Estudo da WWF mostra que 43 milhões de hectares de floresta tropical foram destruídos entre 2004 e 2017

A avaliação dos dados de satélite de 2004 a 2017 mostra uma perda de floresta tropical que é muito maior do que o tamanho da Alemanha. De acordo com o WWF, cerca de um sexto de todos os alimentos comercializados na União Europeia contribui para o desmatamento nos trópicos

mura tribeMembros da tribo Mura em uma parte desmatada de suas terras tradicionais na Amazônia perto de Humaitá, Amazonas, Brasil, em agosto de 2019. Ueslei Marcelino / Reuters

Segundo cálculos da organização ambientalista WWF, 43 milhões de hectares de floresta tropical foram destruídos nos últimos anos e 24 áreas foram particularmente afetadas. O WWF anunciou na quarta-feira em Berlim que isso se baseia em dados de satélite de 2004 a 2017. A maior perda ocorre na Amazônia no Brasil, Colômbia, Peru, Bolívia, Venezuela e Guiana com 18,3 milhões de hectares. Para colocar em perspectiva: a área da Alemanha é de mais de 35,7 milhões de hectares.

O WWF enfatizou que os consumidores na Alemanha também foram parcialmente culpados pelo desmatamento. “Para o cultivo de soja, cacau e carne bovina importados pela União Europeia (UE), as florestas são freqüentemente destruídas. Cerca de um sexto de todos os alimentos comercializados na UE contribuem para o desmatamento nos trópicos ”, disse o comunicado. “Em vez de apenas apontar o dedo para governos e agricultores em pontos críticos de desmatamento, também temos que tocar em nossos próprios narizes”, disse a gerente do programa florestal do WWF Alemanha, Susanne Winter, de acordo com a informação.

Ela explicou que as florestas tropicais são uma precaução para a saúde dos humanos e da natureza. Por exemplo, eles armazenam carbono e são um habitat importante para espécies animais e vegetais. “Precisamos urgentemente parar o desmatamento, caso contrário, a vida como a conhecemos vai parar”, disse Winter.

Os chamados hotspots de desmatamento também incluem florestas em Bornéu (Indonésia, Malásia), Paraguai, Argentina, Madagascar e Sumatra. Quase metade das florestas remanescentes nesses hotspots também estão gravemente fragmentadas, por exemplo, por estradas ou terras aráveis. “Isso torna a floresta mais suscetível à seca e ao fogo e expulsa as espécies animais que vivem lá.”

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Este artigo foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo “Neue Zürcher Zeitung” [Aqui!].

Novo título verde da Amaggi levanta questões sobre compromisso com o fim do desmatamento

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O trader de commodities brasileiro Grupo Amaggi lançou recentemente um título verde para expandir sua presença no mercado de soja do país. O título verde de US $ 750 milhões da empresa alocará dois terços dos recursos para novos esquemas, como iniciativas de energia limpa, e o restante para refinanciar dívidas para projetos que incluem a compra e processamento de soja certificada. O Grupo Amaggi, de propriedade privada, é um grande exportador de soja do Brasil. Seu CEO é Blairo Maggi, ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do ex-presidente Michel Temer. Os críticos dizem que suas ações como empresário e funcionário do governo levaram à perda generalizada de florestas no Brasil.

Embora o título verde seja um sinal de progresso na construção de políticas que levem à sustentabilidade ambiental, a Amaggi ainda não concordou com uma data limite de 2020 para o desmatamento no Cerrado. No final do ano passado, os signatários do Manifesto do  Cerrado , que inclui 160 empresas e investidores que têm exposição ao mercado de soja, pediram aos principais comerciantes de soja que concordassem com a data limite de 2020 para a compra de soja no bioma Cerrado. Os investidores e as empresas também pressionaram os comerciantes a implementarem um sistema vigoroso de rastreabilidade e monitoramento, baseado nos   princípios da Accountability Framework Initiative (AFI), para mostrar a aderência à data limite.

Ao não concordar com uma data limite, a Amaggi corre o risco de ver reduzido o interesse dos investidores em seu título verde recém-lançado. A Amaggi tem o compromisso de desmatamento zero, mas não cobre o desmatamento legal e seu sistema de implementação é considerado insuficiente para mitigar totalmente os riscos. A Amaggi, que comercializa por conta própria e como parte de joint ventures como Amaggi LD (uma JV com Louis Dreyfus e Zen-Noh), é uma grande compradora de soja dos desmatadores SLC Agrícola e BrasilAgro. Durante o verão de 2020, a Amaggi viu 4.203 incêndios em suas regiões de abastecimento, um ligeiro aumento em relação ao mesmo período de 2019, de acordo com a Chain Reaction Research.

As ONGs e os investidores provavelmente questionarão o quanto a empresa melhorará sua sustentabilidade com este novo título verde e se ela se comprometerá a estar totalmente livre do desmatamento. Finnwatch, uma ONG finlandesadivulgou um relatório no final de janeiro alertando sobre a exposição ao risco de desmatamento para investidores e empresas na Escandinávia que fazem negócios com Denofa , uma exportadora de soja de propriedade da Amaggi, observando a falta de eficácia geral em conter o desmatamento no Brasil . Outros comerciantes viram reações de compradores devido a preocupações com o desmatamento. A Nestlé cortou as compras da Cargill em 2019, enquanto a Grieg Seafood disse no ano passado, que não usaria os recursos de seu título verde para comprar soja da Cargill. Os fornecedores brasileiros de soja para a indústria de salmão, CJ Selecta, Caramuru e Imcopa,  anunciaram  compromissos com a data limite de agosto de 2020 para evitar que o desmatamento entre em suas cadeias de abastecimento, pressionando os principais comerciantes do Brasil – Amaggi, LDC, ADM , Bunge, Cargill, Viterra e COFCO.

