Jair Bolsonaro e a falácia do desmatamento como traço cultural brasileiro

salles bolsonaroO presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles sorriem com o sucesso do desmanche da governança ambiental na Amazônia. Mas o problema seria o traço cultural dos brasileiros

Após ter exitosamente exterminado as estruturas de comando e controle que garantiam formas básicas de governança ambiental no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro saiu pela tangente ao tentar explicar a jornalistas as razões da explosão nas taxas de desmatamento ao afirmar que “... você não vai acabar com o desmatamento, nem com queimadas, é cultural“.

bolso cultura

A primeira coisa que precisa ser dita é que se há uma cultura do desmatamento e do fogo no Brasil, a explicação para isso está fundamentalmente ligada à permanência de um padrão de alta concentração da propriedade da terra e ao aprofundamento de um modelo de forte dependência na exportação de commodities agrícolas como geradoras de reservas de moedas fortes. 

Em segundo lugar, como já está fartamente ilustrado na literatura científica, padrões culturais são ajustáveis e se transformam conforme os incentivos que ocorrem por parte de diferentes agentes societários, incluindo o Estado. O problema aqui é que o governo Bolsonaro foi montado a partir da noção de que seria preciso (e quase um direito divino) aprofundar os padrões ditados pelo latifúndio agro-exportador que é fortemente dependente do aumento da área em produção em face de sua inaptidão para fomentar ganhos significativos de produtividade.

Outro elemento importante é que se forem estudados os custos de produção das principais culturas de exportação, a começar pela soja, o que se observa é que a maioria dos produtores está operando com margens magérrimas de lucro e com fortes pressões advindas do aumento dos custos dos insumos, especialmente fertilizantes e agrotóxicos. Em função disso é que o governo Bolsonaro operou de forma industriosa em duas áreas expressas: 1) garantir a ampliação da área em produção, mesmo sob o risco de aumentar as taxas de desmatamento, e 2) baixar os custos de produção do insumo “agrotóxico”, mesmo sob pena de gerar uma hecatombe química no Brasil a partir da liberação de substâncias que já estão banidas em outras partes do mundo, inclusive na China que é o principal parceiro comercial do Brasil (o herbicida Paraquate é o maior exemplo disso).

Em suas explicações sobre o desastre de imagem que o aumento de 30% no desmatamento na Amazônia entre 2018 e 2019, o governo Bolsonaro está apontando para a necessidade de ampliar o processo de titulação de terras como a principal ferramenta para combater o que se classifica como desmatamento ou queimadas ilegais. Essa receita vem diretamente do receituário do Banco Mundial que há pelo menos três décadas aposta na entrega de títulos como uma ferramenta que poderia ampliar as chances de “usos sustentáveis da terra”.  O problema é que essa é mais uma falácia pró-mercado. Além disso, no caso da Amazônia, boa parte dos “novos desmatamentos” está ocorrendo em terras públicas, sejam elas reservas indígenas ou unidades de conservação.

Em outras palavras, não vai ser com titulação de terras que se resolverá os problemas relacionados à ampliação do binômio desmatamento-queimadas. Aliás, o que a titulação deverá incentivar é a ampliação da invasão de reservas indígenas e áreas de proteção ambiental, pois os grileiros e invasores poderão depois pedir a “legalização” das invasões via a titulação das terras invadidas.

A verdade é que não vejo muita saída para a crise ambiental em desenvolvimento na Amazônia sem muita pressão interna e dos parceiros comerciais do Brasil. É que sem isso, não haverá por parte do governo Bolsonaro qualquer disposição para retomar as ações de comando e controle. Aliás, o mais provável é que sejam desmanteladas as poucas estruturas que ainda restam. Tudo isso em nome do elemento cultural vislumbrado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Desmatamento na Amazônia: o desastre agora é oficial

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Se até ontem o governo Bolsonaro se respaldava no argumento de que o sistema DETER não tem precisão adequada para medir o desmatamento, os números oficiais do desmatamento da Amazônia oriundos do sistema PRODES não deixam dúvidas: a destruição da floresta é dramática. Os dados anuais consolidados do desmatamento Amazônia mostram que, apesar da profunda e duradoura recessão econômica vivida pelo Brasil, a área desmatada alcançou a marca de 9.762 km², a mais alta desde 2008, quando a economia do país ainda crescia a ritmo acelerado.

O período avaliado pelo PRODES, que vai de 1º de agosto do ano passado a 31 de julho deste ano, corresponde a cinco meses de governo de Michel Temer e sete meses de gestão de Jair Bolsonaro.

O aumento em relação aos 12 meses anteriores, de 29,5%, foi o maior percentual de aumento de um ano para o outro em mais de duas décadas e leva a medalha de bronze na série histórica do PRODES, perdendo apenas para 1995 (crescimento de 95%) e 1998 (31%).

A taxa oficial ficou pelo menos 1.500 km² acima da tendência de aumento do desmatamento que vinha sendo observada a partir de 2012. Segundo técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), se a taxa seguisse a tendência dos últimos anos, teria ficado em torno de 8.278 km².

Segundo o Direto da Ciência, com o resultado deste ano do PRODES, o corte raso acumulado na Amazônia até julho deste ano é de 802.570 km², ou 20,1% da área original da parte brasileira da floresta.

Demitido do INPE após a divulgação dos primeiros alertas sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, o físico Ricardo Galvão disse ao Congresso em Foco que o crescimento de 30% da área desmatada comprova os alertas emitidos em agosto e indica que o Brasil não vai conseguir cumprir a Política Nacional sobre Mudança do Clima, a qual prevê uma redução no desmatamento da Amazônia para 3.900 km² de agosto de 2019 a julho de 2020.

