Degradação florestal na Amazônia em 2024 é a maior dos últimos 15 anos

De acordo com números do SAD-Imazon, a degradação no bioma atingiu 26 mil km², o equivalente ao estado de Alagoas. Queimadas são responsáveis, diz instituto

degradação fogoCastanheira queimada em área de floresta amazônica desmatada pelo fogo. Foto: Lalo de Almeida/ Folhapress

Por Cristiane Prizibiscki para o OECO

A degradação florestal na Amazônia atingiu números recordes em 2024. De acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de janeiro a setembro deste ano, 26.246 km² de floresta foram degradados, o equivalente a quase todo o território do estado de Alagoas.

De acordo com os dados do instituto, divulgados nesta sexta-feira (25), este é o maior número em 15 anos. Antes disso, o recorde para o período era de 2022, quando a degradação somou 6.869 km². Ou seja: quase quatro vezes menos do que em 2024.

Chama atenção o fato de que 77% do total degradado em 2024 ficou concentrado apenas em setembro, quando 20.238 km² de floresta sofreram degradação.

Diferente do desmatamento, quando acontece o corte total das árvores e abertura da floresta, a degradação ocorre gradualmente, com a remoção de árvores selecionadas e comercialmente mais lucrativas, pela passagem do fogo ou pelos efeitos das mudanças climáticas.

“Setembro costuma ser um mês marcado pelo aumento dessas práticas na Amazônia, por estar dentro de um período mais seco. Porém, os números registrados em 2024 são muito mais elevados do que os vistos anteriormente. E a maioria dos alertas ocorreu devido à intensificação dos incêndios florestais ”, explica a pesquisadora do Imazon Larissa Amorim.

Ranking de degradação por estados

Em setembro, 57% das áreas de floresta degradadas na Amazônia estavam concentradas no estado do Pará, onde 11.558 km² sofreram degradação. Sete dos dez municípios campeões em degradação ficam neste estado, incluindo os três primeiros: São Félix do Xingu (3.966 km²), Ourilândia do Norte (1.547 km²) e Novo Progresso (1.301 km²).

Os outros estados com percentuais significativos de áreas degradadas em setembro foram: Mato Grosso (25%), Rondônia (10%), Amazonas (7%), com destaque negativo para Rondônia. Nesse estado, a degradação passou de 50 km² em setembro de 2023 para 1.907 km² no mesmo mês de 2024, uma alta de 38 vezes.

“Em setembro, foi decretada situação de emergência e proibido o uso de fogo, mas precisamos que essa decisão seja acompanhada de fiscalização e responsabilização dos culpados para que seja mais eficaz”, aponta o coordenador do programa de Monitoramento da Amazônia do Imazon, Carlos Souza Jr.

Em relação ao desmatamento, o Imazon identificou que a prática cresceu no bioma pelo quarto mês seguido. Em setembro de 2024, uma área de 547 km² foi desmatada. No acumulado de janeiro a setembro, a área desmatada foi de 3.071 km².

Dos nove estados que compõem a Amazônia Legal, três concentraram 83% de todo o desmatamento identificado em setembro. O Pará liderou com 52% da devastação, seguido pelo Amazonas com 16% e pelo Acre com 15%. Além disso, sete dos dez municípios que mais desmataram são paraenses.

“No mês de setembro, o território paraense liderou o desmatamento destruindo uma área corresponde a 970 campos de futebol de floresta por dia. Todo esse impacto está refletido nos municípios, assentamentos, unidades de conservação e terras indígenas. Por isso, é urgente investir em ações eficazes e integradas que protejam a região, como o investimento nos órgãos ambientais de fiscalização. Assim, será possível combater as mudanças climáticas que são impulsionadas pela retirada de vegetação e oferecer uma maior proteção à biodiversidade e aos povos que habitam a floresta”, completa Souza Jr.


Fonte: OECO

Desmatamento fragmenta Amazônia e isola quase um quarto da floresta

fire degradationDesaparecimento de corredores ecológicos impede a livre circulação de animais em busca de alimento, acasalamento, migração em épocas de seca ou refúgio de incêndios florestais

Por ClimaInfo

Uma área de 193 milhões de hectares da Floresta Amazônica, quase do tamanho do território do México, foi isolada pelo avanço do desmatamento e da mineração na região. São milhões de hectares de cobertura amazônica cercados por terras agrícolas, pastagens, minas e estradas, o que acaba com a conectividade ecológica, impedindo a interação entre habitats.

É o que mostra um estudo da Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas (RAISG) e Aliança NorAmazônica (ANA) que será apresentado na COP16, na próxima semana, que foi antecipado pela AFP. O levantamento usa dados de satélite obtidos entre 1987 e 2022 pelo MapBiomas, informam O GloboCarta CapitalIstoÉ e 18horas, e ainda aponta que outros 108 milhões de hectares também correm o risco de ficar isolados.

O desaparecimento dos corredores ecológicos impede a livre circulação dos animais em busca de alimento, acasalamento, migração em épocas de seca ou refúgio de incêndios florestais. Isso ameaça não apenas a sobrevivência dos animais, mas também toda a cadeia ecológica, desde a dispersão de sementes de árvores, parasitas do solo e pólen nas flores, até o equilíbrio das populações determinado por predadores, alerta o relatório.

A falta de conexão não só mudará a Amazônia de ecossistema florestal para campos sujos empobrecidos, mas pode acelerar a chegada do ponto de não retorno da floresta, explicou o biólogo Néstor Espejo, que participou do estudo. A degradação irreversível afetaria diretamente os 47 milhões de habitantes da Bacia Amazônica nos 9 países pan-amazônicos, bem como as populações andinas que são abastecidas com sua água, enfatizou Adriana Rojas, que liderou o trabalho.

Os efeitos negativos não são apenas locais. A fragmentação pressiona a capacidade dos ecossistemas amazônicos de regular os ciclos de vida do oxigênio, da água doce e do clima global. Ou seja, todo o planeta paga a conta da destruição da Floresta Amazônica, por conta de seu importante papel na regulação climática em todo o mundo.

Em tempo

 Lei do retorno: o desequilíbrio climático provocado pelo desmatamento na Amazônia gerou um prejuízo de US$ 1,03 bilhão na produção de soja e milho na região de 2006 a 2019, aponta novo estudo da UFMG. Em média, as perdas anuais foram de US$ 73 milhões, informa a Folha. Os pesquisadores analisaram o impacto da destruição da floresta no clima da Amazônia e descobriram que, desde 1980, há um atraso na chegada da temporada de chuvas e redução no volume anual, além de aumento nas temperaturas. Com isso, a soja é plantada mais tarde, e a safrinha de milho, cultivada na mesma área após a colheita da soja, não tem tempo suficiente para se desenvolver plenamente.

ClimaInfo, 17 de outubro de 2024.


Fonte: ClimaInfo

Grandes bancos e fundos internacionais lucraram bilhões com o comércio de carne produzida a partir da invasão de terras indígenas na Amazônia

Potências financeiras como Barclays, Vanguard e BlackRock ganharam milhões com o financiamento do frigorífico brasileiro JBS, cujas operações estão causando a destruição da terra indígena Apyterewa

Parakana_boyUm menino Parakanã fica sobre uma carcaça carbonizada de cobra, no estado do Pará, Brasil. Cícero Pedrosa Neto/Global Witness
Por Global Witness

O banco britânico Barclays lucrou US$ 1,7 bilhão com o financiamento da gigante brasileira de carnes JBS nos últimos cinco anos, já que as operações da empresa contribuíram para a invasão e destruição de um território indígena no Brasil, segundo uma investigação liderada pela organização climática Global Witness. 