Como as políticas atuais de desmatamento dos principais comerciantes de soja podem ser insuficientes para mitigar totalmente o risco de desmatamento, eles podem enfrentar risco de receita, risco de financiamento e risco de reputação. A probabilidade de regulamentações e leis mais rígidas no Reino Unido e na UE pode trazer riscos de acesso ao mercado para os comerciantes. A possibilidade do acordo comercial UE-Mercosul desmoronar por  questões climáticas pode exacerbar os riscos. Dada a influência dos comerciantes no mercado, eles têm sido alvo de campanhas de ONGs, investidores ativistas e empresas de bens de consumo. Com os comerciantes altamente ativos no Cerrado e seus volumes de exportação de soja aumentando, um acordo com uma data limite para 2020 poderia trazer mudanças em grande escala e enviar fortes sinais aos fornecedores para interromper o desmatamento. Até que isso aconteça, os críticos provavelmente olharão para ações como o título verde da Amaggi com suspeita.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Pesquisa IBOPE: brasileiros se preocupam muito com a questão ambiental

 Levantamento mostra ainda que consumidores e eleitores já fazem escolhas cada vez mais coerentes com seus valores ambientais

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Quatro em cada cinco brasileiros acham que as queimadas na Amazônia prejudicam a imagem do Brasil no exterior e 78% entendem que elas podem prejudicar também as relações comerciais com outros países. Para 77% dos brasileiros, proteger o meio ambiente é mais importante, ainda que isso signifique menos crescimento econômico. Entre os brasileiros, é praticamente uma unanimidade que o aquecimento global está acontecendo (92%) e já pode prejudicar – e muito – a atual geração (72%). E a relação entre queimadas e clima é percebida por quase todos os brasileiros: 90% concordam que as queimadas na Amazônia são uma ameaça para o clima e o meio ambiente do planeta e 92% acreditam que elas prejudicam a qualidade de vida da população.

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Essas são algumas conclusões da pesquisa IBOPE Inteligência encomendada pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade – ITS Rio em parceria com o Programa de Comunicação de Mudança Climática da Universidade de Yale (Yale Program on Climate Change Communication) com brasileiros de todas as regiões, classes e níveis de escolaridade, refletindo o perfil da população brasileira acima dos 18 anos. Ela mostrou percepções e opiniões da sociedade, que de forma geral vão no sentido contrário a algumas das políticas ambientais do país.

A pesquisa traz também um recado importante para políticos e empresários: quase metade dos brasileiros (42%) declarou já ter votado em algum político em razão de suas propostas para defesa do meio ambiente e mais da metade (59%) deixou de comprar ou usar algum produto que prejudique o meio ambiente.

“A atual política ambiental do Brasil nos isola no cenário internacional e pode nos custar empregos e atrasar nossa recuperação pós-COVID. O Brasil caminha na direção contrária do que esperam os investidores e líderes internacionais, bem no momento em que o mundo se realinha para combater o problema das mudanças climáticas”, analisa Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Quando perguntados sobre quem pode contribuir para resolver o problema das mudanças climáticas, os governos e as empresas foram os mais citados, por 35% e 32% dos entrevistados, respectivamente. “O entendimento dos brasileiros reflete o que desejam consumidores e investidores. As empresas devem buscar desempenhar um papel mais estratégico no desenvolvimento sustentável. Várias corporações já se uniram nesse esforço, mas precisamos avançar mais se quisermos permanecer relevantes nas cadeias econômicas globais”, completa Marcello Brito, representante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento que reúne mais de 270 organizações do setor privado, financeiro, sociedade civil e academia.

A ação humana é vista como a principal causa das queimadas na Amazônia para 77% dos brasileiros. Na questão sobre quem causa as queimadas, os entrevistados podiam apontar mais que um responsável. Os mais citados foram madeireiros (76%), agricultores (49%), pecuaristas (48%) e garimpeiros (41%). Mesmo quando se considera apenas o indicado em primeiro lugar, estes atores continuam sendo os mais citados. Perguntados sobre de quem é a responsabilidade em contribuir para resolver o problema, mais da metade da população (54%) entende que a responsabilidade é do governo.

Segundo Anthony Leiserowitz, diretor do Yale Program on Climate Change Communication, há semelhanças e diferenças entre o Brasil e os Estados Unidos: “Os resultados são fascinantes – eles nos ajudam a entender a opinião pública brasileira e fornecem um contraste muito interessante com a opinião pública nos Estados Unidos. Por exemplo, 92% dos brasileiros entendem que o aquecimento global está acontecendo. Nos Estados Unidos, esse percentual é de apenas 73%. Da mesma forma, 78% dos brasileiros dizem que o aquecimento global é uma questão muito importante, em comparação com apenas 37% dos americanos. Ao mesmo tempo, também vemos padrões semelhantes entre os dois países. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, os jovens, aqueles que se declaram mais à esquerda no espectro político, com ensino superior e as mulheres, afirmam conhecer mais e estar mais preocupados com as mudanças climáticas, o desmatamento e o meio ambiente do que os entrevistados mais velhos, que se declaram mais à direita politicamente, com menor grau de instrução e homens. Esperamos que esses resultados sejam úteis para muitos atores no Brasil, como funcionários do governo, líderes empresariais e organizações da sociedade civil.”

Para Rosi Rosendo, diretora de contas na área de Opinião Pública, Política e Comunicação do IBOPE Inteligência, “Os resultados da pesquisa apontam para uma grande preocupação da população brasileira em relação ao meio ambiente, pauta que tem tomado conta dos noticiários nos últimos anos, principalmente em função das queimadas que ocorreram na Amazônia em 2019 e no Pantanal e no Cerrado no segundo semestre de 2020, ambos acontecimentos tiveram forte repercussão internacional. As queimadas foram percebidas pelos brasileiros como acontecimentos que prejudicam a imagem do Brasil no exterior e que podem até impactar negativamente a relação comercial com outros países. No entanto, ainda que a população considere importante a preservação do meio ambiente, há muito que se avançar em termos de educação e disseminação de conhecimento sobre as mudanças climáticas e o aquecimento global, já que apenas um em cada cinco brasileiros declarou saber muito sobre o assunto, resultados que devem ser levados em conta tanto pelo governo quanto pelas empresas em ações de preservação do meio ambiente”, acrescenta Rosendo.