A notícia foi repercutida pelos Valor EconômicoO Estado de S. PauloFolha de S. PauloO GloboUOLG1 e O Eco, além dos internacionais The GuardianReuters, AFPBBCAl Jazeera e New Scientist, entre outros.

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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

NASA: queimadas e gases de efeito estufa estão secando atmosfera da Amazônia

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A queima de vegetação e a liberação de gases de efeito estufa estão conspirando para secar a Floresta Amazônica, segundo as conclusões de um novo estudo.

“Observamos que nas últimas duas décadas houve um aumento significativo da aridez da atmosfera e da demanda atmosférica por água acima da floresta tropical”, diz a principal autora do estudo, Armineh Barkhordarian, do Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA.

Os incêndios florestais provocados para abrir espaço para pastagens e agricultura alimentam um ciclo no qual secas e incêndios continuarão a ser mais prováveis.

No trabalho publicado na revista Nature Scientific Reports, Barkhordarian e seus colegas usaram satélites para determinar o déficit de pressão de vapor, ou VPD, na América do Sul tropical. O VPD é a diferença entre a quantidade máxima de umidade que o ar pode reter e a quantidade de umidade que realmente existe. O déficit tem crescido nas últimas décadas, criando situações de ar seco na Amazônia.

A análise deixa pouca dúvida de que os seres humanos estão por trás da mudança: “Ao comparar esta tendência dos resultados de modelos que estimam a variabilidade climática ao longo de milhares de anos”, disse Barkhordarian, “determinamos que a mudança na aridez atmosférica está muito além do que seria esperado da variabilidade climática natural”.

Em particular, as partes sul e sudeste da Amazônia, mais afetadas pelo desmatamento provocado pela grilagem, pela implantação de novas fazendas e pastagens, têm experimentado estações secas cada vez mais secas e que duram cada vez mais. Mas, mesmo nos trechos setentrionais da floresta, as “megassecas” pontuam os últimos 20 anos, sendo que a mais recente ocorreu em 2015.

As emissões de gases de efeito estufa são parte do problema. À medida que as suas concentrações aumentam na atmosfera, capturam mais energia, o que aquece o planeta e leva a condições mais secas. Os aerossóis que formam a fuligem e são libertados pelos incêndios também absorvem calor e dificultam a formação de nuvens.

Para se manterem frescas à medida que a temperatura aumenta, as árvores retiram mais água do solo. Normalmente, essa água flui através das árvores, desempenhando um papel vital no transporte de nutrientes ao longo do caminho. Quando finalmente é libertada do topo do dossel, a umidade condensa-se em nuvens e grande parte dela regressa ao solo sob a forma de chuva.

“É uma questão de oferta e demanda”, disse Sassan Saatchi, cientista sênior de pesquisa da JPL e coautor do estudo. “Com o aumento da temperatura e a secura do ar acima das árvores, estas precisam transpirar para se resfriar e adicionar mais vapor de água à atmosfera.

“Mas o solo não tem água extra para as árvores puxarem”, acrescentou.

Essas condições mais áridas tornam os incêndios mais prováveis, o que por sua vez pode secar a floresta ainda mais. À medida que a água se torna mais escassa, as próprias florestas, juntamente com alguns dos ecossistemas mais biodiversos da Terra que elas sustentam, podem estar em perigo.

“Nosso estudo mostra que a demanda está aumentando e a oferta está diminuindo”, disse Saatchi, “e, se isso continuar, a floresta pode não ser mais capaz de se sustentar”.

Como disse o jornalista Marcelo Leite no Twitter, os resultados deste trabalho são muito importantes: podemos estar observando o início da ladeira que levaria a Amazônia a ressecar-se, ficando mais parecida com uma savana. O famigerado “dieback”, espécie de colapso do bioma.

A matéria é da Mongabay.

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Este artigo foi publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Amazônia em chamas: desmatamento bate recorde, enquanto degradação avança

desmate 0Mosaico de imagens com visualização (em amarelo) do total desmatado. Fonte: INPE.

O governo Bolsonaro bem que tentou esconder o sucesso de sua política de desmanche ambiental que ajudou a turbinar os dados de desmatamento na Amazônia. Mas hoje em tom quase apologético (só de fachada, é claro), o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, deu a conhecer os dados de desmatamento no bioma amazônico para os últimos 12 meses (ver figura abaixo).

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Os número revelados pelo governo Bolsonaro revelam que cerca de 10,000 km2 de florestas foram derrubadas para dar vazão ao avanço de várias commodities, incluindo a soja e a carne bovina.  Esse valor é um recorde que só perde para os números acumulados em 1995 e 1998.

Ricardo Salles rapidamente ofereceu uma série de promessas para restabelecer os sistemas de comando e controle que ele mesmo desmanchou para fazer frente a esse recorde pavoroso.  Entretanto,  é importante que ninguém caia nesse conto do vigário, pois a recente medida de liberar o plantio de cana-de-açúcar no bioma amazônico e a sinalização de que também vai ser suspensa a moratória da soja são indicativos do que o governo Bolsonaro realmente quer, qual seja, possibilitar ainda mais desmatamento na Amazônia.

Mas se os números de desmatamento já são alarmantes, é sempre importante lembrar que desmatamento (ou corte raso da floresta) é apenas a forma mais drástica de modificação da cobertura vegetal. É que outras formas igualmente importantes de alteração da paisagem florestal estão ocorrendo simultaneamente e de formas mais crípticas, incluindo a extração seletiva de madeira e o fogo. 

Entretanto, uma estratégia que é historicamente usada para esconder o “grande total” da alteração da cobertura vegetal na Amazônia tem sido  omitir os valores da degradação, como se fosse impossível separar cada uma dessas vertentes, o que obviamente se trata de uma falácia.