O Barclays emergiu como o maior credor das operações globais da JBS, com a maior receita gerada por empréstimos e taxas de subscrição entre mais de 30 outros financiadores identificados pelo grupo de pesquisa independente Profundo.   

O papel da JBS no desmatamento ilegal  

A criação comercial de gado por povos não indígenas é ilegal em territórios indígenas designados pela lei federal brasileira. 

No entanto, entre 2018 e 2023, quase 8.000 vacas criadas no território indígena Apyterewa entraram na cadeia de suprimentos da JBS, de acordo com uma análise do Centro de Análise de Crimes Climáticos (CCCA) . 

A JBS não respondeu ao nosso pedido de comentário. 

O território Apyterewa, lar do povo Parakanã, no estado do Pará, no norte do Brasil, sofreu mais desmatamento do que qualquer outro território indígena nos últimos anos na Amazônia brasileira. 

Apesar das proteções legais, os criadores de gado invadem persistentemente essas terras, explorando o apetite global por carne bovina e desrespeitando os direitos das comunidades indígenas.  

Em outubro de 2023, o governo brasileiro expulsou esses invasores de terras, mas um sobrevoo recente da Global Witness revelou incêndios ativos, indicando que tanto o desmatamento quanto as invasões ainda estão em andamento. 

À medida que a floresta amazônica enfrenta a pior temporada de incêndios em duas décadas em meio a uma seca severa, a destruição de Apyterewa está se intensificando. Isso ocorre porque os incêndios na Amazônia são amplamente desencadeados pela atividade humana, especialmente por aqueles que desmatam florestas para grilagem de terras. 

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) confirmaram mais de 300 alertas de incêndio desde o início deste ano, ressaltando a ameaça persistente. 

O custo ambiental e humano

mama parakana

Mama Parakanã, cacique da aldeia indígena Apyterewa e líder no combate às invasões em Apyterewa, no estado do Pará, Brasil. Cícero Pedrosa Neto/Global Witness

Eles destruíram tudo. Tudo o que nos resta é grama. Nossos animais morreram queimados- Mama Parakanã, cacique da Aldeia Indígena Apyterewa

Em Apyterewa, a destruição ambiental anda de mãos dadas com a violência. Um chefe Parakanã descreveu como sua aldeia foi queimada em um ataque de grileiros, enquanto outro membro da comunidade relatou ter sido baleado por um invasor. 

“A carne da terra indígena Apyterewa é carne do nosso território”, disse Mama Parakanã, cacique da Aldeia Indígena Apyterewa. “Eles destruíram tudo. Tudo o que nos resta é capim. Nossos animais morreram queimados.”

Falha de supervisão das instituições financeiras

Nossa investigação expõe falhas significativas tanto na indústria da carne bovina quanto no setor financeiro internacional. O primeiro luta com o monitoramento das cadeias de suprimentos, enquanto o último frequentemente negligencia medidas para mitigar os impactos ambientais e sociais de seus investimentos.

“Essas descobertas revelam como um acordo aparentemente rotineiro feito em Nova York ou Londres pode estar ligado à invasão evitável, mas devastadora, de terras indígenas”, disse Alexandria Reid, líder de estratégia de campanha da Global Witness. 

“Não há mundo em que consigamos deter a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas sem que os governos tomem medidas para deter o desmatamento, o que é melhor alcançado ao capacitar os povos indígenas para fazer valer sua soberania e direitos à terra”, acrescentou.

Não existe um mundo em que consigamos travar a perda de biodiversidade e as alterações climáticas sem que os governos tomem medidas para travar a desflorestação- Alexandria Reid, Líder de Estratégia de Campanha da Global Witness

O Barclays negou ter fornecido financiamento às operações da JBS no Brasil desde 2021, acrescentando que suas políticas foram “atualizadas em abril de 2023 para incluir restrições à produção de carne bovina e ao processamento primário em países de alto risco de desmatamento na América do Sul”.

O banco, no entanto, não comentou sobre o financiamento das operações globais da empresa, por “razões de confidencialidade”. 

Para mais detalhes sobre as respostas da empresa a essas alegações, consulte o PDF da investigação .  

Apesar da adoção de regras de financiamento mais rígidas para empresas de desmatamento no ano passado, os laços do Barclays com a JBS persistem, já que uma brecha na política do banco permite que ele continue financiando as subsidiárias da empresa, inclusive nos EUA.

Incêndio na Amazônia - Apyterewa.jpgFumaça de queimadas na Terra Indígena Apyterewa, Pará, Brasil, julho de 2024. Cícero Pedrosa Neto / Global Witness

A procura global por carne bovina e a crise dos direitos à terra 

A demanda global por carne bovina tem impulsionado o desmatamento tropical generalizado , particularmente no Brasil. A maior parte do desmatamento florestal para pastagem de gado é ilegal, pois os fazendeiros invadem terras protegidas que incluem parques nacionais e territórios indígenas. 

Um estudo de 2023 na revista Nature relatou que o desmatamento em territórios indígenas da Amazônia aumentou em 129% desde 2013.

A terra indígena Apyterewa está no centro de uma crise. 

Sob a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, tanto as taxas de desmatamento quanto as ameaças à segurança da comunidade e aos meios de subsistência tradicionais aumentaram.

GW 1

Segundo estimativas do governo brasileiro , cerca de 2.500 indígenas estão distribuídos em 51 aldeias no território – principalmente das comunidades Parakanã, Mebengôkre Kayapó e Xikrim.

Enquanto isso, grupos indígenas afirmam que, quando a invasão atingiu o pico, havia aproximadamente 10.000 pessoas não indígenas ocupando a terra.

O povo Parakanã diz que os forasteiros estão poluindo suas fontes de água, esgotando os recursos florestais e ameaçando seu modo de vida tradicional.

Chefe e líder indígena lutando contra invasões de terras no Brasil.jpgTatuaro Parakanã, cacique da aldeia Caeté e liderança que combate as invasões em Apyterewa, diz que tem enfrentado ameaças de morte por parte de grileiros. Cícero Pedrosa Neto / Global Witness

Onde caçávamos, onde coletávamos nozes… os grileiros derrubaram tudo- Tatuaro Parakanã, cacique da aldeia Caeté

Tatuaro Parakanã, cacique da aldeia Caeté, relatou a devastação causada pelas desmatamentos: 

“Onde caçávamos, onde coletávamos nozes… os grileiros derrubaram tudo”, disse ele, citando ameaças de morte persistentes .

Ano passado, ele teve que se mudar com várias famílias por segurança, apenas para encontrar sua casa reduzida a cinzas mais tarde. “Tudo o que queremos é voltar para casa”, ele acrescentou.

Embora a presença de invasores criadores de gado tenha sido aparente há muito tempo, os compradores finais – e às vezes indiretos – de suas vacas permaneceram ocultos nessa complexa cadeia de suprimentos, até agora.

O ponto cego da cadeia de suprimentos indireta

Esta nova análise do CCCA revela que entre 2018 e 2023, 7.795 vacas abatidas pelo frigorífico brasileiro JBS vieram de cadeias de suprimentos que incluem fazendas localizadas em Apyterewa. 

Destes, o CCCA calcula que 561 foram adquiridos pela JBS diretamente de fazendas ilegais dentro do território Apyterewa – enquanto a maioria, 7.234 vacas, faziam parte da cadeia de fornecimento indireta da JBS. 