Fabro Steibel, diretor do ITS, explica que novas rodadas da pesquisa serão realizadas e que o objetivo é medir a percepção do brasileiro sobre o clima ao longo dos anos. “Nós percebemos que há pesquisas sobre a percepção de clima, mas elas não têm continuidade. Dando continuidade, poderemos acompanhar se haverá evolução da preocupação”.

“Mudanças Climáticas: a Percepção dos Brasileiros” é uma pesquisa quantitativa realizada pelo IBOPE Inteligência com uma amostra de 2.600 entrevistas, representativa da população brasileira com 18 anos ou mais em todas as regiões do Brasil. O período de campo foi de 24 de setembro a 16 de outubro de 2020, após o qual o ITS se dedicou à análise dos dados em conjunto com os seus parceiros. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para o total da amostra, considerando-se um nível de confiança de 95%. Saiba mais em: https://www.percepcaoclimatica.com.br/

Sobre o Instituto Tecnologia e Sociedade (ITS Rio)

O ITS Rio é uma associação civil sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento de pesquisas e projetos sobre o impacto social, jurídico, cultural e político das tecnologias de informação e comunicação. Com ampla atuação internacional, derivada da experiência e trabalho em sua área específica acumulada por mais de 10 anos por parte dos seus fundadores, o ITS é organizado no modelo de think tank independente. O ITS realiza pesquisas orientadas ao atendimento do interesse público e que gerem reflexões e propostas que avancem o diálogo democrático, a proteção dos direitos humanos e proporcionem impactos relevantes na formação e execução de políticas públicas e práticas privadas. Formado por professores e pesquisadores de diversas instituições como UERJ, PUC-Rio, FGV, IBMEC, ESPM, MIT Media Lab, dentre outras, o ITS conta com uma rede de parceiros nacionais e internacionais. Mais informações: https://itsrio.org

Yale Program on Climate Change Communication

Pesquisa conhecimento, atitudes, preferências políticas e comportamentos públicos em todo o mundo e desenvolve estratégias de comunicação para engajar diferentes públicos na ciência e nas soluções de mudanças climáticas.

Mais informações: https://climatecommunication.yale.edu/

Barragem de Belo Monte enfrenta fiasco econômico

belo monteBarragem de Belo Monte (a Volta Grande, vindo da esquerda abaixo). Foto: Christian Russau (2016)

Por Christian Russau para a Kooperation Brasilien

O operador da barragem de Belo Monte alerta para enormes prejuízos econômicos se a redução da drenagem de água da área da barragem até a grande curva do Volta Grande, que foi decidida recentemente pelo órgão ambiental do Ibama, for implementada para proteger os interesses dos  moradores locais.  A empresa quer reverter decisão do Ibama. Mas mesmo antes do início da construção, anos atrás, os críticos alertaram para o conflito da “lucratividade da barragem contra os interesses dos moradores locais”.

Ao longo de uma década, muitos críticos da barragem monstro de Belo Monte repetidamente apontaram que ela transformaria a grande curva da Volta Grande para a operação lucrativa da barragem de 11 GW,  apontando para o fato de que a natureza e as pessoas no local serem maciçamente afetadas, porque uma redução de até 80% na quantidade de água de um rio de quase 100 km traria estagnação do corpo hídrico, com todas as consequências, tais como falta de oxigênio, mortandade de peixes, aumento da formação de mosquitos. Os críticos repetidamente apontaram que apesar da estação das chuvas sempre houve estações secas e que, portanto, o conflito entre a rentabilidade da barragem e os interesses dos moradores locais da Volta Grande era inevitável. Agora, o conflito anunciado ameaça chegar ao auge.

Depois que moradores uniram forças para realizar um protesto em novembro do ano passado e  bloquearam a Transamazônica  para exigir um aumento do volume mínimo de vazão livre para a Volta Grande, o  Ibama decidiu que no canal que se ramificava em frente à primeira barragem do Pimental, a máximo de 10.900 metros cúbicos por segundo deve ser desviado para a barragem de Belo Monte a fim de garantir uma vazão mínima de 16.000 m3 /s na Volta Grande do Xingu, de modo a permitir a reprodução da fauna e da flora durante o período Piracema.

Mas agora a operadora Belo Monte Norte Energia confronta essa decisão em uma notificação formal ao Ibama. A redução do volume de água para 10.900 metros cúbicos por segundo para a operação da barragem de Belo Monte não seria suficiente para garantir uma produção lucrativa de energia elétrica, segundo a revista IstoÉ Dinheiro. Segundo o relatório, essa objeção formal também foi encaminhada aos ministérios federais em Brasília. O relatório cita fontes segundo as quais está em risco não apenas a lucratividade da maior barragem de Belo Monte, mas também a da barragem menor de Pimental que fica a montante. Um dos outros argumentos do operador da barragem agora inverte o argumento da proteção dos peixes: Uma redução na quantidade de água a ser fornecida ao reservatório da barragem acarreta o risco de que os níveis de água impactem as áreas de lagoas fechadas em que os peixes então capturados morreriam ou ficariam impossibilitados de realizar a tão importante desova, afirma IstoÉ Dinheiro. Um aumento abrupto do fluxo de água em Pimental também acarreta o risco de uma formação repentina de inundação na Volta Grande, o que significa inundação e destruição de propriedades e posses das pessoas, bem como uma ameaça à flora e fauna. 

O conflito chegará ao ápice. Como se nada disso tivesse sido avisado com antecedência

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].

Lançado plano de proteção à Amazônia que guiará política ambiental de Biden

Mist rising from the Amazon rainforest at dawn. Photo by Rhett A. Butler for Mongabay.

WASHINGTON, DC – Um grupo suprapartidário de ex-funcionários do governo e ex-negociadores-chefes dos EUA para mudanças climáticas divulgou nesta sexta-feira um plano de proteção à Amazônia que deverá nortear a política ambiental do governo Biden. O plano traz recomendações que visam levar Joe Biden a cumprir a promessa de campanha de proteger a floresta, tarefa a cargo do representante oficial do presidente para assuntos do clima, John Kerry. As ações estão divididas em quatro eixos: financiamento público e privado; comércio “forest-friendly”; cadeias de suprimentos limpas e transparentes; e diplomacia “robusta”. Na sexta-feira passada, além do plano, o grupo suprapartidário, formado por democratas e republicanos, enviou para o presidente Biden e a vice Kamala Harris uma carta de apresentação.

