramente associado com desmatamento e grilagem de terras, tudo reflexo de uma política de destruição com o aval do poder Executivo e de parlamentares: “O fogo é uma tragédia anunciada! E após quase quatro anos de uma clara e objetiva política antiambiental por parte do governo federal, vemos que na iminência de encerramento deste mandato – que está sendo um dos períodos mais sombrios para o meio ambiente brasileiro – grileiros e todos aqueles que têm operado na ilegalidade, viram um cenário perfeito para avançar sobre a floresta.”

Desde o dia 23 de junho deste ano, o Decreto Nº 11.100 proíbe o uso do fogo na Amazônia e Pantanal, entretanto, o que se assiste são recordes alarmantes de queimadas pelo Bioma: “Para conter esse aumento avassalador de queimadas em nossas florestas é necessário uma política que promova um real avanço no combate às queimadas e que defenda os povos da floresta”, finaliza André.

Estudo do Imazon mostra grande avanço do desmatamento e da degradação florestal na Amazônia

Apenas em agosto, foram derrubados 1.415 km². Além disso, a degradação florestal causada pela extração de madeira e pelas queimadas cresceu 54 vezes

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Sobrevoo do Greenpeace em julho mostrou queimada em Rondônia (Foto: Christian Braga/Greenpeace)

Por Imazon

O desmatamento acumulado na Amazônia já chegou a quase 8 mil km² apenas em oito meses, sendo o maior dos últimos 15 anos. Segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), somente em agosto foram derrubados 1.415 km² de floresta, uma área quatro vezes maior do que Belo Horizonte.

Outro problema foi a degradação florestal causada pela extração de madeira e pelas queimadas, que cresceu 54 vezes na região em relação ao mesmo mês do ano passado. A área degradada passou de 18 km² em agosto de 2021 para 976 km² em agosto de 2022, uma alta de 5.322%.

Além de ameaçar diretamente a vida de povos e comunidades tradicionais e causar perdas na biodiversidade, esse aumento na destruição também afeta a camada de ozônio e contribui para o aquecimento global em um momento de emergência climática. Por isso, neste Dia Internacional para a Preservação da Camada de Ozônio, é importante olhar para a floresta em pé como uma das soluções para proteger as populações das consequências desse desequilíbrio do clima, entre elas a maior frequência e intensidade de eventos extremos como secas e tempestades.

“Já passamos da metade do ano e o que vem acontecendo são recorrentes recordes negativos de devastação da Amazônia, com o aumento no desmatamento e na degradação florestal. E infelizmente temos visto ações insuficientes para combater esse problema”, lamenta a pesquisadora Bianca Santos, do Imazon.

SITE SAD JAN AGO 2008 2022 - Desmatamento na Amazônia chega a quase 8 mil km² em 2022, pior acumulado em 15 anos

Monitoramento da degradação pode ajudar no combate ao desmatamento

O instituto classifica como desmatamento quando a vegetação foi totalmente removida, o chamado “corte raso”, e como degradação florestal quando parte da mata foi retirada por causa da extração de madeira ou afetada pelo fogo. Por isso, é comum que uma área classificada como degradada seja posteriormente desmatada.

“Em muitos casos de áreas que sofrem degradação florestal por exploração madeireira, após a retirada total das espécies de valor comercial, é feita a remoção completa das árvores para destinar aquela área a outros tipos de uso, como por exemplo a agropecuária ou até para a especulação imobiliária, no caso da grilagem”, explica Bianca.

É por isso que monitorar também a degradação, e não apenas o desmatamento, é muito importante para a Amazônia. “Se os órgãos ambientais agirem para proteger as áreas degradadas recentemente, podem evitar que elas sejam desmatadas nos meses seguintes”, completa a pesquisadora.

Pará lidera no desmatamento e Mato Grosso na degradação

Apesar da área destruída na Amazônia em agosto deste ano ter sido 12% menor do que no mesmo mês de 2021, quando foram desmatados 1.606 km², Bianca alerta que é extremamente cedo para comemorar. Isso porque a devastação de 2022 foi a terceira pior para o mês de agosto desde 2008, quando o instituto implantou seu Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD). O segundo pior ano foi 2020, quando 1.499 km² de floresta foram postos abaixo.

SITE SAD AGO 2008 2022 - Desmatamento na Amazônia chega a quase 8 mil km² em 2022, pior acumulado em 15 anos

Os estados que mais desmataram em agosto foram Pará (647 km²), Amazonas (289 km²) e Acre (173 km²), que registraram respectivamente 46%, 20% e 12% de toda a derrubada na Amazônia.

