As precárias condições de trabalho dos pesquisadores aumentam a desigualdade de gênero, alertaram eles durante o Fórum. Crédito da imagem: CNDH México.
Por Cecilia Rosen
[CIDADE DO MÉXICO] Por que um país como o México deve aumentar o número de pesquisadores, se eles não podem oferecer-lhes um bom emprego após a conclusão dos estudos? Como garantir que o trabalho dos pesquisadores esteja no centro das políticas de ciência, tecnologia e inovação na América Latina? Quais mecanismos e estratégias podem garantir melhores condições de trabalho para as gerações mais jovens?
Essas foram algumas das questões levantadas durante o Primeiro Fórum Latino-Americano de Trabalhadores Científicos, realizado na semana passada (28 de agosto) nesta cidade.
O evento ocorreu na Câmara dos Deputados deste país, com a assistência de legisladores, professores universitários, representantes sindicais e cientistas interessados em discutir as condições que afetam o trabalho de pesquisa na região e que impedem os países de se posicionarem como poderes científicos .
Algumas das questões mais difíceis para as políticas públicas sobre o assunto foram levantadas na mesa sobre precariedade de jovens cientistas, onde foi solicitado a resolver urgentemente odéficit de empregoenfrentado pelos pesquisadores recém-formados hoje.
Segundo dados de 2018 da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE ), o México é o primeiro país da América Latina e o sexto do mundo com a maior exportação de migração altamente qualificada. Grande parte da chamada “fuga de cérebros” está ligada à falta de condições de trabalho adequadas para jovens pesquisadores. O México é seguido pela Colômbia, Cuba, Jamaica e Brasil no ranking dos países com maior perda de pesquisadores.
Embora a formação de novos pesquisadores tenha sido uma prioridade para diferentes instituições científicas da América Latina, a inserção laboral de novos médicos é um problema cada vez mais sério. No México, por exemplo, entre 4.000 e 6.000 médicos são treinados por ano – de acordo com os números mencionados no evento – e a principal universidade do país, a Universidade Nacional Autônoma do México, gera desde 2000 apenas 500 novas vagas para pesquisadores.
A definição de um jovem pesquisador está em questão, concordaram os oradores, uma vez que a idade de entrada no mercado de trabalho em ótimas condições está aumentando cada vez mais na ausência de oportunidades para todos.
“Uma das contradições do sistema é que aqueles que são chamados de jovens têm cerca de 40 anos e hoje não tem um emprego estável, não têm condições decentes de trabalho; não têm um emprego em que os direitos sejam totalmente respeitados ”, afirmou Adriana Gómez, membro da Federação Latino-Americana de Trabalhadores Científicos e pesquisadora do Centro de Estudos Antropológicos do Colégio de Michoacán, no México.
Especialistas discutiram o emprego precário de jovens cientistas. Crédito: CNDH México.
Embora o emprego precário de mão de obra qualificada seja um fenômeno global que se acentuou nos últimos 15 anos, diz Gómez, no México essa questão permaneceu invisível para a maioria das instituições e autoridades do setor.
No México, “alguns mecanismos foram criados como paliativos, [incluindo coordenadores de pesquisa temporários e maior apoio a bolsas de pós-doutorado], mas como não é uma política substantiva, bem apoiada e planejada, articulada com planos de desenvolvimento, apenas levou a maior precarização ”, ele acrescentou como parte de seu diagnóstico.
“O emprego precário de cientistas vai muito além do salário: tem a ver com condições de bem-estar, estabilidade, um bom ambiente de trabalho que permita que seja produtivo e contribua para o desenvolvimento da ciência”, disse Gomez.
Falando da precariedade na América Latina, Marcelo Magnasco, representante da Federação de Professores Universitários da Argentina, disse que uma das deficiências está na falta de contratos coletivos que garantam o cumprimento dos direitos trabalhistas.
O sistema universitário latino-americano quase não possui acordos de negociação coletiva que garantam a estabilidade no emprego dos professores universitários. E os trabalhadores científicos ligados à universidade têm ainda menos direitos; muitas vezes eles assinam contratos de 3 ou 6 meses ”, ele ilustrou.