As recomendações incluem a troca de dívidas dos países amazônicos com os EUA por ações que resultem em corte nas emissões de carbono; a destinação para a Amazônia de 5% da receita gerada nos EUA com a taxação sobre emissões de carbono e sobretaxas de combustíveis; a ajuda com tecnologia para o combate ao crime ambiental e organizado na região; a adoção de uma lei contra importação de commodities agrícolas produzidas em terras desmatadas ilegalmente; o estabelecimento de acordos comerciais e novas regulamentações dos EUA para limpar as cadeias de suprimentos das empresas norte-americanas; incentivos para que empresas norte-americanas que querem se tornar neutras em carbono invistam na floresta amazônica para compensar suas emissões; além de mecanismos de pressão para obter o compromisso dos governos latino-americanos com a proteção à floresta, como a adoção de políticas relacionadas ao comércio internacional – incluindo vendas de equipamentos militares – à filiação à OCDE e ao investimento estrangeiro.

Quem são os ‘Climate Principals’

O grupo autodenominado Climate Principals inclui três ex-funcionários do governo e quatro ex-negociadores-chefes para mudanças climáticas do Departamento de Estado norte-americano. Coletivamente, os membros do grupo lideraram a diplomacia climática dos EUA da Rio 92, em 1992, ao Acordo de Paris, de 2015. Esta é a primeira vez que um grupo bipartidário, com representantes dos partidos Democrata e Republicano, tão diverso e distinto se reúne para oferecer recomendações concretas de política climática internacional para qualquer região geográfica ou setor econômico em particular.

Os diretores incluem Bruce Babbitt, ex-governador do Arizona e secretário do Interior dos Estados Unidos; Frank Loy, ex-subsecretário de Estado para Assuntos Globais; Stuart Eizenstat, ex-Secretário Adjunto do Tesouro e Embaixador na União Europeia; William Reilly, ex-administrador da Agência de Proteção Ambiental; Todd Stern, ex-Enviado Especial para Mudanças Climáticas; Tim Wirth, ex-senador dos EUA pelo Colorado e subsecretário de Estado para Assuntos Globais, e Christine Whitman, ex-governadora de Nova Jersey e administradora da Agência de Proteção Ambiental.

O plano de proteção para a Amazônia

O Plano de Proteção da Amazônia concentra-se em quatro áreas em que o governo Biden pode atuar:

• Financiamento Público e Privado: Embora o sucesso dependa de uma ação global coordenada, os Estados Unidos precisarão fazer sua parte para mobilizar o financiamento necessário para a região amazônica. Entre as políticas propostas, os diretores do clima recomendam que o presidente, a vice-presidente Kamala Harris e o secretário Kerry convidem CEOs de grandes empresas dos EUA para uma cúpula na Casa Branca para garantir compromissos corporativos de financiar coletivamente pelo menos um bilhão de toneladas de reduções de emissões de gases de efeito estufa na Amazônia até 2025. Os diretores recomendam o uso amplo das autoridades de assistência externa existentes, inclusive no âmbito da Corporação Financeira para o Desenvolvimento, do Banco Mundial e da Agência para o Desenvolvimento Internacional. Os diretores também recomendam que o governo trabalhe com o Congresso para expandir a Lei de Conservação de Florestas Tropicais e Recifes de Coral para permitir que o governo negocie a troca de dívidas por ações de proteção ao clima com nossos aliados na região amazônica. Esse esforço deve oferecer às nações amazônicas novos tipos de alívio da dívida e / ou garantias da dívida em troca de ações ambiciosas para o clima e as florestas, em uma ampla gama de instrumentos de dívida potenciais.

• Comércio favorável à floresta: O governo deve considerar o alinhamento do comércio dos EUA com a política climática para a Amazônia. As importações dos EUA não devem alimentar o desmatamento ilegal, recompensar criminosos ou criar um campo de troca desigual. Entre as políticas propostas, os integrantes do Climate Principals recomendam que o governo garanta que os futuros acordos comerciais fortaleçam a governança das florestas tropicais e o estado de direito, inclusive promovendo a aplicação da lei local e proibindo a importação de commodities agrícolas cultivadas em terras desmatadas ilegalmente.

• Cadeias de suprimentos transparentes e limpas: O governo deve se esforçar para garantir que as empresas, investidores, consumidores e mercados de capitais dos EUA não contribuam para o desmatamento na Amazônia. Entre as políticas propostas, os Climate Principals recomendam que a administração exija que as empresas e instituições financeiras dos EUA divulguem, relatem e gerenciem os riscos climáticos relacionados ao desmatamento, a partir do protocolo criado pela Força-Tarefa sobre Riscos Financeiros Relacionados ao Clima.

• Diplomacia robusta: O governo precisará fortalecer alianças internacionais para transformar a proteção da Amazônia numa prioridade global. Entre as políticas propostas, os Climate Principals recomendam que o governo negocie acordos diplomáticos para incentivar a proteção das florestas sob as leis e estruturas políticas locais, inclusive por meio de sistemas de pagamento baseados em resultados que sejam compatíveis com o Acordo de Paris.

A justificativa para o plano

O desmatamento na Amazônia é uma das principais causas do aquecimento global. Conforme as árvores são cortadas ou destruídas por queimadas, elas liberam carbono na atmosfera. Se a Amazônia fosse um país, seria um dos maiores poluidores do clima do mundo. As emissões anuais da Amazônia – que afetam nove nações sul-americanas – são quase tão grandes quanto as emissões do Japão ou da Indonésia.