Gosto sempre de citar um artigo que foi publicado em 2013 pela revista International Journal of Remote Sensing onde, sob a liderança do professor da Universidade Nacional de Brasília (UNB), Eraldo Matricardi, um grupo de pesquisadores do qual participei, ofereceu cálculos bastante precisos sobre o impacto da extração de madeira e do fogo na degradação da floresta amazônica, valores esses que precisam ser acrescidos ao do desmatamento para que tenhamos uma fotografia completa das alterações. O problema é que isso não é feito, justamente para que se fique com a impressão de que só o desmatamento deve ou pode ser contabilizado como significante. E isto não é de forma alguma o caso.

Área degradada por queimadas (esquerda) e extração seletiva de madeira (direita). Fonte: Matricardi et al. 2013

Trocando em miúdos, ainda que os dados de desmatamento sejam impactantes, eles são apenas parte da explicação. Além disso, ainda que a relação entre avanço das formas de degradação e a ocorrência do desmatamento não seja necessariamente direta, há sim um processo de retroalimentação entre eles.  Assim, se a coisa parece preocupante com a contabilização do desmatamento, imaginem o que ruído que ocorrerá quando forem somadas todas as formas de degradação e o seu total acrescido aos valores totais do desmatamento.

E a questão da Amazônia parece definitivamente a confirmação daquela lei de Murphy que diz que “não há tão ruim que não possa piorar”….

Desmatamento na Amazônia vai ultrapassar os 10 mil km²

Estudo revela que incêndios foram causados por aumento da destruição da floresta. Medo de represálias leva alguns cientistas a não assinarem o documento

Queima-1Incêndios florestais na Amazônia, praga que se repete anualmente, estáão em ritmo acelerado em 2019 com aumento de grilagem e desmatamento (Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace)

Por Marizilda Cruppe para o Projeto Colabora

Poderia ser mais um artigo científico, fundamental para ajudar a sociedade a entender as recentes queimadas que acometeram a floresta amazônica. Não fosse um detalhe: a frase que encerra os agradecimentos finais. “Alguns colaboradores declinaram da autoria para manter o anonimato. Lamentamos que isso seja necessário e agradecemos a eles por sua importante contribuição.”

Tão grave quanto a projeção de que o desmatamento deve ultrapassar os dez mil quilômetros quadrados, a maior taxa registrada desde 2008, é ver cientistas precisarem esconder suas identidades por questões de segurança, com medo de represálias do governo.

“É chocante. Fiquei indignado de ver que isso tenha sido necessário” desabafa o inglês Jos Barlow, professor das universidades de Oxford e Lavras,  que liderou o estudo divulgado ontem, e que pesquisa as emissões de carbono na Floresta Amazônica brasileira há tempo suficiente para ter passado por quatro presidentes. Está no quinto. “Nunca vi nada parecido no Brasil. O país está seguindo as estratégias da extrema-direita. Não demite, mas torna a vida dos cientistas insuportável”.

Em março deste ano, Barlow assinou, com mais seis cientistas, um editorial no Jornal de Ecologia Aplicada da Sociedade Ecológica Britânica, fundada em 1913, que falava de países onde a influência científica e as liberdades acadêmica e pessoal foram comprometidas. O Brasil foi citado como um país com a liberdade acadêmica comprometida por medidas adotadas pelo governo Bolsonaro, como a extinção de órgãos que lideravam discussões internacionais sobre mudanças climáticas e de departamentos do Ministério do Meio Ambiente que tratavam do desmatamento.

Soja e fragmento de floresta em Belterra.

Foto Marizilda Cruppe/DivulgacãoAs plantações de soja estão entre os vilões do desmatamento na Amazônia. Foto Marizilda Cruppe/Rede Amazônia Sustentável

“Desmatamento e fogo andam de mãos dadas”

O artigo Clarifying Amazonia’s burning crisis (Esclarecendo a crise das queimadas na Amazônia) foi publicado ontem pelo periódico inglês Global Change Biology (versão original aqui), um dos maiores do mundo na área de meio ambiente. Os cientistas identificaram os diferentes tipos de incêndios, os agentes causadores e potencializadores e examinaram as possíveis soluções. O estudo se refere ao período de agosto deste ano quando ocorreu um pico de queimadas diretamente ligadas ao desmatamento. Erika Berenguer, cientista sênior das universidades de Oxford e Lancaster, pesquisa emissões de carbono na Amazônia há mais de uma década. Ela comenta sobre o principal resultado:

“Mostramos nesse estudo que os incêndios de 2019 são um reflexo do aumento do desmatamento, já que desmatamento e fogo andam de mãos dadas. Depois da floresta derrubada, ela continua existindo, só que no chão, morta. É aí que os invasores entram com o fogo, transformam tudo em cinzas para que a agricultura possa chegar”.

Para a brasileira radicada na Inglaterra o Brasil sabe como diminuir o desmatamento e tem essa capacidade “porque de 2004 a 2012 o desmatamento caiu 80%.” Ela lamenta que “pela primeira vez em dez anos o desmatamento pode chegar a dez mil quilômetros quadrados, o que parecia impensável que o Brasil voltasse a fazer.” E arremata “o país sabe o que e como fazer, o que falta é vontade política.”

São vários os agentes causadores apontados pelo estudo como governança fraca, rebanhos enormes e mal administrados, comércio ilegal de madeira e mudanças climáticas. Uma frouxidão do governo pode levar ao aumento do desmatamento que por sua vez é um gatilho para incêndios. As mudanças climáticas tornam as florestas mais quentes e secas e, por isso, mais propensas a incêndios fora do controle. Cada tipo de incêndio traz impactos diferentes. Um incêndio em área aberta pode matar o gado e acabar com plantações, enquanto incêndios florestais, mesmo de baixa intensidade, podem matar metade das árvores.