Magnasco disse ainda que em muitos países o trabalho do pesquisador é considerado um hobby e não um emprego. “O apoio científico é baseado em bolsas de estudo, um trabalho precário, porque esse mecanismo é uma espécie de presente”, disse ele.
Ele disse que, no México, por exemplo, o trabalho deve ser realizado em uma estrutura reguladora em que o Congresso, universidades e pesquisadores participam, a fim de garantir a estabilidade no emprego desse setor.
A última intervenção do evento ficou a cargo de Edgar Vargas, membro da Associação Nacional de Estudantes de Pós-Graduação do México. O aluno disse que esta organização está pensando em formar a “Academia Mexicana de Cientistas Precários”, em resposta à falta de inclusão de vozes mais jovens nas instituições acadêmicas tradicionais e em chamar a atenção para a seriedade do problema.
“O resto da sociedade está pedindo uma renovação do sistema científico acadêmico. Os cidadãos confiam nos cientistas, mas essa confiança não é eterna ou livre ”, acrescentou.
O conceito de “Antropoceno” enfatiza o papel do ser humano na transformação do mundo biofísico e na origem dos problemas ambientais globais. No entanto, no caso latino-americano, o conceito parece limitado, por ignorar o papel central das relações de poder e das desigualdades sociais. Seria o conceito alternativo de “Capitaloceno” realmente superior?
Por Astrid Ulloa
Os discursos atuais sobre o que se chama de Antropoceno sublinham o papel que os seres humanos desempenham na transformação histórica do mundo biofísico e na crise ambiental global, gerando assim uma nova era geológica. Há vários debates sobre o início dessa era: ela teria se iniciado com a presença humana no planeta, com a conquista das Américas a partir do século 15, com a industrialização no século 19, ou somente em meados do século 20? A própria noção de Antropoceno vem provocando discussões em torno dos problemas ambientais em escala global. Em consequência disso, ocorreu uma mudança nas ciências humanas e sociais, bem como uma reformulação de seus fundamentos conceituais, metodológicos e políticos: a natureza tornou-se parte das análises históricas e sociais. Essa mudança permite uma incidência direta do conhecimento acadêmico nos contextos de tomada de decisões globais, nacionais ou locais relacionadas a problemas ambientais atuais, bem como aos consequentes conflitos socioambientais relativos às mudanças climáticas, à redução da biodiversidade e aos extrativismos relacionados ao consumo capitalista. Na América Latina, o debate sobre o Antropoceno não se desenvolve da mesma forma que na Europa ou nos Estados Unidos. Isso pode ser em parte explicado pelo fato de que a noção de Antropoceno está centrada em problemas globais que requerem respostas globais às custas de histórias locais de desapropriação territorial e ambiental. De fato, a noção de Antropoceno poderia ignorar as relações de poder e o caráter específico das desigualdades sociais e das transformações ambientais no contexto latino-americano. Além disso, a narrativa do Antropoceno ignora com frequência outras perspectivas culturais e sistemas de conhecimentos. Esses sistemas e perspectivas apoiam-se em relações diversas entre humanos e não-humanos, em contextos históricos particulares. Na América Latina, é necessário considerar a análise dos processos de extração a partir do período colonial até o século 21 – processos esses que aumentaram as desigualdades socioambientais, respondendo a uma dinâmica econômica particular, ou seja, à lógica do capitalismo que vem gerando transformações globais-locais.
Capitaloceno ou Antropoceno?