“Nesses três estados, assim como nos outros que compõem a região, estamos identificando o avanço do desmatamento nas florestas públicas não destinadas. São áreas pertencentes aos governos dos estados ou federal que ainda não tiveram um uso definido, cuja prioridade estabelecida em lei é para a criação de novas áreas protegidas, como terras indígenas ou quilombolas e unidades de conservação. Porém, por essa falta de destinação, essas terras acabam sendo as preferidas dos grileiros, que as invadem com a expectativa de obter a posse”, afirma a pesquisadora.

Já o estado que teve a maior área de floresta degradada em agosto foi Mato Grosso (657 km²), o que representa 67% do registrado em toda a Amazônia. Pará (240 km²) e Acre (28 km²) ficaram em segundo e em terceiro, com respectivamente 25% e 3% das áreas degradadas na região.

Clique aqui para ver todos os dados de agosto
Saiba mais sobre o SAD aqui


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Este texto foi inicialmente publicado pelo Imazon [Aqui!].

Corrupção, fraudes e hackers mascaram a origem ilegal da carne na Amazônia

Novo relatório da ‘Repórter Brasil’ mostra como são facilmente adulterados documentos usados pelos frigoríficos para bloquear compras de bois ligados ao desmatamento ou trabalho escravo, abrindo brecha para fraudes envolvendo até mesmo funcionários públicos

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Pela Repórter Brasil

Os maiores frigoríficos brasileiros anunciaram planos para garantir que, até o fim da década, não vão comprar um gado sequer de áreas desmatadas. Para isso, JBS, Marfrig e Minerva vêm investindo em ferramentas para monitorar a origem dos bois, incluindo tecnologias inovadoras que, em breve, permitirão o monitoramento ambiental dos seus fornecedores indiretos – ou seja, os pecuaristas que fornecem os animais jovens engordados nas fazendas que negociam diretamente com os frigoríficos.

No entanto, um novo relatório da Repórter Brasil, o Monitor 16 – De Olhos Fechados pro Desmatamento, mostra como há nestes planos um problema de origem que dificulta o cumprimento da meta: o rastreamento total da cadeia produtiva do gado segue baseado em documentos oficiais sujeitos a fraudes frequentes e cuja fragilidade dificulta, no contexto atual, o monitoramento até mesmo dos fornecedores diretos.

As violações vão desde esquemas para burlar os sistemas de controle dos frigoríficos até golpes envolvendo servidores públicos e hackers, que atuam de forma criminosa para apagar dos registros oficiais dados como as multas ambientais de fazendas fornecedoras. 

Alguns dos esquemas ilegais envolvem quadrilhas como a identificada na Operação Tokens, da Polícia Federal, em 2020. Os criminosos falsificavam certificados digitais (tokens) de funcionários do Ibama. Feito isso, acessavam os sistemas eletrônicos do órgão para desembargar, de forma clandestina, áreas interditadas na Amazônia por crimes como desmatamento ilegal.

Esquemas para burlar sistemas de controle dos frigoríficos e golpes envolvendo servidores públicos e hackers são algumas das violações compiladas no relatório ‘Monitor 16 – De Olhos Fechados pro Desmatamento’ (Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace)

À época, foram constatados 122 desembargos irregulares em nome de 54 pessoas físicas ou jurídicas. Algo que afeta os sistemas de controle dos principais frigoríficos brasileiros, já que eles são signatários de acordos para não adquirir animais de fazendas com áreas embargadas.

Em 2021, mais uma apuração da Polícia Federal apontou outras formas criminosas para alcançar o mesmo objetivo. Um assessor do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, estaria pressionando servidores do Ibama para cancelar embargos incidentes em algumas fazendas – incluindo áreas de pastagem. A denúncia do caso levou à exoneração do servidor.

Também no ano passado, a Operação Fake Bois, deflagrada pela Polícia Civil do Acre, revelou outro lado da fragilidade no monitoramento da pecuária: a participação de servidores públicos em esquemas de corrupção para mascarar o trânsito de gado de origem desconhecida.

A fraude ocorria por meio de adulterações nas Guias de Trânsito Animal (GTAs) – documentos obrigatórios para acompanhar o transporte do gado entre fazendas ou para o abate. Segundo as investigações, por anos um ex-servidor inseriu informações falsas no sistema responsável pela emissão destes documentos. Desde 2018, haviam sido detectadas 135 inserções falsas e ao menos 30 fazendas entre as áreas possivelmente beneficiadas.

