Barragem de Belo Monte: apenas uma turbina em operação devido à seca e peixes morrem devido ao aumento da temperatura da água

A estação seca deste ano na Amazônia expõe implacavelmente os erros de cálculo na construção da barragem de Belo Monte 11 GW no rio Xingu, no estado amazônico do Pará

belo monteBelo Monte (vista aérea 2016). Foto: christianrussau

Por Christian Russau para a Kobra

Desde 2011, os críticos da barragem de Belo Monte 11 GW, no rio Xingu, no estado amazônico do Pará, haviam alertado enfaticamente que a construção da barragem não só levaria a enormes consequências sociais e ecológicas, mas para o governo e consórcios de construção e a operadora logo se revelaria perdida. Agora fica claro com clareza implacável que os proponentes daquela que era então a terceira maior barragem do mundo estavam errados e os críticos estavam certos. Infelizmente, isso não é motivo de alegria para ninguém.

18 turbinas devem agora girar nas massas de água da barragem de Belo Monte, localizada atrás do reservatório, que retira 80% da água do rio da Volta Grande e a desvia para o reservatório, transformando e fornecendo eletricidade para a economia em expansão do Brasil e sociedade. No momento, uma turbina está girando e só está girando com metade de sua potência. Devido à atual seca na área da bacia do Xingu, o aproveitamento atual do potencial de geração de energia de Belo Monte é de apenas 2,67% desde o início de agosto, de acordo com reportagens da mídiaIsso é exatamente o que os críticos têm enfatizado repetidamente desde a decisão de construção em 2011 que a meta de 11 GW de plena carga só poderia ser atingida por alguns meses do ano, e que o cálculo da lucratividade da usina hidrelétrica ficaria, portanto, obsoleto. E é exatamente isso o que fica evidente no momento no rio Xingu.

Desde a sua conclusão, a usina de Belo Monte produziu menos do que os especialistas calcularam para a estação seca. No momento da construção, presumia-se que a usina geraria em média 690 MW por dia durante os meses de seca. A saída atual é de 300 MW. Esperava-se uma produção média de 4.000 MW para todo o ano. No ano passado era de 3.293 MW médios e em 2019 era de 3.027 MW médios, segundo dados do Operador Nacional da Rede Elétrica (ONS). Então Belo Monte nunca correspondeu às expectativas econômicas e hoje o desempenho é menor do que nunca.

Além disso, a seca fez com que a pouca água que restava esquentasse, levando ao aumento da morte de peixes, conforme a mídia agora está relatando . “Isso é um absurdo, porque são peixes que poderiam servir de alimento para a população, e alguns são peixes ornamentais que têm valor de mercado nas grandes cidades, como a Bandeira do Acará. Aqui temos o pacu que poderia servir de alimento, mas na momento só há comida para urubus ”, disse à mídia o professor de biologia Rodolfo Salm, da Universidade Federal do Pará (UFPA) . Em uma pandemia galopante como a de Corona, isso é ainda mais sério quando as pessoas mal conseguem sobreviver financeiramente e sua segurança alimentar está ameaçada.

Acontece que Belo Monte foi e é e continua sendo um fiasco : moradores: por dentro e também pescadores: por dentro, pescadores ornamentais: por dentro e pequenos agricultores: por dentro foram roubados seus meios de subsistência, os reassentamentos foram insuficientes, as indenizações inadequadas, Volta Grande passou de 100 quilômetros A extensão do rio estava quase esgotada, os índios e ribeirinhos moravam nas proximidades: por dentro não podiam mais usar o rio como área de pesca ou transporte de barcos, as pragas de mosquitos assombram a área, os rotores do turbinas picam peixes, peixes vão para a água aquecida e agora mostram os números da produção nua e crua também todo o fiasco econômico. E tudo isso em nome do “desenvolvimento” e da energia “verde”.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].

Brasil é o quarto maior emissor histórico de CO2, confirma estudo

Inclusão de dados de emissão por uso da terra empurra país para o alto do ranking, como mostrou Fakebook.eco em abril

tronco queimado

Em artigo publicado nesta terça-feira (5/10), o portal especializado em clima Carbon Brief confirma que o Brasil é o quarto país que mais contribuiu para as emissões históricas de CO2, depois de EUA, China e Rússia. Segundo o estudo, o Brasil é responsável por cerca de 5% das emissões no período 1850-2021, principalmente por causa do desmatamento descontrolado.

A análise do Carbon Brief incluiu as emissões da destruição de florestas e de outras mudanças no uso da terra, atualizando um estudo feito pela própria organização em 2019. Isso empurrou o Brasil para o topo do ranking, juntamente com a Indonésia (5º maior emissor histórico). Antes, eram consideradas apenas as emissões de combustíveis fósseis. O resultado confirma estudos anteriores que apontavam uma parcela maior de responsabilidade histórica do Brasil quando o uso da terra era levado em conta.

Em abril, o Fakebook.eco já havia desmentido afirmação de Jair Bolsonaro em carta ao presidente dos EUA, Joe Biden, de que o Brasil “é responsável por apenas 1% das emissões históricas de gases do efeito estufa, e menos de 3% do total corrente de emissões globais”.

A ideia de que o Brasil é um dos países que menos contribuíram para o aquecimento verificado vem de um estudo da década de 1990, feito por cientistas do governo brasileiro e apresentado pelo país na conferência de Kyoto, em 1997. A análise embasou a chamada “Brazilian Proposal”, ou Proposta Brasileira, que ajudou a sedimentar o entendimento de que a conta climática do Brasil é pequena porque o país não tinha quase nenhuma responsabilidade histórica pelo aquecimento observado hoje. Além de ser antigo, o dado da proposta original só levava em conta gás carbônico emitido por combustíveis fósseis.

Nos séculos 19 e 20, porém, o Brasil praticamente acabou com a Mata Atlântica. E, desde o final dos anos 1970, as emissões brasileiras são dominadas pelo desmatamento na Amazônia – em especial nos anos 1980, quando mais de 300 mil quilômetros quadrados de floresta foram abaixo. Estudos posteriores têm mostrado um quadro bem diferente: em 2014, por exemplo, um grupo de cientistas calculou todos os gases, incluindo uso da terra, e mostrou que o Brasil tinha a quarta maior contribuição histórica absoluta para o aquecimento global e a sétima maior contribuição per capita.

Em 2015, o físico Luiz Gylvan Meira Filho, autor principal do estudo brasileiro original, mostrou no Observatório do Clima um cálculo revisado segundo o qual a contribuição histórica do Brasil para o aquecimento verificado em 2005 era de 4,4% se considerados todos os gases.

Carbon Brief mostra que os EUA liberaram mais de 509 bilhões de toneladas (Gt) de CO2 desde 1850 e são responsáveis pela maior parte das emissões históricas: 20,3% do total global. A China ocupa o segundo lugar no ranking, com 11,4%, seguida por Rússia (6,9%), Brasil (4,5%) e Indonésia (4,1%).

De acordo com a análise, os humanos emitiram cerca de 2,5 trilhões de toneladas de CO2 na atmosfera desde 1850, um número que se alinha com os apresentados pelo IPCC e pelo Global Carbon Project.

Essas emissões cumulativas de COcorrespondem a um aquecimento em torno de 1,13oC – e as temperaturas em 2020 atingiram cerca de 1,2oC acima dos níveis pré-industriais.

“Embora a grande maioria das emissões de CO2 hoje venha da queima de combustíveis fósseis, atividades humanas como o desmatamento tiveram uma contribuição significativa para o total”, destaca o Carbon Brief. “As mudanças de uso da terra acrescentaram cerca de 786 Gt entre 1850 e 2021, o que equivale a quase um terço do total acumulado, com os dois terços restantes (1,718GtCO2) advindos de combustíveis fósseis e de cimento.”

Fonte: Carbon Brief

Este texto foi inicialmente publicado pelo Fakebook.eco [Aqui!  ].

Estudo: Desmatamento na Amazônia pode expor 12 milhões de brasileiros a calor extremo

Sobrevoo no Pará (Foto Marizilda Cruppe/Amazônia Real/17/09/20

Por Lisandra Paraguassu, da Reuters

O desmatamento em larga escala da Amazônia, somado ao aquecimento global, pode elevar as temperaturas na região em até 11,5ºC e colocar a vida, a natureza e a economia sob risco extremo, mostrou estudo feito por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade de São Paulo (USP).

O estudo, publicado nesta sexta-feira (1º) na revista científica Nature, usa modelos matemáticos para prever o que pode acontecer em diferentes condições climáticas, levando em consideração apenas o aquecimento global, apenas a savanização da Amazônia ou ambos.

