Desmatamento na Amazônia: depois da Alemanha, Noruega suspende repasse de recursos por “quebra de contrato”

bolsonaro-salles-coletivaAlta explosiva do desmatamento na Amazônia causada pelas políticas anti-ambientais de Jair Bolsonaro e Ricardo Salles ameaça a viabilidade do agronegócio brasileiro.  Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O desprezo demonstrado pelo presidente Jair Bolsonaro em relação à decisão do governo alemão de suspender o financiamento de projetos de preservação na Amazônia por causa do aumento explosivo das taxas de desmatamento agora deverá ser também dirigido à Noruega. É que a mídia norueguesa está informando que o governo norueguês decidiu suspender o repasse de R$ 134 milhões por causa de uma suposta quebra de contrato em relação à proteção das florestas tropicais localizadas na porção brasileira da bacia Amazônica.

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Manchete do “Dagens Næringsliv” informa que a Noruega suspende envio de recursos para a preservação de florestas no Brasil

Em reportagem publicada pelo jornal “Dagens Næringsliv” , o ministro norueguês do Clima, Ola Elvestuen (V), declarou que a Noruega decidiu reter os recursos financeiros prometidos financiar medidas de controle de desmatamento. 

Além disso,  Elvestuen teria afirmado que “o Brasil rompeu o acordo com a Noruega e a Alemanha desde que o país fechou a diretoria do Fundo Amazônia e o Comitê Técnico, o que o não poderia ter sido feito sem acordo com a Noruega e a Alemanha“.

Outra declaração significativa do ministro do Clima da Noruega seria no sentido de que o Brasil está mostrando “que eles não querem mais parar o desmatamento“, o que seria “muito sério para toda a luta em prol do controle das mudanças climáticas“.

É provável que o presidente Jair Bolsonaro venha novamente a público para desdenhar da decisão norueguesa, e ainda deverá sugerir que a Noruega invista estes recursos na preservação de suas próprias reservas florestais.  

O problema, na verdade, repousará nas mãos do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, que foi quem deu a munição necessária para os noruegueses suspenderem o envio dos recursos destinados a fundo perdido para uso na proteção das florestas amazônicas, quando tentou interferir no funcionamento do Fundo Amazônia.

Aos que não entenderam o real problema que está sendo colocado na mesa por alemães e noruegueses, sugiro a leitura da entrevista dada pelo ex-ministro e latifundiário Blairo Maggi ao jornal Valor Econômico ele apontou para o risco do agronegócio nacional voltar à estaca zero por causa da retórica anti-ambiental do governo Bolsonaro. O fato é que a decisão norueguesa de suspender o repasse dos recursos do Fundo Amazônia é provavelmente apenas um primeiro passo para um amplo boicote aos produtores brasileiros associados ao desmatamento da Amazônia. Se isso acontecer, os latifundiários que apoiarem e ajudarem a eleger Jair Bolsonaro só terão a si mesmos para culpar.

 

 

Rondônia: desmatamento, fogo e fumaça

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Uma parte significativa da minha produção científica foi desenvolvida a partir de quase duas décadas de pesquisas de campo no estado de Rondônia. Ao longo desse tempo vi a paulatina e cada vez mais rápida substituição da florestal tropical por imensos campos de pastagem e, no último período, por uma combinação delas com “plantations” de soja. O resultado vinha sendo uma devastação paulatina, mas em ritmo constante, que já produziu mudanças detectáveis no clima daquela parte da Amazônia brasileira.

Entretanto, os relatos que venho tendo de colegas pesquisadores que estão ou estiveram em Rondônia é que em 2019 o ritmo do desmatamento se acelerou tremendamente, ameaçando principalmente unidades de conservação e terras indígenas, principalmente a que abriga o povo Uru-Eu-Wau-Wau.

Agora, graças à disseminação acelerada de imagens, tive acesso ao vídeo abaixo que foi postado por um praticante de voo livre que vive em Rondônia.  O vídeo mostra toda a região central de Rondônia completamente tomada por fumaça que, como o seu produtor e narrador informa, é oriunda de milhares de pontos de queimadas o que pode parecer exagerado, mas parece ser correto em função do volume de material particulado no ar.

Quando essas imagens circularem pelo mundo toda a retórica de acobertamento do avanço agressivo da franja de desmatamento que o governo Bolsonaro pôs em campo, e que resultou na demissão do físico Ricardo Galvão da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), irá ser totalmente desacreditada.

