Amazônia em chamas: desmatamento bate recorde, enquanto degradação avança

desmate 0Mosaico de imagens com visualização (em amarelo) do total desmatado. Fonte: INPE.

O governo Bolsonaro bem que tentou esconder o sucesso de sua política de desmanche ambiental que ajudou a turbinar os dados de desmatamento na Amazônia. Mas hoje em tom quase apologético (só de fachada, é claro), o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, deu a conhecer os dados de desmatamento no bioma amazônico para os últimos 12 meses (ver figura abaixo).

desmate 1

Os número revelados pelo governo Bolsonaro revelam que cerca de 10,000 km2 de florestas foram derrubadas para dar vazão ao avanço de várias commodities, incluindo a soja e a carne bovina.  Esse valor é um recorde que só perde para os números acumulados em 1995 e 1998.

Ricardo Salles rapidamente ofereceu uma série de promessas para restabelecer os sistemas de comando e controle que ele mesmo desmanchou para fazer frente a esse recorde pavoroso.  Entretanto,  é importante que ninguém caia nesse conto do vigário, pois a recente medida de liberar o plantio de cana-de-açúcar no bioma amazônico e a sinalização de que também vai ser suspensa a moratória da soja são indicativos do que o governo Bolsonaro realmente quer, qual seja, possibilitar ainda mais desmatamento na Amazônia.

Mas se os números de desmatamento já são alarmantes, é sempre importante lembrar que desmatamento (ou corte raso da floresta) é apenas a forma mais drástica de modificação da cobertura vegetal. É que outras formas igualmente importantes de alteração da paisagem florestal estão ocorrendo simultaneamente e de formas mais crípticas, incluindo a extração seletiva de madeira e o fogo. 

Entretanto, uma estratégia que é historicamente usada para esconder o “grande total” da alteração da cobertura vegetal na Amazônia tem sido  omitir os valores da degradação, como se fosse impossível separar cada uma dessas vertentes, o que obviamente se trata de uma falácia.

Gosto sempre de citar um artigo que foi publicado em 2013 pela revista International Journal of Remote Sensing onde, sob a liderança do professor da Universidade Nacional de Brasília (UNB), Eraldo Matricardi, um grupo de pesquisadores do qual participei, ofereceu cálculos bastante precisos sobre o impacto da extração de madeira e do fogo na degradação da floresta amazônica, valores esses que precisam ser acrescidos ao do desmatamento para que tenhamos uma fotografia completa das alterações. O problema é que isso não é feito, justamente para que se fique com a impressão de que só o desmatamento deve ou pode ser contabilizado como significante. E isto não é de forma alguma o caso.

Área degradada por queimadas (esquerda) e extração seletiva de madeira (direita). Fonte: Matricardi et al. 2013

Trocando em miúdos, ainda que os dados de desmatamento sejam impactantes, eles são apenas parte da explicação. Além disso, ainda que a relação entre avanço das formas de degradação e a ocorrência do desmatamento não seja necessariamente direta, há sim um processo de retroalimentação entre eles.  Assim, se a coisa parece preocupante com a contabilização do desmatamento, imaginem o que ruído que ocorrerá quando forem somadas todas as formas de degradação e o seu total acrescido aos valores totais do desmatamento.

E a questão da Amazônia parece definitivamente a confirmação daquela lei de Murphy que diz que “não há tão ruim que não possa piorar”….

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