Um cenário apenas com as mudanças climáticas previstas pelo painel de cientistas da Organização das Nações Unidas (ONU) poderia elevar essas temperaturas em 7,5ºC. Já a combinação das duas situações poderia elevar a temperatura média mais alta da região, à sombra, em 11,5ºC.

As temperaturas máximas na região, mostram as simulações, poderiam ficar acima dos 40ºC à sombra em pelo menos 7% dos dias do ano no final deste século, podendo ultrapassar os 46ºC.

Impacto na saúde humana

Um aumento de temperatura nesse patamar, mostram os pesquisadores, tem efeitos diretos na saúde humana.

“O estresse causado por exposição ao calor excessivo pode ser extremamente perigoso para humanos, incluindo o aumento do risco de condições intoleráveis para trabalhos na sombra e risco intenso de doenças causadas pelo calor”, diz o estudo.

Para além dos risco para a saúde, que diminuiriam a capacidade de trabalho e de sobrevivência de uma população que, em muitos casos, já tem dificuldades para viver, uma mudança nesse nível tem impactos diretos na capacidade econômica da região.

A própria atividade que hoje supostamente se beneficia da destruição das florestas — o desmatamento termina por abrir mais terras para a agricultura e a pecuária — seria diretamente atingida.

“O regime de chuva colapsa de tal forma que chega a reduzir em 80% o regime de chuvas no centro da Amazônia. E, no Centro-Oeste, que também é diretamente afetado, a redução das chuvas chega a 50%”, disse Paulo Nobre, pesquisador do Inpe e um dos autores do estudo. “No calor e o solo seco sem chuva, o efeito de amplificação térmica é enorme.”

Efeitos na agropecuária

A agropecuária brasileira, que hoje garante boa parte do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e a balança comercial do país, perderia boa parte da sua efetividade, como já mostrou um outro estudo, esse feito pela think thank Planet Tracker.

Ao analisar relatórios sobre o clima na Amazônia, a Planet Tracker detectou que o desmatamento já está alterando o regime de chuvas no país, o que impacta diretamente na capacidade brasileira de produzir duas, e em alguns casos até três, safras por ano. E é essa capacidade que levou o Brasil a ser um dos maiores produtores de grãos do mundo.

O modelo criado e analisado por Paulo Nobre e os pesquisadores Beatriz de Oliveira, da Fiocruz, Marcus Bottino, também do Inpe, e Carlos Nobre, da USP, apontam para um cenário para 2100. Isso porque foi usado no modelo matemático os dados de aquecimento global que se espera para aquele ano. Paulo Nobre, no entanto, alerta que a savanização da Amazônia já está acontecendo em diversos pontos. O cenário trágico pode chegar muito mais rápido.

Savanização acontece porque floresta não tem mais saúde para se manter viva. E a savanização da Amazônia já está ocorrendo. Já foram vistos lobos-guará na Amazônia, que é um animal do cerrado. Eles estavam lá porque se perderam? Claro que não. É porque o ambiente estava propício a eles

Paulo Nobre, pesquisador do Inpe

Paulo Nobre alerta que quem vê a floresta de cima, tomada por grandes árvores verdes, pode pensar que a transformação da Amazônia em cerrado é impossível, mas não é.

“Não temos como medir isso ainda a não ser com indicadores secundários, como a presença do lobo-guará. Mas indicadores prévios disso já estão presentes”, afirmou.

Recuperação comprometida

Em um artigo publicado em 2018 também na revista Nature, os pesquisadores Carlos Nobre e Thomas Lovejoy, apontaram que, com a combinação de mudanças climáticas previstas, o aumento das áreas desmatadas e o uso de fogo para “limpar” os terrenos na região a capacidade de recuperação da floresta diminui cada vez mais.

O “ponto de não-retorno”, em que talvez a Amazônia não consiga mais recuperar a floresta, estaria em algum momento quando o desmatamento chegasse a algo entre 20% e 25% do total da floresta, apontaram os pesquisadores.

Dados do Inpe de 2020 informam que, até agora, cerca de 729 mil km² já foram desmatados no bioma Amazônia — o correspondente a 17% do território original.

Apesar de outros cientistas contestarem essas previsões, vendo uma margem maior para a destruição total da floresta, há um consenso: não só o desmatamento precisa parar, como partes destruídas da floresta precisam ser recuperadas.

“O risco não é mais pequeno, ele é enorme. E essa é uma responsabilidade planetária”, diz Paulo Nobre.

Não é mais defender o fim do desmatamento por uma questão ética, mas por sobrevivência. Não existe vacina contra excesso de temperatura

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Este texto foi inicialmente publicado pela CNN Brasil [Aqui!].

Grandes projetos colocam em risco espaços de vida e povos indígenas amazônicos apelam a bancos suíços que os financiam

O governo brasileiro está planejando grandes projetos de infraestrutura para o transporte de cargas na região amazônica. A população indígena está resistindo – e também apelando para as instituições financeiras suíças

porto amazonia

Outros grandes projetos de infraestrutura estão planejados na região amazônica

Para transportar mercadorias como soja para o exterior de forma mais rápida e barata, grandes projetos de infraestrutura são planejados na Amazônia brasileira. O projeto hídrico do Tapajós com uma hidrovia, sete grandes barragens e 29 hidrelétricas, ou a ferrovia «Ferrogrão», com mais de mil quilômetros de extensão.

Com a hidrovia, uma área de mais de 78.000 hectares seria inundada, como a Sociedade para Povos Ameaçados (STP) escreveu em uma mensagem. Hoje é considerada uma área protegida das comunidades indígenas. A linha férrea também tornaria necessário mudar os limites de uma reserva natural. “Consideramos esses projetos uma sentença de morte do governo”, disse um morador da área afetada em um novo relatório do GfbV.

Como prossegue o relatório, as autoridades brasileiras não se mostraram dispostas a tornar os projetos mais amigos do ambiente e do ponto de vista social. A GfbV, portanto, apela – em conjunto com ativistas da população indígena – às empresas que manifestaram interesse nos projetos e às instituições financeiras que os financiam. De acordo com o anúncio, eles incluem vários bancos suíços, como UBS, Credit Suisse, Zürcher Kantonalbank e o Swiss National Bank (SNB).

“As empresas suíças devem observar as convenções internacionais, mesmo que o governo brasileiro não as cumpra”, continua o STP. Para que projetos como barragens e hidrelétricas sejam sustentáveis, é necessário levar em consideração não apenas o componente ecológico, mas também o social. ( agl )

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal TagBlatt [Aqui!  ].

Para pesquisador da Fiocruz, agronegócio causa destruição, mudanças ambientais e climáticas

Christovam Barcellos: ‘O modelo exportador de soja e de carne deixa pouco para a população local’

Christovam Barcellos blog fundo preto (1)

Foto: Rodrigo Méxas – Icict/Fiocruz

Por Andrea Vilhena

Os resultados do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado em agosto, trazem evidências científicas inquestionáveis de que as emissões de gases a partir da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento representam grande ameaça para a saúde do planeta. 

As notícias recentes sobre enchentes destruindo cidades, incêndios florestais desproporcionais e secas, como a enfrentada pelo Brasil esse ano, a maior dos últimos 90 anos, não são cenas de ficção científica, mas de manifestações do aquecimento global, mostrando que caminhamos a passos largos para um mundo distópico, fruto do impacto ambiental produzido pelo homem na sua relação predatória com o planeta. O documento alerta como “extremamente provável” (95% a 100% de probabilidade) que o aquecimento global ultrapasse a perigosa marca de 2ºC até o final do século, com grandes chances de chegar a 1,5% nos próximos vinte anos e que é preciso uma ação imediata para diminuir drasticamente as emissões dos gases poluentes. 

Em entrevista ao blog do CEE,  o geógrafo Christovam Barcellos, coordenador do Observatório de Clima e Saúde e vice-diretor de Pesquisa e Ensino do Icict/Fiocruz, analisa como o Brasil vem contribuindo para essa situação, quais os impactos das mudanças climáticas para o meio ambiente, a saúde e economia e o que pode ser feito em termos de políticas públicas para se tentar reverter essa crescente ameaça. 

Leia a seguir a entrevista.

Como podemos situar o papel do Brasil no trágico cenário apontado no último relatório do IPCC? 