E como já declarou em entrevista ao jornal Valor Econômico o ex-ministro da Agricultura e latifundiário Blairo Maggi, toda essa situação levará o agronegócio brasileiro à estaca zero.  Mas aparentemente parece que vai ser preciso um boicote internacional às commodities brasileiras para que as piadas de botequim do presidente Jair Bolsonaro sejam substituídas por políticas responsáveis que combinem os interesses econômicos com a preservação ambiental.

“Pegue essa grana e refloreste a Alemanha”, diz Bolsonaro a Merkel

Presidente volta a minimizar congelamento de financiamento alemão a projetos de proteção da Amazônia. Debate entre Brasília e Berlim se intensificou após divulgação de dados do Inpe sobre o desmatamento no Brasil.

bolso“Lá tá precisando muito mais do que aqui”, diz Bolsonaro sobre dinheiro da Alemanha. Reuters/ A.Machado

O presidente Jair Bolsonaro voltou a criticar a Alemanha nesta quarta-feira (14/08), após o país europeu anunciar o congelamento de financiamentos de projetos de proteção à Floresta Amazônica.

“Eu queria até mandar recado para a senhora querida [chanceler federal da Amazônia] Angela Merkel, que suspendeu 80 milhões de dólares para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, tá ok? Lá tá precisando muito mais do que aqui”, disse o presidente a jornalistas enquanto comentava o processo de escolha do novo procurador-geral da República

No último sábado, a ministra alemã do Meio Ambiente, Svenja Schulze, afirmou que o governo decidiu suspender o financiamento de projetos para a proteção da floresta e da biodiversidade uma vez que “a política do governo brasileiro na Região Amazônica deixa dúvidas se ainda se persegue uma redução consequente das taxas de desmatamento”.

Inicialmente, a verba suspensa é de 35 milhões de euros (cerca de 155 milhões de reais), proveniente da iniciativa para proteção climática do Ministério do Meio Ambiente em Berlim.

Após a declaração da ministra, Bolsonaro reagiu, dizendo que “a Alemanha não vai mais comprar a Amazônia, vai deixar de comprar a prestações a Amazônia. Pode fazer bom uso dessa grana. O Brasil não precisa disso”.

Na segunda-feira, a ministra alemã rebateu a declaração de Bolsonaro. “Isso mostra que estamos fazendo exatamente a coisa certa”, disse Schulze. “Apoiamos a região amazônica para que haja muito menos desmatamento. Se o presidente não quer isso no momento, então precisamos conversar. Eu não posso simplesmente ficar dando dinheiro enquanto continuam desmatando”, afirmou a ministra à DW.

A verba congelada não faz parte dos financiamentos do governo alemão ao Fundo Amazônia, no qual o Ministério alemão da Cooperação Econômica injetou até agora 55 milhões de euros (por volta de 245 milhões de reais). Com um volume de quase 800 milhões de euros (por volta de 3,5 bilhões de reais), a maior parcela do Fundo é financiada pela Noruega e, uma pequena parte dele, pela Alemanha. O dinheiro se destina a projetos para reflorestamento, contenção do desmatamento e apoio à população indígena.

O debate entre Berlim e Brasília sobre a proteção ambiental em terras brasileiras vem se intensificando nas últimas semanas. Em junho, Merkel expressou preocupação com as questões dos direitos humanos e do meio ambiente no Brasil. Bolsonaro reagiu acusando a Alemanha de abusar dos recursos naturais ao utilizar combustíveis fósseis para gerar energia e de já ter desmatado suas próprias florestas.

As tensões se acirraram após os dados mais recentes do Instituto nacional de Pesquisas Espaciais(Inpe) apontarem um aumento no desmatamento da Amazônia de 278% em julho, em comparação ao mesmo mês do ano anterior. Um grande aumento do desmatamento já havia sido apontado em junho, quando a devastação da floresta cresceu 88% em relação ao mesmo mês de 2018.

A divulgação desses números causou uma crise entre o Inpe e o governo brasileiro, que culminou com a demissão do presidente do instituto Ricardo Galvão. O anúncio de Schulze sobre o congelamento de verbas para o Brasil também veio após o Inpe divulgar os dados.