A Amazônia também é a região de maior biodiversidade do mundo, lar de milhões de povos indígenas e comunidades que dependem da floresta e é responsável por regular os padrões de chuvas em regiões agrícolas globalmente importantes, tanto na América do Sul quanto nos Estados Unidos. A taxa de desmatamento no Brasil atingiu o pico de 12 anos em 2020, e os cientistas estão cada vez mais preocupados com o risco cada vez maior de a Amazônia se transformar numa savana nas próximas décadas.

Além disso, o desmatamento na Amazônia corre o risco de desencadear uma nova pandemia global, uma vez que a maioria das novas doenças infecciosas surge na fronteira da floresta, onde as pessoas e a vida selvagem se encontram.

Integrantes dos ‘Climate Principals’ se pronunciam

Integrantes dos ‘Climate Principals’ se pronunciam”A floresta amazônica é absolutamente essencial para o mundo. Ela estabiliza o clima e as chuvas da Terra, sustenta muitas dezenas de milhões de pessoas e abriga mais vida selvagem do que qualquer outro lugar na Terra”, diz Bruce Babbitt, ex-Secretário do Interior e governador do Arizona. “Como a Amazônia detém muito carbono e esse carbono é liberado quando a floresta tropical é destruída, proteger a Amazônia deve ser parte essencial para resolver a crise climática”, afirma Babbitt. “O presidente Biden merece crédito por se comprometer a fazer da Amazônia uma prioridade da política externa dos EUA e as recomendações de política que divulgamos hoje fornecem um plano para montar um esforço global eficaz”, conclui Babbitt.

“Este é um plano equilibrado que visa tomar as ações urgentemente necessárias para proteger a floresta amazônica com base em incentivos econômicos direcionados, financiamento público e privado, a redução acentuada da demanda global por bens que impulsionam o desmatamento ilegal e um compromisso construtivo com o Brasil que tem como premissa respeito por seus interesses nacionais e consciência de seu desejo de participar de vários acordos econômicos e comerciais internacionais “, disse Todd Stern, ex-enviado especial para Mudanças Climáticas no Departamento de Estado dos EUA.

“Proteger a Amazônia exigirá uma ação do setor privado”, diz Bill Reilly, ex-chefe da Agência de Proteção Ambiental. “Nosso Plano de Proteção da Amazônia cria incentivos poderosos para que empresas e investidores limpem as cadeias de suprimentos corporativas, aumentem a transparência, reduzam a corrupção e o crime e financiem o desenvolvimento sustentável na região amazônica”, defende Reilly.

“O Brasil sempre foi um ator importante na cooperação climática global, desde a Cúpula da Terra no Rio de 1992”, afirma Frank Loy, ex-subsecretário de Estado dos EUA para Assuntos Globais. “A promessa do presidente Biden para a Amazônia deve ser vista pelo Brasil como a mão de um parceiro estendido em respeito e amizade”, diz Loy. “O mundo precisa que o Brasil seja uma superpotência verde”, conclui.

Repercussão no Brasil e no exterior

O Plano de Proteção da Amazônia já está recebendo apoio e endosso de vozes na América Latina, bem como dos principais aliados do clima na Europa:

“É fundamental investir na proteção da floresta, em programas que protejam a Amazônia e sua biodiversidade e recursos naturais. Considerar os povos indígenas e suas instituições representativas como parceiros, inclusive para receber apoio financeiro para desenvolver seus projetos em andamento, ouvi-los e dar espaço para sua participação e elaboração de planos e ações”, afirma Joênia Wapichana, deputada federal (Rede Sustentabilidade/RR), e primeira advogada indígena do Brasil.

O ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Svenja Schulze, disse: “A Alemanha dá as boas-vindas ao compromisso do presidente Biden com o desenvolvimento sustentável e a proteção das florestas na Amazônia. O plano apresentado hoje por ex-funcionários do gabinete dos EUA é promissor e se alinha bem com a política europeia. Esperamos trabalhar com os Estados Unidos e com os países amazônicos para propor soluções ambiciosas que beneficiem a todos”.

“A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo. É a Natureza, interligada em toda a sua riqueza e diversidade. A crise climática coloca em risco a Amazônia. O desmatamento na Amazônia agrava a crise. Proteger a Amazônia ajuda a proteger o clima e a todos nós. Clima e natureza convergem. Eles são inseparáveis. Proteger a Amazônia requer liderança de governos, empresas, sociedade civil e povos indígenas da região. E precisamos do apoio de aliados, nos Estados Unidos e no resto do mundo. Não podemos fazer isso sozinhos. Devemos trabalhar juntos para enfrentar os problemas relacionados de crime ambiental, desenvolvimento verde e inclusivo, perda da natureza e crise climática global “, diz Manuel Pulgar-Vidal, o líder global de Clima e Energia do World Wide Fund for Nature, e ex-ministro do Meio Ambiente do Peru, entre 2011 e 2016.

Diálogo Brasil

A Diálogo Brasil é uma agência de comunicação estratégica que trabalha em prol da proteção das florestas tropicais e dos direitos de suas comunidades, do uso sustentável da terra e do combate às mudanças do clima.

  

Soja da Amazônia não é “livre de desmatamento”

Abiove e Ministério da Agricultura divulgam informação falsa após ameaça do presidente francês

pulverizadoraMáquina pulveriza agrotóxico sobre plantação de soja na Amazônia Foto: © Bruno Kelly / Greenpeace

20% da soja dos biomas Amazônia e Cerrado foi produzida em imóveis rurais que desmataram, aponta estudo

Em resposta ao presidente da França, Emmanuel Macron, que ameaçou boicotar a soja brasileira em razão do desmatamento da Amazônia, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) afirmou em nota nesta terça-feira (12/01) que “a soja produzida no bioma Amazônia no Brasil é livre de desmatamento desde 2008 graças à Moratória da Soja, iniciativa internacionalmente reconhecida que monitora, identifica e bloqueia a aquisição de soja produzida em área desmatada no bioma, garantindo risco zero do envio de soja de área desmatada (legal ou ilegal) deste bioma para mercados internacionais”.

No mesmo tom, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) afirmou, em nota divulgada no dia seguinte, que “a soja brasileira não exporta desmatamento”.