O próprio título do Relatório de Avaliação (AR6) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) fala sobre as bases físicas das mudanças climáticas globais. Essa é a grande dica que eles dão para nós, brasileiros, que estamos interessados na questão . Primeiro, a ênfase é nos processos físicos: temperatura, calor, alterando o regime de precipitação, alterando o círculo hidrológico da água, acumulação de calor em algumas áreas, ondas de calor etc. Segundo,  o documento aborda o planeta como um todo, mas pouco de cada região. Mais de mil páginas, do ponto de vista global sempre. Isso, para nós, é uma grande provocação, porque esses processos físicos desencadeiam outros processos químicos e biológicos que é o que interessa mais a gente da Saúde. Claro, os processos físicos acabam gerando ondas de calor, uma preocupação dos próprios Estados Unidos, mas, além disso, existem processos biológicos envolvidos que podem gerar graves problemas para a saúde. Uma segunda tarefa  será pegar esse relatório e tentar regionalizá-lo, para  detectar as particularidades do Brasil.

O que deve ser observado? 

O Brasil tem uma desigualdade gigantesca, uma das mais graves do mundo  e uma diversidade de paisagem muito grande. Temos um semiárido pertinho da Amazônia com regimes climáticos completamente diferentes. Então, cada lugar desses vai ser alterado de uma maneira e terá respostas diferentes. A matriz energética e a emissão de gases do Brasil  têm características diferentes das dos outros lugares. Por exemplo, alguns países que tiveram a revolução industrial, no século XIX (Segunda Revolução Industrial, quando a industrialização que limitava-se à Inglaterra expandiu-se para outros países) estão diminuindo as emissões de gases pela indústria. Outros países de industrialização mais recente, principalmente do Sudeste Asiático têm uma emissão de gases de efeito estufa muito forte por causa da indústria. Nós, aqui no Brasil, não. Estamos vivendo um processo de desindustrialização importante e, ao mesmo tempo, com uma economia cada vez mais voltada para o agronegócio. Isso significa, muitas vezes, desmatamento, queimada, ocupação de florestas por pastos. Essa é a grande pegada (ecológica), contribuição do Brasil para a emissão de gases de efeito estufa. Geração de energia nem tanto, a matriz energética brasileira ainda é muito baseada em hidroelétrica, o que é bom. Depois falamos da crise da água, mas isso é outro problema. 

Como o Brasil se posiciona no cenário internacional?

O Brasil até bem pouco tempo tinha uma posição muito confortável. O país dava lições para outros países de como controlar a emissão de gases. Era respeitadíssimo nas COPs [Convenções do Clima], exatamente por sua matriz energética razoavelmente limpa e por ter uma emissão baixa (de gases de efeito estufa). As outras formas de emissão, como pasto, gado, desmatamento, são mais facilmente controláveis do que as da indústria, por exemplo, e da frota de veículos [O uso da terra contribui para as emissões de CO2 produzidas pelo homem, principalmente devido ao desmatamento; já a agropecuária gera emissão de metano (CH4) e óxido nitroso (N20), outros gases de efeito estufa]. É muito mais fácil controlar, mas de um tempo para cá, infelizmente, com a crise de água, as hidrelétricas não estão funcionando plenamente, levando à  queima de biocombustível para se gerar energia. Desmatamento, pasto e criação de gado para atender o mercado internacional dispararam no Brasil. E o país começou a adotar infelizmente uma postura negacionista em relação ao clima, argumentando que temos o direito de desmatar, porque a Europa já desmatou, os EUA já desmataram. Infelizmente, viramos o que chamam de pária na negociação internacional sobre mudança climática. Lamentável. Isso vai mudar? Com certeza, porque é insustentável essa posição na diplomacia internacional. Os EUA, também, passaram por isso. Um presidente que negava tudo. Agora teve uma revirada. Até a China que era um dos maiores emissores de gases do mundo está fazendo um esforço para sair dessa lista negra. O Brasil está em um movimento contrário, investindo em termoelétrica, incentivando desmatamento etc.

No Brasil, pratica-se uma atividade pecuária muito extensiva. Se, pelo menos, recuperássemos as áreas já desmatadas e transformadas em pastagens, não seria preciso expandir e ocupar novas áreas de pasto.  Um dos argumentos utilizados por quem defende o desmatamento é que o país precisa investir na atividade econômica representada pela agropecuária. Movimentar a economia é desejo de todos, mas poderia haver um cuidado maior, não? Recuperando-se as pastagens degradadas e aumentando-se a produtividade do uso da terra. 

Lembrei de uma expressão que uma irmã minha usa: existe o agronegócio e o ogronegócio. O ogronegócio é pensar no curto prato: vamos desmatar, enfiar o gado lá dentro, vender logo porque o mercado é agora, o preço da carne está bom.  Acontece que o preço da carne pode cair, a nossa carne pode começar a ser rejeitada em vários países que estão preocupados com as questões ambientais. 

Agora, infelizmente, o Brasil, a economia nacional, vai pagar o preço de gerar renda a qualquer custo

Pensar no rodízio de pastos, em produzir folhagens no período chuvoso e armazenar em silos para garantir a alimentação dos animais no período de seca seriam práticas que talvez pudessem contribuir para um melhor aproveitamento da terra já desmatada, evitando o avanço da fronteira agrícola…

Sim. Pensar nisso como um projeto nacional de desenvolvimento tecnológico na agricultura. A Embrapa serviu durante muito tempo para isso, para aumentar produtividade sem precisar de novas áreas. Produtividade é exatamente isso. O denominador é a área, quanto maior a produtividade, menos área é necessária. Agora, infelizmente, o Brasil, a economia nacional, vai pagar o preço de gerar renda a qualquer custo. E essa renda não é revertida em riqueza para a população local. Esse modelo exportador de soja, de carne, infelizmente deixa pouco para a população local. Claro que é importante para a balança comercial brasileira, não tenho a menor dúvida, mas a própria balança comercial pode ser alterada, se os produtos brasileiros começarem a ser boicotados. E é o que está se passando em alguns países, infelizmente. Existem maneiras de se produzir que não são baseadas na monocultura, que utilizam rodízio, com aumento da produtividade, que tem uma pegada ecológica menor. É uma possibilidade. Outra ação importante é a fiscalização do desmatamento ilegal. A maior parte do desmatamento brasileiro é ilegal. A maior parte da Mata Atlântica, por exemplo, está delimitada por parques, as pessoas têm cota de desmatamento dentro do terreno. A legislação brasileira é bastante razoável nisso, estabeleceu regras para esses biomas: Mata Atlântica, Amazonas, Patanal etc. Então, o que se faz de desmatamento, a maior parte é ilegal. Para combater é preciso de fiscalização e tecnologia. 

Existem maneiras de se produzir que não são baseadas na monocultura, que utilizam rodízio, com aumento da produtividade

E o Brasil dispõe desses recursos…

O Brasil tem tecnologia e tem órgãos de fiscalização, que permitem o combate ao desmatamento ilegal. O Inpe tem tecnologia para identificar foco de queimada, desmatamento, e descobrir em que área está acontecendo o desmatamento. Falta uma mão do Estado nesses lugares. Infelizmente, virou terra de ninguém, parece que é bastante proposital, vide garimpeiro tacando fogo em carros do Ibama. É criminoso, queimando um bem de órgão de fiscalização do Estado. Isso é caso de polícia. E muitas vezes conseguindo anistia. A legislação brasileira existe e tem que ser cumprida, com esses órgãos, um órgão de monitoramento e um de fiscalização – infelizmente desmontados. Estão sofrendo muito com o desmonte mais recente. 

Seria, então, o avanço do desmatamento, da fronteira agrícola a maior contribuição do Brasil para as emissões de gases poluentes? E quais são os principais impactos para o meio ambiente, para a saúde e para a economia dessas emissões? A atual situação hídrica do país, sendo anunciada como a pior seca dos últimos 90 anos, já é consequência das mudanças no clima? E as atuais queimadas, são causa ou consequência?

Claro que as queimadas têm um componente climático. Há os anos mais secos. E a Amazônia, parece que não, mas volta e meia tem anos muitos secos, com déficit hídrico por falta de chuva, e isso favorece o que eles chamam de inflamabilidade, quer dizer, toda a madeira que existe lá fica mais fácil de ser queimada. Esses anos têm sido aproveitados pela indústria da madeira e pela indústria da grilagem para atear fogo na floresta. São muito significativos, os locais onde estão acontecendo queimadas: nas bordas das terras indígenas, nas bordas de cidades, ao longo de estradas recém-construídas. É um processo de devastação planejado. E para quê? Para se conseguir mais terras para pastagem ou, mesmo, para grilagem, para vender ilegalmente, terra pública. O Brasil infelizmente está optando por uma economia devastadora. Ela é frágil do ponto de vista da própria economia, porque, como disse, se cai o preço da carne no mercado internacional ou da soja, a economia brasileira vai para o buraco. Ao mesmo tempo isso causa danos terríveis à saúde.
De que forma a saúde das populações se abala nesse caminho da devastação?