Repercussão na imprensa alemã

Assim como suas declarações anteriores, a fala de Bolsonaro desta quarta-feira repercutiu na imprensa alemã.

O jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) afirmou que o “presidente direitista Bolsonaro, que começou a governar no início de 2019, não quer identificar novas áreas de proteção na região amazônica e visa permitir mais desmatamento”.

O portal de internet do jornal Die Welt qualificou a declaração como um ataque a chanceler alemã, destacando que o brasileiro chamou de “senhora querida”, e destaca que a Amazônia é considerada o “pulmão verde” do mundo.

Ao mencionar a declaração de Bolsonaro, diversos veículos de imprensa alemães destacaram que a Alemanha possui 11,4 milhões de hectares de floresta, o que corresponde a 32% do território do país, e que nos últimos dez anos as áreas de floresta tiveram um leve aumento.

RC/dpa/kna/ots

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

“Bolsonaro ignora o meio ambiente e o que a ciência diz”

Entrevista com Thomas Lovejoy

Mapas ProdesTerra Brasilis / INPE

Por IHU

Conselheiro de três ex-presidentes americanos e estudioso da Amazônia desde 1965, o biólogo Thomas Lovejoy alerta para efeitos irreparáveis do desmatamento. Em entrevista, ele classifica o trabalho do Inpe de impecável.

Conselheiro ambiental dos ex-presidentes americanos Ronald ReaganBill Clinton e George W. Bush e ex-conselheiro-chefe do Banco Mundial para biodiversidade, o biólogo Thomas E. Lovejoy estuda a Amazônia desde 1965. Conhecido como o “padrinho da biodiversidade” por popularizar o termo na década de 1980, Lovejoypreocupa-se com o futuro da floresta em meio ao avanço do desmatamento.

Em fevereiro, o especialista assinou um editorial na revista científica Science Advances, ao lado do climatologista brasileiro Carlos Nobre, no qual fazem um alerta. Eles afirmam que o desmatamento na Amazônia está caminhando para o que chamam de ponto de inflexão, a partir do qual os padrões biológicos e climáticos são afetados de modo irreparável.

Em entrevista à DW Brasil, o pesquisador classifica os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento de impecáveis e sugere formas sustentáveis de usar os recursos da floresta para desenvolver a economia.

Lovejoy afirma que, assim como o líder americano, Donald Trump, o presidente JairBolsonaro está ignorando o meio ambiente e deveria ouvir cientistas experientes sobre a Amazônia.

A entrevista é de Cristian Edel Weiss, publicada por Deutsche Welle, 12-08-2019.

Eis a entrevista.

Você começou a pesquisar a Amazônia na década de 1960. O que mudou na floresta desde então?

Cheguei à Amazônia pela primeira vez em junho de 1965 e imediatamente decidi que queria fazer o meu PhD lá [pela Universidade de Yale]. Era o sonho dos biólogos. Desde então, a Amazônia passou de 3% para mais de 17% desmatada […] Passou de [uma região com] uma rodovia para dezenas de rodovias, de nenhum projeto hidrelétrico para dezenas deles, e de uma população na Amazônia inteira de cerca de 3 milhões para 30 milhões. Isso está avançando até o ponto em que o ciclo hidrológico que alimenta a floresta tropical está perto de um ponto de inflexão.

A boa notícia é que em 1965 havia um parque nacional, na Venezuela, e uma reserva indígena demarcada. Agora, no Brasil e em todos os países da Amazônia, há cerca de 25% em áreas de conservação e outros 25% de áreas indígenas demarcadas, o que é uma conquista extraordinária.

Em fevereiro, você e o climatologista Carlos Nobre publicaram um editorial no qual afirmam que desmatamento, mudança climática e queimadas contribuem para que a Amazônia alcance o que vocês chamam de ponto de inflexão, a partir do qual deixaria de existir um ecossistema de floresta tropical, afetando o regime de chuvas. Como você avalia a situação tendo em conta os dados divulgados recentemente pelo Inpe?

Acredito que Carlos e eu concordamos que o ponto de inflexão está muito próximo. Penso que o dado revelador é que tivemos secas históricas em 2005, 2010, 2015 e 2016, e essa é, na nossa opinião, a primeira oscilação para o ponto de inflexão. Então, esses são o alerta e a má notícia, mas sempre é possível restabelecer uma margem de segurança por meio do reflorestamento.