A Moratória da Soja, uma iniciativa de ONGs ambientais com participação da Abiove e da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), tem de fato contribuído para reduzir a pressão sobre a floresta amazônica, mas isso não significa soja “livre” de desmatamento, nem que há “risco zero” de exportação de soja de áreas desmatadas no bioma ou que “a soja brasileira não exporta desmatamento”.

Segundo pesquisa publicada recentemente na Science, uma das mais importantes revistas científicas, cerca 20% da soja dos biomas Amazônia e Cerrado exportada para a União Europeia foi produzida em imóveis rurais que desmataram entre 2008 e 2018, desrespeitando o código florestal. O levantamento foi feito com base em informações declaradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e dados de exportação de soja.

Além disso, o estudo indica que 0,5 milhão de tonelada de soja da Amazônia é exportada para países europeus, contra 1,4 milhão de tonelada do Cerrado, embora esse bioma seja cinco vezes menor que a Amazônia. Isso reforça um problema que vem se agravando: o desmatamento no Cerrado, que em 2020 aumentou 13%segundo o Inpe, totalizando quase 50% de eliminação da vegetação nativa do bioma.

A manifestação da Abiove ocorreu logo após Macron afirmar, no Twitter, que “continuar a depender da soja brasileira seria o mesmo que apoiar o desmatamento da Amazônia”. Em seguida, ele completou: “Somos coerentes com nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa”. O presidente francês tem mantido posição contrária ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, sob alegação de que o Brasil precisa cumprir o Acordo de Paris e reduzir o desmatamento, gerando pressão sobre o governo Bolsonaro e acenando para agricultores locais.

Em 2019, o Brasil produziu 114 Mton de soja, das quais 28 Mton no bioma Amazônia e 40 Mton na Amazônia Legal (o que inclui o Cerrado de MT, MA e TO), aponta o professor da UFMG Raoni Rajão, um dos autores do estudo da Science, com dados do IBGE. Ou seja, a região é responsável por 25% a 35% da produção nacional, dependendo da definição territorial utilizada.

A exemplo da moratória da soja na Amazônia, ONGs têm pressionado as indústrias por um acordo para o Cerrado, com o objetivo de barrar a expansão da soja sobre a vegetação nativa. No entanto, após um longo período de tratativas, nenhum resultado concreto foi atingido. O governo, que participava dos grupos de trabalho e endossava a iniciativa voluntária, retirou-se das negociações na gestão Bolsonaro, sinalizando o desinteresse pelo combate ao desmatamento.

A moratória da soja começou a funcionar a partir de 2006, após forte pressão de ONGs sobre compradores internacionais, com o argumento de que eles estimulavam o desmatamento na Amazônia ao produzir a oleaginosa.

Para resolver o embate foi criado um grupo de trabalho e pactuado, entre as ONGs e a Abiove, que as indústrias não comprariam mais soja de produtores cuja área para produção no bioma Amazônia tenha sido desmatada após 2008, mesmo com autorização.

Foi criado um sistema de monitoramento privado com imagens de satélite nos principais municípios produtores de soja, que identifica quem descumpre as regras e bloqueia a compra por parte das indústrias.

De acordo com o último relatório sobre a moratória, divulgado em abril de 2020 (safra 2018/2019) pelo Grupo de Trabalho da Soja, 1,8% dos produtores de soja no bioma Amazônia estariam em desacordo, ou seja, desmataram após 2008. O documento também considera que após a implementação do acordo houve uma redução de 4,6 vezes da taxa média de desmatamento na Amazônia, atribuindo parte desse resultado à iniciativa. No entanto, segundo dados do Inpe, o desmatamento na Amazônia aumentou 34,5% em 2019 e 8,5% em 2018.

Na quinta-feira (14/1), Bolsonaro atacou o presidente francês, classificando suas declarações de “politicalha” e “campanha contra o Brasil”: “(…) Quanto de floresta tem a França? Porque eles falam tanto em reflorestamento, em dar dinheiro pra nós. Não tem que dar dinheiro pra nós, não, nós vamos dar mudas de árvores para você replantar, reflorestar aí (…)”. Ao contrário do Brasil, a França tem recuperado suas florestas desde o início da revolução industrial: em 1800 elas cobriam menos de 15% do território, hoje se aproximam dos 30%, mostrou o professor da UFMG.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo site Fakebook.eco [Aqui!].

Desmatamento na Amazônia, Emmanuel Macron, e o boicote às commodities agrícolas brasileiras

“Depender da soja brasileira é endossar desmatamento na Amazônia”, diz Macron

Presidente francês volta a criticar o desflorestamento no Brasil e diz que Europa deve investir mais no cultivo local de soja para ser “coerente” com suas ambições ecológicas.

macron

Macron é uma das vozes mais críticas à política ambiental do governo Bolsonaro

O presidente da França, Emmanuel Macron, voltou a criticar o desmatamento na Amazônia nesta terça-feira (12/01), afirmando que a Europa precisa investir mais no cultivo de soja em seu território, senão estará “endossando” o desflorestamento em terras brasileiras.

“Continuar dependendo da soja brasileira é endossar o desmatamento da Amazônia”, escreveu Macron em postagem no Twitter. “Somos coerentes com as nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa!”, completou.

O texto acompanha um vídeo de 30 segundos, em que o presidente francês destaca que, “quando importamos a soja produzida a um ritmo rápido a partir da floresta destruída no Brasil, nós não somos coerentes” com as ambições ecológicas europeias.

“Nós precisamos da soja brasileira para viver? Então nós vamos produzir soja europeia ou equivalente”, acrescenta ele no vídeo, após uma visita a agricultores orgânicos na cidade de Tilly nesta terça-feira.

A publicação vem um dia depois da One Planet Summit, uma cúpula liderada por Macron com a participação de chefes de Estado, empresários e representantes de organizações não governamentais, dedicada à preservação da biodiversidade.

Críticas à política ambiental

O aumento do desmatamento na Amazônia e em outros biomas brasileiros nos últimos dois anos gerou uma onda de indignação internacional, com Macron sendo uma das vozes mais críticas à política ambiental do presidente Jair Bolsonaro.