Doenças respiratórias, por exemplo, na Amazônia estão disparando. Todo ano tem um pico de internação ou de atendimento ambulatorial para doença respiratória na Amazônia na época de seca, quando coincidem baixa umidade e exposição à fumaça das queimadas, mas, nos últimos anos, isso vem disparando. Esse pico está cada vez maior, sobrecarregando o SUS, principalmente agora com a Covid. O mesmo leito que seria ocupado por pacientes com Covid, está sendo ocupado por doentes pela exposição à fumaça. E a exposição à fumaça, por sua vez, complica os casos de Covid. Se a pessoa tiver se infectado pelo coronavírus e se tiver sido exposta anteriormente à fumaça da queimada, vai ter um quadro muito pior.

Essa situação afeta principalmente os mais vulneráveis. A pandemia, assim como a crise climática, evidencia e vem acentuar as iniquidades. 

Exato. A gente tem que pensar que essa fumaça alcança cidades a centenas de quilômetros do foco de queimada e vai atingir, por exemplo, as terras indígenas. Se queimam as bordas das terras indígenas, dentro das aldeias, estão respirando fumaça. Temos cidades distantes do foco de queimadas, como Porto Velho, por exemplo, respirando fumaça gerada a centenas de quilômetros de lá. Ribeirinhos, pessoas com uma condição de acesso à saúde prejudicada há séculos, têm muita dificuldade de chegar principalmente numa emergência, em um serviço de saúde. Essa situação vem se agravando ao longo do tempo. Crianças, idosos, são os mais prejudicados com isso. Então, existe esse processo global muito bem relatado no último relatório do IPCC, mas, pensando em outra escala, existem consequências locais, que precisam ser estudadas por nós brasileiros. Não vai ser o IPCC que vai dizer, as instituições de pesquisa de saúde e de meio ambiente é que vão estudar o que está acontecendo no Brasil. A queimada é apenas o aspecto mais evidente do que está acontecendo na Amazônia. Sabemos que o acontece na Amazônia afeta o continente todo, a América do Sul toda. A circulação de umidade, por exemplo, vem se alterando. Teve aquela famosa chuva de cinzas da Amazônia na cidade de São Paulo. Algo tenebroso, que mostra bem o padrão de circulação de umidade na América do Sul: circula tanto a umidade produzida na Amazônia para a região Sudeste, como também a fumaça, como agora, com a Amazônia mais seca e com mais queimadas. 

Vamos, infelizmente, viver esse drama de escolher entre racionar ou ter que distribuir água suja para a população

Então, queimadas podem ser consideradas causa e consequência das mudanças climáticas?

Exatamente. A queimada é resultado de um ano seco, mas ela provoca, também, uma alteração do balanço de chuvas, na Amazônia e na região Sudeste.

E a questão hídrica, no Nordeste e no Sudeste?

Nós estamos em um ano do fenômeno climático La Niña, que, tudo indica, vai se agravar nos próximos meses. Isso provavelmente vai trazer a seca na Amazônia e consequentemente a seca na região Sudeste. Os reservatórios de água na região Sudeste estão diminuindo de nível. A mídia está falando muito das consequências para a geração de energia, da possibilidade de um apagão ou racionamento de energia na região Sudeste, mas a seca coloca em risco também o abastecimento de água. Muitas cidades na região Sudeste usam rios ou reservatórios para abastecer as cidades. Essa crise já aconteceu na região metropolitana de São Paulo, em 2014-2015, e pode acontecer novamente. Algumas cidades de São Paulo, Minas, Paraná podem ter que fazer racionamento de água ou distribuição de água suja,  uma situação terrível, em que o gestor tem que escolher entre cortar a água ou distribuir água sabidamente poluída. Isso aconteceu em São Paulo. Começaram a usar o volume morto do reservatório, que é sujo, tem muito barro, bactérias e poluentes químicos. Vamos, infelizmente, viver esse drama de escolher entre racionar ou ter que distribuir água suja para a população. Isso tem acontecido pontualmente em alguns desastres, por exemplo, quando se poluiu o Rio Doce por causa do desastre em Mariana,mas pode acontecer agora numa escala muito maior, abrangendo toda a região Sudeste: falta de água e contaminação da água de abastecimento humano. 

A crise é global, mas tem configurações muito particulares no Brasil, com uma cobertura da rede de saneamento bastante razoável, mas de baixa qualidade e insegura

Voltamos à questão da vulnerabilidade, quem tem um pouco mais de reserva financeira pode passar a comprar galões de água, embora, também, de qualidade duvidosa, mas pode adotar o galão de água como alternativa. Quem não tem vai usar água da bica ou de pequenas minas ou do vizinho ou de riacho perto de casa, isso pode ser um desastre para a saúde. O que estou querendo dizer é que a crise é global, mas tem configurações muito particulares no Brasil, muito específicas da situação brasileira que tem uma cobertura da rede de saneamento bastante razoável, mas de baixa qualidade e insegura, que é um chavão que se usa nessa área, um sistema inseguro que pode entrar em colapso com essa crise da água. 

O aparecimento de zoonoses seria uma das consequências dessa devastação da Amazônia, abrindo possibilidades para o surgimento de novos vírus, novas pandemias, não? O que pode ser feito em termos de políticas públicas no Brasil para se tentar reverter os efeitos das mudanças climáticas? Isso já vem sendo pensado?

São dois processos acontecendo ao mesmo tempo. Existe uma perda de biodiversidade em várias áreas, e isso significa o aparecimento de pragas, numa maneira vulgar de falar, o predomínio de uma espécie em relação a outras, podendo gerar um boom de alguma espécie e inclusive de vírus, de alguns animais, mas, também, de vírus carregados por esses animais. Quando se adota uma fonte de alimento, um só lugar para criação de animais para abate, gera-se um circuito muito rápido retroalimentado, podendo aparecer vírus emergentes e mutações que podem ser transmitidos para a espécie humana. Além disso, em algumas cidades, a expansão da fronteira econômica está encostando em áreas que eram protegidas, e isso traz risco de zoonoses, que surgem a partir de contato de pessoas com o vírus que estava dentro do seu ecossistema. Chama-se de salto ecológico, quando ele pula de lá e começa a ser transmitido para as pessoas. São processos nos quais se tem pensado muito pouco. A Fiocruz tem um grupo bastante ativo trabalhando com a questão da biodiversidade, relacionada ao surgimento de vírus emergentes e novas epidemias.

Quem sabe retomar o diálogo entre academia e o setor produtivo, como já aconteceu antes. Desse diálogo é que podem surgir algumas soluções econômicas menos danosas para o Brasil

É possível melhorar isso que a gente está fazendo de errado?

A primeira tarefa é tentar entender como esses processos globais são produzidos no Brasil, qual é a participação do Brasil na emissão de gases e como isso pode ser controlado. É uma tarefa dos brasileiros. A segunda é entender como as mudanças climáticas globais vão se refletir nos vários locais, nas várias regiões do Brasil, a partir desse conhecimento podemos nos adaptar para enfrentar essas situações – a intensificação da seca no Semiárido, as crises hídricas no Sudeste, queimadas na Amazônia – que exigem políticas muito particulares para cada região. É uma tarefa das instituições de pesquisa, das universidades e dos órgãos de fiscalização, que infelizmente estão sucateados ou desacreditados. Desacreditados propositalmente, por ações de boicote. Lamentáveis as ofensas às universidades, e são elas que podem elaborar algum plano de contenção das mudanças climáticas, claro, em acordo com o setor produtivo. Quem sabe o diálogo entre academia e o setor produtivo, como já aconteceu antes. A Embrapa, por exemplo, é uma instituição tipicamente acadêmica, de pesquisa, mas que tem um diálogo muito importante com a produção agrícola. Desse diálogo é que podem surgir algumas soluções econômicas  menos danosas para o Brasil. Infelizmente esse diálogo foi interrompido, mas existe essa possibilidade de retomada inclusive por pressões internacionais. 

Diante da gravíssima situação ambiental, evidenciada pelo relatório do IPCC, que conclama o mundo a atitudes emergenciais para conter o aquecimento global, o Brasil já tem um planejamento para lidar com essa questão? O primeiro plano seria uma conscientização dos brasileiros em relação a essa emergência?

Sim, dos brasileiros representados pelos seus gestores. O brasileiro individualmente até que não é tão danoso. Existe uma crise de representação, de representatividade no Brasil, infelizmente. 

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Esta entrevista foi inicialmente publicada pelo Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz [Aqui!].