Diante disso, é preciso abrir um debate sobre as implicações dos conceitos de “Capitaloceno” e “Antropoceno”. O Capitaloceno surge como uma crítica da noção de Antropoceno, ao considerar que a ação humana é sempre perpassada por relações políticas e econômicas de poder e desigualdades no contexto do capitalismo global. O Capitaloceno ressalta, portanto, como as valorizações econômicas capitalistas de apropriação da natureza e de territórios, e não apenas as ações humanas diretas, são a causa das transformações ambientais. Não obstante, existem também diferentes aproximações ao conceito do Antropoceno que têm origem na América Latina. Algumas perspectivas consideram que o Antropoceno permite fazer um diagnóstico crítico dos efeitos do desenvolvimento e do capitalismo. Outros o veem como uma oportunidade política de repensar as relações sociais a fim de construir novas relações com o ambiente. Especialmente o manifesto Antropoceno en Chile. Hacia un nuevo pacto de convivencia, assinado em 2018 por acadêmicos e ativistas chilenos e de outros lugares do mundo, oferece propostas críticas para repensar os contextos sociais, políticos e ambientais tendo em vista uma nova constituição para o planeta. Esta implica um “pacto de convivência” baseado em diversos princípios. Trata-se de uma proposta de vida comum, reconhecendo a existência de todas as espécies e sua diversidade, bem como de seus modos de viver, pensar e atuar em contextos situados e localizados. Também é um chamado para criar novas possibilidades de ser e de futuros mediante a reorganização da vida coletiva, dos bens comuns e das políticas públicas baseadas na justiça socioambiental, transdisciplinar, na educação, na arte e na espiritualidade. Esse manifesto quer superar os conflitos socioambientais atuais criando um mundo diferente. Os debates tanto em torno do Antropoceno como do Capitaloceno são uma oportunidade política para repensar a relação do ser humano com a natureza. Eles também permitem abrir diferentes discussões e convocar pessoas de distintas trajetórias, culturas e perspectivas a participar da construção de novas noções e práticas no que diz respeito à natureza, ao Estado, aos direitos de seres humanos e não-humanos. Além disso, eles permitem propor reconfigurações territoriais, ambientais e culturais que acarretem propostas alternativas aos extrativismos e sua relação com os territórios globais-locais, reformulem as relações natureza/cultura e gerem uma mudança profunda nas atuais relações do ser humano com a natureza. Ora, discursos como os mencionados acima exigem buscar opções tanto individuais como coletivas para repensar o capitalismo e inclusive retomar os princípios filosóficos de relacionamento com o entorno, por exemplo, dos povos indígenas e das sociedades que estabelecem outro tipo de relação não baseada em processos de apropriação econômica da natureza. A partir de uma perspectiva latino-americana, no que concerne aos modelos do Antropoceno e do Capitaloceno, é preciso examinar as implicações em âmbitos territoriais, ambientais, culturais e de gênero, e na forma como se produzem conhecimentos que incidam nas políticas globais. Isso implica repensar e, de fato, decolonizar a categoria de “natureza” e a forma através da qual se produzem conhecimentos, bem como as relações de poder que perpassam a interação entre seres humanos e não-humanos a fim de repensar a questão ambiental a partir de uma perspectiva plural e diversa.
Evento acontece dia 5 de abril, a partir das 9h, na FGV em São Paulo.
O Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getulio Vargas (FGV Cepesp) em parceria com o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) apresentarão no dia 5 de abril, a partir das 9h, o relatório sobre o “Crescimento Urbano e Acesso a Oportunidades: um desafio para a América Latina”.
O estudo abordará questões de: infraestrutura; o impacto da densidade demográfica nessas regiões; a questão da informalidade habitacional; mobilidade; transporte público; mercado imobiliário e políticas metropolitanas.
Participarão do debate: Jaime Holguin, diretor representante de CAF no Brasil; Yoshiaki Nakano, diretor da Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP); Guillermo Alves, economista de investigação do CAF; Oswaldo López, economista do Brasil do CAF; Ciro Biderman, pesquisador do Cepesp e professor FGV EESP; Daniel Da Mata, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e Marcelo de Paula, coordenador Geral de Financiamentos Externos (COGEX) do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão –MP.
Uma das principais obrigações de todo pesquisador é participar de esforços que efetivamente contribuam para o avanço do conhecimento em suas respectivas áreas, o que não raramente envolve esforços coletivos, pois a ciência não é baseada apenas no eventual brilhantismo dos indivíduos. Mais importante ainda é fazer isto em momentos em que o contexto histórico conspira contra a produção de conhecimento autônomo e crítico, como no momento em que vivemos, onde a ciência está sob forte ataque em muitos países, inclusive naqueles chamados de “democráticos”.