A CCCA identificou essas transações da cadeia de suprimentos usando um algoritmo que incorpora uma análise multinível de informações extraídas de registros de transferência de gado que documentam o comércio entre empresas relevantes de propriedade ou que realizam transações com a JBS.

Esse gado provavelmente foi “lavado” para a cadeia de suprimentos do frigorífico, com os fazendeiros transferindo o gado de fazendas dentro do território indígena para fazendas aparentemente “limpas”, sem nenhuma perda florestal recente ou conexão com a grilagem de terras original.

GW 2

Cadeias de suprimentos indiretas representam um ponto cego significativo no combate ao desmatamento. Um estudo recente da organização sem fins lucrativos Mighty Earth mostrou que, entre 2017 e 2022, fornecedores indiretos supostamente foram responsáveis ​​pela maior parte do desmatamento ligado a grandes frigoríficos. 

A nova análise do CCCA revelou que dois outros pesos pesados ​​da indústria da carne – Marfrig e Minerva – também obtiveram gado das terras de Apyterewa.

De acordo com a investigação, a Marfrig recebeu 94 vacas diretamente de fazendas ilegais e estava ligada a outras 2.691 vacas por meio de sua cadeia de fornecimento indireta, enquanto a Minerva estava associada a 277 vacas criadas em Apyterewa.

Ambos negaram ter comprado vacas de propriedades localizadas dentro de terras indígenas.

aldeia na Terra Indígena Apyterewa.jpgAldeia Parakanã na Terra Indígena Apyterewa, Pará, Brasil. Cícero Pedrosa Neto/Global Witness

A Marfrig acrescentou que monitora todos os seus fornecedores diretos e 87% dos indiretos na Amazônia. 

A Minerva disse que não tinha relações diretas com nenhuma das fazendas que se sobrepõem ao território indígena Apterewa, que fica a 88,6 km do raio de comercialização de 300 km do matadouro de Araguaina da Minerva. 

No entanto, Minerva também observou que os dados fornecidos pela Global Witness não foram suficientes para conduzir uma “avaliação mais detalhada das vendas indiretas fornecidas”. 

Para mais detalhes sobre as respostas da empresa a essas alegações, consulte o  PDF da investigação 

Durante o período de cinco anos da análise, a CCCA descobriu que, além dos Três Grandes frigoríficos, outros 37 frigoríficos tinham conexões com a terra de Apyterewa. 

No total, 14.217 vacas criadas em fazendas ilegais no território de Apyterewa parecem ter chegado a esses matadouros. 

Todos os grandes frigoríficos mencionados – JBS, Marfrig e Minerva – assinaram um acordo juridicamente vinculativo com o Ministério Público Federal em 2009 para parar de comprar gado de fazendas envolvidas em desmatamento ilegal ou localizadas em áreas protegidas ou territórios indígenas.

Essas empresas se beneficiam da compra de carne de origem ilegal, o que a torna mais barata- Leonardo Godoy, Diretor Interino do Programa Brasil do CCCA

Em 2022, a JBS se comprometeu a monitorar a origem de todo o gado de seus fornecedores da Amazônia e do Cerrado até 2025. Para o resto do mundo, a empresa disse que suas cadeias de suprimentos não serão totalmente monitoradas até 2030.

Os resultados apontam para um problema sistêmico de dois níveis que prejudica aqueles que estão na linha de frente do combate ao desmatamento na Amazônia, ressalta Leonardo Godoy, Diretor Interino do Programa Brasil do CCCA:   

“Essas empresas [JBS, Marfrig e Minerva] se beneficiam comprando carne de origem ilegal, o que a torna mais barata.” 

Além disso, há gigantes financeiros que simplesmente não conseguem “impor medidas regulatórias eficazes para garantir que não invistam em empresas que ameaçam o ambiente e os direitos humanos, [e que] lucram extensivamente com os empréstimos feitos a essas empresas”.

Lucros sobre o planeta

O comércio global de carne bovina é um negócio lucrativo. De acordo com a coalizão de ONGs Forests & Finance, os bancos financiaram empresas de agronegócio e florestais que impulsionaram o desmatamento tropical com mais de US$ 260 bilhões entre 2018 e 2023. 

A JBS, a maior compradora de vacas Apyterewa, tinha vários financiadores ocidentais. 

A Global Witness e o grupo de pesquisa Profundo analisaram os laços de investimento e crédito entre a JBS e seus financiadores durante as invasões de terras de Apyterewa. 

A análise Profundo dos dados obtidos da Refinitiv Eikon e da Bloomberg revelou que instituições financeiras, incluindo Barclays, Royal Bank of Canada, Rabobank e Santander, geraram coletivamente bilhões de dólares em receitas de empréstimos e serviços de subscrição para as operações globais da JBS naqueles anos.

GW 3

Embora seu financiamento direto das operações brasileiras da JBS pareça ter sido mais limitado no período analisado, o Barclays tem sido há muito tempo o maior financiador internacional da empresa em todas as operações da JBS, continuando a dar suporte mesmo quando outros bancos se distanciaram do controverso frigorífico. 

Nossas descobertas se somam a mais de uma década de alegações contra a JBS, cujas ligações com a destruição ambiental e abusos de direitos humanos por meio de suas cadeias de suprimentos foram bem documentadas. 

A empresa removeu recentemente sua referência à “tolerância zero à invasão de áreas protegidas, como terras indígenas ou áreas de conservação ambiental” em seu último pedido de listagem de suas ações na Bolsa de Valores de Nova York.

GW 4

A análise do Profundo também examinou investimentos diretos e participações acionárias, indicando que instituições financeiras sediadas nos EUA embolsaram um total de US$ 660 milhões em investimentos da JBS globalmente. 

As gigantes de gestão de ativos Vanguard, BlackRock, Fidelity Investments e Capital Group detinham a maior parte, com Vanguard e BlackRock lucrando US$ 46 milhões cada com as operações brasileiras da JBS.

Nenhuma dessas instituições financeiras sediadas nos EUA comentou as alegações.  

GW 5

Separadamente, a Global Witness informou que a BlackRock e a Vanguard estão entre as seis empresas que detêm mais de US$ 11 milhões em títulos ativos emitidos pela JBS e suas subsidiárias por meio de fundos rotulados como “ambientais, sociais e de governança” (ESG).

Embora esses fundos excluam explicitamente empresas de combustíveis fósseis de seu portfólio, eles não excluem totalmente empresas ligadas ao desmatamento em seu processo de triagem.

A Global Witness contatou todas as instituições financeiras mencionadas neste relatório. Extratos relevantes das respostas recebidas estão disponíveis no  PDF da investigação .

Mama Parakanã disse à Global Witness: “Quero mandar uma mensagem aos bancos porque sofremos grandes perdas. Foi muito investimento. Às vezes, eles nem sabiam que era terra indígena. Então, estou dizendo a eles como eles são os culpados. A carne que saiu daqui, toda a nossa terra aqui, e a carne, tudo ilegal.”

Invasores ainda presentes

vice-presidente da Associação Indígena Tato'a.jpg

Koxawewoxa Parakanã, vice-presidente da Associação Indígena Tato’a e líder parakanã que luta contra as invasões em Apyterewa, posa para um retrato. Cícero Pedrosa Neto / Global Witness

Os brancos estão vendendo carne para o mundo inteiro, mas é a nossa terra que eles estão destruindo- Koxawewoxa Parakanã, vice-presidente da Associação Indígena Tato’a e liderança Parakanã

Apesar da alegação do governo brasileiro de concluir as remoções em outubro do ano passado, invasores não indígenas permanecem no território Apyterewa, disseram membros da comunidade à Global Witness.