BR-319: organizações e sociedade civil repudiam ataques sofridos por cientista em audiência pública

Mais de 150 organizações assinam a nota em apoio a Philip Fearnside, um dos mais respeitados pesquisadores da Amazônia que foi vítima de comentários xenofóbicos
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O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Dr. Phillip Fearnside, foi alvo de ataques xenofóbicos durante uma audiência pública sobre o licenciamento para obras na BR-319. O evento foi realizado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), na noite da última segunda-feira (27), no Centro de Convenções Vasco Vasques, em Manaus (AM). As ofensas aconteceram após Fearnside apresentar um artigo com argumentos contundentes, a partir de uma análise com bases técnicas e científicas, sobre as obras na rodovia e de seus impactos socioambientais.

O pesquisador, que é norte-americano e vive e atua na Amazônia há mais de 40 anos, é integrante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU, e foi laureado com o Prêmio Nobel da Paz, em 2007, por sua contribuição na luta contra a crise climática. Philip Fearnside é reconhecidamente uma das maiores autoridades científicas do mundo no que diz respeito à Amazônia. Ele é respeitado internacionalmente e importante referência por seus estudos e pesquisas, que ajudaram a entender a dinâmica ecossistêmica da maior floresta tropical do planeta.

As instituições, entidades de pesquisa e pesquisadores, e organizações da sociedade civil abaixo-assinadas repudiam e consideram inaceitáveis os ataques sofridos pelo cientista, que vem incansavelmente há décadas dedicando sua vida e esforços pela conservação da Amazônia. Um desafio extremo, como sabemos, considerando toda a dificuldade de se empreender pesquisa e ações de conservação no Brasil.

Discriminação é um comportamento abominável, criminoso e inconstitucional, se considerarmos que a Constituição Federal proíbe qualquer tipo de discriminação racial, étnica, religiosa, de gênero ou por nacionalidade. Dessa forma, repudiamos fortemente os ataques e manifestações desrespeitosas e xenofóbicas dirigidas ao Dr. Fearnside durante a audiência pública citada.

Esse fato e seus desdobramentos, demonstram a fragilidade e despreparo das instituições públicas responsáveis pelo processo de licenciamento das obras de repavimentação da BR-319. As audiências públicas de um licenciamento são uma exigência legal que muitas vezes têm sido realizadas pró-forma, quando devem ser ocasiões para debates críticos e construtivos, com dinâmica e metodologia adequadas que permitam que ajustes, melhorias e mesmo que questionamentos ao projeto sejam propostos e considerados, de modo que o ele seja reavaliado, melhorado ou mesmo cancelado.

Um processo tão longo como este, que se arrasta há anos justamente pela falta de seriedade na sua condução, não pode ser discutido agora de forma superficial. Muitos trabalhos científicos comprovam que a repavimentação da BR-319, da forma como está sendo proposta, é um risco enorme para a integridade da Amazônia e afetará profundamente a vida de milhões de pessoas. Foi justamente este alerta que o Dr. Fearnside tentou expor na audiência. No entanto, em vez de encontrar no evento um espaço democrático para apresentar este alerta, o cientista sofreu uma tentativa de silenciamento e descredibilização, em um ambiente hostil e truculento, bastante fragilizado pela baixa audiência.

Acreditamos que a ciência é um elo fundamental do nosso destino comum e uma oportunidade para construir uma sociedade mais justa, diversificada e sustentável. Pesquisadores renomados como o Dr. Fearnside vêm alertando há tempos sobre os possíveis impactos da reconstrução da BR-319 no bioma Amazônia, que serão irreversíveis e podem nos jogar no abismo do ponto de não retorno, onde espécies e uma série de benefícios e serviços ecossistêmicos, hoje proporcionados pela floresta, serão perdidos, afetando a vida de toda a humanidade.

Alertamos, ainda, que os estudos de impacto ambiental sobre a rodovia, apresentados pelo Dnit e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na audiência, estão incompletos e com graves problemas técnicos, uma vez que não delimitam a área de influência do projeto e foram realizados de forma superficial e sem a qualificação requerida para uma avaliação tão importante. É inacreditável que mesmo existindo dezenas de instituições públicas de grande qualificação e experiência na região como Inpa, Ufam, UEA, Ifam, Ufir, nenhuma delas tenha sido convidada a participar ou avaliar os estudos realizados.

Somado à precariedade dos estudos ambientais, ainda há o agravante de que as demandas das populações indígenas e das comunidades tradicionais estão sendo sistematicamente ignoradas. Os estudos do componente indígena, bem como a realização das consultas prévias, livres, informadas e de boa-fé, como preconiza a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em sua Convenção nº 169, têm sido proteladas e deveriam ocorrer antes das audiências públicas gerais.

Por fim, reiteramos nosso repúdio ao modo de condução da audiência pública por seus organizadores, que, ao não se posicionarem contra as agressões sofridas pelo Dr. Fearnside, permitiram que o debate público fosse desvirtuado de sua finalidade de informar ao público, para se transformar em palco de negacionismo, desinformação e de campanha política com fins eleitoreiros.

Agressões não são argumentos válidos e não podem ser aceitas em discussões públicas, ainda mais em audiências promovidas pelo Poder Público, que deveria conduzir o debate primando pelo respeito aos diferentes pontos de vista. É dever do Poder Público não admitir e rechaçar imediatamente o discurso de ódio promovido e que tem sido sistematicamente ampliado. Assim, solicitamos providências para que estas agressões sejam formalmente repudiadas pelos responsáveis por essa audiência, que, a rigor, deveria ser reagendada e novamente realizada em condições apropriadas. Esperamos que seja revisto o método de aplicação e condução das audiências públicas e que os próximos eventos tenham melhor dinâmica e preparo. As audiências públicas devem ser espaços verdadeiramente democráticos que de fato contribuam com a discussão qualificada sobre obras na BR-319 e outras que estão por ser apreciadas e licitadas.