Outra fiscalização – a Operação Boi Fantasma – foi deflagrada pela Polícia Civil de Rondônia em abril de 2021, identificando esquema semelhante também naquele estado.

Mentiras sem consequências

É justamente por meio de informações das GTAs que os frigoríficos pretendem identificar e monitorar seus fornecedores indiretos. Mas há proprietários que, mesmo sem a ajuda de servidores corruptos, conseguem emitir guias “fictícias” para mascarar a real origem do gado transportado.

Também foram destacadas no relatório as fraudes nas Guias de Trânsito Animal (GTAs), que são documentos obrigatórios para acompanhar o transporte do gado entre fazendas ou para o abate (Foto: João Laet/Repórter Brasil/The Guardian)

Isso ocorre quando uma propriedade com áreas embargadas ou inserida na “lista suja” do trabalho escravo emite a GTA em nome de fazendas “limpas”, que podem ser do mesmo dono, de parentes ou amigos. Dessa forma, usa o documento para acobertar o transporte dos animais criados na área desmatada ilegalmente.

Em 2020, a Repórter Brasil publicou uma investigação na qual foram identificados fortes indícios da prática. Um pecuarista desmatador e foragido da Justiça repassou 143 animais fêmeas para um sítio pertencente a um ex-funcionário seu. Onze minutos depois, segundo os próprios registros de GTAs, esse ex-funcionário transferiu 143 animais, com as mesmas características de sexo e idade, para o abate em um frigorífico da JBS.

Muitas vezes, as adulterações são grosseiras. Um exemplo são propriedades que emitem GTAs indicando a saída de um número alto de animais em um curto período de tempo – muito além do que seria factível, dado o tamanho da fazenda. É um forte indicativo de que o gado transportado teve origem em outros locais. Ou seja, teve a sua real origem “lavada”.

O mapa da mina

As indústrias compradoras de gado checam a existência de desmatamento em áreas fornecedoras através do Cadastro Ambiental Rural (CAR). O CAR é um documento federal onde os fazendeiros indicam os limites de suas propriedades, as áreas de preservação obrigatória e os remanescentes de vegetação nativa.

São inúmeras as fraudes realizadas em seu preenchimento. Por exemplo, muitos pecuaristas falsificam o perímetro de suas fazendas simplesmente removendo da área declarada as partes que foram desmatadas ilegalmente.

Outra prática comum é a “quebra” da propriedade. Nesses casos, uma fazenda é convertida – ao menos no papel – em diversas fazendas menores que fazem fronteira entre si. Caso exista um embargo ou um registro de desmatamento ilegal em alguma delas, basta informar aos frigoríficos o CAR vizinho como a área de origem dos animais vendidos.

Uma alternativa para, de fato, acabar com a venda de gado ligado ao desmatamento seria rastrear os animais com chips, de forma semelhante à já realizada em outros países; mas o setor trata essa tecnologia como uma possibilidade distante (Foto: Verena Glass/Repórter Brasil)

Por ser autodeclarado, o CAR precisaria, segundo a lei, passar pela validação das secretarias de meio ambiente estaduais, que devem fiscalizar a veracidade das informações incluídas. Mas esse processo está muito longe de ser concluído. Muitos dos CARs de áreas fornecedoras de gado sequer foram analisados pelas autoridades.

Horizonte nebuloso

Organizações da sociedade civil defendem a necessidade de avançar na transparência dos dados públicos – especialmente os CARs e as GTAs – para inibir as fraudes através do maior controle social da atividade agropecuária. Mas o governo federal e diversos governos estaduais resistem a isso.

As GTAs, por exemplo, são tratadas como documentos sigilosos, embora desde 2015 o Ministério Público Federal recomende que elas sejam de acesso público. O órgão já chegou a ingressar com uma ação judicial para obrigar a publicação das guias, mas sem resultados até o momento.

Outra alternativa seria rastrear individualmente os animais com chips, de forma semelhante à já realizada em outros países. Mas a adoção da tecnologia ainda é tratada como uma possibilidade distante pela indústria e por observadores externos.

Em 2021, um projeto de lei federal chegou a ser proposto na Câmara dos Deputados para exigir o uso de identificação eletrônica em animais criados em pastagens. A proposta, no entanto, já foi arquivada.


Leia o relatório completo aqui, disponível também em inglês.

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Este texto foi originalmente publicado pela “Repórter Brasil [Aqui!].