O estudo avaliou as alegações do governo Bolsonaro de que os incêndios de agosto eram “normais” e “abaixo da média histórica”. Os cientistas compararam dados públicos sobre queimadas e desmatamento e constataram que os incêndios deste ano foram os maiores desde 2010. E, se comparados ao mesmo período de 2018, os incêndios foram quase três vezes maiores.

Os cientistas apontam no estudo caminhos para a prevenção dos incêndios florestais que exigiriam ações do governo no combate ao desmatamento e ao comércio ilegal de madeira, pois mudanças no microclima tornam as florestas mais inflamáveis. Outra ação seria o monitoramento da intensidade da seca e o risco de incêndios com o apoio de brigadas de incêndio locais.

A taxa anual de desmatamento do período que compreende agosto de 2018 a julho de 2019 será divulgada na segunda-feira e os números do PRODES são ansiosamente aguardados porque os monitoramentos do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam para o maior desmatamento dos últimos 11 anos.

*Marizilda Cruppe tentou ser engenheira, piloto de avião e se encontrou mesmo no fotojornalismo. Trabalhou no Jornal O Globo um bom tempo até se tornar fotógrafa independente. Gosta de contar histórias sobre direitos humanos, gênero, desigualdade social, saúde e meio-ambiente. Fotógrafa para organizações humanitárias e ambientais. Em 2016 deu a partida na criação da YVY Mulheres da Imagem, uma iniciativa que envolve mulheres de todas as regiões do Brasil. Desde 2015 é nômade e vai onde a Fotografia a leva. Usa seu celular para fotografar as camas onde dorme nessa vida sem casa – já são 130 e contando!

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Projeto Colabora [Aqui!].

Ação de Bolsonaro e indústria de cana-de-açúcar ameaçam a Amazônia, Pantanal e o Clima Global

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Por Lucas Ferrante

Na última quarta-feira, dia 06 de novembro de 2019, o presidente Bolsonaro e os ministros Paulo Guedes, da Economia e Tereza Cristina, da Agricultura, assinaram em conjunto um decreto que extingue o zoneamento ambiental de cana-de-açúcar para a Amazônia e Pantanal. Esta medida ameaça drasticamente estes biomas, afetando a biodiversidade e serviços ecossistêmicos, com impacto que se estende a outras áreas do país.

Em 2018 o Senado Brasileiro havia cogitado revogar o decreto de 2009 que estabelecia o zoneamento de cana-de-açúcar para a Amazônia e Pantanal, sendo questionada até mesmo pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA). Para evitar este impacto, eu e o prêmio Nobel Philip Fearnside publicamos na revista Science, revista com maior impacto cientifico no mundo as consequências desastrosas que a liberação da cana de açúcar traria para a Amazônia, divulgando a senadores que pautaram contra a liberação do cultivo em 2018.

O presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar, Evandro Gussi, publicou uma nota recente no site da UNICA, justificando sem nenhum respaldo cientifico e ignorando todas as pesquisas sobre o tema que não seria mais necessário o zoneamento ambiental para cana-de-açúcar na Amazônia e Pantanal, sob a justificativa que a Renovabio – a nova Política de Biocombustíveis aprovada em 2017, seria suficiente para mitigar estes impactos, o que não apenas é claramente uma afirmação fantasiosa e delirante e não apenas sem nenhum respaldo cientifico, mas o contrário do que a ciência tem mostrado, uma vez que em 2018 a carta publicada na revista Science e com revisão de outros cientistas experts do assunto, levanta todos os impactos que a liberação do plantio de cana-de-açúcar terá nestes biomas sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos, mas também sobre o abastecimento humano e a própria agricultura das regiões Sul e Sudeste do país, que serão causados pelo colapso dos serviços ambientais da Amazônia.

Definitivamente, como publicado na revista Science, que é posterior à aprovação do Renovabio, fica claro através das evidências científicas apresentadas que a cana-de-açúcar na Amazônia e Pantanal irá gerar impactos sem precedentes, onde de forma alguma podemos considerar que os biocombustíveis brasileiros possam ser considerados “limpos” e não estejam associados a uma cadeia de desmatamento e degradação ambiental da Amazônia com a revogação deste zoneamento. Além disso, este é mais um entrave para o Brasil frente ao acordo de Paris, que visa mitigar as mudanças climáticas. Desta forma, países da União Europeia que somente em 2018 importaram mais de 43 milhões de litros de etanol brasileiro, devem reavaliar as importações do produto brasileiro pelo impacto ambiental que sua produção terá sobre o clima global através da destruição da Floresta Amazônica.

Canavial da empresa Jayoro, em Presidente Figueiredo (Foto: Thaís Brianezi/Repórter Brasil)

Este é um crime de lesa pátria que afeta não apenas a maior floresta tropical do mundo e sua biodiversidade, mas também topa a capacidade agrícola do Brasil.

Integralmente, segue em português e com referências bibliográficas a carta publicada na revista Science em 2018, sendo posterior a criação da Renovabio e demostrando os impactos da liberação da cana de açúcar para a Amazônia e Pantanal, além de consequências para a própria agricultura brasileira.

Para apoiar a revogação do decreto que libera o cultivo da cana-de-açúcar na Amazônia, você pode assinar esta petição aqui

Em 30 de março de 2018, a revista Science publicou o artigo de Lucas Ferrante e Philip Martin Fearnside sobre a votação no plenário do Senado sobre o projeto de lei para abrir a Amazônia para plantio de cana-de-açúcar. O artigo foi republicado pela Amazônia Real com o título: Cana-de-Açúcar da Amazônia: Uma Ameaça à Floresta .

