Financial Times produz matéria exemplar sobre o Tsulama da Vale em Brumadinho

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Vale, dona da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, “não vê responsabilidade” sobre o rompimento da barragem (Washington Alves/Reuters)

Dando continuidade ao que eu considero mais um baile de jornalismo na cobertura da maioria dos veículos de mídia brasileiros, o jornal britânico Financial Times publicou um artigo assinado pelo jornalista Andres Schipani que considero correto, ponderado, mais incisivamente direto ao ponto (ver imagens abaixo).

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E qual é o direto ao ponto de que falo? Trata-se do espaço dado à fala do dirigente do Greenpeace Brasil, Nilo D´Ávila, que afirmou que “casos como este (o de Brumadinho) são crimes ambientais que devem ser investigados, punidos e reparados.

Essa fala deveria ser trivial e o lugar comum da cobertura da mídia brasileira, mas lamentavelmente não é.  Essa falta de matérias jornalísticas que ecoem o mínimo de bom senso frente a uma situação de clara irresponsabilidade dos operadores de uma das maiores mineradoras do mundo frente não apenas ao meio ambiente, a população da região de Brumadinho e, principalmente e acima de tudo, seus próprios empregados.

Note-se que o Financial Times é um veículo de mídia que mormente expressa preocupações antenadas com os interesses das grandes corporações financeiras.  Isto na prática significa que o chamado “mercado” expressa por meio da Financial Times uma preocupação de qualidade jornalística que os proprietários da mídia brasileira optam por ignorar. 

E, isso entre tantas outras coisas, explica muito bem o estado de coisas que está estabelecido no Brasil neste momento. É que se nem o que está ocorrendo em Brumadinho serve para acionar algum tipo de limite para com a barbárie, fica dificíl saber o que irá.

Financial Times faz matéria sobre soja e desmatamento no Cerrado

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A provável eleição de Jair Bolsonaro para presidir o Brasil traz entre muitas promessas o desmantelamento das estruturas de proteção ambiental visando, supostamente, abrir novos espaços para a agricultura em biomas ameaçados como o Cerrado e a Floresta Amazônica.   Mas quem pensa que isso acontecerá sem custos econômicos para o Brasil, de curto a longo prazo, está redondamente enganado, pois se confirmadas as ações para liberar o desmatamento, os produtos brasileiros tenderão a sofrer um forte boicote, especialmente na União Européia. Como os Estados Unidos da América são concorrentes e não parceiros comerciais na área de commodities agrícolas, também se engana que qualquer apoio do governo Trump a esse “liberal geral” vá amenizar os problemas que advirão da política de desmatamento livre, leve e solto.

Um sinal dessa questão é a matéria assinada pelos jornalistas Andres Schipani e Joe Leahy para o “Financial Times” onde eles abordam os problemas causados pelo avanço da fronteira da soja no bioma do Cerrado [1]. 

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A matéria está centrada na prerrogativa apontada pelos diversos atores que foram entrevistados para produzí-la de que já espaço suficiente para ampliar os plantios de soja, sem que haja a necessidade de desmatar ainda mais áreas de florestas. Essa é uma questão óbvia para quem tem um mínimo de conhecimento sobre a relação entre uso e cobertura da terra existente não apenas nas áreas cobertas por cerrado mas também na Amazônia [2].

O fato é que novos desmatamentos podem até ser feitos sob a alegação de que estão necessários para a abertura de novas áreas agrícolas, mas a verdade é que a remoção de áreas florestadas serve aos interesses daqueles que apostam na especulação financeira por meio do controle do ativo terra. Em outras palavras, desmatar é lucrativo porque permite que áreas antes ocupadas por florestas entrem na ciranda financeira.

Entretanto, um ponto que parece ser ignorado pelos dublês de latifundiários e especuladores do mercado financeiro é que já existe uma forte concordância sobre o papel central que a Amazônia e o Cerrado cumpre na regulação hídrica e climática não apenas no continente sul americano, mas em todo o planeta. Em função disso é que ninguém deva se surpreender se o Brasil passar a ser o foco de sanções econômicas e seus produtos agrícolas se tornarem alvos de barreiras cada vez maiores se, de fato, as barreiras de contenção ao avanço do desmatamento forem fragilizadas.

Só à guisa de exemplo, a Holanda foi condenada pela Corte de Haia por não atingir suas próprias metas de redução das emissões de carbono [3]. Imaginemos o que acontecerá com o Brasil se forem confirmadas as notícias de que o Ministério do Meio Ambiente será extinto e o processo de licenciamento ambiental será enviado de volta para a metade do século XX!  A questão central é que apesar de toda as eventuais resistências , o processo de responsabilização pela proteção das florestas, por causa da sua importância na regulação climática e hídrica da Terra, é um elemento chave nas decisões econômicas que estão sendo formuladas neste exato momento. Em outras palavras, quem apostar no desmatamento pode estar assinando seu próprio atestado de óbito.


[1]https://www.ft.com/content/c54abafe-ad30-11e8-8253-48106866cd8a?fbclid=IwAR3AEHf6VcNjIvS7dajtvuHYC8bnsel0ZTr4bkHLnL0fwj1xiCngnN2KgAg

[2] http://www.scielo.br/pdf/aa/v47n1/1809-4392-aa-47-01-00029.pdf

[3]  https://www.theguardian.com/environment/2018/may/28/dutch-government-appeals-against-court-ruling-over-emissions-cuts