Por isso, estou particularmente satisfeito em ter contribuído para a produção do artigo intitulado “Land system science in Latin America: challenges and perspectives” que acaba de ser publicado pela revista “Current Opinion in Environmental Sustainability” (COSUST), o qual foi o resultado deu um trabalho coletivo que reuniu 20 pesquisadores distribuídos por 6 países, sob a liderança dos colegas Sébastien Boillat (Instituto de Geografia da Universidade de Berna, Suiça) e Fabiano Scarpa (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE)
O artigo se trata de um esforço de revisão do estado da arte dos estudos sobre mudanças no uso da terra na América Latina, mas aponta alguns dos principais eixos de pesquisa que deverão tomar atenção da comunidade científica que se ocupa deste tipo de estudo nos próximos anos e décadas.
Como o artigo bem aponta, vivemos um contexto histórico em que a realidade existe no plano local está intrinsecamente conectada a processos econômicos e sociais que se passam em nível global.
Os interessados em baixar este artigo para posterior leitura podem clicar (Aqui!)
A América Latina e seus caminhos, após o giro à esquerda empreendido no começo dos anos 2000, estará em foco no próximo debate online da série Futuros do Brasil, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz. Em torno do tema Futuros da América Latina: os ciclos da esquerda e da direita, estarão reunidos os professores Carlos Eduardo Martins, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (Ifics/UFRJ) e José Maurício Domingues, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj (Iesp/Uerj), pesquisador associado do CEE-Fiocruz. O debate, realizado em parceria com o Centro de Relações Internacionais da Fiocruz (Cris/Fiocruz), será no dia 21/6/2016, das 14h às 16h. Para participar, basta conectar-se por computador, tablet ou celular, ao blog do CEE-Fiocruz (cee.fiocruz).
Investimento em políticas sociais e busca de novas relações internacionais marcaram o cenário do continente a partir dos primeiros anos deste século. É possível, no entanto, que esse ciclo tenha se concluído, com a vitória de Mauricio Macri, na Argentina, o afastamento, mesmo não definitivo, de Dilma Rousseff, as dificuldades de Rafael Correa, no Equador, e a crise aguda do chavismo na Venezuela – ainda que o Movimiento al Socialismo (MAS) e seu líder, Evo Morales, na Bolívia, Michelle Bachelet e sua coalizão de centro-esquerda, no Chile, e Tabaré Vázquez e a Frente Ampla, no Uruguai, mantenham-se no poder.
Ao mesmo tempo, o fim negociado da longa guerrilha colombiana, com o acordo de paz entre o governo do país e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), após mais de 50 anos de combates, desenha outras possibilidades. E, ainda, no México, segue o domínio da centro-direita, mas mantém-se forte a opção eleitoral de centro-esquerda.
Pode-se falar em um giro à direita ou trata-se de um momento de recuo temporário das esquerdas latino-americanas? Ou, ainda, de situação mais complexa, trazida pelo fortalecimento da democracia na região? Essas e outras questões orientarão o debate.
Qualquer pessoa pode participar, assistindo em tempo real e enviando perguntas aos palestrantes.
Conecte-se e participe!
Debates Online CEE-Fiocruz – Futuros do Brasil América Latina: os ciclos à direita e à esquerda Data: 21 de julho de 2016 Horário: 14h às 16h Transmissão pelo blog do CEE-Fiocruz:cee.fiocruz.br Informações 21 3882-9133 cee@fiocruz.br
Ecologia Política da Mineração e Conflitos Ambientais na América Latina
O curso é composto de aulas teóricas, atividades práticas e debates.
São 8 sessões presenciais, a serem complementadas com algumas atividades a distância.