E como vocês chegaram à essa conclusão?

Nos anos 1970, o cientista brasileiro Eneas Salati demonstrou que a Amazônia produzia metade da sua própria chuva. Antes disso, o dogma era que a vegetação é simplesmente consequência do clima e não tem qualquer influência sobre ele. O que Salati foi capaz de demonstrar, numa pesquisa que quebrou paradigmas, é que, quando a umidade vem do Atlântico tropical, numa massa de ar em direção ao oeste, e derrama sua chuva perto da costa atlântica, até 75% dessa umidade volta para a atmosfera por meio da evaporação ou transpiração através das folhas. Você pode ver isso acontecendo com a umidade saindo do topo da floresta, após uma tempestade. Assim, tudo está disponível para se tornar chuva mais para o oeste. A conclusão foi que a umidade se recicla cinco ou seis vezes até chegar à parede alta dos Andes. A massa de ar sobe, esfria e libera uma enorme quantidade de chuva, que abastece os 20% de água doce do mundo, que é o sistema fluvial do Amazonas. Essa foi a base de tudo.

Desde o início, havia a pergunta óbvia de quanto desmatamento poderia causar a degradação desse ciclo. Porque quando a chuva cai, e quando não há floresta, ela escorre e não fica disponível para reciclagem. Carlos conseguiu alguém para fazer um modelo relacionado a pergunta há uns dez ou 15 anos. E a conclusão foi que provavelmente cerca de 40% a 50% [de desmatamento degradaria o ciclo natural de chuvas de modo irreversível]. Isso é muito longe de onde as coisas estavam na época e até mesmo de onde estamos agora. Mas outras coisas têm acontecido. O uso extensivo do fogo, que seca a floresta ao redor, não só destrói o que queimou, como penetra e seca a floresta. Assim, no ano seguinte, ela está mais vulnerável ao fogo. Outra coisa, é claro, é a crescente presença da mudança climática. A discussão que Carlos e eu tivemos e que levou ao artigo na Science Advances é que os fatores estão agindo juntos numa espécie de energia negativa. E quando você olha para essas secas históricas, é muito difícil não concluir que essas são as primeiras oscilações do que poderia ser um ponto de inflexão na região amazônica.

O que poderia ser feito para melhorar a economia na região sem avançar para a floresta?

A maioria do que está acontecendo dá algum ganho imediato, mas o custo no longo prazo é enorme. Então, a pergunta é: quais são as alternativas? E uma das mais claras é a aquacultura, porque nos rios amazônicos há uma série de grandes espécies de peixes que dependem das florestas de várzea durante os meses em que os rios estão altos. A floresta é inundada e tem cadeias alimentares curtas. Os peixes vegetarianos com cadeias curtas como esta são altamente desejáveis. Há um enorme potencial na aquacultura para que não haja apenas a extração florestal, mas que se esteja usando algum recurso da biodiversidade nativa para construir retorno econômico.

Outra coisa realmente importante é como criar cidades relativamente sustentáveis na AmazôniaManaus tem uma espécie de benefício em ter um tipo de zona livre de impostos à sua volta. Ao visitá-la, ouço: “À medida que a produção econômica de Manaus aumenta, o desmatamento diminui”. E essa é uma relação real. Mas a questão é: qual é essa atividade econômica? É proveniente principalmente de fábricas de montagem, que proporcionam oportunidades de emprego montando coisas, geralmente, com materiais que não saem da floresta. Mas há possibilidades novas e interessantes em torno de cidades sustentáveis. Há um forte potencial de ecoturismo, que também cria mercados para artesanato. E artesanato pode ser realmente maravilhoso e não muito barato. Juntando as duas coisas, todas elas se tornam únicas para o lugar em particular que os produz. A maior oportunidade de todas gira em torno de estudar a biodiversidade da Amazônia e tentar descobrir o seu potencial para criar retorno e benefício econômico.

O que pode ser feito a partir da biodiversidade?