Assinam este documento pesquisadores e sociedade civil:
Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS)
Greenpeace Brasil
GT Infraestrutura
Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável (Idesam)
Movimento Ficha Verde (MoFV)
Observatório BR-319 (OBR-319)
Transparência Internacional Brasil (TI-Brasil)
WCS Brasil
Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM)
Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB)
Operação Amazônia Nativa (OPAN)
Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora)
Instituto Mapinguari (IMAPIN)
Instituto Ecos de Gaia (EGA)
Instituto Socioambiental – ISA
WWF-Brasil
Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE)
Instituto Salve Mar (Movimento Salve Maracaípe)
Instituto Juruá
Rede Sustentabilidade Amazonas
Movimento Ecotrabalhismo PDT AM
Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais
Instituto Regeneração Global
Associação de Pós-graduandos da Universidade Federal do Amazonas (APG-UFAM)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade (ANPPAS)
Associação dos(as) Pós-graduandos(as) do INPA – MigAPG/INPA
Rede Transdisciplinar da Amazônia (RETA)
Articulação Parintins Cidadã
Teia de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta
Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde
Comissão Pró Índio do Acre (CPI-Acre)
Espaço de Formação Assessoria e Documentação – São Paulo
Abraço Guarapiranga – São Paulo
Rede Barragens Amazônicas / Amazon Dams Network (RBA/ADN)
Fundação Grupo Esquel Brasil FGEB
Associação Toxisphera de Saúde Ambiental
Associação SOS Amazônia
Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé
Comitê Chico Mendes
Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Desenvolvimento e o Meio Ambiente
Instituto Diadorim para o Desenvolvimento Regional e Socioambiental/iD (MG)
Observatório do Clima – OC
Rede de ONGs da Mata Atlântica- RMA
Movimento “Eu rejeito barragens em Sabará”
Professores do Curso de Arqueologia da Universidade Federal do Oeste do Pará
Helder Lima de Queiroz – IDSM/SCM
Gleice Oliveira – Historiadora e professora
Neiva Araujo – Grupo de Pesquisa Direito, Território & Amazônia – Diterra/Unir
Angélisson Tenharim – liderança do povo Tenharim
Davyd Spencer R. de Souza, Sociólogo, DCiS-UFAM
Maria Anete Leite Rubim
Anete Rubim
Daniel de Paiva Silva – IF Goiano, campus Urutaí
Steffanie Schmidt – Jornalista – DRT/MT 1329
Yuri Breno da Silva e Silva
Carlos Edwar de Carvalho Freitas, Universidade Federal do Amazonas
Rita Mesquita – INPA
Maria Cecília Wey de Brito – Instituto Ekos Brasil
Ivaneide Bandeira Cardozo – Kanindé
Camila C. Ribas – Pesquisadora INPA
Taiguã Corrêa Pereira – doutorando PPGBot / INPA
Fernanda de Pinho Werneck – Pesquisadora INPA
Cecilia Veronica Nunez – INPA
Eron Bezerra – Professor Doutor UFAM
Anete Rubim – UFAM
Albertina Lima
Kaio Cesar Marinho da Cunha – INCT-INPA
Vincenzo Lauriola – MCTI
Sidineia Aparecida Amadio, Pesquisadora aposentada/INPA
Jansen A. S. Zuanon, Biólogo, Pesquisador da COBIO/INPA
Jussara Santos Dayrell, Bióloga, Doutoranda ECO/Inpa
Gabriel Costa Borba, Biólogo, Doutorando na Virginia Polytechnic Institute and State University (Virginia Tech)
Neliton Marques da Silva – FCA/UFAM
Nágila Alexandre Zuchi – Doutoranda -PPG-BADPI/INPA
Mauro Scarpinatti – Economista, professor universitário
Andrea V. Waichman – UFAM
Lucia Rapp Py-Daniel – INPA, pesquisadora
Rosana Barbosa de Castro – DCF/FCA/UFAM
Virgílio Maurício Viana – Superintendente Geral da Fundação Amazônia Sustentável
Miguel Petrere Junior – Universidade Federal do Pará
José Eurico Ramos de Souza – IFAM-CMZL
Iolanda da Silva Moutinho – Mestranda PPG-ECO /INPA
Flora Magdaline Benitez Romero – INPA
Cristine Luciana de Souza Rescarolli – FAS
Alberto Vicentini – INPA-CODAM, pesquisador
Luiza Magalli Pinto Henriques – INPA/COPES, Analista em C&T
Carolle Alarcon – UICN Brasil
João Ferraz – Pesquisador INPA
Patricia Marques do A. Oliveira – Mestranda PPGBA/UFPE
Carolina Ramirez Mendez – SDSN Amazônia
Solana Meneghel Boschilia- UFPA
Pedro Murilo Sales Nunes – professor adjunto – UFPE
Rosa dos Anjos – FAS
Paulo Braga Mascarenhas Júnior- UFPE
Layon Oreste Demarchi – Doutorando PPG-Bot-INPA
Aretha Alves Pereira – FAS
Anne Rapp Py-Daniel – Universidade Federal do Oeste do Pará
Thereza Beatriz Lira Melo – UFPE
Paulo Maurício Alencastro Graça – Pesquisador INPA
Maria Teresa Fernandez Piedade – Pesquisadora INPA
Manuela Carneiro da Cunha – Antropóloga, Professora Titular aposentada da USP e Professora Emérita da Universidade de Chicago
José Sabino – Professor e pesquisador, Uniderp
Aurelio Michilies – Cineasta
Marcos Antonio Isaac Júnior – Pós-doutorando INPA
Thomas M. Lewinsohn – Professor Titular aposentado da Unicamp e Pesquisador Sênior CNPq
Isabela Freitas Oliveira – Doutoranda PPG/ECO INPA
Luciana Rebellato – OPAN
Ricardo de Oliveira Perdiz – Biólogo
Carlos Alfredo Joly – Professor Titular aposentado da Unicamp
Luciney Araújo Leitão – Professor de Sociologia EBTT da UFAC
Brunno Freire Dantas de Oliveira – Ecólogo e pós-doutorando em University of California – Davis, USA
Thais de Nazaré Oliveira Novais – Mestranda PPG-CFT/INPA
José Henrique de Andrade Lima – PPGBA- UFPE
Maria Nazareth F. da Silva – Pesquisadora INPA
André Pereira Dias – CGMA/SEMA-MT
Davor Vrcibradic – Professor adjunto – UNIRIO
Adriana Ramos – ambientalista
Daniel Brandt Galvão – Professor IFCE
Pedro Bruzzi Lion – FUNATURA
Camila Julia Pacheco Ramos – Doutoranda PPG CFT/INPA
Lucirene Aguiar de Souza-Ufam
Deputado Federal Rodrigo Agostinho (PSB/SP) – Coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista
Deputado Federal Nilto Tatto (PT/SP) – Coordenador da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos ODSs
Carla Gheler-Costa – Bióloga, Dra.
Fábio Henrique Comin – Biólogo, Dr.
Iris Roitman – Pesuisadora Colaboradora -UJ
Valério De Patta Pillar – Professor Titular, UFRGS
José Celso de Oliveira Malta – Pesquisador INPA
Annelyse Rosenthal Figueiredo – UFOPA
Elineide E. Marques – UFT
Rubens Harry Born – Engenheiro civil com especialização em engenharia ambiental, advogado, mestre e doutor em Saúde Pública
José Ribamar Bessa Freire – Coordenação do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da UERJ e pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO
Lucas Rodrigues de S. Santos – Doutorando em Ciência do France Rodrigues, PPGSOF/UFRR
Sistema Terrestre – Universidade da Califórnia Irvine, EUA
Gustavo T. Gazzinelli – jornalista e ambientalista e Belo Horizonte (MG)
Aurora Miho Yanai Nascimento – Pós-doutoranda/INPA
Beatriz Figueiredo Cabral – Mestranda PPG/CFT-INPA
Reinaldo Imbrozio Barbosa – Pesquisador do INPA/ Núcleo Roraima
Flávia Nogueira de Sá – Professora Universidade de Brasília
Célio U. Magalhães Filho – Pesquisador aposentado do INPA/ Pesquisador colaborador da FFCLRP/USP
Fatima Monteiro – Africultora Familiar FEATRAF AM
Carol Monteiro – Agricultora Familiar CONTRAF BRASIL CUT
Rodrigo Guedes – Vereador CMM
Ana Karina Moreyra – Bióloga
Angela Galvão – Advogada
Miguel Scarcello
Renato Mattareli
Márcio Zikán Cardoso – Professor Associado UFRJ
Gabriela Borges Vedovello – Mestranda PPG/ECO INPA
Nathalia de Toledo Marinho – mestranda PPG ECO/INPA
Apoena Presidente Epitácio SP
Djalma Weffort
Debora Martins Nakayama
Erika Berenguer – Pesquisadora University of Oxford/ Lancaster University/Rede Amazônia Sustentável
Wilson Roberto Spironello – Ecólogo – Pesquisador e líder do Grupo de Pesquisa de
Mamíferos Amazônicos do INPA

Path Amazônia terá ingresso colaborativo e mais de 70 horas de conteúdo online com foco na regeneração do planeta

Organização do evento sobre inovação, diversidade e sustentabilidade, realizado nos dias 30 e 31 de outubro, irá sugerir o preço do ingresso solidário, mas o público poderá contribuir com o valor que desejar ou assistir gratuitamente. Estão no line-up nomes como Kaká Werá, Karina Olani, Gustavo Montezano, Nina Silva, Ana Fontes, Fê Cortez, Edu Lyra, Marko Brajovik, João Farkas e Vivi Duarte

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São Paulo, 29 de setembro de 2021: Estão abertas as pré-inscrições para o Path Amazônia, edição especial do Festival Path, que acontecerá de forma virtual nos dias 30 e 31 de outubro. Com mais de 70 horas de conteúdo sobre inovação, diversidade e sustentabilidade – muitos deles produzidos diretamente da região Amazônica – o evento terá um novo formato na cobrança de ingresso. A organização vai sugerir um preço, mas cada um que fizer sua inscrição poderá contribuir com valor que desejar ou assistir gratuitamente. Para garantir o acesso à plataforma é preciso se inscrever por meio do site ondemand.festivalpath.com.br

O Path Amazônia vai colocar em pauta os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e contará com um time de especialistas para curadoria de cada um dos temas, incluindo especialistas renomados de cada ODS, lideranças de povos tradicionais e instituições sociais. “Estamos convocando um time de parceiros e profissionais engajados e com ideias inovadoras, de diversas áreas, para ajudar a dar luz a assuntos como saúde e bem-estar, meio ambiente, democracia, consumo consciente, alimento, energia limpa, empoderamento social, econômico, turismo, ciência e povos tradicionais”, adianta Fabio Seixas, fundador e diretor de conteúdo do Path.

Kaká Werá, Karina Oliani, Gustavo Montezano, Nina Silva, Mariana Ferrão, Ana Fontes, Fê Cortez, Edu Lyra, Marko Brajovik, Kênia Maria, Ailton Krenak, Patricia Tavares, Irina Bulara, João Farkas, Xexeu Tripoli, Tia Dag, Marquito Abreu e Vivi Duarte são alguns dos convidados já confirmados.