Sessão 1: Ecologia Política e Justiça Ambiental;
Sessão 2: Ecologia Política da Mineração;
Sessão 3: Conflitos Ambientais e Valoração da Natureza;
Sessão 4: Coordenadas por professores do grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade/PoEMAS;
Sessão 5: Coordenadas por professores do grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade/PoEMAS;
Sessão 6: Análise de Casos (Argentina);
Sessão 7: Análise de Casos (Colômbia, Venezuela, México, Peru, Bolívia e Equador);
Sessão 8: Desenvolvimento e América Latina.
Público-alvo: alunos de graduação e pós-graduação, professores de ensino médio, servidores públicos, estudantes e representantes de movimentos sociais e organizações comunitárias com atuação e interesse na temática.
Objetivos:
Atualização e formação contínua de professores, agentes públicos e comunitários;
Exploração dos conflitos ambientais como sistemas complexos;
Análise das implicações da megamineração em distintas regiões e países da América Latina;
Identificação dos distintos critérios de valoração da natureza subjacente aos conflitos ambientais e sua importância para o debate sobre modelos de desenvolvimento;
Construir com os alunos estratégias para abordar o estudo de conflitos ambientais em distintas instâncias da educação formal e não-formal.
Período de realização: março e abril de 2016.
Dias 11/03; 18/03; 01/04 de 9h às 12h e 04/04; 15/04 e 29/04 de 9h às 16h.
Local: Auditório do Ippur/UFRJ (Prédio da Reitoria,5º andar, Ilha do Fundão)
Informações: Secretaria de Pesquisa, Documentação, Divulgação e Extensão (21) 3938-1929/ e-mail: divulgacao@ippur.ufrj.br
Inscrições:www.ippur.ufrj.br
Realização: Laboratório Estado, Trabalho, Território e Natureza (ETTERN/IPPUR)
Coordenador: Rômulo Barbosa (NIISA-UNIMONTES) Expositores: Edna Castro (NAEA – UFPA), Júlio Fierro (Grupo de Investigación en Geología Ambiental – Colômbia), Paola Bolados García (Instituto de Historia y Ciencias Sociales de la Universidad de Valparaíso, Chile), Maria Teresa Viana de Freitas Corujo (Movimento pelas Serras e Águas de Minas).
Mesa 2 – Mineração e Lutas territoriais: Argentina, Brasil (MG e ES) Arquivo Único Coordenador: Klemens Laschefski (GESTA-UFMG)
Expositores: Andréa Zhouri (GESTA-UFMG), Lorena Boratto e Marian Sola Alvarez (Universidad Nacional de General Sarmiento, Argentina), Cristiana Losekann (Organon/UFES), Patrícia Generoso (REAJA – Atingidos pelo empreendimento Minas-Rio; Articulação da Bacia do Santo Antônio); Noêmia Magalhães (Liderança vinculada a ASPRIM/atingida do empreendimento Minas-Rio/Porto do Açu). Debatedor: Bruno Milanez (PoEMAS-UFJF)
Expositores: Horácio Antunes (GEDMMA-UFMA), Marco Antonio Gandarilas (Centro de Documentación e Información Bolivia); Hugo Romero (Facultad de Ciencias Sociales e Historia, Universidad Diego Portales – Chile), Bruno Milanez (PoEMAS-UFJF), Roseane Mendes Cardoso (Movimento de Atingidos pela Mineração e da Rede Justiça nos Trilhos) e Maria Júlia Gomes Andrade (Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração)
Publicação em espanhol tem artigos de professores da Unesp
Agência FAPESP – O livro Agriculturas campesinas en Latinoamerica: propuestas y desafios, produzido no âmbito do Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, está disponível para download gratuito.
A publicação tem participação de professores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), do campus de Presidente Prudente.
Antonio Thomaz Júnior escreveu o artigo Movimiento territorial del trabajo en el campo y de la clase trabajadora, no qual aborda as mudanças que têm ocorrido no âmbito do trabalho no campo desde a década de 1980.
“O movimento de territorialização, desterritorialização e reterritorialização de trabalho no Brasil, portanto, sua própria dinâmica geográfica, nos permite compreender a realidade das famílias trabalhadoras camponesas, dos incontáveis contingentes de trabalhadores e trabalhadoras saídos dos centros urbanos, que carregam formações e conteúdos socioculturais distintos, mas que especificam o conflito de classes e criam/constroem em seu interior os territórios de resistência”, disse Thomas Júnior.