“Os brancos estão vendendo carne para o mundo inteiro, mas é a nossa terra que eles estão destruindo. Queremos que eles devolvam o dinheiro que ganharam”, disse Koxawewoxa Parakanã, vice-presidente da Associação Indígena Tato’a e líder Parakanã.

Riscos contínuos na cadeia de abastecimento

GW 6

A presença contínua de invasores levanta questões sobre como a carne bovina de Apyterewa ainda pode entrar nas cadeias de suprimentos dos principais frigoríficos hoje, apesar de suas alegações de práticas sustentáveis.

Esse risco destaca a necessidade de financiadores, como Barclays, Blackrock e outros, garantirem que seus investimentos não contribuam para o desmatamento ou invasões de terras, aponta Reid, da Global Witness.  

Nesse contexto, ela acrescentou, os governos também precisam se mobilizar e garantir que os bancos sejam obrigados a realizar verificações antes de financiar empresas que operam em setores que sabemos estarem regularmente ligados a abusos de direitos humanos, grilagem de terras e desmatamento.

“O setor financeiro não tem desculpa para fechar os olhos ao seu papel no financiamento de empresas que impulsionam o desmatamento.”


Fonte: Global Witness

Degradação florestal acelera os megaincêndios na Amazônia e aproxima o “ponto de não retorno”

unnamed (1)

O

O jornal Folha de São Paulo traz hoje uma reportagem assinada pela jornalista Jéssica Maes que relaciona a ocorrência de incêndios na Amazônia ao processo de degradação florestal. Segundo a matéria, de janeiro a agosto de 2024, mais de 1,77 milhão de hectares de floresta queimaram na Amazônia brasileira, de acordo com o MapBiomas. Este número representa cerca de 33% do total atingido nas florestas da Amazônia neste período — sendo que 30% desses incêndios estão ocorrendo em vegetação nativa não florestal.

Pois bem, o aumento em número e área desses incêndios florestais já vem sendo notado em outras partes do mundo, mas é preciso lembrar que no caso da Amazônia, existem dois elementos fundamentais para essa ocorrência. Como mostrado em um artigo publicado pela revista Science em 2020, o avanço da extração seletiva de madeira para regiões mais interiores da Amazônia, bem como o aumento do chamado efeito de borda torna a ocorrência de incêndios florestais cada vez mais provável (ver figura abaixo).

degradação

Um dos problemas com a extração seletiva de madeira é que dependendo da intensidade e recorrência desse processo há uma perda de funções importantes dentro das florestas, começando pela capacidade de retenção de água. Como vivemos um período mais frequentes e intensos do fenômeno El Niño, o ressecamento das áreas afetadas pela retirada (na maioria das vezes de forma ilegal e clandestina) tende aumentar o território mais propenso a entrar em combustão.

Além disso, o aumento da degradação florestal tende a causar um aumento de temperatura dentro das áreas florestais já que a retirada de uma única árvore com valor comercial pode implicar na derrubada de várias outras, o contribui para o aumento da penetração da luz no interior das florestas. Com isso, aumenta a perda de água e um consequente aumento da flamibilidade.

Um dossel de floresta fechada no Brasil após a extração seletiva (imagem inferior). Imagem de Eraldo Matricardi.

Um dos grandes mitos que cercavam até a publicação do já citado artigo na Science é de que tudo o que não tinha sido desmatado na Amazônia estava, assim por dizer, intacto. O que ficou demonstrado é que a degradação florestal por extração seletiva de madeira e penetração lateral de fogo vindo das áreas já desmatadas tende a degradar áreas que supostamente estariam intocadas.

Dessa forma, o controle do desmatamento com o sempre inalcançável “Desmatamento Zero” será insuficiente se não forem tomadas medidas efetivas para coibir não apenas a penetração de fogo de áreas agrícolas para o interior das florestas, mas também para impedir a continuação do saque de recursos madeireiros e não-madeireiros por grupos altamente organizados e detentores de capital que operam hoje basicamente livres em toda a Amazônia brasileira.

Do contrário, lamento informar, o chamado “ponto de não retorno” ficará mais próximo do que as previsões atuais da comunidade científica. Em outras palavras, 2050 é logo ali.

Seca e queimadas no Brasil: entrevista no SBT News

entrevista SBT

Ontem tive a oportunidade de dar uma entrevista ao jornalista Léo Cavalcanti do SBT News sobre a situação da seca histórica e das queimadas que assolam o Brasil neste momento. Em que pesem eventuais erros que ocorrem neste tipo de interação ao vivo, penso que a mensagem foi passada com a devida correção.

O fato é que a situação está dramática e tende a piorar nos próximos anos e décadas se medidas concretas não forem tomadas para conter a destruição da Amazônia e do Cerrado. Agir com orçamento adequado será fundamental para impedirmos o avanço da catástrofe climática que está se colocando sobre o planeta, e em especial o Brasil.

Mudanças climáticas podem alterar emissão e captação de metano na Amazônia

Pesquisadores da USP simularam em laboratório condições extremas de temperatura e precipitação e avaliaram o efeito em amostras de solo; resultados indicam a possibilidade de modificação no equilíbrio do gás de efeito estufa gerado pela decomposição microbiana de matéria orgânica

emissões am

Variações no nível da água nas estações de cheia e seca no Rio Amazonas nas proximidades de Santarém, no Pará (fotos: Júlia B. Gontijo)  

Julia Moióli | Agência FAPESP 

Condições extremas de temperatura e umidade (chuva excessiva ou seca) previstas para a região amazônica no contexto das mudanças climáticas podem aumentar o volume de microrganismos produtores de metano em áreas inundadas e diminuir em até 70% o potencial de consumo desse gás de efeito estufa em florestas de terra firme, causando impactos globais.

A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicado na revista Environmental Microbiome. Os resultados, segundo os autores, reforçam a necessidade de políticas de conservação e manejo.

Durante pelo menos seis meses do ano, mais de 800 mil quilômetros quadrados de planícies da floresta amazônica – equivalentes a 20% de sua extensão total – são inundados pelas precipitações. A consequente elevação do volume dos rios cria as condições anaeróbicas ideais (ausência de oxigênio) para o aumento da produção de metano decorrente da decomposição microbiana de matéria orgânica. De acordo com estudos recentes, as áreas inundáveis da Amazônia podem ser responsáveis por até 29% das emissões globais desse gás de efeito estufa. Em contraste, as florestas de terra firme da região são reconhecidas por sua capacidade de captar metano da atmosfera, desempenhando papel importante na regulação das emissões.

“Embora já esteja comprovado que fatores como temperatura atmosférica e condições sazonais de inundação são capazes de influenciar a composição das comunidades microbianas e, consequentemente, o fluxo de metano nesses ambientes, o que poderíamos esperar em cenários de mudanças climáticas, considerando as previsões de alteração nos padrões de chuva e de temperatura, com extremos mais intensos?”, aponta Júlia Brandão Gontijo, pós-doutoranda na Universidade da Califórnia em Davis, Estados Unidos, e primeira autora do artigo.