Notas:

1. Ferrante, L. & P.M. Fearnside. 2018. Amazon sugarcane: A threat to the forest; Sciencemag.

2. P. M. Fearnside, in Oxford Research Encyclopedia of Environmental Science, H. Shugart, Ed. (Oxford University Press, New York, 2017).

3. Brasil, Presidência da República, Decreto Nº 6.961, DE (17 de setembro de 2009).

4. Food and Agriculture Organization of the United Nations, Commodities by Country (2018).

5. P. M. Fearnside, in Biofuels and Neotropical Forests: Trends, Implications, and Emerging Alternatives, E.J. Garen, J. Mateo-Vega, Eds., (Environmental Leadership & Training Initiative, Yale University, New Haven, CT, 2009), p. 29–36.

6. L. Ferrante et al., J. Biogeogr. 44, 1911 (2017).

7. Brasil, Senado Federal, Projeto de Lei do Senado N° 626 (2011).

8. P. M. Fearnside. Ciênc. Hoje. 34, 63 (2004).

9. D. C. Zemp et alAtmosp. Chem. Phys. 14, 13337 (2014).

10. IBGE, Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (2018).

11. IBGE, Coordenação de População e Indicadores Sociais, Estimativas da população residente para os municípios e para as unidades da federação brasileiros com data de referência em 1º de julho de 2017 (2017).


A fotografia acima mostra a produção de cana-de-açúcar no interior do Amazonas

(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Lucas Ferrante possui formação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL) em Minas Gerais, Mestrado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e atualmente é Doutorando em Biologia (Ecologia) também no INPA. É pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Serviços Ambientais da Amazônia (INCT-SERVAMB). Desenvolve pesquisas e popularização da ciência sobre a influência das ações humanas sobre a estrutura, dinâmicas, clima e biodiversidade de paisagens, em especifico florestas tropicais, bem como povos tradicionais que vivem na floresta, tendo como intuito minimizar os danos causados pela mudança da paisagem, expansão agropecuária e mudanças climáticas sobre pessoas, fauna e serviços ecossistêmicos.  ( lucasferrante@hotmail.com).

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Este artigo foi publicado inicialmente pelo site Amazônia Real [Aqui!].

Science expõe os perigos da liberação da cana-de-açúcar na Amazônia

cana 2Para ambientalistas, a aprovação da PL 626/2011 empurraria a agropecuária para as florestas, aumentando assim, o desmatamento. Acima, cultura de cana-de-açúcar, em São Paulo. Foto: Secretaria de Agricultura e Abastecimento/SP.

Por Carolina Lisboa para o ((o))eco

O projeto de lei que libera a expansão do cultivo de cana-de-açúcar na Amazônia Legal (PLS 626/2011) foi retirado da pauta do Senado desta terça-feira 27, a pedido do autor da proposta, senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), após ser adiada por duas vezes por falta de quórum. Ainda não está definida nova data para a análise do projeto, que vem repercutindo negativamente no Brasil e no exterior. Na segunda-feira, 26 de março, foi publicada na Revista Science – a segunda revista científica do mundo em termos de impacto – uma carta alertando para o perigo que esta liberação representaria para a integridade ecossistêmica da Amazônia.

O Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar. As áreas para lavoura de cana na Amazônia e no Pantanal foram restritas desde setembro de 2009 pelo Decreto Federal nº 6961, que estabeleceu o zoneamento agroecológico da lavoura de cana-de-açúcar. É esse zoneamento que o Projeto de Lei, que circula no Congresso Nacional desde 2011, pretende alterar, liberando o cultivo da cana nos nove estados da Amazônia Legal.

De autoria de Lucas Ferrante, doutorando do Programa de Pós Graduação em Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, e de seu orientador, Philip Fearnside, pesquisador do INPA e membro do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), a carta na revista Science esclarece que o projeto prejudica a biodiversidade e a produção agrícola brasileira. “A carta vem trazer uma informação mais científica, pois até então tínhamos somente movimentações ativistas, que alertavam que o cultivo de cana era muito danoso e teria consequências, mas não diziam quais seriam essas consequências. Já sabemos, por estudos realizados em outros Biomas, que o dano causado pelo cultivo de cana-de-açúcar não fica somente no local, mas se estende para florestas adjacentes. É um fenômeno muito conhecido na Ecologia, chamado efeito de borda, que pode penetrar até um quilômetro dentro de áreas florestais, depauperando a estrutura dessas florestas e causando impactos na fauna. A introdução dessa cultura de cana em áreas degradadas ameaçaria, portanto, as florestas adjacentes. Além disso, devemos ressaltar a importância da floresta como um todo, para a biodiversidade e para os serviços ecossistêmicos que regulam o clima do Brasil e de toda a América do Sul. Países como a Argentina, por exemplo, são altamente dependentes da umidade vinda da Amazônia, assim como os estados brasileiros mais populosos do Sudeste e Sul, que já enfrentaram secas críticas e terão suas populações e produção agrícola prejudicadas”, esclareceu Lucas Ferrante.

“Outro fator preocupante é o desmatamento, pois sabemos pela experiência anterior como o avanço da soja que pastagens e outros cultivos seriam substituídos, neste caso pela cana, e a pecuária migraria para outras áreas. A cana em escala para biocombustíveis é plantada por grandes empresas ou por grandes produtores individuais. Se estes compram terras de pequenos agricultores, cria uma nova onda de migração e de criação de assentamentos, com mais desmatamento. Se as terras são compradas de pecuaristas maiores, os fazendeiros vão usar o dinheiro da venda para comprar áreas maiores de terra barata mais afastadas para estabelecer novas fazendas na floresta, com mais desmatamento. Assim, a abertura para cana estimularia ainda mais o desmatamento em novas áreas da Amazônia, além do seu impacto nos locais efetivamente plantadas com cana”, acrescentou Philip Fearnside.