No artigo Cuando la agricultura familiar es campesina,Bernardo Mançano Fernandesdestaca a importância estratégica da agricultura camponesa para garantir a soberania alimentar e analisa como a produção teórica no setor é influenciada e influencia as políticas de desenvolvimento territorial no campo.
Enviado especial a Aracruz e Vitória (ES) — No Espírito Santo, no litoral do município de Aracruz (ES), um complexo produtor de celulose composto por latifúndios de eucaliptos, usinas de processamento de celulose e lagos para decantação polui os entornos de uma área povoada por pescadores artesanais. Ainda na região, um estaleiro é construído em ritmo acelerado para suprir as necessidades de exploração da bacia do Pré-Sal. Neste contexto, a comunidade local que vive da pesca tem tido dificuldades em manter seu modo de vida, tradicional e de baixo impacto na natureza. Na capital Vitória (ES), por sua vez, o equilíbrio ambiental é afetado pelo Porto de Tubarão, que libera pó de ferro e outros resíduos poluindo bairros próximos e a praia de Camburi, uma das mais extensas do Estado.
Comunidade de pescadores em Aracruz (ES) enfrenta impactos da extração de celulose na região. Foto: Guilherme Zocchio
Não são casos isolados ou restritos às terras capixabas. Centenas de outros episódios do tipo multiplicam-se Brasil afora, e por toda a América Latina. São grandes projetos ligados à exportação de commodities, isto é, recursos primários extraídos das reservas mineiras e/ou vegetais com baixo valor agregado, direcionados para a venda no exterior. A construção da Usina de Belo Monte, na porção sul do Pará, ou mesmo os empreendimentos de mineração e beneficiamento de ferro na porção amazônica do Maranhão entram neste mesmo conjunto de projetos patrocinados direta e indiretamente pelo Estado com alto impacto social e ambiental.
Apresentadas como medidas para desenvolver o país, tais iniciativas fazem parte de um modelo comumente chamado de “desenvolvimentista”, mas ao qual ambientalistas, acadêmicos, ativistas e populações atingidas têm chamado de outra forma: neoextrativismo.
Reunidos no “Seminário Neoextrativismo na América Latina: estratégias de resistência e de produção de alternativas”, realizado entre 7 e 9 de novembro na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) em Vitória (ES), atores sociais e políticos trouxeram casos e discutiram os impactos e as alternativas possíveis ao modelo neoextrativista, hegemônico no Brasil e em outros países da América Latina. “Quando falamos em neoextrativismo, nossa crítica é direcionada aos megaprojetos das grandes corporações, que impossibilitam, por sua vez, a vida de comunidades tradicionais”, explica Cristiana Losekann, coordenadora do Organon, programa de extensão da UFES, uma das entidades envolvidas na organização do evento.
O seminário também foi organizado pelo núcleo Política Economia Mineração Ambiente e Sociedade (PoEMAS) da Univerisade Federal de Juíz de Fora (UFJF), a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE), o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), a Justiça nos Trilhos, o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração e a Rede Brasileira de Justiça Ambiental.
Margens da praia estão assoreadas e dificultam a atuação dos pescadores. Foto: Guilherme Zocchio
No encontro, os participantes debateram o atual momento político e econômico na América Latina e alternativas. O neoextrativismo é entendido, sobretudo, como o momento de conjuntura dos países da região após o ciclo neoliberal, o período iniciado entre o final dos anos 1990 e o começo dos anos 2000, com a eleição do primeiro governo mais à esquerda na América Latina –Hugo Chavez, na Venezuela, em 1998, seguido por Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, no Brasil.