Apoiada pela FAPESP por meio de três projetos (14/50320-4, 18/14974-0 e 19/25924-7), a investigação foi conduzida ainda durante o doutorado de Gontijo no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, sob orientação da professora Tsai Siu Mui. “Já sabemos que, globalmente, a concentração atmosférica desse gás aumentou aproximadamente 18% nas últimas quatro décadas”, comenta a orientadora.

Foi essa combinação que Gontijo testou, em parceria com pesquisadores da Academia Real Holandesa de Artes e Ciências (Países Baixos), das universidades Stanford, na Califórnia, de Massachussets e do Oregon (Estados Unidos) e Federal do Oeste do Pará. Em um experimento de 30 dias, submeteu amostras de solo de duas planícies de inundação e de uma floresta de terra alta dos municípios de Santarém e Belterrada, localizados na região centro-oeste do Pará, a temperaturas (27°C e 30°C) e condições de umidade extremas.


Medições das condições de campo e amostragem de solos para montagem do experimento (foto: Fabiana S. Paula)

Por meio de sequenciamento genético e PCR quantitativo em tempo real, os produtores e os consumidores de metano foram identificados, e suas concentrações, medidas.

“Nas duas áreas inundáveis, embora não tenhamos observado mudanças significativas nos padrões de emissão de metano, houve aumento no número de microrganismos produtores do gás, o que pode indicar um problema futuro”, conta Gontijo.

Além disso, nos tratamentos mantidos a uma temperatura mais elevada, os solos de floresta tiveram diminuição brusca de 70% no potencial de consumo de metano em condição de seca e aumento significativo na produção do gás em épocas de chuva – justamente por não estarem acostumados a lidar com a umidade extrema –, o que, de acordo com a pesquisadora, é alarmante.

“Ou seja, enquanto as várzeas mostraram resistência às mudanças climáticas, o microbioma de áreas de terra firme é sensível a elas, o que, no futuro, pode causar uma alteração do balanço das emissões do gás de efeito estufa na região amazônica. Tomando por base a proporção da floresta amazônica em níveis globais, isso pode ser muito preocupante.”


Experimento em microcosmos em que foram simuladas as condições de mudanças climáticas testadas no estudo (foto: Wanderlei Bieluczyk)

Ações de conservação

Por mais que as mudanças climáticas tenham um potencial impacto na microbiota e no ciclo do metano na Amazônia, o estudo também identificou uma alta abundância de grupos metanotróficos (com capacidade de utilizar o metano como fonte de energia), com potencial para mitigar as emissões de metano mesmo frente às mudanças climáticas.

É justamente para se aprofundar nessas dinâmicas que os pesquisadores apontam como próximos passos a realização do experimento em campo e de testes de atividade dos microrganismos.

“De qualquer forma, as informações de que dispomos já são extremamente importantes e podem ser utilizadas na elaboração de políticas públicas.”

O artigo Methane-cycling microbial communities from Amazon floodplains and upland forests respond differently to simulated climate change scenarios pode ser lido em: https://environmentalmicrobiome.biomedcentral.com/articles/10.1186/s40793-024-00596-z.


Fonte:  Agência Fapesp

Cultivo de coca e extração de ouro ameaçam a Amazônia

oro-cocaina-996x567Especialistas alertaram sobre os danos do tráfico de drogas e da mineração ilegal aos ecossistemas da Amazônia e às comunidades que os protegem. Crédito da imagem: Vinícius Mendonça/Ibama, Wikimedia Commons , sob licença Creative Commons CC BY-SA 2.0

“Grande parte dos lucros do tráfico de drogas são lavados através da mineração de ouro, que entra nos circuitos legais através do desmatamento, e da compra massiva de terras e gado”, explicou Rodrigo Botero, em entrevista coletiva no dia 4 de setembro, diretor da Fundação para o Desenvolvimento. Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, que mantém um Observatório de Conflitos Socioambientais na Amazônia.

Estas dinâmicas ilícitas levam a vários ataques contra comunidades locais: invasões de garimpeiros (mineiros) armados no Brasil, grupos responsáveis ​​por massacres em cidades rurais na Colômbia e recrutamento de crianças para trabalhar nas plantações de coca peruanas.

A baixa presença do Estado, os altos níveis de corrupção e “décadas de estratégias de segurança vacilantes”, de acordo com o relatório Amazon Underworld , contribuem para grupos como o Exército de Libertação Nacional e os dissidentes das FARC na Colômbia, e o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho no Brasil. , assumir o controle de mais e mais territórios.

“Nos últimos sete anos foi registrada a maior curva de desmatamento da história da Amazônia” como resultado de atividades ilegais, observou Botero.

As consequências são devastadoras, porque “a conectividade ecológica da Amazônia está praticamente perdida”, com “um efeito muito importante de perda de biodiversidade” e na capacidade de regulação climática das florestas .

Melina Risso, diretora de pesquisas do Instituto Igarapé do Brasil, lembrou que “grupos armados atuam em quase 70% dos municípios fronteiriços” da região, o que indica que seus crimes só podem ser cometidos por meio de uma presença transnacional.

Ouro e coca

A mineração ilegal de ouro representa uma movimentação de até 12 bilhões de dólares anuais na região, com 4.500 “pontos críticos” de atividade, disse José Guarnizo, diretor geral do portaVorágine , fundação sem fins lucrativos que pesquisa a violação de direitos humanos e corrupção na Colômbia e no mundo.

Um deles é Putumayo, na fronteira entre o Peru e o Equador. Lá, um grama de ouro está disponível por 35 dólares e depois as organizações armadas negociam-no por 71 dólares, acrescentou.

Outro ponto crítico é o Bajo Cauca colombiano, no nordeste do país, onde organizações armadas podem obter até US$ 2,4 milhões anuais para um negócio que inclui a arrecadação de comissões para permitir a operação de embarcações que extraem ouro dos rios. a propriedade de empresas de comércio de metais.

“Grande parte dos lucros do tráfico de drogas são lavados através da mineração de ouro, que entra nos circuitos legais através do desmatamento e da compra massiva de terras e gado.”

Rodrigo Botero, diretor da Fundação para a Conservação e o Desenvolvimento Sustentável da Colômbia

Além de promover deslocamentos forçados, a atividade danifica cursos de água , onde os resíduos de mercúrio são despejados e podem chegar às residências, com consequências para a saúde que vão desde tremores e insônia até disfunções motoras e cognitivas.

O processamento da coca também exige grandes quantidades de produtos tóxicos como acetona, ácido sulfúrico e gasolina, que são descartados na selva, contaminando seus recursos.

Os grandes lucros do tráfico de drogas “catalisam a compra da cumplicidade de autoridades, de guardas florestais a prefeitos”, que “devem aceitar a apropriação ilegal de terras se quiserem permanecer vivos”, reconheceu Kendra McSweeney, geógrafa da Universidade Estadual de Ohio que estuda o impactos socioecológicos do tráfico de drogas na América Central.

Depois de sugerir durante a conferência que as respostas militarizadas podem exacerbar as ameaças, McSweeney propôs dois cenários em resposta à consulta do SciDev.Net .

“O caso mais optimista é que o governo persegue os traficantes, mas esse grupo desloca-se para outra área, onde redirecciona as suas actividades”, começou por dizer. “Por outro lado, se houver dois grupos a operar na mesma área, a polícia pode prender o mais fraco, mas o mais poderoso captura uma parcela tão grande do mercado que utiliza essa rentabilidade para garantir que não será perseguido. ”

No entanto, deixar de enfrentar o crime organizado implicaria aceitar a incapacidade do Estado para enfrentar este drama, explicou Carolina Sampó, coordenadora do Centro de Estudos sobre Crime Organizado Transnacional da Argentina, que não participou da reunião.