Os líderes francês e brasileiro chegaram a trocar farpas públicas. Em 2019, Macron disse que as queimadas no Brasil – cujas imagens correram o mundo e aumentaram a pressão sobre o governo brasileiro – eram uma “crise global” e precisavam ser discutidas “com urgência” pelo G7.

À época, a posição de Macron irritou Bolsonaro, que reagiu afirmando que a postura do francês evocava “mentalidade colonialista descabida no século 21”. Membros do governo Bolsonaro e filhos do presidente chegaram a xingar Macron nas redes sociais, e o próprio presidente fez um insulto machista à primeira-dama francesa, Brigitte Macron.

A situação do meio ambiente no Brasil levou inclusive alguns países europeus a ameaçarem não ratificar o acordo de livre-comércio assinado entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, que ainda precisa ser confirmado pelos parlamentos de ambas as partes.

Em agosto de 2020, a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, se uniu a Macron como voz crítica ao acordo. Por meio de seu porta-voz, ela disse ter “sérias dúvidas” sobre a implementação do pacto comercial devido ao aumento do desmatamento na Amazônia.

Segundo o porta-voz, Berlim observa “com grande preocupação” o desmatamento e as queimadas na região. “Nesse sentido, surgem sérias dúvidas sobre se, no momento, uma implementação do acordo pode ser garantida dentro do espírito pretendido. Vemos isso com ceticismo”, alertou.

Em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, o desmatamento na Amazônia cresceu 85%, atingindo 9.165 quilômetros quadrados, o maior nível registrado no bioma desde 2016, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Europa importadora de soja

A Europa é uma grande importadora de soja da América Latina, principalmente do Brasil. O cultivo e a importação de soja para ser usada, por exemplo, como ração para pecuária e biocombustível têm sido fortemente criticados por impulsionar o desflorestamento.

Um relatório apresentado na semana passada em Berlim, intitulado Fleischatlas 2021 (“Atlas da carne 2021”), apontou que 50% dos produtos agrícolas enviados do Brasil à União Europeia, especialmente soja, carne bovina e café, são produto do desmatamento.

Já entre os países europeus, a França é o maior produtor de soja. Em 2020, o governo francês anunciou um plano para aumentar a produção local do grão, visando reduzir a dependência das importações, uma vez que o país continua comprando soja de outros países, sobretudo do Brasil – o que já gerou protestos de organizações ambientalistas como o Greenpeace.

Varejistas franceses também anunciaram que, a partir de 2021, não mais comprariam soja brasileira que tivesse sido cultivada em áreas desmatadas.

EK/dpa/lusa/ots

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Este artigo foi publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Desmatamento e queimadas na Amazônia e no Pantanal causam perdas equivalentes a três estados do RJ

De janeiro a novembro, foram destruídos pelas chamas 116.845 km² do território da Amazônia e do Pantanal, área equivalente a quase três estados do Rio de Janeiro. Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) também mostram que a Amazônia perdeu, em um ano, 11.080 km² em área desmatada —maior índice da década.

A devastação ambiental tornou-se uma marca registrada do Brasil no exterior. A imagem do Brasil é cada vez pior, resultando até em isolamento internacional. 

Reportagem de Danielle Brant e Renato Machado na Folha de São Paulo mostra que no Pantanal, o principal problema foram as queimadas, que devastaram 40.171 km², o equivalente a um quarto de todo o bioma.

O governo de Jair Bolsonaro tem responsabilidade direta sobre as queimadas  e o desmatamento. Atuou contra os órgãos de fiscalização ,ao ponto de o titular do executivo afirmar que o “Ibama não atrapalha mais”, assinala a reportagem.

Por sua vez, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, falou em usar gado para evitar queimadas (o “boi bombeiro”) e, na expressão mais célebre, defendeu aproveitar a comoção com a Covid-19 para “passar a boiada” na legislação ambiental.

O Ministério do Meio Ambiente é omisso, silencia e faz pouco caso das críticas internas e internacionais. Já o Ministério da Defesa, limita-se a dizer que apoia a fiscalização ambiental.  

Este artigo foi inicialmente publicado pelo site Brasil 247 [Aqui!].

 

Jair Bolsonaro é cortado da Cúpula do Clima, e Brasil paga mico internacional

bolso fogo

A ONU (Organização das Nações Unidas) confirmou que o presidente Jair Bolsonaro não está na lista de líderes que participarão do chamado Climate Ambition Summit (a chamada Cúpula do Clima, marcada para amanhã (12/12).  Isso fica explícito porque, ao contrário de outros países sul americanos (Argentina, Chile, Colombia, Peru e Uruguai), o Brasil não aparece na lista de líderes que poderão se pronunciar no evento. Há que se mencionar que até Cuba deverá se pronunciar no evento que deverá ter como estrelas o presidente Emmanuel Macron (França), a chanceler Angela Merkel (Alemanha) e o presidente Xi Jinping (China).

summit

Esse é, digamos, um “mico” sem precedentes, pois em décadas recentes, o Brasil era um dos líderes dos debates climáticos, muitas vezes jogando o papel de mediador entre as demandas dos países desenvolvidos e a dos chamados países em desenvolvimento.  Mas tanto fizeram que Jair Bolsonaro e Ricardo Salles conseguiram colocar o Brasil em uma posição inédita de ostracismo, justamente em um momento em que a União Europeia, apenas à guisa de exemplo, decidiu adotar metas ambiciosas de redução de emissão de gases estufa que deverão ser alcançadas até 2020.