A publicação, intitulada “Amazon sugarcane: A threat to the forest”, estava prevista para o dia 30 de março, mas a Science adiantou a publicação online para o dia 26 para coincidir com a discussão e votação do polêmico projeto, pautada para a sessão do dia 27, que foi adiada por falta de quórum. Entretanto, uma versão atualizada será publicada na revista impressa no dia 30. Segue a tradução em português do texto original da carta, publicado originalmente aqui:

A vegetação da Amazônia varia de florestas densas a áreas de savana, e as florestas da região e sua biodiversidade são vulneráveis ao avanço contínuo das mudanças no uso da terra para agricultura e pecuária (2). No Brasil, o cultivo de cana-de-açúcar é atualmente proibido nos Biomas do Pantanal e Amazônia (3). A cana-de-açúcar está entre as culturas com os maiores aumentos de produção na última década, e o Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura-FAO (4).

As plantações de cana estão projetadas para aumentar devido à demanda por biocombustíveis (5). Já têm demonstrado que as plantações de cana-de-açúcar ameaçam a biodiversidade, com seus efeitos se estendendo além das áreas cultivadas até as florestas adjacentes (6).

O Senado Federal agendou uma decisão para 2018 sobre um projeto de lei que propõe a abertura da região amazônica à cana-de-açúcar (7). Essa cultura seria supostamente plantada em áreas degradadas, em pastagens naturais da Amazônia e nos “hotspots” de biodiversidade no Cerrado. Devido aos possíveis efeitos catastróficos sobre a floresta amazônica e sobre a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos da América do Sul e a produtividade agrícola do Brasil, instamos o Senado a não aprovar esse projeto.

A ameaça da cana-de-açúcar é apenas uma das muitas causas de destruição da Amazônia (5). As florestas amazônicas desempenham um papel importante no clima da América do Sul, com contribuições substanciais de precipitação para a agricultura no sudeste do Brasil (8–9). Em médio e longo prazo, a perda florestal ameaçaria a própria produção agrícola e de biocombustíveis do Brasil, sendo a área com maior produção agrícola localizada no sul e sudeste do País (10), que depende do vapor de água da região amazônica (8–9).

Os tomadores de decisão políticos e as instituições nacionais e internacionais que financiam grandes empresas agrícolas não devem ser enganados pelo doce sabor de uma nova fronteira agrícola a ser explorada. Eles devem ser orientados pela necessidade de evitar a perda da biodiversidade da Amazônia, do patrimônio genético e dos valiosos serviços ecossistêmicos, incluindo a regulamentação climática para a área com a maior população e produção agrícola da América do Sul (10–11).

Notas:

Ferrante, L. & P.M. Fearnside. 2018. Amazon sugarcane: A threat to the forest; Sciencemag.

P. M. Fearnside, in Oxford Research Encyclopedia of Environmental Science, H. Shugart, Ed. (Oxford University Press, New York, 2017).

Brasil, Presidência da República, Decreto Nº 6.961, DE (17 de setembro de 2009).

Food and Agriculture Organization of the United Nations, Commodities by Country (2018).

P. M. Fearnside, in Biofuels and Neotropical Forests: Trends, Implications, and Emerging Alternatives, E.J. Garen, J. Mateo-Vega, Eds., (Environmental Leadership & Training Initiative, Yale University, New Haven, CT, 2009), p. 29–36.

L. Ferrante et al., J. Biogeogr. 44, 1911 (2017).

Brasil, Senado Federal, Projeto de Lei do Senado N° 626 (2011).

P. M. Fearnside. Ciênc. Hoje. 34, 63 (2004).

D. C. Zemp et al. Atmosp. Chem. Phys. 14, 13337 (2014).

IBGE, Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (2018).

IBGE, Coordenação de População e Indicadores Sociais, Estimativas da população residente para os municípios e para as unidades da federação brasileiros com data de referência em 1º de julho de 2017 (2017).”

Na segunda-feira 26, outros veículos de comunicação internacionais, como The Guardian, também repercutiram a tentativa de liberar a cana na região. A Fundação DiCaprio, do ator Leonardo Di Caprio, publicou em uma rede social uma crítica ao projeto: “Isso será trágico para as florestas do Brasil e para o clima”.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo ((o))eco [Aqui!].

 

The Guardian revela que erro de projeto poderá levar a desastre devastador em Belo Monte

Projeto de Belo Monte tem erro de design e ‘representa séria ameaça à vida’

A Norte Energia enfrenta a escolha de enfraquecer a barreira de 14 km ou potencialmente devastar um hotspot de biodiversidade

Por Jonathan Watts de Belo Monte 

O maior projeto hidrelétrico construído na Amazônia brasileira tem uma falha de design que representa uma ameaça “muito séria” à vida humana e a ecossistemas de importância global, de acordo com documentos e testemunhos de especialistas recebidos pelo jornal “The Guardian”.

Os estudos sugerem que os engenheiros não conseguiram antecipar o impacto da escassez de água na barragem de Pimental, em Belo Monte, que foi fechada e transformada em barreira. Isso está forçando os operadores a escolher entre um enfraquecimento estrutural da barreira de terra compactada de 14 km de largura e uma realocação de água no reservatório ou no Rio Xingu, que abriga comunidades indígenas, aldeias de pescadores e algumas das mais ameaçadas do mundo. espécies.