Para além do combate directo, opções como o congelamento de activos ou regras sobre o confisco de activos – através das quais os estados podem recuperar activos obtidos com dinheiro ilícito – “são formas de transmitir uma mensagem positiva à comunidade, que em muitos casos sente que existem elevados níveis de de impunidade”, disse o pesquisador.

“Devemos colocar uma lupa nos fluxos internacionais que alimentam estes mercados, tanto nos seus aspectos ilegais como legais”, concordou Botero.

O anúncio, em junho, de um centro de troca de informações com sede na cidade amazônica de Manaus parece ser um passo nessa direção.

“Compartilhar inteligência e trabalhar em conjunto entre os países vizinhos é a única forma de derrotar essas organizações, que também atuam de forma cooperativa e transnacional”, concluiu Sampó.


Fonte: Edição latino-americana do SciDev.Net 

Bancos públicos e privados financiam desmatamento na Amazônia: fazendas com queimadas ilegais receberam R$ 2,6 bilhões

quimadas ilegais

Por Fábio Bispo para “InfoAmazonia”

Pelo menos 1.389 propriedades que obtiveram financiamento registraram fogo dentro de seus limites entre julho e agosto deste ano. Algumas delas se sobrepõem a unidades de conservação e já estavam embargadas por infrações ambientais. Normas federais permitem que o crédito rural seja destinado a áreas onde ocorrem queimadas.

Parte da fumaça que se espalhou pelo Brasil em agosto deste ano teve origem em queimadas dentro de áreas na Amazônia financiadas por crédito rural, modalidade de financiamento bancário dedicada à produção agropecuária. Pelo menos 1.389 propriedades que receberam os recursos registraram fogo dentro dos seus limites de 1º de julho a 26 de agosto, segundo levantamento da InfoAmazonia com base nos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e nos registros do Banco Central. A análise considerou áreas com crédito ativo em 2024.

Essas fazendas receberam, ao todo, R$ 2,6 bilhões em crédito rural, incluindo imóveis que sofreram queimadas e possuem áreas sobrepostas a seis unidades de conservação, entre elas o Parque Estadual de Guajará-Mirim, a Floresta Nacional do Jamanxim e a Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu. Dessas, 86 propriedades com registros de fogo nos últimos dois meses já tinham áreas embargadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por infrações ambientais.

Em meio à intensa fumaça produzida pelo fogo, a InfoAmazonia flagrou alguns desses casos durante sobrevoos realizados nos dias 20 e 21 de agosto, no sul do Amazonas e norte de Rondônia, em parceria com a equipe de monitoramento da organização Greenpeace.

Em um trecho de 100 km entre os municípios de Cujubim e Porto Velho, em Rondônia, mais de uma dezena de fazendas embargadas queimavam. Todas têm crédito rural ativo e estão sobre uma área de floresta pública não destinada.

As florestas públicas não destinadas são áreas da União e recebem esse nome justamente por não terem uma destinação oficial definida pelo Estado. Elas ainda não foram transformadas em unidades de conservação, destinadas para reforma agrária ou demarcadas como terras indígenas ou quilombolas, nem foram transferidas para proprietários privados, apesar de estarem sob a responsabilidade e posse do poder público.

. Ali, em 2018, chegou a ser criada Estação Ecológica Soldado da Borracha, mas a proteção foi extinta no mesmo ano por decreto do legislativo estadual

Região que chegou a ser destinada para unidade de conservação, entre Porto Velho e Cujubim, em Rondônia, concentra fazendas embargadas com crédito rural ativo. Fonte: CAR/Ibama/BC/Inpe. Análise e visualização: InfoAmazonia.

“Diversas propriedades nessas áreas acessaram o crédito rural. Algumas estão embargadas por desmatamento, mas todas elas fizeram uso do fogo de forma ilegal”, afirma Thaís Bannwart, porta-voz de Florestas do Greenpeace Brasil, sobre as fazendas na extinta ESEC Soldado da Borracha. 

Diversas propriedades nessas áreas acessaram o crédito rural. Algumas estão embargadas por desmatamento, mas todas elas fizeram uso do fogo de forma ilegal.

Thaís Bannwart, porta-voz de Florestas do Greenpeace Brasil

Norma do Banco Central ignora queimadas ilegais

As normas do Banco Central do Brasil e do governo federal para o financiamento do agronegócio na Amazônia permitem que o crédito rural seja destinado a áreas onde ocorrem queimadas ilegais.

Essas linhas de financiamento são subsidiadas por recursos dos correntistas, dos próprios bancos e do orçamento público. As condições para a concessão do crédito são definidas pelo Manual de Crédito Rural (MCR 2-9), do Banco Central do Brasil, que estabelece quais são as normas socioambientais e climáticas que as instituições financeiras devem seguir para concessão do crédito. 

O MCR proíbe o financiamento de áreas em unidades de conservação, em florestas públicas não destinadas e para propriedades embargadas, mas se limita à ocorrência de embargo por desmatamento. Ou seja, há uma brecha: outros crimes ambientais, como o uso ilegal de fogo, não entram na lista de impeditivos para que um fazendeiro tenha acesso ao dinheiro.

“Não importa se a propriedade está embargada por desmatamento, por uso do fogo ou outro tipo de irregularidade, ou se ela foi multada. Ela não deveria acessar os recursos do crédito rural. Nós, se não pagamos nossas contas, a nossa fatura do cartão, não conseguimos acessar financiamento. Mas quem comete infrações ambientais, com multas milionárias, continua acessando os recursos do crédito rural”, afirma a porta-voz do Greenpeace.

Não importa se a propriedade está embargada por desmatamento, por uso do fogo ou outro tipo de irregularidade, ou se ela foi multada. Ela não deveria acessar os recursos do crédito rural. Nós, se não pagamos nossas contas, a nossa fatura do cartão, não conseguimos acessar financiamento. Mas quem comete infrações ambientais, com multas milionárias, continua acessando os recursos do crédito rural.

Thaís Bannwart, porta-voz de Florestas do Greenpeace Brasil

Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), há limitações para o embargo de áreas queimadas, pois a legislação exige nexo causal para identificação da autoria — podem haver casos de fogo acidental ou provocado por terceiros. Isso é diferente no caso de desmatamento e degradação, que geram uma responsabilização direta para o proprietário ou ocupante de uma área.

“A legislação atual exige que seja estabelecido nexo causal no caso dos incêndios, ou seja, que o proprietário de fato pôs fogo e não foi um fogo acidental ou provocado por terceiros. Isso dificulta muito uma ação remota, por imagens de satélite, e que portanto acaba tendo uma atuação mais limitada”, explica o MMA.

Em Lábrea, no sul do Amazonas, a reportagem flagrou o fogo se alastrando pela floresta ao lado de pastagens recém-abertas, já com gado, em áreas próximas a fazendas financiadas com crédito rural. Nessa região, também foram observadas queimadas em propriedades localizadas na divisa do Parque Nacional Mapinguari.

Focos de incêndio próximo de reserva ecológica do Mapinguari, no Amazonas. Foto: Fábio Bispo/InfoAmazonia

“É importante frisar que todas essas queimadas são provocadas por ação humana, seja no manejo inadequado das pastagens ou colocando fogo diretamente na floresta, que, em uma situação de seca dessas que enfrentamos, rapidamente se espalha. Cerca de 90% do desmatamento e queimadas na Amazônia é para abrir áreas de pastagens”, destaca Bannwart.