Um exemplo interessante seria estudar as formigas cortadeiras. O que é elas fazem de bom é levar pedaços de folhas para o subsolo e usá-los como matéria orgânica para uma fazenda de fungos, que é a fonte da dieta delas. Assim, o que poderia ser feito, e ainda não foi, é estudar as formigas cortadeiras e descobrir quais árvores elas não atacam, pois elas têm fungicida natural, e obviamente as formigas não querem fungicida em sua fazenda de fungos. Assim poderia haver um mercado enorme para fungicidas naturais, que podem ser revelados por esse tipo de pesquisa. Então, se você começar a pensar sobre a biodiversidade na Amazônia, todas essas espécies que representam soluções para problemas biológicos são apenas um potencial para desenvolver o retorno econômico. A chave para o futuro é abraçar essa diversidade biológica na Amazônia. E fazer pesquisa e parceria com a indústria para tentar descobrir novos potenciais.

Você foi conselheiro nos governos de Clinton, Reagan e George W. Bush. Agora, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro se orgulha de ser chamado de “Trump dos Trópicos”. Que paralelo você traça entre os EUA e o Brasil quanto à atual política ambiental?

Não há dúvida de que ambos [Bolsonaro e Trump] estão ignorando o meio ambiente. Eles estão ignorando o que a ciência diz sobre o meio ambiente. Acho tudo isso muito estranho porque, no fim das contas, a raiz da palavra ciência é conhecer. Sem dúvida, isso é muito infeliz, e esperemos que seja um fenômeno de curto prazo.

Que conselho você daria a Bolsonaro na área ambiental?

Ele deveria juntar alguns cientistas experientes para pensar sobre o conteúdo que acabamos de falar e identificar oportunidades.

Bolsonaro criticou os dados divulgados recentemente pelo Inpe, afirmando que estes não condizem com a verdade e prejudicam a imagem do Brasil. Como você vê isso?

Permita-me colocar desta forma: os dados do Inpesempre estiveram entre os melhores do mundo e acima de reprovação. E é um erro dele [Bolsonaro] pensar o contrário.

Os dados e a metodologia do Inpe são realmente confiáveis?

Sim, eles têm uma longa história fazendo um trabalho impecável.

Há uma forma de medir o desmatamento de maneira mais assertiva?

sensoriamento remoto melhora ao longo do tempo. Por isso, provavelmente há formas de obter dados mais precisos. Mas falo apenas sobre pontos decimais aqui, e não sobre o conjunto de dados gerais. Tenho certeza de que a capacidade de sensoriamento remoto em outras partes do mundo trará resultados semelhantes [aos do Inpe].

Bolsonaro tem entrado em atrito com países desenvolvidos devido à política ambiental. O que essas nações podem fazer para impedir o desmatamento na Amazônia?

Minha esperança é de que tudo possa ser melhorado por meio do bom diálogo entre nações. A questão realmente infeliz é que após sediar a Cúpula da Terra (Eco92), em 1992, o Brasil foi líder global em meio ambiente por anos, isso quase se tornou parte da marca do Brasil. Espero que tanto o Brasil quanto os Estados Unidos retomem logo esse tipo de liderança.

(EcoDebate, 14/08/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

Embaixada brasileira em Londres amanhece com pichações contra o ecocídio promovido pelo governo Bolsonaro

Há no interior do governo federal comandado pelo presidente Jair Bolsonaro uma espécie de transe negacionista no que tange à devastação em curso na Amazônia como resultado da retirada de todas as formas de comando e controle que impediam a ação livre de todo tipo de saqueador das riquezas naturais ali existentes.

O problema é que esse transe não resolve o problema de que o resto do mundo, especialmente aquela parte para a qual o Brasil pensa em vender suas principais commodities agrícolas, principalmente na Europa. No velho continente predomina uma profunda aversão ao governo Bolsonaro que, por extensão, está atingindo os interesses políticos e comerciais do Brasil.

Um exemplo da rejeição explícita ao atual estado de “laissez faire, laissez aller, laissez passer, le monde va de lui-même, que significa literalmente deixai fazer, deixai ir, deixai passar, o mundo vai por si mesmo“, e que está retomando níveis de desmatamento características da década de 1970.

É por isso que nesta manhã de 3a. feira (13/08), a entrada da embaixada brasileira em Londres amanheceu completamente pichada com mensagens pró-ambiente e contra o governo Bolsonaro (ver fotos vindas da página do jornalista Jamil Chade na rede social Twitter).

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Pichações na entrada da embaixada brasileira demandam o fim do ecocídio no Brasil.
E que ninguém se engane, o que aconteceu hoje em Londres deverá se repetir pela Europa afora, com inevitáveis consequências para os interesses brasileiros.
Esta situação torna ainda mais interessante a anunciada visita que o improbo Ricardo Salles promete fazer ao velho continente para esclarecer a situação do desmatamento na Amazônia. Imaginem o que farão os ambientalistas quando a presença dele for anunciada em cada país europeu.