Um analista disse que havia risco de ruptura e, mesmo antes da publicação do relatório, os promotores federais estavam se preparando para pedir a suspensão do projeto. Eles também pretendem apelar ao governo brasileiro por ajuda humanitária de emergência para apoiar populações ribeirinhas que sofreram um declínio devastador da população de peixes dos quais dependem para nutrição e renda.

Após décadas de resistênciae R$ 40 bilhões  (8 bilhões de dólares) em investimentos, a quarta maior usina hidrelétrica do mundo deve ter a última de suas 18 turbinas instaladas este mês, mas os níveis de água abaixo do previsto nos reservatórios da barragem criaram um imprevisto problema estrutural, além de preocupações ambientais, sociais e econômicas de longa data.

mapa belo

O “The Guardian” e o El País  tiveram acesso a um relatório recente da Norte Energia alertando que a queda nos níveis de água nas últimas semanas expôs uma seção vulnerável da parede da barragem de Pimental, separada da barreira que abriga a maioria das turbinas, a ondas que às vezes se formam durante tempestades tropicais ou ventos fortes soprando através do reservatório.

O documento de 11 de outubro – ação urgente para controlar o nível do reservatório da UHE Belo Monte Xingu – é assinado pelo CEO da Norte Energia e endereçado ao chefe da agência nacional de água. Ele afirma que o nível da água caiu no dia anterior para 95,2 metros críticos, o que representa um risco de que as ondas “atinjam áreas da barragem não protegida por rochas”. Ele pede permissão para mais água do reservatório intermediário, um movimento que colocaria mais pressão em uma hidrologia já tensa.

Após dois desastres mortais de barragens de rejeitos nos últimos anos em Brumadinho e Mariana, a situação incerta levou os especialistas a convidar as autoridades brasileiras a aumentar o monitoramento da barragem, tomar medidas corretivas e esclarecer a magnitude do risco para o público.

André Oliveira Sawakuchi, do Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental da Universidade de São Paulo, disse que não está claro se os danos estruturais podem ocorrer dentro de semanas, meses ou anos, mas o pedido de ação imediata do relatório sugeriu que a ameaça era muito séria.

Suas preocupações foram ecoadas por Francisco del Moral Hernandez, especialista em ciências da energia que coordenou um painel de especialistas em Belo Monte em 2009. “Sempre soubemos que esse projeto é ineficiente do ponto de vista da geração de energia. O que não imaginamos é a fraqueza da engenharia civil ”, afirmou. “Se eu estivesse morando a jusante da barragem, me mudaria para o rio … É absurdo que isso não estivesse previsto.”

belo 1Partes do rio Xingu já são praticamente inavegáveis. Foto: Fábio Erdos / The Guardian

O relatório diz que o problema surgiu como resultado de fluxos de água incomumente baixos no reservatório, com vários dias no início de outubro quando caiu para 750 metros cúbicos por segundo. Isso está substancialmente abaixo do mínimo de 1.000 metros cúbicos por segundo que os documentos de planejamento dizem ser necessário para garantir a qualidade da água nos reservatórios e descarga a jusante suficiente para garantir um ecossistema saudável, inclusive para um refúgio de tartarugas, e navegação de comunidades indígenas e ribeirinhas.

Hernandez e Sawakuchi disseram que os planejadores estavam otimistas demais, porque dados históricos mostraram que o rio Xingu estava mais baixo em pelo menos quatro ocasiões durante os 50 anos anteriores ao início da construção. Prevê-se que as mudanças climáticas cortem os fluxos de água em cerca de 30% até 2050. “É muito estranho que esses problemas não estivessem previstos”, disse Sawakuchi. “Os riscos estruturais são uma surpresa.”

O projeto de Belo Monte tem sido afetado por problemas desde o seu início, durante a era da ditadura militar brasileira. Comunidades indígenas e ribeirinhas se aliaram ao sistema de barragens, que bloqueia um dos maiores afluentes da Amazônia com 2,1 milhões de toneladas de concreto e 79,2 milhões de metros cúbicos de terra.

belo 2Um pescador local guarda peixes mortos que encontrou nas margens do rio Xingu, no estado do Pará, Brasil. 5 de novembro de 2019. Fotografia: Fábio Erdos / The Guardian

Ambientalistas e cientistas alertam que isso iria devastar um dos hotspots de biodiversidade mais exclusivos do mundo. Os economistas questionaram a viabilidade de um esquema pago com fundos de pensão e receita tributária, mas projetado para funcionar com apenas 40% de sua capacidade de 11.200 MW. Os promotores envolvidos na investigação de corrupção conhecida como “Lava Jato” descobriram que os empreiteiros de Belo Monte recebiam taxas inflacionadas em troca de propinas a partidos políticos.

 

Ativistas disseram que as autoridades ambientais emitiram uma licença para a barragem, apesar dos avisos científicos e das preocupações de sua própria equipe técnica. “À medida que os detalhes do escândalo de corrupção se desdobram, as motivações subjacentes a essas decisões imprudentes se tornaram abundantemente claras, bem como suas conseqüências trágicas”, disse Brent Millikan, da International Rivers.

belo 3Os níveis de água no rio Xingu já estão tão baixos que os habitantes locais precisam arrastar os barcos por algumas das áreas mais rasas. Foto: Fábio Erdos / The Guardian

Em uma pequena ilha no rio, mais de 50 moradores chegaram de barco na semana passada para testemunhar os problemas causados pela barragem. Além de aumentar a fome e diminuir a renda, vários disseram que sofreram depressão como resultado do súbito colapso da paisagem ribeirinha com a qual cresceram. “Tudo está piorando”, disse Sarah Rodrigues de Lima. “Eu pesco aqui há 35 anos, mas todos os peixes fugiram. O rio está secando.