Em agosto, foram registrados 38,2 mil focos de fogo na Amazônia, segundo o satélite de referência (Aqua) monitorado pelo Inpe, o maior número para o mês em 14 anos. O estado do Amazonas contabilizou 10.328 focos, a pior quantidade da série histórica, que reúne os dados de queimadas desde 1998. O recorde anterior era de 2022, quando o estado atingiu, pela primeira vez, 8.659 registros.

Já em Rondônia, agosto encerrou com 4.522 focos de fogo, o maior registro em cinco anos. Em 28 de agosto, o governo estadual proibiu o uso de fogo por 90 dias. No Pará, foram registrados 13.803 focos, também o maior número em 14 anos.

Um outro levantamento, divulgado pelo Greenpeace Brasil, mostrou que 2.261 áreas embargadas na Amazônia e Cerrado, entre 2018 e 2023, conseguiram obter crédito rural no país. Em 748 casos (33%), os embargos são por desmatamento e, mesmo com a proibição legal para este tipo de crime, os financiamentos foram liberados.

A organização identificou 1.728 propriedades na Amazônia que foram penalizadas pelo Ibama, mas ainda assim receberam o benefício. Em 122 desses casos (7%), elas foram embargadas pelo uso ilegal do fogo, mas receberam, ao todo, R$ 54,6 milhões de bancos públicos e privados.

Essas mesmas 122 propriedades, que já haviam sido embargadas, geraram uma dívida de R$ 57 milhões em multas ambientais ao Estado. Segundo o Greenpeace, os proprietários dessas áreas embargadas por fogo com crédito rural ativo também são responsáveis por outras infrações que somam R$ 145,5 milhões.

O Banco do Brasil é a instituição que mais investiu dinheiro na produção rural em áreas com embargos por uso ilegal do fogo, segundo o Greenpeace, com 266 operações de crédito entre 353 financiamentos destinados para áreas embargadas por fogo na Amazônia e Cerrado. Em segundo lugar, está o Banco da Amazônia, que destinou recursos para 61 financiamentos. As demais operações foram realizadas por cooperativas e bancos privados.

Em 51 das operações mapeadas, os financiamentos ocorreram antes dos embargos, mas permanecem ativos. No entanto, em 302 casos (85,56%), os financiamentos foram liberados quando as áreas já estavam embargadas.

BB financiou gado em fazenda incendiária no Parque de Guajará-Mirim

Em 20 de abril de 2021, os deputados de Rondônia aprovaram a exclusão de 226 mil hectares do Parque Estadual de Guajará-Mirim e da Reserva Extrativista Jaci-Paraná, com o objetivo de viabilizar a pecuária nessas áreas protegidas. A Lei Complementar 1.089/21 reduziu os limites do parque e da reserva. Na época, o discurso era de que já havia 150 mil cabeças de gado na região. Em 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou que a lei é inconstitucional e a proteção ambiental foi devolvida, mas já era tarde: o desmatamento nessas áreas disparou.

Em 2021 e 2022, propriedades sobrepostas ao parque e à reserva obtiveram crédito rural. Uma delas é uma fazenda no interior do Parque de Guajará-Mirim, que recebeu R$ 976 mil do Banco do Brasil para recria e engorda de gado. 

A área foi praticamente toda desmatada em 2021, mas não foi alvo de fiscalização. Em janeiro de 2022, a fazenda obteve o financiamento, que foi encerrado em janeiro deste ano. Nos últimos dias 11 e 12 de agosto, essa área registrou focos de queimada, segundo os dados do Inpe.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Fazenda financiada com crédito rural no Parque Estadual de Guajará-Mirim

Área no interior da unidade de conservação, em branco, começou a ser desmatada em 2021, um ano anos de receber recurso do Banco do Brasil.

A fazenda fica na localidade conhecida como Bico do Parque, que faz divisa com a Terra Indígena Karipuna, justamente onde os indígenas têm denunciado as invasões. 

Pelo menos 854 propriedades num raio de até 10 quilômetros do território foram beneficiadas com o crédito rural, considerando créditos ativos e encerrados. Em 174 imóveis, há sobreposições com embargos do Ibama por infrações ambientais. Em seis áreas com financiamento ativo, incluindo áreas embargadas, houve registro de fogo nos últimos dois meses.

A pressão já reflete em prejuízos “sociais, culturais e econômicos para a comunidade local”, de acordo com o líder indígena Adriano Karipuna. Ele diz que o gado avança pela área homologada do território “à base de desmatamento ilegal e queimadas”.

“Nós temos sofrido muito com as queimadas e as invasões em nosso território. É algo que não viamos com tanta frequência, mas que agora se tornou constante. Nós já temos fazendas ilegais de gado dentro do território”, afirma o indígena. No mês passado, o governo federal cumpriu a recomendação do STF para retirada de invasores da Terra Indígena Karipuna.

Banco do Brasil inclui queimadas em proibições

Em resposta à InfoAmazonia, o Banco do Brasil informou, em nota, que “adota medidas proativas e voluntárias” em suas linhas de financiamento para o crédito rural. O banco afirma que não financia empreendimentos rurais localizados em áreas embargadas por desmatamento ilegal e que utiliza ferramentas automatizadas para verificar restrições legais. 

“Todas as operações de crédito contam com cláusulas que permitem a decretação do vencimento antecipado e a suspensão imediata dos desembolsos em caso de ocorrência de infringências socioambientais; e o Banco faz valer essa cláusula sempre que qualquer irregularidade é constatada”, diz a nota (leia aqui a íntegra do posicionamento do Banco do Brasil).

Apesar de não constar entre as práticas vedadas pelo manual do BC (MCR-29), o Banco do Brasil disse que incluiu recentemente “a verificação de sobreposição do imóvel com áreas embargadas por uso de fogo”.

O banco não comentou sobre os casos identificados pela organização ambiental para áreas com embargos do Ibama financiadas com crédito rural, nem informou se fará uma revisão destes casos ou de outros casos.

InfoAmazonia também perguntou ao Banco Central sobre a concessão de crédito rural para propriedades envolvidas em crimes ambientais e queimadas ilegais na Amazônia, mas a instituição financeira não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Já o Banco da Amazônia afirmou que adota uma “rígida Política de Responsabilidade Social, Ambiental e Climática”, e que todas as operações de crédito são analisadas com base nos critérios estabelecidos pelo Banco Central.

“Toda a operação recebe tratamento de análise socioambiental, realizada em ferramenta digital contratada para auxiliar a este fim, com exceção das operações dispensadas pelo próprio Manual de Crédito Rural – MCR”, afirmou, em nota, a instituição.

O MMA informou que o órgão tem atuado junto com o Banco Central para ampliar restrições do crédito rural para áreas que causem a destruição da floresta. A pedido da pasta, no ano passado, a norma do Banco Central “ampliou os embargos para todos os biomas e incluiu as notificações estaduais”, segundo o órgão.

O presidente Lula (PT) e a ministra do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, Marina Silva, pediram abertura de investigação para ações criminosas nos incêndios recentes no Brasil. A partir do pedido, a Polícia Federal instaurou 31 inquéritos, sendo 29 para investigar incêndios na Amazônia e no Pantanal, e dois em São Paulo.

Procurada para comentar os casos de queimadas registradas em áreas beneficiadas com crédito rural, a Presidência encaminhou a solicitação da reportagem aos ministérios do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e da Agricultura e Pecuária. Mas até o momento não obtivemos retorno.