Dados científicos e não balela de Twitter: a explosão do desmatamento na Amazônia é real

Ricardo-Galvão-Abril‘Nós usamos ciência, não balela de Twitter’, disse ex-diretor do Inpe ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles em debate na GloboNews.

O físico Ricardo Galvão, diretor exonerado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aproveitou de um espaço televisivo na GloboNews para expor a incapacidade argumentativa do ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, e, por extensão, do presidente Jair Bolsonaro na discussão acerca da validade dos dados científicos que mostram uma explosão do desmatamento na Amazônia (ver vídeo abaixo).

Um dos muitos pontos altos das posições oferecidas por Ricardo Galvão foi demonstrar que a capacidade e correção científica dos pesquisadores do Inpe possui lastro em um longa experiência com a análise dos dados produzidos por satélites desde a década de 1970. Nesse sentido, Ricardo Galvão apontou para o caráter simplesmente ideológico dos ataques que foram desferidos contra os estudos do Inpe pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo próprio Ricardo Salles.

Pressionado pelos argumentos sólidos de um cientista de renome internacional como Ricardo Galvão, sobrou para Ricardo Salles a prática de atitudes deselegantes e a exposição de um sorriso amarelo toda vez que seus argumentos falaciosos eram destroçados de forma clara e calma por um oponente que se mostrou não apenas superior intelectualmente, mas também no quesito defesa dos interesses nacionais. 

Em relação ao aspecto da defesa dos interesses nacionais sobrou para Ricardo Salles a inglória tarefa de acusar Ricardo Galvão de ser um nacionalista ferrenho que teria ojeriza ao que vem de fora.  Ao fazer isso, Ricardo Salles não só demonstrou o caráter entreguista das suas ações, mas também foi de encontro ao amplo reconhecimento internacional que a alta expertise científica dos pesquisadores do Inpe desfruta em toda a comunidade cientifica internacional.

Por último, ressalto que o professor Ricardo Galvão mostrou nesse debate como deve ser a postura dos cientistas brasileiros ao se defrontarem com a enxurrada de fake news que está sendo produzida para desvalorizar o conhecimento científico com o objetivo de fazer prevalecer balelas produzidas e disseminadas por robôs da internet.

Jair Bolsonaro comete grave erro ao desprezar decisão do governo alemão em relação à Amazônia

bolso deforestJair Bolsonaro comete grave erro político ao desdenhar da posição alemã em suspender financiamento de projetos de preservação por causa da alta do desmatamento na Amazônia. Esse erro terá consequências políticas e econômicas.

Em seu padrão normal de completa despreocupação com as sinalizações de governos que não sejam o de Donald Trump, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro,  desdenhou publicamente da decisão do governo da Alemanha de suspender o aporte de investimentos em projetos de preservação da Amazônia.

Segundo o que relata o jornalista Bernardo Caram em matéria publicada pelo jornal “Folha de São Paulo”, Jair Bolsonaro teria sugerido que “a Alemanha faça bom uso dos recursos que seriam destinados à Amazônia“, pois segundo ele “o Brasil não precisa da verba“. 

O presidente Jair Bolsonaro pode não saber, mas seus aliados políticos do latifúndio agro-exportador já devem saber que essas declarações são politicamente desastrosas e resultarão em consequências econômicas consideráveis para a agricultura brasileira.

É que qualquer principiante em relações políticas internacionais sabe que a decisão do governo alemão foi apenas uma sinalização de medidas mais drásticas que deverão ser adotadas caso o governo Bolsonaro continue incentivando o avanço da franja de desmatamento na Amazônia.

Um dos principais alvos dos países europeus deverá ser o acordo comercial que acaba de ser firmado entre o Mercosul e a União Europeia após longos vinte anos de negociação. É que este acordo possui uma série de cláusulas ambientais, incluindo o combate às mudanças climáticas. Como o desmatamento na Amazônia é um dos principais gatilhos das mudanças climáticas, o mais provável é que o acordo comercial seja torpedeado pelos congressos nacionais de países como a Alemanha e a França, onde já existe uma séria oposição ao mesmo justamente por causa do comportamento do presidente Jair Bolsonaro.