Como aquilo que está ruim pode sempre piorar, o grupo  Climate Action Tracker requalificou e rebaixou a situação dos compromissos  de “insuficiente” para “muito  insuficiente”.  Além disso, o Brasil conquistou dois troféus do prêmio de “Fóssil Colossal” dos últimos 5 anos na categoria “Não protege sua população dos impactos das mudanças climáticas” e “Reduz a participação da sociedade civil”.  O anúncio aconteceu nesta sexta-feira (11/12), véspera da Cúpula de Ambição Climática, que marcará o aniversário de 5 anos do Acordo de Paris, e é um evento preparatório para a COP26, que será realizada na Escócia em 2021. Esta é a terceira vez em que Bolsonaro leva o Brasil a receber o prêmio da CAN. Em 2018, o país levou o troféu depois de o então presidente eleito ter anunciado que o país não sediaria a próxima conferência climática e por ainda ameaçar tirar o Brasil do Acordo de Paris; em 2019, pela tentativa de legalizar a grilagem. Na cerimônia de hoje, o país foi descrito como uma nação governada por “Jair Capitão Motosserra Bolsonaro” que parece estar tentando “transformar os pulmões do mundo no pior lugar do planeta para ser uma árvore.”   

popliri@gmail.com on Twitter: "#Brazil, #Amazonia, our natives, our  wildlife, are now in the hands of Bolsonaro, the "Captain Chainsaw"!… "

Para quem acha que esse alijamento do Brasil das decisões multilaterais relacionadas ao controle das mudanças climáticas é, digamos, de menor importância, eu diria que, pelo contrário, essa é uma situação muito grave para os interesses estratégicos do Brasil, a começar pela economia. 

Garimpo e outras atividades ilegais põem quase 1/3 da Amazônia sob risco

Extração de madeira, mineração e plantios ilegais compõe uma rede de atividades que devastam a floresta ao mesmo tempo que movimentam milhões de dólares por ano

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Garimpo ilegal na Terra Indígena Munduruku, município de Jacareacanga. (Foto: Marizilda Cruppe/Amazônia Real)

Por Lisandra Paraguassu para a agência Reuters

BRASÍLIA (Reuters) – Nos últimos oito anos, as atividades ilegais na região Amazônica –não apenas no Brasil, mas também nos países vizinhos– cresceram e aumentaram a pressão sobre a floresta, mostra o Atlas Amazônia Sob Pressão, feito pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg), consórcio de entidades ambientais dos países amazônicos.

De acordo com dados levantados pelo Atlas, 27% da floresta sul-americana –além do Brasil, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana, e o território da Guiana Francesa, compõem o território amazônico– estão sob alta pressão de atividades que levam ao desmatamento. Em outros 7%, a pressão é muito alta.

desmatamentoTrecho da Amazônia atingido por queimada é derrubado por madeireiros perto de Mirante da Serra, em Rondônia 20/08/2020 REUTERS/Ueslei Marcelino

No Brasil, 29% da Amazônia estaria sob alta pressão.

“São três das atividades econômicas que, recrutando milhares de pessoas, proliferam na floresta tropical sustentadas pela demanda de seus produtos finais em mercados internacionais”, diz o estudo. Entre eles a madeira, a cocaína, o ouro e outros metais preciosos.

Apenas este ano, a rede levantou 4.472 pontos de mineração ilegal na Amazônia, a maioria no Brasil e na Venezuela, onde a extração irregular de pedras e preciosos vem numa curva ascendente. O Brasil concentra 53,8% desses pontos de mineração ilegal detectados pelo Atlas –2.576– e 95% deles estão em atividade no momento.

“Brasil tem visto uma expansão do setor ilegal. Entre as regiões mais afetadas pelo avanço da mineração ilegal estão a bacia do rio Tapajós, terra dos indígenas mundukuru, e a terra indígena Ianomâmi, onde se estima que estejam 20 mil garimpeiros. E também, ao norte, a terra indígena Raposa Serra do Sol, que sofreu em 2020 a primeira invasão de garimpeiros ilegais em larga escala desde sua demarcação, há 11 anos”, diz o Atlas.

Apesar de identificar que as áreas de proteção e as terras indígenas ainda são fatores que conseguem conter o aumento da exploração ilegal e do desmatamento, o estudo mostra que o garimpo ilegal avança também nessas áreas, em toda a região Amazônica. Foi identificado que 17,3% das áreas de proteção e 10% das áreas indígenas hoje sofrem com invasão e garimpo ilegal.

Em junho, um análise de imagens de satélite feito pela Reuters já mostrava um aumento de 20 vezes da mineração ilegal nos últimos cinco anos na terra Ianomâmi, principalmente ao longo de dois rios, o Uraricoera e o Mucajaí. Somadas, as áreas de mineração cobriam oito quilômetros quadrados –o equivalente a 1.000 campos de futebol.

Em meio à pandemia de Covid-19, os garimpeiros levam a doença para dentro das aldeias –relatório recente produzido pela Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana apontou um aumento de 259% nos casos entre agosto e outubro– e tiram o ouro que, se sempre foi valioso, neste 2020 bateu recordes históricos no preço internacional.

Economia Legal

Apesar do avanço das atividades ilegais, a perda de cobertura florestal ao longo das últimas décadas se deve, também, a atividades legais, especialmente a pecuária. Desde 2000, em toda a região, a área usada para pecuária aumentou 81,5% –ou seja, mais 647.411 km² dedicados a pastagens. Mais de 70% dessas novas áreas surgidas entre 2001 e 2020 eram, ainda em 2000, cobertas por florestas.

“A atividade agropecuária é responsável por 84% do desmatamento da Amazônia, segundo análise da Raisg e do MapBiomas”, aponta o Atlas.

Com crescimento até 2003, o desmatamento e a abertura de pastagens passou a cair em toda a região até chegar ao ponto mais baixo em 2012. Desde então, voltou a subir.

O desmatamento para produção agrícola aconteceu com força em áreas de proteção ambiental, com crescimento de 220% de pastagens em reservas florestais e 160% em terras indígenas, especialmente em países como Bolívia e Equador.

“Políticas nacionais impulsionaram a atividade agropecuária na região sem considerar o impacto negativo para o ecossistema”, aponta o Atlas.

No Brasil, o mapa mostra o avanço das áreas de agropecuária nos últimos 20 anos concentrados principalmente no Pará, norte do Tocantins e Mato Grosso.

Procurado pela Reuters para comentar as informações do Atlas, o Ministério do Meio Ambiente não respondeu.

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Este artigo foi originalmente publicado pela agência Reuters [Aqui!].