Amazônia em chamas tem cidades sitiadas pelo fogo

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A mídia corporativa está propositalmente ocultando a grave situação que ocorre na Amazônia brasileira em função do número recorde de queimadas, propiciado pelo avanço agressiva da franja de desmatamento em áreas ainda relativamente intocadas daas florestas ali existentes. Mas a observação da imagem abaixo pemite observar duas coisas básicas: o número recorde de focos de calor e a concentração dos mesmos em torno de várias cidades importantes nos estados da região Norte, especialmente nos estados do Amazonas, Acre e Rondônia e Mato Grosso.

A principal razão para a ocultação objetiva do que está acontecendo na Amazônia é simples: impedir que seja feito um debate mais substancial sobre a relação entre a agricultura extensiva de exportação de commodities e a destruição da biodiversidade brasileira, bem como sobre os povos indígenas.

O problema é que a grossa camada de fumaça que está sendo gerada pelo número recorde de queimadas já começou no centro sul do Brasil e poderá propiciar situações críticas na qualidade do ar em regiões metropolitanas que já convivem com a poluição gerada localmente como no caso de São Paulo (ver imagem abaixo).

sp fumaçaNo dia de ontem (09/09), a cidade de SP amanheceu coberta por fumaça cinza e moradores relatam cheiro de queimado — Foto: Reprodução/TV Globo

Talvez com a chegada das nuvens de fumaça, em vez das que traziam chuva, sirva para que o que está acontecendo na Amazônia possa ocupar um mínimo de espaço dentro da agenda da mídia corporativa e, por extensão, do debate eleitoral que agora ignora este problema.

E é como eu digo sempre, o agro não é pop, o agro é fogo.

 

Desmatamento no mês de agosto chega a 1.661 km², sendo o segundo pior da série histórica

Dados divulgados pelo Inpe mostra que o registrado em agosto perde apenas para o ano de 2019 e acumulado desde janeiro é o maior da série 

fogoImagem aérea de desmatamento e queimadas no maior desmatamento registrado na Amazônia em 2022 | Foto: Nilmar Lage/Greenpeace

São Paulo, 9 de setembro de 2022  Dados do Programa DETER-B do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje (9), mostram que agosto registrou 1.661 km2, o segundo pior área acumulada com alertas de desmatamento da série histórica do Deter, perdendo apenas para o ano de 2019, também no governo Bolsonaro. Pará lidera, seguido do Mato Grosso e Amazonas. O registrado em agosto representa um aumento de 81% em relação ao ano anterior, e o acumulado de janeiro a agosto de 2022 foi o maior da série histórica, com 7.135 km2.

O que chama a atenção é a intensidade da destruição nos últimos meses quando comparado ao ano anterior: em agosto de 2022, o desmatamento cresceu e as queimadas dos primeiros sete dias ultrapassaram setembro do ano anterior. Para Cristiane Mazzetti, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil: “A destruição ambiental nos últimos anos ganhou velocidade e escala já que as porteiras foram escancaradas por um governo que abraça e incentiva o crime ambiental através de suas ações e omissões, não se sabe o dia de amanhã e é melhor garantir enquanto a porteira está aberta”.

O desmonte das políticas e instituições socioambientais promovidos pela gestão Bolsonaro, a exemplo do sucateamento de órgãos ambientais, cortes e baixa execução de orçamentos, omissão quanto à invasões fortemente denunciadas em terras indígenas, levou à explosão do desmatamento e da violência no campo: em média, a taxa de desmatamento pré e pós Bolsonaro aumentou 52% e de acordo com o relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), as invasões em terras indígenas aumentaram três vezes quando comparadas à 2018, e o assassinato de indígenas tem virado rotina. “Estamos fazendo uma volta para o passado para o que há de mais retrógrado, agora, esse projeto de morte e destruição precisa ser imediatamente interrompido e revertido”, alerta Cristiane Mazzetti.

Para o Greenpeace Brasil é urgente a reversão do desmonte ambiental e a adoção de ações e medidas que consigam derrubar as altas taxas de desmatamento. “É necessário adotar uma meta de desmatamento zero, além de restabelecer um plano articulado de combate ao desmatamento, e fortalecer uma economia que conviva com a floresta em pé. Isso inclui o fortalecimento dos órgãos ambientais, a destinação de florestas públicas não destinadas para conservação e uso sustentável, a demarcação dos territórios indígenas reivindicados pelos povos originários, além de promover a proteção das áreas já destinadas com a desintrusão de invasores de Unidades de Conservação e Terras indígenas”, finaliza Cristiane Mazzetti.