Como analisamos áreas incendiadas com financiamento ativo

InfoAmazoniaidentificou as áreas beneficiadas com crédito rural, disponibilizadas pelo Banco Central, a partir do Cadastro Ambiental Rural (CAR) indicados nas operações de financiamentos. Para esta análise, a reportagem considerou somente as operações bancárias com vencimentos a partir de 2024, para considerar os financiamentos ativos. Esses dados foram cruzados com os registros de focos de calor detectados pelo satélite NOAA-21 e disponibilizados pelo Inpe (registros entre 1º de julho e 26 de agosto). As mesmas áreas do CAR foram cruzadas com os registros de embargos do Ibama.


Fonte: InfoAmazonia

Marina Silva declara ‘guerra’ ao fogo enquanto fumaça cobre Brasília e São Paulo

Ministra do Meio Ambiente sugeriu que ações criminosas estão por trás do aumento de incêndios florestais, fechando escolas e suspendendo voos

fumaça rbFumaça cobre rodovia em Ribeirão Preto, no nordeste do estado de São Paulo. Fotografia: Joel Silva/Reuters

Por Tom Philips, no Rio de Janeiro, para o “The Guardian” 

Marina Silva, ministra do Meio Ambiente do Brasil, declarou que seu país está “em guerra” com o fogo depois que uma onda histórica de incêndios — das profundezas da Amazônia ao sudeste rural — cobriu Brasília e São Paulo com fumaça, proibiu voos e forçou o fechamento de escolas.

Falando após uma reunião de emergência com o presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, no domingo, Marina Silva chamou o pico repentino de incêndios florestais no interior do estado de São Paulo de “incomum” e disse que a polícia federal estava investigando as causas. Três pessoas foram presas.

Alguns temem que o Brasil possa estar testemunhando uma repetição do Dia do Fogo de 2019 : uma onda de conflagrações deliberadas e politicamente carregadas que devastaram a floresta amazônica no primeiro ano da presidência ambientalmente calamitosa de Jair Bolsonaro.

Referindo-se à situação em São Paulo, Marina Silva, uma ambientalista veterana, disse aos repórteres: “Em praticamente dois dias, vários municípios estão queimando ao mesmo tempo. Isso não faz parte da nossa curva de experiência em todos esses anos que estamos trabalhando com fogo.

“Esta é uma verdadeira guerra contra o fogo e contra o crime”, acrescentou o ministro após visitar a sede do órgão de proteção ambiental Ibama com Lula.

Três dos seis biomas brasileiros — a Amazônia, o Pantanal e o Cerrado — vêm sentindo o calor desde o início deste ano, com o primeiro registrando o maior índice de incêndios em quase 20 anos no primeiro semestre de 2024. Especialistas e autoridades atribuem esses níveis recordes de destruição a uma seca feroz agravada pela crise climática e pelo fenômeno natural El Niño .

“O Brasil está em chamas”, disse Cristiane Mazzetti, uma ativista florestal do Greenpeace Brasil, que disse que o país estava preso em “um ciclo vicioso de queimadas”. “Ao mesmo tempo em que os incêndios florestais produzem gases de efeito estufa e agravam as mudanças no clima que causam extremos climáticos, como secas extremas prolongadas, essas secas severas e prolongadas também causam a intensificação dos incêndios florestais.”

Mas é a situação no estado economicamente mais importante do Brasil, São Paulo, que chamou a atenção do público nos últimos dias. Enquanto os incêndios devastavam os campos de cana-de-açúcar e fazendas rurais, as redes sociais se encheram de imagens de pesadelo mostrando colunas de fumaça preta subindo em céus laranja e cinza.

“O apocalipse chegou”, tuitou uma moradora de Campinas, cidade a cerca de 112 km de São Paulo, ao lado de imagens do incêndio tóxico de cor tangerina do lado de fora de sua janela.

Mais ao norte, em Altinópolis, centenas de ravers foram forçados a fugir de um festival de música eletrônica enquanto as chamas consumiam seu acampamento e palco. “Foi assustador”, disse uma frequentadora da festa em pânico, Isabella Rocha, à CNN Brasil.

Na segunda-feira, houve cenas mais terríveis na capital, Brasília, onde os céus cheios de fumaça se assemelhavam aos de um apocalipse aéreo urbano chinês . Mais de uma dúzia de voos foram cancelados na cidade vizinha de Goiânia no domingo devido à má visibilidade.

Em declarações à rede de TV GloboNews, o diretor do Ibama, Rodrigo Agostinho, disse que a seca extrema deste ano deixou a Amazônia e o Pantanal particularmente vulneráveis ​​às chamas.

“Mas … o fogo não aparece espontaneamente”, ele continuou, notando que nenhum dos incêndios recentes pareceu ter sido provocado por raios. “A maioria dos incêndios no Brasil foi provocada por alguém: às vezes … para destruir a floresta, às vezes … por sadismo”, Agostinho acrescentou sobre a “temporada de queimadas” anual, quando os fazendeiros tradicionalmente limpam a terra com fogo.

Ele disse que 3.000 bombeiros estavam lutando para controlar os incêndios em meio a temores de que o problema se intensificaria entre agora e outubro. “[Mas] o que vimos em algumas regiões é que assim que apagamos o fogo aqui, logo ali alguém o ateou novamente. Isso precisa parar.”


Fonte: The Guardian

No país da COP 30, rios de chuva viraram corredores de fumaça

fumaça poa

Fumaça vinda da Amazônia asfixia população de Porto Alegre

Em 2025 o Brasil deveria sediar na cidade de Belém, capital do Pará, a 30a. Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30) onde supostamente tomadas decisões para conduzir o devido enfrentamento à crise climática.

O problema é que o país terá de recorrer a algo muito diferente para impedir que no exato momento da realização da COP 30, os participantes não sejam obrigados a utilizar máscaras de proteção contra a poluição oriunda das queimadas de áreas agrícolas e incêndios ocorrendo no interior de florestas, como está ocorrendo em 2024.

A situação é alarmante, mas está sendo colocada para debaixo dos  panos,  não apenas pelo governo Lula e pelos governos estaduais da Amazônia, mas também pela mídia corporativa nacional.  A ocorrência recorde de queimadas e incêndios florestais decorre de uma combinação de fatores climáticos e de manejo da terra que se retroalimentam para conduzir a situação de calamidade pública.

As imagens abaixo mostram a ocorrência de um fenômeno climático que é causado pela ocorrência de incêndios na Amazônia que, por sua vez, geram o transporte de fumaça para o sul do Brasil.

fogo fumaça

O que temos diante de nossos olhos é a transmutação dos rios de chuva (ou rios voadores) em corredores de fumaça, fato que exemplifica os efeitos dramáticos do avanço das franjas de desmatamento e degradação florestal para áreas anteriormente intocadas da bacia Amazônica.

Diante dessa catástrofe, o que faz o governo Lula para ativar os mecanismos de comando e controle na Amazônia? Absolutamente nada. 

Por isso não é que não podemos nos deixar enganar com os anúncios governamentais em prol da tomada de posição em prol de compromissos climáticos durante a COP 30. Esse evento deverá ser apenas mais aonde se fala muito e se faz nada para mudar o processo de destruição da Amazônia.  E isso se dá porque a reprimarização da economia brasileira avança a passos largos, sob o beneplácito de Lula e Marina Silva.