O problema é que o presidente Jair Bolsonaro e alguns dos seus principais ministros como Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) estão muito mais propensos a apostar no alinhamento com o governo dos EUA, curiosamente um país com o qual a balança comercial brasileira perde muito mais do que ganha. Sobrará para a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, tentar acalmar seus colegas da bancada ruralista que certamente já sabem que o pior certamente virá.

Mas que fique claro: cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde), o desprezo de Jair Bolsonaro em relação à decisão do governo alemão vai custar muito caro ao Brasil. A ver!

Alemanha decide suspender envio de recursos por causa do desmatamento explosivo na Amazônia

bolso deforestA decisão do governo alemão de suspender repasses financeiros para o  Fundo Amazônia por causa da alta do desmatamento é um indicativo das medidas punitivas que estão por vir contra o agronegócio brasileiro.

O jornal “Der Tagsspiegel” que circula a partir de Berlim, capital da Alemanha, informou em artigo que o governo alemão, por causa das taxas explosivas de desmatamento que estão ocorrendo na Amazônia brasileira, decidiu reter (ou melhor suspender) o repasse de algo em torno de R$ 150 milhões para ” para a proteção da floresta e da biodiversidade”.

alemanha fundo

Segundo informou o “Der Tagsspiegel, o governo alemão também está analisando a continuidade da sua participação no Fundo Amazônia em função do que se percebe ser uma política deliberada pró-desmatamento do governo Bolsonaro.

Antes que os defensores do desmatamento livre, geral e irrestrito celebrem a chance de colocar ainda mais árvores abaixo nas florestas tropicais localizadas no Brasil, é importante notar que a suspensão do repasse dos recursos do Fundo Amazônia são apenas um indicativo da posição política que o governo alemão (conservador e de direita é preciso que se frise) está adotando em relação ao desmatamento desenfreado da Amazônia brasileira. E essa posição política dentro da postura normalmente pragmática dos alemães é um sinal de que brevemente ocorrerão consequências econômicas para o Brasil, as quais deverão atingir a habilidade do latifúndio agro-exportador brasileiro (a.k.a agronegócio) posicionar seus produtos na Alemanha e, muito possivelmente, em toda a União Europeia.

Além disso, se o governo ainda comandado por Angela Merkel, que como eu disse é de direita e conservador, está dando essa sinalização em termos das relações políticas e comerciais com o Brasil, imaginem o que farão os membros do Partido Verde que tiveram votações expressivas tanto para o parlamento alemão como para o Europeu. Na prática, o que está se vendo é um alinhamento raro entre partidos que ocupam extremos da política alemã e europeia em vista do que está sendo permitido pelo governo Bolsonaro e seus ministros anti-ambiente que foram estrategicamente colocados nos ministérios da Agricultura, Meio Ambiente, Relações Exteriores e Ciência e Tecnologia.

A verdade é que toda as manifestações estapafúrdias do presidente Jair Bolsonaro, incluindo a referente à quantidade de vezes que devemos defecar para proteger o meio ambiente, podem até servir para manter a base eleitoral que o elegeu coesa. Mas isto, por outro lado, começa a ter repercussões totalmente negativas para o Brasil em uma área que é estratégica neste momento para a obtenção de divisas internacionais que é a exportação de commodities agrícolas.

Esta posição do governo alemão deverá tornar ainda mais interessante a prometida “viagem de esclarecimentos” que o improbo Ricardo Salles deverá fazer à Europa para tentar mudar a péssima imagem que o Brasil tem por lá neste momento.  Mas é melhor ele se preparar bem para “vender o seu peixe”, pois fora do Brasil a imprensa acaba fazendo aquelas perguntas que por aqui raramente são feitas. E, pior, não se perdoa tão facilmente o papo “a la Rolando Lero”  do qual o anti-ministro do Meio Ambiente é claramente um adepto.

Por último, a posição alemã é uma corroboração óbvia da confiança existente internacionalmente nos dados de desmatamento gerados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).  E isto reforça a noção de que foi um verdadeiro tiro no pé a demissão do físico Ricardo Galvão do cargo de diretor da instituição.  Aliás, essa decisão alemã é apenas a primeira consequência onerosa dessa decisão autoritária e que atenta contra a liberdade e autonomia científica no Brasil.