Path em ação na Amazônia

O Path Amazônia irá arrecadar ainda fundos para construção de uma escola, que será doada pelo evento à Fundação Almerinda Malaquias, e vai atender as comunidades do Amazonas. A escola será assinada por Marko Brajovic. O objetivo é impactar 50 comunidades com melhorias em infraestrutura local e ofertas pedagógicas. Brajovic é especialista em construções sustentáveis e representante brasileiro na Bienal de Arquitetura de Veneza deste ano.

Inicialmente planejado para ser transmitido de um navio na Amazônia, agora por conta do agravamento da variante delta e por recomendações das autoridades locais o Path será 100% online, impactando milhões de pessoas. Diversos dos conteúdos seguem sendo produzidos também na Amazônia onde serão gravados em formas de palestras, documentários, podcasts e mais.

O Path já conta com patrocínios do grupo Heineken, Mastercard e da Volvo Car Brasil, além de parceiros e apoiadores como TRIP, Catraca Livre, Vida Simples e YAM. A programação completa será divulgada em breve. Para inscrições e outras informações, acesse o site do Path: https://www.festivalpath.com.br ou o instagram @FestivalPath

Sobre o Path

O Path é reconhecido pela sua excelência em design de experiências e curadoria de conteúdos relacionados à inovação e diversidade que atingiram dez milhões de pessoas nos últimos anos. Mais de 2.000 pessoas renomadas de diferentes áreas passaram pelos palcos do festival, como Marina Silva, Alex Atala, Monique Evelle, David Schurmann, Regina Casé, Djamila Ribeiro, Pedro Paulo Diniz, Max Fercondini, Camila Coutinho, Alok, Rony Meisler, Dona Onete, entre muitos outros.

Desde a sua criação em 2013, a missão foi inspirar para gerar transformação positiva. A atuação é ligada diretamente à educação em suas mais variadas formas, entendendo que de grão em grão construímos um legado para um mundo com ideias inovadoras e mais diversas que gerem transformação positiva. Seja ela individual ou coletiva.

A extração madeireira penetra no núcleo intocado da região amazônica brasileira

Entre agosto de 2019 e julho de 2020, 464.000 hectares foram desmatados. A degradação progressiva da floresta é outro problema que até agora tem sido negligenciado

madeira mtO estado de Mato Grosso respondeu por mais da metade da extração de madeira amazônica. FONTE: ICV

Por Ulrike Bickel para o Amerika21

De acordo com um novo estudo baseado em satélite da rede Simex , a extração ilegal de madeira nas áreas periféricas está penetrando cada vez mais fundo na zona central da floresta amazônica. Uma aliança das quatro organizações ambientais brasileiras sem fins lucrativos Imazon, Imaflora, Idesam e Instituto Centro de Vida (ICV) documentou a extração de madeira em quase todas as partes da Amazônia pela primeira vez. Para tanto, foram mapeados sete dos nove estados brasileiros (Acre, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima) , dos quais, juntos, vem quase 100% da produção de madeira da floresta tropical.

O mapeamento baseado no rastreamento das árvores derrubadas mostra a extensão da destruição da floresta: entre agosto de 2019 e julho de 2020, 464 mil hectares foram desmatados, uma área três vezes maior que a da metrópole de 21 milhões de habitantes de São Paulo. Mais da metade (50,8%) da exploração madeireira estava no estado de Mato Grosso, seguido por Amazonas (15,3%) e Rondônia (15%), dos quais a maior parte (78%) era de propriedade privada.

A extração de madeira em reservas indígenas (24.866 hectares) e reservas naturais (28.112 hectares) é, de acordo com o estudo do Simex, totalmente ilegal porque é proibida.

Segundo Vinicius Silgueiro, coordenador de monitoramento territorial do ICV de Mato Grosso, quase não existem controles e sanções estaduais para as inúmeras violações. As licenças legais são freqüentemente usadas para disfarçar a extração de madeira em áreas restritas, também conhecidas como “lavagem de árvores”. Segundo Marco Lentini, coordenador-chefe do projeto do Imaflora, o avanço da agricultura industrial do chamado ‘arco do desmatamento’ para o seio da Amazônia deve ser interrompido com urgência. Quanto mais licenças as autoridades emitem para o desenvolvimento da floresta, mais madeira ilegal existe.

O cartão Simex também inclui áreas onde, em março de 2021, a Polícia Federal apreendeu 226 mil metros cúbicos de madeira na fronteira entre os estados do Amazonas e Pará, a maior apreensão de madeira ilegal da história do Brasil. Esta ação foi o gatilho para a demissão do controverso ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles em junho, depois que ele havia exigido uma liberação impune da madeira confiscada.

Já em 2018, o estudo do Greenpeace “Árvores imaginárias, destruição real” destacou a falta de confiabilidade dos sistemas de licença e controle florestal brasileiro, que são suscetíveis a fraudes. Como resultado, há uma deficiência crucial na fraqueza do processo de aprovação de planos de manejo florestal sustentável, antes do qual nenhuma inspeção de campo ou apenas inspeções de campo de baixa qualidade são normalmente realizadas. Os estoques de madeira seriam superestimados ou árvores inexistentes com alto valor comercial seriam incluídas no inventário florestal da área.

De acordo com o Greenpeace, as autoridades estaduais emitiram licenças para a colheita e transporte dessa madeira valiosa inexistente, que na verdade é derrubada ilegalmente em outras áreas em terras indígenas, em áreas protegidas ou em terras públicas.

De acordo com um estudo mais detalhado do Imazon , mais da metade da exploração madeireira no estado do Pará não tinha licença das autoridades ambientais – 20% a mais que no ano anterior. Na maioria dos estados, é quase impossível verificar se é ilegal devido à falta de transparência ou barreiras tecnológicas. Em muitos casos, segundo o ICV, os certificados das atividades florestais legais são apresentados em papel, o que dificulta a correspondência dos dados com as imagens de satélite. Apenas Pará e Mato Grosso já digitalizaram bancos de dados.

Além do desmatamento bem documentado da Amazônia, a degradação contínua das florestas é um grande problema que até agora foi negligenciado e tem efeitos de longo alcance sobre a biodiversidade e o sequestro de carbono. Por exemplo, um estudo científico publicado recentemente na Science pela primeira vez mapeou a degradação de longo prazo para toda a região amazônica brasileira e registrou as causas. Como resultado, no período de 1992 a 2014, a área total afetada foi de 337.427 Km2, em comparação com 308.311 Kmdo desmatamento total. Isso significa que a área destruída pela degradação florestal agora é maior do que pelo desmatamento.

Segundo Silgueiro, a extração legal e ilegal persiste em uma proporção em torno de 60:40. Quanto mais licenças as autoridades emitem para o desenvolvimento da floresta, mais madeira ilegal existe. A fraude de registro só vai parar quando o volume de registro real for estimado e cada árvore for rastreada. Segundo o coordenador do ICV, as tecnologias disponíveis só estão sendo implantadas aos poucos pelos países produtores.

A floresta amazônica é um fator estabilizador decisivo para o clima global e armazena grandes quantidades de gases de efeito estufa. Preservá-lo é fundamental para o combate ao aquecimento global.

Há muito tempo, especialistas e organizações ambientais vêm alertando que a destruição da Amazônia terá consequências catastróficas para o clima global: vários estudos recentes de cientistas brasileiros publicados pelo Projeto de Monitoramento da Amazônia (MAAP) e um publicado na revista Nature mostra que, como resultado do corte e queima, desmatamento e mudança climática, a área passou de um sumidouro de carbono a uma fonte líquida de dióxido de carbono. Uma grande parte da floresta tropical já está emitindo mais gases de efeito estufa na atmosfera terrestre do que absorve novamente.

Os pesquisadores suspeitam que esse desenvolvimento ainda pode ser interrompido no momento se a destruição da floresta tropical for interrompida imediatamente e tudo for feito globalmente para deter o aquecimento global.

Como parceira comercial do Brasil, a Alemanha também é responsável pela compra de grandes quantidades de produtos da destruição da selva, especialmente soja como ração animal para a pecuária local. Mais de 450 organizações da sociedade civil pedem um protesto contra o acordo de livre comércio entre a UE e a aliança econômica Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai), que o governo alemão está promovendo fortemente e que agravaria ainda mais a sobreexploração da Amazonas.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Amerika21 [Aqui!].

Desmatamento ilegal segue em alta na Amazônia, mas Augusto Aras se posiciona contrário à ADPF 760

O Procurador-geral da República, Augusto Aras, considerou improcedente ação da ADPF 760 que pede a retomada de ações contra o desmatamento.