Fotos e vídeos recentes de queimadas e desmatamento na Amazônia disponíveis aqui

A agropecuária impulsiona mais de 90% do desmatamento mundial mostra pesquisa inédita publicada na Science

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Parar o desmatamento exigirá uma mudança radical na forma como o problema é abordado. Para serem eficazes, as medidas precisam contemplar tanto os papéis diretos quanto indiretos da agropecuária. Um novo estudo publicado hoje na proeminente revista Science aponta que entre 90% e 99% de todo o desmatamento nos trópicos é causado direta ou indiretamente pela agropecuária. No entanto, apenas algo entre metade e dois terços disso de fato resulta em expansão da produção agrícola nas terras desmatadas.

O estudo é uma colaboração entre muitos dos principais especialistas em desmatamento do mundo, e fornece uma nova síntese das relações entre desmatamento e agropecuária.

Após uma análise dos melhores dados disponíveis, o novo estudo mostra que a quantidade de desmatamento tropical causado pela agropecuária é superior a 80%, o número mais citado na última década.

Isso ocorre em um momento crucial após a Declaração de Glasgow sobre Florestas na COP26 e antes da Conferência de Biodiversidade da ONU (COP15) no final deste ano. Os resultados podem ajudar a garantir que os esforços urgentes para combater o desmatamento sejam guiados e avaliados por uma base de evidências adequada ao propósito.

Nossa análise deixa claro que entre 90 e 99 por cento de todo o desmatamento nos trópicos é causado direta ou indiretamente pela agropecuária, mas o que nos surpreendeu foi que uma parcela comparativamente menor do desmatamento — entre 45 e 65 por cento — resulta na expansão da produção agrícola real nas terras desmatadas. Essa descoberta é de profunda importância para criar medidas eficazes para reduzir o desmatamento e promover o desenvolvimento rural sustentável”, diz Florence Pendrill, principal autora do estudo na Chalmers University of Technology, na Suécia.

O fato de a agropecuária ser o principal motor de desmatamento tropical não é novidade. Entretanto, as estimativas anteriores de quanta floresta foi convertida em terras agrícolas nos trópicos variavam muito — de 4,3 a 9,6 milhões de hectares por ano entre 2011 e 2015. As novas descobertas neste estudo reduzem esse intervalo para 6,4 a 8,8 milhões de hectares por ano, e ajudam a explicar a incerteza nos números.

Uma grande peça do quebra-cabeça é quanto desmatamento é ‘para nada‘”, observou o Prof. Patrick Meyfroidt da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. “Embora a agropecuária seja o motor final, as florestas e outros ecossistemas são frequentemente desmatados para especulação de terras que vieram a ser usadas, projetos que foram abandonados ou mal concebidos, terras que se mostraram impróprias para o cultivo, bem como devido a incêndios que se espalharam para florestas vizinhas a áreas desmatadas”.

Compreender a importância desses fatores é fundamental para os formuladores de políticas — seja em mercados consumidores, como a legislação de devida diligência, recentemente proposta pela União Europeia para “produtos livres de desmatamento”, sejam iniciativas do setor privado para commodities específicas, ou ainda para políticas de desenvolvimento rural em países produtores.

O estudo deixa claro que um punhado de commodities é responsável pela maior parte do desmatamento ligado à produção em terras agrícolas. Mais da metade está ligada apenas a pastagens, soja e óleo de palma (dendê). Nesse sentido, o estudo também chama a atenção para as falhas de iniciativas setoriais específicas, geralmente limitadas para lidar com os impactos indiretos.

Iniciativas setoriais para combater o desmatamento podem ter um valor inestimável, e novas medidas para proibir a importação de commodities ligadas ao desmatamento nos mercados consumidores — como as que estão em negociação na UE, Reino Unido e EUA — representam um grande passo para além dos esforços quase todos voluntários até agora para combater o desmatamento‘, disse o Dr. Toby Gardner do Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo e Diretor da iniciativa Trase, de transparência para cadeia de fornecimento. “No entanto, como mostra o nosso estudo, fortalecer a governança florestal e do uso da terra nos países produtores deve ser o objetivo final de qualquer resposta política. As cadeias de fornecimento e as medidas de sustentabilidade tomadas pelos consumidores precisam ser concebidas de maneira que também lidem com as formas indiretas através das quais a agropecuária está ligada ao desmatamento. Eles precisam levar a melhorias no desenvolvimento rural sustentável, caso contrário as taxas de desmatamento permanecerão teimosamente altas em muitos lugares”, acrescentou o Dr. Gardner.