Co-presidente do Grupo 2 do IPCC esculacha políticas pró-desmatamento do governo Bolsonaro

portnerClimatologista alemão Hans-Otto Pörtner declarou que políticas pró-desmatamento do governo Bolsonaro vão no sentido contrário das recomendações do último relatório do IPCC

As dores de cabeça do governo Bolsonaro em função das críticas recebidas internamente em função do avanço explosivo das taxas de desmatamento na Amazônia brasileira. É que perguntado em coletiva de imprensa sobre o que significam as novas políticas de permissão explícita do avanço da franja de desmatamento nas florestais tropicais brasileiras, o climatologista alemão Hans-O. Pörtner, vice-presidente do Grupo de Trabalho do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), foi taxativo ao dizer que as novas políticas brasileiras simplesmente representam o oposto de tudo o que foi recomendado no relatório que o painel acaba de publicar (ver vídeo abaixo).

 

Como o professor Hans-O. Pörtner não pode ser demitido pelo presidente Jair Bolsonaro fica ainda mais óbvio a inutilidade da demissão do físico Ricardo Galvão do posto de diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Na verdade, o que essa manifestação de um dos mais importantes autoridades mundiais do campo das mudanças climáticas deixa claro é que a demissão de Ricardo Galvão aumentou exponencialmente a má vontade da comunidade científica mundial com o governo Bolsonaro.

E isso terá consequências políticas e econômicas, pois o que pesquisadores como Hans-O Pörtner pensam e falam acabam tendo um peso significativo no plano das agências e acordos multilaterais.  Enquanto isso, o anti-ministro do Meio Ambiente,  o improbo Ricardo Salles, anuncia que irá à Europa para tentar dar uma aliviada na péssima imagem que o Brasil tem neste momento por lá.  Mais um caso de dinheiro público que será desperdiçado.

Para fugir de suas responsabilidades na devastação da Amazônia, o improbo Ricardo Salles ataca a Noruega e o ex-diretor do INPE

mapa desmatamento

O ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, esteve hoje no Senado Federal para oferecer suas explicações sobre o caos ambiental em que o Brasil está imerso sob sua batuta. Entretanto, usando o melhor estilo “Chacrinha” de confundir e não explicar, ele tentou sair da defensiva atacando a Noruega e o ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o físico Ricardo Galvão.

ricardo salles improbo

Segundo o que informou o site UOL em matéria assinada pelo jornalista Hanrrikson de Andrade, Salles tentou sair das cordas atacando a Noruega por sua suposta hipocrisia em torno de questões ambientais em função do país nórdico explorar petróleo no mar do Ártico e caçar baleias. Já para Ricardo Galvão sobrou a acusação de que ele teria sido exonerado por ter colocado “lenha no fogo”.

A crítica à Noruega é particularmente interessante, na medida em que o país é o principal financiador do Fundo Amazônia que até recentemente apoiava projetos de desenvolvimento sustentável e proteção ambiental na região amazônica do Brasil. Até parece que Ricardo Salles sabe que os noruegueses estão para suspender definitivamente o aporte bilionário que vinham realizando, já que a nova política do governo brasileiro é escancarar as portas do desmatamento e não o contrário.

Em relação ao físico Ricardo Galvão a acusação de que ele teria colocado lenha no fogo beira o risível, na medida em que o ex-diretor do Inpe apenas defendeu a instituição que dirigia dos ataques virulentos desferidos pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo próprio Ricardo Salles.

A verdade é que a tática “Chacrinha” pode até ser suficiente para quebrar o galho no Senado Federal, mas dificilmente servirá para aplacar as pesadas críticas que estão sendo desferidas mundialmente contra o Brasil por causa do avanço desenfreado do desmatamento na Amazônia.  E tampouco esse tipo de atividade diversionista protegerá o Brasil de boicotes bem maiores do que aquele que já está ocorrendo na Suécia por meio da cadeia Paradiset. 

O fato inescapável é que se o governo brasileiro está repleto de negacionistas das mudanças climáticas, incluindo até o novo diretor do Inpe, o coronel aviador Darcton Policarpo Damião, boa parte dos governos mundiais pensa o contrário. E como a destruição da Amazônia certamente acelerará as mudanças climáticas que estão ocorrendo na Terra, a postura que será adotada não será de tolerância.  Gostem disso ou não, Jair Bolsonaro e Ricardo Salles.