Estado forte com mercado forte.Com os governos considerados mais progressistas, o neoliberalismo passou a dar lugar a um novo paradigma na América Latina, o do neoextrativismo. “A negativa ao modelo neoliberal abriu espaço para este modelo”, explica o argentino Martin Carcione, da Multisecotrial Contra la Fractura Hidraulica (processo de extração de gás de xisto, conhecido em inglês como fraking), um dos integrantes de organizações internacionais participantes. Na avaliação dos grupos presentes, apesar das conquistas sociais alcançadas com as mudanças, o novo modelo não é necessariamente melhor que o anterior.
A principal diferença entre um e outro modelo diz respeito ao papel do Estado. Enquanto o neoliberalismo prega a liberdade dos mercados, associada a menos intervenções na economia orientadas pela noção de Estado mínimo, o neoextrativismo depende de uma relação profunda entre entidades públicas e privadas. Ao contrário do modelo neoliberal, governo e mercado teriam, na perspectiva neoextrativista, um papel complementar em que ambos se fortaleceriam mutuamente. Prova disso é o protagonismo que agentes públicos assumem de forma ativa em parcerias com empresas de setores primários da economia.
Grandes empresas brasileiras produtoras de commodities contam, por exemplo, com financiamentos públicos ou alguma participação do governo na sua totalidade de acionistas: a Petrobras, detentora do monopólio da exploração de petróleo, é controlada pelo governo federal brasileiro; a Vale, principal mineradora do país, não só originalmente era uma empresa estatal como, além disso, ainda conta com participação acionária do Estado brasileiro; o grupo JBS/Friboi, entre os maiores produtores de carne bovina no mundo, recebe volumosos empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Isso quer dizer que, de um lado, o Estado é indutor dos investimentos e, de alguma forma, orienta a produção dessas grandes empresas. Além da extração de minerais do solo e de petróleo da terra e do mar, há as produções monocultoras (celulose, soja, cana-de-açúcar, entre outras) que também contam com investimentos públicos. Por outro lado, a produção das empresas destes setores servem, por sua vez, para financiar projetos e orientar políticas públicas. Proposições como 10% dos royalties do petróleo para a educação são parte, portanto, desta nova conjuntura social e política. “Se eu quero mais investimentos na educação, tenho que extrair mais petróleo. A ideia é que os governos ajam para legitimar essas atividades como indutoras do desenvolvimento”, detalha Bruno Millanez pesquisador do núcleo PoEMAS, da UFJF.
Monocultivo de eucalipto voltado para a produção e exportação de celulose. Foto: Guilherme Zocchio
No contexto neoextrativista, os governos também trabalham no sentido de reduzir as desigualdades, através de programas sociais, sem que, no entanto, isso signifique a redistribuição de riquezas. A ideia principal é que haja um estado forte, que estimula a produção e garante um patamar de vida acima da miséria, acompanhado de um mercado forte, entendimento que é consenso entre os participantes do seminário na UFES.
Com o neoextrativismo, problemas como a capacidade de se continuar com tal modelo e sustentá-lo entram em questão. “As commodities vão para fora. Os ganhos com esta produção não se mantêm a longo prazo”, salienta Bruno Millanez, ao lembrar que o neoextrativismo depende, antes de qualquer coisa, da exploração de recursos naturais não-renováveis, com baixo valor agregado e que estão sujeitos às flutuações do mercado de capitais futuros –ou seja, às manipulações do sistema financeiro mundial.
“Temos assistido ao aumento da emergência de conflitos sociais em torno de projetos de mineração nos últimos anos. Não necessariamente a proposta de um recurso ser estatal faz com que ele seja usado em prol da maioria”, acrescenta a antropóloga Gabriela Scotto, do Núcleo de Estudos Socioambientais da Universidade Federal Fluminense (NESA/UFF).
A multiplicação de conflitos sociais e ambientais é o principal nó que uniu os integrantes do seminário na UFES. Pela América Latina, estes problemas apenas se multiplicam e entre os participantes sobravam relatos e histórias de comunidades tradicionais e outros grupos atingidos diretamente por megaprojetos.