Os resultados do estudo apontam para a necessidade de as intervenções nas cadeias de fornecimento irem além do foco em commodities específicas e em mera gestão de risco. Elas precisam ir além e ajudar também a impulsionar parcerias entre produtores e mercados consumidores e governos. Isso precisa incluir fortes incentivos para tornar a agropecuária sustentável mais economicamente atraente ao mesmo tempo em que desincentiva a conversão de vegetação nativa e apoia os pequenos produtores mais vulneráveis.

Os autores dizem que isso deve incluir um foco mais forte nos mercados domésticos, muitas vezes os maiores impulsionadores da demanda por commodities, como o caso da carne bovina no Brasil, além de um fortalecimento de parcerias entre empresas, governos e sociedade civil nas jurisdições produtoras.

Por fim, o estudo destaca três lacunas importantes onde mais evidências são necessárias para orientar os esforços de redução do desmatamento; “A primeira é que, sem uma base de dados global e temporalmente consistente sobre desmatamento, não podemos ter certeza sobre as tendências gerais de conversão.

A segunda é que, com exceção do dendê e da soja, carecemos de dados sobre a cobertura e expansão de commodities específicas para saber quais são mais importantes. A nossa compreensão global sobre pastagens é das que mais precisam de melhoria. A terceira é que sabemos comparativamente muito pouco sobre florestas tropicais secas e sobre as florestas na África”, disse o professor Martin Persson, da Chalmers University of Technology.

O que é mais preocupante, dada a urgência da crise”, acrescentou o Prof. Persson, “é que cada uma dessas lacunas de evidência impõe barreiras significativas à nossa capacidade de reduzir o desmatamento da maneira mais eficaz — sabendo onde os problemas estão concentrados, ou compreender o sucesso dos esforços até agora”.

Apesar dessas lacunas de conhecimento e incertezas remanescentes, o estudo enfatiza que uma mudança radical nos esforços é urgentemente necessária para combater e conter efetivamente o desmatamento, assim como para evitar a conversão de outros ecossistemas e promover o desenvolvimento rural sustentável.

A Declaração de Glasgow sobre Florestas reconheceu a importância de abordar conjuntamente as crises do clima e da perda de biodiversidade, e estabeleceu um novo nível de ambição para combater o desmatamento e promover a agropecuária sustentável. Os autores deste novo estudo enfatizam que é fundamental que os países e seus formuladores de políticas comecem a priorizar esses objetivos.

Grandes partes da Amazônia atingiram ponto de inflexão, podendo nunca mais se recuperar, diz grande estudo

Faixas da floresta tropical atingiram o ponto de inflexão, conclui pesquisa de cientistas e organizações indígenas

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Fumaça sobe de uma queimada ilegal em uma reserva de floresta tropical ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil. Fotografia: Carl de Souza/AFP/Getty Images

Por André Downie para o “The Guardian”

A destruição ambiental em partes da Amazônia é tão completa que faixas da floresta tropical atingiram o ponto de inflexão e podem nunca mais se recuperar, descobriu um grande estudo realizado por cientistas e organizações indígenas.

“O ponto de inflexão não é um cenário futuro, mas uma etapa já presente em algumas áreas da região”, conclui o relatório. “Brasil e Bolívia concentram 90% de todo desmatamento e degradação combinados. Como resultado, a savanização já está ocorrendo em ambos os países.”

Cientistas da Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas (RAISG) trabalharam com a Coordenadoria de Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica) para produzir o estudo Amazônia Contra o Relógio, um dos maiores até agora, abrangendo todos os nove as nações que contêm partes da Amazônia.

Descobriu-se que apenas dois dos nove, o minúsculo Suriname e a Guiana Francesa, têm pelo menos metade de suas florestas ainda intactas.

Organizações indígenas da Amazônia representando 511 nações e aliados estão pedindo um pacto global para a proteção permanente de 80% da Amazônia até 2025.

A meta de 80% é um grande desafio, uma vez que apenas 74% da floresta original permanece. Ações urgentes são necessárias não apenas para proteger a floresta ainda em pé, mas também para restaurar as terras degradadas e voltar a esse nível de 80%.

“É difícil, mas factível”, disse Alicia Guzmán, cientista equatoriana que coordenou o relatório. “Tudo depende do envolvimento das comunidades indígenas e das pessoas que vivem na floresta. Isso e a dívida.”

Guzmán disse que dar aos grupos indígenas a administração de mais terras – e, crucialmente, fornecer proteção estatal para elas e remover brechas legais que permitem a entrada de indústrias extrativas – é a maneira mais segura de garantir a preservação.

Quase metade da Amazônia foi designada como área protegida ou território indígena, e apenas 14% de todo o desmatamento ocorre lá. Atualmente, cerca de 100 milhões de hectares de terras indígenas estão em disputa ou aguardando reconhecimento formal do governo.

“Ter indígenas no processo de tomada de decisão significa que contamos com o conhecimento de quem mais conhece a floresta”, disse Guzmán. “E eles precisam de orçamentos.”

Eles também precisam que suas terras sejam protegidas de grileiros e indústrias extrativas.

A mineração é uma das ameaças crescentes, com áreas protegidas e terras indígenas entre as áreas mais cobiçadas pelos garimpeiros. Grande parte da mineração é clandestina e ilegal, mas cerca de metade em áreas protegidas é feita legalmente, e os cientistas pediram aos governos que rejeitem ou revoguem as licenças de mineração.

O petróleo é outra ameaça, principalmente no Equador, fonte de 89% de todo o petróleo exportado da região.

Os blocos de petróleo cobrem 9,4% da superfície da Amazônia e 43% deles estão em áreas protegidas e terras indígenas. Mais da metade da Amazônia equatoriana é designada como um bloco de petróleo, segundo o relatório, e as porções no Peru (31%), Bolívia (29%) e Colômbia (28%) também são preocupantes.

De preocupação ainda maior é a agricultura. A agricultura é responsável por 84% do desmatamento, e a quantidade de terras destinadas à agricultura triplicou desde 1985, segundo o relatório. O Brasil é um dos principais exportadores de alimentos do mundo, com soja, carne bovina e grãos alimentando grande parte do mundo e faturando bilhões de dólares a cada ano.

Uma das principais recomendações do estudo é mais colaboração entre governos regionais, instituições financeiras internacionais e empresas de private equity que detêm grande parte da dívida das nações amazônicas.

A América Latina é a região mais endividada do mundo em desenvolvimento e a anulação dessa dívida em troca de compromissos de preservação seria significativa.

“Eles têm uma oportunidade única diante deles de perdoar dívidas existentes em troca de compromissos para acabar com a extração industrial e promover proteções em áreas prioritárias, territórios indígenas e áreas protegidas”, diz o relatório.

Entre as outras 13 “soluções” propostas no relatório estão: a suspensão completa de novos licenciamentos e financiamentos para mineração, petróleo, pecuária, grandes barragens, extração de madeira e outras atividades; maior transparência e responsabilidade ao longo das cadeias de suprimentos; a restauração de terras desmatadas; novos modelos de governança que permitem maior representação e reconhecimento dos povos nativos.

Embora a tarefa seja enorme, há motivos para otimismo e principalmente no Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro enfrenta o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma eleição tensa em 2 de outubro.

Lula lidera nas pesquisas. Durante seu tempo no poder nos anos 2000, o desmatamento caiu mais de 80%.

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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

 

Lula recebe cartas com compromissos em defesa da Amazônia e das populações tradicionais extrativistas

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O Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), entregou ao candidato à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), duas cartas de compromissos em defesa da Amazônia e dos territórios extrativistas, como símbolo de enfrentamento ao desmatamento e grilagem, e do fortalecimento das políticas públicas de gestão territorial e de produção da sociobiodiversidade. A ação aconteceu, nesta quarta-feira (31/08), no Museu da Amazônia (MUSA), localizado na zona leste de Manaus.

De acordo com o presidente do CNS, Júlio Barbosa, os documentos são garantias de defesa dos territórios protegidos, de políticas públicas, de compras públicas e de enfrentamento à violação dos direitos aos guardiões e protetores das florestas.

“Queremos também o enfrentamento à mineração ilegal, ao desmatamento, as queimadas e, sobretudo, a flexibilização das leis ambientais que querem mudar para ‘passar a boiada’ para legalizar as terras públicas griladas na Amazônia. Nós queremos discutir uma gestão territorial, onde se possa avançar no diálogo com os órgãos ambientais do estado brasileiro, para que a região possa ter uma co-participação nas tomadas das decisões, na relação do Estado com as populações tradicionais”, disse Júlio.

O evento recebeu representantes de organizações indígenas e movimentos sociais da região amazônica, e teve o objetivo de defender propostas que geram riqueza para os povos que vivem na região e que a biodiversidade da Amazônia seja estudada, e explorada adequadamente.

O CNS compôs a mesa do encontro e defendeu a defesa dos territórios e dos direitos sociais, além da geração de renda com base na sociobiodiversidade e modos de vida das populações extrativistas.

“Todos os dias perdemos milhares de hectares da nossa Amazônia para o desmatamento e a nossa luta não é só defender os seringais, mas defender a nossa casa, nossa mãe Amazônia, os extrativistas, que geram renda e proporcionam conservação. Estamos com o Lula para que a Amazônia volte a respirar, para que o Brasil volte a brilhar e o povo brasileiro volte a sonhar e ter esperança. Para ser um país que valorize seu povo e sua riqueza”, disse a diretora de Direitos Humanos do CNS, Silvia Elena.

Propostas para a Amazônia

Para Luiz Inácio, é necessário investir na biodiversidade da Amazônia. “Nós vamos mudar esse país. A nossa floresta será cuidada. A nossa biodiversidade será estudada, em parceria com pesquisadores do mundo inteiro, porque embora a Amazônia seja território soberano do Brasil, a riqueza produzida, a biodiversidade tem que ser aproveitada por todo habitante do planeta Terra. E vamos demarcar as terras que precisam ser demarcadas e cuidar para que as áreas não sejam invadidas”, disse o candidato.

Lula disse ainda que quer voltar com disposição para mudar a realidade do Brasil e que é possível mudar o aumento do desemprego, e da fome. “Esse país não pode continuar sendo governado por alguém que não gosta de indígena, não gosta de negro, não gosta de mulher, não gosta de sindicalistas, não gosta da Amazônia, não gosta do Cerrado, não gosta da Caatinga e que não gosta do povo. Esse povo tem que ser cuidado e é com esse compromisso que eu, junto com vocês, estou nessa disputa”, afirmou.

Focos de calor na Amazônia atingem o maior número desde 2010

Número é 18% maior que o registrado no ano passado e moratória do fogo mostra-se mais uma vez ferramenta inútil de combate ao crime ambiental

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Sobrevoo na região da Amacro (Amazonas, Acre e Rondônia), em uma área com cerca de 8.000 hectares de desmatamento – a maior em 2022 – que está queimando há dias. © Nilmar Lage / Greenpeace

Manaus, 1° de setembro de 2022 Dados do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje, mostram que agosto registrou 33.116 focos de calor no bioma Amazônia – todos ilegais. Desde 23 de junho o Decreto No. 11.100 em voga, proibiu o uso do fogo na Amazônia e Pantanal. O número alarmante constata que não existe uma política séria de combate ao desmatamento e queimadas na Amazônia e que, além de destruir a rica biodiversidade da floresta, enchem as cidades da região de fumaça e fuligem.

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“Realizamos um sobrevoo de monitoramento de queimadas e desmatamento na região da Amacro (siglas de Amazonas, Acre e Rondônia), e flagramos o maior desmatamento da Amazônia no último ano: cerca de 8.000 hectares, equivalente a 11.000 campos de futebol queimando. Participo desses monitoramentos há mais de dez anos, e nunca tinha visto um desmatamento tão grande e também com tanta fumaça”, afirma Rômulo Batista, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil.

Do total de focos de calor do ano registrados até 31 de agosto – 46.022, houve um aumento de 16,7% em relação ao ano passado, maior número acumulado para o período desde 2019. Desse total, 43% ocorreram apenas em dez municípios da Amazônia, sendo cinco deles localizados na região da Amacro, considerada a nova fronteira de expansão da economia da destruição na Amazônia e que vem acelerando as taxas de desmatamento e queimadas.

Outro fator relevante é o avanço das queimadas em terras públicas. Do total de focos de calor, 13,8% ocorreram em Unidades de Conservação (UC), e 5,9%, em Terras Indígenas (TI). Outro dado que preocupa é que mais de 10.600 queimadas, cerca de ¼ do total, ocorreram em florestas públicas não destinadas. Mais um indício do avanço da grilagem.

“Ao invés do poder Executivo e dos parlamentares estarem focados em conter os impactos da destruição da Amazônia sobre a população e o clima e em combater o crime que avança na floresta – que não só destrói nossas riquezas naturais, mas também, a imagem e a economia do país; ainda assim, tentam aprovar projetos que irão acelerar ainda mais o desmatamento, os conflitos no campo e a invasão de terras públicas. Nosso país não precisa da aprovação destes projetos, mas sim de uma política que promova um real avanço no combate ao desmatamento, queimadas, grilagem de terras e que defenda os povos da floresta”, finaliza Rômulo.