Outros descreveram como costumavam capturar o Filhote, uma das espécies mais apreciadas do rio, pesando mais de 100 kg antes da barragem, mas agora raramente capturam um dos 20 kg. O próximo ano será ainda pior. Este será o início de um novo sistema de gestão da água que priorizará a barragem e o ecossistema em anos alternados. Mesmo no seu melhor cenário, a volta grande terá menos água de pico das chuvas do que durante a seca severa de 2016, que matou tantos peixes que os habitantes locais chamam de “ano do fim do mundo”.

O novo sistema “transformará o rio em cemitério”, disse Cristiane Costa, bióloga que trabalha no escritório do promotor público. “Eles estão gerando energia às custas do ecossistema e das pessoas.”

O aquecimento global aumentará a luta pela água. O governo, no entanto, quer mais exploração dos recursos da Amazônia. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que planeja participar da cerimônia de conclusão de Belo Monte, enfraqueceu as proteções ao meio ambiente e às comunidades indígenas. Os políticos locais o instarão a avançar com outro megaprojeto na volta grande, uma nova mina de ouro gigante chamada Belo Sun, que seria movida pela barragem.

A Norte Energia afirmou em comunicado que “cumpre rigorosamente” as condições de sua licença ambiental. A agência nacional de água e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis não responderam ao pedido de comentário do  “The Guardian”.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo jornal britânico “The Guardian” [Aqui!].

Bolsonaro autoriza plantio de cana na Amazônia e no Pantanal

Após incentivar queimadas, Bolsonaro anuncia novo ataque à Amazônia e outros biomas: suas árvores poderão ser substituídas por extensos canaviais

canaviaisOs canaviais vão empurrar o gado para novas áreas de floresta, estimulando a devastação, o conflito, e ainda trarão as chuvas de agrotóxicos

Por Cida Oliveira para a Rede Brasil Atual

São Paulo — Depois de admitir a investidores árabes que “potencializou” as queimadas na Amazônia por discordar de políticas ambientais de governos anteriores, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) decretou que a região – bem como o Pantanal e a Bacia do Alto Paraguai, na mesma região – está liberada para o plantio da cana. O Decreto 10.084, de 5 de novembro, publicado hoje (6) no Diário Oficial da União, revoga o Decreto 6.961, de setembro de 2009, em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva instituiu o zoneamento para o plantio da cana e as operações de financiamento ao setor sucroalcooleiro. Além de Bolsonaro, assinam o decreto a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, e o ministro da Economia, Paulo Guedes.

A publicação coincide com os novos dados sobre o papel dos biocombustíveis na redução das emissões brasileiras de carbono em 2018, divulgados hoje pelo Observatório do Clima na Conferência Brasileira sobre Mudança do Clima, realizada em Recife.

“Com seu ato, os dois ministros, tidos como a ‘ala razoável’ do governo, expõem dois biomas frágeis à expansão predatória e economicamente injustificável da cana e jogam na lama a imagem internacional de sustentabilidade que o etanol brasileiro construiu a duras penas”, afirmou o Observatório por meio de nota.

A medida foi repudiada pelo ex-ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que chamou Bolsonaro de “ecocida”.

minc cana

Sonho antigo

A liberação do plantio de cana na floresta é objetivo antigo do agronegócio que sustenta o governo e que tem na ministra da Agricultura, a “musa do veneno“, seu mais forte representante. Em março de 2018, mais de 60 entidades ambientalistas, de direitos humanos e de defesa da reforma agrária, entre outras, assinaram manifesto contra a aprovação do Projeto de Lei do Senado (PLS) 626/2011, de Flexa Ribeiro (PSDB-PA), que libera o cultivo de cana de açúcar na Amazônia Legal.

Para essas entidades, permitir o cultivo de cana na região, mesmo que em terras degradadas, é um erro. “Significa acrescentar mais um motor ao crescente desmatamento. Para dar lugar à lavoura, a pecuária será empurrada para novas áreas, estimulando a devastação da floresta, a violência contra as populações locais e a injustiça social. Além disso, a área já liberada para a cana-de-açúcar no resto do país é do tamanho do território de Minas Gerais.”

A produção de cana também está associada à degradação do solo e dos ecossistemas. E o uso intensivo de agrotóxicos, principalmente por meio da pulverização aérea, tem aumentado o número de intoxicações agudas, crônicas e o aumento de casos de diversos tipos de câncer, malformações congênitas e outras doenças graves.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Nota do Observatório do Clima sobre o fim do zoneamento da cana

Governo joga etanol brasileiro na lama ao revogar zoneamento da cana

cana

Em nova ação de desmonte ambiental para atender aos lobbies paroquiais mais atrasados, o governo Bolsonaro revogou nesta quarta-feira (6) o decreto 6.961/2009, que há uma década protege a Amazônia e o entorno do Pantanal da expansão da cana-de-açúcar.

O zoneamento da cana, formalmente defendido até mesmo pela Unica, a união da indústria do setor, era o principal diferencial ambiental do biocombustível brasileiro. Foi esse decreto que impediu que as exportações de etanol do país sofressem restrições internacionais como as impostas ao biodiesel da Indonésia, ligado ao desmatamento.

A revogação desta quarta-feira, assinada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, é publicada no mesmo dia da Conferência Brasileira sobre Mudança do Clima, em que o Observatório do Clima lança novos dados mostrando o papel fundamental que os biocombustíveis tiveram em evitar uma forte alta nas emissões brasileiras de carbono em 2018.

Com seu ato, os dois ministros, tidos como a “ala razoável” do governo, expõem dois biomas frágeis à expansão predatória e economicamente injustificável da cana e jogam na lama a imagem internacional de sustentabilidade que o etanol brasileiro construiu a duras penas.

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Esta nota foi originalmente publicada pelo Observatório do Clima [Aqui!].