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Brasília, 22 de setembro de 2021 – De acordo com o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em agosto de 2021 a Amazônia Legal apresentou um aumento de 7% no desmatamento em relação a agosto de 2020. Foram 1.606 quilômetros quadrados de área desmatadas, que representam um recorde se comparadas com meses anteriores. Enquanto isso, o Procurador Geral da República, Augusto Aras, se colocou contrário a ADPF 760, que pede a retomada do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). 

Para Aras não cabe ao Supremo Tribunal Federal (STF) incidir sobre as políticas ambientais contra o desmatamento, pois isso configuraria interferência nas decisões do Poder Executivo que é, segundo o procurador, o responsável por desenvolver programas e projetos de combate ao desmatamento. “É por isso que, no caso dos autos, o Supremo Tribunal Federal há de praticar a autocontenção, em respeito ao princípio da separação dos poderes.” escreveu em sua manifestação o Procurador Geral da República. 

No entanto, o que se tem registrado é uma falta de planejamento por parte do Executivo em políticas de proteção ao meio ambiente. Apesar do Presidente Jair Bolsonaro ter dito nesta semana em discurso na ONU que o desmatamento diminui 32% na Amazônia, os dados referem-se apenas ao mês de agosto deste ano em comparação ao mês de agosto de 2020. A realidade é que os dois primeiros anos do governo de Jair Bolsonaro foram marcados pelo aumento do desmatamento na Amazônia Legal, que alcançou em 2019 e 2020 as maiores taxas dos últimos 10 anos, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Enquanto isso, a atuação do governo Bolsonaro é marcada pelo enfraquecimento de órgãos de fiscalização e planos de proteção ambiental, como o PPCDAm que prevê ações para que as metas climáticas assumidas pelo Brasil em 2009 sejam cumpridas tendo como foco a redução dos índices de desmatamento e de degradação florestal. 

Pedro Martins, advogado popular da Terra de Direitos (uma das entidades que participam da ação como amicus curiae), afirma que a manifestação do Procurador-geral prejudica a retomada de políticas públicas ambientais no Brasil. “A postura do Procurador não é de avaliar se existe um retrocesso na política ambiental brasileira, um retrocesso climático, mas de sim deixar a carga do Executivo tomar a decisão sobre qual a melhor forma de prover uma política pública satisfatória para o meio ambiente”, destaca. “Acontece que nenhum momento o executivo demonstrou ter uma alternativa ao desmantelamento do Programa de combate ao desmatamento na Amazônia, o que interfere diretamente no descumprimento da lei”, reforça o advogado reafirmando a necessidade da ação.

ADPF 760

A Arguição de Descumprimento de Direito Fundamental 760 foi protocolada há quase um ano (em novembro de 2020) pelos partidos PSB, REDE, PDT, PT, PSOL, PCdoB, Partido Verde e outras 10 entidades, pedindo a retomada da execução do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia Legal (PPCDAm). Segundo os autores da ação, a partir do governo Bolsonaro o PPCDAm sofreu com a desestruturação e com enfraquecimento das ações de proteção ambiental.

“O Brasil de Bolsonaro não existe”, afirma Anistia Internacional Brasil após discurso do presidente na ONU

BOLSO ONU

O Brasil apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada em Nova Iorque nesta terça-feira (21), é um país sem corrupção, que respeita a Constituição Federal, investe no barateamento da produção de alimentos e goza de grande credibilidade nacional e internacional. No Brasil de Bolsonaro, a legislação ambiental é uma das mais completas do mundo, o esforço em zerar o desmatamento ilegal é uma realidade e a Amazônia é exemplo de preservação. A pandemia, para o presidente, foi enfrentada de modo a combater o vírus e garantir os bons números na economia. 

No entanto, essa imagem nega o que fatos e dados revelam: o país atravessa um período estendido de instabilidade e crises política, econômica, sanitária e de direitos humanos. A Anistia Internacional Brasil afirma que o Brasil apresentado por Jair Bolsonaro não existe. Há graves ameaças aos direitos humanos e violações de direitos de povos indígenas, dos cerca de 19 milhões de brasileiros que passam fome neste momento no país e das famílias das quase 600 mil vidas perdidas para a COVID-19.

A gestão da pandemia de COVID-19 no Brasil tem sido marcada por descompromisso e omissões do Governo Federal, que até hoje insiste no chamado “tratamento precoce” em detrimento e/ou minimização da adoção de medidas contundentes e cientificamente comprovadas para a prevenção e recuperação da doença. Episódios de colapso do sistema de saúde, diversas dificuldades para que a vacinação em massa fosse uma realidade e denúncias de superfaturamento na compra de imunizantes são de conhecimento amplo e público e objetos de investigação da CPI da COVID, instaurada para apurar a atuação governamental frente à crise sanitária. É inadmissível que até hoje a população brasileira enfrente uma pandemia global agravada por uma administração política irresponsável.

Pessoas de grupos historicamente discriminados como a população indígena, negros e negras e as famílias mais pobres têm sido desproporcionalmente impactadas pela emergência sanitária, agravada por diversas camadas da crise social que torna cada vez mais precárias as condições de vida dos brasileiros e brasileiras. 

A pandemia contribuiu para que a quantidade de brasileiras e brasileiros com fome ou em insegurança alimentar aumentasse em 2020. Falta comida no prato de quase 9% das pessoas no Brasil, o equivalente à população do Chile. A relativa queda dos índices de pobreza no ano passado não se manteve em 2021, quando o repasse do auxílio emergencial foi interrompido por três meses e retomado em menor valor e para um menor público. No primeiro trimestre de 2021, o Brasil também alcançou a maior taxa de desemprego desde 2012, totalizando 14,7% milhões de pessoas desempregadas, segundo o IBGE.

Apesar deste cenário, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, segue à frente de investidas contrárias às necessidades e urgências da população e às pautas prioritárias da agenda global, como o combate à pandemia da Covid-19, a defesa do meio ambiente e o enfrentamento às mudanças climáticas.

Não há política pública para combate ao desmatamento ilegal em andamento no Brasil. A situação da Amazônia é crítica. Órgãos ambientais estatais estão sucateados e foram enfraquecidos desde o primeiro dia do governo Bolsonaro e o próprio ex-ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, tem sido apontado como responsável por essas medidas, sendo investigado por esquema ilegal de extração de madeira. A cobertura florestal sofre pressões ao ponto em que no primeiro semestre de 2021, a Amazônia brasileira teve a maior área sob alerta de desmate em 6 anos, segundo dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). O acumulado de alertas de desmatamento em 2021 na Amazônia foi de 8.712 km², o que equivale a cinco vezes a cidade de São Paulo, maior metrópole do Brasil.

Indígenas brasileiros não vivem “em liberdade”, conforme afirmou o presidente Jair Bolsonaro. A vida na floresta tem sido marcada por sérios riscos de violações de direitos humanos dessas populações por parte de grileiros, madeireiros e invasores de terras. O relatório Conflitos no Campo 2020, elaborado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), registra que, em meio a pandemia, 39% das vítimas de assassinato em contextos de conflito no campo no Brasil eram indígenas, que também representam 34% das pessoas que sofreram tentativas de homicídio e 16% das que se encontram em situação de ameaça de morte.

Na agenda climática, o presidente afirmou o protagonismo que o país tem e de que deve alcançar a “neutralidade climática”, enquanto ignorou o imenso retrocesso realizado pelo atual governo em relação às metas de redução de emissões perante o Acordo de Paris. A última atualização de metas realizada em dezembro de 2020 autoriza que o país emita mais do que havia se comprometido inicialmente em 2015, em uma clara redução de ambição. Além dessa nítida discordância com os princípios do Acordo, a gestão Bolsonaro não apresentou informações suficientes para apontar como as reduções serão atingidas em médio e longo prazo. Tudo isso enquanto ativamente desmonta as políticas de proteção ambiental responsáveis por controlar as emissões do país. Por fim, alega ainda que o futuro dos empregos verdes está no Brasil, sem qualquer ação em nível nacional orientada à construção de capacidades profissionais nesse sentido.

O Brasil que Bolsonaro apresenta ao mundo não existe. Pelo contrário, o país vive graves ameaças aos direitos humanos fundamentais revelados por dados e fatos e que afetam o dia-a-dia de brasileiros e brasileiras. A Anistia Internacional Brasil reafirma seu compromisso de luta por uma sociedade mais justa e que garanta que nenhuma pessoa seja deixada para trás no acesso aos seus direitos humanos fundamentais. Essa busca pelo Brasil real deve ser perseguida pela sociedade civil organizada e também pelas autoridades públicas de todos os poderes constituídos no país.