Conflitos e alternativas Os participantes do seminário destacam que um dos principais problemas acarretados pelo neoextrativismo diz respeito à incapacidade que este modelo tem de conviver com outras formas de vida. Trata-se de uma perspectiva homogeneizadora que se sobrepõe a outras formas de trabalhar, produzir riquezas e viver não cabíveis dentro da exploração para exportação de recursos naturais. “Existe uma naturalização de que a mineração, a extração do petróleo, deva se sobrepor às populações tradicionais e à conservação da natureza”, observa Julianna Malerba, da FASE. Isto faz com que este modelo seja não só predador e destruidor da natureza, como também agudize os problemas de desigualdade social. E a questão afeta, de maneira irrestrita, todos os países latino-americanos.
“Todos somos cada vez mais extrativistas. E vemos com isso cada vez mais conflitos crescentes em todos os países da América Latina”, ressalta Marco Gandarilas, do Centro de Docmentación e Informacióin Bolivia (CEDIB). Mesmo naqueles Estados que em suas constituições nacionais reconhecem a natureza como sujeito de direitos e que assumem o “bem viver” como um dos objetivos fundamentais o modelo neoextrativista é hegemônico e acompanha uma série de consequências sociais e ambientais. No Equador, por exemplo, o presidente Rafael Correa recentemente anunciou, com apoio do Legislativo nacional, que pretende explorar as reservas de petróleo na porção amazônica de seu território. Para isso, umas das principais porções de terra visadas pelo governo equatoriano é o Parque Nacional Yasuní, patrimônio reconhecido pela Unesco e área de reserva cuja exploração de recursos não renováveis é vetada pela Constituição do país, mas que pode ser autorizada pelo Executivo com o aval do Congresso.
“Enfrentamos as mazelas de um modelo de desenvolvimento econômico dentro de governos que têm alguma identificação com a esquerda. Nossa ideia é construirmos uma outra proposta de desenvolvimento à esquerda”, afirma Cristiana Losekann, do Organon/UFES. Durante o seminário, a preocupação não foi apenas em criticar e apontas os problemas do modelo neoextrativista, mas principalmente propor alternativas, outros modelos de desenvolvimento que sejam sustentáveis, distribuam riquezas e respeitem os saberes tradicionais de comunidades quilombolas, pescadoras, ribeirinhas, agricultoras, coletoras, entre outras.
Segundo os representantes das entidades presentes na UFES, é preciso “reafirmar os modos de vida tradicionais como alternativa ao modelo neoextrativista, pós-neoliberal”. Intercalado com as mesas e discussões do encontro, era servido aos participantes lanches cuja origem vinha da produção do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) do norte do Espírito Santo, uma região em que a luta pela reforma agrária e a organização de trabalhadores da terra consegue produzir com técnicas de agroecologia e a orientação de promover a segurança alimentar. Não só lá, mas em outras áreas de assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), como o interior de Pernambuco, no nordeste brasileiro, comunidades inteiras produzem de maneira sustentável, de modo a oferecer alternativas ao modo vigente hoje no Brasil e na América Latina.
Participantes do seminário realizam cerimônia de encerramento. Foto: Adriano Monteiro
As saídas para o que está colocado hoje, porém, ainda podem ser muitas. Entre os participantes do seminário na UFES, somam-se ideias como a busca por instrumentos legais que determinem áreas livres de mineração ou de exploração petrolífera, campanhas para a preservação de territórios tradicionais e uma série de iniciativas que busquem preservar outros modos de trabalhar e de viver, fora do modelo neoextrativista. Caso contrário, defendem, o que está colocado pode cada vez mais extinguir os recursos naturais e cercear modos de vida saudáveis pelo planeta. Em um momento da conjuntura mundial em que se problemas ambientais tornam cada vez mais latentes, procurar alternativas torna-se urgente.
A moqueca é um prato tipicamente capixaba e, se os pescadores no Espírito Santo enfrentam dificuldades, é porque os impactos de empreendimentos são tantos que os peixes estão morrendo ou se afastando. E, em meio às discussões teóricas aprofundadas sobre neoextrativismo, um dos participantes sintetizou, ao final do evento, de um jeito simples e direto a emergência de tudo que estava sendo discutido: